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PROIBIDO TE AMAR

PROIBIDO TE AMAR

Autor:: RENATA PANTOZO
Gênero: Romance
Me chamo Luísa, estou casada com Fabrício há quase quatro anos, sou arquiteta e trabalho com a minha melhor amiga Marcele. Sou completamente apaixonada, louca e desejo um homem que não posso ter, que nunca será meu. Não por ele ser o melhor amigo do meu marido, mas por ser marido da minha melhor amiga. Estou proibida de amar o Danilo.

Capítulo 1 PRÓLOGO

NARRAÇÃO LUÍSA

Termino o projeto da casa de Marcele e Danilo. Basta salvar o arquivo e a porta se abre com uma sorridente e elétrica cunhada, melhor amiga e esposa do homem que amo em segredo. Marcele entra na minha sala sem esperar minha permissão e bate a porta, fechando-a. Anda em direção ao sofá e se joga nele, colocando suas botas sujas no couro limpinho.

- Qual a razão de tamanha felicidade?

- Danilo...

Fala em um suspiro e meu coração acelera suas batidas, fazendo meu peito doer. Durante esses dois anos que Marcele está com Danilo, venho ouvindo o quanto é perfeito e a faz feliz. Deveria ficar contente, certo? Mas o maior sentimento que tenho é culpa. Culpa por desejar seu lugar. Por desejar ser eu amada do jeito que ela é.

- Reservou o terraço de um dos restaurantes mais incríveis do Rio de Janeiro para comemorarmos nossos dois anos juntos.

- Dois anos já?

Pergunto escondendo o fato de que sei muito bem há quanto tempo estão juntos.

- Sim! Dois anos de casados e felizes.

Olha para mim e suspira batendo seus cílios.

- Ainda me lembro do sermão que me deu quando disse que me casaria com ele.

Quase surtei quando ela disse para sua família e para mim, que se casaria com um namorado de apenas dois meses. Ainda não conhecíamos Danilo. Ela o encontrou em uma viagem que fazia pela Itália e voltou noiva.

- Não sabíamos que ele era bom para você. Ainda não conhecíamos.

Já estava casada com Fabrício quando Marcele conheceu Danilo. Mês que vem completamos quatro anos de casados. Não estamos no auge do nosso amor. A verdade é que há dois anos tudo mudou. Há dois anos meu coração foi roubado e não pertence mais a Fabrício.

- Preciso ir pra casa tomar um belo banho e ficar linda, cheirosa para o meu marido. Só passei aqui para avisar que a obra na casa dos Almeida foi finalmente finalizada. Já pode ir fazer sua mágica e dar vida ao meu trabalho.

Marcele é engenheira e sou arquiteta. Fizemos faculdade juntas e foi assim que conheci Fabrício, seu irmão. Nos formamos, montamos nossa empresa e me casei com seu irmão.

- Agora vou embora! Vê se aproveita e sai mais cedo para namorar meu irmão.

Dou um sorriso sem graça e ela sai do sofá em um salto, vindo correndo até mim e me abraça.

- Está na hora de me dar um sobrinho.

Me aperta forte e não há qualquer possibilidade de dar um sobrinho a ela, tendo um casamento de amigos. Faz tempo que meu casamento não tem a parte da consumação. Tanto Fabrício quanto eu, nos tornamos mais amigos que amantes. Talvez ainda esteja casada com ele por saber que não terei quem eu quero. Comodismo seria uma resposta.

- Vou indo!

Marcele beija minha cabeça e sai correndo da minha sala, me deixando sozinha com meu trabalho e meus pensamentos. Não quero pensar nele a tocando, amando e tudo que eu desejo que faça comigo. Me enfio no trabalho para afastar minha cabeça de Danilo e Marcele.

**************

Já são 20h e está na hora de ir pra casa. Pego meu celular e vejo uma mensagem de Fabrício.

De: Fabrício

Para: Luísa

Estou saindo com alguns amigos do trabalho para beber. Tentei te ligar, mas não atendeu. Me ligue assim que ler está mensagem. Beijos! Te amo!

Saio da mensagem e percebo que tem duas chamadas não atendidas. Uma de Fabrício e outra de Danilo. Sinto um arrepio pelo meu corpo ao pensar em ouvir sua voz. O que será que deseja falar comigo. Antes de ligar para Fabrício, ligo para Danilo. Meus dedos batem na mesa e espero ansiosa para ouvir sua voz.

- Luísa!

Fecho meus olhos e tento controlar minha respiração.

