Ceccile é uma bela moça, no auge de seus 24 anos, com porte elegante e esguio, finos traços e olhar tranquilo. Perdera ambos os pais quando ainda contava com 16 anos, em uma tentativa de assalto na fazenda onde foi nascida e criada.
Elizabeth Nill, já viúva e única proprietária da suntuosa propriedade, não tinha filhos, e intimamente condenava os pais de Ceccile por ter restringido sua educação ao lar, abdicando-a da comunicação com o mundo externo. Porém, sempre manteve a postura de abster-se sobre a conduta pessoal de seus subordinados com relação aos seus entes. E foi com certa satisfação que a aceitara dentro da mansão como sua dama de companhia quando ela havia completado 10 anos, e dentro do que lhe permitia o bom senso, assumira ela, a sua educação.
Ceccil, como era comumente chamada, sempre teve um comportamento de fácil trato e era dócil por natureza, e Elizabeth, ao confirmar que não havia parentes que pudessem requisitar a tutela de Ceccil, ela assim o fez, sem que Ceccile soubesse.
Observando-a agora, Elizabeth levava a delicada xícara de porcelana à boca e considerava: Devido à sua força de caráter, se Ceccile soubesse o que ela havia feito, certamente não aceitaria.
Mas Elizabeth abominava a ideia de ter seu patrimônio dilapidado pelos poucos parentes distantes que possuía, antes mesmo que seu corpo esfriasse no túmulo ao lado de seu marido. Ainda mais sendo filhos de quem eram, acrescenta Elizabeth em pensamento, ao sorver do seu chá...
Elizabeth a observava ao piano, mas seus pensamentos estavam distantes desse delicioso sarau executado por deslizar de dedos delicados, alongados e perfeitamente treinados de Ceccil. A melodia pairava ao longe, como mero pano de fundo que ressuscitava recordações sombrias.
Elizabeth não possuía afeição a tecnologias modernas como televisão, rádio ou qualquer outro meio de comunicação no mundo que havia criado para si mesma dentro da sua herdade.
Preferia passar suas horas na prática de uma boa leitura, ou na confecção dos aclamados bordados à mão por passatempo, ouvindo boas músicas e não algo do gênero que lhe ferisse aos ouvidos.
Conduta que Ceccile absorvia com a mesma ternura desde a mais tenra infância, e que teria aceitado como qualquer outra determinação de Elizabeth, como sua mentora.
Por julgá-la como o mais perfeito produto de suas obras há muito tempo, Elizabeth a manteve junto a si e por conseguinte afastada até de seus subordinados mais próximos. Atitude que agora, com o câncer a consumindo por dentro, ou até mesmo por este motivo, via-se obrigada admitir que nesse ínterim, não agira com Ceccile de forma tão diferente ao que havia agido o pai dela antes.
O mesmo homem de cultura simples que preteritamente havia julgado negativamente.
Ela, certamente a havia ensinado muito mais do que uma menina vinda de família humilde teria chances de sequer cogitar aprender ou viver. Ceccil era uma dama em porte, conduta, tom de voz e aparência. Fora ensinada a se vestir, maquiar-se e se portar até no mais requintado dos ambientes que lhe fosse imposto, e Ceccil jamais se exaltaria. Quanto a isso, sempre apregoava lhe;
"O grito vem quando a palavra perde a força. Faça com que suas palavras sejam fortes, sempre" - e agora, Elizabeth gostaria de poder gritar.
Ceccile absorveu seus ensinamentos e bebeu das suas palavras sem esforço, com a passionalidade que sempre lhe fora natural, sem nunca sentir necessidade de ir além ou agir com ingratidão. Lia os livros que a sábia senhora indicava que pudesse ler, executava ao piano, com prazer, as melodias que Elizabeth gostava de ouvir e ela montava...
Ah, sim!
