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PREDESTINADA AO ALFA SATOMI

PREDESTINADA AO ALFA SATOMI

Autor: Autora Val Veiga
Gênero: Romance
PREDESTINADA AO ALFA SATOMI Dário Satomi é um alfa poderoso e implacável, marcado pela perda dos pais e pelo massacre que destruiu sua alcateia. Ele aprendeu a esconder os sentimentos e a nunca demonstrar fraqueza, até encontrar Sarah, uma humana que desperta nele o vínculo da companheira predestinada. Ela desconhece o mundo dos lobos, enquanto ele sabe que amá-la pode colocá-la em perigo. Entre segredos, traições e inimigos do passado, Dário precisará escolher entre as leis da alcateia e a mulher que o destino escolheu para ele. Quando a Lua une duas almas, nem mesmo o sangue poderá impedir o amor de desafiar o destino.
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Capítulo 1 Dario

PONTO DE VISTA: DÁRIO

A floresta não apenas abrigava a escuridão; ela parecia engolir qualquer vestígio de vida que ousasse atravessar seus domínios naquela noite.

A lua cheia, majestosa e prateada no topo do céu noturno, travava uma batalha inútil contra a copa densa das árvores centenárias. Seus raios de luz mal conseguiam perfurar a barreira espessa de galhos e folhas, projetando no chão úmido apenas fiapos pálidos de iluminação. Sobre aquele solo coberto por folhagem seca e raízes expostas, um enorme lobo de pelagem negra como o ébano corria com desespero. Cada passada sua afundava na terra macia, impulsionando um corpo musculoso que já dava sinais de exaustão, mas que se recusava a tombar.

O ar da noite estava impregnado pelo cheiro forte e metálico de sangue fresco. Não era apenas o sangue dos inimigos que ficavam para trás, mas o sangue da própria alcateia, que manchava a vegetação rasteira a cada metro percorrido.

Atrás dele, o som não parava.

O eco pesado de dezenas de botas humanas esmagando a mata.

O som característico do metal se chocando, das engrenagens de armas sendo engatadas, do arfar furioso de caçadores sedentos pelo massacre.

Eles eram muitos. Uma horda organizada, armada com o ódio ancestral que a humanidade alimentava contra aquilo que não conseguia dominar.

- ENCONTREM O ALFA! - O rugido humano cortou a penumbra, carregado de uma autoridade sádica. - NÃO DEIXEM NENHUM DELES VIVO!

O estampido seco de um disparo de fuzil rompeu o silêncio tenso da floresta. A bala de prata pura cortou o ar com um assobio mortal, perfurando a casca dura de um pinheiro a poucos centímetros da cabeça do grande lobo negro.

Outro tiro ecoou. Em seguida, uma rajada inteira.

A fúria do metal cortando a madeira fez com que centenas de pássaros ergassem voo em desespero, preenchendo o céu noturno com o bater frenético de suas asas. Os animais menores da mata fugiam em pânico, escondendo-se nas profundezas de suas tocas. A terra parecia tremer sob o impacto da violência que se desdobrava.

- EU VOU MATAR VOCÊ, SATOMI! - A mesma voz grave voltou a ecoar entre as árvores, amplificada pelo eco da montanha. - VOU EXTERMINAR SUA LINHAGEM E QUEIMAR CADA PEDAÇO DESTE LUGAR!

Meu pai não diminuiu a marcha. Suas garras cravavam-se no chão, cobrindo metros em frações de segundo. Ele sabia que o cerco estava se fechando. Sabia que o cheiro do próprio sangue o denunciava e que as saídas daquele vale haviam sido bloqueadas. Mesmo assim, suas patas continuavam a se mover com uma força sobre-humana.

Ele não corria para salvar a própria pele. O Alfa da Alcateia Satomi jamais fugiria para preservar a própria vida.

Ele corria para ganhar segundos. Segundos preciosos que significavam a diferença entre a vida e a extinção da sua família.

Ao seu lado, acompanhando o ritmo frenético com uma elegância mortal, corria minha mãe. Sua forma lupina era menor, de pelagem acinzentada, mas seus olhos dourados queimavam com um brilho violento de puro instinto protetor. Ela não olhava para trás; sua atenção estava totalmente voltada para a retaguarda, onde meus irmãos e eu tentávamos acompanhar o passo dos adultos.

