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PROCURA-SE UM AMOR

PROCURA-SE UM AMOR

Autor:: RENATA PANTOZO
Gênero: Romance
LIVRO 1 Catarina decidiu que precisava achar o amor a qualquer custo, em todas as formas e lugares possíveis. Não, ela não precisava achar o amor para cumprir acordos, ordens ou por qualquer obrigação. Ela simplesmente decidiu que precisava ser amada e amar. Mas o amor não é algo que se encontre facilmente. O amor simplesmente acontece quando você menos espera e onde você nunca imaginou acha-lo.

Capítulo 1 1

Meus dedos batem em um ritmo levemente irritante sobre a mesa do computador, mas não consigo aquietar meus dedos, porque estou nervosa e ansiosa. Respiro fundo, empurro meu óculos para mais perto dos meus olhos e foco na tela do monitor me indicando o preenchimento da ficha cadastral para site de namoro.

" TAMPA DA PANELA"

Nome de merda para um site de namoro, mas o desespero aqui já virou insuportável.

- O que tanto olha nesse monitor, Catarina?

Minha irmã pergunta e apenas observo se vai se aproximar. Se Cassandra souber que estou procurando namorado na internet, vai me dar o sermão sobre a nova mulher, sobre o fato de não precisarmos de homens e toda a sua luta feminista para sermos livres. Amo minha irmã, respeito seus ideais, ela só precisa entender que também tenho os meus. A luta da mulher é válida, o mundo precisa abrir os olhos e entender como é difícil ser mulher. Mas lutar por respeito, equidade, liberdade, não significa que preciso parar de sonhar com o amor, um homem que me ame e eu ame. Uma família feliz e filhos! Existe alguém lá fora pra mim, talvez a tampa da minha panela.

- Por que está sorrindo assim?

Me assusto quando vejo Cassandra atrás de mim.

- Você não vai fazer isso!

Grita e pegando o mouse, fecha a tela deixando outra em evidência.

- Como encontrar o amor da sua vida?

Lê o título da matéria, bufa e fecha a janela, deixando mais uma em evidência.

- Como será seu filho? Catarina você comeu merda?

- O fato de querer ter um marido, filhos, uma família, não me torna louca.

- Loucura é você achar que um teste, um site de namoro e montagens de crianças que podem ser seus filhos seja normal.

- Não sei mais o que fazer!

Grito ao me levantar e meu pijama enrosca na cadeira, quase me fazendo cair. Arrumo a pantufa e me afasto da Cassandra.

- Meu útero está gritando!

- Pode ser de raiva por te ver vendo essas merdas.

Reviro os olhos e ela ri.

- Quero ser mãe!

- Não precisa casar com um macho escroto pra isso. Vai nesses bancos de esperma, escolhe um e pronto.

- Quero um pai pro meu filho. Quero alguém pra viver a magia da gestação comigo.

- Posso ser essa pessoa. Vou amar ser titia!

- Cassandra, para de tentar me convencer a ser como você. Eu não odeio os homens! Pelo menos não todos.

- Teve algum na sua vida que prestou?

Bufo e cruzo meus braços.

- Nosso pai nos abandonou, assim que nossa mãe morreu. Não temos um tio que presta e nunca conhecemos nossos avôs. Aparentemente filho afasta homem e não o segura.

Olho para a linda mulher a minha frente. Cassandra é mais velha do que eu dois anos. Herdou a cor morena linda do meu pai, assim como seus olhos negros intensos e a altura. Seu cabelo é longo e cacheado, até o meio das costas. Belas curvas, fartos seios, bundão e uma boca de dar inveja. Tudo isso odiando homem. Olho meu pijama e depois me olho no espelho perto da mesa de jantar. Estou no limite, quase sendo decretada anã. Não sou gorda, nem magra! Tudo meu parece fora do padrão. Parece que Deus ao me criar pegou um pedaço de cada humano que restou e juntou tudo. Minha cor é um bege, quase merda de criança com diarreia. Assim como a minha mãe, tenho cabelo e olhos castanhos claros. Peito pequeno e bunda enorme.

- Catarina!

Olho pra minha irmã que parece sem paciência.

- Você está assim por causa da crise dos trinta anos?

- Não! Estou assim porque meu corpo, mente e coração, em perfeita harmonia decidiram que é hora de encontrar a

pessoa certa.

- E vai achar nesses sites de namoro?

- Não sei! É uma opção. Posso tentar encontros ás cegas.

- Meu Deus! Em que mundo você vive? Quem hoje em dia vai a um encontro ás cegas, sem ter medo de ser estuprada, morta, agredida ou roubada.

