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O terapeuta - Livro 1

O terapeuta - Livro 1

Autor:: Hugo Alefd
Gênero: Romance
Sob olhos atentos, passo a mão por meu peito suado e pego minha calça no chão. Mantenho- me de costas para a mulher que me encara, sentada, ofegante e provavelmente dolorida entre as pernas. Visto a calça, totalmente indiferente aos pensamentos dela que são visíveis em seu olhar. Essa é a parte boa: não preciso ouvir ou falar depois do sexo. Não tenho que me preocupar em ligar no dia seguinte ou pensar em uma possível perseguição de uma mulher obcecada. Ou elas aceitam que seja dessa forma ou caem fora para deixar a fila da lista de espera andar. Sim, eu tenho uma lista de espera com mulheres que querem ser "curadas". - Vista-se. Estarei esperando você no consultório - digo, seco. Não de modo rude, mas deixando explícita a distância quilométrica que existe entre nós dois, em questão pessoal. Ajeito meu pau ainda meio duro dentro da cueca e fecho o zíper. Pego minha camisa e olho para a deslumbrante morena sentada se cobrindo com seu vestido. Ela move os lábios como se fosse dizer algo, mas os fecha imediatamente. Os olhos meio tensos. Nina Gold é uma atriz famosa, casada com um cineasta também famoso, que veio ao meu consultório dizendo que não conseguia mais sentir prazer com sexo comum na cama, com o marido dela. Ela estava obcecada por assuntos sexuais de cunho mais elevado, como BDSM e ménage, após ler um livro sobre o assunto. Meu dever era ajudá- la a saborear um sexo normal, casual. É de se espantar o número de mulheres que tem problemas sexuais, e a terapia simples não está mais surtindo efeito em muitas delas. Mantenho o rosto inescrutável e ela abaixa os olhos, sabendo exatamente o que tem que fazer. Quando desce da poltrona na qual fizemos sexo, eu saio do cômodo. Minutos depois, enquanto ouço Eva, minha secretária, listando meus afazeres do dia, a morena sai parecendo revigorada. Escrevo rápido na ficha de acompanhamento e entrego a ela. Espero que Eva saia para dizer: - Sra. Gold, sua próxima e última consulta é daqui a três dias. Será uma consulta teórica, acho que já ensinei o bastante na prática. - Pareço frio e distante. Ela enrijece visivelmente e dá um passo à frente para pegar o cartão. Seus olhos estão meio arregalados e eu diria que com um pingo de desespero. - Dr. Graham... A gente podia negociar mais duas ou três sessões... pago o que for necessário... Aprecio sua coragem de me propor isso. Ela entrou aqui sabendo de todas as restrições e como meu consultório funciona. Nada de colher de chá. Se ela tivesse me agradado, eu teria proposto o acréscimo de mais sessões e não teria esperado ela propor. Entretanto, assim como muitas, acabou sendo um sexo entediante. - Sra. Gold, eu sou o terapeuta e decido quando termina. Posso garantir que você está apta a voltar a ter uma vida tranquila. - Não gosta do nosso sexo? - indagou. A voz soa meio ofendida e até humilhada. Eu sei que minha profissão é arriscada, afinal lido com o ser mais complexo e cheio de emoções: a mulher. Tem que ter muito jogo de cintura para conseguir driblá- las.

Capítulo 1 O terapeuta

UM MARIANNE Essa não foi uma noite legal para mim. Perdi minha amiga para o casamento, briguei com meu namorado, levei um sermão do meu pai e estou voltando para casa sozinha em um táxi, depois de ter sido madrinha de casamento dos meus melhores amigos: Candice, minha escudeira, e Leo, meu amigo de infância. Foi um casamento lindo, cheio de luzes, flores, muita comida e champanhe de primeira. Reviro os olhos ao relembrar.

