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Pacto com a Máfia

Pacto com a Máfia

Autor:: J.C. Rodrigues Alves
Gênero: Romance
Isabella, uma jovem comum, tem sua vida completamente transformada em uma única noite. Ao encontrar Lorenzo, um homem misterioso ferido em um beco escuro, ela decide ajudá-lo, sem saber que esse ato de bondade a levará por um caminho perigoso e desconhecido. Lorenzo, por sua vez, é muito mais do que parece. Ele é um membro importante da máfia local que se vê encurralado e fugindo de seu destino inevitável. A ação de Isadora para ajudá-lo desencadeia uma série de eventos que a colocam no centro de uma trama sombria. Conforme ela se envolve cada vez mais com Lorenzo, ela se torna vulnerável aos segredos e perigos do mundo do crime organizado. O coração de Isadora e sua segurança estão em jogo quando ela se apaixona por Lorenzo sem saber a verdadeira extensão de sua vida dupla. A turba percebe a importância de Isabella para Lorenzo e, sem hesitar, a usa como peão em um jogo perigoso para forçá-lo a ocupar o lugar dela na hierarquia. Isadora se vê presa em um dilema angustiante: lutar por sua própria liberdade e proteção ou ficar ao lado de Lorenzo, arriscando tudo o que tem.

Capítulo 1 1

O frio passava facilmente pela lã do meu casaco. E simplesmente já era algo que estava esperando, graças as baixas temperaturas que estava fazendo nos últimos dias. Mas como me considerava um ser humano teimoso, estava pagando para ver.

Naquele horário, não havia muitas pessoas nas ruas, pelo contrário, eram poucas que assim como eu, estavam tentando chegar em seus destinos para fugir do frio.

Faltava dois quarteirões para chegar em casa, estreito ainda mais meus braços ao meu redor, ouvindo os saltos da bota contra a calçada. Entretanto, é ao passar por um beco que meus passos diminuem drasticamente.

Meus olhos se movem pela calçada vazia, enquanto meu cérebro tenta decifrar se o que havia escutado era algo da minha mente ou realmente eu ouvi alguma coisa.

Quando estava prestes a continuar a andar, ouço novamente o mesmo som: um gemido baixo, sufocado, de dor. Vindo daquele beco.

Engulo em seco, olhando fixamente para a escuridão no interior do beco estreito, lembrando com clareza e exatidão das palavras que meu pai sempre usou com frequência quando eu era criança. "Existem pessoas maldosas, que usa todo o tipo de artimanhas para que caia em suas armadilhas".

Poderia estar diante de uma armadilha. E tudo indicava que sim. Então por que continuava ali ainda parada? Devia ser por causa do meu lado solidário, que acreditava que alguém ali estava mesmo precisando de ajuda.

Sendo contra a todos meus princípios, começo a andar para dentro do beco, forçando meus olhos a se acostumarem com a pouca luz que diminuía gradativamente. Meus passos eram receosos, hesitantes, tentando demonstrar o nervosismo que estava sentindo.

- Olá! - digo com a voz trêmula, respirando pela boca, meus olhos vagando pelo escuro, acabando por me sentir um idiota por achar que poderia enxergar no escuro, sem a ajuda do meu celular que estava em algum lugar dentro da minha bolsa.

Demora apenas alguns segundos para me dar conta, que talvez tivesse me enganado ou havia caído em uma pegadinha da minha mente cansada.

Giro meu corpo na direção da luz, dando apenas dois passos, quando sinto uma mão forte no meu calcanhar.

Um grito fica preso na minha garganta, quando lembro que a pior decisão naquele momento, seria gritar. Minha respiração sai entre cortada e meus olhos se fixam na rua não muito longe, o que me faz só me imaginar correndo naquela direção, acabando por ficar ainda mais vunerável.

Olho para baixo, esperando ver ali quem ainda segurava meu tornozelo, mas o que vejo é apenas um contorno de um corpo.

