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Obsessive

Obsessive

Autor:: Liliane Mira
Gênero: Aventura
Melinda Campbell passou por grandes perdas e traumas no passado. Depois que completou a maior idade fugiu sem olhar para trás. No decorrer de sua trajetória, esbarrou com um desconhecido na rua. Depois disso as coisas não foram as mesmas. Andrei Makarov um CEO de renome, acostumado a ter tudo que quer, veria vida bagunçada na ao trombar com uma desconhecida na rua, que o enfrentou como ninguém outro. Ele quis se vingar, mas tudo fugiu ao seu controle. A ânsia de se vingar virou obsessão. Será que esse sentimento pode evoluir para algo mais?

Capítulo 1 1

Melinda

- Infelizmente, todas as vagas foram preenchidas, senhorita! - O rapaz informou me dispensando. Novamente um não! Não sei vocês, mas acho horrível receber um não.

E isso não é novo, recebi muitos nãos no decorrer da minha patética existência. Há, vocês não fazem ideia! Fui rejeitada pelo meu pai, minha mãe se casou com um homem desprezível que, tenho até pavor de lembrar. Minha rainha morreu quando mais precisava dela, resumindo, nada foi fácil na minha vida, e pelo que vir não será tão cedo... Resumindo, o destino foi foda comigo, simplesmente assim. Não estou me lamentando, longe disso, apenas estou cansada, e se fosse possível gostaria de sentir paz, pelo menos uma vez.

- Agradeço pela oportunidade, senhor, tenha uma excelente tarde! - Disse saindo de cabeça erguida. É nessas horas que sinto falta da minha mãe, ela sempre sabia o que dizer. Engoli o choro e pensei na fé que ela sempre tinha. É isso, não posso perder a fé, ao contrário do que todos dizem a fé, não pode morrer em nossas vidas, loucos são aqueles que pensam dessa forma.

- Levanta a cabeça, Melinda Campbell... - Falei para mim mesma. Já que não tenho ela para me motivar, concretizo eu mesma. Sou uma mulher negra de 23 anos, independente e com muitos sonhos. Não será mais um não que vai me paralisar.

Hoje, resido aqui em Moscou, a capital da Rússia, porém vivi toda a minha infância e adolescência no Brasil. Nasci aqui, todavia quando fiz 9 anos, eu, e minha mãe fomos embora para o Brasil com o novo esposo dela. Sou a cópia exata dela. Seus olhos castanhos, seus cabelos cacheados. Mesmo pensando que ela era uma mulher linda, não vejo isso em mim. Me sinto sem graça, e sem nenhum atrativo.

Não que eu pense em me envolver com alguém. Sou virgem, e não pretendo me entregar a qualquer um, pelo contrário, desejo me envolver com o homem que abale as minhas estruturas. Que me enxergue, antes de ver o meu corpo, que olhe para mim como a mulher mais linda do mundo. Vocês podem dizer ser um absurdo, que fazer sexo casual é normal, pois todo mundo faz. Porém, direi uma coisa a vocês: não sou todo mundo. Nasci para fazer e conquistar grandes coisas, então, não negocio meus valores com ninguém. Posso até me entregar a um homem, mas aquele que o meu coração escolher. Saio dos meus devaneios, com o toque insistente do meu celular.

- Oi, Nat! - Saudei o mais, tranquila possível. Ela é uma das minhas melhores amigas. Ela, Lara e Nick. Somos inseparáveis.

- "Que voz é essa?" - Indagou séria. Nada escapa dessa doida, nem sei porque tento.

- Sair para procurar emprego, e não achei nada.

- "Oh Mel, não fique assim conseguirá algo, sei disso." - sorriu carinhosa - "Ei, amanhã quero que almoce comigo!"

- Claro, que horas nos encontramos?

- "No meu horário de almoço, sua lerda." - Avisou gargalhando.

- Eu não vou lhe dizer quem é besta, porque sei que patrocinará meu almoço, se não fosse isso... - Falei deixando em aberto.

- "Você não falará por que me ama. Agora beijo sua gostosa, meu horário de almoço acabou."

