Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Pai e professor
Pai e professor

Pai e professor

Autor:: Flávia Saldanha
Gênero: Romance
Aviso: Este livro pode conter gatilhos para pessoas mais sensíveis. Fernando é um professor do ensino médio, trabalha em uma escola renomada na Cidade do Rio de Janeiro. Simpático, bonito e inteligente, mas ninguém sabe como anda seu coração. Pai de um menino que nunca consegue ver, o professor já arrasta essa dor por dois anos. Processos e brigas marcam todo esse tempo de luta por um pequeno instante com Enzo. Mas as coisas estão prestes a mudar para Fernando, com a chegada de uma nova professora do infantil, o professor volta a sentir seu coração bater mais forte, fato que ele achava que jamais voltaria a acontecer depois de tudo que vivenciou. Aventure-se neste romance envolvente e descubra quão grande pode ser o coração de um homem.

Capítulo 1 A ex-mulher

(Fernando)

- Tudo Pronto, Fernando. A audiência está marcada para semana que vem, mas seria interessante se vocês entrassem em acordo.

Vinícius, meu amigo e advogado fala ao se sentar em sua cadeira novamente.

- Não sei por que ela faz isso, cara. – Respondo levantando os óculos e pressionando meus olhos em seguida com o indicador e o polegar.

- Isso é típico, amigo. Ela quer dificultar as coisas pra você, é isso. E é por isso que eu não quero casar.

Falou dando-me seu sorriso de cafajeste. Balanço a cabeça em negação. Entre meus amigos sempre fui o mais certinho, todos sempre falavam isso e até implicavam comigo, Vinícius era o contrário: cafajeste até a última gota de sangue.

- Você ainda não encontrou a pessoa certa, Vinícius, aquela que vai mexer com você. Por isso fala dessa forma.

- Samara mexeu bastante com você, não é. – Falou recostando-se e cruzando os braços. – Mexeu com sua cabeça e com seu bolso.

- Eu era muito jovem. Me casei aos 26 anos, fui pai aos 27. Era para ter esperado mais, mas ela parecia tão perfeita, tão linda e inteligente... – Divaguei lembrando-me da Samara por quem me apaixonei, totalmente diferente da mulher que ela é hoje.

- Você ainda gosta dela, não é?

- Infelizmente. – Puxo o ar profundamente. – Mas não era a mesma já havia muito tempo.

- O casamente de vocês durou muito pouco tempo. Foi o quê? Três anos?

- Quatro. E parece que foi ontem que nos separamos, mas já se foram dois anos.

- E ela ainda não te deixa em paz.

- Não. Ela quer dinheiro, coisa que não tenho. – Apoio as mãos nos braços da cadeira e me levanto, pegando a bolsa de livros ao meu lado. – Vou indo. Preciso te deixar trabalhar e eu tenho que trabalhar também.

- Vou ligar para ela e propor uma reunião para amanhã, pode ser?

- Pode. Queria ver meu filho essa semana ainda. Já faz dois meses que não o vejo.

- Vou fazer o possível para que você veja seu filho. Topa sair para beber hoje à noite?

Eu ri e balancei a cabeça.

- Quando quero esfriar a cabeça vou para o mar, não tenho grana pra doses caras de bebida.

- Vamos cara, eu pago. – Olhei de lado para meu amigo. – Vai ter umas gatinhas por lá, quem sabe você não gosta de uma delas. – Pisca para mim. Ele não presta mesmo. Acha que estou com cabeça para mulher.

- Estou precisado beber mesmo, eu acho. Te encontro lá mais tarde.

- É isso, amigo. – Ele se levantou me acompanhando até a porta. Nos despedimos e fui em direção ao elevador.

Aproveitei meu horário de almoço para ver como anda meu processo de visitação. Se a pensão alimentícia cair faltando dez centavos, ela liga fazendo escândalo, mas faz de tudo para atrapalhar a visitação de meu filho. Tenho direito e vou lutar por ele.