Por que me sinto uma recalcada? Será que é porque eu tenho quase certeza de que para chegar ao altar precisarei passar por algo complexo como uma gincana escolar? Ainda nem posso acreditar que Ryan, meu namorado, me deixou sozinha e foi balançar o esqueleto com uma oferecida. O taxista me olha pelo retrovisor e pergunta: - Noite difícil, filha? - Vida difícil. - Resmungo e desvio o olhar para a rua iluminada, mostrando que não quero papo. Estou meio desconfortável, a cabeça dói por causa do penteado equilibrado e duro com a ajuda de muitos grampos e fixador spray. Também estou meio sufocada por causa do vestido de madrinha cor de rosa claro estilo sereia que estou usando e que, por exigência de Candice, está apertado no busto, fazendo com que eu mal consiga respirar. Ela disse que era para eu parecer peituda. Eu tenho seios normais, médios talvez, considero-os proporcionais ao meu corpo. Não preciso ficar parecendo uma atriz pornô para ser madrinha. Para completar, estou tonta de tanto champanhe e com elevado teor de açúcar no sangue por ter comido muito bolo. Um belo exemplar de madrinha pós-festa. Chego em casa, sem arrependimentos de ter impedido Ryan de vir comigo. Na verdade, saí antes, nem esperei meus pais e minha irmã, que vão passar a noite aqui comigo para ir embora amanhã cedo. Pago o táxi e volto meu olhar para o belo duplex à minha frente. Respiro fundo e fico divagando sobre Candice ter laçado um tubarão da advocacia. Era meu melhor amigo de infância e ela o afanou. Será que ela vai deixar nossa parceria no escritório de designer e arquitetura? Será que Leo imporia isso a esposa? Se ele ordenasse, ela aceitaria numa boa. Está de quatro, caída de amores por ele. Logo agora que aparecemos em um artigo de uma famosa revista que colocou a Cooper & Monroe como a mais nova emergente do mercado. Balanço a cabeça e o penteado não desarma. Olha que benção! Entro no apartamento que Candice e eu construímos, ela planejou e eu decorei. Agora que ela casou, ele é só meu. Ela aceitou vender a parte dela para mim. Minha casa. Unicamente minha. Respiro pesadamente. Com um movimento simples, jogo a carteira prateada no sofá e encaro a rosa vermelha na minha mão. Candice a tirou do buquê dela e me entregou, já que, segundo ela, eu seria incapaz de pegar o buquê. Meus lábios se curvam em um sorriso, já sinto saudades da minha amiga. Guardo a flor dentro de um livro e caminho pela sala enquanto, com movimentos desconexos, sacolejo meus pés para o sapato sair. Levanto um pouco o vestido para facilitar minha corrida até a escada. Tenho um ótimo quarto, com banheiro, closet e espelho de corpo inteiro. Uma festa para uma mulher. Foi tudo planejado para o nosso bem- estar. Vou para o closet, mas antes pego o celular e o conecto ao carregador já ligado constantemente na tomada, aperto um botão e o coloco no viva-voz para ouvir as mensagens. Com um pouco de dificuldade, consigo descer o zíper do vestido até a metade e sento em frente ao espelho no meu pequeno closet. Meu cabelo precisa passar por uma sessão de exorcismo para voltar ao normal. Malditas cabeleireiras. Começo a retirar os grampos enquanto ouço, vindo do celular no quarto, a voz de Ryan querendo saber se eu cheguei bem. Pediu para ligar assim que eu ouvisse a mensagem. Ele saiu da festa antes de mim, fez ceninha dando uma de vítima. Vai dormir sozinho hoje, como todas as outras noites. Mas também não iria adiantar se dormisse comigo. Ele sabe minha situação. Fico chateada em não poder dar aquilo que ele quer. Tento pensar que ele não me trai. Será que Ryan se masturba? Ele tem uma cara de safado... É uma pergunta que ficará sempre subentendida. Outra mensagem de Ryan, agora pedindo desculpas. Na minha mão já tem 16 grampos. Diabos. Por isso minha cabeça estava doendo tanto. As mensagens continuam. "Srta Cooper, nós adoramos seu artigo." - Essa é a voz da editora-chefe da revista na qual escrevo