- Volte aqui, Melina!
O meu pai pega a garrafa de vinho que estava bebendo e a estilhaça com todas as forças contra a parede.
Aponta os restos dos cacos afiados contra a minha mãe, que foge em completo desespero para longe dele.
- Eu quero conversar com você. Volte aqui agora! - Insiste.
Minha mãe não consegue dizer uma palavra, mal respira. Se esconde por detrás dos móveis, só para atrasá-lo, mas o resultado é ainda mais barulhento: por onde passa, meu pai sai derrubando tudo. Está cego de ódio e não vai parar até descontar a sua raiva em alguém.
- Vem aqui, sua puta! - Agarra minha mãe pelos cabelos.
- Para, pai! - Jogo-me entre os dois e tento separá-los, mas ele insiste em manter uma das mãos nela.
- Eu vou te matar! - Aponta a garrafa com pontas afiadas para ela. - Você achou o quê? Acha que vai se desfazer de mim tão fácil? Acredita que vai ficar viva se me deixar?
- Por favor, Cláudio, está me machucando! - Ela chora.
Poucas coisas são tão horríveis no mundo a ponto de deixar um ser humano paralisado: uma guerra talvez seja a maior delas; a fome, o desamparo, a indiferença podem ser muito cruéis. Mas nada dói tão profundamente na alma quanto ouvir o choro e desespero da nossa mãe.
- Pai, me escuta, me escuta, por favor - seguro no rosto dele, para chamar sua atenção.
A primeira reação que tem é de me empurrar, ele me quer fora de seu caminho, quer concluir a sede de seu surto psicótico e bater em minha mãe até que ela desmaie de dor.
Cresci vendo isso. Cresci vivendo isso.
Por que muitas das vezes, era eu quem ele espancava e era a minha mãe que se jogava na frente, para que ele não me
matasse.
Agora é a minha vez.
Ao que depender de mim, eu irei morrer, sim, mas não deixarei que a minha mãe apanhe um dia sequer.
Meu pai foi diagnosticado com bipolaridade tardiamente. Os picos de sua alteração de humor vão a extremos muito rápido, principalmente quando fica sem seus remédios, o que foi o caso de uma vida inteira, ou quando toma seus remédios e bebe álcool na sequência.
- Sua vagabunda! Acha que vai me internar e vai ficar por isso? Pensou que eu não iria descobrir? Quer se desfazer de mim, como meus pais, sua puta? - Ele tenta chutá-la.
Quem recebe os golpes sou eu.
Assim como quando tenta apunhalar com o vidro afiado, acaba cortando a palma da minha mão. Ranjo os dentes e choro em silêncio, aguento a dor lancinante que me corta enquanto o empurro para trás, com todas as minhas forças.
A minha mãe não tem mais nenhuma. Cai ao chão e abraça as próprias pernas, chorando desesperadamente.
- Eu não vou interná-lo. Eu prometo que não vou - é o que
diz. culpa!
- Eu perdi tudo por sua culpa, Melina! - Cospe nela. - Sua Perco o ânimo quando assisto mamãe concordar com as
palavras dele. Já não sei se faz isso porque quer que as agressões acabem ou porque concorda.
Meus pais se conheceram quando eram adolescentes. Ele, filho de uma família milionária, ela não tinha nem onde cair morta. Não sei o motivo, mas os meus avós, pais do meu pai, detestavam a minha mãe e disseram que se ele continuasse a namorar com ela, seria deserdado.
Meu pai sempre foi valente, esperto e rebelde. Continuou a namorar, não sei se na esperança de convencer a família ou de assumir as responsabilidades por tudo.
Bem... ele assumiu.
Foi colocado na rua e ficou sem família, sem dinheiro, sem
nada.
- Se você não tivesse engravidado dessa aí - ele cospe
em mim. - Eu teria uma vida boa hoje em dia. Você é responsável por toda a desgraça da minha vida! - Agora aponta para mim.
Da mesma forma como veio furioso, ele sai igual um furacão, derrubando o resto dos móveis e bate a porta do quarto com tanta ferocidade que a casa inteira parece tremer.
- Você sabe que não é verdade, mamãe, você sabe que não é verdade - agacho-me ao chão e a abraço contra o meu peito.
Ela está em choque, mal consegue olhar para mim.
