Acordei com trovões que estremeciam minha casa. Detestava chuvas porque elas costumavam destruir tudo o que tinha em volta.
Me levantei correndo da cama e encontrei meus pais já na sala, tentando ver a quantas estava a destruição.
- Precisamos sair daqui, não sabemos quanto tempo mais as barreiras vão aguentar. - meu pai falou apreensivo encarando a tempestade lá fora.
- Mas não temos pra onde ir José, nem mesmo dinheiro pra ficar em um hotelzinho.
Nós éramos uma família pobre ali do interior de São Paulo, meu pai trabalhava em uma fábrica ali perto e conseguíamos nos manter, eu trabalhava de babá para algumas mães do bairro, mas o dinheiro era pouco, afinal todo mundo ali era bem humilde.
- Podemos pedir abrigo na igreja. - disse dando uns passos a frente e alcançando os dois. - Padre Bento falou na missa de domingo que quem tivesse correndo e não tivesse para onde ir poderia se abrigar na igreja.
Meu pai me olhou por um minuto, eu sabia que o orgulho bobo de homem estava falando mais alto, ele não queria assumir que não podia cuidar da própria família. Mas ele precisava entender que nada daquilo era culpa dele e sim da natureza.
- Ela tem razão, meu bem. - minha mãe colocou a mão em seu ombro e eu o vi suspirar se dando por vencido.
Eu achava lindo o amor deles, um toque, um olhar e os dois se entendiam. Não que nunca houvesse brigas e discussões lá em casa, isso tinha, mas eles sabiam contornar os problemas juntos.
- Está bem, vamos pegar só o essencial e sair. A estrada está por um fio, vamos ter que ir andando.
Me apressei dentro do quarto peguei uma mochila e joguei duas mudas de roupa meus documentos, um porta retrato com meus pais e corri pra fora.
Mamãe já tinha juntado um punhado de comida em uma sacola de feira, meu pai já tinha pegado as roupas e os documentos, apenas o mais importante.
- Vamos logo! Se Deus quiser amanhã estaremos de volta em casa.
Saímos de lá correndo em meio a chuvarada, meu tênis tinha ficado encharcado só de pisar na estrada de barro. Mas foi aí que vimos que não éramos os únicos fugindo daquela barreira que poderia cair a qualquer instante.
Alguns vizinhos também saiam de casa levando malas e poucas coisas, nem adiantava usar o carro pois sabíamos que as ruas estariam alagadas.
Os pingos de chuva gelada me fizeram bater os dentes, minha roupa já estava molhada de mais.
Mas logo avistamos a cruz enorme da pequena paróquia que tinha na cidade, as luzes acesas diziam que o padre já estava esperando que seus fiéis fossem se abrigar ali.
Corri querendo chegar de pressa, não aguentava mais aquele frio que parecia congelar a alma. Atravessei a pequena dívida entre a estrada de terra para o asfalto, agora estava ainda mais perto.
Olhei para trás procurando meus pais, o barulho dos trovões e de toda a água não deixava que escutaremos direito o que estava acontecendo. Forcei os olhos entre a escuridão e os pingos d'água e avistei todos parados olhando a estrada.
Voltei correndo, querendo saber o que teria acontecido e me assustei com o buraco que tinha se formado, parte da estrada de terra tinha sido engolida, sumindo em meio a toda água.
- Mãe! Pai! Pulem que vocês conseguem!
Seguindo meu conselho vi outras pessoas fazendo o mesmo, pulando o pequeno buraco e conseguindo pisar do outro lado.
- Filha corra para a igreja! - papai gritou e o barulho de árvores se quebrando quebrando encheu nossos ouvidos.
Todos pararam paralisados com o barulho assustador da enchurrada de água, barro e árvores descendo por ali.
Encarei meus pais de olhos arregalados e tive a vaga noção da gritaria a nossa volta ter aumentado.
