Parte um - Divergências
Todos os dias, todas as horas, todos os instantes da nossa vida são divergentes. Nada é igual, ou mesmo permanente. Tudo é diferente. À menos que você viva recluso ou preso dentro de um sótão ou em um porão, sabe que o que digo é verdade.
Até mesmo as pessoas são divergentes umas das outras, e em tudo. Somos diferentes nas roupas, nos sexos, na aparência. Somos diferentes, mas únicos. Não há ninguém totalmente igual ao outro, e é isso que nos torna tão especiais.
As pessoas são especiais, o triste é que muitas ainda não conhecem sua capacidade de ser especial.
Uns tocam violino, outros cantam em óperas, alguns mais atuam ou escrevem, fazem tudo isso com sua capacidade de ser especial no que fazem. Todos temos dons. E esta história falará sobre isso.
Sobre dons e sobre a capacidade de alguém ser especial.
***
Loryna preparava-se para entrar no palco, quando, esbaforida, sua mãe invadira seu camarim, aos berros.
– Onde está minha filha? Minha querida? – A mulher gritava e esbravejava.
Ao ver sua filha sentada de frente para um espelho, trajada em seu vestido branco e maquiada com um lindo cisne imaculado, dona Márcia calou-se e de seus olhos jorraram lágrimas espessas que logo caíram de seus olhos.
– Pare com isso, mamãe – dizia Loryna, levantando-se da cadeira e indo acudir sua mãe, abraçando-a. – É o meu sonho, nosso sonho, lembra?
– Enfim, se realizou, querida – fungou dona Márcia, apertando-a ainda mais Loryna contra seu peito.
A cena era comovente. O único que não se comovia era Gerard, o empresário da jovem bailarina, que bateu na porta com seu punho, interrompendo os abraços de mãe e filha.
– Ah, é você – disse Márcia, com um ar de insatisfeita.
– Sim, sou eu, Gerard, o ascensor da fama desse lindo cisne que está seu lado – o homem tinha um leve sotaque francês, ele falava e gesticulava as mãos no ar como se fosse um boneco ou fantoche desengonçado.
Loryna e Márcia se entreolharam, entre risos abafados, e a moça fora outra vez para frente do espelho.
– Está na hora, querida – anunciou Gerard. – Hora de brilhar.
– Estou pronta – disse Loryna, se erguendo e fazendo uma pose para Gerard lhe analisar. Dona Márcia tapava a boca para abafar o choro.
Uma voz masculina anunciava, melodicamente, o início de um espetáculo que prometia ser fabuloso.
– Ok. – Loryna atendera a um gesto de seu empresário, beijara a face da mãe, se despedindo, e rumou para o palco.
O palco estava todo ornamento para atender a beleza e a graça da bailarina. Uma junção fantástica.
– Apenas brilhe, querida – Gerard disse antes de Loryna adentrar no palco e se dispor a bailar ao som da música que era tocada por uma gigantesca orquestra.
***
– É preciso cuidado, John – Merry, uma psicóloga indiscreta, alertava seu mais novo paciente. – Você não está tão bem quanto imagina.
John, um jovem de poucos amigos e muitas lástimas, ouvia atentamente seu mais novo poço de conselhos. O garoto vinha enfrentando uma forte crise emocional. Sofrendo leves pontadas de depressão, baixa alto-estima e alguns outros transtornos psíquicos, John decidiu se consultar com um especialista.
– O que você ainda gosta? – perguntou Dra. Merry, querendo entender o garoto à sua frente.
– Não sei.
John não sabia realmente. Tentava buscar em seu inconsciente algo, mas não encontrou. Ele se sentia triste por isso, se sentia incompleto por ele mesmo não se entender.
– Posso sugerir algo? – Dra. Merry se inclinara para ele. – Se sentiria forçado se eu o fizesse?
– Pode sugerir, doutora. Fique tranquila – John falava com um tom de voz que disfarçava seu verdadeiro estado emocional.
O jovem garoto de olhos azuis e com a alma mais transtornada que uma reviravolta, John lutava contra seus impulsos de ansiedade e, muitas vezes, contra si mesmo, o que para ele era uma batalha árdua.