- Não posso viver me escondendo do mundo, com medo de tudo. O amor da minha vida está lá fora e eu vou achar.

- Desisto!

Cassandra vira as costas e sai da sala, me deixando sozinha. Volto para o computador, determinada a encontrar o cara. Preencho meus dados, as coisas que gosto, pra que facilite achar alguém correspondente a mim. Agora é só esperar acharem.

***************

DUAS SEMANAS DEPOIS

Me olho mais uma vez no espelho, tentando me aceitar em um vestido preto colado ao corpo e uma maquiagem horrível que eu mesma fiz. Parece até que um olho está maior que o outro.

- Vai mesmo a esse encontro?

Pelo espelho vejo Cassandra na porta do meu quarto.

- Sim!

- Encontro ás cegas ou site de relacionamento?

- Encontro ás cegas! É um amigo da Karen, aquela que trabalha comigo.

- Como ele é?

- Não faço ideia! Vamos nos encontrar em um tal de Bar do Juca.

- Vai sai de casa a noite pra encontrar alguém que nunca viu na vida? Você não anda vendo jornais e internet, né? Os perigos que corremos nesses encontros.

- Se for pra guiar minha vida de acordo com as notícias, nunca mais saio de casa. Pode deixar que sei me proteger e estarei segura nesse bar. Qualquer coisa te ligo!

- Por que está usando vestido? Você não gosta.

- Porque vestido deixa sexy e mais bonita.

Digo dando de ombros.

- Mas você deixa de ser você e não acho certo enganar o amor da sua vida assim.

Estreito meus olhos pra ela que sai do quarto rindo. Agora é encontrar o Osvaldo.

*************

Entro no bar, que mais parece um boteco. Tem três homens jogando bilhar, uma mesa com muitos homens e três mulheres que parecem homens em uma outra mesa. Meu Deus, onde eu vim me enfiar? Penso em recuar, mas todos me olham. Combinei de esperar pelo Osvaldo no balcão. Ambos estaríamos de preto. Ignoro os olhares e sigo para o balcão, me sentando em um banquinho. Olho pra porta, em mais um pensamento de ir embora, mas seria confirmar que Cassandra esta certa.

- Oi!

Me viro pro balcão e quase caio dele ao ver o homem lindo a minha frente. Lindos olhos verdes e um cabelo tão loiro que chega a brilhar e arder meus olhos. Uma barba loirinha que faz meus dedos coçarem pra tocar. Gente! Precisaria subir em cima de mim mesma mais doze vezes pra alcançar a boca desse Deus grego. Sorri e minha cabeça tomba, perdida no encanto desse Viking.

- Vai ficar só me olhando ou vai pedir algo pra beber.

- Vou beber!

Respondo inconscientemente, ainda perdida em tanta beleza. É crime demais um homem desses. Deus não foi justo comigo, jogando na terra essa delícia só pra eu olhar. NUNCA, MAS NUNCA QUE ESSE HOMEM ME OLHARIA.

- O que você vai beber?

Volto minha cabeça para o lugar e balanço, tentando recuperar o foco.

- Ainda não sei! Estou esperando alguém.

- Quer pedir para os dois?

- Eu não sei o que ele gosta de tomar. É nosso primeiro encontro.

Faz uma careta e balança a cabeça.

- Não creio que o meu bar seja um bom local pra primeiro encontro.

Olha em volta e sei do que está falando. Esse boteco não serve pra nada.

- Acho que alguém vai beber sozinha.

Coloca um copo na minha frente e deixa uma garrafa de cerveja, que ele arranca a tampa com maestria.

- É por conta da casa.

Pisca pra mim e fecho as pernas, sentindo essa piscada onde eu não deveria sentir.

************

UMA HORA DEPOIS

Estou na minha quinta cerveja e sou uma idiota por acreditar que isso fosse dar certo.

- Ele não veio!

O viking gostoso comenta, parando na minha frente. Apenas o balcão nos separa e percebo que seu nariz é meio grandinho. Olha só! Deus não fez tão perfeito assim. Então me lembro que dizem que nariz grande, rola grande.

- Está vermelha!

Aponta pra mim rindo.

- É a bebida!

Digo sem graça e um homem desse tamanho deve ter uma rola do meu tamanho. Deve ter um Catarino entre as pernas. Um riso preso escapa de mim e ele tomba a cabeça.

- Conta a piada!

- Não!

Suspiro e pego minha bolsa.

- Acho melhor ir embora.