- Tchau, até amanhã! - Desliguei ainda sorrindo. Ela sempre teve esse dom, de me fazer sorrir. Conhecemo-nos há cinco anos. O dinheiro que tinha, deu apenas para algumas semanas, antes que acabasse, procurei emprego. Consegui em um bar, e foi lá que conheci Natasha que, carinhosamente, chamo de Nat. Logo de cara nos demos super bem, e ela do jeito que é observadora, percebeu que não me encaixava naquele lugar. Conectamo-nos logo de primeira.

Ela me ajudou, achou um emprego para mim em uma cafeteria, foi onde me identifiquei, e fiquei até um mês atrás. O problema foi que, o dono faliu e todos que trabalhavam para ele, foram demitidos.

Cheguei na minha pequena casa, eu digo pequena sem nenhuma brincadeira. Minha casa é um ovo, divido a sala com a cozinha, tenho um pequeno banheiro e um quarto menor ainda. Só da minha cama e uma pequena cômoda que coloco minhas roupas que não são muitas.

Entro no meu quarto, deixo minha bolsa em cima da cômoda e tiro minha roupa suada.

- Eca! Detesto ficar dessa maneira.

É falo sério. Ouço muitos falando que negro é fedido, é imundo e blá blá blá. Não concordo, claro. Sou uma mulher limpa, detesto sujeira. Mas, não é apenas isso. Na época que morei no Brasil, aprendi a me banhar três vezes ao dia, mesmo agora morando em Moscou, continuo com esse hábito, mesmo que o frio esteja de rachar, não abro mão disso. Li em algum site que os portugueses se invocavam com o hábito dos nativos de se banharem por diversas vezes ao dia, todavia, não é nada novo. Segundo documentos de mais de três mil anos, o ato de tomar banho era sagrado para os antigos egípcios, e parecia ser uma forma de purificar o espírito do indivíduo. Alguns especialistas dizem que, o ritual acabou afugentando essa civilização de várias epidemias e pragas comuns à Antiguidade. Então, resumindo: tomar banho é bom demais, e eu gosto muito.

Entrei no banheiro do jeito que vim ao mundo, embaixo da água quentinha, tomo cuidado para não molhar minha juba. Meus cabelos são cacheados e muito cheios. Eles são tipos quatro, quem conhece os tipos de cabelos sabe que estou falando. Para ser mais específica ele é tipo quatro C, me dão um trabalho, além de ser volumosos, são enormes, então para não me estressar eles ficam constantemente presos em um coque abacaxi.

Após o banho, visto uma calça de moletom e uma camisa longa masculina. Não tenho dinheiro para comprar roupas para dormir, são muito caras, então optei por camisas masculinas, são mais confortáveis. Quem não sabe Moscou faz muito frio, às vezes até neva, tem dias que passo mais com o frio. Minha casa não tem aquecedor, infelizmente.

- Bem, agora matemos quem está nos matando! - Comentei rindo. É umas das coisas que mais gosto de fazer. Comer! Sério, sou ótima nisso, apesar que nesses dias estou regrando até isso. É isso, ou morro de fome.

Fui à minha pequena cozinha e fiz ovos mexidos com bacon e uma salada para acompanhar. Quando termino, escovo os dentes, me deito na cama e vejo algumas mensagens no celular, não me demoro muito, logo desligo a luz do abajur e tento dormir. Não foi fácil, pois as preocupações me consumiam. É nessas horas que sou bombardeada, na hora do sono. Suspiro bocejando, depois de duas horas consigo dormir, que maravilha.

Acordei bem cedo. Três vezes por semana faço uma corrida matinal, então já sabem como é minha roupa né, a mais pesada que tenho no meu guarda-roupa. Não quero ficar sedentária, morei tanto tempo no Brasil, um país quente, tenho medo de cair na rotina e perder o controle do meu corpo. Corro bastante para tentar esquecer os problemas quando percebo que o cadarço do meu sapato do lado esquerdo está desamarrado.

__ Droga! Agora terei que parar. __ Declarei irritada. O fato de parar significa que o meu corpo vai se acalmar com a adrenalina, aí terei que recomeçar.

Aff

Paro próximo a um carro, abaixo e amarro o sapato, mas quando estou para levantar, um homem passa correndo e por pouco não me derruba ao chão.

Idiota!