- Nós amamos você! - foi tudo o que ela disse antes de serem engolidos por aquela avalanche e serem carregados para longe.
- NÃO! - gritei chocada e senti mãos me puxarem tentando me tirar dali.
Eu lutei contra aquilo, não queria sair, queria ir com meus pais. Mas o aperto se tornou ainda maior e eu fui arrancada do chão e carregada para a igreja.
Eu estava em estado de choque, não sei se tremia agora por ter perdido meus pais ou pelo frio. Não conseguia mais nem raciocinar.
Pessoas se amontaram a minha volta, perguntando como eu estava, mas eu não tinha ideia de como me sentia. Meu mundo tinha desmoronado.
Uma semana depois...
Eu tinha saltado do ônibus e procurei em volta por um táxi como minha tia tinha dito que eu encontraria.
As palavras dela ainda estavam vivas em minha mente.
- Quando chegar na rodoviária procure um táxi e diga para ele te trazer até o Morro do Adeus, eles sabem onde é!
- Ei gata nem pense em pegar o celular e dar bobeira, nem ficar com a bolsa dando sopa ali, porque tá cheio de trombadinha por aí! - foi minha prima quem gritou interrompendo a mãe dela e eu tentei manter aquilo em mente.
Trouxe a mochila para a frente do corpo e reparei em volta melhor, não queria que o perdesse o pouco que tinha. As pessoas passavam com pressa, esbarrando em mim não pediam desculpas e ainda me olhavam de cara feia.
O calor também não estava ajudando, a blusa de moletom que eu usava e a calça jeans, tinham sido perfeitas para a viagem no ar-condicionado do ônibus, mas ali eu estava era cozinhando.
Encontrei um táxi e corri até ele desesperada, já estava começando a me arrepender de ter dito que ia até o morro sozinha.
- Bom dia.
- Bom dia, pra onde moça.
- Morro do Adeus. - suspirei, aquele nome era tão perfeito para como eu estava me sentindo naquele momento.
- Você não é daqui não é menina? - o homem barbudo, usando regata e óculos de sol me perguntou.
- Está tão na cara assim? Eu sou de São Paulo.
- Ahh logo vi, o sotaque diferente te entrega! - eu duvidava que eu tinha sotaque, eles é quem puxavam o "s". - Mas a cara de perdida também. Sabe bem onde tá se metendo indo pra aquele morro?
Não, eu não tinha ideia. Quando minha tia falou onde morava eu procurei tudo sobre o lugar. Não era de todo feio, mas o que as pessoas diziam sobre lá não era nada agradável.
- Não, eu nunca conheci o Rio, mas minha tia mora lá e eu vou viver com ela agora.
- Pois então boa sorte, porque você vai precisar!
Eu ia precisar mesmo, de muita sorte pra continuar bem nesse mundo depois de tudo.
Quando chegamos ele me deixou na ponta do morro e perguntou se eu queria que ele esperasse minha tia. Mas eu tinha herdado o orgulho do meu pai e neguei, além do que não tinha dinheiro suficiente pra ficar segurando o homem ali com o taxímetro rodando.
Pesquei o celular na bolsa e olhei bem em volta antes de ligar pra ela.
- Eai Cami, já chegou? Mamãe foi no mercadinho comprar umas coisas.
- Estou aqui na entrada do morro onde o táxi me deixou.
- Beleza, me espera aí que eu tô descendo! Não sai da entrada e cuidado!
Bianca desligou tão rápido que eu me espantei. Mas enfiei o celular de volta na bolsa e comecei a olhar o lugar, os carros passavam avoados na avenida, as motos subiam e desciam assim como as pessoas.
Eu sentia que todos os olhos estavam em mim e não sabia se aquilo era coisa da minha cabeça, ou se eu estava mesmo sendo vigiada. Torci para que Bianca fosse rápida.
- Ei morena, tá fazendo o que parada aí? - um garoto se aproximou de mim e eu engoli em seco e apertei os braços em volta da minha mochila. - Tu não ouviu eu falar não? Ou é surda?