- Me ligou?

- Sim!

Ri e amo o som rouco de sua risada.

- Te liguei há mais ou menos três horas atrás.

- Desculpa! Estava enfiada em um projeto.

- Espero que seja o da minha casa. Marcele me disse que só faltava a sua parte agora, que a construção havia terminado.

- Terminei o projeto de vocês hoje, mas não era ele que me roubava à atenção.

- Quando podemos olhar o projeto?

- Pensei em irmos até a obra para ver se está tudo certo mesmo e mostrar o projeto lá. Falo com Marcele para ver um dia.

Escuto a risada da minha amiga e cunhada de fundo e tento não sentir o que estou sentindo agora. Engulo o incomodo.

- Por que me ligou?

- Era para me ajudar a escolher o presente da Marcele. Estava em dúvida e ninguém melhor que você para me ajudar.

- Eu amei meu presente. Nem precisava de você. Danilo acertou tudo.

Marcele grita de fundo.

- O que deu a ela?

- Uma corrente de ouro com nossas iniciais.

- Um lindo presente.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Por que fui me apaixonar por você?

- Vou deixar vocês comemorarem em paz.

- Boa noite, Luísa!

- Boa noite, Danilo!

Desligo o telefone e tendo não chorar. Ligo para Fabrício e cai na caixa postal. Decido deixá-lo beber em paz.

************

Já são 03h da manhã e nada do Fabrício chegar. Estou preocupada com ele sem me dar notícias. Em compensação já recebi mais de dez fotos de Marcele apaixonada com Danilo. Não tive coragem de abrir nenhuma foto. Não tenho estomago para isso. A porta do apartamento se abre e Fabrício entra cambaleando. Está bêbado e não se aguenta em pé. Sorri ao me ver e fecha a porta.

- Minha doce, Luísa!

Força os olhos para me focar e vem em zig zag até mim. Me assusto quando segura meu rosto e avança em minha boca. Seu beijo é desesperado e choca várias vezes nossos dentes.

- Fabrício!

O empurro um pouco para afastar sua boca da minha.

- Está bêbado!

Tento não parecer incomodada com o beijo.

- Estou feliz!

Abre um enorme sorriso que há muito tempo não o vejo. Levo outro susto ao vê-lo cair de joelhos e agarrar minha cintura, enfiando o rosto em minha barriga.

- Eu te amo!

Sua voz é de choro.

- Não quero que me deixe, que esse casamento acabe.

Ergue o rosto e o vejo chorar.

- Nós podemos arrumar o que está errado e você pode voltar a me amar.

Passo a mão em seu rosto e sinto minhas lágrimas caírem.

- Sei que deixou de me amar. Sinto isso.

Não sei o que responder. Sim... já não o amo mais. Mas seria impossível voltar a amá-lo quando meu coração pertence a outro.

- Um filho! Vamos ter um filho! Me de um filho, Luísa!

Capítulo 2 -1

NARRAÇÃO LUÍSA

Termino de colocar a mesa para o café e não consigo pensar em nada a não ser nas palavras do Fabrício ontem. Um filho! Ele quer um filho comigo e eu achando que nosso casamento havia acabado. Ele ainda me ama, mesmo tão distante. Sento em uma das cadeiras e encho minha xícara com café. Encaro o líquido escuro e tento de alguma forma entender o que sinto. A única coisa que sinto é que eu desejaria que fosse outra pessoa aos meus pés, dizendo que me ama e que quer um filho comigo. Não teria pensado duas vezes ao dizer sim, se fosse Danilo ali.

- Bom dia!

Fabrício aparece todo amassado na cozinha e vem até mim. Beija minha cabeça de forma demorada como faz todos os dias e senta ao meu lado. Bem! Aparentemente ele não se lembra sobre ontem à noite.

- Minha cabeça parece que vai explodir.

- Deixei perto da sua xícara um remédio pra dor de cabeça e outro pra ressaca.

- É por isso que te amo!

Se aproxima e cheira meu pescoço, deixando um beijo antes de se afastar.

- Me lembre de nunca mais sair com o pessoal do trabalho.

- Foi divertido pelo menos?

- Sim! Mas a dor de cabeça de agora não compensa.

- Deveria ter bebido menos. O problema não foi sair com seus amigos. A merda é que bebeu mais do que devia.

- Precisava beber.

Estamos nos olhando e ele suspira.

- Não estava bêbado o suficiente para esquecer o que te disse ontem à noite.