A primeira consulta com seu psicólogo um desequilibrado nunca esquece, e com toda a certeza, John nunca esqueceria sua consulta primária com a dra. Merry. A psicóloga de muitas olheiras e poucas palavras, uma simplória quarentona de aparência tão problemática quanto a de seus pacientes, lida com os próprios desarranjos mentais a fim de também tentar se curar.
Dra. Merry tratava-se ao mesmo momento em que tratava seus pacientes, como John. O garoto lidava com os sofrimentos alheios, mas esquecia-se dos que ele mesmo também possuía.
Esse era seu modo de ser especial, aquele dom divino que todos têm. Ou pelo menos, algumas pessoas têm.
Três meses depois
O auditório do anfiteatro estava mais uma vez lotado. As filas para garantir um bilhete de entrada para o espetáculo do dia seguinte davam voltas do lado de fora do prédio. De fato, Loryna, a bailarina de cabelos escuros e olhos amendoados, era um grande sucesso.
– Mais que um simples grande sucesso – ressaltava Gerard, gesticulando não só as mãos, mas todo o seu desengonçado corpo fino. – Uma verdadeira arte.
– Parabéns, minha filha – elogiava-a dona Márcia.
– Obrigada, mamãe – agradecia Loryna. Mas ralhava: – Nada de choro hoje, por favor.
Logo as duas estavam sorrindo enquanto a maquiadora acentuava uns últimos retoques no rosto da garota. Todos estavam extasiados, a turnê fora completamente espetacular. Teatros lotados, filas imensas e a performance de Loryna como papel principal não podia ser mais que muito bem elogiada por tudo e por todos.
A jovem não parecia bailar, e sim, flutuar no palco. Com o figurino mais alvo que a neve, como um esplêndido cisne, encenava sua atuação dramática. Loryna era uma bailarina muito especial.
– Terminei – a maquiadora acenava para Gerard, que entre saltinhos de alegria, inspecionava a aparência da moça.
– Esplêndido como sempre, meu belo cisne – o homem falava fortemente com seu sotaque francês, tinha um leve brilho em seu olhar ao fixá-lo em Loryna.
Do lado de fora do camarim a melodia soava até fazer frisar toda a plateia. O coração de Loryna disparara, a garota ainda sentia pequenas pontadas nas pernas. Depois de algumas idas ao médico e boas doses de aspirina, a garota voltara com tudo para a turnê, e em sua penúltima apresentação ela não podia falhar.
– Devo ser como um cisne: belo e imaculado – ela recitava para si, olhando-se no espelho.
Muitos olhares a perseguiriam dali a alguns minutos; no momento em que cruzasse o palco e as cortinas fossem abertas de novo, era sua hora de brilhar. Ela queria brilhar, esse desejo tamborilava em sua mente e aquecia seu coração.
– Chegou a hora – Gerard trouxe Loryna de volta a realidade com suas palavras saltitantes.
Loryna cumprimentou os que estavam consigo em seu camarim e partiu de volta para o palco. Juntando as mãos ao seu coração a moça balbuciou singelas palavras de confiança: "Apenas brilhe!"
***
John esperava ansioso pela parte final da apresentação. Assistir a peças de teatro, entre outras atividades culturais eram um conselho muito tem empregado pela dra. Merry.
O garoto tinha sérias necessidades sentimentais, era incapaz de assimilar seus sentimentos, até mesmo o que sentia por si próprio. Sentado em uma das fileiras da frente, fitando o palco com atenção, seus olhos aguardavam o estopim do espetáculo, o momento em que a dança final do cisne seria apresentada pela bailarina principal.
Enfim, num súbito piscar de seus olhos, as cortinas se abriram, uma linda orquestra se pôs a tocar e um cisne, sim, era a figura mais linda que John já vira, se pôs a bailar. Seus olhos brilharam, seguiram a bailarina pelo palco afora.
