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Onde as asas crescem

Onde as asas crescem

Autor:: sofabarrios17
Gênero: Romance
A segunda parte de uma saga inesquecível sobre o poder do amor, da família... e da liberdade de escolher quem ser: A Aia e o Jovem Herdeiro. Anos depois daquele casamento à beira-mar, Amélia não é mais apenas "a serva que ele amava". Ela agora é mãe de dois filhos, irmã, esposa, mulher... e guardiã de uma história que ainda não se recuperou completamente. Gabriel, seu filho mais velho, cresce em meio a perguntas que nem sempre têm respostas. Isabelita luta para se afastar de casa, em meio a bisturis e ameaças invisíveis. Tomás, o caçula, mal anda, mas já carrega nos ombros o legado de uma família que aprendeu a se reerguer. Luciano tenta se apegar ao que construiu, mas quando o passado o atinge sem aviso, nem mesmo o amor parece suficiente para proteger o que ele ama. Antigos inimigos retornam com sede de vingança. Segredos de família vêm à tona. E enquanto o mundo parece tremer, Amélia enfrenta a pergunta mais difícil: Quanto é preciso deixar ir para voar? Com personagens cativantes, reviravoltas comoventes e uma narrativa envolvente desde a primeira página, este romance nos lembra que algumas raízes dão frutos... e outras, asas.

Capítulo 1 Quando a Lua caiu do céu

O mar estava parado naquela tarde. Tão parado que era assustador. Uma imensa e trêmula camada de prata que não ousava se mover, como se soubesse que qualquer onda poderia desencadear o caos. Mas o sangue não conhece silêncio.

Amélia caiu de joelhos na areia molhada. Não foi uma queda repentina, mas uma rendição. Como se seu corpo, dominado por algo invisível, tivesse se soltado. Suas mãos tremiam enquanto se agarravam à praia, afundando na mistura de sal e terra, buscando se ancorar a algo. A qualquer coisa. À vida que se esvaía.

Ela usava um vestido branco. Um simples, daqueles que se usa para celebrar. Para receber alguém. Para lembrar que há dias que valem a pena vestir-se de esperança. Mas aquele branco, antes tão puro, agora estava silenciosamente manchado, escurecido pela lama, pelo sangue, pelo medo que não avisa. A dor, quando chega tão fundo, não ataca. Ela se infiltra, se infiltra. Ela se instala.

"Corra!" Uma voz gritou, distante, quebrada pela urgência e pelo desespero.

Pés descalços batiam na areia. Alguém corria. Um jovem, talvez um vizinho, talvez um estranho. Ele carregava um fardo agarrado ao peito. Algo chorando. Algo pequeno. Algo vivo. Um bebê.

Luna.

O nome perfurou Amélia como um pedaço de vidro em sua alma. Ela queria se levantar, correr, gritar, fazer alguma coisa. Mas não conseguia. O sal do mar se misturava ao sal de suas lágrimas, desenhando rios em suas bochechas.

Onde estava Tomás? Onde estava Gabriel? Luciano? Sua mente repetia os nomes como uma prece frenética, buscando encontrar significado, alguma ordem, alguma lógica para acalmar o caos. Mas não havia lógica. Apenas ruído.

Os gritos cresciam ao seu redor como ondas negras, quebrando repetidamente, implacáveis. Uma mulher ligou para o 911 enquanto soluçava. Outra tirou uma jaqueta e tentou cobri-la com ela. Falaram com ela, tocaram-na, tentaram ajudá-la. Mas Amélia não ouviu. Ela não sentia. Apenas respirava instintivamente.

O frio a penetrava por dentro. Não era o vento. Não era a brisa úmida do mar. Era algo que se rompera lá no fundo, uma fenda invisível que dividia seu mundo em dois. Um antes. Um depois. Um abismo.

Então, um assobio agudo cortou o ar. Um segundo depois, o trovão:

Bum!

Um tiro. Forte. Final. Como um ponto final forçado no meio de uma frase inacabada. O choro do bebê parou por um segundo. O mar engoliu um sapatinho como se também quisesse esconder algo.

"Eles a levaram", sussurrou alguém por perto.

