Madeline
Suspirei, parada diante das portas fechadas da Catedral St Mônica. Eu sabia que do outro lado, o meu futuro me esperava. Alisei o tule branco bordado do meu vestido, antes de checar se estava tudo em ordem com o buquê.
- Está nervosa? - Max procurou me tranquilizar.
- Na verdade, não. Eu só quero acabar logo com isso - respondi com sinceridade.
Eu não me sentia nervosa, sabia que estava apenas cumprindo o plano que tínhamos traçado desde o início, e se possível, eu me sentia ansiosa por estar casada.
O som da marcha nupcial soou, fazendo com que eu respirasse fundo, enquanto a cerimonialista ajeitava os últimos detalhes da minha aparência antes das portas se abrirem. Meu pai me ofereceu o braço, e eu estampei meu rosto com meu melhor sorriso dando o primeiro passo em direção à minha nova vida.
O templo estava lotado, toda a corte havia se reunido para assistir aquela união, a própria rainha ocupava seu lugar de destaque, observando-me entrar com uma expressão satisfeita. Caminhei com passos firmes em direção ao altar, me sentindo extraordinária ao ser o centro de todas aquelas atenções.
Alexander me esperava, parecendo ansioso por terminar logo com aquilo, o que fez eu retardar um pouco meus passos apenas para provocá-lo. Mas meu olhar não se manteve preso em meu futuro marido por muito tempo.
Eu busquei entre aqueles que ninguém nunca parece notar a única pessoa que me interessava naquele momento. Não demorou para que meu olhar se encontrasse com o de Matteo, que permanecia em sua pose clássica, vestindo o uniforme escuro da segurança do palácio. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios, fazendo com que meu coração acelerasse pela primeira vez naquele dia.
Como eu cheguei nesse momento da minha vida, prestes a me casar com um homem, quando meu coração claramente pertencia a outro?
Talvez seja melhor voltar um pouco para descobrir.
Madeline
As luzes vibrantes e o som alto da boate que estávamos me envolvia, enquanto eu movia meu corpo no ritmo da música mantendo os olhos fechados, ciente da atenção que eu atraia com minha dança, aproveitando aquele raro momento de liberdade. Na verdade, não tão raro. Não era incomum que nosso grupo buscasse no país vizinho toda a diversão que não encontrávamos em nosso país natal.
Senti uma presença se aproximando de mim, logo antes de ser envolvida por um braço, que me puxou pela cintura, passando a se mover no mesmo ritmo que eu.
- Sei que você está se divertindo, mas eu preciso da sua ajuda agora - eu bufei ao ouvir a voz de Fred no meu ouvido.
Permitindo que ele me levasse de volta para o conjunto de sofás da área VIP que ocupavamos em um dos clubes noturnos mais exclusivos de Zurique.
- Fred, você está falando sério? - eu reclamei.
- Será rápido, eu prometo - ele garantiu, com um sorriso galanteador no rosto.
Eu suspirei, sabendo que não adiantava discutir, eu raramente conseguia negar algo a ele. Fred era bonito e tinha um charme natural, e ele gostava muito de aproveitar todas as suas características físicas que o tornavam tão atraente.
- Quem é? - Eu olhei em volta.
- Aquela ali, que tem as mechas azuis no cabelo - ele apontou para uma garota exuberante que estava no meio de um grupo de mulheres.
- Uau - eu arregalei os olhos.
- Eu sei - Freddie concordou comigo sem desviar os olhos da garota - ela é a mulher mais bonita daqui... Sem ofensas.
Eu observei os traços delicados da mulher e os olhos negros levemente puxados que contratavam bem com as mechas de cores vibrantes no seu cabelo.
- Eu vou ignorar essa ofensa dessa vez - eu o provoquei - Por que você precisa da minha ajuda? Você nunca foi o tipo tímido.
- Dois caras tentaram mais cedo e levaram um fora épico, eu não sei bem se ela não está interessada em companhia masculina e quer apenas aproveitar a noite com as amigas ou se eles foram babacas - meu amigo explicou - se for o primeiro caso, eu não quero atrapalhar, se for o segundo você me avisa e eu assumo.
Eu tracei mentalmente o que eu diria para a garota, antes de me colocar em movimento.
- Tente não parecer desesperado - eu o provoquei, lançando um olhar por sobre o ombro.
Eu caminhei com passos confiantes até onde o grupo de garotas estava reunido, elas me lançaram um olhar curioso assim que me aproximei.
- Boa noite garotas, desculpe interromper, mas... bom eu vou ser direta, eu tenho um amigo que achou você muito bonita, e estava pensando se você aceitaria tomar um drink com ele, eu sou a Maddie a propósito.
As amigas trocaram um olhar divertido entre elas, antes que a mulher por quem Fred se interessou se manifestasse.
