Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Onde a Estrada nos Levou
Onde a Estrada nos Levou

Onde a Estrada nos Levou

Autor:: Poio
Gênero: Romance
Nina nunca imaginou que a rotina da faculdade pudesse ser transformada por um simples trajeto de carro. Entre livros, provas e a pressão de suas escolhas, ela encontra Lucas, seu motorista, que guarda segredos e experiências que o fazem tão misterioso quanto irresistível. O que começou como olhares discretos e conversas no caminho, transforma-se em uma paixão que desafia regras, preconceitos e medos. Em uma estrada onde o destino parece traçado, será Nina capaz de seguir seu coração até onde a estrada a levar?

Capítulo 1

O som do motor cortou o silêncio do meu apartamento antes mesmo de eu abrir os olhos. Era uma daquelas manhãs em que o mundo parecia pesado demais, e eu não tinha energia para encará-lo. Mais um dia de faculdade, mais uma rotina que eu arrastava com a sensação constante de estar atrasada para a própria vida.

Meu pai já não estava em casa há semanas, ou talvez fosse só mais uma viagem de negócios. Ele sempre foi presente quando queria, mas a vida adulta dele, cheia de compromissos e viagens, deixava pouco espaço para nós. Gabriel ainda dormia profundamente, alheio à minha inquietação. Eu, por outro lado, tinha aprendido a lidar com a solidão desde cedo. A morte da minha mãe ainda deixava um espaço vazio que ninguém conseguia preencher. A ausência constante de meu pai apenas reforçava aquela sensação de que, no fundo, eu precisava cuidar de mim mesma.

Desci as escadas com o peso da mochila no ombro e os olhos semicerrados pelo cansaço. O carro já estava parado na garagem. Lucas estava encostado no capô, com a postura calma que sempre me irritava e, ao mesmo tempo, me fazia reparar nele. Ele levantou a mão, sorrindo levemente.

- Bom dia, Nina.

Segurei minha respiração e passei direto, sem sequer olhar para ele. Meu silêncio não era por maldade; era um escudo, uma maneira de manter distância de qualquer coisa que pudesse me puxar para fora da minha rotina. Lucas apenas observou, imóvel, sem uma expressão de aborrecimento. Eu me perguntava como ele conseguia ser tão paciente.

Entrei no carro, jogando a mochila no banco de trás, evitando qualquer contato visual. Quando o carro começou a se mover, o silêncio tomou conta. Havia algo nele que me incomodava e me atraía ao mesmo tempo. Não era uma sensação clara, apenas um reconhecimento: ele era... gato. Não era um pensamento consciente, mas o meu cérebro não conseguia ignorar a presença dele.

- Está frio hoje, não acha? - ele comentou de forma casual, como se estivesse tentando quebrar o silêncio.

Arqueei uma sobrancelha e murmurei:

- Não é da sua conta.

Minha resposta foi mais dura do que pretendia. Não queria me mostrar vulnerável de forma alguma. Lucas apenas sorriu, pequeno e tranquilo, sem qualquer sinal de ofensa. Era irritante. Como alguém podia permanecer calmo diante da minha indiferença? Eu deveria me sentir irritada, e de fato me sentia, mas havia outra sensação misturada ali, algo que eu não queria reconhecer.

Olhei pela janela, fingindo me concentrar na estrada que se estendia à frente. Cada árvore, cada placa, cada curva parecia mais longa do que o normal. Meu cérebro, no entanto, insistia em voltar para ele. Lucas dirigia com cuidado, os olhos atentos ao trânsito, e de vez em quando seu olhar parecia cruzar o meu no retrovisor, apenas por um instante. Eu não quis admitir, mas aquilo me deixava inquieta. Não era que eu estivesse interessada; era apenas... curiosidade. Um reconhecimento silencioso de que ele era atraente, sem que eu quisesse me dar conta disso.

O trajeto continuava, e eu me afundei em pensamentos sobre a faculdade. Trabalhos, prazos, notas... tudo parecia urgente demais, mas ainda assim, minha mente voltava para ele. Lucas não era invasivo, não falava demais. Ele simplesmente existia, ali, com uma presença calma que me fazia sentir que estava sendo observada, sem ser invadida. Era irritantemente agradável e, de certa forma, perigoso para quem, como eu, não queria se aproximar de ninguém.