"Quem?"

"A menina. O bebê.

Luna."

E então não houve pensamento. Apenas ruído. Vozes que não diziam nada. Sirenes que gritavam ao longe. Areia em sua boca. Sal em seus cílios. E uma promessa silenciosa que Amélia sentiu nascer violentamente dentro de seu peito:

Desta vez, não tirarão mais nada de mim.

A ambulância cheirava a metal quente, desinfetante e urgência. O interior era um mundo à parte, branco e hostil, alheio às regras do que estava lá fora. Um paramédico falava com ela. Dizia o nome dela. Pedia que respirasse. Mas Amelia não conseguia ouvi-lo. Ela olhava para o teto, sem enxergar. A respiração dele soava distante, como se viesse de outro corpo. Um corpo que não era o dela. Um corpo vazio.

Ela sentiu a agulha perfurar sua pele. A intravenosa. O líquido frio entrando em seu braço. Uma tentativa de mantê-la ali. Deste lado da vida.

"Você está estável. Escute-me, por favor. O bebê está vivo, você está ouvindo? Está vivo."

Amelia fechou os olhos. Mas não era aquele bebê que ela procurava. Era outro. Um com um nome. Um que ela imaginara em seus braços. Um que ela sentira se mover dentro de seu útero.

Uma enfermeira se aproximou com algo minúsculo nas mãos. Um recém-nascido vermelho e furioso. Chorava como se o mundo já estivesse doendo. Como se soubesse.

"Menininha!" disse a enfermeira. "Ela está respirando bem. Não está mais machucada. Ela está aqui, viu?"

Mas não era Luna. Era outra menina. Outro destino. Outro começo.

"Levaram ela", murmurou Amelia, sem olhar para ninguém.

"Não, ela está aqui. Você a tem aqui com você."

Não estavam falando da mesma menina. Ela sabia. Sua alma sabia. Um segundo. Depois outro. E o tempo começou a retroceder, como se buscasse respostas no que já havia sido.

Doze Semanas Antes

Gabriel havia deixado um desenho na mesa da sala de jantar. Uma árvore com asas. Cores desajeitadas, traços imperfeitos, mas cheios de significado. Ao lado dela, Tomás dormia entre brinquedos, a boca entreaberta, uma das mãos segurando um dinossauro de plástico.

Amelia, grávida de nove meses, acariciava a barriga com ternura. Cada movimento dentro dela era um milagre. Cada pequeno chute, uma promessa do futuro. Lá fora, gaivotas voavam sobre a costa, gritando sua liberdade.

Luciano entrou com um saco de pão quente nas mãos e uma notícia na boca:

"Encontrei-o."

Amélia ergueu os olhos, intrigada.

"Quem?"

"Mauro Galván. Ele voltou. Ele voltou para a cidade."

O nome a atingiu como um golpe forte no estômago. Um daqueles nomes que nunca morrem de fato. Que vivem enterrados na memória, esperando o momento certo para reaparecer.

Ela engoliu em seco. O ar ficou mais denso.

"Tem certeza?"

"Sim", respondeu Luciano, sentando-se ao lado dela e segurando sua mão com força. "Mas não vamos deixá-lo se aproximar. Não desta vez. Estamos preparados, Amélia. Desta vez você não está sozinha."

Ela assentiu, mas não disse nada. Porque sabia: ninguém está preparado para o passado. Muito menos para a forma como ele retorna. Disfarçado. Silencioso. Aguardando.

Hoje

O bipe intermitente de uma máquina a trouxe de volta ao presente. Amélia abriu os olhos. Suas pálpebras doíam. Seus lábios estavam secos. Seu corpo estava derrotado. Seu estômago... vazio.

E à sua frente, os olhos de Gabriel, grandes e assustados, cheios de perguntas que ninguém deveria fazer naquela idade.

"Mamãe... sua irmãzinha está bem?"

Amélia tentou se sentar, mas seu corpo não respondeu. Tudo o que ela conseguia dizer eram palavras.

"Tomás?"

"Com o papai. Eu queria te encontrar, mas me mandaram esperar aqui."

Ela olhou para ele com lágrimas nos olhos. Queria abraçá-lo. Protegê-lo de tudo.