Já vivenciamos diversos surtos e momentos assim, mas nunca tinha chegado a esse ponto. Tentamos conversar tranquilamente com ele sobre uma internação para que ele pudesse ter um acompanhamento por uns meses e melhorasse, mas papai explodiu.
E agora o chão da sala está ensopado com o meu sangue.
- Eu sinto muito, Nessa - tenta conter o sangramento apertando minha mão.
- Está tudo bem, mamãe, eu vou fazer um curativo - abro um sorriso para tentar tranquilizá-la. - Por que a senhora não vai pra casa da dona Dalva hoje, hein?
- Não. Não quero incomodar...
- Mas ela gosta tanto da senhora. Aprecia sua companhia e quando as duas começam a conversar, nunca param - sorrio, mas meus olhos continuam lacrimejando.
- Eu não posso sair daqui, Vanessa - ela chora junto. - Eu não posso. Mas você pode e deveria sair enquanto tem tempo. Não vale a pena estragar sua juventude aqui, minha filha. Você é tão talentosa - acaricia minha mão.
- Vamos voltar comigo para Moscou, mamãe?
Ela faz uma careta e minimiza a situação com um bico.
- Eu arranjo qualquer emprego e sustento nós duas. Eu só preciso que a senhora saia daqui, por favor, antes que seja tarde.
- Já é tarde, minha filha. Já é tarde.
Estico o corpo suavemente até ficar na ponta dos pés e giro delicadamente em meu próprio eixo, sem perder o equilíbrio. Com uma perna suspensa, desço o corpo até a cabeça ficar próxima do
chão e o pé erguido estendido ao céu e movimento as mãos com delicadeza.
- Au - olho para o curativo que fiz e gemo de dor.
- É tão bonito - minha avó comenta, ao observar meus movimentos.
Depois que atingiu um grau severo de Alzheimer, a mãe do meu pai veio morar conosco – sim, a que sempre destratou a minha mãe. Nem o marido, nem os filhos, ninguém quis ficar com ela, então mamãe a recebeu de braços abertos e nós duas cuidamos dela.
- Você dança tão bem. Devia se matricular no ballet - ela aplaude devagar, está bem debilitada.
- Eu estudei numa das maiores escolas de ballet do mundo, vovó. Na Bolshoi - pisco e ergo a perna esquerda, reta, acima da minha cabeça, enquanto me apoio na parede. - Isso é um Grand Battement.
- Tão habilidosa. Deveria aprender com profissionais - aplaude.
E eu aprendi.
Aos 7 anos minha mãe me inscreveu no ballet e lá eu conheci os dois grandes amores da minha vida: a dança e Dandara Bernardes[5].
A dança foi o que me ajudou a não ser tímida. Sempre fui introvertida, quieta e não sabia me comunicar, me expressar, papai já dava os primeiros sinais de violência em casa.
Então, mamãe me matriculou na escola de Ballet da dona Dalva e lá aprendi que a dança era a minha forma de me comunicar com o mundo.
Dandara Bernardes, a neta de dona Dalva, se tornou a minha melhor amiga. Infelizmente fomos separadas quando eu passei numa seleção para a Bolshoi e ela não, o que mexeu muito com ela.
Se ela soubesse o que vivi na Rússia, teria dado graças a Deus por nunca ter pisado lá.
- A vida é uma megera que tira tudo de você - a professora Petrovna dizia enquanto batia com uma régua de madeira em mim.
- Mais alto!
E eu pulava, até sentir meus tendões queimarem.
- Engordou desde o último ensaio? Pule mais alto! - ela gritava. - Parece uma aleijada tentando se esticar no armário. Pule feito uma garota de verdade! - A cada reclamão ela tinha prazer em bater em mim.
- A vida é o que a gente acredita que tem que ser - a voz de mamãe era o que me dava forças.
Ouvi-la em meus pensamentos enquanto apanhava longe de casa era o que me tornava forte e me fazia suportar tanta humilhação.
- Muito bem, pulou direito. O que uma boa surra não faz, não é mesmo? - A senhora Pretovna se vangloriava por achar que era ela quem estava despertando o meu dom, mal terminava de dizer isso e pegava seu cigarro, ia fumar no canto da sala.
- Que pulo lindo! - Vovó me traz de volta à realidade.
- Isso, vovó, é um Jeté - explico.
"Olha só isso".
Envio a foto com a minha mão enfaixada para o cara com quem estou conversando pela internet há muitos meses.
