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Os melhores amigos do irmão são meus companheiros

Os melhores amigos do irmão são meus companheiros

Autor: Lino.
Gênero: Lobisomem
"Ômega, em cerca de uma hora, você sentirá calor, tontura e ficará dominada pelos hormônios no seu corpo." Fiquei pálida. "O que acontece depois que fizer efeito?" "Então, um alfa na área próxima reagirá ao seu cheiro." Uma hora depois, a enfermeira apareceu, com um olhar estranho que eu não gostei. "Então ele está lá fora?", perguntei. O sorriso da enfermeira desapareceu. "Não, não é um." Meus olhos se arregalaram. "Dois?" "Não, você tem quatro companheiros." Balancei a cabeça. "Não, não é possível!" Com um suspiro, ela abriu o celular. "Seus companheiros são: Colby Mcgrath, Rain Kim, Matthew Clark e Jade Johnson." Quando ela disse o primeiro nome, já comecei a me sentir fraca, mas então ela continuou a listar os nomes dos meus algozes de anos. Como poderia estar ligada a todos os amigos do meu irmão? Minha calcinha ficou molhada, mas me recusei a aceitar que isso era uma reação hormonal.
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Capítulo 1 Minha amiga tem dois companheiros

Lia

O almoço que preparei para mim ficou quase intocado. Peguei um pedaço do sanduíche e dei uma mordida, mas tive dificuldade para engolir. Como se tivesse areia na boca, senti vontade de cuspir.

O convite para minha cerimônia de maioridade, que havia sido entregue há duas semanas, estava dobrado e enfiado no bolso do meu casaco. Com as mãos trêmulas, tirei e li palavra por palavra.

Convite oficial

Prezada Lia Brown, É com imensa alegria e honra que a convidamos para participar da sua Cerimônia de Maioridade, uma ocasião memorável que marca essa importante fase da sua vida. Esta celebração é uma prova do seu crescimento, das suas conquistas e do futuro promissor que está por vir.

Detalhes do evento:

· Data: Segunda-feira, 6 de outubro

· Horário: 9:00

Pedimos que chegue pontualmente à clínica para garantir o bom andamento do evento e aproveitar ao máximo essa experiência. A cerimônia incluirá discursos emocionantes, apresentações especiais e uma celebração formal dessa transição crucial.

Por favor, confirme sua presença entrando em contato com o escritório.

Estamos ansiosos para celebrar essa ocasião importante com você e parabenizar você por essa jornada. Caso tenha alguma dúvida ou precise de mais informações, não hesite em entrar em contato.

Atenciosamente, Escola Aspen

As palavras me encheram de emoções negativas. Eu só queria me encolher, tentando ignorar a ansiedade avassaladora da qual não conseguia me livrar. Todos os meus amigos estavam muito animados e felizes por descobrirem quem poderia ser seu companheiro.

Meu nervosismo estava à flor da pele, como vinha sendo nas últimas semanas. Minha cerimônia de maioridade seria em menos de uma semana, marcando minha transição para uma loba adulta e, o mais importante, me dando um companheiro.

De repente, ouvi passos, o cascalho e as folhas crepitando sob seus pés pesados. Virei a cabeça tão rápido que minha trança loira e comprida por pouco não bateu no meu rosto.

Levei a mão ao meu coração que ainda batia forte e gritei: "Simone! Você me assustou."

Ela riu, se sentando ao meu lado no banco.

"O que faz aqui fora, Lia? Procurei por você em todo lugar para contar minha novidade!"

Mordi levemente o lábio inferior, enquanto a ansiedade atingia o auge.

"Ah, é verdade, sua cerimônia de maioridade foi hoje, né? Como foi?"

"Foi incrível! Encontrei meus companheiros!", ela exclamou.

Essas cerimônias nem sempre eram uma garantia depois de tomar o medicamento que aumentava a produção de odor. Poderia levar semanas para encontrar seus companheiros, se eles existissem.

"Fico feliz por você ter encontrado seu companheiro. Quem é ele?"

"Companheiros, Lia. Encontrei meus companheiros."

