O amor pode matar. A sobrevivência começa no exato instante em que o coração é quebrado.
POV Ângela
2 horas antes
Os flashes explodiam como fogos de artifício a cada passo meu no salão. O dia, que havia começado nublado, agora brilhava sob o luxo que abafava qualquer preocupação com o mundo lá fora.
Meu vestido branco colava no corpo como se tivesse sido costurado pela própria vaidade. Após o casamento no civil, celebrávamos mais um passo. Era o meu dia. Quatro anos esperando por ele.
- Você está linda - Rafael sussurrou, me puxando pela cintura com o sorriso fácil que sempre usava para me desarmar.
Desde o terceiro ano do ensino médio, ele dizia que um dia eu seria dele. Ele lutou por mim, me conquistou, e em todos esses anos se mostrou um homem de caráter incorruptível. Minha família o adorava.
- Todos dizem que sou sortuda - murmurei, enquanto garçons passavam com champanhe.
- Eles estão certos - ele beijou meu ombro nu. - Mas eu sou o mais sortudo.
Os convidados sorriam ao nos ver. Ele fazia questão de mostrar ao mundo que me tinha nos braços. E eu... eu o amava. Não um amor ingênuo de filme, mas um amor de cumplicidade, de noites dividindo segredos e manhãs em lençóis amarrotados.
- Seu tio está nos observando de novo - comentei, rindo entre dentes. - Acha que ele está desconfiando?
Rafael seguiu meu olhar. Do outro lado do salão, Lúcio, o poderoso e temido empresário, nos observava com uma expressão sombria, quase predatória. Um homem que já teve o mundo nas mãos e agora mal conseguia levantar um copo. O dinheiro não era capaz de salvá-lo da maldição de ser ganancioso e cruel.
- É só a cara de quem está prestes a perder metade de tudo - Rafael brincou, me puxando para mais perto. - E a culpa vai ser sua.
- Minha?
- Você é irresistível - ele respondeu, mordendo o lábio. - Casar com você foi a melhor coisa que fizemos. Seu futuro está garantido ao meu lado.
O dinheiro de Rafael nunca me interessou. Eu tinha meus próprios planos. Mas casar com ele agora era a chave para a herança que seu tio havia travado. Parte da fortuna de Lúcio. E com a saúde frágil do tio, era questão de tempo até conseguirmos o resto.
Desde que o irmão de Lúcio morreu, ele se tornou um homem que inspirava medo e pânico. Eu o conhecia há quatro anos, quando tinha dezoito e comecei a namorar Rafael. Hoje, mesmo com seu porte atraente, Lúcio era apenas uma casca doente, definhando. Mas algo nele não se rendia. Um olhar que atravessava, que lia além do véu, além do vestido. Eu tinha medo que ele soubesse o que Rafael estava tramando.
- Rafael, é tão desconfortável ele nos observando... - comecei, mas quando olhei para ele, sua expressão havia mudado.
Ele estava com o celular na mão, o rosto fechado, como se algo o incomodasse.
- Preciso atender uma ligação de negócios. Volto em quinze minutos. Continue sorrindo e sendo perfeita, como sempre.
Beijou minha testa e entrou no elevador que levava à suíte presidencial.
Eu continuei sorrindo. Aceitei parabéns, bebi mais champanhe, ri das piadas sem graça dos acionistas. Mas depois de alguns minutos, um deles se aproximou.
- Sabe onde está o Rafael? Ele ficou de me apresentar ao consultor...
Olhei para o relógio. Já faziam vinte minutos. O tempo esticou. Meu instinto, que nunca falhava, começou a latejar.
- Vou ver se ele já terminou.
Desculpei-me, ajeitei a saia do vestido e caminhei até o elevador. Meu coração batia num ritmo estranho. Ele estava demorando mais do que o previsto. Onde ele estava?
E, no fundo, eu já sabia: algo estava terrivelmente errado.
Quando o elevador se abriu, o silêncio do corredor era quase cerimonial. As portas fechadas, a iluminação baixa e a distância entre o elevador e a suíte de Rafael pareciam aumentar a cada passo. Meu coração batia em um ritmo estranho - não era ansiedade, era algo mais denso, mais grave.