Mas como resultado de sair na hora do almoço, vou ter que pegar qualquer coisa no meio do caminho para enganar a fome.

Peguei meu carro na garagem do prédio e segui para a escola onde trabalho. Na estrada passei em um drive-thru e comprei batatas e refrigerante, sei que não é um almoço saudável, mas por hoje teria que bastar.

Enquanto dirigia, fui comendo meu lanche super saudável à caminho da escola, por sorte, não peguei retenção no trânsito e cheguei bem na hora.

Sentei-me em minha cadeira e me preparei para mais um dia de aula. Beber hoje à noite com os caras seria uma boa ideia, pois eu não teria como pegar onda hoje, então o jeito pra relaxar era com uma boa bebida.

***

Parei o carro em frente ao bar, ainda em dúvida se entraria ou não. Beber me pareceu uma boa ideia, até que me lembrei que não sou bom com bebidas. Um carro parou atrás de mim buzinado.

- Droga! – Liguei o carro e entrei no estacionamento do bar. Parece que não tinha mais jeito.

Entrei no local e os caras já estavam lá. Vinícius me viu assim que cheguei e acenou para que eu fosse até onde estavam, como se eu não os estivesse vendo.

Andei até eles e me acomodei no banquinho alto. O som do bar, o cheiro de álcool e todo aquele falatório não me deixavam muito à vontade. Tentei participar da conversa na medida do possível, sempre me perdia em pensamentos.

Vinícius havia me mandado uma mensagem dizendo que Samara tinha aceitado a reunião e isso me deixava abalado de maneiras diferentes: era a chance de acertar uma saída com meu filho antes de audiência, mas também eu a veria e eu não sei como seria para mim.

Já fazia bastante tempo que não a via e eu já tinha me habituado a não vê-la, mas como seria quando a visse novamente? Reacenderia meus sentimentos por ela? Aquela mulher voltaria a assombrar meus sonhos?

- Tudo bem aí, cara. – Gael, que estava na minha frente, perguntou.

- Ele está assim por causa da mulher. – Falou Vinícius.

- Ex-mulher. – Corrigi.

- Ih, chega tá nervosinho! – Comentou Jason.

Senti tapinhas em meu ombro, olho para o lado e vejo que é John.

- Fica calmo, amigo.

Virei meu drink garganta a baixo e decidi não beber mais que aquele copo. Eu iria para casa dirigindo, e era perigoso encher a cara e pegar no volante. Dali pra frente seria só água com gás. E a conversa continuou rolando entre os caras, agora o assunto da vez era eu. Pressionei as têmporas me arrependendo de ter ido até ali. Era melhor madrugar pra pegar uma onda logo cedo.

***

No dia seguinte, como não trabalhava na parte da manhã, estava disponível para a reunião com Samara. Eu tinha esperanças de ver meu filho ali mesmo, mas ela não o levou, era pra eu ter imaginado.

Sentei-me com Vinícius ao meu lado e Samara com sua advogada ao lado dela. A mulher de cabelos escuros curtos me encarava com olhar severo, Samara deve ter falado mil e uma atrocidades sobre mim pra que ela destilasse tanto ódio como fazia agora.

Evitei olhar para a mulher à minha frente, mas sentia seus olhos verdes sobre mim. Eu mantinha os meus em meus dedos, que travavam uma verdadeira batalha devido ao nervosismo.

Vinícius expunha de forma técnica todo o acontecimento e a advogada rebatia tudo com informações que às vezes eu queria levantar meu olhar, mas não fazia. Em silêncio ouvi todas as atrocidades ditas e Vinícius as rebatendo com provas.

Após uma conversa longa entre os advogados, eu e Samara teríamos que falar e não tinha mais como fugir de seu olhar.

- A semana é muito agitada para mim, só Deus sabe quantos clientes tive que reagendar para estar aqui hoje. – Ela falava naturalmente. – Enzo estuda longe... não tem como fazer o que ele quer.

- Ele só quer mais proximidade com o filho. – Vinícius rebateu.

