Qual é a primeira lembrança da vida de uma criança?
Bem, muitos diriam que é algo relacionado a uma brincadeira, ou talvez um dos pais lendo uma história de dormir. Mas, no meu caso, a minha primeira lembrança é a última noite em que vi meus pais vivos. Eu tinha apenas quatro anos naquela época, e tudo parecia tão confuso na minha mente.
Eu não conseguia lembrar o motivo de estarmos no carro naquela noite, mas recordo-me claramente dos rostos apreensivos dos meus pais. Minha mãe, Beatrice Piromalli, estava sentada ao meu lado no banco de trás, segurando-me com força. Ela olhava para trás de vez em quando, e tudo que dizia era que eles estavam vindo. Meu pai, Andrea Piromalli, estava ao volante, dirigindo o carro com uma expressão tensa, prometendo que conseguiria nos despistar.
"O que está acontecendo, mamãe?" eu perguntei, sentindo meu coração acelerar.
Ela me olhou com tristeza nos olhos e respondeu: "Não se preocupe, querida, vamos ficar bem."
Meu pai, Andrea, estava ao volante, dirigindo o carro com uma expressão tensa, prometendo que conseguiria nos despistar.
"Papai, por que estamos indo tão rápido?" sussurrei com medo.
Ele olhou pelo retrovisor e forçou um sorriso. "Só estamos brincando de corrida, Catarina. Vamos ganhar."
Eu não me lembro de quem estávamos correndo, mas eu me lembro de um carro preto que emparelhou com o nosso. Eu me lembro das luzes brilhantes e dos rosnados dos motores enquanto o carro preto tentava nos jogar para fora da estrada. A colisão foi repentina e violenta, e então tudo ficou escuro.
Depois de algum tempo, abri meus olhos e vi que o carro estava virado, meus pais infelizmente falecidos. Dois pares de sapatos pretos estavam ao lado do carro acidentado, e eu não sabia o que fazer. "O que faremos com ela?"
Outro homem, que não aparecia em meu campo de visão, respondeu. "Não podemos deixá-la aqui. Ela é só uma criança."
O outro dono dos sapatos, respondeu com calma: "Vamos cuidar dela. Ela não tem mais ninguém."
Então, ele se abaixou. Seus olhos se encontraram com os meus, ele estendeu sua enorme mão em direção a mim, e eu, com medo e confusão, segurei na mão do homem que parecia ter a mesma idade do meu pai. Ele me ajudou a sair do veículo destroçado e me envolveu em seus braços protetores. Foi assim que eu fui salva naquela noite.
"Não se preocupe, pequena," ele disse com gentileza. Eu vou cuidar de você."
Foi assim que eu fui salva naquela noite pelo homem que mais tarde descobri ser Don Salvatore Mancuso, o chefe da Ndrangheta.
Minha vida mudou para sempre naquela noite, quando fui arrancada do meu passado e lançada em um mundo sombrio e complexo que Don Salvatore governava. Ele se tornou meu guardião, meu protetor, e mais tarde, meu mentor. A Ndrangheta era uma família de outra forma, uma família que me acolheu quando a minha própria foi tirada de mim.
É irônico pensar que minha primeira lembrança de criança é justamente meu maior pesadelo. Fui salva por Don Salvatore Mancuso naquela noite escura, e desde então, tenho caminhado à sombra dele, protegida e guiada por um mundo que muitos não compreendem. E, apesar de tudo, eu não trocaria minha história por nada neste mundo... mesmo sendo a causadora da minha insônia.
***
A sensação de acordar sobressaltada era uma lembrança constante em minha vida. Catorze anos haviam se passado desde aquela noite fatídica em que meus pais morreram, mas o passado continuava a assombrar meus sonhos. Naquele dia, porém, eu não podia me dar ao luxo de me perder nas lembranças.
Empurrei os cobertores de seda de lado e me levantei da cama, sentindo o piso frio sob meus pés descalços. Encaminhei-me até a janela, ansiosa por acolher o sol da manhã que banhava Vibo Valentia, na Calábria, no meu quarto. Era um dia importante, afinal, estava completando 18 anos. A partir de agora, seria vista como adulta e capaz de tomar minhas próprias decisões.
Enquanto o calor do sol tocava meu rosto, fechei os olhos por um momento, absorvendo a sensação revigorante. O aroma das oliveiras e do mar permeava o ar, e eu me senti grata por estar em casa, mesmo que essa casa fosse uma mansão imponente e sombria que pertencia à família Mancuso.