Ele não é qualquer cara. É um Sheik Árabe. Um príncipe bilionário que assistiu O Quebra Nozes quando eu fui a escolhida pela escola para ser a protagonista da peça.
Lembro que na ocasião o Sheik Rhayan Al Abdulla sequer olhou para mim. Mas depois me procurou no instagram e mantivemos contatos periódicos, desde então.
Dandara vai enlouquecer quando descobrir que eu também arranjei um Sheik. E um dia, espero que muito em breve, a minha mãe não terá mais de passar por tudo isso.
"Não posso permitir que qualquer homem faça isso com você, muito menos o seu pai. Venha para os Emirados agora!"
Meu coração se perde nos batimentos e meus dedos deixam o celular escorregar por entre meus dedos. Eu suspiro, igual uma menina idiota e apaixonada. Não gosto da ideia de ser salva, mas preciso sair daqui.
"Ele tentou matar a minha mãe outra vez, tive que me intrometer" é o que respondo.
"Não esperaria menos da minha mulher".
Sheik Rhayan sempre foi muito galante, atencioso e romântico.
Ele me manda flores, presentes, comida! Fazemos videochamadas sempre que dá, ele tem a vida muito agitada e sempre está nesses eventos milionários por aí.
Desfile de lingerie da Victória Secret's, Semana de Moda em Paris, visitando algum museu pelo mundo...
"Vou comprar sua passagem para vir ficar comigo essa noite".
"Sheik Rhayan... você sabe que não posso aceitar, preciso cuidar da minha mãe".
"Me envie os dados dela. Comprarei a sua passagem e a
dela".
Após refletir por um período e analisar todas as minhas
chances, fui sorrateiramente até a bolsa de mamãe e tirei uma foto de seu documento, enviei para o Sheik.
Minutos depois as passagens estavam compradas. "Últimas poltronas, infelizmente não tinha primeira classe". "Você comprou mesmo??? Ficou louco???".
"Louco seria deixar a minha mulher e sua mãe em perigo. O voo sai daí de madrugada. Te espero".
Andei em círculos pelo quarto, me achando maluca. De todas as loucuras que fiz na vida, essa, certamente, poderia estar no top 3, ao lado de: namorar um bandido na Rússia, ir sozinha para um país desconhecido com 10 anos de idade e conversar com um estranho pela internet.
"Você vem?"
Não tive forças para responder ao Sheik Rhayn, o que fiz foi jogar tudo de valor dentro das malas e correr para a edícula aos fundos, onde mamãe dormia para não sofrer qualquer abuso durante a madrugada.
- Oi, minha filha - ela acorda assustada, segura no colchão da cama.
- Mamãe?
- Hum? Já são 23h, Nessa, está tarde - boceja.
- Vamos embora!
- Nessa... - segura em meus ombros. - Já te falei, minha filha, não vamos envolver a dona Dalva nisso. Ela tem seus próprios problemas, a Janaína anda tão mal do coração...
- Não, mamãe, não pra casa da dona Dalva. - Meus olhos brilham. - Vamos para os Emirados!
- Emirados Árabes? - Ri. - Você bebeu, Vanessa?
- Visitar a Dandara, mamãe! - Minto para ela, para tentar convencê-la. - Você não quer?
Os olhos dela dizem que sim. O simples fato de ficar em silêncio e deixar a resposta pronta para a dúvida entrar, mostra que ela quer.
- Vamos passar uns dias com ela, depois voltamos. O papai vai estar com a cabeça no lugar, e...
- Filha - ela segura nas laterais do meu rosto. - Você é jovem, é bonita, é forte...
- Você também é. Olha só para esse rostinho, dona Melina, a senhora está na flor da idade. - Meus olhos lacrimejam porque já
sei a resposta.
- Vá. E se divirta por mim e por você. Eu vou ficar bem.
- Mamãe...
- Minha filha - segura em minha mão. - Eu estou vivendo a vida que eu escolhi e dela não posso sair. O que não é o seu caso. Você nunca devia ter voltado...
- Mas eu voltei, e...
- Você é talentosa, inteligente, não está presa à nada. O que a mamãe te ensinou desde quando você era pequena?
Nós duas choramos, em silêncio.