-... me ajuda - A voz masculina soa quase num sussurro - Por favor - Me afasto bruscamente, inconsciente, com o alerta vermelho ligando automáticamente em minha cabeça. Dando alguns passos para trás, quando não sinto mais sua mão meu meu tornozelo - Eu tenho dinheiro - diz elevando a voz de repente, o que me faz olhar em sua direção.

- E por que acha que vou aceitar, com você dizendo isso?! - Minha voz soa enfurecida, para meu espanto, me fazendo esquecer de onde estava e ainda por cima com um desconhecido.

- Só quero que me ajude.

- Então deveria procurar ajuda de quem possa ajudar - Giro meu corpo dando mais alguns passos, mal conseguindo chegar até a claridade.

- Estou sangrando! E acho que... - Ele se detém por um instante - estou perdendo muito sangue - De onde estava, conseguia o ouvir respirar com dificuldade - Se não me ajudar, irei morrer - Inspirando profundamente e prendendo o ar, olho por cima do ombro, dessa vez conseguindo ver o contorno do seu corpo num canto do beco.

Espero não me arrepender, penso, andando novamente em sua direção, concluindo que não conseguiria dormir, sabendo que uma pessoa havia morrido por minha causa, por eu não ter prestado socorro. Me ajoelho em sua frente, procurando meu celular às cegas dentro da minha bolsa, ligando a lanterna do celular, me vendo surpreendida pela quantidade de sangue que ali havia.

Havia uma poça irregular no chão e a medida que subia o pequeno facho de luz, notava que a camiseta social escura que ele vestia, estava completamente ensopada pelo líquido viçoso, que apesar dele estar fazendo uma certa pressão, continuava a sair.

- Você não é médica, não é? - Sua pergunta faz com que eu o olhe no mesmo instante, notando que seus olhos eram castanhos-claros, rodeado por cílios espessos e grossos. Um olhar penetrante e que transpassava confiança. Além de parecer ser bem mais velho que eu.

- Lidar com sangue nunca foi minha prioridade - digo tentando decifrar o grau da situação - Mas por sorte sei lidar com pequenos ferimentos - Ergo o olhar, notando o olhar dele em mim, fixo - Você precisa de um hospital, já perdeu uma quantidade de sangue significativa - Não precisava ser médica para perceber isso, havia muito sangue ali.

- Não posso ir para um hospital - diz ele, ainda respirando com dificuldade.

Tal frase faz com que eu avalie novamente a situação no geral. Estava diante de um homem ferido, talvez por um tiro ou até mesmo uma faca, que estava se negando a ir para um hospital, o que claramente para mim significava que...

- Você faz parte de uma gangue - digo com toda convicção - Estou certa? - Ergo uma sobrancelha, esperando sua resposta.

Ele respira pesadamente, se movendo com dificuldade.

- Vai me ajudar... ou fazer perguntas? - Inclino a cabeça para o lado, olhando com atenção seus olhos esbranguiçado, assim como sua face.

- Só estou querendo saber se irei me meter em problemas, se ajudar você - Não conhecia as gangues que dominavam o bairro, mas sabia que assim como muitas que existiam, que tudo era baseado em território e principalmente rivalidade. Além do mais, meu pai não iria gostar nem um pouco de saber que havia um deles dentro de casa.

- Tem a minha palavra que não - diz ele sério.

Um breve silêncio se instala e por alguns segundos, percebi que poucos carros passaram na rua logo em frente, diferente de pessoas.

- Apoie seu braço no meu pescoço - digo levantando de repente, sem ainda saber se era uma boa ideia o que estava prestes a fazer.

Claro que não era! Concluí que havia perdido completamente o juízo, se dissesse que era uma boa ideia. Entretanto, uma vida estava em jogo e não deveria julgar, mesmo sabendo que meu pai pensaria muito bem antes de tomar uma decisão e que com certeza, optaria por não ajudar.

Ele geme novamente de dor, tentando reprimir a dor, que deveria ser horrível.

- Tudo bem? - Ele estava perto o suficiente, para que sentisse seu perfume másculo impregnar por completo minhas narinas e se apoderassem do meu interior.

