Observação: Capa do livro
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A chuva torrencial começou a cair assim que Miguel deixou a fazenda e entrou na rodovia. Estava tudo acabado, liquidado, ele estava sem um tostão, e devendo para o Banco, breve teriam que deixar até a mansão para cobrança das dívidas. E agora? Como contar para a família? E sua filha Jade, que tinha completado vinte e quatro anos, e havia acabado de se formar em medicina, e ele tinha prometido a ela que montaria o seu consultório! E sua enteada Camila, que dependia do seu dinheiro para tudo? E sua esposa Laura, que no passado havia abandonado o marido que era pobre para fugir com ele, que era rico? Agora ele que era o pobre e o marido que ela abandonou agora era um homem rico, um grande fazendeiro, que morava próximo a Campos do Jordão.
Miguel era um homem atraente, de cinquenta e nove anos, com uma vasta cabeleira prateada sobre a cabeça, e uma pele clara.
Miguel pisou fundo no acelerador e a tempestade continuava a cair...
Da janela do seu quarto, Jade observava a chuva cair sobre São Paulo.
- Sei que está acontecendo alguma coisa com o meu pai, mas ele não se abre comigo! – disse a si mesma.
Jade espichou o braço e estendeu a mão para sentir os pingos da chuva... Tão linda a chuva, tão bonita de ser vista!
Pouco a pouco a noite envolvia a cidade, e nada de seu pai aparecer... Ela já tinha ligado para a fazenda, e os caseiros garantiram a ela que o seu pai já havia saído.
Jade era uma mulher bonita, de olhos verdes e cabelos negros, lisos que chegavam até os ombros. Não tinha namorado não que faltasse alguém que a quisesse, pois muitos rapazes a queriam, ela é que não havia se apaixonado por nenhum deles.
No andar debaixo, Laura a segunda esposa de Miguel mandou a empregada voltar para a cozinha, e seus olhos se fixaram em Camila.
- Sabe Camila, estou terrivelmente preocupada! Tenho certeza que os nossos negócios não andam bem, Miguel tenta disfarçar, mas eu sei, eu sinto que ele está me escondendo alguma coisa.
- Tem certeza? Seria horrível se ficássemos pobres...
Jade e Camila tinham a mesma idade, ambas tinham cabelos negros e olhos verdes.
- E pensar que eu deixei o seu pai que agora é um homem rico, para fugir com Miguel que agora pode ter se tornado um falido...
- Nunca mais entrou em contato com o meu pai, não é?
Camila olhou para a mãe, que andava de um lado para o outro na sala.
- Não, nunca! Miguel sempre nos deu tudo! Tudo que o dinheiro pode comprar. Sabe... Eu nunca poderia imaginar que Sandro, o grosso do seu pai, fosse um dia conseguir fazer fortuna.
Sandro... Laura tinha se casado tão jovem com ele, casou-se grávida, pouco depois do nascimento de Felipe, irmão de Sandro. Segundo Sandro, a mãe morreu ao dar a luz a Felipe, era só isso que as pessoas sabiam. Ele tinha feito uma viagem com a mãe para fora de Campos do Jordão, e não voltou com ela, apenas com o meio-irmão recém-nascido. Um segredo envolvia a família, um segredo que Sandro escondia de todos para evitar escândalo! Mas o suicídio do pai fez Sandro odiar a mãe e fazer algo que mudaria para sempre à vida de todos...
O clima de Campos do Jordão é reconhecido internacionalmente como um dos melhores do mundo. A cidade está localizada entre as capitais de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Na alta temporada, a suíça brasileira como é conhecida, chega a receber mais de um milhão de turistas.
Sandro Menotti era o dono de uma da mais linda fazenda, próximo a Campos do Jordão.
A fazenda Pedra Maior tinha sido lindamente construída. A sede da fazenda era um casarão colonial, com sala de estar e jantar, oito quartos, banheiro, cozinha grande, e um porão, com uma sala e quarto, lareira e adega. Na parte externa, o casarão tinha um belo jardim, piscina, sauna, salão de festas, a casa do caseiro, que ficava a alguns metros dali, as belas nascentes de água, lagos e rios, as matas com suas trilhas convidativas para um passeio á natureza.
Dali do casarão se tinha uma vista maravilhosa da Pedra do Baú. Pedra do Baú é uma enorme formação rochosa, com três rochas, a maior e mais alta pedra com 1.950 metros de altitude, o Bauzinho com 1.760 metros, e a Ana Chata com 1.670 metros de altitude. As duas últimas são localizadas ao redor da principal.
Antes de perder as suas forças e ir parar naquela cama, Sandro, da janela do seu quarto sempre observava a pedra do baú, que enchia os seus olhos, e acalmava o seu coração, quando ele se lembrava da filha Camila, que a esposa havia levado junto com ela, quando havia fugido com outro homem.
Naquele momento, sobre a cama, com a aparência nada boa para um homem de quarenta e sete anos, Sandro desejava ter forças novamente, para chegar até a janela e olhar para a Pedra do Baú, e lembrar-se do dia em que ele era jovem, galgou a escada de ferro, fixada na rocha e alcançou o topo, local de onde se tinha uma visão espetacular de boa parte da serra de Campos de Jordão e as belas montanhas de Minas Gerais.
Uma leve batida na porta despertou Sandro do seu sono perturbado por dores.
Um rapaz alto, de olhos verdes, de aproximadamente uns trinta anos, entrou.
- Doutor Augusto...
Doutor Augusto era advogado de Sandro, e era ele que estava encarregado de encontrar a filha.