A cada passo, cada salto, cada compasso, cada movimento era uma batida retumbante de seu coração. A dramatização da dança, a encenação da moça vestida de cisne era como um verdadeiro espetáculo celestial. Como se anjos estivessem à espreita, observando a moça, balbuciando entre si.
Era tudo perfeito. A música, a dança, o palco e a moça. "A moça é mais que perfeita", pensou John. Trajada imaculadamente de branco, com os cabelos presos, a leve maquiagem lhe acentuava à beleza de seu rosto, e o mover de seu corpo no ar.
De repente, algo inusitado aconteceu. Uma hecatombe infernal. A bailarina foi ao chão. Se desequilibrara num dos passos e tropeçou, chocando-se violentamente com o palco liso. A multidão que assistia ao espetáculo se inquietou, muitos se penalizavam pela desgraça da moça, outros urravam de desprazer.
Um homem entrou entre saltos no palco, gesticulando e acenando, seguido de uma mulher que gritava e chorava, desesperadamente.
Todos se levantaram, as saídas foram abertas e logo os espectadores foram se dispersando. John ficou mais nervoso do que qualquer outro no teatro, ele não era conhecido da bailarina, nem mesmo a assistiu em outras ocasiões, mas ele sentia algo de especial na moça. Não sabia ao certo o que era, nem o que poderia ser, mas seu corpo, sua mente e seu coração vibravam pela moça.
Ele se decidiu, e rumando contra a maré de gente que o oprimia e o arrastava para a saída, John foi para o interior dos camarins. Subindo pelo palco, naquele momento então ornamento por pessoas nervosas e gritos de choro, ele seguiu uma equipe que escoltava a moça até uma sala atrás das cortinas, que deliberadamente se fecharam.
Dentro do camarim da bailarina dois homens tentavam acudi-la e uma mulher resmungava choramingos, segurando as mãos da moça. Rapidamente todos os olhos dos que estavam ali presente se decaíram sobre John.
– Quem é você, garoto? – O homem, que gesticulara outrora, lhe perguntou, saltitando para perto de si.
– O que faz aqui? – O outro, mais rude, lhe interrogou, austero.
John não sabia o que dizer ou fazer naquele instante. Seus impulsos de ansiedade o levaram até ali, não fora de propósito. E ele também sentia uma atração insana pela bailarina.
Era a sua única explicação, e ele achou por bem dizê-la.
– Estou aqui pela bailarina – respondeu John, atraindo agora a atenção da moça que recuperava os sentidos.
– Querida, não faça esforços nem movimentos bruscos – a mulher lhe pediu, amavelmente.
– Apenas caí, mamãe. Não estou morta – ralhou para a mulher.
– Loryna, acalma-se – o homem gesticulou para a moça.
"Loryna", pensou John, "então este é seu nome. " O garoto sentiu suas emoções subirem às nuvens e se perderem nos céus ao fixar seus olhos em Loryna. A moça se apoiou nos braços da cadeira em que estava reclinada e sentou-se.
Loryna era como um anjo para o rapaz. Agora com seus cabelos soltos, a cor escura acentuava com os seus olhos grandes e amendoados. A garota despertou alguma coisa em John, ele foi capaz de sentir isso.
– O que você quer? – Indagou Loryna, cruzando as mãos sobre o colo. – Aliás, como se chama?
– Me chamo John, senhorita. Vim até porque vi sua queda e me inquietei – John explicava com uma voz mansa e suave.
– Bem, já estou melhor, como pode ver – ressaltou Loryna, se pondo de pé. – Não há mais para quê ter tanta preocupação – e virara seu rosto para encarar os demais.
– Fico feliz por isso. Até logo – se despediu John, amargurado com a própria sorte.
Ele queria ficar a sós com a bailarina e vê-la bailar outra vez, mas não teve coragem de pedi-lo. As demais pessoas que também estavam no camarim, suas vozes e seus trejeitos o deixaram perturbado. Ele foi incapaz de permanecer ali, mesmo tendo que disfarçar seu tom de voz, ele foi incapaz, logo seus impulsos se aflorariam ainda mais e ele se tornaria tão impulsivo quanto uma bala de revólver.