- Esse seu amigo, por que ele não está aqui, se ele está mesmo interessado? - ela devolveu em um tom desconfiado.
- Ele viu que vocês estavam conversando e não queria interromper caso fosse alguma comemoração feminina, então pediu minha ajuda - eu expliquei.
Pela expressão no rosto delas, eu soube que estava ganhando terreno, então decidi não perder tempo.
- Vamos, você não pode negar que ele é bonito - eu apontei para o lugar onde Fred nos observava com expectativa - Um verdadeiro príncipe.
E aquilo era no sentido literal, nós todos vivíamos em um pequeno país chamado St Bartholdi que ficava entre as fronteiras da Áustria, Suíça e Itália. Além de ser bem pequena, nossa terra natal também era completamente regida pela monarquia em pleno século 21, e Fred era o terceiro na linha de sucessão ao trono, apesar de seu pai já ter deixado claro que jamais assumiria a coroa.
- Uau, você deveria ter começado me mostrando quem ele é - Ela se animou.
- Se ele é tão bom assim, por que você não está com ele? - uma de suas amigas me provocou.
- Isso é porque nós crescemos juntos e seria praticamente incesto - eu menti.
A grande verdade é que Fred e eu tínhamos uma ótima amizade com inúmeros benefícios, e eu não podia reclamar, porque apesar de não sentir nada romântico por ele, não podia negar que ele era incrível em tudo o que fazia.
Mas Johannah, ou melhor, a rainha, não poderia nem sonhar com isso, ou me trancaria no convento pelo resto da minha vida.
- Eu aceito uma bebida, vamos ver se a realidade será tão boa quanto a propaganda - a garota decidiu por fim.
- Você não vai se arrepender - Eu cantarolei, me afastando depois de fazer um sinal discreto para que Fred se aproximasse.
Eu olhei em volta procurando o restante do meu grupo, vislumbrei Phillip dançando com a Sophie em meio a multidão, David e Lyna tavam juntos no bar, e no canto, acomodado em um dos sofás da área VIP, Alexander estava sozinho.
Eu caminhei até ele, pegando dois coquetéis com um dos garçons que circulava entre as mesas.
- Você parece precisar de um drink - Eu estendi para ele uma taça com um líquido azul.
Alexander aceitou por instinto, franzindo o cenho diante da cor vibrante do conteúdo da taça.
- Isso tem cara de no mínimo ser cancerígeno, Annie - ele murmurou desconfiado enquanto eu bebericava meu coquetel sem reclamar.
Eu revirei os olhos diante daquele apelido, meu nome completo era Anna Madeline Lechner, não era um nome que eu gostava tanto, então todos apenas me chamavam de Maddie. As únicas pessoas que usavam o meu primeiro nome eram minha mãe, a rainha e Alex, que parecia se recusar a apenas usar o mesmo apelido de todos os outros. E eu já tinha desistido de reclamar daquilo.
- Você pode não ser um completo estraga prazeres? - eu supliquei, me sentando ao seu lado - por que você está aqui sozinho?
- Eu não sei como você me convenceu a fazer isso, eu não quero estar aqui.
Eu revirei os olhos diante da frase do meu amigo, Alexander era Neto de Ludwig Weisman, Duque de Keller, aquilo fazia com que o rapaz ficasse em evidência em cada uma de suas atitudes. Na verdade, com exceção de David e Lyna, todos nós pertencemos de alguma maneira à aristocracia de St Bartholdi, e a todo momento um novo escândalo envolvendo nosso grupo de amigos aparecia, para desgosto da rainha Johannah, que esperava que nós sempre fossemos exemplo para seus súditos, principalmente os mais jovens.
- Então você prefere ficar preso na corte o tempo todo?
- Eu não disse isso, apenas não me sinto à vontade aqui - Alexander explicou em meio a um suspiro resignado.
- Eu sei que é um lugar diferente para você, mas você deveria aproveitar a oportunidade, eu posso te apresentar alguma garota se você quiser - eu propus, recebendo um olhar cansado em troca - Então, vamos dançar comigo?
- Eu não vou dançar, Annie - Alexander negou.
- Nesse caso, você pode me assistir dançar então.
Eu me levantei, tomando o conteúdo da minha taça em um único gole antes de voltar para a pista de dança, o deixando para trás.
A noite foi incrível, eu aproveitei cada minuto de liberdade, sem me importar com o que os completos estranhos que me cercavam estavam pensando de mim.
Maddie
Mais tarde, estávamos todos acomodados nos sofás, descansando um pouco. Fred já tinha se despedido da sua mais nova amiga, e voltado a nossa companhia depois de sumir por um bom tempo.
- Nós deveríamos fazer isso mais vezes - Phillip suspirou bebericando seu coquetel não alcoólico, já que ele que estava dirigindo.