- E... eu... eu estou esperando uma amiga. - respondi quando outro apareceu ao lado me cercando.
Tentei dar um passo para trás e senti minhas costas baterem no muro de uma casa.
- Iiii ala, ela fala toda certinha! Certeza que é patricinha do asfalto!
- Anda, mostra aí o que tem na mochila! - o primeiro deles colocou a mão na minha bolsa e eu puxei com força, ignorando a dor quando meu cotovelo acertou a parede atrás de mim.
- Não tenho nada, só roupa! - tentei soar firme, mas nunca nos meus vinte anos algo assim tinha acontecido comigo.
- Tá pensando que tá onde pati? A gente manda aqui e tamo pedindo a mochila!
Eu deveria ser esperta e correr pra longe dali, ou gritar por socorro, mas as pessoas que passavam pareciam não se importar com o que estava acontecendo comigo.
Quando ele segurou a alça da mochila outra vez eu acertei um chute bem no meio das bolas dele e corri! Corri entrando no morro e ignorando os gritos atrás de mim.
Eu nem sabia para onde ir, corri como se minha vida dependesse disso.
- A gente vai te pegar piranha!
Eu entrei em um beco tentando despistar eles e corri subindo mais um pouco, virei em tantos buracos que nem sabia mais como voltaria.
- Você vai pagar filha da puta! - o garoto falou atrás de mim e eu olhei para ele sem parar de correr.
Toda a raiva que ele mostrava eu sabia que estaria morta se ele me pegasse, ou coisa pior.
Então eu esbarrei em alguma coisa dura e cai no asfalto com força.
- Posso saber porque estão perseguindo a garota? - uma voz grossa soou e eu ergui as costas e forcei os olhos tentando ver quem era.
- Que isso estão brincando de pega-pega agora? - outro homem falou e eu finalmente foquei na imagem a minha frente.
Dois homens loiros altos e fortes estavam parados de braços cruzados a minha frente.
Um deles tinha o cabelo raspado e era cheio de tatuagens, até mesmo na bochecha, a barba clara dava mais charme a ele mesmo que sua expressão gritasse perigo.
O outro tinha um boné na cabeça, os fios mais longos do cabelo escapavam pelo fecho e também tinha uma barba clara, mas esse não tinha nenhuma tatuagem, ao menos nenhum aparente.
- Fala agora vadia porque tava correndo!
O dia já tinha começado perfeito, pra não dizer outra coisa. Meu irmão tinha descoberto umas furadas na contabilidade do morro.
Ele me mostrou toda aquela papelada logo cedo me enchendo a cabeça com os problemas que eu teria que resolver.
- Tá na cara que estão fazendo caixa dois irmão. Não tem outra explicação. - João Vitor falou.
Ele era mais novo que eu dois anos, ele era o cérebro da família, enquanto eu sou os músculos.
- Sim, o foda é descobrir quem tá metido nisso. Não posso chegar lá na boca acusando geral, sabe que isso acabaria comigo.
Se eu começasse a apontar o dedo pra todo lado não ia sobrar um parça que me apoiasse quando eu precisasse, duvidar de geral era perigoso e meu pai tinha me ensinado aquilo.
- Eu sei, eu sei! - ele jogou mais um papel na minha frente e se virou pro fogão. - Mas você tem que dar um jeito nisso, ou vai ficar no prejuízo.
Cocei minha cabeça sabendo que ia ser um longo dia.
- Porra, nem em uma quinta-feira a gente tinha sossego!
Eu estava afim de pensar só no bailão na sexta, mas agora tinha que me preocupar com esses comédia me roubando.
Ouvi passinhos pela casa e me virei a tempo de ver o Juninho chegando na mesa, o muleque ainda estava sonolento, também era só oito da manhã e ele costumava acordar lá pras dez.
- O que tá fazendo acordado pequeno?
