Dei oito anos da minha vida ao meu namorado, Bernardo. Fui sua leal assistente jurídica e parceira devotada, sacrificando uma promoção e até mesmo um filho pelo futuro que ele nos prometeu.
Então, ouvi a verdade do lado de fora de seu escritório. Ele me chamou de "mercadoria avariada", rindo com a mulher a quem ele deu o meu cargo.
Sua crueldade aumentou. Ele me humilhou publicamente e depois me baniu para o arquivo morto no porão do escritório. Quando invasores me atacaram lá, eu liguei para ele, sangrando e implorando por ajuda.
"Você está sendo dramática", ele disse, e desligou.
Ele me deixou para morrer. O trauma me fez perder o bebê que eu nem sabia que estava esperando.
Deitada em uma cama de hospital, vi sua postagem nas redes sociais: uma selfie sorridente com ela, com a legenda #Abençoado.
Foi nesse momento que decidi desaparecer. Ele achou que tinha me quebrado. Estava enganado. Ele apenas me libertou.
Capítulo 1
Helena POV:
As palavras me atingiram como um soco no estômago, arrancando oito anos da minha vida, me deixando oca e sem ar. "Ela é mercadoria avariada, uma assistente jurídica de graça, nada mais que um acessório conveniente." A voz de Bernardo, geralmente tão suave e calmante, estava carregada de um desprezo gélido que eu nunca tinha ouvido direcionado a mim. Pelo menos, não diretamente. Fiquei paralisada do lado de fora de seu escritório, a porta entreaberta o suficiente para que sua confissão cruel vazasse, transformando meu mundo em algo irreconhecível.
Minha promoção para sócia júnior. Desapareceu.
Ainda esta manhã, minha mãe ligou. "Helena, querida, seu pai e eu estamos tão orgulhosos. Uma sócia júnior na Molina & Associados. Sempre soubemos que você conseguiria." Suas palavras, que deveriam ser um conforto, agora pareciam um peso de chumbo pressionando meu peito. Eu havia ensaiado por semanas como contar a ela sobre minha "promoção perdida". Sua decepção, misturada com o seu refrão habitual de "por que você não se aquieta de uma vez?", era uma ferroada familiar. Mas isso? Isso era pior.
Eu tinha aceitado, ou assim pensava. Bernardo me sentou, sua mão quente sobre a minha, seus olhos cheios do que agora eu sabia ser uma simpatia ensaiada. "Helena, meu amor, o escritório precisa de um rosto novo. Alguém com contatos importantes. A Beatriz, o pai dela... é um negócio enorme para nós." Ele disse isso com tanta delicadeza, quase se desculpando. E eu, tola que era, assenti, compreendendo. Acreditando.
Mas as palavras que ouvi agora, cortando os sons abafados do escritório, eram uma ferida aberta e purulenta. "E o aborto, Bernardo? Ela realmente fez aquilo só por você?" A voz de Beatriz Ferraz, doce e venenosa, pingava diversão. Eu a imaginei, empoleirada na mesa de Bernardo, seu cabelo escuro e brilhante caindo sobre o ombro, sua mão perfeitamente manicure brincando com a caneta dele.
"Claro", Bernardo riu, um som que fez meu sangue gelar. "Disse que 'atrapalharia minhas ambições'. Honestamente, às vezes acho que ela acreditava que tínhamos um futuro." Ele fez uma pausa, e eu quase pude sentir seu sorriso de escárnio. "Oito anos, Beatriz. Oito anos de trabalho de graça, lealdade e devoção inquestionável. Ela praticamente administrava minha vida, meus casos. Uma máquina bem lubrificada, na verdade."
Minha respiração falhou. Trabalho de graça. Devoção inquestionável. Essa era eu. Esses eram os meus oito anos. Meus vinte e poucos anos inteiros. Apagados.
"E 'mercadoria avariada'?", Beatriz ronronou, um eco cruel de seu comentário anterior. "Por causa de um procedimentozinho médico? Que rainha do drama."