- Mas não dá. Não tenho como ficar reagendando clientes a cada minuto que ele decidir ver o filho. – Ela suspirou. Parecia indignada. – Eu trabalho muito para dar conforto ao meu filho, sabia.

- Você não faz isso sozinha. Dou a pensão dele mensalmente e daria mais se ele passasse mais tempo comigo.

Ela riu, quase gargalhou.

- O quê? Essa miséria que você paga? Isso não compra nem o lanche dele da escola.

A fúria subiu fazendo meu sangue ferver. Eu dava um bom valor, baseado naquilo que eu ganhava como professor e não era uma miséria de forma alguma.

Respirei fundo para não fazer uma besteira ali mesmo. Era incrível como era conflitante estar diante dela: ao mesmo tempo que eu me lembrava do nosso amor, de como ela é linda, ela me faz sentir uma raiva fora do normal.

- Ele paga o valor estipulado pelo juiz. – Retorquiu meu advogado. – E como ele disse, daria mais, se não fosse sua insistência em afastar o menino dele.

- Eu não o afasto do pai. Não tenho culpa se estou dando a meu filho a melhor educação possível. No sábado ele tem curso de inglês e de natação. Aos domingos ele já se acostumou a passar o dia na casa da avó, não posso interferir na rotina dele, a psicóloga disse que ele tinha que ter uma rotina.

Vinícius suspirou, acho que nem ele imaginou que seria tão difícil conversar com ela.

- Vocês poderiam combinar algum horário no final de semana, por favor. Acho que se ele faltar o curso um dia não haverá problema. Ele tem apenas 5 anos, acredito que a presença do pai neste momento é muito mais importante.

Meu advogado tentou solucionar.

- Mas... – Ela começou, mas foi interrompida por sua advogada que falou algo em seu ouvido. Derrotada, ela me olhou, enrolou uma mecha de seu cabelo liso e loiro nos dedos e falou, cedendo. – Tudo bem. Podemos combinar um horário nesse final de semana.

Um alívio tomou meu coração, eu veria meu filho em poucos dias.

Capítulo 2 Só uma onda

(Fernando)

Hoje era sexta-feira, a semana estava terminando e eu veria meu filho amanhã. Estava empolgado em vê-lo, mas o estresse da semana me deixaria louco se não me aliviasse da forma que gosto.

Trabalho hoje o dia inteiro na escola e só me resta madrugar para pegar uma onda, por isso nem espero o dia clarear para pular da cama. O dia estava meio esquisito desde o dia anterior, parece que o tempo mudou e não vai melhorar até segunda-feira, a vantagem disso para todo surfista são as ondas, então não pensei duas vezes antes de pegar minha prancha.

É bom morar no Recreio, já que não demoro muito para chegar a uma boa praia. Paro meu carro, pego minha prancha e me preparo para entrar no mar. Vejo as ondas altas quebrarem e fico satisfeito. Perfeito, bem do jeito que gosto.

- Fala aê, brow, bora cair na água. – Um dos caras que sempre vejo por aqui passa por mim correndo com sua prancha debaixo do braço.

- Bora! – Respondo.

Em seguida pego a minha e corro para o mar. Cada um desestressa do jeito que gosta: uns bebem, outros saem para dançar, o Vinícius pega mulher e eu vou pegar onda.

Entro no mar e passo minha mão livre pela superfície da água, sentindo-a fria e revigorante. Jogo a prancha na água e começo a remar rumo a primeira onda que vejo se formar. Sorrio conforme ela se torna cada vez maior. Já me sinto melhor só em estar aqui.

Depois de alguns minutos no mar, totalmente desestressado e revigorado, saio da água como um novo homem. Confiante que amanhã dará tudo certo, que verei meu filho e o levarei para passear no parquinho, no shopping, estou cheio de planos para meu dia com meu filhote. É muita saudade e eu pretendo matá-la amanhã aproveitando cada segundo do meu dia com Enzo.