Dentre todos os prazeres que sentia em estar ao lado desta senhora que tanto admirava, galopar era o seu ápice! Ceccil tinha a liberdade consagrada pela sábia senhora para estar em qualquer cômodo da magnífica mansão, salvo se determinado cômodo estivesse sujeito a algum tipo de manutenção ou limpeza, se ocorresse, ou saia ela, ou quem quer ali estivesse, teria que retirar-se imediatamente. Esse comportamento de sua parte, e também dos demais subordinados, era igualmente exigido de ambos, também no estábulo, este, que outrora já havia abrigado mais de 15 cavalos de puro sangue e atualmente era mantido a abrigar um único garanhão de pelagem claro acinzentado chamado Wees, que Elizabeth preservou, sabendo ser seu preferido.
Elizabeth intimamente lamentava o que fizera de Ceccil. Sim, havia esculpido na outrora criança, uma bela mulher, mas compreendia que agora estava impotente para preservar o que mais havia de valioso no objeto de sua obra;
A inocência imaculada de Ceccil.
Tão absorta estava, presa em seus próprios pensamentos e divagações, que Elizabeth somente se dera conta que sua pupila havia acabado o concerto, quando esta vem sentar-se delicadamente ao seu lado no sofá, portando uma bandeja de prata com seu licor predileto ao colo.
Elizabeth lhe sorri sutilmente ao servir-se e argumenta;
- Se o dia amanhecer agradável, como promete esta noite de lua cheia e fresca. Seria-me aprazível assistir-lhe cavalgando os prados.
- Claro. - Ceccile assente incomodada. Conhecedora que era dos hábitos de Elizabeth e sua arraigada determinação em jamais sair de sua rotina, a fita discretamente de lado.
- Agora vai e descanse criança. - Elizabeth sorve outro gole de licor ao dispensá-la - Eu não me demorarei em subir também.
Ceccil sente estranho desconforto. Pensa em perguntar se elas não jantariam junto como faziam todas as noites, mas algo no olhar disperso de Elizabeth a impedia de importuná-la. Então se levanta, mas a fita com olhar curioso.
Elizabeth a encara de volta e de cima abaixo, de modo que a faz corar de vergonha.
- Terei visitas aqui, já nas primeiras horas do dia de amanhã.
Ceccile abaixa a cabeça e entende o motivo por trás da mudança na programação matinal. Supondo que Elizabeth esteja muito aborrecida. Já que a senhora havia optado pela reclusão e abominava contato com qualquer pessoa que não a ela. E até mesmo a ela, quando por vezes a queria manter afastada.
Ceccile havia adquirido a habilidade de servi-la em silêncio, fazendo-se imperceptível ao seu olhar.
Hugo Sanders soca a mesa a praguejar com Fintter, seu consultor e advogado pessoal;
- O que faz essa decrépita senhora crer que tenho qualquer interesse em seus alfinetes?! - ignorando a dor em seu pulso levanta o braço ao ar - Ela que os enterre consigo em seu caixão!
Fintter, cujo primeiro nome era Hugo também, havia acabado de informá-lo que uma pesquisa estava sendo feita por uma equipe de advogados e consultores brasileiros, com relação a todos os Sanders, por ordem de uma prima de sua falecida mãe, que ele nunca sequer havia ouvido falar.
Fintter assente e pende a cabeça a aguardar que acalme os ânimos do seu chefe e o vê seguir em direção à frente da janela no suntuoso escritório, sonho de visão de qualquer CEO de empresas, localizado no centro de Nova Iorque.
Hugo Sanders era aclamado o mais responsável pelo pai entre os quatro irmãos e havia assumido os negócios, assim como a chefia do clã de uma família frequentemente turbulenta, quando o pai decidiu ser o momento de afastar-se.
Hugo planejava para alguns meses à frente, tirar uma folga de tudo e todos por dois meses, mas já se via obrigado a adiar seus planos. E isso estava deixando a todos em sua volta com nervos expostos, e o temor por suas cabeças serem cortadas a qualquer motivo havia se instalado entre os subordinados, gerando um verdadeiro caos interno na empresa.