- Não perca sua noite por causa de um idiota.

- De idiotas meu mundo é cercado. Será que é tão difícil achar um cara legal pra namorar, casar e ter filhos? Eu nem sou tão exigente!

Ele ri e coloca dois copos com tequila na minha frente.

- Não desista!

Ergue seu copo e faço o mesmo.

- Uma hora o idiota certo aparece.

Batemos os copos e viramos a tequila seca mesmo. Balanço minha cabeça e coloco o copo no balcão.

- Sou Apolo!

- Combina com você!

- Esse olhar foi de sedução pra mim?

- Não!

Respondo sem graça.

- Eu não sei me maquiar, então um olho ficou maior que o outro e parece que estou seduzindo.

- Percebi o olho torto assim que entrou.

Vai até a pia atrás dele e molha um pano de prato novo.

- Tira isso que parece não combinar com você.

- Posso ficar nua? Isso aqui não combina também.

- Seria um belo show aos meus clientes, mas é melhor não.

Limpo meu rosto e ele fica me olhando.

- Ainda não me disse seu nome.

- Catarina!

- Lindo nome! Aposto que te chamam de Cat!

- Não! Me chamam de Catarina mesmo. Uma vez me chamaram assim, mas foi um cara bêbado em uma balada. Me chamou de Cat e miou pra mim.

Meu corpo arrepia, lembrando da cena nojenta.

- Deve ter sido engraçado.

- Mais ou menos.

Ficamos conversando sobre encontros que deram errado e Apolo tem mais desastres amorosos do que eu. Olho meu relógio e já está tarde. O bar já está vazio.

- Agora eu preciso ir!

- Te acompanho até lá fora. Vai de táxi ou uber?

- Uber! Combinei com um amigo que trabalha como uber de vir me pegar. Ficar por perto caso dê alguma coisa errada.

Pulo do banco e ando até a porta. Ele sai de trás do balcão e agora ao meu lado, percebo que não sou tão baixa perto dele. Bato na altura do seu coração. Saímos do bar e mando mensagem para o meu amigo, pra saber se está por perto.

- Vai continuar tentando esses encontros?

- É o que me resta!

Meu amigo está por perto e decido usar o aplicativo pra chama-lo.

- Sabe que é perigoso, certo? Dependendo do lugar, da pessoa e do encontro, não é seguro.

- Nada nesse mundo é seguro.

Vejo o carro do amigo se aproximando e me viro para o Apolo.

- Obrigada por me fazer companhia, Apolo!

- Meu nome é Gustavo! Disse Apolo porque te ouvir me chamar de Deus grego quando te servi uma das cervejas.

- Desculpa!

Digo sem graça.

- Te desculpo se me prometer uma coisa!

- O que?

- Todos os encontros vai marcar aqui! Assim saberei que vai estar segura e se alguém não aparecer, te faço companhia.

- Por mim tudo bem!

- E mais uma coisa!

- Está pedindo demais!

Abro a porta do carro do meu amigo.

- Pede!

Digo antes de entrar.

- Seja você mesmo. Nada de maquiagem, roupas que não combinam com você. Fica mais bonita sem isso tudo.

- Vou pensar no seu pedido.

Pisco pra ele e entro no carro.

- Gustavo!

O chamo ao abrir a janela do carro.

- Fala!

- Obrigada de verdade!

Sorri pra mim e tenho certeza que esse sorriso ganharia qualquer mulher, mas eu não sou a mulher que ele desejaria ter.

Capítulo 2 2

Abro a porta de casa e tento fazer o mínimo de barulho possível. Por uma pequena fresta passo por ela, entro e fecho a porta, trancando em seguida. Espero que Deus me ajude e que Cassandra já esteja dormindo. Me viro para ir para o quarto e levo um puta susto.

- Como foi?

- Cacetada!

Digo com a mão no peito, tentando talvez acalmar meu coração acelerado. Minha irmã acende a luz da sala e volta a cruzar os braços, me encarando como uma mãe que acabou de pegar o filho voltando de uma festa que foi escondido.

- Quase me matou do coração!

- Tem medo de mim, mas não de sair pela noite pra conhecer um homem que pode ser seu assassino?

- Cassandra, você precisa parar de assistir séries de suspense e investigação. Está ficando paranoica!

- Isso não tem nada a ver com séries, mundos imaginários. É a nossa realidade e parece que você vive em uma bolha, Catarina!

- Eu apenas não aceito viver no seu mundo de medo.

Realmente exausta de brigar com ela sobre isso, decido ir para o meu quarto.