Seu braço era mais pesado do que pensei e se não tivesse um certo preparamento físico, não iria o aguentar por muito tempo.

A outra mão continuava pressionando o ferimento, enquanto se mantinha atento a movimentação ao nosso redor.

- Queria dizer que sim - diz respirando pela boca - Mais não estou numa posição muito boa - Damos mais alguns passos em silêncio, enquanto percebo que a minha pergunta não havia sido muito apropriada - Quanto ainda terei que andar? - Nos olhamos, até que eu quebro o contato, olhando para frente.

- Um quarteirão - digo calculando pelos nossos passos, traçando um plano mentalmente de como esconderia uma pessoa dentro de casa, sem que meu pai nem ao mesmo suspeitasse.

Não era uma tarefa difícil, só precisava ser inteligente o suficiente para não deixar que ele percebesse.

Continuamos a andar o mais rápido que o corpo dele permitia, conseguindo uma vez ou outra, atrair olhares de curiosos em nossa direção. Já que não era todos os dias que viam um homem sangrando e uma mulher tentando ajudar por ali.

O cheiro dele ainda continua impregnado em mim e já não estava falando apenas das minhas roupas. Disfarçadamente, olhava para ele, tentando decifrar pela sua expressão se estava prestes a desistir ou se aguentaria mais um pouco, pelo menos tudo indicava que ele aguentaria.

- Lorenzo - diz ele de repente, fazendo com que olhasse para ele no mesmo instante, temendo estão tão focada em meus pensamentos, que estava alheia ao que me diziam.

- O quê? - Ele revira os olhos, suspirando pela boca.

- Meu nome - diz forçando um sorriso, com os lábios esbranguiçado - É Lorenzo - Sustento o olhar dele, entendendo aquilo como uma forma de tentar criar algum tipo de "amizade" - Você tem um nome. Todo mundo tem um - Sua voz soa novamente, isto faz com que perceba que estava o encarando.

- É claro que sim - Dou um rápido sorriso, me concentrando em andar, sem querer dizer meu nome, mesmo ele estando prestes a saber o essencial - Isabella - digo por fim e a contra gosto.

Ele solta o ar dos pulmões.

- Que bom que conheci você, Isabella - Olho para ele, sem saber como interpretar aquela frase.

Capítulo 2 2

Era de se esperar pelo horário, que meu pai estivesse em casa. Em minha cabeça o plano que elaborei em minutos, parecia fácil e não teria como dar errado, mas na prática nunca era assim.

- Isabella? - Ele me chama assim que entro em casa, em passos silenciosos e faço menção em ir para a cozinha, aonde Lorenzo me esperava ao lado de fora da casa - É você? - Ele sabia que era eu, mesmo assim, perguntava.

- Sim. Sou eu - Olho para a cozinha, antes de andar até a sala, o encontrando no mesmo lugar de sempre: sentado em sua poltrona gasta, em frente a Tv, assistindo ás últimas notícias.

Seus olhos me varrem de cima a baixo e pela primeira vez, por estar escondendo alguma coisa dele, eu gelo, temendo que ele descobrisse que havia um gângster do lado de fora sangrando e que queria colocar ele para dentro.

- Como foi seu dia? - Ele pergunta de repente, para meu alívio.

- A mesma coisa de sempre - Dou um rápido sorriso - Está com fome? Vou fazer o jantar - Não espero que ele responda, giro meu corpo em direção da cozinha.

- Passei no supermercado na vinda e comprei comida congelada - diz ele alto o suficiente para que ouvisse. As sacolas sobre a pia comprovavam isso, mas nem me aproximei, ando em passos largos até a porta, encontrando Lorenzo no mesmo lugar, só que um um pouco mais debilitado.

Passando novamente o braço dele por cima dos meus ombros, amparo ele para longe da cozinha, necessariamente para o único lugar naquela casa que meu pai não entrava: meu quarto. Meu quarto era no sótão desde que me lembrava, acredito que por gostar do espaço otimizado e da vista que eu tinha.

O mais difícil naquele momento, só foi subir a escada em caracol com um peso maior com meu corpo.