Meus olhos azul-oceano se arregalaram do tamanho de pires. "O quê?"

Ter um companheiro era o resultado mais comum, enquanto dois não era algo inédito, mas bem mais raro.

"Tenho dois companheiros", Simone riu. "Você conhece Max e Xavier da faculdade vizinha?"

"Eles estão no time de rúgbi..."

"Sim, e eles serão meus companheiros!"

Simone estava radiante, suas bochechas coradas e seus olhos brilhando.

Eu não gostava da ideia de ela ficar presa a dois caras do time de rúgbi da faculdade, já que a maioria deles eram uns idiotas brutos que usavam seu tamanho e posição para conseguir o que queriam.

Sabia bem como eles eram, porque meu irmão mais velho, Michael, estava no time.

Ele jogava no time de rúgbi do ensino médio e depois passou para o da faculdade. Junto com seus quatro amigos, Colby, Rain, Matt e Jesse, eles ajudaram o time a ganhar troféu após troféu e campeonato após campeonato.

Nossos pais costumavam ir a todos os jogos. Depois que eles morreram, continuei com a tradição, mas odiava cada minuto que passava lá.

"Você virá à minha comemoração esta noite, não é?"

"Claro! Simone, você é minha melhor amiga."

Ela me puxou para um abraço, deixando escapar um suspiro de surpresa ao notar meu convite amassado sobre a mesa de piquenique.

"Lia, você ainda não confirmou sua presença. Está esperando o quê?!", ela exclamou, a decepção estampada nos seus olhos.

Mexi na cadeira e desviei o olhar. Não queria decepcionar ninguém, muito menos uma das minhas melhores amigas - na verdade, minha única amiga.

Na maioria das vezes, eu preferia ficar sozinha, mas Simone conseguiu quebrar as barreiras que eu havia erguido.

"Não quero fazer a cerimônia de maioridade", disparei.

O clima ficou tão tenso que dava para cortá-lo com uma faca. Olhei nos olhos de Simone, desejando que ela pudesse entender o que eu estava sentindo.

"Lia, isso não tem graça."

Admiti num tom suave: "Não estou brincando. Não quero a cerimônia. Nunca quis, mas todos agem como se fosse a coisa mais normal do mundo por aqui."

"Porque é!"

Balancei a cabeça. "Para mim, não é."

"Sabe o que acontece quando você não passa por esta cerimônia? Você se torna uma pária social", Simone sussurrou, com uma expressão de horror no rosto. "Se lembra de Alison Larson, que se formou um ano antes de nós? Ela se recusou a fazer a cerimônia e teve que se mudar para outro estado para escapar das críticas."

"Você é a única pessoa próxima que tenho aqui", admiti.

"E Michael? Se esqueceu dele?"

Ao ouvir o nome do meu irmão, a culpa me dominou. Eu o amava mais do que tudo, mesmo que às vezes ele parecesse mais irritado com minha presença do que qualquer outra coisa.

"Como eu poderia me esquecer do meu irmão? Isso é ridículo."

"Bom, estou falando isso por um motivo! Se você for embora, nunca mais o verá."

Meus ombros caíram em derrota.

"Tá bom... vou assinar e devolver hoje mesmo."

Simone soltou um suspiro de alívio. "Obrigada, Lia. Sei que é assustador e que você está nervosa sobre quem pode ser escolhido para ser seu companheiro, mas quando tudo isso acabar, você poderá voltar a viver sua vida normalmente."

Eu queria perguntar a Simone como era possível voltar à vida normal quando eu teria um companheiro, alguém que estaria constantemente ao meu lado, mas me contive. Simone estava tão feliz e radiante que a última coisa que eu queria era estragar sua felicidade.

***

Enquanto brincava nervosamente com um fio solto da minha saia xadrez vermelha regulamentar, minha mão pairava a poucos centímetros da porta da clínica. Soltando um suspiro pesado, bati o mais forte que pude.

"Entre!", chamou a enfermeira.

Ao me ver, a enfermeira Wu franziu a testa.