- Hoje você voltou pra casa bem, mas pode ser que dá próxima vez eu te perca!

Ela vem andando atrás de mim e quando entro em meu quarto, não me deixa fechar a porta.

- Você não me escuta!

- Escuto!

Digo quase gritando e olhando em seus olhos.

- Mas eu não vou deixar suas loucuras, paranoias e tudo mais me impedirem de encontrar alguém legal.

Seu corpo relaxa e odeio quando me olha culpada assim.

- Não quero te impedir de encontrar um cara legal. Mesmo sabendo que não existe cara legal no mundo.

Se aproxima e me abraça forte.

- Só quero te proteger!

- Tente fazer isso sem me sufocar.

- Você é a única coisa que eu tenho, Catarina!

Me entrego ao seu abraço e respiro fundo.

- Não sou imprudente! Confie em mim!

- Você está marcando encontro com desconhecidos! Usa sites de namoro, faz montagens de bebês com estranhos. Como posso confiar em você?

- Pedi pra confiar e não achar que sou normal!

Nós duas rimos.

- Todo mundo tem um pouco de loucura e essa é a minha.

Nos separamos e começo a tirar a merda do vestido.

- Você voltou sem maquiagem.

- Estava me incomodando.

Começo a colocar meu pijama e vejo Cassandra deitar na minha cama.

- Vai me contar como foi?

- E ouvir mais um discurso de mãe super protetora? Não!

Vou para o banheiro e lavo meu rosto.

- Prometo ficar caladinha!

Escovo meus dentes e tento pensar se é uma boa ideia contar que levei um bolo de um desconhecido e fui parar em um boteco. Termino de escovar os dentes, seco minha boca, mãos e volto pro quarto.

- Vem! Me conta tudo!

Ela já está embolada no meu edredom, dando espaço pra mim.

- Vai dormir comigo?

- Vou! Odeio brigar com você.

Me deito ao seu lado e ela nos cobre. Viramos de bruços, agarramos nossos travesseiros e ficamos nos olhando.

- Me conta tudo! Onde marcaram de se encontrar?

- Em um bar bem aconchegante de um amigo dele.

Minto, tentando de todas as formas não deixa-la perceber. Cassandra me conhece muito bem.

- Qual o nome?

- Não me lembro agora!

Bar do Juca não é algo que ela deva saber.

- Quem chegou primeiro?

- Ele!

Respondo rápido e nervosa.

- Está me escondendo algo!

- Não!

- Continua!

- Cheguei e estávamos tão nervosos que ficamos em silêncio por um longo tempo.

Ela está em silêncio até agora! Minha mente acusa e tento não rir.

- Quem quebrou o gelo?

- Ele!

- Como?

- Pedindo tequila.

Me lembro de quando bebi tequila com o Gustavo.

- Como ele é?

Oh merda! Não faço ideia de como é o Osvaldo. Karen não me mostrou foto, então não sei como descrever.

- Está pensando demais!

- Tentando lembrar dos pequenos detalhes.

Fecho um olho pensando.

- Alto, loiro, olhos verdes, nariz levemente grande e tem a barba da mesmíssima cor do cabelo.

Eita! Acabei de descrever o Gustavo!

- Um Deus grego!

Minha irmã comenta e rimos juntas.

- Qual o nome do cara?

- Apolo!

Respondo agora gargalhando e ela me acompanha. Que o Gustavo me perdoe, mas vou usa-lo como "o cara do encontro", essa noite.

- Estranho!

- Pois é!

Digo tentando controlar o riso.

- Você gostou dele?

Sua pergunta me faz refletir. Gustavo é lindo, parece ter um coração maravilhoso e acima de tudo é encantador.

- Sim!

Respondo de puro coração.

- Foi a resposta mais sincera que me deu hoje.

- É porque eu realmente gostei dele.

- Vão se encontrar de novo?

- Não!

- Por que?

Solto um longo suspiro e tento achar uma forma simples de responder.

- Ele é muito areia pro meu caminhãozinho.

- Só por que o cara é alto?

- Não! É porque ele é típico cara que namora modelos, deusas, atrizes, mulheres incríveis e poderosas.

- Mas ele foi se encontrar com você e não com uma dessas mulheres.

Dou um tapa em seu braço e Cassandra ri alto.

- Era pra dizer que sou uma mulher incrível e poderosa!

Tento parecer magoada.

- Você é!

- Cala a boca!

Cutuco sua barriga várias vezes e ela se contorce na cama.

- Para!

Quando perde o fôlego me abraça. Suspira e ficamos um pouco em silêncio.