O chão sob meus pés balançou. Mercadoria avariada. Eles estavam falando do meu aborto. Aquele que eu fiz, não porque não queria um filho, mas porque Bernardo me convenceu de que "não era o momento certo", "muito cedo na minha carreira", "complicaria as coisas". Ele teceu uma narrativa de ambição compartilhada, de um futuro que ele estava construindo para nós.
Minha mão instintivamente foi para o meu estômago, uma dor fantasma florescendo ali. Não era apenas minha carreira, não era apenas a traição. Era tudo. Cada sacrifício, cada lágrima silenciosa, cada sonho que construí ao redor dele. Todos estavam se dissolvendo em uma nuvem amarga e tóxica.
Eu tropecei para trás, meu salto prendendo no carpete felpudo. O som foi quase inaudível, mas eu sabia. Eles sabiam que eu estava lá. Ouvi um silêncio súbito, depois o suspiro de Beatriz. Eu não esperei. Não podia. Minhas pernas se moveram por conta própria, me levando para longe das vozes, para longe do riso que agora ecoava em minha cabeça.
Fui parar no banheiro feminino, encarando meu reflexo. Meu rosto estava pálido, meus olhos arregalados e injetados de sangue. Minhas mãos tremiam enquanto eu buscava na minha bolsa, tirando a pequena caixa de veludo. Dentro, jazia o delicado colar de prata que Bernardo me deu em nosso quinto aniversário. "Uma promessa", ele chamou. "Uma promessa de para sempre."
Com um soluço engasgado, arranquei-o da caixa, a corrente frágil cravando na minha palma. Não era uma promessa. Era uma mentira. Uma mentira linda e brilhante. Eu o bati contra a pia de porcelana, a prata se torcendo e dobrando sob a força, imitando a contorção do meu coração. Eu o observei, uma bugiganga quebrada e sem sentido, até minha visão embaçar com as lágrimas.
Era isso. Não apenas o fim de uma promoção, mas o fim de tudo. Oito anos, estilhaçados. E eu estava farta. Farta das mentiras, farta da dor, farta de ser sua "assistente jurídica de graça".
Peguei minha pasta de couro gasta, aquela que me acompanhou por inúmeras noites tardias e manhãs cedo. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida desesperada de rebelião recém-descoberta. Eu não estava apenas saindo do escritório. Eu estava me afastando da pessoa que me tornei por Bernardo.
Meu escritório. Parecia estranho agora, despojado da vida que eu havia derramado nele. Olhei para a foto emoldurada na minha mesa: Bernardo e eu, sorrindo, de braços dados, na festa anual do escritório. Ele parecia tão orgulhoso. Eu parecia tão feliz. Uma piada cruel.
Peguei a foto, virei-a e rabisquei uma única palavra no verso: "Mentiroso". Então, joguei-a na lixeira. Ela bateu contra o outro lixo, um som insignificante.
A porta rangeu ao abrir. Beatriz estava lá, seu sorriso tenso, uma pitada de triunfo em seus olhos. Ela usava um lenço rosa choque, o mesmo tom que Bernardo uma vez disse que ficava lindo em mim. "Helena", ela chilreou, "Bernardo quer que você finalize o rascunho do acordo de tecnologia. Sabe, aquele com o meu pai."
Meu estômago se contraiu. "Aquele que eu fechei", pensei, mas as palavras morreram antes de chegarem aos meus lábios. Eu apenas olhei para ela, olhei de verdade, e não vi uma rival, mas um reflexo vazio da ambição de Bernardo.
"E", ela continuou, sua voz ganhando um tom afiado, "ele disse para te lembrar sobre a orientação dos novos associados. Você está encarregada de montar os kits de boas-vindas." Ela gesticulou vagamente para uma pilha de pastas coloridas na minha mesa. "É tudo seu agora, Helena. Estou muito ocupada com trabalho jurídico de verdade hoje em dia."