- Sadelo. - ele resmungou coçando os olhinhos e esticou os braços pra mim.
- Outro pesadelo hein? - Vitor falou chegando perto e sacudindo a cabeleira loira dele. - Vou fazer um leite pra você.
Juninho tinha três anos e nossa mãe morreu dando a luz a ele.
Dona Lúcia já estava toda decepcionada da vida depois de perder o marido.
Meu pai, Pezão como era conhecido aqui no morro, morreu numa troca de tiros com a polícia, ele nem fazia ideia que estava deixando três filhos pra trás e não dois.
Aquele dia teve muitas perdas no complexo todo, foi aí que o morro do Adeus passou pras minhas mãos. Eu já acompanhava meu pai em todos os bagulhos e sabia como desenrolar com todos os outros chefes dos morros em volta.
Mas ali também passou a responsa de cuidar da minha família. A minha mãe grávida, meu irmão que tava terminando a faculdade de direito e o pequeno que tava por vir.
- Toma seu leite, que vou te deixar na dona Isabel.
- Eu não que, ela chata. - ele resmungou já agarrando a mamadeira.
Vitor e eu rimos, dona Isabel era chata desde que nós éramos crianças e não tinha melhorado com o tempo. Mas era a única pessoa que confiamos em deixar muleque.
Depois de muito Juninho reclamar e me fazer prometer comprar um doce pra ele consegui descer até a boca.
Vitor tava comigo, era meu braço direito além de contador e investidor da parada toda. Ele sabia bem como lavar dinheiro pra gente poder investir nas coisas que os grã fino investia. Assim mesmo se um dia a casa caísse a gente tinha grana suficiente pra viver com esses investimentos malucos.
Eu não entendia nada disso, tinha largado a escola e acompanhado meu pai. Desde cedo o velho dizia que eu tinha que aprender com a rua.
Quando Vitinho nasceu ele mudou a cabeça e disse que era pro garoto estudar, mesmo sem querer porque íamos precisar de um que soubesse resolver as parada jurídica.
Não sei o que ele teria escolhido pro Juninho, mas essa missão ficou pra mim e eu sabia que não queria essa vida pro meu maninho.
- Fica frio, não vai falar besteira. - murmurei pra ele quando entramos na caixa, era como chamávamos a casa onde ia toda a coleta do dinheiro das bocas. - E aí rapaziada, como é que tamo hoje.
- Fala chefinho. - Rock falou. - A madruga foi boa, vamo ver como os muleque do dia se sai.
- Beleza, beleza. - andei pela pequena casa vendo os homens contando o dinheiro, alguns separando drogas pra reabastecer os pontos.
- Aconteceu nada estranho por aqui não, Rock? - Vitor perguntou e eu quis bater nele por não saber obedecer.
- Não, tudo na paz doutor. - eles gostavam de chamar ele assim, parte pela zoeira e parte por respeito, já que ele já tinha tirado vários nossos de muitas roubadas nesses três anos.
Sai pra fora e acendi um cigarro, se meu irmão queria levantar suspeita estava indo pelo caminho certo, mas brigar com ele na frente de geral só ia piorar tudo.
Passei a mão no cabelo baixinho e apertei minha nuca pensando em quem podia ser o traidor.
- Não sei como consegue fumar nesse calor. - Vitor reclamou, o sol estava estralando mesmo sendo cedo, mas era assim sempre.
- Fumar me acalma, já olhar pra sua cara não! - acertei um tapa na nuca dele e ignorei seus xingos. - Quer me falar qual foi de abrir o bicão?
Ele se aproximou cheio de marra e eu joguei a bituca no chão pronto pra peitar ele.
- Eu tenho... - Vitinho ia falar mas uma gritaria começou na rua.
- Você vai pagar filha da puta! - ouvi o que parecia ser o galeto, um dos meninos que ficavam bem na entrada da favela.