Não bastasse somente isso; Como problemas, tenha visto, nunca chegava desacompanhado de mais problemas.
Hugo havia perdido os pais recentemente em um acidente ao Sul do Pacífico, quando após anos separados, os pais haviam decidido estreitar laços e partiram em uma segunda lua de mel incentivada por ele. E ainda mais recente a irmã, que sofria pelo aborto do que seria seu quarto filho, estava a sofrer também, pela iminente e publicamente anunciada separação, dos quase 16 anos de casada com Clark Stoeler. Sendo este indivíduo considerado por Hugo; um idiota egocêntrico, que tão somente admitia pela irmã, que idolatrava ao irmão com a mais profunda afeição.
Hugo solta um audível suspiro e se volta para Fintter;
- Como está minha agenda para esta tarde?
- Somente um jantar com Connies e associados, estilo Black Tie , às 19 horas.
Hugo contrariado, solta um audível suspiro antes de reclamar - E possivelmente irão levar as esposas...
Fintter sorri fora do seu campo de visão.
- Possivelmente, sim. - responde tão somente a confirmar, já que o Sanders conhecia bem a família que vinha fechando negócios milionários com a sua há mais de três décadas e eram notória e concisamente tradicionalistas.
Não que Hugo fosse contra casamentos. Isso não! Mas ele preferia estar na lista de solteirões mais cobiçados do país, das revistas que eram terminantemente proibidas pelo mesmo, de circular em seu território, do que se ver preso em algum casamento de conveniência com algum cabide de grife, que provavelmente nem poderia tocar entre quatro paredes sob a pena de ser processado. Ou ainda pior: Acordar na manhã seguinte ao seu casamento com uma mulher que conseguisse lhe convencer de que o via como homem e não a uma máquina de fazer dinheiro, para descobrir que ela não havia se casado com ele, e sim com seus bens!
- Vou visitar Giulia, - Hugo interrompe os pensamentos de Fintter - de repente eu consigo convencê-la a me acompanhar nesse jantar.
Giulia, apesar de ser um ano e alguns meses mais velha do que o irmão - pela sua educação e natural passividade –, evitava a qualquer custo contrariá-lo, e assim também era antes, com o pai. Sendo que o pai, fora definitivamente o responsável por Giulia ter se casado com Clark -, pensa Fintter com desgosto.
- Não creio que seja uma boa ideia... - considerou Fintter quase num murmúrio.
Hugo Sanders senta em sua cadeira a estudá-lo e Fintter fica tenso - Creio que seja - faz uma pausa a escolher bem as palavras –, desgastante, para alguém que há menos de três dias teve alta hospitalar.
Mas por dentro Fintter fervia e queria ter agarrado o chefe pelo colarinho e esbravejado; Canalhice sua, Sanders! Esconder-se atrás da irmã, quando poderia estalar os dedos e num piscar teria milhares de mulheres dispostas a beijar o chão que você pisa!
Fintter prende o ar em seus pulmões em busca de controle. Na verdade não considerava o chefe um canalha, mas quando se tratava de Giulia, ele tinha que se desdobrar em vigilância para não agir sem razão.
Hugo solta um suspiro impaciente.
Agradava-lhe a companhia de Fintter, mas nem de longe poderia considerar o advogado como igual e jamais lhe daria abertura para confessar o que evidentemente sentia pela sua irmã. Essa era a sua decisão.
Por mais que tivesse sofrido em seu casamento com Clark, permitir que ela se envolvesse emocionalmente com um subalterno, alguém tão abaixo do seu nível social, estava fora de questão!
Mesmo que fosse alguém que ele estimasse como estimava Fintter. Clark era um boçal egocêntrico, mas possuía um nome conceituado e bens. E na tentativa de por peso em seus argumentos mentais, lembrava-se de seus sobrinhos.
Giulia amava o boçal do Clark, se não amasse, não teria lhe dado três filhos e engravidado ainda uma quarta vez.
Para finalizar; argumentava para si mesmo que seus sobrinhos mereciam crescer ao lado do pai deles.