Passei o cartão na porta. O clique seco me deu permissão para entrar no desconhecido.
A luz do quarto estava fraca, com um tom avermelhado que dançava suavemente sobre os móveis luxuosos. O aroma de velas aromáticas preenchia o ar - doce e intenso demais para algo tão simples como uma ligação de negócios.
Caminhei lentamente. Na mesinha de centro, repousava um pequeno bilhete, escrito com pressa e um romantismo ensaiado:
"Preparado para você, meu amor. Um ano juntos."
Sorri... por um segundo. Depois, meu estômago se revirou.
- Um ano?
Li de novo.
- "Um ano."
- A gente tá junto há quatro anos! - murmurei, a voz confusa, quase inaudível, enquanto o desconforto começava a se espalhar pelo meu corpo como um arrepio de gelo. Aquilo não era uma simples confusão, eu podia sentir.
Meus saltos tocaram o tapete felpudo com passos mais hesitantes agora. A porta do quarto estava entreaberta, uma fresta escura que me chamava. Dali, uma luz bruxuleava, estranha, e... vozes. Risos. Ofegos. Meu coração começou a martelar no peito.
Empurrei a porta devagar, com a ponta dos dedos, e o que vi me atingiu como um soco no estômago.
Rafael. Ali, na nossa cama. Sua camisa aberta, desabotoada, revelando um pedaço da pele. Seu corpo colado ao de uma mulher nua em cima dele. Gemendo baixo, emaranhados nos lençóis de cetim branco da nossa suíte de núpcias. A suíte que era nossa.
Ela se virou lentamente, como se sentisse minha presença. O cabelo castanho-escuro escorreu como uma cortina, revelando o rosto. Os olhos... eram os meus. Quase. Só um pouco mais escuros, um brilho familiar que fez meu estômago embrulhar. E então, eu a reconheci.
- Kellen?!
Minha voz saiu como um trovão, um rugido rasgado pelo choque, pela traição e por um nojo avassalador que subia pela minha garganta. O ar no quarto parecia ficar pesado, e o mundo inteiro se reduziu àquela imagem grotesca à minha frente.
Eles congelaram. Kellen me olhou por cima do ombro com um sorrisinho entediado, como quem tivesse sido pega com a colher de prata na boca - e, ainda assim, não ligasse. Rafael empalideceu, tirando Kellen - minha irmã mais velha - de cima dele como quem afasta um objeto qualquer.
- Ângela... Ângela, espera, não é o que parece!
- Você tá me traindo com a minha irmã, seu desgraçado! - gritei, o coração disparado, a voz falhando de raiva e incredulidade.
- Me escuta, por favor...! - ele pediu, se levantando, assustado.
- Eu escutei tudo o que precisava. - Cruzei os braços, firme, controlando a explosão que queria sair. - Você não vai sair dessa. Eu vou cancelar tudo. Tudo! Vou contar pro seu tio. Vou expor cada fraude, cada centavo que você desviou, cada acordo sujo que assinou pelas costas dele enquanto fingia ser o sobrinho perfeito.
Rafael se levantou desajeitado, tropeçando no lençol. Se ajoelhou no chão como um idiota desesperado.
- Ângela, por favor. Me perdoa. Isso não significa nada. Foi um erro, um momento...
- Um erro de um ano? - cuspi a pergunta com nojo. - É esse tempo, não é? É isso mesmo que está no bilhete? Você está me enganando todo esse tempo com a minha irmã?
Ele hesitou. Encarou Kellen com dureza e se voltou para mim, mas não respondeu.
- Responde! - gritei, os olhos marejando. - Você sempre disse que me amava... Fizemos votos e promessas... Mesmo quando meus planos eram outros, você me persuadiu a me casar com você, mesmo ainda concluindo a graduação...
Rafael abaixou a cabeça e, no silêncio dele, Kellen bufou.