quinzenalmente dando ideias sobre designer de interiores. O artigo em questão é sobre como redecorar de maneira simples o quarto de uma criança que entra na adolescência. "Passe aqui na segunda-feira para conversarmos." - Ela termina, se despede e eu dou de ombros. Outro bip, outra voz. Agora é minha mãe dizendo que dormirão na casa de Leo, mas que ela vem me ver pela manhã. Eu sei que eles não vieram para meu duplex porque são grandes amigos dos pais de Leo e devem estar querendo varar a madrugada na farra da terceira idade. Termino de retirar os grampos, 23 no total, os lanço diante de mim e encaro com desânimo meus cabelos escuros e duros totalmente danificados pelos produtos. Suspiro e dispo com cuidado excessivo o vestido caríssimo que Candice me obrigara a alugar. Foi tão caro que quase dava para comprar uma TV nova de centenas de polegadas. Há uma nova mensagem, percebo que é de Candice. Ela não deveria estar na festa? Vestindo apenas lingerie, corro até a porta para escutar a voz vindo do quarto. "Mary, amiga, sei que eu devia ter falado antes, mas acabei esquecendo... (suspiro) Spa, lidar com madrinhas, sofrer pelas flores atrasadas e sentir medo de Leo desistir... você entende, tive um dia cheio. (Risos)" - Eu não estou rindo. Onde ela quer chegar? "Encontrei um trabalho para você, esse é urgente e precisará passar na frente de outros. Vá ao escritório na segunda e veja o envelope que deixei em sua mesa. Por favor, aceite. É para uma pessoa especial, alguém que me ajudou. Devo isso a ele. Agora vou desligar, Leo está saindo do banho e ele está muito gostoso. Você deve imaginar... (voz erótica, mais risos e outra voz ao fundo) . Tchau, amiga, Leo mandou um beijo." Fecho os olhos e balanço a cabeça ao ouvir a risada safada de Candice. A vadia sempre se dá bem. Respiro fundo, apanhando um roupão desbotado e vou para o banheiro. Depois do banho, caio na cama e o sono vem como uma marretada. Amanhã é domingo, Ryan provavelmente virá e não tenho como impedir. O cordão umbilical que me liga a Candice foi cortado hoje. Nem tenho como fugir de Ryan. Não tenho muitas amigas íntimas... Tereza talvez... Mas isso seria traição gravíssima contra Candice, é melhor ficar quieta. Pouco antes de sucumbir ao sono, fico pensando em por que preciso tanto fugir do meu namorado. Eu posso, sim, recebê-lo aqui, mas não quero porque tenho medo de ele querer algo mais. Eu não falei ainda, mas tenho um medinho básico. Transei com um cara, minha primeira vez não foi legal, foi quase como um estupro e ficou marcado. Virou um trauma. Por isso, o coitado do meu namorado, lindo e loiro, nunca transou comigo... Eu tenho medo de ele querer algo mais e eu não poder dar, medo de ele me classificar como frígida como o outro fez anos atrás. Vindo de Ryan, esse desprezo seria mais devastador. *** O domingo passou sem grandes problemas. Meus pais me tiraram da cama bem cedo com uma ligação e eu tive que me deslocar até a casa de Leo onde os pais dele estavam hospedados. Tomamos café juntos e, logo após o almoço, levei meus pais e minha irmã ao aeroporto. Ficou decidido que, no mês seguinte, Alice, minha irmã, viria morar comigo. Ela já tinha feito isso durante um tempo, mas teve que voltar para a Pensilvânia pois minha mãe fez uma cirurgia e precisou dela. Depois que eles foram embora, Ryan veio me ver, como previ, mas não insistiu em nada. Ele ligou antes dizendo que estava trazendo umas guloseimas. Depois de assistirmos a um filme de Matt Damon, Alguma coisa Bourne, ele foi embora. Fiquei com muita pena, pois queria ter uma relação normal com meu namorado. Candice praticamente tinha se mudado para casa de Leopold seis meses depois de tê-lo conhecido, e eu ficava de coadjuvante observando a felicidade dela por ter um homem que a amava com o qual fazia sexo constantemente, coisa que fazia questão de deixar clara. Diferente de mim, que estou fadada a carregar esse medo nas costas.