Ergue a mão e toca meu rosto, acariciando minha bochecha.

- Eu te amo!

- O que aconteceu ontem para descobrir agora que ainda me ama?

- Nada! Nunca deixei de te amar. Você que se afastou e me esqueceu. Não sei o que fiz de errado, mas faz tempo que você não me olha mais do mesmo jeito e não sorri para mim, feliz por estar ao meu lado.

Aproxima o rosto e cola sua testa na minha, fechando os olhos.

- Não sei o que fiz de errado, mas estou disposto a mudar se for eu o problema. Não quero te perder.

A vontade de chorar cresce em meu peito, mas me mantenho firme. Não foi ele que mudou, fui eu. Na verdade meu coração mudou e não pertence mais a ele.

- Quero reconquistá-la!

Abre os olhos e tem um lindo sorriso. Fabrício nunca foi um péssimo marido. Nós nunca tivemos discussões intensas, nunca brigamos por coisas banais. Sempre tivemos um casamento calmo e isso pode ter sido nosso erro.

- Quero um filho com você!

- Filhos não arrumam casamento.

- Eu sei!

Diz me dando um beijo delicado nos lábios.

- Mas quando voltar a me amar, vamos ter um bebê?

- Fabrício...

Me cala com seu dedo.

- Só estou te pedindo uma chance de não te perder.

Meu celular começa a tocar e imagino que seja José, nosso mestre de obras. Marquei com ele de ver uma obra finalizada, antes de começar a minha parte de fato no projeto.

- Preciso atender!

- Tudo bem!

Levanto e vou até meu celular sobre o balcão. O nome do José pisca na tela.

- Oi!

- Luísa, vou me atrasar um pouco!

- Não tem problema.

- Tive um imprevisto com o carro, mas já resolvi. A merda é que atrasarei um pouco.

- Estarei te esperando.

- Valeu!

- Tchau!

Desligo e percebo que Fabrício me observa. Tenho mais tempo com ele, mas não quero ficar aqui e ouvir dizer que me quer. Que resposta posso dar? Amo seu cunhado e não existe chance no momento de deixar de amá-lo. Talvez deva dar uma chance para esse casamento.

- Preciso ir! Já estão me esperando.

- Tudo bem! Conversamos mais no jantar.

Vou até ele e quando me curvo para apenas um beijo breve, ele segura meu rosto e me beija de verdade. Seus lábios estão intensos, mas não sinto nada. Tento devolver o beijo, mas sei que não consigo muito. Me afasta e olha fundo em meus olhos.

- Vou te reconquistar!

Me beija de novo, mas agora é mais rápido.

- Agora vai!

Saio da cozinha rumo ao nosso quarto me trocar.

************

Termino de olhar alguns projetos e meu estômago ronca. Já são quase quatro horas da tarde e ainda não almocei.

- Luísa!

Marcele surge na porta da minha sala.

- Oi!

Ela vem toda sorridente na minha direção e senta a bunda nos meus projetos.

- Vai estragar minhas coisas. Senta na cadeira ou no sofá.

- Chata!

Resmunga e sai da mesa, indo para o sofá. Se joga nele, ficando deitada e parece radiante.

- O que veio fazer aqui?

- Nada! Apenas terminei minhas coisas e decidi andar por ai.

- Vai pra casa, já que terminou tudo.

- Danilo vem me buscar, estou sem carro.

- O que houve com seu carro?

Abre um enorme sorriso.

- Quer mesmo saber?

- Não!

Respondo rápido e encaro o papel em minha mão. Não quero saber o que ela fez com o Danilo. É tortura demais.

- Danilo me pediu para ver com você quando será a visita em nossa casa.

- Estou livre hoje.

- Depois das 19h?

- Por mim tudo bem!

- Vou mandar mensagem pra ele. Quer ir no nosso carro e depois te deixamos aqui?

- Não! Vou com meu carro e de lá vou pra casa.

- Você quem sabe!

Pega o celular e começa a digitar. Para e espera uma resposta, acho. Seu celular apita e pelo seu sorriso, é a resposta dele. Eles são felizes. Muito felizes eu diria. Deus! Como eu posso desejar infelicidade no casamento da minha melhor amiga? Como posso amar o marido dela? A culpa é da Marcele que me fez sonhar com o Danilo em cada coisa que me contou dele nesses últimos tempos. Ele é gentil, amável, carinhoso, bom de cama e lindo. Incrivelmente lindo!

- Ele disse que tudo bem!