- Doutor Augusto, você tem que encontrar a minha filha, eu não posso morrer, sem antes vê-la. Ela tem que saber que ela é a minha única herdeira!
- Eu vou encontrá-la, senhor Sandro, não se preocupe. Já coloquei dois detetives para isso.
Augusto se afastou um pouco da cama, desejando falar mais alguma coisa, não aguentando, ele voltou-se para perto da cama e disse:
- E Felipe, Sandro? Você acha justo não deixar nada para ele? Ele é seu irmão!
Sandro, mesmo doente, fica com raiva, agitado sobre a cama.
- Ele é meu meio-irmão, um bastardo! E além de ser um bastardo, é um assassino!
- Felipe não matou o filho de Glauber, ele foi condenado injustamente! Ele está saindo em liberdade condicional, e vai provar isso, e eu... Eu vou ajudá-lo.
- Pensei um pouco, e quero que acrescente uma cláusula em meu testamento.
- Cláusula? Que tipo de cláusula? – Augusto reage surpreso.
- Se dentro de dois anos após a minha morte, se você não encontrar a minha filha Felipe herda tudo! E se por azar a minha filha também estiver morta, mesmo contra a minha vontade, Felipe herda tudo!
- Você sabe muito bem que a sua filha não está morta, e que ela vai ser encontrada, por isso quer acrescentar essa cláusula, ou seja, Felipe não vai receber nenhum centavo do seu dinheiro.
- Fico feliz que ele não receba nada! Eu o desprezo! – disse Sandro, cheio de ódio.
Um rapaz alto, loiro de olhos azuis, atravessou o portão do presídio que acabara de se abrir para ele. Eram oito horas da manhã, e um frio envolvia aquele lugar. Um vento agitou os seus cabelos, que estavam um pouco grande, chegando até o colarinho da camisa azul que ele usava naquele momento.
Felipe era um rapaz bonito de vinte e cinco anos, atlético, de musculatura rígida, que ele não deixou perder durante o tempo em que esteve preso. Fazia sempre ginástica no presídio para manter a forma. Ele olhou para o céu naquele momento, respirando fundo, e soltando devagarzinho o ar de seus pulmões, e agradecendo a Deus pela liberdade. Deixou a mochila no chão e abriu os olhos, olhando para o céu, girando, sentindo o efeito da liberdade.
Um carro parou do outro lado da rua, e uma mulher alta, de cabelos negros desceu. O impacto em vê-la, fez Felipe parar de girar e seus olhares se encontraram.
Mas o seu olhar para ela, não era um olhar doce e nem suave, era um olhar frio, com mágoa e ressentimento.
- Eva...
- Não me olhe desse jeito pelo amor de Deus... Eu fiquei sem chão quando você foi condenado, não tiver forças para aguentar, e Glauber me estendeu a mão...
- Como você quer que eu a olhe, depois de ter me abandonado nesse lugar e ter... E ainda por cima ter se casado com outro? Você se casou com o homem que fez de tudo para que eu fosse condenado! Eu fui condenado por um crime que eu não cometi! Abandonou-me nesse lugar, casou-se com outro, e ainda por cima teve um filho com ele!
O desprezo por Eva era evidente em seu olhar.
- Eu te amo, Felipe, eu nunca te esqueci... Foi besteira o que eu fiz, eu sei... – ela estendeu a mão para tocar o seu rosto, mas ele se afastou bruscamente.
- Me ama tanto, que se casou com outro, assim que me enfiaram nesse inferno! – disse ele, agitando os braços em direção ao presídio. – Mas uma coisa eu lhe digo, eu vou descobrir quem matou Max.
Dizendo isto, ele colocou a mochila nas costas e começou a andar, ignorando por completo Eva.
- Vai voltar para Campos do Jordão, para a fazenda do seu irmão?
- Se vou ou não, isso não é problema seu.
- Eu levo você.
- Não... Obrigado, vá cuidar do seu marido e do seu filho...
As lágrimas começaram a descer pelo rosto de Eva...
- Seu irmão está morrendo, sabia?
Felipe virou-se para ela, com ar preocupado.
- Durante esse tempo todo que eu estive nesse lugar, ele nunca veio me ver, afinal eu sou o fruto do pecado, sou um bastardo que ele odeia e despreza!
Um carro parou ao lado de Felipe, o vidro foi aberto automaticamente e Augusto com um sorriso, perguntou:
- Quer uma carona, amigo?
Felipe sorriu, abrindo a porta do carro, e entrou.
- Ela veio... – disse Augusto.
- Quero distância dessa mulher...
- Se quiser ficar em minha casa, você sabe que as portas estarão sempre abertas para você.
- Obrigado, meu amigo, mas por enquanto eu resolvi ficar em Pedra Maior, mesmo sabendo que não serei bem recebido pelo meu irmão.
Augusto arrancou com o carro, Eva ficou para trás, e tornou-se mais distante, quando ele pisou fundo no acelerador.
- Eu não concordo com o jeito que Sandro trata você. Eu sou contra mais ainda ele se negar a deixar parte da fortuna dele você. Sabia que ele quer que encontremos a filha dele a qualquer custo? Ele não quer morrer, sem antes vê-la. Ele fez o testamento, deixando tudo para ela... Deixou uma pequena cláusula, dizendo que se Camila não for encontrada dentro de dois anos após a sua morte, ou se ela por azar, estiver morta, aí sim toda a fortuna dele fica para você. Mas eu tenho quase certeza de que a moça está viva, e que vamos conseguir encontrá-la, ou seja, você não herda nada!
- Eu não quero o dinheiro dele, Augusto. Que Camila faça bom proveito da grana do pai.