O carro finalmente parou em frente à faculdade. Lucas desligou o motor e me lançou um olhar discreto, como se esperasse alguma reação minha. Não deu certo. Eu apenas segurei minha mochila com firmeza e saí, ignorando a necessidade de responder a qualquer coisa.

- Até amanhã. - ele disse, com a mesma calma de sempre.

- Hm. - murmurei, sem me virar.

Enquanto caminhava pelos corredores da faculdade, senti olhares curiosos. Minhas amigas logo perceberiam que eu estava mais introspectiva do que de costume. Laura e Bela provavelmente tentariam me arrancar um sorriso, me fazer conversar sobre alguma coisa, mas eu não estava pronta para isso. Não queria compartilhar pensamentos sobre o carro, sobre Lucas, sobre qualquer coisa que pudesse me fazer parecer vulnerável. Vulnerabilidade era um luxo que eu não podia me dar.

Mesmo assim, havia uma pequena voz dentro de mim que insistia em notar sua presença. Ele era mais do que atraente; tinha aquele tipo de segurança silenciosa que fazia meu coração acelerar sem motivo aparente. Era irritante e, ao mesmo tempo, intrigante. Eu sabia que nada daquilo deveria me importar. Não agora. Mas, por um instante, eu permiti que meu olhar vagasse em direção ao lugar onde ele teria estacionado o carro, imaginando seu rosto, a forma como segurava o volante, seu sorriso tranquilo que eu ainda não via direito.

Sentei-me, abri meu caderno e tentei me concentrar nas anotações. Mas mesmo entre fórmulas e definições, o pensamento dele invadia minha mente, insistente. Eu neguei, fechei os olhos por um instante e respirei fundo. A estrada estava à minha frente, mas eu não precisava me distrair. Pelo menos não agora.

Mas, mesmo sem admitir, algo me dizia que aquela estrada já estava me levando a algum lugar... e que Lucas, de alguma forma, já estava na direção.

Sentei-me na primeira fileira da sala de aula, tentando concentrar-me nas anotações que o professor espalhava pelo quadro. Mas, como sempre, minha mente insistia em vagar. O lápis girava entre meus dedos enquanto eu tentava focar nas fórmulas de psicologia comportamental, mas era impossível ignorar a lembrança do trajeto até a faculdade.

Não era apenas o carro, ou a estrada, ou o som suave do motor. Era Lucas. Não podia dizer que me interessava por ele - ainda não. Mas havia algo nele que me fazia prestar atenção, mesmo quando eu jurava a mim mesma que não ligava para nada além da minha própria vida. A forma como ele dirigia, o cuidado com que olhava pelo retrovisor, até mesmo aquele leve sorriso que ele tentava esconder... tudo isso permanecia comigo, silencioso e insistente.

Enquanto o professor falava sobre teorias de comportamento humano, eu observava discretamente os colegas de classe, tentando me distrair. Laura e Bela estavam nas últimas filas, cochichando e rindo baixinho, sem perceber que eu estava mergulhada em pensamentos muito mais complexos. Eu não me sentia triste, mas sentia uma estranha inquietação, como se algo estivesse prestes a mudar, mesmo que eu não quisesse admitir.

O intervalo chegou, e eu caminhei até o pátio sem pressa. Respirei fundo o ar frio da manhã, sentindo a brisa tocar meu rosto. Algumas pessoas passavam apressadas, rindo ou discutindo sobre trabalhos e provas. Eu permanecia observando, com os braços cruzados, tentando encontrar algum ponto de referência no caos da faculdade.

Foi então que notei um grupo de alunos olhando na direção do estacionamento. Meu coração acelerou por um segundo, e imediatamente me dei conta do porquê: era Lucas, estacionando o carro, como se tivesse seguido meus passos sem que eu percebesse. Ele não me olhou diretamente, mas algo na sua postura parecia... ciente de mim, mesmo que eu quisesse ignorar.

Sacudi a cabeça, tentando afastar o pensamento. Não era hora de distrações. Eu tinha provas, trabalhos e uma agenda cheia. Nada de motorista gato, nada de pensamentos indesejados. E, ainda assim, não conseguia evitar a sensação de que algo estava prestes a acontecer. Algo pequeno, talvez, mas importante.