- Certo! Agora vai embora e me deixa terminar o trabalho.

- Te amo!

Grita ao se levantar.

- Também te amo!

***********

Paro o carro em uma das vagas na garagem coberta. Parece que Marcele e Danilo ainda não chegaram. A secretária da Marcele me disse que ela saiu cedo do escritório, mas não com o Danilo. Pego minha pasta e saio do carro. A garagem é uma das coisas que não preciso fazer nada. Diferente da casa principal e da estufa em frente ao lago. Entro na casa e decido arrumar tudo para esperá-los. No meio da vasta sala vazia tem uma mesa. Acomodo os projetos de cada parte da casa sobre a mesa. Prendo meu cabelo em um coque e vejo se está faltando algo. Procuro pelo meu estojo, caso eles queiram fazer alguma alteração e eu precise mudar. Ele não está na pasta e espero não ter esquecido na minha sala. Preciso ver se caiu no meu carro.

- Luísa!

Sua voz faz meu corpo todo arrepiar e minha mente perder o rumo. Ergo minha cabeça e ele está na porta, encostado nela com um sorriso lindo. Está sorrindo de mim e não para mim. Olho em volta e não vejo Marcele.

- Marcele?

É a única coisa que sai da minha boca e mesmo assim as palavras saem tremulas, como se eu fosse uma idiota apaixonada, com vergonha. De certa forma sou!

- Ela se rendeu as compras com a mãe dela e esqueceu da gente. Disse para me mostrar o que fez e que confia em você.

- Típico da Marcele se perder em compras.

Comento irônica e ele ri. O som mais lindo que já ouvi.

- O que tem pra mim?

Pergunta se aproximando e quero responder todo meu amor, mas decido apenas sorrir e aponto para os papéis. Danilo para ao meu lado, ficando próximo. Muito próximo eu diria e está focado nos papéis. Enquanto eu estou focada em seu cheiro delicioso.

- Aqui é a cozinha?

Pergunta se inclinando para mostrar o que viu e seu corpo toca o meu, me causando um arrepio na coluna. Fecho meus olhos e tento não suspirar.

- Sim!

Respondo suavemente e abro meus olhos. Um par de olhos cor de amendôas me encaram.

- Você está bem? Parece estranha.

- Estou bem! Só um dia cansativo.

- Entendo!

Sua mão toca meu braço e acaricia suavemente.

- Devia tirar umas férias da Marcele.

Comenta com humor e nós dois rimos.

- Tentadora essa idéia.

- Sabe o que acabo de perceber?

Pergunta e nego com a cabeça.

- Nunca ficamos sozinho assim, sempre estamos com nossos pares.

- Deve ser porque só nos conhecemos por causa deles, é nosso elo de ligação.

Cruza os braços e faz um lindo olhar pensativo. Algumas rugas se formam no meio de sua testa e quero beijá-las.

- Percebi que não conheço nada sobre você. Marcele é sua melhor amiga, mas não me conta nada sobre seus gostos e personalidade. Sempre sou eu que te ligo pra pedir ajuda e você nunca me ligou.

- Apesar de ser amigo do Fabrício, não acho que saiba mais sobre ele do que eu. Diferente de você com a Marcele, onde eu sei mais do que o próprio marido.

- Isso me machucou!

Diz rindo.

- Desculpa, mas é verdade!

- Eu sei!

Ergue as mãos se rendendo.

- Mas eu conheço o Fabrício, a minha mulher e não conheço você. Está sempre calada, sorriso tímido e nunca sei o que pensa.

- Meus pensamentos só cabem a mim.

Dou de ombros, pois não seria nada legal dizer que meus pensamentos são todos com ele.

- Seria justo que eu conheça melhor a amiga da minha mulher e esposa do meu amigo.

- Acho melhor não.

Volto a olhar para as coisas.

- Estou tentando te roubar como minha aliada nas brigas da família, mas pelo jeito, não me quer como amigo.

- Quero!

Respondo rápido e viro pra ele.

- Só não sou boa como fazer amigos.

Dou de ombros e ele estica a mão pra mim.

- Amigos?

Pego sua mão.

- Amigos!

- Agora para de se esconder de mim. Me mostre a verdadeira Luísa.

Capítulo 3 -2

NARRAÇÃO LUÍSA

- O que?

- Tenho a sensação que sempre se priva dos pensamentos, do que gosta, por causa da Marcele e do Fabrício.

- Não!

Digo nervosa e tento me lembrar se faço isso.