Capítulo 2 O terapeuta

Acordo na segunda-feira e fico sentada na cama fazendo um balanço de tudo que aconteceu em minha vida desde que vim embora para Nova York. Não sou daqui, na verdade, sou brasileira por parte de mãe, nasci em Minas Gerais e vim para cá aos dez anos. Meu pai é americano, da Pensilvânia, e eles ainda moram lá. Vim sozinha para cá depois que consegui uma bolsa em uma faculdade daqui.

Tenho uma linha do tempo satisfatória: entrei na faculdade, me formei com honras, encontrei uma amiga que é como minha irmã, nos juntamos em uma sociedade e construímos um escritório de consultoria, arquitetura e decoração, encontramos homens perfeitos, ela se casou e eu... fiquei parada no tempo. Meu pescoço dói quando eu viro e olho para o relógio. Vejo que marcam 8h37. Não ligo para isso, pois sou dona do meu próprio negócio. Alan que segure as pontas sem Candice e eu por lá. Resolvo ir ao escritório apenas depois do almoço. Isso me faz pensar que, nesse momento, Candice deve estar enrolada em um corpo quente, masculino e cansada da farra da noite. Pulo da cama e corro para o banheiro sentindo uma ponta de inveja de Candice. Queria também poder ter um sexo tranquilo e tal... Imagino como deve ser agradável acordar aninhada a um corpo masculino. Eu nunca dormi com Ryan ou qualquer outro homem. tarde, já com o cabelo impecável, caminho até o closet de sutiã e calçola. Sim, eu uso calçola (daquelas que parecem cueca) para trabalhar. De algodão e confortável. Não vou andar o dia todo de fio dental. Com meias de lycra em tom médio, escarpin preto salto quinze e um conjunto de terninho e saia cinza, vou até o quarto e recolho alguns utensílios necessários para jogar na bolsa. Batom, BlackBerry, carregador de celular, caneta, grampos, presilhas, maquiagens em geral. Saio correndo, voltando em seguida para pegar as chaves do carro. Minha vida até que não é nada má. Sou minha própria chefe, tenho um carro bonito e casa própria. O que mais eu poderia pedir? Um homem. - Meu inconsciente reclama. Ignoro essa voz interior. Eu tenho um homem em minha vida. Ryan é meu, pronto. O que mais eu poderia querer? Transar com Ryan. Ah claro! Reviro os olhos para mim mesma. Às vezes ninguém precisa me colocar no meu lugar ou dar sermões em mim. Eu mesma me encarrego disso. Dou uma última olhada no espelho do carro enquanto espero no semáforo. Meu escritório fica em Williamsburg, Brooklin, e eu moro no Soho. Não acho muito longe e nunca trocaria quaisquer dos dois locais por ouro algum. Seria mais fácil Candice e eu encontrarmos água em Marte do que conseguir esses lugares. E isso acontecera graças aos pais dela e a Leopold. Estaciono na minha vaga. Sim, eu tenho uma vaga, afinal sou dona de quase todo um andar desse prédio. Dividimos um andar com um escritório de contabilidade, que é de um amigo nosso. Ah! Candice também é proprietária, lógico. Saio do elevador desfilando, e dou um olá contagiante para meus funcionários. Já na minha sala, meus olhos pousam imediatamente em minha bela mesa ultramoderna de pinho e noto um envelope pardo tipo ofício. O trabalho que Candice me arrumou. Aquela safada só queria se certificar de que eu não iria para um cruzeiro pelas Bahamas, só poderia ser isso. Eu já estou atolada de trabalho até depois do apocalipse e mais um serviço de última hora seria terrível para minha viagem planejada há anos. Não é todo dia que as pessoas podem conhecer as Bahamas. Nem tanto por causa do dinheiro, mas por falta de tempo, já que trabalho até durante as férias. Sento-me e olho o envelope, lacrado. Sem muita pressa, eu o abro e dentro há apenas uma folha de papel timbrado... O que é isso? Não estou acostumada a esse tipo de pedido tão formal. Olho espantada para a insígnia no cabeçalho do papel e as inscrições logo abaixo: S. Graham Psicanalista Solto a folha sem nem mesmo saber o que dizia e digito o nome na barra de pesquisa na internet. Milhões de páginas aparecem, elevo a setinha do mouse e clico em imagens. A página se abre e me deparo com um ser viril de parar o trânsito. Pego rápido meus óculos de leitura e olho mais de perto, como aquelas velhinhas que chegam bem perto e ainda franzem o nariz para visualizar melhor. Preciso ter certeza de que aquilo não é uma criação