- Catarina!

- Oi!

- Você é a mulher mais incrível que eu conheço! Qualquer homem seria um idiota em não ver isso.

- Cassandra!

- Hum!

- Você fala isso porque sou a única pessoa na sua vida.

- Cala a boca e nunca mais diga que é pouca coisa pra macho escroto.

Não digo nada e apenas me acomodo em seu corpo pra dormir.

- Eu te amo!

- Também te amo!

**************

QUATRO DIAS DEPOIS

Pego minha bolsa e percebo olhos curiosos me seguindo.

- Um encontro?

- Sim!

- Apolo?

- Não!

Ela solta um longo suspiro e sei que se controla pra não surtar.

- Cuidado!

- Pode deixar!

Mando um beijo e recebo de volta um revirar de olhos.

- Vou te esperar acordada, então não chegue tarde!

- Tchau!

**************

Entro no bar e já procuro o Gustavo no balcão. Resolvi vir uma hora antes do horário marcado pra conversar com ele. O encontro atendendo duas meninas cheias de sorrisos pra ele. O infeliz está flertando com elas? Mas são clientes! Olho em volta e decido ir para uma mesa qualquer, longe dessa cena bizarra. Me sento e não consigo deixar de olhar novamente pra eles. O pior é que as duas garotas são lindas pra caramba. Uma morena maravilhosa como a Cassandra e uma ruiva exótica. Decido evitar olha-lo e puxo meu celular do bolso. Que maravilha! Uma hora procurando o que fazer pra não ficar olhando safadezas alheias. Espero pelo menos que esse Caio chegue mais cedo e me tire desse momento estranho.

- Cat!

Viro a cabeça e me deparo com um enorme sorriso pra mim.

- Gust!

Gustavo começa a rir alto e para a minha surpresa se senta a minha frente, na minha mesa.

- Encontro?

- Sim!

- Esse também não vem?

- Vim mais cedo, mas se Deus quiser esse vem.

Tomba a cabeça de lado, vendo minha roupa.

- Está linda!

- Me mandou vir como sou!

Dou de ombros e espero que Caio me aceite de jeans surrado, all star e blusinha preta básica. Estou usando pelo menos brincos de argola e uma corrente bonita!

- Seu cabelo ficou legal assim!

- Chama rabo de cavalo! Valoriza o pescoço que eu não tenho!

Ele começa a rir alto.

- Você tem pescoço!

- Não! Tenho uma papada que dividi minha cabeça do tronco.

Sua risada chama a atenção das duas meninas no balcão. Elas saem de onde estão e vem pra perto da gente.

- Gu, você pode fazer aquela bebida deliciosa pra gente?

- Vou pedir pro Valdir servir vocês! Estou dando uma pausa!

Pisca pra elas que, não parecem felizes. Ele se levanta, some e as coisinhas voltam pro balcão. Em alguns minutos o Gustavo volta com uma porção de fritas e duas cervejas.

- Me fala desse cara!

- Não tenho nada ainda pra dizer! Encontro de site de relacionamentos. Juntaram o meu perfil e o dele e estamos aqui pra ver o que rola.

Pego uma batata e enfio na boca.

- Nossa! Isso aqui é bom!

- Meu tempero secreto!

Pisca pra mim e percebo que usa como charme essa piscadinha. Pego mais uma batata e quando coloco na boca, chupo os dedos. Ele ri de tudo que eu faço e isso começa a me irritar.

- Qual a graça?

- Estou tentando achar o seu pescoço!

Gargalha alto e chuto sua perna por baixo da mesa.

- Você roubou o estoque de pescoço que tinha no céu! Pescoço, pernas e braços. Vim parecendo um dinossauro e você uma girafa.

Ele chora de tanto rir.

- Desculpa o comentário, mas sua bunda larguinha parece mesmo de um dinossauro. E os bracinhos curtos comendo batata.

Jogo uma batata nele que pega no ar e enfia na boca.

- Fico feliz que te faça rir feito uma anta acasalando.

- Catarina!

Olho pro lado e vejo um homem.

- Sou o Caio!

Olho para o Gustavo e dou um sinal com a cabeça pra vazar.

- Com licença!

Me levanto e estico minha mão.

- Prazer!

Ele é um pouco mais alto do que eu, tem cabelos pretos super organizado na cabeça, um bigode nada sensual e usa óculos. Um mistura de anos 80 com nerd.

- Senta!

Peço soltando sua mão e nos sentamos. Ele me olha! Olho pra ele! Ninguém fala nada e isso não me agrada.