Nem parou para pedir desculpa. Resmunguei contrariada, contudo, algo me chamou a minha atenção. Não foi sua face, pois não a vi tão rápido que correu, o que me chamou a atenção foi o cheiro do seu perfume. Artemísia, Alcaravia, Coentro, Bagas de Zimbro, Manjericão e Bergamota, foi o que consegui identificar. Meu olfato é excelente, e o fato de ter prestado tanta atenção no cheiro do desconhecido me desconcertou.

Voltei a correr me sentindo tola. Em vez de continuar na mesma direção que ele, volto por onde passei. Para mim essa corrida já deu, e também não quero encontrar o homem, vai que eu aja que nem uma idiota. Não sei lidar com o sexo oposto. Sou um tremendo desastre.

- Esqueça esse homem misterioso, Melinda! - Pedir a mim mesma, tentando pensar em outra coisa. Pelo que vi, é cheio de grana, sei disso pelas roupas que vestia quando corria, ou seja, tudo de marca. Ele jamais olharia para uma, Zé-ninguém como eu. Chego em casa com a energia renovada, tomo um banho rápido e me arrumo para colocar currículo.

- Droga!

Passei o dia todo colocando currículo e como sempre, recebendo um não.

Cheguei ao restaurante onde Nat trabalha, entrei pelos fundos. De tanto ir lá conheci muitas pessoas, ainda não tive contato com a dona, mas os restantes, sim, e posso dizer que todos são incríveis.

Capítulo 2 2

Melinda

- Linda! - Nat me saúda chamando a atenção do resto do pessoal da cozinha. Sorri abraçando-a e lhe puxei para um cantinho.

- Por que está aqui na cozinha? - Perguntei, pois sempre ela almoça no salão antes de abrir, mas hoje não, está na cozinha com os demais funcionários.

- Hoje pela manhã não abrimos, a nossa chefe está um pouco estressada. - Comentou dando de ombros.

- Problemas? - Perguntei preocupada. Não gosto de ver ninguém com adversidade que tento ajudar, pelo menos da forma que posso. Claro que não quero que nada respingue em meus amigos, já basta uma desempregada no grupo.

- Acredito que sim, Mel! - Nick respondeu em vez de Nat! Sorri desgostosa para ele antes de respondê-lo.

- Disso entendo muito bem, meu amigo! - Falei lhe dando um abraço apertado, daqueles de se sentir em casa. Nikolai é um bom homem, o mais velho de todos, possui 40 anos, a saúde como de um leão.

Falei e todos gargalharam.

- Você está cada vez mais linda, Mel!

- Obrigada Nik! O Sr. não fica atrás.

- Pare de dá em cima de Mel, Nikolai. __ Nat disse sorrindo.

- Não estou fazendo nada disso, estou elogiando, é totalmente diferente sua linguaruda. __ Falou sem antes dar língua para ela. Gargalhe com implicância dos dois. Posso não ter muita coisa, mas o que tenho me faz feliz, me basta. Pelo menos por enquanto.

- Que horas almoçaremos? - Perguntei quando minha barriga deu sinal. Rir sem graça, pois todos eles ouviram o monstro gritando. Bem, em minha defesa, não me alimentei pela manhã, apenas um copo de café, isso não é suficiente.

- Ponderei almoçarmos aqui. - Ele informou enroscando meu braço no seu, me levando para o salão. Chegamos e os demais funcionários já se alimentavam. Havia um burburinho, todos conversavam, mas um bom observador veria a preocupação estampada na face de cada um.

- É verdade, Melinda canta lindamente. - Natasha declarou para minha vergonha. Nunca cantei para muitas pessoas, apenas para minha falecida mãe e Nat.

- Canta para gente Mel! - Lara pediu ansiosa. Balancei a cabeça em negativo, me sentindo nervosa de repente.

- Aí gente, não quero!

- Por favor, canta Melzita! - Minha amiga insistiu. Fiquei tentada a negar novamente, contudo desistir, eles fazem tanta coisa por mim.

- Tudo bem! Não consigo negar nada para vocês. - Sorri. Levantei-me e fui até um pequeno palco e peguei um violão. Lara já havia me dito que uma banda tocava pela noite. Comecei a dedilhar os primeiros acordes, optei por uma canção brasileira que minha mãe amava cantar. Com quem vocês supõem que aprendi a tocar e cantar? Ela era uma linda musicista, infeliz precisou abandonar o seu sonho quando se casou com o meu padrasto. Parei de pensar nesse ser desprezível que casou com minha mãe.