Um suave toque na porta interrompeu meus pensamentos. Era Federica, uma mulher leal que havia se tornado minha espécie de dama de companhia desde que fui resgatada naquela noite trágica.
"Buongiorno, Catarina. Feliz aniversário!" Disse Federica.
"Obrigada, Federica. O dia finalmente chegou." Respondi animada.
"Sim, e sua família a aguarda para o café da manhã. Todos estão ansiosos para comemorar com você." Avisou Federica.
Agradeci a Federica com um aceno e ela saiu do quarto. Enquanto me preparava para o dia, minhas lembranças fluíam como um filme em minha mente. Lembro-me vividamente do que aconteceu após o meu resgate naquela fatídica noite, quando Don Salvatore Mancuso me salvou.
O certo naquela situação teria sido Don Salvatore me entregar a algum abrigo, mas as coisas tomaram um rumo inesperado. A esposa de Don Salvatore, Lucrezia Mancuso, foi a grande influência por trás dessa reviravolta. Ela sempre sonhou em ter uma filha, mas depois de dar à luz quatro meninos, ela teve que abandonar esse sonho. Afinal, sua última gravidez, que resultou no caçula Massimo, causou complicações e levou-a a uma histerectomia.
Massimo, que tinha a mesma idade que eu, tornou-se meu parceiro de infância e companheiro. Lucrezia agarrou-se à ideia de que eu era a filha que ela sempre desejou, apelidando-me de "Bambolina", que em italiano significava "bonequinha". Para ela, eu era sua pequena bonequinha, a realização de um sonho adiado.
Essa relação me trouxe conforto e segurança durante muitos anos. Lucrezia me tratava como se eu fosse sua própria filha, e eu a via como uma mãe carinhosa. Ela me ensinou sobre a cultura italiana, como cozinhar pratos tradicionais da Calábria e até mesmo a como agarrar um marido a altura, tal qual ela fez com Don Salvatore.
No entanto, quando cheguei aos quinze anos, a vida nos prega peças cruéis. Lucrezia ficou gravemente doente, e os médicos não conseguiram descobrir a causa. Eu não saí do lado dela, a quem eu tinha abraçado como minha mãe. Passei noites sem dormir, cuidando dela e tentando entender o que estava acontecendo.
Um dia, quando a fragilidade de Lucrezia parecia atingir o ápice, ela me encarou com olhos cansados e expressou um arrependimento que me deixou perplexa. "Bambolina, eu me arrependo muito pelo seu destino."
Eu a olhei confusa, sentindo um nó se formar em minha garganta. "O que você quer dizer, mama?"
Lucrezia tentou sorrir, mas a fraqueza a dominou. Sua voz era apenas um sussurro. "Você merecia mais, querida. Mais do que essa vida."
Eu segurei sua mão com carinho, buscando entender suas palavras enigmáticas. Antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer com isso, Lucrezia fechou os olhos e sua respiração tornou-se lenta e irregular. Em poucos minutos, ela se foi, levando consigo a explicação para seu arrependimento.
Depois da morte de Lucrezia, minha vida tomou um novo rumo. Don Salvatore assumiu a responsabilidade por mim, e eu me tornei parte integral da família Mancuso. Ele me ensinou, junto com seus quatro filhos, tudo o que eu precisava saber sobre a máfia. A Ndrangheta tornou-se minha realidade, e eu aceitei meu destino como parte dessa organização criminosa.
Hoje, enquanto me preparava para meu 18º aniversário, refletia sobre minha jornada. Lucrezia ainda era uma lembrança carinhosa em meu coração, uma mãe que me amou e que eu amei profundamente. Sob sua orientação, me tornei uma peça fundamental da família, uma estrategista habilidosa e uma das figuras mais confiáveis de Don Salvatore.
Apesar de tudo, havia uma parte de mim que se sentia como uma estranha nesta casa, apesar de todos os anos que passei aqui. Ser aceita pelos Mancuso não era uma tarefa fácil, mesmo sendo uma "filha adotiva" do chefe da Ndrangheta, Don Salvatore Mancuso.