artificial, computadorizada. Clico em "sugestões" e milhares de imagens de um homem alto, com cabelos pretos, pele bronzeada e um sorriso dilacerante me deixam hipnotizada. Em quase todas as fotos, ele exibe o mesmo sorriso safado, muito seguro de si mesmo. O cara é tão bonito que chega a ser ilegal. Não é aquela beleza bonitinha de homem riquinho bem penteado. É aquela beleza viril, com cara de homem, daqueles que fazem uma mulher tremer só de olhar. Queixo quadrado, boca hipersexy, cabelos negros e fartos. Um clichê de tão belo. Há fotos tiradas de paparazzi que mostram ele correndo no Central Park sem camisa, apenas de bermuda, óculos escuros e o cós da cueca aparecendo. Quase morro e por um motivo justo. Ele tem tatuagens! Acho que encontrei o significado personificado da palavra pecado. Isso é justo para com as mulheres, Deus? Não consigo parar de clicar em próxima página para continuar vendo. E vejo fotos dele no Red Carpet, devastador, de terno, sentado em uma poltrona perto de um divã, seminu em uma campanha de perfume, cruelmente lindo em uma propaganda de relógios. Inclusive, disfarçadamente, salvo uma ou duas fotos no computador, simplesmente não consigo resistir. Talvez coloque como papel de parede na minha área de trabalho. Chego até a página 5 e só paro quando recebo um beliscão de repreensão de mim mesma. Agora é hora de saber o que esse ser erótico faz da vida. Descubro que Sawyer Graham é terapeuta das estrelas. Por isso não o conheço, não perco meu tempo fuçando a vida das celebridades. Segundo várias matérias, ele tinha conseguido colocar no eixo mulheres que estavam à beira da loucura. Nomes de peso apareceram diante dos meus olhos, mulheres que o mundo conhece. Mas não estou interessada nelas, o cara tem uma página na Wikipédia. Isso não é tão espantoso, já que atualmente qualquer um tem uma página lá. Ele já esteve na Helen, no Jimmy e em quase todos desses talk shows populares. Nem acredito que tenho a possibilidade de trabalhar para uma celebridade. Um solteirão milionário que se dá bem à custa dos problemas das mulheres. Mas não qualquer mulher, apenas as que conseguem pagar o preço exorbitante da consulta. Minha mente para por dois segundos quando vejo o preço médio da consulta. Ele é o quê? O gênio da lâmpada? Vejo mais algumas informações, como os prêmios que o doutor ganhou como filantropo e psicanalista bem-sucedido, sua presença fiel na mídia, aparecendo sempre aparece em várias revistas. Parece que é conselheiro sexual em duas delas. Bem, sobre ele eu já sei o bastante. Desligo o computador para não ter distrações e pego o papel que Candice tinha deixado para mim. O cara precisa de uma reforma no consultório dele. Desde novos carpete e pintura à troca de persianas e móveis. É um trabalho difícil, mas, se eu aceitar, elevará o meu nome no mercado. Cifrões explodem em meus olhos igual desenho animado. É muito dinheiro em jogo. Por isso não devo recusar, principalmente porque é um amigo de Candice. Permaneço sentada na cadeira movendo-a de um lado para o outro com a haste dos óculos na boca. Pense, Marianne, pense. Em todas as minhas razões para aceitar, nenhuma fazia alusão ao dono do imóvel. Bem, eu nunca olho a aparência dos meus clientes, até porque isso é o mínimo detalhe. No caso dele não é nada mínimo. O homem é gostoso ao extremo. Aquele cara deve ter entrado duas vezes na fila da distribuição de beleza quando estava sendo criado. Eu nem sabia que existiam terapeutas novos e bonitos por aí. Se eu não aceitar trabalhar para esse homem, Candice não ficará contente... Ela com certeza já deve ter prometido a ele que eu aceitaria o serviço. Sem falar que esse deve ser o terapeuta que cuidou dela. O que eu não entendo é esse temor dentro de mim. É apenas um serviço qualquer, não é? Ir até lá, fazer um gordo orçamento e pronto. Dinheiro, Marianne, ele tem dinheiro. Dinheiro e fama. Sem titubear, pego o telefone na minha mesa e ligo para o número que está no papel. Após o terceiro toque e algumas batidas falhas do meu coração, alguém atende. Uma voz de mulher. Espero ela se identificar dizendo que se chama Eva e que aquele telefone é do consultório do Dr. Graham. - Oi, aqui é Marianne Cooper, eu recebi um pedido do Dr. Graham para um orçamento de reforma no consultório dele.