Eu era apenas um garoto na época. Um filhote que recém-descoberta a força da própria herança.

Meus pulmões queimavam como se estivessem cheios de brasas. As pernas tremiam, e o medo congelava minha espinha a cada novo tiro que ecoava pela mata. Eu não compreendia completamente a geopolítica daquele massacre, nem por que homens vestidos com trajes táticos e armados até os dentes haviam invadido nosso território sagrado.

Eu sabia apenas de uma coisa: os humanos haviam nos traído. E aquela noite marcaria o fim do mundo que eu conhecia.

Subitamente, meu pai parou. A frenagem brusca fez a terra e as folhas secas voarem.

Ele se virou para nós. A imagem daquele gigante de pelos negros e peito largo, manchado pelo vermelho vivo de seus ferimentos, ficou gravada na minha mente para sempre. Mesmo sob a forma de um predador implacável, a expressão em suas facções lupinas era de uma dor profunda e devastadora. A tristeza estampada em seu olhar dourado transpassou minha alma.

Ele deu dois passos lentos em nossa direção. Baixou a cabeça enorme e encostou o focinho quente no topo da minha cabeça, transmitindo um calor confortante que contrastava com o frio congelante da noite. Depois, fez o mesmo com meus dois irmãos menores, que se encolhiam assustados sob a sombra de seu corpo.

Aquele gesto não era um sinal de rendição. Era uma despedida definitiva.

Sem emitir um único som vocal, meu pai ergueu a cabeça e fixou seu olhar no da minha mãe.

O silêncio entre eles disse mais do que mil palavras poderiam expressar. O vínculo de parceiros de alma vibrava entre os dois com uma intensidade quase palpável.

Proteja nossos filhos. Leve-os daqui. Esconda a nossa linhagem.

Era essa a ordem silenciosa que emanava de cada fibra do seu ser.

Minha mãe negou imediatamente com um movimento firme de cabeça. Suas orelhas baixaram, e um rosnado baixo de dor escapou de sua garganta. Ela jamais o abandonaria. Escolhera caminhar ao lado dele na glória e na morte.

Mas o Alfa não aceitou contestação. Ele deu um passo à frente, posicionando-se como uma muralha inabalável entre nós e a ameaça que se aproximava. Ele era o Supremo da Satomi. O líder cuja responsabilidade primordial era servir de escudo para o seu povo até que o último batimento cardíaco cessasse.

Minha mãe soltou um arfar doloroso. A decisão estava tomada. Com um movimento rápido e decisivo de sua pata, ela nos empurrou para a cavidade funda na base de um carvalho secular, cujas raízes gigantescas criavam uma espécie de trincheira natural sob a terra e a vegetação densa.

- Não façam um único barulho.

A voz dela não ecoou no ar, mas ressoou diretamente dentro de nossas mentes, transmitida através do vínculo telepático da alcateia. Era uma ordem carregada com a autoridade insuperável de uma Matriarca.

- Aconteça o que acontecer... não saiam daqui. Não olhem. Apenas sobrevivam.

Entrei no buraco escuro empurrando meus dois irmãos mais novos para o fundo. Aquece o peito lembrar como o menor deles tremia incontrolavelmente, os dentes batendo enquanto tentava sufocar os soluçantes pedidos de socorro. Segurei sua mão pequena com toda a força que minhas mãos fracas de criança conseguiam aplicar. O outro irmão escondia o rosto no meu peito, encharcando minha camisa com suas lágrimas silenciosas.

Eu queria sussurrar que tudo ficaria bem. Queria dizer que nosso pai derrotaria todos aqueles homens e que nossa mãe nos levaria para casa ao amanhecer.

Mas eu já sabia a verdade. E mentir para eles seria uma covardia que o filho de um Alfa não podia se permitir.

Poucos segundos após nos escondermos entre as sombras das raízes... o verdadeiro inferno se desencadeou.

Meu pai soltou um rugido tão ensurdecedor, tão repleto de fúria e poder ancestral, que a própria estrutura da floresta pareceu estremecer. As folhas das árvores balançaram, e o solo vibrou sob a força daquela vibração. Em seguida, ele se projetou para a frente como um bólido negro, avançando diretamente contra a linha de frente dos caçadores.