Voltei para a sala, fingindo não ter visto nada. Mas minha atenção estava dividida entre as anotações e a lembrança do sorriso dele. Era irritante como alguém podia ser tão tranquilo e, ao mesmo tempo, tão marcante sem fazer esforço algum. Eu deveria me concentrar, eu dizia a mim mesma, mas cada vez que fechava os olhos, via novamente aquele olhar calmo e firme.

Quando a aula terminou, Laura e Bela me puxaram para o corredor, rindo e comentando sobre alguma série nova que estavam acompanhando. Eu respondi com breves acenos e murmúrios, sem realmente participar da conversa. Elas perceberam meu silêncio, mas não insistiram. Pelo menos não naquele momento.

Capítulo 2

Depois da última aula, Laura e Bela me puxaram para o corredor, rindo como sempre, falando sobre séries, provas e pequenas fofocas da faculdade. Eu tentava acompanhar, respondendo com murmúrios e sorrisos leves, mas meu pensamento ainda estava parcialmente no carro, no trajeto da manhã.

- Nina, você vai para casa agora? - perguntou Bela, ajeitando a mochila nas costas.

- Vou para casa, sim. - respondi, simplificando.

- Então vem lá em casa, precisamos terminar aquele trabalho de grupo. - disse Laura, empolgada. - Podemos dividir os capítulos e já adiantar umas coisas antes do prazo.

Concordei com um aceno, sem perder tempo. Não porque estivesse ansiosa para passar tempo com elas, mas porque dividir o trabalho significava que poderia sentar e pelo menos ficar distraída de pensamentos indesejados.

Caminhamos juntas até as casas de Bela e Laura, cada passo uma mistura de barulho da cidade e meus pensamentos vagando sem controle. Laura, como sempre, parecia radiante e falante. Bela, mais pragmática, falava sobre o trabalho, mas não conseguia deixar de rir das piadas de Laura. Eu permanecia silenciosa, absorvendo tudo, como se estivesse observando o mundo de fora.

Quando finalmente entramos na sala da Bela, com o trabalho espalhado pelo chão e os cadernos abertos, Laura não conseguiu se conter.

- E aí, Nina, você viu o motorista novo? - disse, com um sorriso maroto, sentando-se cruzando as pernas.

Olhei para ela, confusa, sem saber exatamente a quem ela se referia.

- Motorista novo? - perguntei, tentando soar indiferente.

- Ah, não me diga que você ainda não percebeu! - Bela riu, apontando para mim. - O cara que te leva de carro! O Lucas!

Meu corpo congelou por um instante. Eu não queria que meus pensamentos sobre ele fossem tão fáceis de notar, mas era inevitável. Laura continuou, sorrindo de forma travessa:

- Gente, vocês não acham ele gato demais? Aquela postura, o jeito calmo... Não é só eu que reparei, né?

Bela deu uma risadinha cúmplice, mexendo nos papéis do trabalho, mas sem conseguir esconder a própria curiosidade.

Eu apenas arqueei uma sobrancelha e mantive o silêncio, fingindo que aquilo não me atingia. Mas por dentro, senti uma mistura de irritação e... algo que eu não queria nomear. Não era apenas o fato de ele ser atraente, mas a forma como minhas amigas tinham percebido algo que eu mesma ainda não queria admitir.

- Bom, é só um motorista - murmurei, tentando me convencer de que não deveria me importar.

Laura soltou um risinho de escárnio:

- Só um motorista? Ah, por favor, Nina! A gente tá falando de um homem gato que dirige melhor que muito piloto de corrida que eu conheço!

Bela riu, batendo palmas, e eu senti uma pontada de constrangimento. Não queria que eles soubessem que eu tinha reparado no sorriso dele, nos olhos atentos, no modo como segurava o volante. Não era justo admitir, mas eu não podia ignorar que havia algo ali que me chamava atenção.

Sentei-me no chão, cruzando as pernas, tentando me concentrar nos papéis do trabalho. Mas minha mente continuava a traçar o rosto dele em detalhes: a mandíbula forte, os olhos escuros, o cabelo bem cortado. Aquilo me deixava inquieta, mas eu me recusava a admitir. Ele não significava nada além de um motorista. Nada além de alguém que me transportava de um ponto a outro.