- Quer batata?

- Não! Acho que não devia comer isso! Sabe Deus como foi feito! Olha esse lugar!

Fala com cara de nojo e ergue o copo limpo a sua frente, tentando achar alguma sujeira.

- Por que escolheu aqui? Podemos pegar alguma doença.

- Caio, me fala sobre você!

Peço pra ver se impeço essa boca de só falar merda.

- Sou gerente de um setor financeiro! Moro sozinho em meu apartamento quitado e tenho um carro, também quitado.

- Certo! Acho que isso não vai dar certo.

- Por que?

- Sou decoradora de ambientes, moro com a minha irmã em um lugar alugado e não tenho carro. Sou completamente perdida no mundo e desorganizada. Amo lugares assim!

Essa parte estou mentindo! Isso aqui é realmente mal cuidado e administrado, mas é um lugar legal e tem um cara legal.

- Acha que eu devo ir embora?

Confirmo firmemente com a cabeça.

- Certo!

Ele se levanta sem graça e vai embora sem olhar pra trás. Vejo no balcão o Gustavo com as coisinhas e acho que também devo ir embora. Deixo dinheiro que imagino pagar as fritas e a cerveja e sigo para fora do bar. Assim que passo pelas portas, alguém segura meu braço.

- Onde vai?

Olho a mão me segurando e subo para o rosto.

- Ir embora! O encontro já acabou!

Gustavo sorri e solta meu braço.

- Fica!

- Pra que?

- Quero te mostrar uma coisa!

- Acho melhor ir!

- Por favor, fica!

Seus olhos verdes pedindo pra ficar é de amolecer pernas e coração.

- Só um pouco!

Sorri e pega minha mão.

- Não vai se arrepender.

Capítulo 3 3

Gustavo me puxa de volta pra dentro do bar e parece um menino feliz que vai mostrar um brinquedo novo. Nos aproximamos do balcão onde estão as duas coisinhas sentadas em seus banquinhos. Um senhor muito, mas muito velho mesmo está servindo algo a elas.

- Valdir, segura as pontas por aqui?

- Claro!

Sorri todo safadinho e não sei se é por ficar com as coisinhas ou pelo Gustavo que me arrasta pra algum lugar. Ai caramba! Isso é algum sinal entre eles pra pegar mulher? Estou sendo levada pro abate? Ele me quer? Olho para o Gustavo que não parece excitado, louco pra transar, mas sim pra mostrar de verdade algo importante. Novamente caio na real de que não sou atraente como as coisinhas pra ele.

- Vem!

Entramos atrás do balcão e seguimos para uma porta bang bang, estilo faroeste perto do freezer com as cervejas. Abre a porta e esquecendo que elas vão e voltam muito rápido não segura a infeliz que vem com tudo na minha cara.

- Aí!

Meu nariz lateja, meus olhos lacrimejam e o idiota está rindo.

- Desculpa!

Me ajuda a passar pelas portas e segura meu rosto em suas mãos.

- Mil desculpas!

- Sempre quis fazer uma plástica no nariz. Obrigada por isso!

Beija minha testa e me leva para uma cadeira. Me sento e fecho os olhos, sentindo a dor tomar meu rosto todo.

- Vou pegar gelo.

Mantenho meus olhos fechados e só escuto o barulho que faz abrindo as coisas.

- Toma!

Segura minha mão, coloca um pano gelado e levo ao meu rosto, sentindo a dor acalmar.

- Se a sua intenção era me cegar antes de me mostrar algo, atingiu com perfeição seu alvo.

Sua risada me faz sorrir.

- Esqueci de segurar a porta. Estou empolgado demais!

Tiro o pano do meio do rosto e aos poucos vou abrindo os olhos. Foco em seu sorriso encantador e tento não suspirar. Ele tinha que ser tão lindo assim? Devia ser o tiozinho do bar, todo largado e curtido na pinga.

- Acho que já posso conviver com a dor, mas vou ficar passando a toalha no rosto pra ajudar.

- Certo! Preparada?

- Sim!

Sai da minha frente e me mostra uma linda, impecável e invejável cozinha industrial.

- Te apresento meu mundo, meu sonho!

- Uau!

Parece que estou na cozinha de um restaurante.

- Parece que entrei em um armário e saí em Narnia!

Gustavo ri alto e ando pelo espaço lindo e bem cuidado.

- É sério! Bar e cozinha são totalmente opostos! Como pode isso?

- Senta aqui perto de mim.

Puxa a cadeira para uma bancada. Me sento e o vejo ir pra geladeira.