- Que merda é essa agora? - tirei a arma da cintura e destravei já andando em direção aos gritos.
Vi uma mulher correndo com uma mochila, olhando para o galeto e o Zé, que corriam atrás dela. Só falta ser alguma doida que inventou de roubar droga.
Ela bateu com força no meu peito e se estabacou no chão, nem fiz questão de segurar ela.
Mas quando ergueu o rosto eu vi que era só uma menina, era uma negra linda.
- Posso saber porque estão perseguindo a garota? - perguntei aos muleque encarando a pele perfeita sem maquiagem.
- Que isso estão brincando de pega-pega agora? - Vitinho falou parado do meu lado e a menina pareceu se perder.
Ela encarou eu e meu irmão parecendo besta, podia até pensar que tava doida se tivesse batido a cabeça.
Eu encarei a boca carnuda que devia ser uma delícia de beijar e os olhos castanhos arregalados. A mina tava assustada e pela cara vermelha tinha corrido pra caramba daqueles mané.
- Fala agora vadia porque tava correndo! - foi Zé que tomou a frente e se aproximou já querendo catar a mochila dela.
A garota segurou com força e puxou da mão dele, eu podia até me meter mas tava engraçado de ver.
Ela deu um chute forte na canela do garoto e ele xingou caindo com um joelho no chão.
- Vadia desgraçada! - ele partiu pra bater nela e o Vitor se meteu no meio.
- Que porra cê tá pensando? - perguntei puxando ele pela nuca, até ficar cara a cara comigo. - Desde quando a gente bate em mulher aqui?
- Essa vaca deu um chute nas bolas do galeto e agora isso? Ela tá merecendo uma surra pra aprender! - o muleque tava nervoso, com fogo nos zóio.
Também os dois apanhando da gata ali era foda.
- Me dá isso aqui! - puxei a mochila da mão dela com força e ela se levantou reclamando. - Segura essa onça aí Vitinho.
- É minha mochila e vocês não tem direito de roubar! - ela gritou batendo no meu irmão. Eu podia até dizer que o safado tava gostando dela se debatendo nos braços dele. - Bem que me disseram que isso aqui não era lugar pra se morar! Como que pode roubar assim a luz do dia, quatro homens roubando uma mulher! Vocês não tem vergonha não?
A menina tava dando um show, berrando e fazendo os moradores tudo brotar nas porta, nas janelas. Eles sabiam que eu não ia roubar nada de ninguém, por isso deixei que ela pagasse de doida.
- Quem tá te roubando aqui garota?
Abri a mochila que tava bem pesada e achei umas roupas e comecei a procurar por droga ou alguma coisa que pudesse ter pegado dos muleque.
- Minhas roupas! Seu infeliz! - ela não parava de estapear Vitinho e gritar enquanto as roupas caiam no chão. - Seu desgraçado!
Não achei nada apenas um dinheiro, uns trezentos reais. Segurei as notas bagunçadas e joguei a mochila vazia junto das roupas.
- Foi isso aqui que ela pegou? - perguntei pros dois muleques e eles se encararam.
- Peguei? - ela gritou mais alto, a garota tinha uma voz e tanto parecia um passarinho, só que um irritante. - Esse dinheiro é meu e eles tentaram roubar de mim na entrada do morro!
Vitor ergueu a sobrancelha na minha direção e os meninos calados foram a resposta que tinha merda ali.
- Camila? Prima? - Bianca correu na rua até nos alcançar. - Que porra é essa? Miguel? Vitinho? O que tá pegando?
- Está pegando é que os quatro se juntaram aqui pra me roubar! Bem que você falou que estava cheio de trombadinhas pelo Rio de Janeiro.
Bianca que eu conhecia desde pequena arregalou os olhos e deu um sorriso amarelo.
- Pega leve prima, acho que tá rolando um mal entendido aqui.
- Não tem mal entendido nenhum! Olha meu dinheiro na mão dele, todo o dinheiro que me emprestaram pra vim pra cá!