Lorenzo geme de dor quando o coloco sentado na poltrona perto da janela, mesmo com seus olhos semicerrados e o rosto ainda mais pálido, noto que ele olha com atenção o cômodo. Entretanto, o mesmo se assusta quando volto do banheiro com uma toalha de rosto e tento erguer sua camisa para pressionar a toalha ali.

- Vou precisar ver o ferimento - digo baixo, pressionando a toalha, tendo meu olhar sustentado por ele.

- Só promete que não vai me deixar morrer - diz ele num sussurro, sem forças.

Engulo em seco, me sentindo nauseada com o odor de sangue.

- Não sou médica, lembra? E você se nega a ir para um hospital - Lembro.

- Hospital não - diz ele ao menos sem pensar.

- Então vai ter que confiar em mim e nas minhas habilidades - Aquela não era a primeira vez que via tanto sangue. Eu cresci vendo sangue e não estou falando sobre filmes sangrentos, mas pelo fato do meu pai ser da polícia e ser teimoso como Lorenzo, acreditando que poderia sozinho lidar com ferimentos causados por armas de fogo.

Meu pai, Romero, sempre se sentiu alto suficiente. Não era o tipo de pessoa que gostava de pedir ajuda e sentia que poderia resolver todo tipo de problema, muitas vezes com a minha ajuda. Na época, ainda uma criança.

Lorenzo olha para o lado no momento que ergue um pouco a camisa encharcada e em meio a pele suja de sangue, percebo um pequeno buraco sutil, o que me faz o inclinar para frente, a procura de um mesmo furo daquele.

- Não tem saída - diz sem me olhar - A bala ainda está dentro de mim - Seus olhos voltam a encontrar os meus.

Fico ereta em sua frente analisando o que tinha diante de mim. Seria uma boa notícia e ao mesmo tempo não, se o projétil tivesse saído sem atingir nenhum órgão, mas como continuava dentro dele, na lateral do flanco, as chances de ter atingido algum órgão, ainda existia, só que não eram grandes.

Saio do quarto sem dizer uma palavra, mentalmente concentrada em pegar a caixa metálica, que continha tudo que precisava para situações como aquela na lavanderia.

Quando meus dedos tocaram a superfície fria, senti que o plano estava correndo até bem.

- Não disse que ia fazer o jantar? - A voz de Romero faz com que eu paralise, precisando agir com rapidez mas sutilmente, a escondendo na roupa.

- É comida congelada - digo me virando para ele - Só colocar no forno - Passo por ele rapidamente, andando o mais rápido que posso de volta para meu quarto.

Meu coração estava prestes a sair pela boca, quando entrei no meu quarto. Mais alguns segundos diante de Romero e ele descobriria todo meu plano, era o que ele considerava o lado bom em anos sendo um policial.

Lorenzo estava com a cabeça apoiada na poltrona de um jeito estranho, que para mim era como se tivesse morrido. Atravesso rapidamente segurando seu rosto com uma das mãos, esperando desesperadamente que ele não tivesse morrido naquele meio tempo, pois não tinha ideia do que fazer com um corpo, muito menos como explicaria como ele havia ido parar em meu quarto.

- Ainda estou vivo - diz ele com os olhos fechados. Suspiro alíviada, soltando seu rosto, tentando o tirar da poltrona.

- Preciso que deite na cama - Ele não diz nada, apenas usa o restante da força que ainda tinha, para se deitar em meio aos travesseiros e almofadas que havia na minha cama de solteiro.

Sem ao menos pedir permissão, começo a desabotoar a camisa, deixando aos poucos visível um peitoral definido, o que para mim significava que pelo menos ele se exercitava. Pegando meio que sem jeito a pistola que havia em sua cintura, a colocando em baixo da cama, aonde me parecia ser o lugar mais seguro naquele momento.

- Bebe isso - Aproximo o cantil com conhaque de seus lábios, não recebendo resistência, pelo contrário, ele bebe boa parte do líquido, o que o deixa ainda mais grogue.