- Nina? - Laura me cutucou, chamando-me de volta à realidade. - Você tá aí?

- Hm, tô. - respondi, com a voz mais baixa do que pretendia. - Vamos começar o trabalho.

Enquanto organizávamos os papéis e discutíamos as tarefas, não pude evitar pensar no trajeto de volta para casa. Lucas estaria lá, provavelmente já esperando, calmo e silencioso, como sempre.

***

O resto do dia na faculdade passou em uma mistura de aulas, anotações e intervalos curtos em que Laura e Bela tentavam me arrancar sorrisos e comentários. Eu respondia com breves acenos ou risadinhas contidas, mantendo a postura de sempre: presente fisicamente, mas emocionalmente distante.

No último horário, fizemos uma pausa para o café da tarde. Sentadas no pequeno café da faculdade, Laura começou a falar sobre a ida ao shopping depois da aula.

- Nina, vamos ao shopping, preciso comprar umas coisas para o trabalho de amanhã - disse ela animada. - E você precisa ver algumas roupas novas.

- Hm... - murmurei, tomando um gole do meu café. - Pode ser.

Bela me lançou um olhar cúmplice, como se dissesse "ela finalmente aceitou se divertir". Eu tentei ignorar, mas por dentro me sentia mais leve. Não que eu quisesse admitir, mas sair da rotina de livros, provas e silêncio era algo que começava a me agradar.

Quando a aula terminou, Laura, Bela e eu caminhamos até o estacionamento. E lá estava Lucas, encostado no carro, calmamente esperando. O sol da tarde iluminava o contorno do seu corpo enquanto ele conferia o retrovisor e ajustava o banco. Por um instante, minha respiração falhou. Eu não podia admitir, mas ele era... realmente atraente. Não de uma forma óbvia ou exagerada, apenas naturalmente.

- Boa tarde, Nina. - disse ele, com aquele tom calmo que sempre me deixava inquieta.

- Boa tarde. - respondi, evitando qualquer olhar direto.

O trajeto até o shopping foi silencioso, como sempre. Ele dirigia com cuidado, mantendo o carro estável. Eu fiquei observando pelas janelas, mas de vez em quando meu olhar se desviava para ele. Tentava convencer-me de que não significava nada. Afinal, ele era apenas meu motorista. Nada mais.

No shopping, Laura e Bela me arrastaram para lojas, conversando animadamente sobre roupas, acessórios e sapatos. Eu tentava prestar atenção, mas meu cérebro continuava voltando para o trajeto e para Lucas. Ele não era invasivo, nem insistente. Apenas existia. E era impossível ignorar o quanto ele era atraente - o tipo de pessoa que não precisava falar nada para chamar atenção.

Quando finalmente saímos do shopping, já no final da tarde, estava exausta, mas de uma forma boa. Laura e Bela se despediram com abraços e promessas de nos encontrarmos novamente para continuar o trabalho. Entrei no carro e encontrei Lucas aguardando.

- Vamos? - ele perguntou, como se fosse apenas uma formalidade.

- Sim. - respondi, rapidamente, sem levantar os olhos para ele.

O caminho de volta para casa foi tranquilo. Eu olhava para fora, observando as ruas da cidade se enchendo de luzes do fim de tarde, mas não podia deixar de notar Lucas. O jeito como ele dirigia, os olhos atentos, o sorriso discreto que aparecia quando achava seguro. Aquilo me incomodava. Eu não queria sentir nada, e ainda assim, havia algo nele que me chamava atenção.

Ao chegar em casa, fomos recebidos por Dona Célia, nossa ama. Ela tinha uma presença doce e acolhedora, sempre garantindo que a casa estivesse impecável e que o jantar estivesse pronto na hora certa.

- Boa tarde, Nina, Gabriel! - disse ela com seu sorriso caloroso. - Já deixei tudo pronto para o jantar. Só lavem as mãos e venham para a mesa.

Gabriel, sempre barulhento e animado, correu para o banheiro, rindo de alguma coisa que só ele entendia. Eu respirei fundo, sentindo o cheiro da comida que Dona Célia preparava com cuidado e capricho. O aroma de arroz, feijão, legumes refogados e frango assado enchia a cozinha, tornando o ambiente acolhedor.