Hoje, no entanto, era um dia para celebrar minha jornada e conquistas. Vestindo um elegante vestido preto, refleti sobre como a Ndrangheta havia se tornado parte de quem eu era, mas também estava determinada a encontrar meu próprio caminho dentro da família. Não seria apenas uma protegida de Don Salvatore, mas uma líder por mérito próprio. Acompanhando-o, coloquei o colar de pérolas que ganhei de Lucrezia no meu aniversário de quinze anos. Era um presente especial, um dos muitos gestos carinhosos que ela teve para comigo durante os anos que compartilhamos juntas.
Ao sair do quarto e descer as escadas, senti a tensão no ar. A sala de jantar estava repleta de membros da família, todos vestidos impecavelmente, como era esperado em ocasiões como essa. Don Salvatore Mancuso estava à cabeceira da mesa, com um olhar severo, mas seus olhos revelavam um traço de orgulho. Junto com ele seus quatro filhos legítimos.
Massimo, o caçula, estava à esquerda do pai, e três cadeiras depois de Don Salvatore. Ele já havia feito dezoito anos e sua festa tinha sido memorável, um evento que ainda reverberava na memória de todos nós. Massimo era carismático e adorado por muitos, assim como seu pai.
Na cadeira à frente de Massimo estava Luca, o terceiro filho de Salvatore com Lucrezia. Com seus vinte anos muito bem vividos em festas e farras italianas, Luca era conhecido pela sua personalidade extrovertida e sua inclinação para o lado mais extravagante da vida.
Sentado do lado direito de Massimo, estava Matteo, o segundo filho do líder da família Mancuso. Com vinte e um anos, Matteo era responsável por todas as operações da família no Canadá, e sua reputação como um estrategista brilhante estava bem estabelecida.
E, claro, sentado à direita de Don Salvatore, estava Dante Mancuso, o primogênito e o próximo líder da família. Com seus 25 anos, Dante era um homem de presença imponente, seus olhos cor de mel lembravam Lucrezia, mas sua fisionomia fechada e seu jeito eram inegavelmente de Salvatore. Era o maior orgulho do mafioso, e todos esperavam que ele liderasse a família com sabedoria e firmeza no futuro.
No entanto, Dante não era apenas o primogênito da família Mancuso, ele era o meu maior rival. Desde a infância, ele sempre encontrava maneiras de deixar claro que eu não fazia parte da família de verdade. Ele foi quem me apelidou de "Bambi" quando éramos crianças, referindo-se ao filme "Bambi". Mas o apelido não era um diminutivo carinhoso, como Lucrezia costumava me chamar de "Bambolina". Para Dante, era uma maneira cruel de me lembrar que, assim como Bambi, eu havia perdido meus pais e que ele considerava isso uma fraqueza.
Então, gradualmente, todos os irmãos passaram a me chamar assim, reforçando a exclusão e a diferença entre nós. Eu era a intrusa na família, a menina que não pertencia ao círculo interno. Dante, em particular, sempre encontrava maneiras de me lembrar disso, tornando minha relação com ele tensa e hostil ao longo dos anos.
Enquanto me aproximava da mesa e ocupava o meu lugar, a cadeira a esquerda de Don Salvatore, o olhar de Dante se fixou em mim por um momento, e pude ver um leve sorriso sarcástico nos cantos de seus lábios. Ele sabia o impacto que suas palavras tinham sobre mim e parecia ter prazer em me lembrar de que eu era uma estranha na casa dos Mancuso.
Don Salvatore quebrou o silêncio, direcionando a mim, sério.
"Bambolina , minha querida, feliz aniversário!" Disse Don Salvatore, segurando meu rosto.
"Obrigada, Don Salvatore." Agradeci enquanto segurava a mão dele e beijava seu anel, afinal ele era o líder da família.
Ele se levantou, se aproximou e me deu um abraço afetuoso. Era um gesto que significava muito mais do que palavras poderiam expressar. Era um reconhecimento do vínculo que compartilhávamos, da jornada que percorremos juntos.
Massimo, o caçula e sempre carismático, foi o primeiro a quebrar o silêncio. Com um sorriso caloroso, ele disse: "Parabéns, Bambi. Espero que este seja o início de uma nova e emocionante jornada para você."
Eu sorri de volta para ele, agradecendo sinceramente. Massimo era gentil e simpático, um contraste marcante com o irmão mais velho, Dante.
Logo depois, foi a vez de Matteo oferecer seus parabéns. Ele era um homem de poucas palavras, mas seu olhar sério transmitia respeito.