- Você nunca contraria ninguém! Qualquer coisa que é dita, você só sorri e parece ignorar que às vezes é uma bosta o que falaram.

- Melhor ignorar que perder tempo com Marcele e Fabrício, tentando fazê-los entender que o que querem não vai dar certo. Eles são teimosos e chatos demais em alguns momentos.

E algumas vezes eu não faço idéia do que falaram, porque fiquei atenta a você, Danilo. Quantas vezes me peguei sorrindo para ele, alheia a quem estava a minha volta.

- Luísa!

Sua mão segura meu braço e seus olhos estão nos meus.

- É por não dizer nada que eles acham que podem tudo. Marcele é extremamente mimada e egoísta. Isso às vezes é uma merda.

- Eu sei!

Reviro meus olhos e ele sorri. Merda de sorriso que faz o ar sumir de meus pulmões e meus pés perderem o chão.

- E mesmo assim faz tudo que ela quer?

- A verdade é que ela acha que faço tudo do jeito dela, quando na verdade sai tudo do meu jeito.

Faz cara de que não entendeu e quero beijá-lo. Beijá-lo todinho agora.

- Ela da a idéia, que as vezes é uma merda. Sei que debater é me desgastar a toa. Finjo que gostei, faço do meu jeito e no fim ela nem lembra o que tinha falado e ama como ficou.

- Isso pode funcionar pra você, mas pro nosso casamento não.

- Então o problema é com vocês. Se vira com o terremoto que casou.

Ele ri e solta meu braço.

- Você tem humor e aparentemente uma calma invejável. Viu só tudo que descobri sobre você em cinco minutos de amizade? Coisas que eu nunca soube em dois anos na família.

- Você mesmo disse que nunca tivemos esse tempo a sós. Também não sei muito sobre você. A não ser o que Marcele me conta.

E tudo que ouvi da boca dela, me fez te amar. Amar como eu nunca amei Fabrício ou qualquer outro homem. Como posso amar alguém dessa forma, que nunca me tocou?

- Precisamos mudar isso. Fique aqui!

Sai do espaço onde estamos e vai para fora. Escuto o som do alarme do seu carro e em pouco tempo está de volta. Segura uma garrafa de vinho na mão.

- Ganhei hoje de um cliente.

Se aproxima e vejo que é um espumante.

- Vamos comemorar essa amizade.

- Achei que iríamos ver como vai ficar sua casa.

- Podemos fazer as duas coisas.

Explode a rolha do espumante e incrivelmente não derrama uma gota.

- Tem problema em dividir a boca da garrafa comigo?

- Acho que não.

Será o mais próximo de sua boca que chegarei e isso já me alegra.

- Primeiro as damas.

Me passa a garrafa e a seguro.

- Vira!

- Calma! Estou vendo se isso é bom. Se for ruim eu viro só um pouco e uma vez só.

- Entende de vinho?

- Sim! Sou apaixonada e normalmente é a única coisa que bebo.

- Você quem escolhe os vinhos das festas da família?

- Sim! A mãe do Fabrício me liga pedindo ajuda.

- Bom saber! Pedirei sua ajuda também, quando precisar.

Pisca pra mim e minhas pernas tremem. Caramba! Respiro fundo e decido virar a garrafa na boca, sem nem ver nada e beber um belo gole pra aguentar ficar perto dele.

- Me deixa um pouco!

Ele brinca e tiro a garrafa da minha boca.

- Desculpa!

- Imagino que seja um vinho bom.

- Espumante de média qualidade. Seu cliente ou não gostou muito do que fez ou não tinha dinheiro para um melhor.

- Nas condições que ele se encontra, me dar um mediano é sinal que gastou mais do que devia.

Vira a garrafa na boca e fico apenas admirando a cena, como uma adolescente boba vendo seu amor platônico.

- É gostoso.

Fala com os lábios molhados e quero beijá-lo muito e sentir o sabor do espumante em sua boca.

- Por que seu cliente te deu isso?

Pergunto tentando esquecer sua boca tentadora.

- Em três meses o ajudando a não perder a empresa, esse foi o primeiro mês em que lhe sobrou algo.

- Nossa!

- Sobrou o suficiente para comprar um vinho mediano.

Fala rindo e me pego rindo com ele.

- Então esse vinho é muito valioso.

- Sim.

Pego de sua mão e dou outro gole.

- Espero que passe por essa situação difícil logo.

Digo devolvendo a garrafa.

- Eu também!