Sentei-me à mesa, cruzando as mãos sobre o colo, e observei Gabriel começar a falar sobre a aula e as atividades do dia. Eu respondia com palavras curtas, concentrada na comida e no silêncio confortável que Dona Célia proporcionava. Ela sempre tinha aquele jeito de cuidar da gente sem interferir demais, permitindo que a casa fosse um espaço seguro e familiar.

Enquanto comíamos, minha mente vagava novamente para o trajeto de Lucas, para o jeito como ele segurava o volante, os olhos atentos pelo retrovisor e a postura calma que parecia desafiar qualquer barreira que eu tentasse colocar entre nós. Não era amor, não ainda. Mas era algo. Algo que eu ainda não queria reconhecer.

O jantar terminou, e Dona Célia recolheu os pratos com eficiência, sorrindo para nós. Gabriel foi estudar para a prova de amanhã, e eu subi para o meu quarto, sentindo a mistura de cansaço e inquietação. Deitei na cama, fechando os olhos por alguns minutos, mas o rosto de Lucas invadiu minha mente, não era um pensamento consciente, nem um desejo aberto, apenas uma percepção silenciosa: ele era atraente, interessante, e já estava começando a fazer parte da minha rotina.

Capítulo 3

O dia seguinte começou com o sol ainda tímido no céu. O despertador tocou e eu me levantei devagar, ainda sentindo o peso da rotina. Meu pai estava em viagem novamente, como sempre, e Gabriel ainda dormia profundamente. Respirei fundo, tentando espantar a sensação de solidão que insistia em me acompanhar todas as manhãs.

Desci até a garagem e encontrei Lucas, já ali, como sempre, com a postura calma e séria que me irritava e, ao mesmo tempo, me fazia prestar atenção. Ele levantou a mão para cumprimentar.

- Bom dia, Nina. - disse, sorrindo de forma discreta.

Fingi não ouvir. Mantive o olhar no carro, ajustando a mochila. Não era que eu quisesse ser grosseira; era que ainda não queria me envolver, ainda não queria dar espaço para qualquer sentimento que pudesse me distrair da minha rotina. Lucas apenas sorriu, como se tivesse esperado minha indiferença, e entrou no carro.

O trajeto começou silencioso, o motor quase sussurrando enquanto eu olhava pela janela. Mas não conseguia parar de notar detalhes: o jeito que ele segurava o volante, a firmeza nos braços, os olhos atentos pelo retrovisor. Algo dentro de mim reagia, uma sensação que eu não queria nomear. Não era interesse, não ainda. Era apenas... percepção. Reconhecimento de que ele era atraente e... perigoso para minha disciplina emocional.

Ao chegar à faculdade, Laura e Bela já estavam esperando. Como sempre, correram para me puxar para a conversa.

- Então, Nina! Como foi o trajeto hoje? - Laura perguntou, sorrindo.

- Normal. - respondi, curta.

- Normal? - Bela riu, cruzando os braços. - Nossa, você é impossível! Gente, aquele Lucas é muito gato. Não vai me dizer que você não reparou?

Eu apenas arqueei a sobrancelha e olhei para os lados, fingindo indiferença. Mas não pude deixar de perceber o quanto minhas amigas estavam certas. Ele era atraente, não havia como negar. Mas eu não iria admitir, nem para elas, nem para mim mesma.

As aulas passaram devagar, com minhas amigas tentando me puxar para conversas, risadas e pequenas distrações. Eu respondia, mas permanecia fechada, concentrada em manter meu controle. Mesmo assim, por dentro, cada pequeno detalhe do trajeto da manhã ainda pairava na minha mente: a serenidade de Lucas, o sorriso discreto, o modo como ele parecia sempre atento a tudo.

Quando o último horário acabou, Laura sugeriu irmos ao shopping para terminar algumas compras. Eu aceitei com um murmúrio, mais por hábito do que por vontade real de socializar. Ao sairmos para o estacionamento, lá estava Lucas, parado ao lado do carro, o corpo relaxado, mas firme.

- Vamos? - ele perguntou, e eu apenas assenti.

