O telefone tocou, cortando a monotonia do meu escritório, um número desconhecido que eu ignorei.
Tinha relatórios para terminar, pilhas de dívidas me sufocando.
Mas ele tocou de novo, incessantemente, até que, na quarta vez, atendi.
"Sua filha, Sofia, sofreu um acidente na piscina durante o treino. Ela está em estado grave."
O mundo parou.
Liguei para Renata, minha esposa, repetidamente, mas só caía na caixa postal.
O pânico borbulhava, insuportável.
Lembrei-me de um comentário vago sobre uma festa para o filho do ex-namorado dela.
Corri para o carro, o coração martelando, e dirigi sem rumo até o encontrei: um salão de festas luxuoso.
Entre as risadas e o champanhe, lá estava ela, radiante, com um vestido de grife e joias caras.
Renata sorria ao lado de Gustavo e do filho dele, Tiago.
Agarrei-a pelo braço, a voz rouca: "A Sofia... Ela sofreu um acidente. Está no hospital."
O sorriso dela desapareceu, substituído por irritação.
"Não pode esperar? A festa do Tiago está no auge. Não estrague tudo."
Um soco no estômago. Minha filha entre a vida e a morte, e ela preocupada com uma festa.
Desesperado, eu disse: "Ela precisa de nós, Renata."
"Vá você primeiro, eu vou depois que a festa acabar. Não deve ser nada demais, a Sofia é forte."
Ela me deu as costas, pegou outra taça de champanhe e voltou a sorrir para Tiago.
Naquele momento, algo em mim se quebrou.
Eu estava desolado. E Sofia também.
Horas depois, no hospital, o médico disse: "Perdemos a Sofia."
Caí de joelhos, quebrado.
Peguei o celular e vi a foto de Renata no meu feed: "Celebrando o futuro brilhante do meu menino!"
Meu menino.
Uma fúria cega me dominou.
Atirei o celular na parede.
Um grito animalesco irrompeu de mim, um som de dor e raiva.
Então ouvi a voz dela vindo do corredor: "Eu não acredito que o Marcelo fez isso! Ele estragou tudo! O Tiago ficou chateado. Todo aquele dinheiro que gastei com o Tiago... O Marcelo pensa que a dívida é por causa dos tratamentos médicos dele. Mal sabe ele."
A dívida.
As horas extras.
Os sacrifícios de Sofia.
Tudo por uma mentira que custou a vida da minha filha.
A dor virou gelo.
Uma semente de vingança brotou em meu peito.
O telefone tocou, o som agudo cortando a monotonia do meu escritório. Na tela, um número desconhecido. Ignorei. Tinha relatórios para terminar, prazos para cumprir, uma montanha de dívidas que não esperava por ninguém.
O telefone tocou de novo. E de novo.
Na quarta vez, atendi, a irritação vazando na minha voz.
"Alô?"
"Senhor Marcelo? Estamos ligando do Hospital Central. Sua filha, Sofia, sofreu um acidente na piscina durante o treino."
O mundo parou. As palavras do relatório à minha frente se embaralharam, perderam o sentido. Senti um frio subir pela espinha.
"Acidente? Que tipo de acidente? Ela está bem?"
A voz do outro lado era calma, profissional, mas carregada de uma urgência que me gelou o sangue.
"Ela está em estado grave, senhor. O médico precisa falar com o senhor com urgência. E com a sua esposa."
Minha esposa. Renata.
Desliguei, as mãos tremendo tanto que mal consegui segurar o celular. Disquei o número dela. A chamada foi para a caixa postal.
Tentei de novo. Caixa postal.
E de novo. Caixa postal.
O pânico começou a borbulhar no meu peito, quente e sufocante. Onde ela estava? Por que não atendia? Nós tínhamos uma filha no hospital, em estado grave, e ela não atendia o telefone.
Lembrei de um comentário vago dela na noite anterior, algo sobre uma festa, algo para o filho do ex-namorado dela, o Tiago. Uma festa de formatura. Ela tinha dito que seria algo simples, só um bolinho.
Corri para o carro, o coração martelando contra as minhas costelas. Eu dirigia sem rumo, tentando pensar, tentando lembrar o nome daquele lugar chique que ela tinha mencionado uma vez. O clube onde o ex-namorado dela, Gustavo, gostava de frequentar.
Encontrei. Um salão de festas luxuoso, com manobristas na porta e música alta vazando para a rua. Carros caros alinhados na frente. Não parecia uma festa simples. Parecia um evento de gala.
Entrei sem ser anunciado, o meu desespero em nítido contraste com o luxo e a alegria do lugar. Pessoas riam, bebiam champanhe, dançavam. E no centro de tudo, lá estava ela.
Renata.
Ela usava um vestido de grife, joias que eu nunca tinha visto, o cabelo e a maquiagem impecáveis. Ela sorria, radiante, ao lado de Gustavo e do filho dele, Tiago. Eles brindavam, celebravam o diploma do garoto. A mulher que me dizia que não tínhamos dinheiro nem para consertar o chuveiro estava no meio de uma festa que devia custar mais do que o nosso carro.