Ela piscou, um gesto que deveria ser brincalhão, mas que parecia sal na ferida. Ela pegou uma caneca de café branca e impecável da minha mesa, estampada com o logo do escritório. Foi um presente de Bernardo para mim, no último Natal. "Ah, e obrigada pela caneca. É muito fofa." Ela deu um gole longo e exagerado, seus olhos nunca deixando os meus.
A caneca de Bernardo. Minha mesa. Seu sorriso triunfante.
Algo dentro de mim quebrou. A dor, a humilhação, a pura audácia de tudo aquilo... solidificou-se em uma determinação fria e dura. Olhei para a caneca de café em sua mão, depois para a pilha de tarefas triviais que ela acabara de despejar em mim. Isso não era mais apenas sobre uma promoção. Era sobre reivindicar cada pedaço de mim mesma.
"Beatriz", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Preciso que você me faça um favor."
Suas sobrancelhas se arquearam, surpresa. "Ah? E o que seria, Helena? Precisa de ajuda para empacotar seus... kits de boas-vindas?" Ela riu, um som curto e agudo.
"Não", respondi, meu olhar inabalável. "Preciso que você diga ao Bernardo que ele pode montar a porcaria dos próprios kits de boas-vindas. E servir a porcaria do próprio café."
Seu sorriso vacilou. A cor sumiu de seu rosto. Eu sabia que o choque era genuíno. Ela esperava que eu me encolhesse. Que eu desmoronasse. Mas a Helena que ela conhecia se foi.
Passei por ela, de cabeça erguida. Minha pasta parecia mais leve do que em anos. Eu não me importava com o acordo de tecnologia, os kits de boas-vindas ou o escritório. Não mais. Eu só tinha uma última coisa a fazer.
Meu celular vibrou na minha mão. Era Bernardo. Uma mensagem de texto. "Helena, venha ao meu escritório. Precisamos conversar. AGORA." O tom imperioso, as letras maiúsculas. Era o mesmo velho Bernardo, puxando as cordas. Mas não mais.
Abri a mensagem, meu polegar pairando sobre o botão de resposta. Meu coração não se apertou. Não doeu. Parecia oco, vazio. Parecia livre.
Digitei uma única palavra. "Não." E enviei.
Então, com uma respiração profunda e purificadora, apaguei o número dele. Permanentemente.
O saguão do escritório estava movimentado, um contraste gritante com o silêncio de cemitério do meu escritório. Caminhei em direção ao elevador, meus passos firmes e decididos. Eu estava indo embora. Para sempre. Mas não sem uma despedida final e silenciosa para a mulher que eu costumava ser.
Parei em uma lixeira pública, uma daquelas lixeiras elegantes de aço inoxidável perto da entrada. Enfiei a mão no bolso do meu casaco. Minha mão se fechou em torno do colar de prata torcido, a "promessa" que Bernardo me dera. Olhei para ele uma última vez, uma avaliação fria e clínica. Nenhuma emoção. Apenas um pedaço de metal quebrado.
Com um movimento do pulso, eu o deixei cair. Ele aterrissou com um leve tilintar metálico, engolido pelo lixo. O som foi engolido pelo rugido da cidade.
Pensei na última vez que me senti verdadeiramente livre, verdadeiramente eu mesma. Foi antes de Bernardo. Antes do escritório. Antes da busca interminável por uma vida que nunca foi realmente minha. Minha mente vagou para aquela sala de clínica estéril e fria, as vozes sussurradas, a sensação avassaladora de perda. Aquilo tinha sido por Bernardo. Cada lágrima dolorosa e silenciosa. Cada noite sem dormir. Tudo por ele. Ele me chamou de "mercadoria avariada". E por muito tempo, eu acreditei.
Mas parada aqui, o vento da cidade chicoteando meu cabelo, uma estranha calma se instalou em mim. Ele não me danificou. Ele revelou minha verdadeira força. A força para ir embora.
Meu celular vibrou novamente, um número desconhecido. Ignorei. Não importava. Nada daquela vida importava mais. Eu tinha uma vida para reivindicar, começando agora.