"Meu amor... sua irmãzinha! Levaram ela!"

Gabriel balançou a cabeça.

"Não. Luna está bem. Eu a vi. Ela estava chorando, mas bem."

Luciano entrou então, como se a tensão o tivesse chamado. Seu rosto estava tenso, os olhos vermelhos, as costas pesadas pelas noites sem dormir.

"Ela está presa", disse ele com voz firme. "Foi uma ameaça. Mas conseguimos evitar o pior. Pegamos você a tempo."

Amélia olhou para ele. Direto nos olhos.

"Foi ele?"

Luciano não respondeu com palavras. Apenas fechou os olhos e assentiu. E o nome preencheu o ar novamente como uma faca cega:

Mauro.

Horas depois, Amelia conseguiu vê-la. Luna.

Ela dormia na incubadora, envolta em luzes fracas e sons mecânicos. Alheia ao horror. Inocente. Perfeita. Um vislumbre no abismo.

Amelia levou a mão ao vidro, como se pudesse transpor a distância.

"Seu nome é Luna porque você traz luz à escuridão. Porque você caiu do céu. Porque você nasceu em meio a tiros e sangue... e mesmo assim decidiu ficar."

Ela sentia o medo ainda em sua pele. Mas também algo novo. Algo feroz. Como uma força começando a emergir do mesmo lugar onde antes havia apenas o vazio.

Então, uma voz. Fria. Familiar. Um sussurro atrás dela.

"Eu avisei para não me ignorar."

Amelia se virou de repente. Mas não havia ninguém lá.

Apenas o eco de uma ameaça. De um passado que não a havia esquecido.

A voz da criada que ela amava.

Capítulo 2 Doze semanas antes

A carta parecia uma lembrança indesejada deslizando pelas frestas da alma, deslizando suavemente por baixo da porta enquanto Amélia preparava o lanche de Tomás.

Ela estava distraída, passando geleia em torradas e ouvindo as risadas do filho no corredor. Lá fora, o sol filtrava sua luz quente pelas cortinas, banhando a cozinha com uma calma enganosa. O vapor do chá subia em espirais suaves, quase hipnóticas. Tudo parecia perfeitamente normal. Até que seus olhos pousaram no envelope amarelo, gasto, amassado nos cantos, como se tivesse viajado por muito tempo ou passado por muitas mãos.

Ela se abaixou cuidadosamente para pegá-lo, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Não havia remetente, nem selo, nem sinal de origem. Apenas seu nome, escrito em tinta preta e uma caligrafia irregular que parecia mais esculpida do que escrita. Naquele momento, antes mesmo de abri-lo, algo em seu peito se apertou. Um instinto antigo, profundo e visceral, sussurrou-lhe que o pedaço de papel continha mais do que apenas palavras.

Quando ela rasgou a borda com dedos trêmulos, uma única mensagem saiu, como uma frase:

"Você não merece seu final feliz."

O papel escorregou de suas mãos como se as tivesse queimado. Caiu no chão com um sussurro seco e, com ele, algo se quebrou no ar. A faca de manteiga pairou em sua mão, mas Amélia não pensava mais na torrada. Ela só conseguia ouvir seu coração disparado, martelando dentro do peito como se quisesse escapar.

Ao seu redor, a vida continuava. Tomás ria, correndo com seu carrinho de brinquedo, alheio à tempestade que acabara de se instalar na cozinha. Na sala, a voz de Isabelita ecoava pelo viva-voz do telefone, contando animadamente alguma anedota da faculdade. De outro cômodo, Luciano cantarolava sem perceber; o rádio tocava suavemente, como um fundo amigável para uma cena familiar. Mas para Amélia, tudo permanecia suspenso, distante.

Antecipação

Gabriel estava em seu quarto, deitado no tapete, segurando um livro de histórias. Ele estava lendo a história de uma raposa que queria voar. Seus olhos percorriam as ilustrações, mas sua mente estava em outro lugar. Durante semanas, algo lhe dizia que as coisas não estavam certas. Os silêncios entre seus pais estavam mais longos. Os sorrisos, mais forçados. E a mãe, que costumava abraçá-lo sempre que ele passava, agora parecia distraída. Como se sua mente estivesse escapando pelas janelas.