Saindo do teatro, John meditou sobre seu atual estado mental. "Eu ainda sou normal", pensava ele, "tenho apenas algumas confusões na cabeça. "Sofrendo de uma depressão mal curada, de fortes transtornos de ansiedade, o garoto vivia uma vida louca e sem razão. Com a mente bagunçada e a vida sofrida, John refugiava-se, com a instrução de dra. Merry em coisas que fossem capazes de serem apreciadas.
O rapaz não era um fã de obras de arte, e já não conseguia nem apreciar os próprios sentimentos, foi então que a ideia de ir assistir a um espetáculo pareceu-lhes a mais sensata.
– Eu posso apreciar pessoas – disse em uma de suas consultas.
E de fato, John a apreciara. Ele se sentiu em paz, caminhando pela calçada até seu apartamento onde morava sozinho, sua mente se mantinha tranquila enquanto fixava seus pensamentos na bailarina. Ela era paz para ele.
Sem perceber, John já havia cruzado a soleira da porta de seu apartamento, ido direto para a cozinha e começou a preparar um chá de ervas para si. O restante de sua noite fora repleto de xícaras de chá e pensamentos inebriantes.
Parte dois - Amantes e problemáticos
A apresentação do dia seguinte fora cancelada para a próxima semana. Gerard andava de um lado para o outro, dona Márcia tentava em vão acalmar o homem em meio aos seus surtos, enquanto Loryna folheava uma revista de moda, sentada tranquilamente no sofá.
– Gerard, fique calmo, o mundo não vai acabar por causa de um simples cancelamento de apresentação – Loryna disparou para ele, ficando inquieta com o homem indo e vindo pela sala de sua casa.
– Tragédie – cuspiu o homem em francês – uma terrível tragédia.
– Ora, Gerard, não foi a Torre Eiffel que caiu. Sossegue. – Márcia berrou e se juntou a filha, esparramando-se no sofá.
O homem vibrou num salto impulsivo e caiu num segundo sofá do outro lado da sala. Loryna e dona Márcia riram e arrazoaram dele, que por sua vez, fechou a cara e, tomando uma revista nas mãos, se dispôs a folheá-la.
– Se não pode com eles junte-se a eles, não é mesmo, Gerard – dona Márcia caçoou do homem birrento, balançando uma revista nas mãos.
Por sua vez, Loryna se ergueu de seu lugar e disse:
– Vou sair, mamãe. Fique aqui com Gerard, tente suportá-lo se for capaz. Qualquer novidade, me avise.
Largando a revista na mesa de centro, saiu da sala e subiu para o andar de cima, a fim de se trocar em seu quarto. Escancarando a porta, e batendo atrás de si, Loryna se trajou com um leve vestido florido e calçou sandálias frescas e foi caminhar. Saiu de casa há tempo de evitar ser bombardeada pela discussão de sua mãe e Gerard.
Ganhou a rua à sua frente ela sorriu para o majestoso céu acima dela. O vento, aliás, a brisa que soprava ali passava por Loryna e a saldava, batendo em seu rosto, esvoaçando-lhe os cabelos que ela soltara para sair de casa.
Seu vestido ondulava ao vento, suas pernas eriçavam mal-acostumadas com o tempo gélido. A bailarina foi para a praça, onde um lago era mantidopreservada lá. A mais bela cena na opinião de Loryna, não porque a lembrava de cisnes e sua profissão como bailarina, mas porque era um lugar que lhe trazia calma.
A garota amava balé, sua profissão de bailarina era o que a mantinha viva, o que fazia pulsar seu coração, mas turnês, apresentações e discussões com seu austero empresário Gerard a deixavam exaustas. Eram poucas as folgas que tinha para poder passear a esmo por aí, e ela as aproveitava ao máximo quando as mesmas surgiam.
Até mesmo caminhando Loryna confundia-se entre os passos de dança e andar com todos andavam. Ela não podia evitar, bailar estava preso a sua personalidade, era o que a tornava especial. Andando, a moça apreciava a beleza da cidade onde vivia. Com muitas casas elevadas, prédios diversos. Nova York era linda no outono.