Capítulo 3 O terapeuta

- Claro, ele já me deixou a par disso. Estava esperando sua resposta. - A que horas eu posso ir dar uma olhada no lugar? - Se tiver um tempinho, nesse momento seria uma boa hora, já que ele não tem paciente agora. Penso um pouco. Abro a aba da minha agenda no computador e vejo que dá para eu arrumar uma brechinha aqui. - Estou a caminho. - Decido rápido. - Muito obrigada. Desligo o telefone e aperto um botão. - Gaby, peça a Alan para vir aqui até minha sala. Enquanto espero, guardo os óculos, visto o paletó e ele chega. - Alan, estou de saída.

Sei que você está cuidando das coisas de Candice, então deixo você tomando conta de tudo. Gaby ainda não consegue sozinha. - Vai sair? Acabou de chegar. - Ele me olha com um pouco de revolta. - Não vou dar conta de dois escritórios. Alan é assistente exclusivo de Candice, é primo dela e está no último ano da faculdade de engenharia civil, vai ser um ótimo construtor. Gosto muito dele, da sua eficiência e já tentei várias vezes roubá-lo para mim. Candice é uma egoísta. Sorte a minha que Alice está chegando para ser minha assistente. - Não precisa cuidar. Gaby vai transferir as ligações importantes para meu celular, você precisa ficar apenas... gerenciando. Até mais, meu querido. - Ando depressa até ele, dou um beijinho em seu rosto lívido, pego casaco, bolsa, chaves e saio rapidamente. Passo pela sala e aviso a Gaby que estou saindo. *** Sei que aqui é vida real, mas não deixo de pensar no que posso encontrar nessa tarde. A imagem de um grande clichê que sempre encontro em livros cobre minha mente: Um homem muito rico, gostosão, que tem sérios problemas resultantes de algum trauma e agora só consegue se relacionar de modo estranho. Por que ricos não conseguem lidar com problemas e qualquer coisa os deixa traumatizados? Uma questão para ser estudada com calma. Olha só quem fala de trauma. Bem, todo mundo tem essas vozes antipáticas soprando no ouvido, né? Broadway? Essa área de Manhattan é mesmo um bom lugar para se montar um consultório para mulheres famosas e desequilibradas. Na recepção, uma jovem me informa que o consultório do Dr. Graham fica no oitavo andar. Uma placa de metal atrás do balcão dela também informa isso. Ao chegar noto que, quase como eu, o Dr. Graham é dono de um andar inteiro daquele prédio. Eu disse quase. O ponto positivo para ele é que o espaço fica no Upper West Side, o meu é no Brooklyn. Estou diante do lugar mais luxuoso e aconchegante que já vi. O homem tem muito bom gosto. E fico me perguntando, com tantas designers famosas, por que ele foi atrás justamente da minha agência, no Brooklyn? Deve ser mesmo muito amigo de Candice. Isso tudo, toda essa riqueza e opulência, combina bastante com a imagem do homem que vi na internet. Com uma análise rápida e perspicaz, pondero mentalmente que ele não precisa de muita mudança na decoração. Mas quem sou eu para discutir com uma celebridade possivelmente birrenta? Na primeira sala, bem espaçosa com sofás modernos brancos e carpete chumbo, eu encontro uma mulher muito bonita e bem vestida sentada atrás de uma mesa de vidro. Ela sorri para mim e retribuo o sorriso. - Oi, telefonei mais cedo. Sou Marianne Cooper, a designer. - Estendo a mão e a cumprimento. - Claro, o Dr. Graham já está vindo. Sente- se e aguarde. Aceita alguma coisa, Srta. Cooper? - Uma água, por favor. Ela sai com um sorriso nos lábios, eu me sento olhando tudo ao redor e faço algumas anotações mentais. Se todo o andar for redecorado, eu terei muito serviço pela frente e no fim uma boa quantia em minha conta. O que tenho que fazer agora é me concentrar para parecer muito equilibrada quando o deslumbrante terapeuta chegar. Fico me perguntando como Candice tem esses amigos gostosos e nunca me disse nada. Traidora. Acho que chegou a hora de colocar meus nervos à prova. DOIS SAWYER A reunião foi um sucesso. Tenho vontade de dar um salto mortal de alegria. Eu consegui! Meus advogados fizeram um bom trabalho e acabo de adquirir o Mercury Hotel. Foram meses de negociações, vínhamos nos reunindo e não chegávamos a um consenso, foram meses cobiçando aquele lugar. Agora é só jogar na imprensa, com certeza meu nome vai ajudar a reerguer o lugar que tem tanto valor sentimental para mim. Cumprimento os dois herdeiros, antigos donos, com apertos de mãos. Peço licença e saio rapidamente da sala, pois preciso contar as boas novas a Jill. Ela estava ansiosa como eu. Não quis vir comigo para assinar o contrato de venda, pois não gosta dessas firulas. Saio da sala de reuniões, desço de elevador, passo pelo enorme hall de entrada e saio do, a partir de agora, meu hotel. Já está tudo combinado para que o lugar seja fechado hoje e sejam iniciadas as reformas de reabertura, com um novo nome. Ainda quero manter segredo para todos.