As portas do elevador se abriram, um suspiro metálico. Entrei, pressionando o botão do térreo. As portas se fecharam, selando o passado, abrindo-se para um futuro desconhecido. Eu não tinha plano, nem destino. Apenas um desejo ardente de desaparecer.
Meus dedos traçaram a cicatriz tênue no meu braço, uma relíquia de uma queda na infância. Um lembrete físico de que mesmo as coisas quebradas podem cicatrizar, deixando para trás uma marca mais forte e resiliente. Bernardo achou que tinha me quebrado. Ele estava enganado. Ele apenas me libertou.
Eu não iria apenas desaparecer. Eu iria reconstruir. Eu iria me reerguer. E ele nunca veria isso acontecer.
Esta cidade, este escritório, esta vida... tudo estava contaminado. E eu estava farta de ser manchada. Eu estava indo para casa. Não, eu estava indo para um lar que não via há anos, um lugar onde o ar tinha um gosto diferente, onde o sol brilhava mais forte. Florianópolis. Minha Floripa.
O elevador apitou. As portas se abriram. Um novo começo esperava.
Saí para o ar frio de São Paulo, um fantasma, invisível para a multidão agitada. Mas por dentro, eu estava finalmente viva de novo.
Helena POV:
O rosto presunçoso de Beatriz foi a primeira coisa que vi quando voltei ao escritório na manhã seguinte. Ela estava encostada no batente da porta do meu escritório, o espaço que fora meu por oito anos, agora aparentemente absorvido por sua órbita. Seus olhos se estreitaram quando me aproximei. "Olha só quem decidiu nos agraciar com sua presença. Bernardo estava se perguntando se você finalmente tinha pirado de vez."
Eu não respondi. Apenas passei por ela, indo direto para minha mesa, que agora parecia território inimigo. Meu breve momento de rebelião ontem tinha sido exatamente isso - um momento. A fria realidade da minha situação se agarrava a mim como uma mortalha.
"Noite difícil, Helena?", ela insistiu, sua voz pingando preocupação artificial. "Você parece um pouco... desgrenhada. Sua pequena rebelião de ontem não deu certo?" Seus lábios se curvaram em um sorriso de escárnio.
Coloquei minha pasta na minha mesa agora bagunçada, ignorando as pilhas de papelada que não eram minhas. "O que você quer, Beatriz?" Minha voz era monótona, desprovida de emoção.
Ela se desencostou do batente da porta, aproximando-se. Sua bolsa da Chanel pendia ostensivamente de seu ombro. "Só curiosidade. Você parecia bem nervosa. Como uma mola que finalmente estourou." Ela riu, um som frágil e sem humor. "Ou talvez você finalmente tenha percebido que algumas pessoas nasceram para vencer, e outras para... bem, servir." Ela deu de ombros, como se fosse uma verdade universal.
Eu olhei para ela, olhei de verdade. Seu terno de grife, seu cabelo perfeitamente penteado, a inclinação condescendente de sua cabeça. Ela era uma caricatura de sucesso, uma fachada brilhante. "Sabe, Beatriz", eu disse, minha voz mal um sussurro, "deve ser exaustivo, fingir ser algo que você não é."
Seu sorriso desapareceu. Seus olhos brilharam de raiva. "O que isso quer dizer?"
"Significa", continuei, encarando-a de frente, "que a verdade sempre aparece. Eventualmente."
Ela recuou ligeiramente, um lampejo de insegurança cruzando seu rosto antes de ser substituído por puro veneno. "Você se acha tão esperta, não é? Tão nobre. Mas você é apenas amarga, Helena. Um brinquedo amargo e descartado." Ela girou nos calcanhares, sua blusa de seda farfalhando. "Aproveite sua festinha de autopiedade. Bernardo e eu temos um escritório para administrar."