Porque apenas ela e eu sabemos o quanto foi difícil crescer nesse lugar e sobreviver a tudo o que passamos. Mesmo quando a vida pisou, tentou destruir e colocou minha mãe no chão, ela nunca perdeu a doçura, a graça e o brilho nos olhos de que o melhor estava por vir.
- Confie na vida - dizemos juntas.
Esse é o mantra dela. Esse é o meu mantra. Esse é o nosso
mantra.
Mamãe me ensinou que a vida só gera problemas que ela mesma pode resolver. E que se continuarmos a buscar a solução, o caminho, a resposta, uma hora encontraremos, basta...
Confiar na vida.
- Tenha uma boa viagem, meu amor. Não faça barulho quando sair. Vá e seja feliz! - ela me abraça com jeito de mãe, que aceita que o filho vá, mas não consegue soltá-lo.
- Eu volto. Pra te buscar - garanto.
Vou juntar dinheiro. Vou conseguir dar uma vida digna para ela. Vou tirá-la daqui.
- Eu volto por você, mamãe.
- Meu amor - ela solta minhas mãos, com um sorriso acalentador no olhar.
- Sim, mamãe?
- Confie na vida.
Vanessa Sá
Reencontros
"Curiosidade geralmente traz problemas."
- Lewis Carroll.
"Confie na Vida" é o que diz a tatuagem na lateral do meu pescoço.
Observo a fina caligrafia pela câmera do celular, assim como as minhas olheiras de choro pelas noites mal dormidas, hematomas nas minhas bochechas, no colo e pelos braços.
Ah, estou com a mão cortada também, gemo de dor quando pego a minha necessaire com meu kit de maquiagem.
É errado querer fugir? Porque a minha vida inteira foi sobre
isso.
Fugir da realidade, fugir da vida abusiva, fugir para um lugar
que eu pudesse me encontrar e ser feliz. Ser amada por quem eu sou e não precisar sofrer.
"Always" é o que diz a tatuagem do outro lado do pescoço.
Começo a preparar a pele para cobrir cada pedaço e deixar tudo uniforme, com aspecto saudável e descansado.
Afinal de contas, não é todo dia que você viaja 14 horas para encontrar seu Sheik Árabe Bilionário do outro lado do mundo, não é mesmo?
Bom, vamos lá, por onde eu começo?
Passo a água micelar por toda a pele e volto a ensaiar, em voz baixa, tudo o que eu vou dizer à Dandara Bernardes, minha melhor amiga, quando encontrá-la em Awmaj.
Ela ainda não sabe que estive por meses conversando com um estranho na internet e ela me consideraria verdadeiramente louca pelo que fiz. Mas eu confio na vida. Sempre. E preciso de um recomeço, então estou apostando as minhas fichas no Sheik Rhayan Al Abdulla.
- Por favor, me promete que não vai me julgar por tudo o que eu te disser? - Murmuro baixinho, para o meu próprio reflexo no celular, enquanto tiro as impurezas da pele.
O homem que viaja ao meu lado solta um ronco alto, faz um barulho com os lábios enquanto dorme.
- A verdade é que a minha vida nem sempre foi perfeita. Na verdade, ela sempre foi terrível, Dandara.
Respiro fundo. Preciso tomar um tempo para não chorar.
A ideia de fazer uma maquiagem é ficar bonita, não com cara de derrota.
- Quando eu passei naquele teste de Ballet para a Bolshoi com 10 anos, aquilo foi a minha salvação, sabe? - Engulo o choro, começo a passar o primer. - Meu pai sempre foi tão violento e abusivo... eu não sabia o que queria da vida, só sabia que não queria permanecer lá.
Palavras são apenas palavras.
Mas falar sobre coisas que estão guardadas no coração ou na memória é como costurar um pouco de si. Ao invés da agulha e linha, como minha mãe adora fazer, para expressar todos os seus sentimentos guardados, eu falo. Falo bastante.
E desde os 7 eu danço. Comecei na Academia de Ballet da Dona Dalva, avó da Dandara, lá em Recife.
- Não é que eu queria ir para a Rússia, mas eu não queria ficar em Recife, entende? Naquela casa barulhenta, cheia de culpa e raiva... Vendo a minha mãe apanhar, por ela e por mim, porque ela não deixava que meu pai me fizesse mal...
Respiro fundo. Sei que a minha melhor amiga também vai respirar.
Provavelmente vai me abraçar com força, segurar em minha mão e chorar junto comigo, porque é isso o que nós duas somos: duas manteigas derretidas.