Um barulho estranho, quase como um farfalhar, o fez olhar para cima. Então, o som de papel caindo. E então, o silêncio tenso da mãe. Ele se levantou silenciosamente e olhou para fora da porta. Viu o envelope no chão, ao lado dos pés de Amélia, e o rosto de sua mãe, pálido, com os olhos fixos no nada.

"Mãe?", ele sussurrou. "Você está bem?"

Ela olhou para cima rápido demais. Ela sorriu. Ou tentou. Mas o sorriso se esfarelou nos cantos como um pedaço de papel molhado.

"Sim, meu amor. Só... um pedaço de papel velho. Nada importante."

Mas ele sabia que ela estava mentindo. Gabriel tinha aquela estranha sensibilidade de crianças que tiveram que crescer um pouco mais rápido. E embora não conseguisse ler a carta, conseguia ler o medo nos olhos dela.

Tristeza

Naquela noite, quando as crianças dormiam e a casa respirava tranquilamente, Amélia sentou-se em frente à janela do seu quarto. Lá fora, a lua subia, vigilante, lançando sua luz sobre o jardim. A amendoeira que haviam plantado quando souberam que estavam esperando Luna balançava ao vento, como se estivesse ouvindo pensamentos.

Amélia abraçava os joelhos, descalça, o robe de algodão enrolado no corpo como um escudo frágil. Ela tinha a carta dobrada no colo. Fora difícil olhá-la novamente. Era apenas uma linha de texto, mas o desconforto que deixava era profundo, como se alguém tivesse escavado seu passado com a ponta de uma faca.

Ela se lembrou do pai e de sua partida. O abandono disfarçado de ausência necessária. Ela se lembrou de Martina e dos segredos que a mulher levara para o túmulo. Lembrou-se dos próprios silêncios, aqueles que escondera tão bem que às vezes esquecia que ainda doíam. E então pensou em Luna, no bebê que ainda não havia nascido e naquela promessa de felicidade que sentia escapar como água por entre os dedos.

Uma lágrima escorreu por sua bochecha. Depois outra. E muitas outras.

Flashback: Um Sussurro do Passado

Na universidade, Isabelita caminhava rapidamente pelos corredores da faculdade de medicina. Sua cabeça estava cheia de fórmulas, casos clínicos e o lembrete constante de que sua bolsa de estudos dependia de não ser reprovada. Naquela manhã, um professor a interrompeu quando ela saía da aula, olhando-a com uma expressão que era um misto de compaixão e advertência.

"Cárdenas?" - perguntou ele em tom ambíguo - "Espero que você entenda que seu sobrenome carrega uma história... e que há quem não a tenha esquecido."

A jovem não entendeu exatamente o que ele queria dizer, mas aquelas palavras a seguiram o dia todo como uma sombra. Ela caminhava em direção à biblioteca quando ouviu um murmúrio. Alguém se aproximou por trás dela, perto demais. E então, um sussurro a fez arrepiar:

"Sabemos quem você é."

Ela se virou, mas não havia ninguém lá. Apenas estudantes passando, risos distantes e a sensação de estar sendo observada. Ela não disse nada. Nem para Amélia. Nem para Luciano. Ela não queria preocupá-los. Mas algo lhe dizia que as camadas do passado estavam começando a se desfazer. E que o que estava por baixo não era bonito.

Dia a Dia Sob a Sombra

Amélia mostrou a carta a Luciano naquela mesma noite. Ele a leu com o maxilar cerrado, depois amassou-a com raiva e jogou-a no lixo. Ele a abraçou com força, com muita força. Prometeu protegê-la. Prometeu que nada nem ninguém os machucaria.

"Estamos juntos", disse ele. "Não importa o que aconteça."

Mas Amélia não tinha certeza. Não totalmente.

Gabriel escutava do corredor. Não entendia tudo, mas entendia o suficiente. Daquela noite em diante, começou a observar mais. Sua mãe. Seu pai. Isabelita. Os silêncios. Sentia que havia um mundo paralelo em sua família, um mundo cheio de segredos dos quais só conseguia ver sombras.