Como se fosse um sinal, Bernardo saiu de seu escritório, um sorriso deslumbrante estampado no rosto. Ele passou um braço pela cintura de Beatriz, puxando-a para perto. "Tudo bem, meu amor?", ele murmurou, seus olhos passando por mim com um olhar fugaz e desdenhoso.
Beatriz sorriu para ele. "Apenas resolvendo alguns... negócios antigos, querido." Ela se inclinou e sussurrou algo em seu ouvido, depois riu.
Eu os observei, um par perfeito e polido. Ele, o ambicioso sócio sênior, e ela, a nova e brilhante estrela com conexões poderosas. A ironia teria sido risível se não parecesse um soco no estômago.
Eles caminharam em direção à sala de conferências, o braço de Bernardo ainda em volta de Beatriz. Ela balançou um pouco, seus saltos altos prendendo no carpete, e uma pilha de arquivos que ela carregava - arquivos do meu acordo de tecnologia - caiu de suas mãos, espalhando-se pelo chão de mármore polido. Papéis, diagramas, contratos... eles se espalharam como folhas caídas.
Beatriz gritou, um som agudo e afetado. "Ai meu Deus, minhas unhas! Bernardo, querido, me ajude!"
Bernardo, sempre o cavalheiro, ajoelhou-se para juntar os papéis. Mas Beatriz, agitando-se dramaticamente, conseguiu chutar uma xícara de café que estava precariamente em um carrinho próximo. Ela atingiu o chão com um estalo de porcelana quebrando, espalhando líquido marrom escaldante, sachês de açúcar e mexedores descartados em uma bagunça profana.
O cheiro de café queimado encheu o ar. Beatriz ofegou, agarrando o braço. "Ah, que horror! Meu terno novo está arruinado!", ela lamentou, embora apenas algumas gotas tivessem realmente tocado sua manga.
Bernardo olhou para cima, sua expressão uma mistura de aborrecimento e preocupação forçada. Ele me viu parada ali, uma observadora silenciosa. Seus olhos endureceram. "Helena", ele ordenou, sua voz afiada, cortando o drama de Beatriz. "Venha aqui e limpe isso. Imediatamente."
Meu sangue gelou. Limpe isso. Como uma subordinada. Como uma empregada. Como sua "assistente jurídica de graça".
Hesitei, meu corpo enrijecendo. A injustiça queimava.
"Helena! Não me faça pedir de novo", Bernardo estalou, seu charme se dissolvendo em impaciência. "Beatriz está aflita. Temos uma reunião em cinco minutos. Alguém precisa resolver isso." Ele apontou para a bagunça, depois para mim. "Você é boa nesse tipo de coisa. Eficiente."
Eficiente. Ele sempre tinha um elogio disfarçado pronto. Meu estômago se revirou. Eu sabia o que era isso. Uma humilhação pública. Um lembrete do meu lugar.
Minha menstruação tinha começado naquela manhã, uma dor surda na parte inferior das costas, uma pulsação constante que sublinhava cada golpe emocional. Parecia que meu corpo estava espelhando a traição, uma manifestação física da ruína emocional. Eu havia suportado tantas dores por Bernardo, por sua carreira, por nós. Isso parecia apenas mais uma, um teste final da minha resistência.
Com um suspiro que pareceu arrancado das profundezas da minha alma, caminhei em direção ao café derramado. Abaixei-me, ignorando a dor latejante, ignorando o sorriso triunfante de Beatriz. Meus dedos, acostumados a virar páginas de processos, agora pegavam cerâmica quebrada e sachês de açúcar pegajosos.
"Cuidado, Helena", Beatriz arrulhou, recuando como se meu toque pudesse contaminá-la. "Não vai querer sujar seu terninho bonito. Ah, espere, você está usando... o da estação passada." Sua risada era como cacos de vidro.
Bernardo não disse nada. Ele apenas observou, um cúmplice silencioso. Ele sempre fazia isso. Ele me observava limpar suas bagunças, seus erros, seus detritos. Por oito anos, eu limpei a sujeira dele.
