No meu trigésimo aniversário, eu esperava um jantar romântico, um recomeço.
Tínhamos uma consulta vital na clínica de fertilidade para o bebé que tanto desejávamos, o futuro que estávamos a construir juntos.
Mas o meu marido, Lucas, nunca apareceu. Como sempre. A razão? A irmã dele, Clara, e uma das suas incontáveis 'crises'.
Anos a ser a segunda opção, a ver-me abandonada por uma desculpa atrás da outra. A minha determinação de ter uma família desvanecia-se. O meu coração apertava-se de cada vez que a Clara, sempre a 'frágil', o puxava para longe. Até que decidi cavar fundo. O que descobri nos seus diários e extratos bancários não era uma alma carente, mas sim uma manipuladora mestre, uma atriz que se deleitava com a devoção cega do meu marido.
Confrontei Lucas com provas irrefutáveis, mas a cegueira dele era tão profunda quanto a manipulação dela. "Estás com ciúmes da minha irmã", ele gritou, "Ela é o meu sangue, tu és de fora!" De fora? Eu era a sua mulher, o seu futuro! Como podia ele defender a mentira tão ferozmente, ignorando a verdade bem à sua frente?
No momento final, a escolha brutal pairou no ar: "Ou ela, ou eu." O telefone tocou. Era Clara, a implorar. Sem hesitação, Lucas virou as costas para mim e foi para ela. Naquele instante, o clique da porta ao fechar-se ecoou o fim. Não chorei. Apenas assinei os papéis do divórcio. E, pela primeira vez em muito tempo, respirei livremente. Ele fez a sua escolha. E, sem saber, também fez a minha.
Hoje era o meu aniversário de trinta anos, um marco.
Eu tinha reservado o nosso restaurante favorito, aquele onde o Lucas me pediu em casamento.
As velas na pequena mesa para dois já estavam acesas, a luz delas dançava suavemente.
Olhei para o relógio na parede, depois para o meu telemóvel.
Ele estava uma hora atrasado.
Uma sensação familiar de aperto começou no meu peito.
"Parabéns a você," cantei baixinho para mim mesma, a voz um pouco trémula.
O empregado de mesa aproximou-se, o seu sorriso profissional vacilou um pouco quando viu a minha mesa ainda vazia.
"Mais alguma coisa, senhora?"
"Só mais um pouco de água, por favor."
Peguei no telemóvel outra vez, o nome "Lucas Meu Amor" brilhava no ecrã.
Hesitei, mas depois liguei.
Chamou, chamou, chamou.
Quando estava quase a desligar, ele atendeu.
A voz dele estava ofegante, com ruído de fundo.
"Sofia? O que foi? Estou ocupado."
Ocupado. No meu aniversário.
"Lucas, onde estás? Estou no restaurante."
Houve uma pausa, e ouvi uma voz feminina ao fundo, a voz da Clara, a irmã dele.
"Ah, Sofia, desculpa! Esqueci-me completamente. A Clara teve uma crise de ansiedade, tive de vir a correr."
Clara. Sempre a Clara.
"Uma crise de ansiedade?" perguntei, tentando manter a minha voz neutra. "Ela está bem?"
"Sim, sim, está a acalmar-se agora. Dei-lhe um chá. Sabes como ela é."
Sim, eu sabia. Clara era frágil, Clara precisava de apoio constante, Clara não conseguia lidar com nada sozinha. Pelo menos, era o que o Lucas sempre dizia.
"Então, não vens?" A pergunta saiu mais fraca do que eu queria.
"Hoje? Acho que não vai dar, Sofia. Tenho de ficar de olho nela. Podemos comemorar noutro dia, certo?"
Noutro dia. Como sempre.
"Certo," murmurei.
"Ótimo! Tenho de ir, a Clara está a chamar-me. Beijo!"
E desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel.
O empregado voltou com a água.
"O seu marido não vem?" ele perguntou, com uma simpatia cautelosa.
Forcei um sorriso. "Parece que não. Um imprevisto."
Paguei a água e saí do restaurante, deixando o bolo de aniversário intocado na mesa.
Lá fora, o ar da noite estava frio.
Apertei o casaco à volta do corpo.
Isto não era novo. A Clara vinha sempre primeiro.
Mas hoje, no meu trigésimo aniversário, a dor pareceu diferente, mais funda.
Cheguei a casa e encontrei o apartamento escuro e silencioso.
Joguei a mala no sofá.
Ainda não tinha fome, a deceção tinha-me tirado o apetite.
Sentei-me na cozinha, no escuro, apenas com a luz da rua a entrar pela janela.
Passaram-se talvez duas horas até ouvir a chave na porta.
Lucas entrou, parecia cansado.
"Sofia? Estás aí?"
Acendi a luz da cozinha. Ele piscou os olhos, surpreendido.
"Ah, estás acordada. Pensei que já estivesses a dormir."
Ele aproximou-se, tentou beijar-me, mas desviei o rosto.
"O que foi?" perguntou ele, a sua expressão a mudar de cansaço para irritação.
"O que foi?" repeti. "Lucas, era o meu aniversário."
Ele suspirou, passou a mão pelo cabelo. "Eu sei, eu sei. E pedi desculpa. A Clara não estava bem."
"A Clara nunca está bem quando temos planos, pois não?"
A voz dele subiu um tom. "Não comeces, Sofia. Ela é minha irmã, precisa de mim."
"E eu? Eu sou tua mulher. Não preciso de ti? Hoje era um dia importante para mim."
"Estás a ser dramática. É só um aniversário. Podemos comemorar amanhã, ou no fim de semana."
"Não é 'só um aniversário', Lucas. É sobre consideração. É sobre prioridades."
Lembrei-me do nosso aniversário de casamento, há dois anos. Tínhamos bilhetes para um concerto. Na última hora, a Clara ligou a chorar porque o gato dela tinha fugido. O Lucas passou a noite a procurar o gato.
Encontrou-o debaixo da cama dela.
Lembrei-me das férias que planeámos para o Algarve. Uma semana antes, a Clara decidiu que precisava de ajuda para pintar o apartamento dela. O Lucas cancelou as nossas férias.
"A minha irmã precisa de mim," ele disse, como se isso explicasse tudo, justificasse tudo. "Tu és forte, Sofia. Tu percebes."
Eu percebia? Ou eu simplesmente aguentava?
"Eu cansei-me de ser forte, Lucas," disse eu, a voz baixa mas firme. "Cansei-me de ser sempre a segunda opção."
Ele olhou para mim, e pela primeira vez, vi um brilho de incerteza nos seus olhos.
Mas desapareceu depressa.
"Não sejas assim. Sabes que te amo. Mas a família é família."
Ele virou-se e foi para o quarto, acabando a conversa.
Fiquei na cozinha, o frio da noite lá fora parecia ter entrado em mim.
Família. E eu, o que era eu?