Entrando numa praça cercada por belas árvores, circulando pelos corredores de arbustos e moitas, a moça aboletou-se em um dos bancos no interior do lugar, e ficou ali observando o lago de longe.
Os pensamentos da garota se enevoaram acima de sua cabeça, deixando-a perplexa. O acontecido da noite passada ainda a chocava bastante. Ela não compreendia como errara aquele simples passo. Sabia a coreografia perfeitamente. Vivera aqueles passos nos ensaios e em outras apresentações.
De olhos semicerrados e a boca crispada, Loryna refletia nas dores que havia assolado a garota dias atrás. Uma onda de preocupação inundou-a. Se Gerard sequer sonhasse que a garoto tivera fortes dores nas pernas e não o comunicara, certamente o homem saltitaria metros e metros de raiva. A ideia a fez sorrir. Gerard era um bom homem, rude em certas ocasiões, mas fora quem a enxergou no fundo de uma sala empoeirada em sua antiga escola de balé e a trouxe para fora do anonimato, fazendo-a brilhar.
"Ele me ensinara a voar", pensou, satisfeita. Ela era grata à todos os que a auxiliavam nesta nova etapa de sua vida. Do anonimato aos holofotes, a carreira da jovem garota de 20 anos se elevara como um balão, se perdendo na imensidão do céu. Algo inexplicável, fruto de seu tão raro talento.
Fustigada com lembranças de seu passado e de seu presente, a garota perdeu o olhar no lago. As árvores faziam sombra sobre a praça; flores caídas e folhas secas flutuavam nas superfícies das águas, parecia um quadro natural pintado pela natureza. Era perfeito.
Loryna fez um gesto em falso tentando se levantar do banco, suas pernas não obedeceram ao seu comando, em compensação a garota emitiu um grunhido de dor. Seus ossos doíam, sentia os músculos das pernas incharem, não conseguia se levantar.
Aflita, a garota pensou em gritar por ajuda, girando a cabeça e olhando em volta da praça não avistou ninguém, estava sozinha ali. O lago era sua única companhia, era quem presenciava suas dores e suas desgraças.
Tentando se manter calma, Loryna ousou flexionar suas pernas. Sem sucesso, o resultado foi mais um grito de dor, a garota agonizava no banco daquela praça. Já não suportava omitir seus gritos, agora os mesmos fugiam de sua boca e resvalavam por entre as árvores.
Os arbustos atrás do banco de Loryna farfalharam e um garoto de cabelos claros e olhos azuis saltara para frente do banco, surpreendendo a moça, que hesitou em gritar novamente.
– Você? – Loryna se recordara daquele rosto. O mesmo rosto, os mesmos olhos que a surpreendera na noite anterior.
Era o mesmo rapaz que se sentiu atraído por ela e fora até seu camarim, preocupado com sua queda repentina. Eram os olhos de John que agora a fitavam, brilhavam ao vê-la.
– Você está bem? Ouvi seus gritos de detrás das árvores – John pronunciava tais palavras com uma leveza em sua vez, desta vez não era uma leveza falsa.
Apesar da situação dolorosa em que se reencontraram, os dois sentiram-se calmos. John fora a praça para se acalmar, acordara com os impulsos martelando em sua mente, Loryna fugira das brigas e discussões em sua casa. Ambos ansiavam pela paz, e era o que um proporcionava ao outro.
– Não consigo me mover – retorquiu Loryna para John, inquieta.
John se ajoelhou diante de Loryna e, examinando as pernas da garota, o rapaz massageou suas panturrilhas, carinhosamente. Loryna sentiu o calor das mãos aconchegantes e convidativas roçarem entre seu vestido florido. Seus olhos lacrimejaram, sentiu o prazer e o pesar dentro de si mesma, como se a garota fosse uma consternação de emoções ambulantes.
Num movimento involuntário, Loryna se ergueu do banco, não conseguindo se equilibrar nas próprias pernas, cambaleou para frente e caiu por cima de John; espatifaram-se na grama. Seus olhares se encontraram, se combinaram. Como estrelas se chocando, como dois corpos celestes inflamados se colidindo causando erupções e explosões em grande escala.