Normalmente nós contávamos com um motorista particular e uma pequena equipe de seguranças quando saíamos do país, principalmente na companhia de Fred, mas naquela ocasião, conseguimos despistar a todos.
- Vocês já se prepararam para o tamanho do sermão que vão receber quando voltarmos? - David perguntou despreocupado.
- Apenas nós? - eu o provoquei.
- Eu moro sozinho, ninguém pode afirmar que eu não passei a noite em casa - ele apontou.
- Meu pai pensa que vou passar a semana com a minha mãe - Lyna completou.
- Contanto que ninguém saiba que estávamos com vocês, ficaremos bem - David zombou.
Lyna e David , diferente do restante do nosso grupo, eram filhos de funcionários do palácio. De modo geral, nós sabíamos que a rainha Johannah desencorajava e até mesmo desaprovava qualquer interação desnecessária entre funcionários e os membros da corte, enfatizando que deveríamos manter nosso nível social.
O preconceito estava tão enraizado em nossa cultura, que todos achavam que aquilo era apenas o modo como as coisas deveriam ser em um mundo funcional, e todos, tanto a elite quanto os funcionários, pareciam seguir aquelas regras à risca sem se incomodar em tentar mudá-las.
Mas nosso grupo não dava a menor importância para aquela regra, nossa amizade com os dois vinha desde a infância, apesar de manter as aparências enquanto estávamos em público, sabendo que a corda sempre estoura para o lado mais fraco.
E nós não gostaríamos que nossos amigos ou seus familiares fossem prejudicados por nossa culpa.
- Eu aposto que a vossa alteza será quem tem mais chamadas perdidas - Alexander desdenhou, apontando Fred.
Nós trocamos um olhar divertido antes de cada um ir em busca do próprio aparelho celular.
- Eu aposto que a Maddie ganha - David avisou.
- Eu tenho 32 chamadas perdidas do meu pai e 25 da minha mãe - eu apontei.
- Eu tenho 15 chamadas perdidas do meu avô, e 10 mensagens de texto da minha tia... ela ameaça me esganar em todas elas - Alex declarou com desinteresse.
- Vamos lá são 13 chamadas perdidas do meu pai, 24 da minha mãe, 35 da assistente da minha tia e 37 do seu pai - Fred apontou para Lyna, que era filha do chefe de segurança do palácio.
- Ahh meu Deus, devem estar pedindo a cabeça dele por você ter sumido - Lyna ironizou.
Foi quando, para nossa surpresa, Phillip começou a listar suas chamadas perdidas.
- Eu tenho 42 chamadas perdidas dos Lechner, 15 dos Weisman, 36 dos Brandstatter, 40 da assistente da Rainha, 33 da equipe de segurança e 60 da minha irmã - ele ergueu o rosto com um pequeno sorriso - acho que ganhei.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos antes de cair em uma crise de risos.
- Meu Deus, vão pedir nossas cabeças em uma bandeja por sequestrar o príncipe - eu zombei, me levantando.
- Meu pai não me ligou, mas eu tenho certeza que ele estará me esperando em casa, torcendo para ninguém perceber que eu estava com vocês mais uma vez - Sophie ironizou.
- Eu já sei que serei esfolado vivo pela minha tia - Alexander deu de ombros - e talvez se meus pais estivessem aqui, eles mesmos fariam isso.
Os pais de Alex decidiram viver em outro país, cortando laços com a família, inclusive com o filho, que na época estava apenas com oito anos de idade. O motivo dessa atitude é um verdadeiro tabu entre todos, ninguém toca no assunto, apenas fingem que nunca aconteceu.
- Poderia ser pior, vocês poderiam ter conseguido tirar a princesinha Brenner do palácio - David gracejou, arrancando uma nova onda de risos de todos.
Nós não estávamos levando tão a sério o que fizemos, até porque não era a primeira vez, mas no fundo da minha mente entorpecida pelo álcool, eu sabia que estaria encrencada quando voltasse para casa.
- Faremos isso da próxima vez - eu propus.
Louise e Phillip ficaram órfãos ainda na adolescência, a rainha Johannah decidiu adotar os dois irmãos e criá-los como seus pupilos, tendo uma preferência especial por Louise, que acabava mais protegida até mesmo que o próprio príncipe, herdeiro do trono.
- É melhor a gente ir embora e tentar chegar antes do nascer do Sol, eu vou avisar alguém que estamos vivos - Phillip se colocou de pé.
E foi o que fizemos, Alexander, Fred e David aproveitaram para dormir um pouco durante a viagem de duas horas de volta para casa, enquanto Lyna, Sophie e eu aproveitamos para conversar.
- Eu tô falando, toda a equipe de segurança foi reforçada, mas vocês precisam ver esse novo guarda real - Lyna fofocou.