- "O meu desafio é andar sozinho

Esperar no tempo os nossos destinos

Não olhar pra trás, esperar na paz

O que me traz

A ausência do seu olhar..." - Entoava com tanta emoção que não percebi que todos se calaram para me escutar. Não sabia precisar tanto disso.

- "Oh meu Deus me traz de volta essa menina

Porque tudo que eu tenho é o seu amor

João de Barro eu te entendo agora

Por favor, me ensine como guardar meu amor

Meu amor..." - Encerrei a canção observando a dona do restaurante que me encarava compenetrada. Agradeci os aplausos e coloquei o instrumento no lugar onde achei.

Fodeu! Pensei antes de ver a mulher vindo para nossa mesa, ainda séria. O pessoal me elogiava, só que nada escutava, pois a preocupação deles se prejudicarem por minha causa tomou toda a minha tensão.

- Amiga sempre me emociono quando a ouço cantar! - Nat comentou. Não correspondi seu elogio, pelo contrário lhe mostrei sua patroa. Ela cochichou um puta merda, depois voltou-se para sua patroa.

- Senhorita, me acompanhe até o meu escritório, por favor! - Disse e logo em seguida saiu nos deixando apreensivos.

- E agora meus amigos? - suspirei desanimada - Não se preocupem, falarei que a culpa foi minha, nenhum de vocês sofrerá por isso.

Fui ao encontro da senhora Raíssa, a dona do restaurante com o coração na mão. Entrei no escritório e ela fez um gesto para eu sentar. Sem frear os meus impulsos, tomei a palavra.

- Senhora me perdoe, isso não vai se repetir, foi toda a minha culpa. __ Declarei passando uma mão na outra com uma agonia sem fim.

- Calma menina! - exclamou rindo - Para o que você julga que a trouxe nesse escritório?

- Para reclamar por pegar o violão e cantei no seu estabelecimento! - Exclamei em um fio de voz. Só que a mulher começou a gargalhar, rapaz, não estava entendendo nada.

- Então, não foi para isso?

- Claro que não, sua boba. Você devia ver como estava sua cara. Comentou. Não aguentei toda situação, o mico que paguei, acabei entrando na mesma onda dela. Rir de mim mesma.

- Na verdade, gostaria de lhe oferecer um trabalho.

- Que tipo de trabalho? - Indaguei não acreditando no que acabei de ouvir. Se soubesse precisar apenas cantar para conseguir um trabalho, já tinha feito.

- Olha, estou meio que ferrada, quero colocar algo novo no meu restaurante, música ao vivo. Porém, o cantor que contratei infelizmente ficou doente terminal, ou seja, fiquei na mão. Estou irritada sem saber o que fazer, porém, quando a ouvi cantar, senti que tudo se encaixava. Nossa você é perfeita. Nada entendi sobre a letra, mas a sua voz é maravilhosa.

- Senhora Raíssa eu... Nunca cantei profissionalmente. - Disse assimilando tudo.

- Isso é o de menos, o seu talento é nato. Por favor, aceite! __ Pediu juntando suas duas. Ponderei a situação. Droga! Minha vergonha está gritando para não aceitar, contudo, estou no vermelho. Se não achar um emprego urgente, ficarei na rua da amargura.

- Aceito senhora!

A mulher levantou sorrindo, batendo palmas e me abraçou. Penso que ela estava aflita mesmo.

- Obrigada menina!

- Quando começo? - Inquirir ansiosa.

- Semana que vem, quero uma grande festa para anunciá-la! - Revelou tão ávida quanto a minha pessoa. Conversamos mais um pouco, tratando sobre o salário que é muito melhor do que eu ganhava na cafeteria. Assim que combinamos tudo fui para o salão.

- Amiga! __ Nat lançou vindo em minha direção. Resolvi brincar um pouquinho com eles.

- Oi!

- Meu Deus, me diz o que foi que ela falou. Ai meu Deus, perdi meu emprego. - Falava sem parar, sem ao menos me dar a chance de dizer algo. Comecei a rir descontroladamente, apenas isso a fez se calar.