- Minha paixão é cozinhar! Fiz cursos de muitas coisas e me achei nos lanches. Gosto de inventar uma combinação perfeita para pão, carne, molhos, queijos e outras coisas. Estou testando meu menu de lanches e queria muito te usar como degustadora.

- Uau!

Digo completamente em choque.

- Isso explica aquelas batatinhas incríveis.

- Sim! Faço para acompanhar os lanches. Tenho outros acompanhamentos, mas hoje te mostrarei apenas os lanches.

Pega um monte de coisas da geladeira e vem equilibrando nos braços, todo torto. Ele é descoordenado e fofo ao mesmo tempo. Coloca tudo sobre a bancada, pega no armário outras coisas e volta.

- Esses pães eu fiz hoje de tarde!

Me mostra oito tipos de pães diferente.

- Antes de montar meus lanches pra você, preciso saber se tem alergia a alguma coisa.

- Não! Como de tudo, então sou a degustadora perfeita.

Bate as mãos empolgado e liga a chapa.

- Certo! Não sei por onde começar.

- Respira!

Puxa o ar e o solta lentamente.

- Pega duas cervejas pra gente lá fora?

- Pego!

Saio da cadeira e volto pro bar. As coisinhas me olham e vejo que ficam assustadas. Deve ser porque meu rosto está vermelho e provavelmente começando a ficar deformado. Uma ideia idiota passa pela minha cabeça. Vamos nos divertir com isso. Faço cara de sofrida, pego as cervejas e antes de voltar sussurro pra elas.

- Socorro! Ele quer me matar!

As coitadas pegam as bolsas nervosas e Valdir me olha, sem entender nada. Dou um sorriso pra ele e volto pra dentro da cozinha.

- Pronto!

Abro as cervejas e coloco na bancada. Gustavo já colocou as carnes no fogo. Elas não parecem iguais.

- Me explica os lanches enquanto faz.

- Certo!

- Tenho quatro hambúrgueres de carne vermelha, com temperos diferentes. Dois de frango, também com temperos diferentes. Um de linguiça caseira e um de peixe com camarão.

- Interessante!

Olho a bancada e vejo os pães.

- Pão preto?

- Sim! É para o de linguiça.

- Hum!

Cada pão tem um toque diferente, que imagino seja para diferenciar os lanches, tornando-os único.

- Abre pra mim os potes?

- Claro!

Abro todos os potes e vejo tomate, rúcula, alface americano, cebolas caramelizadas, queijos diferentes, picles, azeitonas e cebola. Gustavo vira as carnes e começa a cortar os pães.

- Para cada lanche eu inventei um molho único.

Fala como se fosse a sétima maravilha do mundo.

- Seus lanches são 100% artesanais?

- Sim!

Pega oito pratos e coloca a minha frente. Abre os pães neles e vejo suas mãos tremendo.

- Por que está nervoso?

- Você é a primeira pessoa a prova-los.

- Sério?

- Sim!

- Por que?

Agora suspira pesado e olha pra mim.

- O bar é herança de família! Vem passando de geração em geração. Antes do meu pai falecer, ele me fez jurar que cuidaria daqui.

- Faz tempo que ele faleceu?

- Cinco anos.

- Sinto muito!

Começa a montar os lanches.

- Não vai me contar o que tem nos molhos?

- Não! Segredo do chef.

- Então me fala mais sobre o bar e sua paixão por cozinhar!

- Quando montar o menu, quero levar para as minhas irmãs e minha mãe. Pedir a aprovação para tornar o bar uma lanchonete.

- Você precisa da aprovação delas?

- Sim! Elas são tudo o que tenho! Isso aqui faz parte de todos nós e necessito que estejam comigo para mudar o que nunca ninguém mudou.

- Isso foi fofo!

- São quatro irmãs e uma mãe, tem noção da batalha que vai ser pra convencer todas?

É impossível não rir. Se apenas uma mulher na minha vida já me causa dor de cabeça, imagina cinco.

- Acho que precisará mais do que um menu! Já verificou como serão as mudanças e quanto sai tudo?

Seus ombros quase despencam e fico com pena.

- Juntei um dinheiro para arcar com a reforma, mas não tenho pra pagar as pessoas na obra. Posso pintar, limpar depois, montar móveis, mas não faço ideia de como mudar os ambientes e tudo mais. Precisaria de engenheiro, arquiteto, decorador.

- Não precisa de tudo isso!

Digo e ele vai montando os lanches.

- A cozinha foi reformada recentemente?