Uma onda de náusea me atingiu. Pressionei uma mão no meu abdômen. A dor era aguda, quase debilitante. Minha visão embaçou por um segundo. Eu balancei, meus joelhos ameaçando ceder.
Bernardo, por uma fração de segundo, começou a estender a mão, sua mão se estendendo. Um lampejo de algo parecido com preocupação cruzou seu rosto.
Mas Beatriz foi mais rápida. Ela ofegou, uma mão dramática voando para o peito. "Bernardo, querido, estou me sentindo fraca. Esse cheiro... é avassalador." Ela se apoiou pesadamente nele, desviando sua atenção, seus olhos me lançando um olhar triunfante.
Ele imediatamente se virou, sua mão pousando nas costas dela, guiando-a para longe. "Vamos tomar um ar fresco, Beatriz. Helena pode cuidar disso." Ele nem olhou para trás. Nenhuma vez.
Eles se afastaram, o braço de Bernardo ainda em volta de Beatriz, suas vozes desaparecendo enquanto entravam na sala de conferências. Fui deixada sozinha, ajoelhada no chão de mármore frio, cercada pelos destroços de café derramado e porcelana quebrada. Minha cabeça girava, a dor no meu estômago se intensificando. Minhas mãos, pegajosas e manchadas, tremiam.
Oito anos. Oito anos da minha vida, meu amor, minha lealdade. Reduzidos a isso. Limpando a bagunça da nova namorada dele.
Um nó frio e duro se formou no meu estômago. Isso não era apenas uma humilhação. Era um momento de clareza absoluta. Ele não se importava. Ele nunca se importou. Ele nunca se importaria. E eu desperdicei tanto para aprender essa verdade simples e brutal.
Eu limparia isso. Mas seria a última coisa que eu faria por Bernardo Molina. Meu último ato nesta peça distorcida e degradante. Não era apenas café que eu estava limpando. Era o meu passado. E eu estava esfregando-o até ficar limpo.
Deste escritório. Desta firma. Da vida dele. Para sempre.
Helena POV:
O cheiro de café velho ainda grudava nas minhas roupas, um lembrete amargo do meu último ato de servidão. Mas desta vez, era diferente. Desta vez, enquanto eu caminhava em direção ao RH, havia uma leveza em meus passos, um propósito desafiador em minha passada. A dor no meu estômago ainda estava lá, uma dor surda, mas era ofuscada por uma resolução feroz.
O departamento de RH, geralmente um espaço estéril e silencioso, pareceu estranhamente acolhedor. Dona Célia, uma mulher de rosto gentil que estava na firma há mais tempo que qualquer um, ergueu os olhos do computador, sua expressão se suavizando quando me viu. "Helena, querida. Que surpresa. Entre, entre."
Sentei-me na cadeira em frente a ela, minha pasta apoiada na perna. "Dona Célia", comecei, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. "Estou aqui para pedir demissão."
Ela piscou, seu rosto geralmente composto mostrando um lampejo de choque genuíno. "Demissão? Helena, você está falando sério? Você acabou de... acabou de perder a promoção para sócia júnior, eu sei, mas pensei que você fosse ficar e lutar por ela no próximo ano." Seu olhar continha uma pena conhecedora. Todos sabiam sobre Beatriz. Todos sabiam sobre Bernardo.
"Estou falando sério", confirmei, encontrando seus olhos. "Com efeito imediato."
Ela se inclinou para frente, sua voz baixa. "Bernardo sabe disso?"
Uma risada sem humor escapou dos meus lábios. "Não. E ele não saberá até que esteja feito." Fiz uma pausa e acrescentei: "Se a senhora puder agilizar o processo, ficarei grata."
Dona Célia me estudou por um longo momento, seus olhos perscrutando os meus. Então, um sorriso pequeno e triste tocou seus lábios. Ela assentiu lentamente. "Eu entendo, Helena. De verdade. Você é uma das melhores, sabe. Um ativo absoluto para esta firma. Bernardo... ele está cometendo um erro do qual se arrependerá."