O caminho até o shopping foi silencioso. Eu ficava olhando para fora, mas de vez em quando meus olhos se desviavam para ele. Ele não falava, não precisava falar. Havia algo no jeito que ele dirigia, no cuidado com o carro, que me deixava inquieta e, ao mesmo tempo, estranhamente confortável. Era irritante. Eu não queria sentir nada, mas não podia ignorar o efeito silencioso que ele causava.

No shopping, Laura e Bela correram para as lojas, conversando e rindo, enquanto eu tentava me concentrar nas roupas e objetos ao redor. Mas minha mente continuava voltando para Lucas, para a presença dele no carro, para o modo como ele parecia... perfeito sem esforço. Não era amor, ainda não. Era apenas a percepção silenciosa de algo que estava começando a me puxar para fora da minha bolha de isolamento.

Após algumas horas, voltamos para casa, e Lucas nos trouxe de volta sem falar muito, apenas dirigindo calmamente. Ao chegar, Dona Célia já havia preparado o jantar. Gabriel me recebeu com abraços e perguntas sobre a tarde, enquanto eu me sentava à mesa, tentando organizar meus pensamentos.

O jantar passou em uma mistura de risadas leves de Gabriel, pequenas conversas com Dona Célia e meus pensamentos voltando para Lucas. Ele não estava presente fisicamente, mas sua imagem invadia minha mente de forma insistente: o jeito como dirigia, os olhos atentos, a calma. Uma parte de mim já começava a perceber que não seria fácil ignorá-lo por muito tempo.

***

O jantar terminou com Gabriel reclamando de que o arroz estava um pouco salgado, e Dona Célia rindo das observações do meu irmão, mesmo enquanto recolhia os pratos com eficiência e cuidado. Eu apenas observei, sentindo o conforto da casa, o aroma de comida caseira e a segurança que aquele ambiente sempre me proporcionava. Mesmo com a ausência do meu pai, que viajava constantemente, havia algo reconfortante naquele cotidiano que permanecia previsível.

Depois de lavar as mãos e me sentar na sala, Gabriel começou a falar sobre o que aprendera na escola, sobre os amigos e as tarefas que precisava terminar. Ele falava rápido, entusiasmado, e eu respondia com breves acenos ou murmúrios, ouvindo mais do que participando. Havia um certo prazer silencioso em apenas observá-lo: o jeito como ele gesticulava, a forma como se empolgava com detalhes que para mim pareciam triviais. Era uma das poucas vezes em que me permitia sentir algo genuíno, sem barreiras, sem medo de parecer vulnerável.

Enquanto Gabriel terminava de contar uma história sobre um amigo que havia se metido em confusão na escola, minha mente divagava para o trajeto de volta do shopping. Lucas estava ali, silencioso, mas presente. Cada detalhe dele parecia gravado na minha memória: a postura reta, a firmeza nos braços, os olhos atentos, o modo como ajustava o volante com naturalidade. Eu não queria pensar nele, não queria permitir que qualquer sensação se formasse, mas era impossível ignorar. Havia algo nele que me chamava atenção, de forma silenciosa e insistente.

- Nina, você está aí? - Gabriel perguntou, interrompendo meus pensamentos.

- Hm, tô. - murmurei, sem olhar diretamente para ele.

Ele franziu a testa, percebendo meu silêncio, mas apenas deu de ombros e voltou a se concentrar em seu caderno de exercícios. Eu suspirei, sentindo o peso da rotina que ainda precisava encarar: trabalhos da faculdade, provas, compromissos e a sensação constante de que algo estava mudando em mim, embora eu ainda não pudesse definir o quê.

Mais tarde, depois que Gabriel foi estudar, eu me sentei no sofá, envolta pelo silêncio da casa. Dona Célia estava na cozinha, provavelmente organizando a louça ou preparando algo para amanhã. Eu deixei minha mente vagar, observando o teto, as paredes, o relógio. Cada tique-taque parecia lembrar que o tempo estava passando e que a presença de Lucas no meu dia, mesmo que silenciosa e controlada, estava começando a se tornar significativa.

Não era amor, não ainda. Era apenas a percepção de algo diferente, algo que mexia com minhas certezas e minha necessidade de controle. Ele era atraente, sim, mas não era só isso. Era o modo como existia, como se encaixava na minha rotina sem esforço, sem exigir atenção, mas ainda assim tornando-se impossível de ignorar. E isso me incomodava.