Volto para casa para me arrumar rapidamente, e poucos minutos depois estou na estrada novamente rumo ao meu trabalho.

Chego na escola bem na hora. Vou até a sala dos professores guardar minhas coisas e esbarro com Jairo, o professor de física.

- Está com uma cara ótima, hoje. – Ele selecionava o livro que usaria na próxima aula, numa mesa próxima aos armários.

- Verei meu filho amanhã. – O sorriso ocupava todo o meu rosto só de lembrar que o grande dia havia chegado.

- Que bom, cara. Você tinha dito que não via o seu filho há um tempo, não é?

- Dois meses.

Pego somente o necessário para a aula e apoio nos braços, mas antes de eu ir à caminho da porta uma moça muito bonita entra na sala dos professores como um furacão.

- Bom dia. – Ela cumprimenta ao entrar.

- Bom dia. – Respondemos, mas minha voz sai como um sussurro.

Não sei o porquê, mas algo nela fez meus olhos se fixarem em cada movimento que executava ao pegar materiais no armário destinado às crianças pequenas. Seus cabelos eram escuros, ela era baixinha com o corpo curvilíneo... muito bonita, muito bonita mesmo.

Da mesma maneira que entrou, ela saiu. Meus olhos ainda estavam na porta por onde ela passou.

Vejo um guardanapo estendido na minha frente, e é aí que percebo que Jairo me olhava com um sorriso sacana.

- Pra secar a sua baba.

Empurrei sua mão.

- Para de bobagem. – Respondi meio enraivecido. Queria poder ir atrás dela, senti vontade de saber mais sobre aquela mulher, mas encontrar com as professoras do infantil era quase impossível. – Conhece ela? – Perguntei, fazendo o sorriso no rosto do meu colega se ampliar, mas não consegui frear a minha curiosidade.

- Tudo o que sei é que ela é a nova professora do infantil e começou essa semana. Não sei mais nada. – Levantou as mãos.

Suspirei, mas também não sei o que deu em mim.

- Era só curiosidade mesmo. Vou indo, daqui a pouco acabo me atrasando. – Ajeito os livros de matemática nos braços.

Começo a me mover para fora da sala e ele vem atrás de mim.

- Estou subindo também.

***

Depois de alguns alunos me questionarem se eu estava bem, percebi que ficava divagando me lembrando do rápido encontro com a tal professora do infantil. Desde que me separei de Samara, há dois anos, nenhuma mulher chamou a minha atenção. Hoje foi diferente, mas ela nem me notou. O "bom dia" não conta, foi um cumprimento educado e aposto que nem se lembra da cara dos homens ali dentro.

Mas a questão é, mesmo ela tendo chamado a minha atenção, se surgisse a oportunidade, eu teria coragem de arriscar novamente? Pois quando me apaixonei por Samara era tudo lindo, nos amávamos como dois loucos, sorríamos largamente de qualquer coisa, não havia nada que nos entristecesse ou nos desmotivasse. Éramos intensos, felizes e nos completávamos, mas tudo mudou, e não foi o nascimento do meu filho como muitos acreditam.

Ela se formou na faculdade, se especializou e abriu seu espaço de estética. A apoiei em tudo, ficava com nosso filho ainda bebê para ela atender seus primeiros clientes, mas então o pequeno espaço cresceu e se tornou uma clínica de estética e o último ano do nosso casamento foi um inferno. Ela passou a criticar nosso apartamento no recreio, a escola onde o filho estudava, que era a mesma onde trabalho desde que me formei, as regalias que eu não podia dar a ela por causa do meu salário baixo de professor, até que finalmente o casamento acabou.

Vivo em um inferno não muito diferente desde então, tendo que lutar para ver meu filho que ela faz questão de dificultar as visitas, e, para completar, acabei desenvolvendo uma insegurança em me meter em um novo relacionamento.