Tomás, porém, permanecia alheio. Brincava com blocos, aprendia novas palavras, dançava sem música. Ele era a própria pureza, a inocência absoluta. E por isso mesmo, Amélia se agarrava a ele como a uma âncora.

A Noite Antes da Tempestade

Naquela mesma noite, quando a casa voltou a dormir, Amélia abriu seu diário. Aquele caderno de capa azul onde ela escrevia há anos. Abriu-o em uma página em branco e começou a escrever. Não buscava respostas; só queria esvaziar o medo.

"Chegou uma carta hoje. Sem assinatura. Ou selada. Apenas uma ameaça que cheira a passado. Daquela parte de mim que eu pensava estar enterrada."

A caneta raspava o papel enquanto as palavras fluíam como uma libertação.

"Luciano diz que estamos seguros. Mas eu sei que o medo nem sempre precisa de uma porta para entrar. Às vezes, uma lembrança basta."

Quando fechou o caderno, sentiu-se um pouco mais leve. Levantou-se para apagar a luz, mas antes olhou mais uma vez para a amendoeira da janela. O vento a agitava suavemente. Parecia dizer alguma coisa.

E então, em voz baixa, perguntou-se:

"O que é preciso largar para voar?"

Não houve resposta.

Mas a pergunta já era o começo.

Capítulo 3 A cicatriz na testa de Isabelita

A manhã se abriu timidamente sobre a cidade, com o céu ainda coberto por uma névoa tênue que tornava tudo mais lento, mais introspectivo. Amélia caminhava com passo determinado pela rua de paralelepípedos que levava à residência universitária. Na mão, segurava um cachecol que ela mesma tricotara - para Isabelita - e, no coração, uma inquietação que a acompanhava por noites inteiras. Não suportava a espera, o silêncio, a intuição corrosiva de que algo não estava certo. Mães sentem. Mães sabem.

A campainha da porta da frente tocou secamente, sem eco. Por alguns segundos, não houve resposta. Mas Amélia não estava disposta a ir embora.

Quando a porta finalmente se abriu, Isabelita apareceu, com o rosto meio sonolento, o cabelo desgrenhado e a alma na defensiva. Tentou sorrir, mas seus olhos a traíram.

"Amélia... O que você está fazendo aqui tão cedo?"

Amélia a observou atentamente. O rosto da irmã tinha uma beleza serena, marcada pela juventude e pelo cansaço. Mas ali, quase escondida por uma mecha de cabelo, estava a cicatriz. Pequena. Delicada. Mas impossível de ignorar para uma mulher que havia dado a própria vida.

"Eu precisava te ver", disse Amélia, entrando sem esperar permissão. "E não vou fechar os olhos. Sei que você está carregando algo sozinha... e não vou mais permitir isso."

Isabelita fechou a porta silenciosamente, com a respiração suspensa. De repente, toda a fachada tremeu.

Flashback: A Noite do Ataque

Isabelita caminhava sozinha pelo corredor mal iluminado da residência. Eram quase onze da noite e ela voltava da biblioteca, com a cabeça cheia de anotações e os ombros tensos do dia. Ela nunca gostara daquele corredor. Estreito demais. Silencioso demais.

Ela ouviu passos. Primeiro, hesitou. Depois, apressou o passo.

"Isabelita", sussurrou uma voz áspera atrás dela.

Quando se virou, era tarde demais. Uma sombra a empurrou contra a parede. Ela tentou gritar, mas o medo a agarrou como um torno invisível. Queria correr, mas seu corpo congelou. Então veio o golpe. Suave. Preciso. O mundo girou e sua testa bateu no chão.

Quando acordou, estava sozinha. Tudo acontecera em segundos. Mas, para ela, a ferida durava semanas.

Não queria reclamar. Ou contar a ninguém. Sentia que abrir a boca invocaria mais escuridão. Cobriu a cicatriz com os cabelos, com desculpas, com silêncios. E a culpa... a culpa a desgastava lentamente.

O reencontro

Amélia olhou ao redor da sala. Tudo estava limpo, meticulosamente organizado, como se a desordem interna de Isabelita precisasse de compensação externa.