"Pelo visto, finalmente decidiu devolver o documento. Por um momento, pensei que você não iria devolvê-lo e nem participar da sua cerimônia de maioridade."

"Sim, seria um escândalo se eu fizesse uma coisa dessas, não é mesmo?" Franzi a testa.

"Pode continuar sendo sarcástica, mas você sabe que estou certa, Lia. Você vai virar motivo de piada."

"Sim, você não é a primeira pessoa a me dizer isso."

Ela revirou os olhos. "Agora volte para a aula."

Deixei a porta bater com força atrás de mim, a raiva me invadindo. Por que todos insistiam tanto em seguir essa tradição?

Uma pequena parte de mim queria isso, mas eu estava com medo de quem seria meu companheiro. A cerimônia de acasalamento dos meus pais deu certo, assim como a do meu irmão. Ele encontrou uma jovem adorável chamada Madison, que se formou na mesma turma que ele.

Nem todos encontravam seus companheiros. Se não encontrassem, eles entravam no banco de dados e eram incentivados a tentar a cerimônia novamente em alguns anos, como o grupo de amigos mais próximos do meu irmão.

Ninguém os criticava, afinal, pelo menos, tinham tentado realizar a cerimônia. Eu gostaria que fizessem o mesmo com as pessoas que optavam por não passar pela cerimônia.

Entrei na sala de aula um pouco atrasada e me sentei no meu lugar de sempre ao lado de Simone.

Ela se inclinou para perto de mim e sussurrou: "Você entregou o documento?"

"Sim, farei a cerimônia na próxima semana", sussurrei de volta.

Ela soltou um gritinho, tentando ao máximo abafar o som para não chamar a atenção da nossa professora.

"Não vejo a hora de saber quem serão seus companheiros, Lia."

"Companheiro, no singular."

"Bom, agora tenho dois companheiros", ela ressaltou.

"Sim, mas o comum é ter um só, não dois."

"Uma vez ouvi falar de uma garota que tinha três."

Empalideci, me mexendo desconfortavelmente na cadeira. "Três companheiros de uma só vez?"

"Imagina que loucura!" Simone riu um pouco alto demais.

A professora limpou a garganta, nos lançando um olhar fulminante. A risada explodiu na sala de aula, e minhas bochechas ficaram vermelhas de vergonha. Como eu estava pálida, o rubor se destacou ainda mais, para o constrangimento de todos na sala.

"Vamos conversar depois", sussurrei para Simone.

Não queria me meter em problemas, já que minha cerimônia de maioridade estava tão próxima. Não havia necessidade de dar a eles mais motivos para me criticarem.

Capítulo 2 Os melhores amigos do meu irmão

Lia

Quando cheguei em casa, só queria ter um pouco de tranquilidade para organizar meus pensamentos. Porém, no momento em que passei pela porta, ouvi várias vozes altas vindas da cozinha, o lugar onde meu irmão e seus amigos gostavam de se reunirem.

Respirei fundo e fechei a porta o mais silenciosamente possível, mas não o suficiente para não ser notada.

Michael, meu irmão, colocou a cabeça para fora da cozinha com um sorriso malicioso nos lábios.

"Tentando escapar sem dizer um 'oi', irmãzinha?"

"Moro com você", rebati. "Por que tenho que dizer 'oi'?"

Uma voz mais grave soltou uma risadinha, e Colby apareceu ao lado de Michael. Ele era um pouco mais alto que Michael, que já tinha impressionantes 1, 80 de altura.

Os olhos verdes penetrantes de Colby se fixaram na minha figura tensa enquanto perguntava com um sorriso: "Lia, vai subir sem cumprimentar a gente?"

Rain apareceu do outro lado de Michael. Ele tinha a mesma altura do meu irmão, seus cabelos castanhos rebeldes presos em um coque desarrumado. "Lia, você não vai nos desprezar, né?"

"Não, mas é tentador." Soltei um suspiro.

"Matt, Jesse! Venham aqui e deem um oi para Lia antes que ela decida se esconder no quarto."

Balançando a cabeça, me apressei em virar no corredor.

"Lia!", meu irmão gritou.