- Sei que você sempre invejou por eu ter passado na Bolshoi, mas acredite, não foi esse sonho todo - rio de nervoso.
Espero o primer secar, abano meu rosto com os dedos.
- Na verdade eu tive que treinar mais de 10 horas por dia, todos os dias, com professores que exigiam nada mais do que a perfeição. Eles lembravam muito o meu pai...
Ensaio um sorriso para deixar as coisas menos tensas.
- Tinha uma, a professora Petrovna, que usava uma régua de madeira para bater na gente... eu amava - balanço os ombros, confusa com o que estou dizendo. - O que eu quero dizer, é...
- Roooooinc - o homem ao meu lado, que parece que não toma banho há 3 dias, avisa que ainda está aqui.
Deveria ser proibido entrar em qualquer lugar fechado sem desodorante e um bom perfume. Mas esse foi o meu ticket para sair daquele mundo, de novo. O Sheik Rhayan foi muito atencioso e ágil ao comprar a última passagem desse voo para que eu fosse vê-lo.
No início relutei. Passei todos esses meses enrolando para o encontro. Mas cheguei ao meu limite, eu precisava sair dali ou morreria, ao menos por dentro.
É claro que ele sugeriu me buscar de avião, mas só poderia fazer isso daqui 5 meses. Eu não tinha todo esse tempo. Estava prestes a surtar.
- Foi em Moscou que eu conheci o Pyotr Ivanov. É, eu tinha 15, ele tinha 30. E eu me sentia descolada, sabe? Era legal, ele era adulto, vinha de uma família rica, disse que se dependesse dele e com o meu talento, me faria ser a bailarina mais famosa do mundo.
Palavras, assim como lembranças, rasgam a carne feito uma navalha. Pyotr foi o meu primeiro amor, eu me entreguei a ele e por alguns meses aquela foi a melhor relação do mundo todo.
- Eu nunca tinha desconfiado dele, sabe, Danda? - Passo corretivo nessas olheiras, depois espalho a base pelo rosto. - A Alícia, minha colega de quarto na Bolshoi, desapareceu. Depois a Emily... a Karina... todas da minha turma - lamento.
Termino a primeira parte da maquiagem e analiso meu rosto: pareço novinha em folha. Agora só colocar os contornos e finalizar.
- Ele nunca me fez mal. Mas era ele, sabe? Ele e a família estavam metidos nessa coisa de capturar garotas e... não sei, não sei para onde as levavam, só sei que nunca voltavam - sacudo os ombros.
Quando se namora um cara assim, não dá para terminar de
boa.
Não dá para dizer: o problema não é você, sou eu.
O problema era ele. Claro que era ele. Se tinha um problema,
esse problema era ele.
Mas é difícil argumentar quando um homem coloca uma arma dentro da sua boca, empurra o cano até a sua garganta e te faz prometer que você nunca iria deixá-lo.
- Sim, é o que você está pensando - admito, derrotada. - Eu fugi, no meio da noite e voltei para o Brasil com o rabinho entre as pernas. Eu estava treinando para uma nova peça que ia rodar o mundo todo, meus professores estavam impressionados, mas você sabe... não posso ser a melhor bailarina do mundo... se estiver morta.
A única coisa que Dandara sabe é que voltei para Recife porque meu pai morreu e precisei cuidar da minha mãe. Mentira. Eu estava desesperada, precisava de um motivo para não me envergonhar, mas quando encontrar a minha melhor amiga, abrirei meu peito e direi toda a verdade.
- Agora você não precisa se preocupar, Danda. Eu já resolvi tudo. O Pyotr é passado, agora eu tenho o Sheik Rhayan e poderemos nos ver sempre porque nós duas estamos nos Emirados Árabes! - digo animada. - Você não sabe como senti a sua falta, amiga. Eu te amo tanto e fico feliz que você me ouviu e veio ser babá de gente rica. Quem sabe eu não...
Nem consigo concluir a frase.
O desgraçado sentado ao meu lado, vira na poltrona com a bundona em minha direção e peida.
É silencioso. E todo mundo sabe que esses são os piores.
Tusso alto e preciso cobrir o nariz para me salvar. As pessoas se levantam revoltadas, nas poltronas ao redor, xingando bastante enquanto o serviço de bordo tenta acalmar toda a classe econômica.