Lá fora, um carro preto me espera. O homem de terno ao lado dele abre a porta e eu entro. Agradeço com um rápido gesto de cabeça. Ele se afasta e eu arranco. - Jill, consegui. O hotel é oficialmente meu! - Anuncio assim que ela atende minha ligação. - Ah, Sawyer! Estou feliz por você. Mas sabe que ainda mantenho um pé atrás com essa sua decisão. - Tem que me entender, Jill. O hotel representa muito para mim e o consultório está me dando problemas. - Problemas que você criou. - Mas não se preocupe. Vou contornar esse problema e continuar com as terapias. - Poxa, Sawyer, vai virar um empresário? Logo você? - Não. Esse assunto de novo, não, já falei com você. - Tudo bem. Vem me ver? - Sim. Vou passar aí agora para almoçarmos. Mesmo Jill reprovando minha nova aquisição, estou muito feliz. Feliz demais, como nunca estive. As coisas que os homens mais adoram: mulher, bebida, farrear com amigos e um bom carro. Vou agora fazer um filtro. Disso tudo, aquilo que os homens mais amam: mulher. Eu, por exemplo, tenho o emprego que muito homem mataria para ter: sou pago, muito bem pago para comer mulheres. E não sou um garoto de programa. Sou terapeuta e uso meu pau para curar as loucuras delas. Há mais de sete anos, isso funciona perfeitamente. Nunca tive reclamações. Quero dizer, já tive. Elas reclamaram que não queriam acabar as consultas. Essa minha vida não foi planejada, aconteceu por acaso, se espalhou como câncer, a notícia correu e cada vez mais a fila de mulheres aumentava em minha porta. Em um estalar de dedos, eu estava estampando capas de revistas. Para marcar uma consulta comigo, a mulher deve passar quase por um processo seletivo. Minha secretária faz uma entrevista prévia e depois me passa os dados, com todas as informações possíveis. E aí eu decido se aceito ou não. Geralmente passo as gostosas na frente, não sou bobo. Seguindo arduamente minhas próprias regras, consegui transformar meu consultório em um dos mais famosos. Foram anos satisfatórios e muito gostosos. E o melhor de tudo, é que a maior parte da sociedade não sabe o que rola porta adentro do consultório. Às vezes fico me perguntando quantos litros de porra já gastei nesse consultório, quantas camisinhas já foram usadas e quantas lágrimas já tive que suportar. Sim, lágrimas. Algumas choram enquanto contam os problemas e outras choram por não querer se libertar do consultório. Mas jamais posso reclamar de nada, minha vida é perfeita do jeito que é. Além de tudo, sou livre, bebo quando quero, saio quando quero, sou rico, e o melhor: a cada dia traço uma mulher diferente. Algumas vezes, como duas por dia. Olhem meu sorriso largo de satisfação, enquanto analiso minha vida. Eu fiz muita coisa de procedência duvidosa até chegar onde estou, nada que tenha me deixado traumatizado, graças a Deus. Eu não tenho traumas, sou um cara tranquilo e apesar de agora ver minhas escolhas passadas como um erro, elas foram necessárias para me dar essa vida de luxo e me fazer amadurecer em relação ao ser humano. Hoje entendo melhor a mente de um ser humano - principalmente das mulheres -, não tenho vergonha ou resignação, qualquer um pode saber o que eu fui, basta saber procurar o nome certo e associar as duas pessoas. Apesar de muitos julgarem vulgar o que eu fiz, eu acho algo normal e Jill sempre me disse que se eu revelasse tudo em praça pública ajudaria a catapultar minhas novas escolhas de carreira.

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