Minha mãe não hesitou. Lançou-se logo atrás dele, uma flecha cinzenta movida pelo amor e pelo desespero.

Das sombras laterais da mata, os poucos guerreiros restantes da Alcateia Satomi surgiram. Lobos de diversos portes e pelagens saltaram entre a folhagem para formar uma última linha de defesa em torno de seu líder.

A colisão entre as duas forças foi brutal.

Os primeiros humanos que avançavam sem cautela foram despedaçados instantaneamente. O som de ossos sendo esmagados, carne sendo rasgada por garras afiadas como navalhas e presas atravessando gargantas humanas preencheu a noite. Sangue espirrava contra os troncos das árvores, cobrindo o chão com uma camada espessa e fumegante.

Contudo, a superioridade numérica dos caçadores era esmagadora.

Eles não vieram para uma caçada justa. Vieram preparados para um extermínio planejado nos mínimos detalhes.

Projéteis de prata banhados em acônito perfuravam os corpos dos nossos guerreiros. Flechas modificadas atravessavam carne e músculo. Lâminas pesadas de aço temperado cortavam com precisão profissional. Granadas de luz e som estouravam a todo instante, desorientando os sentidos aguçados dos lobos.

Através das frestas entre as raízes do carvalho, meus olhos assistiam à carnificina contra a minha vontade.

Vi o comandante da nossa guarda tombando após ter o peito perfurado por dezenas de projéteis. Vi guerreiros que eu conhecia desde o meu nascimento serem abatidos um a um, lutando até o último suspiro enquanto tentavam proteger a retaguarda do nosso líder.

E então... meu pai foi encurralado.

Mesmo carregando dezenas de perfurações pelo corpo, mesmo com o acônito queimando suas veias e tornando seus movimentos pesados, ele continuava a matar. Seu pelo negro estava completamente banhado em sangue - o seu e o de seus inimigos. Ele rosnava, destroçava e avançava, recusando-se rotundamente a cair.

Foi quando a figura central daquele massacre deu um passo à frente, saindo das sombras da vegetação alta.

Capítulo 2 Capitulo 2

Era um homem alto, de porte imponente e ombros largos, vestindo um sobretudo escuro que se arrastava levemente pela lama. Seu rosto trazia marcas profundas, mas o que realmente se destacava eram seus olhos: um par de orbes frios, desprovidos de qualquer humanidade, carregando um ódio cultivado ao longo de gerações.

Em suas mãos, ele segurava uma arma de grande porte, usinada em prata polida e gravada com símbolos antigos projetados especificamente para neutralizar e destruir a biologia de um licantrope.

O homem parou a poucos metros do meu pai. Um sorriso sádico e lento curvou seus lábios finos.

Ele ergueu o armamento pesadamente, alinhando a mira com o centro do peito do Alfa.

E puxou o gatilho.

O disparo não soou como um tiro comum; foi uma explosão abafada e devastadora. O projétil de prata maciça atravessou o tórax do meu pai, destruindo tecido e osso antes de expelir uma névoa de sangue pela sua espinha.

O Alfa da Satomi fraquejou. Seus joelhos dobraram. Ele atingiu o solo com um baque pesado, levantando uma nuvem de poeira e sangue. Ele tentou erguer a cabeça, tentou usar a força de sua vontade soberana para se colocar de pé novamente... mas seu corpo não respondeu mais.

Minha mãe soltou um uivo. Não era um rosnado de guerra, mas um lamento tão terrivelmente doloroso, tão impregnado de agonia e desespero, que senti minha própria mente estilhaçar ao ouví-lo.

Ela ignorou os tiros que começaram a atingir sua própria carne. Ignorou as lâminas que cortavam seu dorso. Correu desesperadamente na direção do seu Alfa, rastejando e investindo contra os homens que tentavam bloqueá-la. Ela nunca conseguiu chegar a tempo de salvá-lo, mas conseguiu alcançar o seu lado.

Com as poucas forças que lhe restavam, desabou ao lado do corpo dele.

Seus olhares se cruzaram uma última vez. Em um esforço extremo, quase inacreditável para dois corpos destruídos pela prata, eles esticaram os focinhos até que se tocassem delicadamente no chão frio.