- Ahh eu já vi o cara, ele estava no palácio Ontem, parece ser um pouco mais velho que a gente, mas é bem mais novo que os outros - Phillip se intrometeu na conversa.
- E ele é bonito? - Sophie quis saber.
- Bom, se ele não fosse um guarda, eu me preocuparia, mas não oferece risco nenhum pra gente - ele deu de ombros.
Se ele não fosse um guarda? Eu revirei os olhos diante daquela frase.
- Isso foi a coisa mais idiota que você já disse - eu o avisei.
- Bom, para minha sorte, ele é só um guarda - Lyna ironizou.
- Com o que aconteceu hoje, talvez meu pai decida que eu preciso de um segurança particular - Sophie sonhou.
- Com o que aconteceu hoje, é mais fácil a rainha decidir nos trancar com as irmãs da catedral St Monica - eu devolvi, recebendo um olhar chocado em troca.
- Eu posso te visitar se isso acontecer, Maddie - Phillip me lançou um rápido olhar pelo retrovisor, me arrancando uma careta.
Nós éramos amigos, e eu o tinha como um irmão mais velho, mas aquele sentimento não era recíproco, e ele tentava sempre conseguir algo comigo.
- Phillip, se não rolou nada nos seus últimos cinco anos de tentativa, eu posso te garantir que não vai rolar nunca - eu avisei - Aliás, você deveria se concentrar em encontrar uma esposa, antes que a Rainha escolha por você.
Durante todos esses anos, Phillip foi preparado para assumir o título de Marquês deixado por seu pai, mas para isso, ele teria que se casar e a rainha já estava ficando impaciente com a demora na escolha de sua esposa.
- Ela pode escolher você - ele devolveu.
- Eu? Phillip, a rainha escolheria a mãe perfeita para os futuros bebês Brenner, eu pareço com alguém que tem um pingo de instinto maternal? - eu devolvi com ambas as sobrancelhas erguidas, recebendo uma gargalhada em troca.
Os primeiros raios de sol banhavam o SUV de sete lugares que ocupavamos quando passamos pelo posto de fronteira de St Bartholdi.
- David, acorde, nós temos que descer - Lyna chamou o amigo, poucos minutos depois, quando paramos o carro o mais próximo possível da cidade para que os dois desembarcassem sem levantar suspeitas.
Phillip voltou a dirigir em silêncio, até que Sophie o quebrou.
- Você acha que estão zangados?
- Você e o Weisman têm sorte de ficar direto na casa de vocês, eu e a Maddie não teremos essa opção - ele sorriu.
Tanto Phillip quanto Fred e eu vivíamos no complexo do palácio com nossas famílias. Meu pai era o Conde de Lins e conselheiro real, e se esforçava para estar sempre disponível para a rainha, a qualquer hora.
Eu vi meus pais saírem de nossa casa assim contornamos a estrada do palácio e entramos no pátio interno estacionando o carro ali, mas antes de qualquer coisa, um guarda até então desconhecido para mim, se aproximou, abrindo a porta para que nós desembarcassemos.
Ele estendeu a mão, me ajudando a descer do veículo, ele me avaliou completamente antes que seu olhar se prendesse em meu rosto. Seus olhos de um verde pálido eram intensos e cada traço do seu rosto era bem desenhado, fazendo meu coração acelerar um pouco nos míseros segundos que mantivemos aquele contato visual enquanto ele me ajudava, e por um segundo, eu desejei levar minha mão até seu rosto para sentir a textura de sua barba bem cuidada, mas minha contemplação foi interrompida pela voz furiosa da minha mãe.
- O que em nome de Deus você está vestindo, Anna Madeline?
Aquela pergunta fez com que eu me lembrasse do curto vestido preto que contornava cada curva minha com perfeição e as botas de salto alto iam até um pouco acima dos meus joelhos.
- Isso foi comigo, eu sou a Anna Madeline - eu expliquei ao rapaz, e em algum lugar da minha mente ainda atordoada pelo álcool, aquele comentário fez sentido.
- Maddie, vá se trocar agora - meu pai ordenou.
Eu comecei a me afastar, mas antes que eu conseguisse dar mais de três passos, o rapaz nos chamou.
- Sr Lechner, eu sinto muito, mas eu recebi ordens expressas para escoltá-los imediatamente até a presença da vossa majestade - o guarda declarou com uma reverência graciosa.
Foi quando suas palavras fizeram sentido em minha mente, me fazendo arregalar os olhos ao perceber que eu iria encontrar a rainha vestida daquela maneira.
- Maddie, eu vou matar você quando voltarmos para casa - meu pai murmurou seguindo o rapaz.
Eu fechei os olhos por um segundo, tentando imaginar o quanto eu estaria encrencada depois de tudo, e algo me dizia que era muito.