- Ai, Ângela... você sempre se leva tão a sério - disse ela, debochada, enrolada no lençol como se estivesse em um spa. - Se você não fosse tão previsível, talvez ele não tivesse procurado outra. Ninguém precisa ser tão meticulosa e certinha. Se bem que... você não é tão certinha assim, levando em conta que até mesmo quase seduziu o tio dele quando tinha dezoito anos, a ponto de ser banida da mansão indeterminadamente. Mas adivinha? Eu sempre vou lá. - Kellen riu com deboche.
Virei o rosto para ela, com nojo e pena.
- Você é patética. E "sempre vai lá"? Significa que me trai na sua própria casa também?
- E você é cega - ela rebateu, sorrindo. - Sempre foi. Não era óbvio que éramos amigos próximos demais?
Eu me virei para sair, tremendo de ódio. Kellen sempre foi distante de mim, mas eu não tenho culpa se meus pais têm mais expectativas em mim do que nela, que é a mais velha. Kellen sempre agiu de forma imatura e nunca quis fazer nada para que seu futuro fosse um pouco mais digno, sempre buscando luxo, festas e relacionamentos superficiais. Ainda nem acredito que Rafael caiu nisso... Mas eu não sou burra para perdoar isso.
- Você sabe que... - tentei falar, limpando as lágrimas. - Sabe quantas coisas eu sei, não sabe? Todas as coisas que você deixou em minhas mãos? E de quantas coisas eu abri mão por você?
- Ângela... por favor, vamos apenas conversar e resolver isso, está bem? - ele pediu com receio.
Rafael sabe que, no decorrer desses quatro anos, nós simplesmente fomos cúmplices de coisas que podem nos levar à cadeia. Eu abri mão dos meus valores por causa dele, e agora ele me apunhala. Eu não me importo com o resultado - o que ele fez não tem perdão. E no dia da nossa comemoração do nosso casamento civil... Como ele se atreve, depois de já estar oficialmente casado comigo?
- Estou indo direto até o seu tio. Ele vai adorar saber que o sobrinho que quase nomeou como herdeiro é só mais um canalha corrupto e traidor. E que usou a própria esposa como fachada para seu benefício próprio. Eu nunca vou te perdoar! - ameacei, correndo em direção à porta, quando ele tentou me segurar pelo braço para continuar tentando me persuadir.
Mas, antes que eu alcançasse a porta, um impacto brutal atingiu a parte de trás da minha cabeça, e eu perdi o equilíbrio.
A dor explodiu e tudo girou ao redor de Angela que franziu o cenho em meio à confusão e a dor latejante.
Suas pernas fraquejaram.
O mundo ficou turvo, lento, vermelho.
Ouviu vozes distantes. Gritos. Rafael?
- Angela! Meu Deus, Angela! Chama um médico! Alguém chama ajuda!
Sentiu braços me segurando. O cheiro de suor, perfume barato e desespero. E então... nada. Nada além da escuridão.
- Ângela! - Rafael gritou, correndo até ela. - Meu Deus, o que você fez, Kellen?!
Kellen, a irmã mais velha de Ângela, tremia com os punhos cerrados. Seus olhos estavam arregalados, mas sua voz veio firme, fria ao ver o sangue escorrendo de Ângela.
- Ela estava te destruindo, Rafael. Você não via? - Ela sussurrou, mas sua voz vacilou como se ela estivesse com medo. - Ela era uma ameaça, você viu as coisas que ela falou, se seu tio soubesse você pararia na miséria, você sabe! ela sabia demais - ela berrou em pânico travada no mesmo lugar.
Angela estava caída, sangue escorrendo do canto da boca, o vestido manchado. Rafael se ajoelhou desesperado, sacudindo-a suavemente.
- Angela, por favor, olha pra mim! Fala comigo! Por favor meu amor... - ele chorou copiosamente enquanto pedia perdão.
Nada.
- Ela está... morta? - ele sussurrou, a voz engasgando de medo e incredulidade.
- Sim. - respondeu Kellen com uma calma assassina. - E agora precisamos pensar rápido, antes que sua vida acabe junto com a dela.
- minha vida? A sua, não é? Sua desgraçada como você pode fazer isso com sua própria irmã. Com minha querida Ângela, você acha que eu não amava?