E então... o silêncio se fez.

Em um milissegundo, uma onda de choque invisível percorreu minha mente. O vínculo coletivo da alcateia - aquela teia invisível que conectava os sentimentos, as vozes e as vidas de todos os membros ao seu líder - simplesmente arrebentou. A sensação foi de um vazio absoluto, como se uma parte da minha própria alma tivesse sido arrancada sem anestesia.

Naquele preciso instante... eu soube.

A presença grandiosa dos meus pais havia se apagado do mundo.

Pressionei minhas duas mãos contra a boca com quanta força possuía para abafar o grito de horror que rasgava minha garganta. As lágrimas queimavam meus olhos, descendo quente pelo meu rosto coberto de sujeira.

Dentro do meu peito, o filhote havia desaparecido. O lobo interior, despertado precocemente pelo trauma, uivava em fúria cega.

Saia daí. Mate todos eles. Beba o sangue daqueles monstros. Vingue a sua linhagem.

Cada músculo do meu jovem corpo tencionou. A vontade de saltar daquela toca e me lançar sobre a garganta do homem de sobretudo era quase incontrolável. Eu preferia morrer ali, coberto pelo sangue dos meus pais, a ter que encarar o peso de continuar vivo naquele cenário de desolação.

Mas no exato momento em que ensaiei um movimento para frente, senti o tremor do meu irmão mais novo ao meu lado. Senti sua mão pequena buscando refúgio na minha camisa.

As últimas palavras da minha mãe ressoaram com clareza cristalina no meu peito: Proteja seus irmãos.

Se eu saísse dali, se eu permitisse que a fúria cega me guiasse para a morte, não haveria ninguém para protegê-los. A Linhagem Satomi terminaria manchando o chão daquela floresta desgraçada.

Eu precisei engolir o grito. Engoli o choro, o desespero e a dor dilacerante da perda. No lugar daqueles sentimentos humanos, deixei que uma pedra fria e dura se formasse no centro do meu peito. A raiva pura transformou-se em algo muito mais perigoso: determinação indomável.

Fixei meus olhos no caçador de sobretudo escuro através das raízes.

Gravei cada milímetro daquele rosto vil. A linha fina de seus lábios, a cicatriz profunda que cortava sua bochecha esquerda, o tom acinzentado de seus olhos frios e o modo como ele limpava o sangue do seu armamento com desdém.

Respirei fundo, sentindo o cheiro da morte se impregnar na minha memória olfativa para sempre.

- Eu vou sobreviver - murmurei para a escuridão da toca, num tom tão baixo que nem mesmo os sentidos treinados dos homens lá fora puderam captar.

Ergui ligeiramente o queixo, selando o destino daquele caçador e o meu próprio.

- Eu vou encontrar você. E quando esse dia chegar... não haverá misericórdia neste mundo que possa salvar a sua vida. Vou fazer você pagar por cada gota de sangue derramada nesta terra.

Meu nome é Dário Satomi.

Hoje tenho trinta anos de idade. E sou o Alfa soberano da Alcateia Satomi.

Duas décadas se passaram desde aquela noite de massacre. Vinte anos reconstruindo o que os humanos julgaram ter destruído para sempre.

Tirei meus irmãos daquela floresta tingida de morte. Submeto-me a privações, treinei meu corpo e minha mente até o limite da exaustão humana e lupina. Erguemos nossa nova comunidade nos confins mais profundos e inexplorados da cordilheira ocidental, um lugar onde a civilização humana jamais ousou pisar com facilidade.

Tornei-me a força que a alcateia precisava. Aprendi a controlar o lobo furioso dentro de mim, transformando a raiva desenfreada em um poder frio, calculado e absoluto. Sob o meu comando, os Satomi ressurgiram das cinzas. Fortalecemos nossas fronteiras, treinamos nossos guerreiros e estabelecemos leis rígidas de sobrevivência.

Dentro do nosso território, meu termo é a lei. Todos os membros da alcateia me respeitam profundamente. Muitos, até mesmo entre os mais velhos, me temem pela intensidade da minha presença e pela postura implacável que mantenho diante de qualquer ameaça.