Puxei Zé pelo pescoço de novo e perguntei bem perto da cara dele.
- Que caralho aconteceu pra vocês correrem atrás dela? - apertei o pescoço dele pra mostrar que não estava brincando.
- Já te falei chefe, ela deu um chute nas bolas do galeto...
- Porque vocês dois me encurralaram e tentaram arrancar minha mochila! Eu chutei esse idiota e corri vindo parar bem aqui.
Porra! Que merda de dia eu estava tendo. Vitinho soltou a menina que se aproximou da prima, ainda parecendo pronta pra atacar.
- Quem disse que vocês podem ficar roubando as pessoas na entrada do morro porra? Tão querendo arrastar geral aqui? - bradei fazendo os dois baixarem a cabeça. - Cata tudo aí no chão e devolve pra mina! Vamo ter um papo reto lá em cima.
Sem discutir ele se abaixou e pegou as roupas jogando tudo na mochila e entregou pra ela.
- Vê se ensina sua prima a quem ela tem que respeitar aqui! - dei o dinheiro na mão de Bianca enquanto a outra me fuzilava com o olhar. - Vai ser perdoada dessa vez porque acabou de chegar! - falei apontando o dedo na cara dela.
Sai de lá sendo seguido pelos dois meninos, mas ouvi Vitinho falar algo pra surtada antes de me seguir até em casa.
Que dia do cão estava tendo e ainda eram apenas nove horas! Que nossa senhora me ajudasse pra não matar um até o fim do dia!
Que garota era aquela? Eu estava sentindo até agora os tapas dela em meu peito e claro que quando fui embora soltei uma gracinha pra ela.
- Adorei sentir suas garras, mas seria melhor se colocasse elas pra fora em outro momento. - vi Bianca arregalar os olhos e rir enquanto a prima parecia não entender sobre o que eu falava.
Sai de lá seguindo Miguel e pelo humor dele hoje eu sabia que a briga ia ser feia com os meninos, me surpreendeu ele não ter gritado com a pobre menina.
Camila. Ouvi Bianca a chamar assim, nome bonito e ela ainda mais. Quando se jogou em cima de mim eu adorei sentir os tapas dela e o corpo se sacudindo contra o meu, deu pra sentir que por trás do moletom que ela usava tinha um corpo cheio de curvas.
O que eu podia fazer? Sou homem e estou longe de ser do tipo santinho. Eu gosto de sexo e de mulher bonita, Camila é os dois.
Faço uma nota mental de enviar uma mensagem pra Bianca e pedir pra ela levar a prima no baile amanhã. A garota era nova no Rio de Janeiro, eu podia ser seu guia perfeito.
- Que merda vocês tavam pensando? - Miguel brada assim que fecho a porta atrás de mim e os meninos se encolhem.
Eles eram mais do mesmo, não iam a escola e meu irmão dava um jeito de colocar para trabalhar. Segundo Miguel era melhor na cola dele, que botava ordem, do que dos pais que não estavam nem aí pro que o garoto ia fazer.
- A gente pensou que era uma pati da zona sul. - galeto falou sentado na mesa e evitando encarar meu irmão.
- Nunca que ia roubar gente daqui, chefe!
Miguel com toda sua pose assustava, ele era alto um e oitenta, ainda por cima malhava e se orgulhava de ostentar um corpo sarado, pra completar a obra ele tinha tatuado quase o corpo todo, até mesmo na bochecha, testa e por aí vai.
Como se não bastasse tudo isso ele tinha criado sua fama de bandido mal, e não era apenas histórias, ele tinha mesmo feito todo o tipo de atrocidade com quem tentava tomar o poder aqui no morro.
Então eu entendia esses meninos estarem se tremendo com as cabeças baixas e temendo o pior. As vezes até eu esquecia que ele era o irmão mais velho que me ensinou a empinar pipa e jogar bola.