- você pode a amar, ainda assim o que importa? Ela estava prestes a te entregar porque me descobriu, tem coisas demais em risco, não teve outro caminho, seu tio é um homem muito perigoso, jogaria você na lama se não fosse assim.
- Você enlouqueceu?! Nós precisamos chamar um médico, a polícia, alguém! - gritou ele, erguendo o rosto banhado em lágrimas.
Kellen cruzou os braços. - Você quer ser preso, Rafael? Quer perder tudo? Ela invadiu, caiu, bateu a cabeça... A culpa será sua. E você sabe o que está em jogo.
- Ela era minha noiva... eu amava ela, Kellen!
- Então a proteja agora. Faça isso parecer um acidente. Ou enterre tudo. Literalmente.
O silêncio pairou pesado. Rafael soluçou, abraçando Ângela uma última vez.
- Desculpa, minha menina. Desculpa...
- Você não pensou nisso quando se deitou comigo, porque está tratando ela assim agora?
- não posso me livrar dela assim, kellen! Como assim enterrar ela e até mesmo a privar de ter um enterro descente o que seus pais vão dizer?
- vamos inventar uma desculpa, Ângela já tinha o costume de fugir para te ver, lembra? Desde que vocês começaram a namorar, logo que ela fez dezoito anos ela fugiu até sua mansão, você não cansa de contar isso, da primeira vez de vocês mesmo quando seu tio colocou ela para fora da mansão, vocês dois tiveram muitas histórias contraditórias, além disso poderíamos usar seu tio como bode expiatório, sei lá, ainda temos que pensar em tudo, mas uma coisa é certa, Ângela está morta e não podemos fazer nada.
- O que você quer?
- Decida... se encontrarem ela, vão suspeitar de nos dois, mas... se nos livrarmos e dizer que ela estava tendo um caso e fugiu...
- Nós acabamos de nos casar...
- você quer ser preso? Afinal eu não vou sozinha, você é meu cumplice. - ela avisou e Rafael enrijeceu, ele soltou o corpo de Ângela no chão com cuidado, mesmo que quisesse gritar e encarou Kellen, uma mulher da mesma idade que Rafael que tem 24 anos.
- tudo bem, eu vou ligar para umas pessoas de confiança e ninguém vai saber o que aconteceu aqui.
Rafael desceu após se limpar e trocar de roupas, todos estavam o esperando, ele manteve a mesma calma, enquanto perguntavam por Ângela, ele apenas dizia que estava a procurando, mas não sabe onde foi, que supostamente estava na suíte o esperando que era a noite deles.
Minutos depois, dois homens de confiança chegaram, silenciosos a noite agora estava se estendendo e isso só ajudaria mais ainda, vestidos de preto pela entrada dos fundos daquele grande hotel e com a compra de alguns seguranças eles conseguiram entrar sem levantar suspeitas e seguir até o andar superior onde estava o corpo, todo o andar foi esvaziado e eles usaram a escada de emergência após limpar o apartamento limpando os vestígios do incidente.
A tempestade aumentava, e o trovão abafava os sons do horror que acontecia.
- É aqui. - disse um dos homens, apontando para um buraco recém-cavado entre as árvores da floresta em uma pequena montanha distante da cidade.
Angela estava enrolada em lençóis, o rosto coberto e Rafael estava branco como papel. A cada passo, o peso da culpa o esmagava. Quando os homens largaram o corpo, o impacto surdo contra a terra molhada o fez vacilar.
- nós vamos embora. - disse ele, rouco ao encarar kellen. - cuidem do resto, as pessoas podem estranhar nosso desaparecimento, será melhor que possamos...
- você está certo, nesse momento vamos anunciar o desaparecimentos de Ângela e dizer que ela estava com um homem, eu voou montar tudo.
Os homens concordaram em seguida jogando o corpo dela no buraco, o impacto da terra que era jogado em cima de seu corpo parecia ter causado algo inesperado, seu rosto descoberto suas pestanas piscaram enquanto ela tentava traduzir o que estava acontecendo sentindo seu corpo amarrado mesmo que tentasse se mover, E então...
Ela soltou um som.
Um sussurro. Fraco. Quase imperceptível.
- Ajud...a...