Luca, com sua personalidade extrovertida, fez um brinde com uma taça de vinho, exclamando: "Aos dezoito anos de Bambi! Que você continue a nos surpreender com sua força e determinação."
Cada parabéns aquecia meu coração, mas todos nós sabíamos que o momento mais tenso estava por vir. Dante, o primogênito e próximo líder da família Mancuso, permaneceu em silêncio, seu rosto sombrio e seus olhos fixos em mim.
Don Salvatore olhou para o filho mais velho, uma expressão de expectativa em seu rosto, mas o silêncio de Dante chamou a atenção de seu pai, que o encarou com uma expressão séria. Don Salvatore não tolerava desrespeito ou insubordinação, mesmo de seu próprio filho.
"Vamos, Dante, cumprimente Catarina," disse Don Salvatore com firmeza.
No entanto, quando finalmente Dante quebrou o silêncio, suas palavras não foram de parabéns, mas de desdém. "Sei una bastarda", ele murmurou, encarando-me com desprezo.
O insulto cortante ecoou na sala, e todos se calaram, chocados com a falta de respeito de Dante em um momento tão importante. Sei una bastarda era um insulto que Don Salvatore jamais permitiria em sua casa. Ele bateu na mesa com força, seu olhar furioso fixado em seu filho.
"Peça desculpas, Dante," Don Salvatore ordenou com voz firme.
Dante, por sua vez, manteve seu olhar desafiador e recusou-se a se desculpar. "Não vou pedir desculpas a ela," ele respondeu teimosamente.
A tensão na sala era palpável, e eu podia sentir os olhares de todos sobre mim. Mas eu não me abalei. Afinal, eu sabia que aquele insulto era apenas um reflexo do ressentimento de Dante por não ter conseguido fechar o acordo com os Solncevskaja Bratva, ao qual eu havia contribuído.
Com calma, respondi: "Tudo bem, Don Salvatore. Eu não esperava menos de alguém como Dante. Acredito que a gagueira de ontem ainda não passou... Zdra... Zdra...vstv... Zdra...uite! "
Dante se levantou irritado da mesa e saiu da sala sem dizer uma palavra a mais. Don Salvatore suspirou, olhando para mim com uma mistura de preocupação e frustração.
"Em algum momento, Bambolina, essa briga entre você e Dante precisa acabar," ele disse, passando a mão pelo cabelo grisalho.
Eu concordei com um aceno de cabeça, não querendo estragar o dia com discussões familiares. Era um dia especial, afinal de contas. "Concordo plenamente, Don Salvatore o momento não é propício para discutir isso. Hoje deveria ser um dia de celebração."
Don Salvatore sorriu para mim e disse: "Sim, vamos desfrutar do seu aniversário. "
Assenti com seriedade. "Sim, Don Salvatore. Acredito que também é o momento de falarmos sobre a Toscana. Eu posso ser uma valiosa aliada na expansão de nossos negócios naquela região."
Minha solicitação de liderar as atividades da Ndrangheta na Toscana era ousada, mas eu estava determinada a mostrar que era digna desse desafio. Sim, normalmente esse território seria liderado pelo herdeiro, mas havia outros territórios tão importantes quanto para Dante liderar. E eu estava pronta para provar isso.
"Depois, conversaremos sobre o cargo que você pediu como presente de aniversário." Disse Don Salvatore se levantando. "Agora preciso ir e verificar se os preparativos do seu baile de máscaras estão bem encaminhados."
Eu não podia deixar de sentir a tensão ainda presente na sala. Mas por ora, eu estava pronta para escrever o meu próprio futuro na história da nossa família.
Depois do café da manhã, minha programação de aniversário de dezoito anos continuava, e a próxima atividade era a sessão de fotos em Vibo Valentia, que eu havia planejado cuidadosamente com antecedência. Federica, minha dama de companhia, sempre estava ao meu lado, acompanhando-me em todos os momentos.
Vestida com um elegante vestido branco, eu estava posando para as fotos na praia, enquanto o sol da manhã iluminava o cenário com um brilho dourado. A brisa do mar sussurrava suavemente e o fotógrafo trabalhava arduamente para capturar minha beleza e a transição de menina para mulher que esse dia simbolizava.
À medida que eu fazia poses, uma onda inesperada veio do mar e me atingiu, fazendo com que meu vestido branco molhasse e aderisse ao meu corpo. Por sorte, o tecido não se tornou totalmente transparente, mas a sensação de estar molhada e vulnerável adicionou um toque inesperado à sessão de fotos.