Eu? Derramo toda a água micelar na bunda desse porco, só para ver se tira umas impurezas.
- Oi? Que? Chegamos? - Ele se levanta assustado, entra no meio da confusão do corredor.
- Em trinta minutos - digo, passando um blush e arrumando a sobrancelha, nem me indigno a encará-lo.
Enfim esse inferno vai acabar. O avião está prestes a pousar em Awmaj e aqui encontrarei o meu Sheik e vamos, sei lá, para qualquer lugar que ele queira me levar. Paris? Londres? Quem sabe o Japão?
Ele é bem viajado, sempre está rodando o mundo e agora chegou a minha vez de ter o meu milkshake.
- Tá gata, hein - o homem se senta e estica o rosto em minha direção.
- Estou e não é para você - afasto-o com um safanão.
Não tenho pressa para descer do avião. Pego a mala de mão e sigo as indicações do aeroporto para pegar a minha mala despachada.
Tento usar o 4g para mandar mensagem para Dandara, mas o sinal está péssimo. Por isso me apresso, assim que sair do desembarque, vou comprar um chip e anunciar a minha chegada.
Ela não vai entender nada, mas vai adorar a surpresa.
Sigo a multidão para chegar à saída, onde pessoas aguardam os passageiros com placas, flores, familiares.
O que será que o meu Sheik aprontou? Seria bom que trouxesse comida, pois estou com fome. Comi no avião, mas eu preciso urgentemente de um chocolate ou algo delicioso, sei que ele terá algo.
Rhayan e eu temos uma conexão profunda desde a primeira conversa. Ele ama ballet, já foi me assistir. E é um expert na área do sexo, só pelas descrições que ele fez, minha imaginação voou longe.
- Estou chegando - digo animada ao ver a porta de saída.
Vou conter a minha vontade de pular em cima do homem e enchê-lo de beijos. Primeiro que aqui, isso não é apropriado. Ainda mais para o filho do Emir de uma cidade tão poderosa nos Emirados.
É bonito assistir (re)encontros, ainda mais no aeroporto.
Nossa, quando a minha mãe foi me buscar no Aeroporto Gilberto Freyre, ficamos abraçadas por pelo menos dez minutos. E chorando por dias.
Abro um sorriso de canto, não consigo controlar minhas emoções ao ver amigos se encontrarem. Uma mãe abraça sua filha como se nunca mais fosse soltá-la. Será que estão há quanto tempo sem se ver? Ela foi fazer faculdade? Se casou?
A mãe ajeita o véu na cabeça dela e a ajuda a carregar a
mala.
No lugar onde eu esperava e até desejava que estivesse
Sheik Rhayan e seus seguranças, vejo um homem com terno preto, sem barba, uma tatuagem na parte lateral da cabeça raspada.
Ele segura flores, ponto para ele. E uma cesta com chocolates, sete pontos para ele. Está sozinho, corajoso, olhos fixos em mim.
Assim que o vejo, mudo minha trajetória para ir em outra direção.
- Vanessa? - Me chama, seu sotaque russo é bem marcante.
- Não - é tudo o que tenho a dizer, empurro as duas malas com dificuldade, mas sigo meu caminho.
- Permita-me te ajudar - ele tenta tirar as malas das minhas mãos.
- Não! - Sou mais incisiva.
Não apenas me desvencilho, como aumento o passo.
Viajar com um tênis confortável e calça de treino tem lá seus encantos.
- Onde pensa que vai? - Pyotr quase se joga na minha frente, de toda sorte, parece centrado em impedir meu caminho.
- Eu vou para o meu final feliz, se é que você quer saber - largo a mala só por um instante e aponto para o lado direito do meu pescoço.
"Confie na vida", é o que diz.
- E como é o seu final feliz? - Ele ri, tenta pegar minha bagagem, mas eu sou mais rápida.
Antes que o responda, ele insiste em me entregar as flores, espero que ache um defunto para presentear. E essa merda de
chocolate, nem que fosse a última comida do mundo colocaria isso na boca.
Sei que tem um boa noite cinderela bem gostoso dentro do recheio.
Preciso admitir que estou tremendo de medo, mas só por dentro. Por fora me mantenho séria, firme, inabalável. Quando falo, calibro a voz para dizer tudo com clareza, força e segurança.
- Deixe-me adivinhar, ele é um Sheik.