- Qual é a graça menina? - Nik questionou cruzando os braços bufando.

- Vocês! Cara era para eu filmar.

- Não seja idiota, fala logo, porra! - Mandou nem um pouco elegante. Vocês viram o seu carinho por mim, né? Natasha é um amor de pessoa.

- Calma, sua grossa, não sobrou para ninguém. Você ainda tem seu emprego, Nat, quer dizer todos vocês.

- Se não é isso, por que ela lhe chamou?

- Para me oferecer um emprego!

- O quê? - Berraram juntos.

- Olhem para a mais nova cantora desse restaurante. - Anunciei orgulhosa. Não consegui conter minhas emoções. Eles sabiam que não está fácil para mim.

- Oh! - Nat falou me abraçando.

- Quando começa? - Lara perguntou entrando no abraço, Nik não resistiu e efetuou o mesmo.

- Semana que vem!

- Estou feliz que trabalharemos juntas. - Nat disse beijando o topo da minha cabeça.

- Eu também! - Respondi animada. Conversamos um pouco mais, depois me despedi de todos e fui embora. Preciso informar ao meu senhorio que não precisa me despejar. Hoje pela manhã, acordei sem nenhuma expectativa, e agora chegarei em casa com um emprego. Algo que amo fazer. Não que seja a profissão do meu sonho. Desejo assim que me estabelecer, fazer uma faculdade de contabilidade. Podem falar, que horror por que essa profissão? Simples! Amo, números, isso é desde pequena.

Acredito que vocês não entenderiam. Meu amor é tanto que gravei a letra grega (π) que simboliza o Pi. É bem provável que essa letra foi escolhida pelo significado de uma "uma coisa que não pode ser materializada ou executada." A letra grega é a primeira letra do nome περίμετρος, que significa perímetro. Porque é isso que o Pi faz, calcula o perímetro e o diâmetro. Bem, é isso. Basta falar em números que faço de tudo para que as pessoas os vejam como eu os vejo. Incríveis!

Saiu do restaurante feliz da vida com uma vontade imensa de gritar, mas me contenho até chegar em casa, lá gritarei até perder a voz.

Capítulo 3 3

Melinda

Faz cinco meses que estou trabalhando no restaurante, nunca estive tão feliz. Estou realizada. Essa semana não estamos trabalhando. A senhora Raíssa está fazendo uma pequena reforma, porém quando voltar ela fará uma festa de inauguração de novo. Ela percebeu que os ricos gostam de ser convidados para esse tipo de coisa.

Com o dinheiro que venho recebendo do restaurante, pude fazer um exame para fazer um cursinho na área de contabilidade. Isso foi há dois meses, ou seja, estou a três meses estudando. Ainda não é uma faculdade, mas ainda chego lá. O dinheiro está dando para me manter, ainda sobra uma merreca, guardo para emergências futuras.

Olho no relógio e vejo que já são 05h00, o que quer dizer que está na hora da minha corrida matinal. Faço meus alongamentos de leve para não me machucar. Olha gosto de correr e muito, não corro para emagrecer, corro por minha saúde, e para ter mais disposição no meu dia a dia. Começo com um trote leve, nada exagerado, depois de dois minutos aumento a velocidade. Estou tão focada na minha corrida que sinto algo estranho. Os cabelos da minha nuca se arrepiaram, experienciei uma sensação boa, de estar sendo observada. Parei por alguns segundos e olhei para todos os lados. Meus olhos pararam em um homem no carro. Ele disfarçava, no entanto, vi quando olhou para mim, e logo em seguida mexeu a boca como se tivesse falando com alguém.

- Deus, que não seja ele, não aquele maldito! - Pedi, quer dizer, implorei. Lágrimas grossas já mancharam minha face. Não consigo nem raciocinar. Escolho voltar para casa, minha corrida acabou, tudo que construí se foi. Aumentei minhas passadas, tudo foi muito rápido, um minuto estava correndo e no outro bato em uma parede de concreto que me derrubou no chão. Vejo uma voz ao longe, mas não consigo compreender. Sugo o ar para os meus pulmões, pois até isso foi tirado de mim quando cai. Quando me recupero ainda no chão, olho para cima. Vejo um homem lindo olhando-me sem nenhuma paciência. Sentir o cheiro do seu perfume, e pela fragrância é o homem que passou por mim naquele dia. Não é fácil esquecer esse cheiro.