Como homem, vejo a necessidade de sair com algumas mulheres, mas me envolver é algo que temo desde a separação. Quando meus amigos falam que eu preciso recomeçar, eu me lembro do paraíso que se tornou um inferno e me pergunto qual a garantia que tenho que não verei a cena se repetir? E foi justamente sobre tudo isso que eu fiquei pensando quando estava sentado em minha sala de aula, a ponto de um dos alunos mais observadores, me questionarem se eu estava bem.

É claro que como profissional eu não posso levar problemas pessoais para a sala de aula, então disse que estava apenas com dor de cabeça, o que não era exatamente uma mentira, desde que considerasse que aquilo martelava em minha mente a manhã inteira.

Depois que terminou o primeiro turno, eu teria 1h e 30min de intervalo e não sabia bem se iria almoçar ou ficar pelos cantos da escola até a entrada do novo turno.

- E aí, cara, vamos almoçar? – Jairo aparece na minha sala já vazia.

- Ainda estava pensando sobre isso.

- Cara, você chegou muito animado e agora está assim... todo esquisito, parece desanimado, meio triste... sei lá.

Bufei, pois era exatamente assim que me sentia depois de tudo o que andei pensando na parte da manhã.

- Estou bem. – Falo sem convicção, mas era o que tinha para hoje e eu precisava me animar, de toda forma o encontro com meu filho será amanhã.

- Depois da escola podemos ir no barzinho de sempre, o que acha?

- Pode ser. Acho melhor almoçar, então. – Concluí.

- Boa! Então vamos logo que dá pra paquerar as garotas. – Piscou o olho para mim, sei que é com a intenção de me animar. Sorri meio sem jeito.

Pego meu material e o guardo na sala da minha próxima turma, é bem mais fácil assim do que ficar indo e vindo da sala dos professores a cada mudança de turma.

Ao sair da sala, sinto meu celular vibrar no bolso e quando o pego, vejo que é minha mãe.

- Vai indo. – Falo com Jairo. – Vou só atender minha mãe e já estou descendo.

- Ok! Te espero no estacionamento. Meu carro ou o seu?

- Tanto faz.

- O seu então, tenho que economizar a gasolina.

Reviro os olhos e atendo o telefone.

- Mãe.

- Oi, filho. Como está?

- Bem, mãe. – Escoro-me em uma parede próxima.

- Não mente para mim, Fernando.

- Não estou mentindo.

- Está. Sua voz está esquisita. E aquele seu amigo me ligou, disse que amanhã você verá meu neto. Acreditei que estaria mais alegre.

- O que o Vinícius queria? – Levanto uma sobrancelha já imaginando que teria algo de desagradável.

- Disse que te mandou mensagem e você não viu.

- Estou no trabalho, não é, mãe. Quer que eu seja demitido por ficar de conversa no celular?

- Eu sei, filho, por isso esperei a hora do seu almoço.

- Mas o que ele queria? – Disse desconfiado.

- Não sei. Ele só me falou que você veria o Enzo amanhã.

- Vou olhar as mensagens dele.

- Meu, filho, vai almoçar. Sei que daqui a pouco terá que voltar para a escola.

- Sim, mãe. Um beijo, fique com Deus.

- Fique com Ele também, filho. Beijo.

Assim que nos despedimos, abro as mensagens de Vinícius, vi que o grupo de amigos está cheio de mensagens, mas depois eu vejo isso.

"Samara não quer que você vá pegar o garoto na casa dela, precisa me dar um local de encontro."

"Vê essa droga de celular, cara!"

"Fernando!"

"Fernando!"

"Ah, cara, preciso disso até o horário de almoço."

"Esquece, amanhã você tenta a sorte."

Como esse cara é chato. Será que ele não sabe que estou no trabalho? Mandei uma mensagem rápida como resposta.

"A pracinha. Ela sabe qual é, a pracinha que Enzo mais gosta."

Guardo o celular no bolso e antes que eu alcance a rampa para descer, sinto o aparelho vibrar, sei que é ele, mas depois eu vejo. Agora vou almoçar.