– Me desculpe – murmurou a garota, que sem querer, uniu sua mão a de John, tateando em busca de amparo.
Os dois hesitavam no chão; enquanto a brisa soprava fraca sobre o lago, os dois arfavam caídos no gramado da praça.
– Seus olhos brilham – John ressaltou.
Eram como duas pequenas crianças que se conheciam há anos. Por eles próprios nunca mais se ergueriam do chão, era acolhedor para ambos estarem ali, caídos um sobre o outro. John suportava o corpo de Loryna como se fosse capaz de ficar ali por horas, e a garota ainda não soltara sua mão.
Impulsionados por algumas pessoas que iam passando por ali, quase constrangidos, mas insatisfeitos, decidiram levantar-se; John esgueirou o corpo de Loryna de cima do seu, com cuidado para não a machucar, ergueu-se e ajudou-a a se sentar novamente no banco.
– Ainda dói? – O rapaz encurvou-se para ela.
– Sim, parece dormente, mas bem pior – Loryna explicou, fazendo uma careta de horror.
– Vou te levar até sua casa – disparou John, o garoto não deu a chance nem de argumentação à moça. – Vamos, se apoie em mim.
Loryna passou um dos braços por cima do pescoço de John e o garoto segurou o outro braço, amparando-a em cada passo falso. O caminho não era longo, e os dois percorreram rapidamente. Quando Gerard abriu a porta, incrédulo e aos gritinhos ao ver Loryna nos braços de John, possivelmente ferida.
– Calma, Gerard – vociferou, soltando-se de John e caindo levemente sobre o sofá.
– Ela está bem, senhor – John disse enquanto se sentava ao seu lado.
Gerard bateu a porta e gritou pela mãe da garota. Márcia entrou na sala e correu para sua filha, interrogando-a.
– O que houve? Se machucou? Caiu? Diga logo, Loryna – dona Márcia metralhou a menina com as perguntas, fitando-a e lhe conferindo o corpo todo.
– Mamãe, estou bem. John me ajudou a voltar para casa – os olhos de dona Márcia e de Gerard se voltaram para o rosto do garoto.
– Muito obrigado – disseram em uníssono.
Gerard se encarapitou ao lado de John, com palavras confusas, disse:
– O que fazia na praça? Quem é você? Reponsé s´il vous plaît – seu sotaque causou alguns risinhos em seu investigado.
– Gosto de ir à praça para pensar – respondeu John, convencido. – Pensar é algo que todos deveriam fazer de vez em quando.
John não dava atenção nem para as indagações de Gerard ou os grunhidos e soluços de dona Márcia, continuava a se dedicar à Loryna. Acariciava suas panturrilhas inchadas e doloridas, com deslizes singelos e toques carinhosos. A bailarina ferida sentia arrepios simultâneos aos toques que John dedicava a ela.
– Não há para que se preocuparem – interrompeu Loryna. – Eu estou ótima, vou para meu quarto.
Mas, a garota não se moveu, e outra vez suas pernas não se firmaram no chão. Os braços rápidos de John a agarraram no ar e o seu corpo se chocoucom o da garota, freneticamente.
– Não posso andar – se desesperou a moça. – O que eu tenho?
Seus olhos se desataram em torrentes de lágrimas, deixando a cabeça cair sobre o ombro de John, ela chorou amargamente, sem saber o que lhe causara a paralisia das pernas. Tomando a bailarina nos braços, o garoto subiu as escadas e pousou o corpo de Loryna sobre sua cama. A cana chocou e fez lágrimas caírem dos olhos de Gerard e dona Márcia, e seguindo-os, os dois observavam os garotos sem dizer palavra alguma.
– Tenho que ir embora – falou John, rompendo aquele momento delicado. – Espero que fique melhor – e depositou um beijo em sua testa, como um pai faz com um filho na hora de dormir.