"Vou para o banheiro!"

No banheiro, me recostei na porta e xinguei baixinho. Por que tinha que lidar com isso agora?

Aqueles quatro amigos do meu irmão eram o inferno na minha vida. Eles viviam me atormentando, e Michael só fazia algo a respeito em metade das vezes.

Ele achava que isso construía caráter. Que ideia absurda essa!

Se eu não tivesse que ir ao banheiro, teria corrido para o meu quarto! A porta tinha uma fechadura resistente, mas eu não sabia se ela aguentaria o chute de um jogador de rúgbi.

Após terminar de usar o banheiro, não saí imediatamente, por odiar a ideia do que poderia me esperar lá fora. Provavelmente seriam mais provocações e intimidações de caras que conhecia desde que me entendia por gente.

Por um momento, encostei meu ouvido na porta e tentei ouvir algo. Lá fora, estava tudo muito silencioso, o que era preocupante, já que eu sabia o quanto eles podiam ser barulhentos. O que eles estavam tramando?

Respirei fundo e abri a porta, apenas para esbarrar em alguém e ricochetear contra uma parede sólida de músculos. Soltei um grito enquanto cambaleava para trás, mas mão fortes me seguraram pelos ombros e me estabilizaram.

"É bom te ver de novo, Lia."

Levantei os olhos, e um rubor se espalhou pelo meu rosto quando percebi o quão perto o rosto de Matt estava.

Ele tinha uma barba rala no rosto e olhos castanhos brilhando de diversão. Quando se inclinou, uma de suas tranças longas caiu para frente, roçando na minha bochecha.

Eu podia sentir o calor do seu corpo, o que me deixou nervosa.

"É bom te ver também. Pode me soltar, por favor?"

"Só estava garantindo que você não caísse de bunda no chão. Da próxima vez, não serei tão cavalheiro e vou te deixar cair", ele disse em tom de provocação.

Revirei os olhos, passei por ele e segui em frente, já que ele se recusava a se mover.

O único que eu ainda não tinha visto era Jesse e, de todos os amigos do meu irmão, ele era o mais quieto. Às vezes, quando ele me olhava, parecia que estava me analisando. Se olhares pudessem matar, Jesse mataria com apenas um.

Minha mochila ainda estava no pé da escada, onde a deixei. Olhei em volta, tentando ver se alguém estava por perto, e as risadas vindas da cozinha me fizeram pensar que eu poderia estar a salvo.

Às vezes, eles se esqueciam de mim e voltavam ao que estavam fazendo. Eu esperava que esse fosse um desses momentos.

Subi as escadas rapidamente. O que não esperava era encontrar outra parede de músculos, parada bem em frente à minha porta. Quase caí novamente, mas consegui me segurar.

"Olhe por onde anda."

Olhei para cima e vi Jesse me encarando, seus olhos azuis gélidos semicerrados. Seu cabelo loiro desgrenhado caía para frente, escondendo parte do seu olhar. Com um movimento rápido da cabeça, ele o afastou, sem desviar o olhar de mim.

"Você que está na frente da minha porta!", gritei.

Ele piscou. "Só queria te cumprimentar. Você teria me dado um oi se eu não estivesse aqui, Lia?"

Eu odiava a maneira como ele pronunciava meu nome, como se estivesse arrastando cada sílaba de propósito.

"Quero entrar no meu quarto."

"Então me cumprimente ou tente me tirar daqui. Adoraria te ver tentando."

A irritação tomou conta de mim, mas o que poderia fazer? Eu tinha apenas 1, 60 de altura e não era páreo para um jogador de rúgbi.

"Oi, Jesse", murmurei.

"Tá vendo? Foi tão difícil assim?", ele perguntou, abrindo um sorriso e passando por mim. "Tenha um bom dia, Lia. Talvez você seja gentil e desça para se despedir de todos nós também."

"Nem pensar!", gritei de volta para ele, entrei no meu quarto e bati a porta.

Por que todos eles tinham que me provocar tanto assim? Quando eu era mais nova, os seguia como um cachorrinho perdido, querendo fazer parte do grupo.