Sentaram-se à pequena mesa perto da janela. Amélia colocou as mãos sobre a superfície, abertas. Oferecendo, não exigindo.

"Você sabe que eu não vim para te julgar, certo?", disse ela suavemente.

Isablita assentiu sem olhar para ela. Brincou com a borda de uma xícara vazia, com as unhas roídas e os lábios secos.

"Achei que conseguiria lidar com isso. Que se eu ignorasse, passaria", sussurrou ela.

A frase soou como uma confissão quebrada.

"O que aconteceu, meu amor?"

Silêncio. Respirações trêmulas. Uma única lágrima escorreu pelo rosto de Isabelita. E então, em voz baixa, mas firme, ela começou a falar. Do ataque. Do medo paralisante. Da sombra. Do golpe. Da vergonha. Da raiva. Da cicatriz.

Amélia não a interrompeu. Ela ouviu com os olhos brilhantes, contendo a própria dor para não tirar a da irmã. Sentiu o sangue ferver. A raiva - pura, protetora - começou a brotar de dentro dela. Não contra Isabelita. Mas contra o mundo que ainda permitia que suas filhas fossem vulneráveis ​​a tanta coisa. Quando Isabelita terminou de falar, parecia mais leve. Cansada, mas menos sozinha.

"Você não me contou porque achou que eu ficaria preocupada", disse Amélia com um meio sorriso triste. "Mas sabe de uma coisa? Prefiro me preocupar com você do que ficar em paz sem você."

A Verdade por Trás da Raiva

"Você não está sozinha, Isabelita", continuou Amelia, segurando suas mãos. "Você nunca esteve. Dói-me pensar que você carregou isso sem apoio. Mas dói-me mais saber que você sentiu que precisava fazer isso."

Isablita apertou os lábios. A culpa ainda estava lá, à espreita.

"Eu sentia que estava falhando com eles. Que eu não podia ser fraca. Que se eu contasse a alguém... tudo desmoronaria. Como se admitir isso me tornasse menos forte."

"Menos forte?" Amelia repetiu com ternura. "Meu amor... não há força maior do que aquela necessária para seguir em frente depois de algo assim. Essa cicatriz não é uma derrota. É a sua medalha." É o sinal de que você sobreviveu.

Isablita desatou a chorar. Mas desta vez, não foi um choro entrecortado. Foi uma libertação. Um "finalmente". Um "Eu não preciso mais carregar isso sozinha".

Amélia a abraçou. Ela apertou. Ela segurou. Ela segurou. Ambas choraram um pouco mais. E então elas simplesmente respiraram juntas.

Uma promessa entre irmãs

Amélia não ficou muito mais tempo. Ela sabia que às vezes a cura começa quando você deixa o espaço. Mas antes de sair, parou na porta. Isabelita a observava, ainda sentada na cama, como se fosse a garotinha que um dia teve medo do escuro.

"Eu prometo que ficaremos bem", disse Amélia suavemente. "Que esta história não a marcará pelo que fizeram com você... mas por como você saiu dela."

Isablita se levantou. Caminhou até a irmã. Abraçou-a com força.

"Obrigada por ter vindo", murmurou, com a testa apoiada no ombro dela. "Obrigada por não me deixar sozinha, mesmo eu não tendo pedido."

"Você não precisa me pedir para te amar. Isso já foi feito."

Quando Amélia saiu, o sol começava a dissipar a neblina. Ela caminhou mais devagar, respirando fundo, agora carregando não apenas sua preocupação, mas a certeza de que o amor - aquele amor feroz - era mais forte que o medo.

Enquanto isso, em casa, Gabriel se revirou na cama, inquieto, e Tomás murmurava palavras sem sentido enquanto dormia. Eles ainda eram crianças, mas Amélia sabia que a tempestade que se aproximava também os atingiria. Então, naquela manhã, ela fez uma promessa a si mesma:

"Trarei verdade a cada ferida. Luz a cada medo. Um abraço a cada silêncio."

E embora a cicatriz na testa de Isabelita nunca desaparecesse, pelo menos agora ela estaria mais leve.

Mais dela.

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