Danilo é contador em uma empresa grande do Rio de Janeiro. Seus olhos encaram a garrafa e solta um longo ar.

- Às vezes me sinto sozinho!

Confessa de cabeça baixa.

- Por que?

Olha pra mim e tem um sorriso de canto de boca.

- Larguei tudo pela Marcele. Realmente deixei minha vida por ela. Vim de Minas Gerais para viver esse amor.

Meu coração acelera. Ele faria qualquer coisa por Marcele e isso me quebra por dentro. Como posso desejar tê-lo pra mim, quando ele ama e é amado? Que egoísta eu seria em desejar esse homem pra mim, sendo ele já feliz!?!?

- Recomecei em um novo emprego. Refiz minha vida ao lado dela, mas...

- O que foi?

- Sinto falta às vezes da minha família e dos meus amigos.

Oh Deus! Ele faz olhinhos tristes e tento me segurar para não abraçá-lo e apertá-lo forte contra o meu corpo.

- Fabrício é um cara legal, mas não é um bom amigo. Ele e Marcele são...

- Egoístas na amizade.

Completo e ele confirma com a cabeça.

- Querem que a gente escute tudo sobre eles, mas quando é nossa vez de desabafar, eles não possuem paciência para ouvir.

- Exato! Sinto falta de alguém que me escute, que me dê conselhos e broncas quando for preciso.

Coloca a garrafa de vinho sobre a mesinha e estamos nos encarando.

- Marcele sempre te elogia nessa parte. Diz que você é uma ótima amiga e confidente.

Dá um passo em minha direção e prendo o ar por segundos.

- Pensei que talvez...

Dá de ombros e parece sem graça.

- Eu pudesse ser uma boa ouvinte pra você.

Digo em um sussurro.

- Sim...

- Mas não quero ser apenas o que fala. Pode contar comigo quando quiser desabafar. Sou bom ouvinte.

Sua mão toca a minha sobre a mesinha.

- Sou boa ouvinte, mas não uma boa narradora.

Confesso e ele sorri.

- Pode aprender comigo.

- Talvez...

Sou surpreendida por um abraço forte. Meu nariz está em seu pescoço, enterrado em sua pele e posso sentir seu cheiro. Céus! Isso é tão divino.

- Obrigado!

Agradece e o calor de sua boca na minha pele me faz arrepiar toda.

- Não precisa agradecer. Quando precisar de uma amiga, é só me chamar.

Me solta de seu abraço e sinto um vazio. Danilo segura meu rosto em suas mãos e beija minha testa de forma carinhosa.

- Prometo que não serei muito chato com meus desabafos.

Fala ao soltar meu rosto.

- Prometo que se for chato, dormirei como forma de protesto.

Ele ri e sua mão bate no espumante, derrubando sobre o meu projeto.

- Ai caralho!

Diz tentando conter o líquido que estraga tudo.

- Tudo bem!

Seguro seu braço e tiro sua mão da sujeira.

- Não tem como salvar isso mais.

- Ferrei seu trabalho!

- Não ferrou! Apenas não tenho mais como mostrar, mas posso contar como estava, enquanto andamos pela casa. Vem!

Com uma coragem estranha, pego sua mão e o arrasto para mostrar como pensei cada ambiente.

Mostro a sala e indico tudo em cada pequeno detalhe. Passo pela cozinha e sala de jantar. O escritório dos dois que imaginei fazer de forma compartilhada o espaço. Subimos a escada e ele não questionou ou disse qualquer coisa até agora. Mostro o quarto de hospedes, a vista dele para a área onde vai ficar o descampado. Mostro o quarto do casal e com cada pequeno detalhe foi pensando para manter a individualidade do casal.

- No fim do corredor tem mais dois quartos. Marcele os chama de quartos extras, mas eu os chamo de quarto das crianças.

Abro a primeira porta.

- Esse eu imaginei em tons claros, caso vocês tenham uma menina. Vou pedir para fazerem uma pequena bancada embaixo dessa janela, para que seja usada como banco ou sofá para quando ela sentar para ver essa linda vista.

Paramos em frente à janela e a vista mesmo na escuridão é linda. A lua ilumina o canto do pequeno lago. Sinto ele atrás de mim.

- Marcele não quer filhos.

Viro e o vejo com o olhar triste para a janela. Ela nunca me disse isso.

- Ela não quer?

Olha pra mim e move a cabeça de forma negativa.

- Essa é nossa maior discussão no momento. Sou louco pra ser pai.

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