Após limpar todo o local, pego a pinça depois de esterilizar, lembrando das palavras costumeiras de Romero: "Esterilizar é sempre essencial, não vai querer que ninguém morra e manter a ferida sempre limpa, também é algo essencial".

Lorenzo franze o cenho quando começo a mexer na ferida, em busca do projétil. Até aquele momento, nunca havia sido baleada, mas Romero costumava dizer que era uma dor desagradável e poderia ser mais, dependendo do local. Minhas mãos tremiam como da primeira vez, aonde Romero praticamente me forçou a tirar um projétil de seu braço e considerei os quarenta minutos seguintes, como os piores e mais tensos da minha vida, enquanto Romero não parava de me dar ordens e dizia a todo tempo que só iria sair dali quando terminasse.

Depois daquele episódio, não consegui comer carne por duas semanas.

Continuo movendo a pinça, o mais suave e o mais profundo que eu consigo, tentando não desistir ao notar a profundidade daquele buraco. Lorenzo se contorce mais um pouco, quando a pinça entra mais, meus olhos se focam por um momento nele, enquanto espero ele se acostumar com a dor, antes de prosseguir.

Estava quase concluindo que talvez tivesse que recorrer a Romero, quando sinto o projétil e com o coração na boca, começo a puxar para fora. Vejo o alívio estampado no rosto de Lorenzo quando o tiro e o olho fixamente, analisando como era pequeno e o estrago que havia feito.

Deixo a bala de lado, quando a ferida volta a sangrar, o que era péssimo, dada a quantidade de sangue que Lorenzo já havia perdido. Nos passos seguintes, me encarrego em estancar mais uma vez o sangramento e dessa vez a fazer uma sutura, o que particularmente já havia ficado muito boa nisso. Lorenzo só iria ficar com uma leve cicatriz, se sobrevivesse.

Tampo a boca dele com a minha mão suja de sangue, quando um gemido alto de dor escapa de seus lábios, quando a agulha atravessa sua pele. Olho para a porta, esperando ouvir passos na escada, sentindo o suor escorrer pelo meu rosto, grudando ali fios de cabelo.

Pego a toalha limpa ao lado e sem pensar duas vezes, a enfio na boca de Lorenzo, fazendo ele engasgar.

- Me desculpa. Me desculpa - Peço coma voz trêmula, percebendo o quanto agressivo aquele gesto foi, voltando a me concentrar no que estava fazendo. A morfina ainda não havia feito efeito por completo e infelismente, não poderia esperar muito, já que era essencial fechar aquela ferida.

Gradativamente os gemidos de dor de Lorenzo foram diminuindo, o que ajudou com que eu terminasse mas, logo isso se tornou um alerta e temendo que dessa vez tivesse morrido, me inclino sobre ele, tirando a toalha de rosto de sua boca, sentindo sua respiração fraca ao aproximar meu rosto do dele.

Ele estava vivo, concluo alíviada mais uma vez, entretanto esgotada, levantando da beirada da cama, com meus olhos vagam pela bagunça que havia feito ao redor da minha cama e as toalhas que precisavam ser lavadas o mais rápido que podia, de preferência não deixando nenhum rastro de sangue para trás e que pudesse levantar suspeitas.

Capítulo 3 3

Mexia frenéticamente meu pé com meus olhos fixos na televisão a frente. Como de costume, todas as noites, após o jantar nos sentávamos diante da tv para assistir a novela favorita de Romero.

Fingia prestar atenção atenção no desenrolar da cena de ação, mas na verdade não parava de pensar em Lorenzo desacordado em meu quarto.

Sempre depois da novela, Romero dava boa noite e ia para seu quarto, estava esperando por isso na verdade mas, parecia que aquela novela mexicana, cheia de traições e reviravoltas, nunca iria acabar. Além de tudo isso, ainda precisava lutar contra meu cansaço físico, após um dia de plantão cheio de atendimentos.

Ser enfermeira não era bem o que meu Romero queria para mim, esperava desde sempre que pelo menos a caçula seguisse seus passos, mas para mim ser enfermeira era mais vantajoso, pelo menos para ele mesmo. Evitando que dessa forma, que ele se matasse tentando se salvar.