O fotógrafo, aproveitando a situação, disse que estava ótimo, pois as fotos refletiriam a ideia de que eu estava deixando de ser uma menina e me transformando em uma bela mulher, como se o mar tivesse me abraçado para celebrar essa transição.
Enquanto eu tentava manter a compostura e continuar com as poses, notei algo fora do comum do alto das paredes rochosas que cercavam a praia. Era a figura de Dante observando-me de uma distância segura.
Senti um arrepio percorrer minha espinha ao vê-lo lá em cima, seu olhar fixo em mim. Era uma expressão que eu nunca tinha visto em seu rosto antes, um misto de desejo e algo mais que não consegui identificar com precisão. Ele parecia diferente, mais sombrio e intenso do que o Dante que eu conhecia. Eu não sabia o que Dante estava fazendo ali, observando-me de maneira tão intensa. Não era comum ele se envolver nesse tipo de coisa, especialmente quando se tratava de mim.
Curiosa e ao mesmo tempo perturbada, virei-me para Federica e apontei na direção de Dante. "Federica, o que Dante está fazendo aqui?"
Federica se virou para onde eu estava apontando, mas quando seus olhos se encontraram com o local onde Dante deveria estar, não havia ninguém lá. Ela franziu a testa, preocupada, e depois olhou para mim com uma expressão de confusão.
"Catarina, não vejo ninguém lá em cima. Pode ser que o sol esteja afetando sua visão. Talvez você esteja alucinando."
Meus olhos se arregalaram de surpresa. Será que eu estava alucinando? Olhei de volta para as rochas, mas Dante havia desaparecido completamente. Era como se ele nunca estivesse estado lá.
Eu sabia o que tinha visto. Dante estava lá, eu tinha certeza disso. No entanto, eu também sabia que essa discussão não levaria a lugar nenhum, e Federica estava certa em encerrar a sessão de fotos, preocupada comigo.
Concordei com um aceno de cabeça e me afastei da água, de volta à segurança da praia. Enquanto o fotógrafo guardava sua câmera, eu não conseguia tirar a imagem de Dante da minha mente. Seja lá o que ele estava fazendo ali, aquela expressão em seu rosto me deixou balançada. E eu não tinha a menor ideia do que aquilo significava para o futuro da nossa complicada relação.
***
Após o estranho episódio na praia, retornei à mansão e fui direto para meu quarto, onde troquei meu vestido molhado por um conjunto de blusa, calça capri e salto alto. Afinal, ainda tinha um almoço agendado com as filhas das outras famílias da Ndrangheta. Era uma formalidade que atendia aos desejos da falecida Lucrezia, esposa de Don Salvatore.
Enquanto prendia meus cabelos em um rabo de cavalo, passei pela sala de luta, onde meus irmãos Massimo, Luca e Matteo estavam treinando entre si. A habilidade de defesa era algo que todos nós havíamos sido treinados desde crianças. Isso incluía também a mim, e eu me gabava por ser muito boa em Krav Maga, um sistema de defesa pessoal que ensinava que a melhor defesa era um ataque rápido e decisivo.
Eu ansiava por estar lá com eles, sentindo a adrenalina das lutas, mas tinha minhas obrigações. Às vezes, ser a única mulher da família tinha suas desvantagens. Eu já estava indo embora quando Massimo me chamou, sua voz carregada de curiosidade.
"Onde você vai, Catarina?" ele perguntou.
Eu respondi casualmente enquanto prendia meu cabelo. "Estou indo para o almoço com as outras meninas."
Massimo pareceu um pouco desapontado. "Que pena. Eu estava terminando de treinar com Matteo."
Eu sorri com desdém, provocando-o. "Matteo jamais será páreo para mim."
No mesmo instante, Matteo apareceu na sala, como se a menção de seu nome o tivesse convocado. Ele ergueu uma sobrancelha e retrucou: "Duvido muito disso, Catarina."
Não era de meu feitio recusar um desafio. Eu olhei para os três irmãos com confiança e disse, desafiadoramente, que era capaz de vencê-los no Krav Maga, mesmo usando salto alto.
Os três irmãos trocaram olhares e começaram a rir, como se achassem impossível que eu pudesse vencê-los juntos. Massimo, o mais extrovertido dos três, quebrou o silêncio.