Agora, manter a maior distância possível entre nós era tudo o que eu queria.

***

Duas horas depois, o barulho finalmente estava diminuindo. Passei a última hora desabafando com Simone, que, como a boa amiga que era, ouviu cada palavra.

O que faria sem uma amiga tão boa como Simone?

Como estão as coisas? Está sobrevivendo ao caos aí? - S

Por pouco. Colby acabou de derramar batata frita na minha cabeça "sem querer". - L

Kkkkk 😂. É bem a cara de Colby. O que os outros estão fazendo? - S

Rain está fingindo ser um chef de cozinha com uma caixa de pipoca de micro-ondas. Matt está rindo de tudo isso, e Jesse não para de contar piadas horríveis. - L

Tipo o quê? - S

Ele perguntou: "Lia, por que a bicicleta não conseguiu se levantar sozinha?" - L

Ah, não... - S

"Porque estava 'two-tired'!" - L

Eu já teria surtado. - S

Pois é! E então Matt disse: "Uau, Jesse, essa piada foi tão ruim quanto o gosto de Lia por filmes." - L

Nossa! Você respondeu algo? - S

Claro. Disse a ele que a playlist dele era tão ruim que até o Spotify o deserdaria. - L

Boa! O que ele disse? - S

Nada. Ele só sorriu e disse: "Essa foi boa, Lia", como se eu fosse uma criancinha tentando ser esperta. - L

Matt de sempre. - S

E agora eles estão tramando alguma coisa. Eles ficam quietos assim quando estão prestes a fazer alguma brincadeira idiota. - L

Ah, não. O que acha que estão tramando? - S

Não sei, mas se eu parar de responder de repente, me vingue. - L

Sempre estarei lá para te vingar. - S

Tenho que ir. Michael acabou de entrar e parece culpado 😑. - L

Boa sorte. Você vai precisar! - S

"Ei, Lia, desculpe por tudo isso. Sei que os caras são barulhentos."

Encarei Michael e soltei uma risadinha. Como se eu fosse dar atenção para isso! Por acaso meu irmão achava que eu iria perdoá-lo? Às vezes, ele podia ser tão insensível, fosse de propósito ou não.

Michael sempre vacilava quando se tratava do jeito que eles me intimidavam. Ou ele dizia que tudo não passava de uma brincadeira inofensiva, ou pedia desculpas depois.

"É, bem... já deveria esperar isso de um bando de jogadores de rúgbi."

Ele revirou os olhos. "Sobrou pizza lá embaixo. Desça se quiser um pedaço ou fique aqui emburrada, tanto faz para mim. A escolha é sua."

Por um momento, me perguntei o que aconteceria se eu acabasse ligada a Colby, Rain, Matt ou Jesse. Um arrepio de pavor percorreu meu corpo. Eu não conseguiria lidar com o fato de que a pessoa destinada a mim fosse um desses caras.

As provocações só aumentariam, me deixando presa a eles até que um de nós se juntasse aos nossos ancestrais.

Mas isso não aconteceria, certo? Era tolice pensar que eu acabaria virando companheira de um deles.

Mesmo assim, o medo permanecia, enchendo meu estômago e cada parte do meu ser de pavor.

Capítulo 3 Crimson Chargers

Lia

Quando fui chamada ao escritório administrativo no dia seguinte, fiquei morrendo de nervosismo. Não entendia por que me chamaram lá. Não bastava ter entregado o formulário?

Coloquei uma mecha loira atrás da orelha e deixei escapar um suspiro trêmulo. Meus olhos azuis percorriam a sala, enquanto esperava o funcionário entrar para falar comigo.

"Obrigada por vir, Lia Brown."

Resisti à vontade de ficar me remexendo na cadeira, embora a vontade fosse imensa.

"Já assinei o documento e devolvi. Por que estou aqui?"

Ela piscou. "Senhorita Brown, você não está em apuros. Só precisamos adiar sua cerimônia para a próxima semana para receber um palestrante que contratamos de última hora. A equipe estará ocupada com os preparativos, por isso espero que entenda."