No dia seguinte, a rotina recomeçou. O despertador tocou cedo, e mais uma vez me levantei sozinha. Gabriel ainda dormia, e meu pai continuava em viagem. Desci até a garagem, e lá estava Lucas, encostado no carro, como sempre. A visão dele era... perturbadoramente tranquila, e eu tentei, mais uma vez, manter meu rosto sério.

- Bom dia, Nina. - Ele disse, com aquele sorriso discreto que parecia atravessar qualquer barreira.

- Bom dia. - respondi, breve, evitando contato visual.

O trajeto de carro foi silencioso, como sempre. Mas dessa vez, eu notei pequenos detalhes que antes passavam despercebidos: a forma como ele respirava calmamente, o leve movimento do ombro ao ajustar o banco, a atenção aos detalhes da estrada. Cada gesto, aparentemente simples, parecia carregar um tipo de elegância que eu não estava acostumada a observar. E, por mais que tentasse me convencer de que era irrelevante, meu cérebro não deixava de registrar cada detalhe.

Ao chegar à faculdade, minhas amigas já me esperavam, animadas como sempre. Laura correu até mim, puxando minha mochila, e começou a conversar sobre o trabalho, enquanto Bela comentava sobre a roupa que queria comprar no final de semana. Eu respondia de forma curta, ainda imersa nos pensamentos sobre o trajeto e Lucas.

- E aí, Nina? - disse Laura, inclinando-se para mais perto. - Então, o motorista novo, hein? Você não acha ele... bom, gostoso?

Olhei para ela, surpresa, e respirei fundo. Não queria admitir nada, mas sabia que não podia negar. Lucas era atraente, sim, mas eu não estava pronta para permitir que qualquer sentimento surgisse.

- Hm... - murmurei, desviando o olhar para os papéis do trabalho. - Ele é só o motorista.

Bela riu baixinho, cruzando os braços. - Só o motorista, é? Ah, por favor! Ele tem presença, Nina! Aquele jeito calmo, o sorriso discreto... Não me diga que você não reparou.

Eu arqueei uma sobrancelha, tentando manter meu controle. Não queria que elas percebessem qualquer tipo de distração da minha parte. E, no fundo, não queria admitir para mim mesma que cada trajeto no carro estava se tornando... diferente.

O dia passou com aulas, intervalos curtos e conversas discretas com colegas. Cada vez que eu saía para o estacionamento, lá estava Lucas, silencioso, firme, sempre atento. Eu tentava ignorar, mas era impossível não reparar no modo como ele se movia, como mantinha o controle do carro e da situação. Ele não precisava falar nada para se tornar inesquecível.

À tarde, Laura e Bela sugeriram uma nova ida ao shopping. Eu relutante, aceitei, mais por hábito do que por vontade. Caminhamos juntas pelas lojas, observando roupas, acessórios e objetos diversos, enquanto eu tentava manter a atenção no que era supérfluo. Mas, inevitavelmente, meus pensamentos voltavam para o trajeto de volta, para o silêncio de Lucas, para a presença dele que parecia tão calma e firme, mas ao mesmo tempo tão inquietante para mim.

Quando finalmente retornamos para casa, a rotina se repetiu: Lucas nos trouxe, Dona Célia já havia preparado o jantar, Gabriel reclamava de pequenas coisas com humor, e eu me sentava em silêncio, absorvendo o conforto da casa. Mas mesmo ali, na segurança do meu lar, não conseguia afastar os pensamentos sobre Lucas. Não era amor, não ainda. Era apenas percepção, curiosidade, e uma sensação incômoda que não podia ignorar: ele estava entrando na minha rotina, silenciosamente, sem esforço, e eu ainda não sabia como reagir a isso.

Enquanto subia para o meu quarto, após o jantar, percebi que estava exausta, mas de uma forma diferente. O cansaço não vinha apenas do dia cheio, das aulas ou do trabalho. Era o peso de tentar manter meu controle, de resistir a algo que eu ainda não queria admitir. Fechei os olhos na cama, respirando fundo, tentando afastar a imagem dele. Mas Lucas, com sua presença calma e irresistível, já havia se tornado uma parte inevitável da minha rotina.

E, mesmo que eu não quisesse admitir, sabia que a estrada que me levava até ele, todos os dias, estava apenas começando.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022