Eu a agarrei pelo braço. O sorriso dela desapareceu quando me viu, substituído por uma expressão de pura irritação.
"Marcelo? O que você está fazendo aqui? Você está me envergonhando."
"A Sofia" , eu disse, a voz rouca, sem fôlego. "Ela sofreu um acidente. Está no hospital. É grave, Renata."
Ela olhou para mim, mas o olhar dela era distante, impaciente. Ela se soltou do meu aperto, ajeitando o vestido.
"Um acidente? Não pode esperar? A festa do Tiago está no auge, é o grande momento dele. Não estrague tudo."
As palavras dela me atingiram como um soco no estômago. Não pode esperar. A nossa filha, a luz da minha vida, estava entre a vida e a morte, e ela estava preocupada em não estragar uma festa.
"Ela precisa de nós, Renata."
"Vá você primeiro, eu vou depois que a festa acabar. Não deve ser nada demais, a Sofia é forte."
Ela me deu as costas e voltou para o centro da festa, pegando outra taça de champanhe. Voltou a sorrir para Tiago, como se eu nunca tivesse estado ali.
Naquele momento, olhando para ela rindo no meio daquela opulência comprada com o nosso suor, com o sacrifício da nossa filha, algo dentro de mim se quebrou. O amor, a esperança, os quinze anos de casamento, tudo se transformou em cinzas.
Eu estava sozinho. E a minha filha também.
Dei as costas para a festa, para a minha esposa, para a vida que eu achava que tinha. E jurei a mim mesmo, no silêncio do meu carro, que eu não esperaria mais por Renata. Nunca mais.
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Cheguei ao hospital correndo, o cheiro de antisséptico invadindo minhas narinas e intensificando meu enjoo. Um médico me encontrou no corredor, seu rosto era uma máscara de compaixão profissional.
Ele não precisou dizer muito.
"Fizemos tudo o que podíamos, senhor Marcelo. A lesão foi muito grave. Eu sinto muito. Perdemos a Sofia."
Perdemos a Sofia.
A frase ecoou na minha cabeça, oca e sem sentido. Minhas pernas cederam. Eu caí de joelhos no chão frio do hospital, o som do meu próprio corpo batendo no linóleo mal registrando na minha mente. A dor era uma coisa física, uma pressão esmagadora no meu peito que me impedia de respirar.
Eu não conseguia chorar. Eu não conseguia gritar. Eu só conseguia ficar ali, no chão, um homem quebrado.
Um enfermeiro me ajudou a levantar, me guiou até uma cadeira em uma sala de espera vazia. Peguei meu celular, o polegar se movendo por hábito. O aplicativo de rede social abriu.
E lá estava.
A primeira foto no meu feed. Renata, sorrindo de orelha a orelha, com o braço em volta de Tiago. Ela erguia uma taça de champanhe. A legenda dizia: "Celebrando o futuro brilhante do meu menino! O céu é o limite! Mamãe te ama!" .
Meu menino.
Uma onda de fúria cega me dominou. A hipocrisia, o descaso, a traição. Era demais.
Eu me levantei e atirei o celular contra a parede com toda a minha força. O aparelho se espatifou, a tela se estilhaçando em mil pedaços, assim como a minha vida.
Um grito saiu da minha garganta, um som animalesco, primitivo, cheio de dor e raiva. O som de um pai que perdeu tudo.
Caí na cadeira de novo, a cabeça entre as mãos, o corpo tremendo incontrolavelmente. Foi então que ouvi a voz dela vindo do corredor. A voz de Renata.
Ela estava no telefone, falando baixo, mas a raiva em sua voz era inconfundível.
"Eu não acredito que o Marcelo fez isso! Ele veio até a festa e estragou tudo! O Tiago ficou tão chateado. Sim, Gustavo, eu sei. Eu sei... Eu vou resolver. Todo aquele dinheiro que eu gastei com o Tiago, os tratamentos, a formatura... O Marcelo pensa que a dívida é por causa dos tratamentos médicos dele. Mal sabe ele."
Eu congelei.
As palavras dela pairaram no ar, venenosas e cruéis.
A dívida. A dívida milionária que me fez trabalhar até a exaustão. A dívida que fez minha Sofia, minha doce e talentosa filha, fazer bicos como salva-vidas em vez de focar apenas no seu sonho olímpico.
Não era para os tratamentos médicos de Tiago. Era para os caprichos dele. Para a vida de luxo que Renata dava para o filho do ex-namorado.
Todo o nosso sacrifício. O meu trabalho de dezoito horas por dia. Os sonhos da minha filha. Tudo tinha sido uma mentira. Uma mentira que custou a vida da Sofia.
A dor no meu peito se transformou em algo diferente. Algo frio, duro e afiado. A tristeza deu lugar a um vazio gélido, e nesse vazio, uma semente de vingança começou a brotar.
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