Porém, o poder, o território e a lealdade do meu povo jamais foram capazes de apagar as cicatrizes daquela noite.

Basta fechar os olhos por um segundo a mais para que as lembranças retornem com a força de um soco no estômago. Ainda vejo meus pais caindo lado a lado na lama. Ainda escuto o som ensurdecedor dos tiros ecoando pelas montanhas. Ainda sinto o gosto amargo do sangue daquela chacina.

E, acima de tudo, a promessa feita aos dez anos permanece intacta no meu peito. Eu nunca esqueci o rosto do homem que comandou a destruição da minha família. A busca por ele continua sendo a sombra que guia meus passos nas horas mais escuras.

Nossa aldeia atual é um refúgio de madeira e pedra perfeitamente integrado à natureza intocada. Cabanas robustas erguem-se entre árvores de portes gigantescos, rodeadas por riachos de águas cristalinas, campos abertos para treinamento de combate e uma rede impenetrável de patrulhas constantes.

Vivemos em paz. Uma paz aparente, sustentada pela vigilância ininterrupta dos nossos melhores guerreiros.

Mantemos a regra de ouro da alcateia intacta desde a tragédia: zero contato com a sociedade humana. A lição dada pelo passado foi gravada a ferro e fogo na nossa história. Confiar nos humanos é um erro que custa vidas, e eu jamais permitirei que o meu povo pague esse preço novamente enquanto eu for o Alfa.

Entretanto, o tempo passa, e com ele surge uma nova geração que não viveu o horror do passado. Jovens que cresceram ouvindo histórias sobre os massacres, mas que nunca sentiram o cheiro do acônito ou o peso de uma bala de prata. Alguns deles começaram a olhar para além das nossas montanhas com uma curiosidade perigosa, questionando os isolamentos e as tradições ancestrais.

Naquela manhã em particular, o sol começava a rasgar a névoa densa que cobria o vale.

Caminhei até as margens do lago principal do nosso território. A superfície da água era um espelho perfeito, refletindo o azul límpido do céu e as copas majestosas dos pinheiros ao redor. Aqueceu o vento frio da manhã contra o meu rosto enquanto me sentava em uma rocha plana à beira da água.

Abaixei-me, peguei uma pequena pedra lisa no chão e a arremessei com precisão. A pedra quicou quatro, cinco, seis vezes sobre a superfície antes de afundar suavemente no centro do lago, criando círculos concêntricos que distorciam o reflexo das árvores.

Minha mente vagava por estratégias de ronda e pelo treinamento dos novos recrutas, até que o som suave de passos se aproximando pela mata chamou minha atenção. Não eram passos descuidados; eram movimentos ágeis de predadores de grande porte.

Dois enormes lobos emergiram do denso arbustal a poucos metros de mim. Um deles possuía pelagem castanha avermelhada e ombros largos; o outro era ligeiramente menor, de pelos cinzentos e postura incrivelmente veloz.

Assim que pisaram na clareira à beira do lago, os dois animais saltaram no ar, ativando a transformação. Em questão de segundos, o estalar característico de ossos se reajustando ecoou suavemente, e onde antes estavam os predadores, agora surgiam dois homens jovens de porte atlético.

Um sorriso contido surgiu no meu rosto ao encarar aquelas duas figuras.

Adamastor e Rudi.

Meus irmãos menores. Os filhotes que um dia protegi entre as raízes de um carvalho enquanto nosso mundo desmoronava.

Ambos haviam se tornado homens fortes, guerreiros capazes e de inteligência afiada. E, para o meu constante teste de paciência, haviam se tornado especialistas em causar problemas e testar os meus limites dentro do conselho da alcateia.

Adamastor, o mais velho dos dois, aproximou-se limpando a poeira das calças de couro e cruzou os braços largos sobre o peito musculoso.

- Dário... por que você sempre escolhe os lugares mais isolados para ficar pensando na vida?

Olhei para ele de soslaio, mantendo a postura ereta sobre a pedra.

- Porque aqui é o único lugar desta aldeia onde consigo alguns minutos de paz longe das suas obrigações e da sua tagarelice.

Rudi, que vinha logo atrás soltando uma gargalhada curta, caminhou até a margem e jogou um punhado de água no rosto para espantar o cansaço da patrulha matinal.