Miguel tinha aprendido a mostrar esse lado dele apenas dentro de casa. Enquanto eu cresci estudando, ele cresceu vendo bandido levar tiro e aprendendo a atirar e torturar.
- Vou repetir pela última vez. Não me interessa se ela é pati, rica, ostentando carrão e celular do ano! Não é pra roubar na porra da entrada do morro. - ele bateu a mão na mesa e os dois pularam no lugar. - Vocês ganham uma vida boa aqui, comem bem, tem beca bonita, as meninas chegam em vocês nos baile. O que mais vocês quer?
- Desculpa chefe.
- Não vai acontecer de novo!
- E porque não vai? - o silêncio reinou, eles claramente estavam com medo de responder e errar. - Quero que os dois me respondam olhando na minha cara, porra!
- Porque vamos atrair atenção pro morro! - foram rápidos em responder juntos.
- E o que eu fiz com bandido pé de chinelo que roubava e trazia a polícia tudo pra nossa cola?
Eu resisto a vontade de corrigir o português dele, Miguel detesta isso e a última coisa que eu preciso agora é dele mais irritado.
- Matou e jogou no rio. - a voz deles agora não tem tanta confiança, o medo do que pode acontecer com eles se fizerem besteira.
- Ótimo! Que bom que nos entendemos. - ele se abaixou ficando na altura dos rostos deles de forma ameaçadora. - Vão lá na sede, tomar um banho e comer. A garota acabou com vocês.
Eu não resisti e gargalhei levando todos os outros a rir junto. Ela tinha mesmo dado um belo "olé" nos dois garotos armados.
- Valeu chefe! Pode deixar que se a gente ver ela vai passar longe.
- Não quero cruzar com aquela mina nem pintada de ouro. - galeto emendou. - Garota surtada!
- É bom mesmo. Agora se mandem!
Os dois não esperaram outra ordem, correram de lá como se estivessem fugindo do capeta.
- Você coloca um medo danado nesses meninos, hein!?
- Medo não, é respeito! Eles sabem que devem me temer, sou legal, mas arranco as bolas de um sem pestanejar. - Miguel se virou pegando o rádio e informando quem deveria descer enquanto os meninos faziam uma hora lá na sede.
Sede era o lugar que ele tinha feito aqui na comunidade, era como uma grande casa, com espaço pra tudo. Tinha creche, futebol, aula de artes marciais e tinha lugar pro pessoal dormir, comer, gente que não tinha condições.
Miguel decidiu fazer isso quando viu que estamos prosperando bem com os investimentos na bolsa, ele decidiu ajudar quem mais precisava, já que nossos governos só faziam boas ações em ano de eleição.
- Vou buscar o Juninho ali. Antes que ele deixa a dona Isabel louca.
- Mais louca você quis dizer, não é? Vou contigo, não esquece que prometeu pra ele um doce!
Eu sabia que ele via Juninho quase como um filho, afinal nós dois que criamos aquele menino desde o momento que ele nasceu. Mas Miguel foi quem passou mais tempo com ele, enquanto eu estava terminando a faculdade. Foi duro enfrentar o período de luto tão grande, primeiro nosso pai, uns meses depois nossa mãe.
Viramos a esquina e Miguel parou, me fazendo encará-lo com curiosidade.
- Tu tá vendo o que eu tô vendo? É aquela garota de novo? - olhei para onde ele apontava e vi Camila atravessando a rua.
- Ela é uma gata, não é?
- Não começa com graça, já viu que a garota gosta de dar show! Vai se meter com ela e depois aturar maluca pra cima e pra baixo atrás de tu.
Eu estava prestes a falar quando Juninho saiu da mercearia da dona Isabel e nos viu. Ele não parou nem pensou, só colocou o pezinho na rua indo atravessar. No mesmo instante o barulho do motor de uma moto, que descia a toda velocidade encheu meus ouvidos e eu paralisei esperando pelo pior.