- Você está surda, porra? - Perguntou. Nossa, a sua voz é magnífica. Espere aí, ele me chamou de surda? Levantei correndo encarando aquela muralha de músculos.

- Não olhar para onde anda? - Questionou grosseiramente. Mas é um grosso viu. O que tem de bonito, tem o triplo da arrogância.

- Você me derrubou, então deveria pelo menos me pedir desculpas! - Rebati contrariada. Devido à raiva, nem percebi falar português com o troglodita, vim perceber depois. Deus ele olhou-me como se fosse me matar. Dei alguns passos para trás como se isso fosse me proteger dele.

- Eu não peço desculpas, caralho! - Proferiu também em português, com um sotaque delicioso. Puta merda!

- Percebe-se endiabrado! - Falei baixinho, porém o homem escutou. Santo Deus, estou cavando minha própria cova.

- O que você disse?

- Foi o que você ouviu, mal-educado de merda. - Informei. Se é para morrer, não será sendo uma covarde. Nunca fui de insultar estranhos. O que está acontecendo comigo?

O homem desconhecido chegou tão perto de mim que faltaram poucos centímetros para seus lábios encostarem no meu. Por instinto passei a língua nos meus lábios, chamando sua atenção para eles, quando voltou a olhar para meus olhos, vi algo familiar. Ódio! Engoli seco me preparando para ser agredida, afinal já estou acostumada com isso.

- Você vai se arrepender de tudo que disse, sua vadia! - Preveniu. Escondi o medo com sarcasmo.

- Como quiser! Agora saia do meu espaço, seu arrogante. Nem vou lhe dizer quem é vadia. Filho de satanás!

- O quê?

- Moço não repetirei, falo apenas uma vez. Sabe de uma, tenho mais o que fazer. - Anunciei voltando a correr. Voltei a olhar para trás e o vi no mesmo lugar, porém falava ao telefone. Sua raiva era latente, no entanto, estava lá. Posso ver.

- Meu Deus, espero nunca mais ver esse homem na minha vida.

Com a trombada com aquele rude, filho do capeta, acabei esquecendo do homem no carro. Senhor, não deixes aquele desprezível me encontrar, pois algo me diz que dessa vez não sairei viva. Ainda sinto dor pela trombada, pois foi violenta. Foi como se tivesse batido em uma parede de concreto. O que custava ele pedir desculpas?

Aproveitei minhas folgas e limpei a casa, lavei minhas roupas e cuidei de mim, claro. Minha juba merecia isso sem dúvidas. Olho meu telefone que coitadinho já está caindo aos pedaços, a tela está toda rachada. Há duas chamadas perdidas da Nat. Quando resolvo retornar, ele toca de novo, porém é Lara. Atendo no terceiro toque.

- Oi, Larinha!

- "Oi, Melzita! O que está fazendo?" - Sondou. Imagino até o que se trata. Com certeza ela quer sair Conheço a minha amiga. Sempre que deseja algo começa assim, sondando. Pelo menos é assim comigo. Deve ser porque eu sempre digo não.

- Nesse exato momento estou descansando. Tirei o dia para limpar a casa.

- "Há, nem vem Mel, hoje nós sairemos!"

- Estou só o trapo mulher... Eu não... - Tentei negar, mas acho que dessa vez não tenho escapatória.

- "Não aceito um não como resposta." - sorriu vitoriosa - "Nos encontramos em frente à boate Kaos."

- Essa boate é caríssima! - Falo em um tom preocupado. Não posso gastar meu dinheiro com algo tão supérfluo, pelo menos não por agora.

- "Nat tem um amigo que trabalha na segurança, ele vai nos liberar." - Explicou não me dando outra opção.

- Que horas, sua insistente?

- "Eeeeeeee!" - celebrou - "Às 21h00min nos encontramos na porta da boate!"

- Até mais tarde! Beijos!

- "Beijos gata" - Desligou, ainda comemorando. Joguei-me no sofá disposta a tirar um longo cochilo. Faltam quatro horas para o horário que preciso sair, tenho tempo de sobra.

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