- Paz? Sei muito bem qual é a sua ideia de paz, meu irmão. Ou será que o Alfa soberano está apenas fugindo do grupo de jovens fêmeas que passou a manhã inteira tentando arranjar uma desculpa para vir até a sua casa?

Balancei a cabeça lentamente, soltando um suspiro de negação.

- Vocês dois realmente não têm mais nada o que fazer a não ser vir até aqui para perturbar o meu sossego?

Os dois se olharam e deram risada juntos.

Apesar do peso que eu carregava diariamente como líder, ver a alegria e a vivacidade no rosto de Adamastor e Rudi trazia um alívio indescritível para o meu peito. Todo o sacrifício, todo o sangue e todas as noites mal dormidas valiam a pena ao constatar que eles haviam crescido livres da sombra da dor que quase nos destruiu.

Capítulo 3 Capitulo 3

- O que trouxe vocês até aqui, afinal? - perguntei, adotando um tom um pouco mais suave. - O que meus dois pequenos lobos querem agora?

No mesmo instante, a expressão de ambos mudou. As feições de Adamastor e Rudi se contraíram em uma careta simultânea de indignação.

- Já falamos mil vezes para você parar de nos chamar assim! - protestaram em coro, exatamente da mesma forma como faziam quando tínhamos dez e doze anos a menos.

Não consegui segurar o riso baixo que subiu pela minha garganta.

- Enquanto eu for o Alfa e o irmão mais velho de vocês, continuarei chamando como eu bem entender. Acostumem-se.

Adamastor soltou um suspiro pesado, fingindo irritação enquanto ajeitava a postura.

- Um dia a gente descobre um jeito de arrancar esse apelido ridículo da sua boca na base da força.

- Fiquem à vontade para tentar a sorte quando quiserem - respondi, arqueando uma sobrancelha com um desafio mudo. - Sabem exatamente onde fica o campo de treinamento.

O clima descontraído e leve que sempre marcava nossas interações familiares começou a se dissipar de forma abrupta. Percebi o momento exato em que a atmosfera ao nosso redor mudou.

Adamastor e Rudi trocaram um olhar rápido. Não era um olhar de cumplicidade brincalhona, mas uma troca de sinais carregada de hesitação e nervosismo. O corpo de ambos se tensionou, e as posturas relaxadas deram lugar a um alinhamento rígido e defensivo.

Havia algo seriamente errado. O instinto do meu lobo interior ergueu as orelhas mentalmente, colocando-me em estado de alerta máximo.

Ajeitei minha posição sobre a rocha e cruzei os braços, encarando-os com o olhar afiado que reservava para as reuniões do conselho.

- Falem de uma vez. O que aconteceu?

Nenhum dos dois respondeu de imediato. O silêncio que se seguiu foi incômodo, quebrado apenas pelo ruído suave da água do lago batendo contra as pedras da margem.

- Vocês aprontaram alguma coisa nas fronteiras? - pressionei, aumentando ligeiramente a gravidade da minha voz. - Atravessaram os limites estabelecidos sem a minha autorização?

Adamastor ergueu as duas mãos abertas em um gesto rápido de defesa.

- Não! Não é nada disso, Dário. Nós respeitamos as patrulhas.

Rudi deu um passo à frente, confirmando rapidamente com a cabeça.

- Ninguém invadiu o território e nós não quebrámos nenhuma regra de segurança. Dessa vez não tem nada a ver com as fronteiras.

- Então qual é o motivo desse suspense todo? - retruquei, a paciência diminuindo a cada segundo. - Vocês parecem dois recrutas prestes a receber uma punição. Diga o que está acontecendo de uma vez.

Eles respiraram fundo ao mesmo tempo, buscando coragem para encarar a autoridade que emanava do meu olhar. Adamastor deu um passo à frente, assumindo a responsabilidade como o mais velho entre os dois.

- Nós queremos sair da reserva, Dário. Queremos ir viver entre os humanos.

A frase ecoou no ar como um golpe físico.

Fiquei absolutamente imóvel sobre a rocha. Por um breve instante, cheguei a considerar a possibilidade de ter ouvido mal, ou de que aquilo fizesse parte de mais uma das brincadeiras de mau gosto que eles costumavam planejar. Mas a rigidez no rosto dos meus irmãos e a seriedade nos seus olhares sepultaram qualquer dúvida.