Quando ele solta um suspiro repentino, paro de mexer meu pé e o olho no mesmo instante.

- Não vá dormir tarde, pêssego - diz ele ao se levantar devagar, usando os braços da poltrona para se levantar, arrastando os pés para a escada lateral.

Espero mais alguns segundos para desligar a tv, o necessário para ter certeza que Romero não voltaria para a sala. Com a tv desligada, vou para a cozinha, aonde me movimento de um lado para o outro, tentando preparar uma rápida refeição para Lorenzo, enquanto torcia mentalmente que continuasse vivo. Por sorte, encontrei um pouco de sopa da noite anterior.

Respirava pelos lábios entre abertos, quando abro a porta do meu quarto, olhando fixamente para a minha cama, encontrando ali Lorenzo ainda desacordado. Ou morto.

Me senti completamente hesitante em me aproximar, a porcelana redonda começava a queimar lentamente minha mão, enquanto tomava coragem para me aproximar. Se fosse num ambiente hospitalar, com máquinas e todo o equipamento que Lorenzo precisaria, não estaria tão receosa; Mas havia tirado uma bala de seu corpo e suturado, da forma mais amadora possível, já que não tinha utensílios necessários e mesmo fazendo isso já algumas vezes, nunca Romero havia ficado naquele estado.

Depois de quase um minuto ou mais, fecho a porta atrás de mim e me aproximo, colocando a sopa sob o móvel, toco o rosto de Lorenzo e suavemente desço dois dedos até abaixo de sua mandíbula, encontrando ali batimentos cardíacos. Gentilmente dou leves tapas em seu rosto, esperando que dessa forma ele acordasse, controlando o pânico quando ele demora para responder.

Finalmente quando Lorenzo semicerra os olhos, concluo que não morreria mais, pelo menos do coração não.

- Você precisa comer - digo baixo - Está fraco e dessa forma não irá se recuperar - Pego a sopa ao lado, colocando um pouco do líquido na colher. Seus lábios se abrem quando aproximo a colher e pouco a pouco, dessa forma, começa a comer, engasgando em alguns momentos e recuperando o fôlego em outros.

A sopa não estava nem pela metade, quando simplesmente ele virou o rosto, respirando pela boca, com os olhos fechados.

- ... não consigo mais - sussurra. Aproximo o copo com canudo de sua boca e ainda com os olhos fechados, ele bebe um pouco do líquido - Estou com frio - diz com as pálpebras pesadas.

Automáticamente minha mão vai até sua testa, percebendo que estava quente, não só o rosto, como o restante do corpo.

- Você está com febre - digo irritada comigo mesma, por não imaginar que algo poderia acontecer - Preciso abaixar a febre - Vou até a caixa metálica, procurando um antitérmico, bufando quando não encontro nenhum - Merda - Xingo baixo, deixando a caixa sobre a escrivaninha bruscamente.

Volto a olhar para Lorenzo, percebendo que só tinha uma opção naquele momento.

- O que está fazendo? - Ele pergunta, quando abro o zíper de sua calça, após tirar seus sapatos sociais.

- Tirando sua roupa - digo concentrada.

- Se fosse em outro momento, me sentia lisonjeado com isto. Mas no momento...

- Não é o que está pensando - digo o interrompendo, erguendo o olhar para ele - Estou tentando salvar sua vida - Termino de tirar sua calça, tentando não olhar diretamente para a cueca boxe apertada que ele vestia, cuja cor era...azul.

Lorenzo segura um gemido de dor, quando o ajudo a se sentar, para em seguida o ajudar a levantar. Pouco a pouco, começamos a andar em direção ao banheiro, que para duas pessoas era estreito e pequeno. Eu teria que tomar muito cuidado, para não deixar Lorenzo cair e nem o machucar na quina do lavatório, muito menos na porta.