"Como é? Quero acabar logo com isso, e não ter que esperar mais alguns dias!"

"Senhorita Brown, por favor, se acalme", a mulher murmurou, me encarando do outro lado da mesa. "Sei que está ansiosa para encontrar seus compa..."

"Não, você não entende, porque não é isso que quero. Não quero fazer a cerimônia de jeito nenhum, e se eu pudesse, nunca passaria por essa cerimônia de acasalamento!"

Seu rosto se contraiu e ela revirou os olhos de forma dramática.

"Ah, então você é uma dessas. Bom, deixe-me dizer uma coisa, senhorita Brown. Não participar da cerimônia..."

"É suicídio social, sim, eu sei. Minha melhor amiga já me disse."

"Então você deveria ouvir sua amiga, pois ela é muito inteligente. Você não precisa participar dessa cerimônia, mas sugiro fortemente que participe. Caso contrário, será difícil para você viver em sociedade."

Resisti à vontade de olhar feio de volta.

"Eu sei, senhora."

"Então coloque um sorriso no rosto e seja corajosa, e entenda que sua cerimônia de maioridade será na próxima semana, e não nesta semana. Se algo mudar, avisaremos."

Quando saí do escritório administrativo, não imaginava que encontraria Simone lá fora. Acabei esbarrando nela, tropeçando para trás e quase caindo no chão.

"Lia!" Simone estendeu as mãos para me segurar. "Desculpe! Estava te esperando."

Embora eu estivesse irritada, peguei na mão dela sem muita delicadeza. "Tudo bem, Simone."

"Então, o que eles queriam?"

"Como um palestrante virá, eles adiaram minha cerimônia de maioridade para a próxima semana."

Simone franziu a testa. "Palestrante? Espere..."

"O quê?"

"Nada."

"Simone, tem alguma coisa! Você nem está olhando nos meus olhos."

De repente, Simone segurou meu pulso e me puxou pelo corredor até encontrar uma sala de aula vazia onde pudemos entrar. A cada segundo, eu ficava mais apreensiva, tentando descobrir o que minha melhor amiga estava escondendo.

"Eu estava levando alguns documentos para a sala dos professores e ouvi dizer que o palestrante será Crimson Chargers."

Empalideci. "Crimson Chargers? O time de rúgbi da Universidade Ironwood?"

"Sim."

"O time de rúgbi do qual meu irmão e os amigos dele fazem parte?"

"Esse mesmo."

Sentei-me na cadeira vazia mais próxima, desejando poder desaparecer.

"Por que eles estão vindo aqui como convidados especiais? Já não basta que nossa escola seja afiliada a eles?"

Já não basta ter que vê-los várias vezes por semana quando chegava em casa da escola? Esta escola era meu único refúgio contra eles. Não queria ter que andar por esses corredores com medo de que, a qualquer momento ao virar a esquina, pudesse encontrar um deles.

No entanto, agora, meu refúgio estava se transformando num maldito pesadelo.

"Vou faltar à aula."

"A presença é obrigatória, Lia. Se você não for, eles vão te dar um aviso."

Resmunguei. "E daí? O que me importa se eles me derem um aviso? Minha frequência e notas são boas!"

"Lia, você sabe como esta escola trata o time de rúgbi. Eles são tratados como reis. O diretor não hesitará em te punir se você faltar."

Às vezes, eu odiava o fato de meu irmão e eu estudarmos nesta escola particular. Nossos pais eram ex-alunos daqui, então tínhamos um desconto de cinquenta por cento na mensalidade. Quando eles morreram, a escola fez uma ação de caridade e dispensou a mensalidade por completo - algo feito por pena, mas era acessível.

Como nossos pais eram ex-alunos, o mesmo aconteceria se fôssemos para a Universidade Ironwood - a mensalidade seria dispensada.

"Merda."

"Vamos nos sentar no fundo, onde eles não poderão nos ver", sugeriu Simone.

Sorri fracamente. "Eles conhecem meu cheiro muito bem, Simone. Não sei se isso vai dar certo."