- Sim! Um amigo meu me ajudou.

- Esse amigo consegue ajudar nos banheiros e alguns pontos?

- Acho que sim!

- Você tem um excelente local, que só precisa de reparos, uma boa pintura e repaginada nas coisas.

Finaliza os lanches e limpa as mãos.

- Seu amigo faz os reparos, você pinta e eu arrumo o resto. Apenas me dê o dinheiro e vejo o que consigo fazer.

- Isso é sério?

- Sim! Mas não esqueça de ver a parte burocrática com a prefeitura pra que isso ocorra legalmente.

- Está falando sério?

- Sim! Sou decoradora de ambientes e seria um prazer te ajudar a tornar esse Boteco em uma linda e acolhedora lanchonete.

Pego o primeiro lanche e dou uma bela mordida. Mastigo com gosto e o sabor é maravilhoso.

- Isso está... ótimo!

Digo de boca cheia e ele ri.

- O melhor está no fim!

Mostra pra mim um monstro de lanche.

- Passa ele pra mim!

Puxa o prato pra minha frente e entrego a ele o lanche que mordi. Enquanto mordo o mega lanche, Gustavo morde o que eu provei antes.

- Meu Deus!

Reviro os olhos quase tendo um orgasmo.

- Que molho é esse?

Abro o lanche e pego a parte de cima. Começo a lamber o molho sozinha e nunca provei nada tão bom assim.

- Isso está muito divino!

Pega do pote mais molho e passa no pão que estou lambendo.

- Também sou louco por esse sabor!

Entrego ao Gustavo o pão melecado e puxo o pote de molho pra mim. Começo a comer que nem brigadeiro e ele ri demais.

- Quero um pote desse só pra mim.

- Quando eu fizer mais te dou. Prova os outros!

Volto a degustar os lanches e quando chego no ultimo, me sinto estufada.

- Uau! Minha calça jeans vai estourar.

- Quer uma calça de moletom minha?

- Uma calça sua em mim seria a mesma coisa que vesti uma camisinha Extra GGGG em um pinto de 5 cm.

Ele gargalha alto e me solto na cadeira, sentindo que não posso respirar ou vomito.

- O que achou de todos?

- Quer sinceridade?

- Sim!

- O hambúrguer de peixe com camarão com o molho é divino, mas misturado ao alface americano não ficou legal. Colocaria nele agrião.

- Agrião?

- Sim! Dar uma apimentada e um tchan no lanche.

- Espera!

Vai pra geladeira, pega um pote e volta. Abre e vejo o agrião. O que sobrou do lanche ele tira o alface e coloca agrião. Morde e fecha um olho.

- Verdade! Ficou bem melhor!

- De resto não mudaria nada.

- Certo!

- Sabe o que poderia fazer?

- O que?

- Eu comeria todos e teria dificuldade de escolher. Poderia fazer versões menores e montar uma porção de mini lanches. Ou um rodízio com lanches menores e as pessoas provarem todos.

- Gostei da ideia.

Fala animado e se inclina pra mim.

- É sério que vai me ajudar?

- Sim! Vamos montar uma apresentação bonita com a mudança do local, junto com o menu. Apresenta a sua família e se elas aceitarem, te ajudo em tudo.

Sua mão segura a minha bem forte.

- Você não faz ideia de como isso é importante pra mim. Obrigado mesmo! Nem sei como agradecer.

- Passe livre, vitalício na sua lanchonete.

- Feito!

- E...

Aponto para o lanche maior, com o molho mais top.

- Aquele lanche ganha o nome de Catarina.

- Feito!

- E...

Aponto para o lanche preto com linguiça.

- Aquele vai se chamar Cassandra em homenagem a minha irmã negativa e que não gosta de homens.

- Seu humor é maravilhoso. Feito!

Olho meu relógio e já são três da manhã!

- Merda! Preciso ir embora.

Saio da cadeira tão rápido que quase vomito!

- Eu te levo pra casa!

- Não precisa! Meu amigo vem me pegar de novo.

Vou até Gustavo e na ponta dos pés beijo seu rosto.

- Tchau! Depois volto pra conversarmos sobre as mudanças.

Pego o pote com o molho delicioso e pisco pra ele.

- Fui!

*************

Abro a porta de casa e sei que não preciso ser cautelosa. Cassandra deve estar me esperando acordada. Assim que fecho a porta, a luz se acende e me viro.

- Meu Deus! O filho da puta te espancou? Seu rosto está ficando roxo perto dos olhos e nariz. Nunca mais vai nessas merdas de encontros.

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