Estou quase sem fôlego, quando chegamos no box do banheiro. Rapidamente sem o soltar, tiro as botas que calçava, as deixando de lado, entrando no espaço naquele momento apertado. Com uma mão, abro as torneiras e encaro a água encher a banheira, aonde considerava o limite, desligo as torneiras e entro na banheira, trazendo Lorenzo junto comigo.

O ar sai rapidamente dos nossos pulmões, quando a água gélida tem contato com nossos corpos, inspiro e expiro lentamente, esperando meu corpo se acostumar com a água que lembrava facilmente cubos de gelos. Lorenzo segura com força as bordas da piscina no meio das minhas pernas, de costas para mim, me dando uma visão completa de suas costas, cujo havia uma tatuagem do que deveria ser uma Fênix ou um dragão, nunca soube os diferenciar muito bem, mas parecia ser uma Fênix.

Ele continua inspirando e expirando, com força, enquanto jogo água em sua cabeça e observo a água descer pelo seu pescoço e costas.

- Para alguém que não salva vidas, você parece entender muito bem do assunto - diz ele, com a cabeça inclinada para trás, apoiada em meu ombro.

- Parece que hoje é seu dia de sorte - digo num tom sério brincalhão.

- Apesar de tudo, parece mesmo - Ele abaixa a cabeça, o que me faz continuar com o que estava fazendo - Devia ter dito que não morava sozinha - Ele me olha de lado, tentando encontrar meus olhos - Não quero arrumar mais problemas - Um leve sorriso surgiu em meu rosto.

Não queria contar toda minha vida para um desconhecido, mesmo sabendo que este desconhecimento poderia morar naquele bairro e com pouca dificuldade, poderia descobrir tudo sobre mim. Ou quase tudo.

- Você prometendo ir embora, quando se sentir melhor, não vai me arrumar problemas - Mesmo eu sabendo que já estava correndo este risco, não conseguia avaliar em quanto tempo Lorenzo estaria em condições de ir embora ou fora de perigo. Eu só recebia ordens de médicos.

- Anotado - diz inspirando profundamente.

Pelos minutos seguintes, ficamos sentados na banheira. Em determinado momento, meu corpo começou a tremer levemente, diferente de Lorenzo, cujo corpo já tremia algum tempo mas, ainda continuava quente, o que para mim continuava preocupante.

- ... você vai me matar de hiportemia - diz ele com o queixo tremendo.

- Sei o que estou fazendo - Inspiro profundamente, lutando contra o frio.

- Você não é médica - Um sorriso tremula em seu rosto - Como... sabe o que está fazendo? - Abraço o corpo dele, por trás, imaginando que dessa forma iria conseguir fazer com que a febre cedesse.

Por um momento, Lorenzo não tem qualquer reação, não tenta tirar meus braços ou qualquer outra coisa. Encosto meu queixo em suas costas e tento me concentrar em qualquer outra coisa, que não fosse o frio e deu certo, por talvez cinco minutos ou menos. Finalmente sinto a febre ceder e logo sua pele estava tão fria quanto a minha e concluí que já era o momento de sairmos da banheira.

O mais complicado foi ajudar Lorenzo a sair da banheira, sem romper nenhum dos pontos da sutura. Em pé dentro da banheira, ele veste o roupão rosa claro e se apoiando em mim e na parede ao lado, sai da banheira e juntos, novamente, saímos do banheiro e ajudo ele a se deitar novamente na cama, me adiantando em ligar o aquecedor portátil que havia no canto do quarto, que usava com frequência em dias intensos de inverno.

Arrumo o cobertor sobre o corpo dele, dessa vez tentando normalizar sua temperatura.

- Se quiser eu fecho os olhos - Olho para ele no mesmo instante, ao ouvir sua voz. Franzo levemente o cenho, balançando a cabeça de um lado para o outro, sem entender o que queria dizer - Para você se trocar - Foi então que entendi o que queria dizer. Ainda estava com as roupas molhadas e isso não era muito bom, poderia pegar um resfriado.

- Só estou me certificando que está aquecido - digo antes de me afastar, agora voltando para o banheiro, para um banho, suficientemente quente que pudesse aquecer não apenas minha pele, mas também meus ossos.

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