Eles me procurariam longe dos olhos curiosos dos professores, alunos e qualquer pessoa que pudesse denunciar o que faziam para me atormentar. Eu poderia recorrer ao meu irmão, mas de que adiantaria? Ele sempre ficaria do lado deles.

"Vamos dar um jeito", Simone garantiu.

Quando chegou a hora do almoço, nem queria comer. Meu estômago estava embrulhado, e qualquer comida poderia me fazer vomitar. Afastei meu prato com um suspiro e ignorei o olhar de desaprovação de Simone.

"Não estou com fome."

Simone suspirou. "Você precisa comer para se manter forte! A cerimônia de maioridade pode deixar as pessoas exaustas, principalmente com aquele remédio amargo que te forçam a tomar."

Fiz uma careta. "É tão ruim assim?"

"É bem estranho. É a melhor forma que consigo descrever", admitiu Simone.

Nada disso era um bom presságio para mim.

***

Qualquer dúvida que eu tivesse de que Simone poderia ter se enganado com o que ouvira na sala dos professores foi dissipada quando recebi um e-mail enviado para todos os alunos na manhã seguinte.

Assunto: Visita especial no campus nesta sexta-feira!

Prezados alunos, Temos o prazer de anunciar que nesta sexta-feira a Escola Aspen receberá convidados especiais da Universidade Ironwood: Crimson Chargers, o renomado time de rúgbi da faculdade!

Esta é uma oportunidade fantástica para todos nós conhecermos aqueles atletas talentosos, aprendermos sobre suas experiências e saber mais sobre a vida universitária e o espírito esportivo.

Os Crimson Chargers visitarão nossa escola às 9h e realizarão uma sessão especial no auditório. Durante a visita, eles contarão sobre suas trajetórias, farão uma sessão de perguntas e respostas e possivelmente apresentarão algumas técnicas de rúgbi.

Incentivamos todos os alunos a comparecerem e demonstrarem a hospitalidade e curiosidade que são marcas da nossa escola. Se você é apaixonado por esportes, trabalho em equipe ou está pensando em entrar na faculdade no futuro, este evento é imperdível!

Vamos dar aos Crimson Chargers uma calorosa recepção ao estilo Aspen!

Atenciosamente, Equipe da Escola Aspen

Olhei para meu irmão do outro lado da mesa, que tomava seu café da manhã despreocupadamente.

"Michael, por que raios não me avisou sobre isso?"

"Avisar sobre o quê?"

"Sobre você e seus amigos irem dar uma palestra na escola na sexta-feira!"

Michael piscou. "Ah, não achei que precisava. Por que importa?"

"Bom, por causa de você e do seu time, minha cerimônia de maioridade foi adiada."

"Lia, o treinador e o reitor são os responsáveis por organizar tudo. Só nos informaram quando e onde deveríamos comparecer. Foi a única coisa que nos disseram."

"Mesmo assim, eu gostaria de ter sido avisada!" Soltei um suspiro.

Quando olhei para meu irmão, era como olhar para um espelho. Tínhamos o mesmo cabelo loiro, olhos azuis como o oceano e pele pálida. Até nossas feições eram as mesmas. Era uma pena que eu não tivesse sido agraciada com a mesma altura que ele.

"Estava fora do meu controle. Se isso te deixar mais tranquila, nenhum dos caras estará lá, Lia. Só eu. O treinador escolheu alguns de nós para ir. Fui o azarado."

"Tenho certeza de que eles estão te enchendo o saco por isso também."

Michael abriu um sorriso. "Pode apostar, irmãzinha."

Minha ansiedade havia diminuído, mas me perguntei se isso não era um dos truques do meu irmão. Às vezes, ele gostava de me provocar tanto quanto seus amigos. Em raras ocasiões, ele gostava de me provocar até mais do que eles.

"Preciso ir para a escola."

"Quer uma carona?"

"Não, Simone vai me buscar."

Precisava aprender a dirigir o mais rápido possível para ter mais independência.

Lancei um último olhar para meu irmão e saí de casa. Ainda sentia um frio na barriga que não conseguia me livrar, por mais que tentasse.

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