E sem cumprimentou nenhum o rapaz deixou o quarto, no andar de baixo a porta da frente se abriu e fechou-se num estalo. Loryna encarou as duas pessoas em seu quarto e, chorando de tristeza profunda, desmaiou com a cabeça pousada no travesseiro molhado de lágrimas.
Parte três - Adeus aos palcos
Os olhos de Loryna encaravam o médico à sua frente. Ao seu lado sua mãe, calada, segurava a mão da filha em sinal de companheirismo. A garota precisa de forças e coragem para enfrentar o que viria.
Desconfortada com a série de exames a que foi encaminhada, a garota estava quieta e aflita, esperando a palavra final do médico.
– Pois bem, o resultado dos exames é delicado – falou Dr. Colbert, segurando papéis diante de seus olhos. – Loryna, você foi diagnosticada com a doença osteogenesis imperfecta, a doença dos ossos de vidro.
Parecia uma terrível incógnita, a garota não compreendia as palavras, queria se retirar dali e correr para um palco e bailar toda a sua peça outra vez.
– O que é isso? – Sua mãe perguntou, soltando sua mão e a deixando pousar sobre a mesa do consultório frio e sem cheiro.
– É uma doença genética – começou Dr. Colbert. – Provoca alterações na produção de colágeno, detectada facilmente em decorrência de uma queda, como no caso de Loryna.
– A queda no palco não foi tão brusca capaz de quebrar meus ossos – balbuciou a garota, com firmeza.
– Exatamente. Não fora a queda que quebrou seus ossos, e sim, a doença. – Dr. Colbert se levantou, arrastou a cadeira para perto de Loryna, segurou suas mãos, a garota sentiu um calor com o toque, e disse: – Você terá que abandonar o palco, minha querida. Nunca mais poderá dançar.
Os olhos de Loryna se descortinaram, a garota não viu mais nada, a não ser um vulto negro e depois mais nada. Com um grito de medo, dona Márcia segurou o corpo desfalecido de sua filha, Dr. Colbert correu e chamou enfermeiros.
A moça fora levada para um quarto e internada sob observação médica prescrita. Gerard que estava na sala de espera do lado de fora do consultório, assustando-se com a carreira que se intensificou nos corredores, dera saltinhos até dona Márcia e a fuzilou com questionamentos em seu francês, com sua voz amedrontada.
– O que houve? Pelo amor de Deus – e se agitava, andando de lado para o outro, indo atrás de dona Márcia e dos médicos.
Gerard foi arrastado por Márcia até o consultório de Dr. Colbert, lá o médico lhe direcionou todas as informações e lhe colocou a par da terrível doença que castigava os ossos de Loryna. Com lágrimas teatrais caído de seus olhos, que o homenzinhosecava com um lenço de seda rosa.
– Quelle honte – exibiu seu francês, Dr. Colbert franziu a testa.
– Ele é francês, doutor – explicou Márcia.
Os dois saíram do consultório com Dr. Colbert em seu encalço. A situação era como uma hecatombe que caíra sobre eles. Loryna internada, sonhos inacabados e frustrados, ossos quebrados, era assim que assimilavam o que estava acontecendo atodos.
***
Enquanto lia um livro de contos extraordinários, trancado em seu quarto, concentrado. Ao virar a página, consternado ao lembrar-se de Loryna, o rapaz contraiu-se ao ser intimidado pelo toque de chamada de seu celular. A música reverberou em seus ouvidos, arrebatando-o de sua mesa, atendeu-o de um salto.
– John? – Um sotaque francês ressoou do outro lado da linha.
– Sim – respondeu.
– Aqui quem fala é Gerard, preciso que venha até o Hospital Central – e passou o endereço entre bordões franceses, informando-o sobre o que aconteceu com Loryna, sobre a ida ao hospital e a internação.
John anotou tudo, e em minutos, o rapaz ganhava a rua e corria em direção ao hospital. Percorrendo as ruas movimentadas com passos rápidos, com a mente com os pensamentos em ebulição, ele ruminava os efeitos dos encontros com Loryna. A bailarina era a figura feminina mais adorável que ele já vira e sentira em seus braços, era algo quase que divino estar em sua presença.