Suas palavras foram um bálsamo para meus nervos em frangalhos. Eu simplesmente assenti, um nó apertado se formando na minha garganta. "Obrigada, Dona Célia."
Ela começou a digitar, seus dedos voando pelo teclado. O ar se encheu do silencioso clique-claque das teclas, um som de finalidade. Era isso. A ruptura oficial.
Meu celular vibrou, vibrando contra minha coxa. Bernardo. Ele estava ligando. De novo. Ignorei. Eu o ignorava desde que enviei aquele único e desafiador "Não". Ele ligou três vezes, mandou duas mensagens, cada uma se tornando progressivamente mais exigente.
Dona Célia terminou de digitar. Ela deslizou um formulário pela mesa. "Apenas assine aqui, Helena. E seu pagamento final será processado até o final da semana."
Peguei a caneta, minha mão firme agora. Assinei meu nome, um floreio de liberdade. Foi surpreendentemente bom. Como se estivesse me livrando de uma pele pesada.
"Helena", disse Dona Célia, sua voz gentil, "ele está tentando falar com você. Ele também tem ligado para o meu escritório, perguntando se eu te vi. Ele parece... frenético."
Eu apenas balancei a cabeça. "Não importa mais."
Quando me levantei para sair, meu celular vibrou novamente, uma nova mensagem. Olhei para a tela. Era Bernardo. "Helena, que porra está acontecendo? Minha assistente acabou de me dizer que você se demitiu. Você não pode estar falando sério. Venha ao meu escritório. Agora. Precisamos conversar. Isso é infantil."
Infantil. Essa era sua palavra favorita para qualquer coisa que desafiasse seu controle. Ele sempre achou que poderia resolver as coisas, oferecer uma concessão, uma bugiganga, e eu voltaria à linha. Ele fez isso inúmeras vezes. Após o aborto, quando eu era uma casca de mim mesma, ele me comprou uma pulseira de diamantes. "Por ser tão compreensiva", ele disse. Quando descobri que ele tinha feito uma viagem de fim de semana com outra associada para uma "reunião com cliente", ele se desculpou profusamente, chamando de "mal-entendido", e reservou uma escapada romântica para nós. Eu, sempre a tola esperançosa, sempre acreditei nele. Sempre aceitei seus gestos superficiais como remorso genuíno.
Mas não desta vez. A náusea de mais cedo voltou, mas desta vez, era puro nojo. O pensamento de suas mãos em mim, suas palavras suaves, suas desculpas calculadas... me dava arrepios.
Ele seguiu com outra mensagem. "Eu vou consertar as coisas, Helena. Seja o que for. Diga o seu preço. Podemos viajar neste fim de semana. Só nós dois. Como nos velhos tempos."
Como nos velhos tempos. Ele achava que poderia me comprar de volta com uma viagem de fim de semana e promessas. Ele achava que eu era tão fácil de manipular.
Meu olhar vagou para a lixeira ao lado da mesa de Dona Célia. Uma embalagem de doce velha e amassada jazia no fundo. Parecia apropriado.
Digitei uma resposta. Uma palavra. "Adeus."
Hesitei, depois acrescentei: "Não entre em contato comigo de novo." E enviei.
Era isso. O corte final. Eu nunca me recusei a ficar na casa dele quando ele pedia, nunca o excluí de verdade. Nenhuma vez em oito anos.
Meu celular permaneceu em silêncio. Por um longo momento, um silêncio enervante se estendeu entre Dona Célia e eu. Parecia que todo o escritório prendia a respiração.
Então, um pensamento súbito e desconhecido me ocorreu. Ele não estava em silêncio porque estava com raiva. Ele estava em silêncio porque estava chocado. Ele genuinamente não conseguia compreender que eu, Helena Tavares, sua "assistente jurídica de graça", sua "mercadoria avariada", finalmente tinha ido embora. Ele ainda achava que eu estava apenas fazendo birra, que eu voltaria rastejando. Ele ainda acreditava que eu era dele.
Ele teria um despertar rude.