"Você está falando sério, Catarina? Quer dizer que a pequena Bambi acha que pode derrotar os três de nós?"
Eu ergui um dedo, apontando para Massimo. "Primeiro, não me chame de Bambi. Segundo, sim, eu posso vencer todos vocês."
Matteo deu um passo à frente, confiante. "Vamos lá, então. Prove isso."
Sem perder tempo, nos posicionamos na sala de luta, e a luta começou. Salto alto e tudo. Eu estava determinada a mostrar que não deveria ser subestimada, e, com movimentos rápidos e precisos, comecei a enfrentar meus irmãos.
A luta foi intensa, e eu percebi que estava lidando com adversários formidáveis. Massimo era surpreendentemente rápido e forte, Luca era astuto e ágil, e Matteo tinha um conhecimento técnico sólido de Krav Maga. No entanto, eu não desisti.
Com cada movimento, eu me esforcei ao máximo, lembrando-me do treinamento rigoroso que Don Salvatore tinha me dado ao longo dos anos. Enquanto o suor escorria pelo meu rosto, eu percebi que estava começando a ganhar a vantagem. Um por um, meus irmãos foram derrotados.
No final, estávamos todos ofegantes e cansados. Eu estava de pé, triunfante, enquanto meus irmãos estavam no chão, reconhecendo minha vitória.
Massimo riu enquanto se levantava. "Você venceu, Catarina. Eu não esperava menos de você."
Luca se juntou a ele, balançando a cabeça com admiração. "Foi impressionante. Você é realmente boa."
Matteo, ainda se recuperando do combate, assentiu. "Você mostrou que é uma Mancuso de verdade, Catarina."
Enquanto eu retomava a minha pose, com a confiança renovada, sabia que aquele momento tinha sido mais do que apenas uma brincadeira. Tinha sido uma afirmação de meu lugar na família, uma demonstração de que eu era tão capaz quanto meus irmãos, mesmo que fossem maiores e mais fortes.
Entretanto, a alegria e o orgulho que eu sentia foram efêmeros, dissipando-se como uma nuvem de fumaça, quando uma voz grossa e ameaçadora ecoou na sala. "Você não é uma Mancuso, Bambi."
Eu me virei abruptamente e encontrei Dante parado na porta, observando a cena com um sorriso cínico no rosto.
Ele entrou no espaço e proferiu palavras que cortaram como facas afiadas. " Você é apenas uma Piromalli... Uma ninguém, uma bastarda. E sempre será assim."
Minha expressão se tornou uma máscara de raiva, e eu o encarei com determinação. "Retire o que disse, Dante."
Ele apenas sorriu de forma desdenhosa. "Não vou retirar nada, Bambi. Você é isso... uma bastarda. Uma bambi."
A provocação de Dante acendeu uma chama dentro de mim, uma chama que me impeliu a reivindicar meu lugar e minha honra. Eu me coloquei em posição de luta e desafiei-o, com os olhos faiscando de determinação. "Retire o que disse, Dante."
Ele riu, seu riso carregado de superioridade. "Você realmente acha que é páreo para mim no Krav Maga, Bambi?"
Um sorriso autoconfiante curvou meus lábios enquanto eu respondia. "Acabei de derrotar três Mancuso de uma vez. Tenho certeza de que você não fará nem cócegas."
Dante deu de ombros, como se estivesse entediado com a situação. "Não sou um homem que rola pelo chão para provar nada."
Eu o encarei, intrigada e cautelosa. "O que você quer, então?"
Dante olhou nos meus olhos e propôs um acordo. "Se eu vencer você, ficarei com a reunião dos Russos. Se você vencer, eu a deixarei em paz."
A proposta era inesperada, e eu hesitei por um momento antes de perguntar: "Só isso? É simples assim?"
Ele confirmou com um aceno de cabeça. "É simples assim."
Eu concordei, aceitando o desafio. Afinal, eu não tinha medo de enfrentar meu irmão adotivo, mesmo que fosse uma batalha física. Ele começou a tirar seu terno, revelando seu abdômen definido e musculoso, e por algum motivo, aquela visão mexeu comigo de maneira inesperada.
Eu sabia que estava prestes a embarcar em um confronto que não seria apenas físico, mas também uma batalha pela honra e pelo respeito dentro da família Mancuso. E eu estava determinada a vencer, não importasse o custo.