À porta do hospital, ele avistara Gerard encostado em um poste, o homem fumava um cigarro e soltava a fumaça pelos ares com um ar de preocupado. Apavorado com a chegada do garoto, o homem, em um de seus pulinhos, jogou o cigarro longe e fulminou o garoto com os olhos.
– Ninguém saberá disso, garoto – explicitou sua embaraçosa situação, como estivera transtornado, pedindo que aquilo se mantivesse em segredo entre os dois.
– Pode deixar – falou. – Onde está Loryna? – John se inquietava na presença de Gerard.
– Siga-me.
Empurrou a porta da frente do hospital, John passou pela entrada, Gerard o seguiu e a porta se fechou, automaticamente.
– John! – Dona Márcia correu na direção do garoto e o abraçou. O rapaz queria ter se desvencilhado, mas os braços rápidos da mulher o envolveram.
Os transtornos de ansiedade causados pela depressão recém curada de John o faziam ter aspectos incomuns na presença de outras pessoas. Um simples ato de abraçar alguém ou sair em público não era tão fácil quanto parecia ser.
– Está com frio, querido? Está tremendo – lhe questionou a mulher, notando sua repentina tremedeira.
– Um pouco – mentiu ele, soltando-se do abraço. – Onde está Loryna?
– No quarto, em observação – explicitou. E fez sinal para o garoto a seguir.
Cruzaram a sala de espera do hospital, virando em um corredor à esquerda e avançado para um quarto, John encontrara Loryna deitada numa cama de lençóis brancos e cheirava a talco de bebê. A garota que estava deitada não parecia com a bailarina que John vira no palco dias atrás; era uma garota frágil e vulnerável, quase deprimida.
– John – resmungou Loryna, erguendo a cabeça do travesseiro.
– Não se esforce, por favor – pediu, se aproximando do leito. – Como está se sentindo?
– Eu nunca mais vou dançar, John – choramingou. – Nunca mais.
Os olhos de John vibraram, sua mente buscou as imagens de Loryna se apresentando na peça, incrivelmente graciosa. Também lembrou-se da queda, da multidão alvoroçada num burburinho tremendo e todos saindo do teatro, em confusão.
– Não diga isso, Loryna – rogou para a garota.
– Fui diagnosticada com ossos de vidro – informou.
Dona Márcia desatou todas as palavras que dr. Colbert dissera para ela e a filha, como se tivesse decorado o informe do médico. Desacreditado, o garoto, já ao lado do leito de Loryna, segurou firme nas mãos da moça, com as lágrimas brotando de seus olhos, disse:
– Nas minhas lembranças você sempre bailará.
Loryna lembrou-se de sua queda no palco, do movimento em falso na praça quando caiu por cima de John, suas lembranças também fervilhavam. O consolo nas palavras do garoto de olhos azuis fez com que a doença fosse apenas uma simples incapacidade de dançar nos palcos, mas estaria sempre bailando, bastava as pessoas se lembrarem.
– Apenas fique comigo, John – rebateu.
De esguelha, Gerard, que seguira dona Márcia e John até o quarto, observava os dois. Os músculos de sua face não se moviam, seus olhos estavam fixos naquele cenário épico, era como assistir uma cena da mais trágica peça de teatro. O homem esperava que o pior acontecesse a qualquer momento.
Dona Márcia enxugou as lágrimas, ofegou, limpou a garganta com pigarros e saiu do quarto, puxando Gerard pelo colarinho de sua camisa, que se soltou urrando e bufando, e bateu a porta do quarto.
A sós, o garoto se inclinou para Loryna, que o encarava atenta e gentilmente, e cheio de sensações e emoções dentro de si, lhe desferiu um beijo. Os lábios finos da menina se intrincaram com os carnudos do garoto, ambos eram ardentes, doces e suaves; as emoções mais ardentes entravam em ebulição dentro deles; a garota passou o braço pelo pescoço de John, puxando-o contra si.
– Não me deixe – foi a voz de John que escapou por entre os beijos.