- O quê? - A palavra saiu da minha boca fria, baixa e perigosa.

Rudi adiantou-se rapidamente, temendo a minha reação imediata.

- Não estamos falando de abandonar a alcateia ou renunciar à nossa família! Não é nada disso. Nós só... só queremos ter a chance de conhecer o mundo lá fora. Queremos estudar de verdade. Fazer uma faculdade, ter uma profissão, ter amigos humanos sem precisar esconder quem somos a cada segundo. Queremos ir a festas, ver o funcionamento das grandes cidades, experimentar como é ter uma vida normal como a deles.

O meu lobo interior não apenas rejeitou a ideia; ele rugiu em fúria dentro do meu peito. A mera menção de colocar meus irmãos no meio daquela raça desprezível fez o meu sangue ferver instantaneamente.

Levantei-me da rocha com um movimento lento e calculado, mas carregado de uma aura tão pesada e opressiva que a vegetação ao redor pareceu encolher. A aura do Alfa dominou o espaço entre nós, fazendo com que o ar ficasse denso e difícil de respirar.

- Vocês perderam completamente o juízo? - perguntei, dando um passo lento na direção deles. Minha voz reverberava com a força de um comando supremo.

Adamastor e Rudi mantiveram-se de pé, embora eu pudesse ver o esforço que faziam para não ceder à pressão biológica da minha presença.

- Vocês esqueceram quem são os humanos? - avancei mais um passo, encarando-os com olhos que começavam a faiscar em um tom dourado e perigoso. - Esqueceram o que aqueles monstros fizeram com a nossa família? Esqueceram como eles massacraram o nosso pai, como caçaram a nossa mãe até o último segundo de vida dela?

O silêncio deles foi a resposta, mas a determinação não desapareceu de seus rostos.

- Quantos guerreiros da nossa linhagem morreram por cometer o erro estúpido de confiar em humanos? - minha voz subiu de tom, cortando a tranquilidade da manhã como uma lâmina. - E agora vocês vêm até mim dizer que querem caminhar no meio deles? Que querem ir para as cidades deles brincar de ter uma vida comum?

Adamastor abaixou a cabeça por um breve segundo, sentindo o peso das minhas palavras, mas não recuou um único milímetro.

- Nós não esquecemos nada, Dário - disse ele, erguendo o olhar novamente com uma firmeza que há muito tempo eu não via nele. - Nós estávamos lá naquela noite. Nós nos lembramos de cada segundo daquele horror, assim como você.

- Então por que insistem nessa aberração? - questionei, exasperado.

Foi Rudi quem respondeu, dando um passo destemido para ficar ao lado do irmão. Sua voz trazia uma mistura de dor e uma necessidade desesperada de liberdade.

- Porque nós não queremos passar o resto das nossas vidas escondidos no meio desta floresta como se fôssemos monstros acuados! Não queremos viver apenas em função do medo do passado.

A resposta dele atingiu o centro do meu peito com a força de um impacto devastador.

O silêncio voltou a dominar a clareira. O vento frio da montanha soprava suavemente, fazendo as copas das árvores balançarem e as águas do lago criarem pequenas marolas contra as pedras.

Dentro de mim, uma batalha feroz se estabeleceu.

De um lado, o meu coração devastado pelo passado gritava que eu deveria trancá-los dentro do território, proibi-los categoricamente de dar um único passo fora das nossas fronteiras e protegê-los de todo e qualquer perigo do mundo humano, nem que para isso precisasse usar a minha autoridade de Alfa.

Do outro lado, o meu instinto mais profundo como irmão mais velho, aquele que fez uma promessa sobre o corpo caído dos nossos pais, encarava a realidade.

Eu havia jurado proteger a vida dos meus irmãos a qualquer custo.

Mas agora, olhando para a determinação nos olhos daqueles dois homens que ajudei a criar, uma pergunta dolorosa começou a corroer minha mente: protegê-los significava mantê-los seguros em uma gaiola de ouro... ou permitir que eles enfrentassem o mundo para encontrarem o próprio destino, mesmo que esse caminho nos levasse de volta para o coração do território inimigo?

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