Capítulo 3 Uma nova vida

(Beatriz)

- Estou bem, mãe. – Falava com dona Marcela ao telefone, enquanto retirava meus pertences da caixa.

- Por que sumiu de repente, Bia? Veio nos visitar semana passada e quando vejo já está em outro estado. O que aconteceu? – Coloquei a ligação no viva voz, assim poderia falar com minha mãe e organizar a bagunça.

- Nada, mãe, só precisava tomar uma decisão e tomei.

- Que decisão?

Suspirei. Não queria preocupar minha mãe, não queria que ela se sentisse mal por tudo que aconteceu comigo. Não aturei tudo calada por quase dois anos para contar a ela o que eu vivia agora. Até porque acabou.

Juliana, minha amiga, havia se mudado para o Rio de Janeiro há alguns meses, e quando liguei para ela decidida a fazer o mesmo, Juju conseguiu um apartamento para mim e uma entrevista de emprego.

- Mudar de vida, ter meu cantinho, meu trabalho...

- Mas você poderia ter tudo isso aqui. Já até tinha sua casa!

- Não, mãe. A casa era do Isaías, e ele não queria que eu trabalhasse. A senhora sabe disso. – Não contaria a ela a gota d'água que me fez jogar tudo para o ar: a bofetada que levei no último fim de semana. O motivo? Fui visitar meus pais e esqueci de avisar. Ridículo, não é?

- Mas onde vai morar? do que vai viver?

Ela estava aflita, e até tinha suas razões. Até poucos dias estava do seu lado e hoje estou desempacotando o pouco do que eu tinha bem longe dela.

- A Juju arrumou um apartamento pra mim e uma entrevista de emprego. Tenho um dinheiro guardado também, o suficiente pra me virar por alguns meses, mas se tudo der certo, amanhã já terei meu novo emprego. Não me mudei no escuro, mãe. Fica tranquila.

O suspiro que ouvi pareceu de alívio.

- Está bem mesmo? O Isaías foi com você?

- Deus me livre! De que adiantaria me mudar para outro estado e viver com o mesmo homem que me proibia de tudo? – Fui até a geladeira e constatei que estava vazia, só tinha água.

Arfei.

- Mãe! – Continuei. – Preciso desligar, tem nada na geladeira, vou precisar ir ao mercado.

- Mais tarde me liga novamente, tá. Quero saber como está. Estou preocupada. – Sorri.

- Eu ligo, mas estou bem. Mande um beijo pro pai, e não o deixe preocupo por nada.

- Minha filha a quilômetros de distância não é "nada", Bia.

- Muitos quilômetros, não é, mãe. Não pira, tá. Preciso ir, antes que fique tarde, não conheço nada aqui.

- Tá vendo, filha...

- Beijinho, mãe. Tchaaaauuuu! – Desliguei. Se não fosse assim a conversa não acabaria nunca e eu realmente precisava ir no mercado.

Abri o aplicativo de mensagens e mando uma para minha amiga.

"Ju, onde tem um mercado aqui perto?"

Deixo o celular sobre a bancada da cozinha e vou até as roupas que tinha acabado de guardar e me visto para ir na rua. Em casa estava com os cabelos presos para cima e uma camisa longa com um shortinho, não vou sair assim.

Quando volto, vestida de forma mais decente, usando uma calça jeans e uma camiseta, pego meu celular e vejo que minha amiga já respondeu, no entanto ela não disse onde era, disse que já estava vindo aqui.

Não quero dar trabalho a ninguém, mas Juliana era assim mesmo: sempre prestativa.

Passo um pente por meus cabelos castanhos e ondulados, tentando domar os fios. Passo um batom rosa claro e pego minha carteira e no instante seguinte a campainha toca. Abro a porta e do outro lado está minha amiga.

- O que achou do apê? – Ela pergunta entrando, seus olhos vagando pelas paredes. – Foi o melhor que pude arrumar com a urgência que pediu, e ainda com móveis.

- É perfeito, Juju. Preciso ir ao mercado, o armário e geladeira estão vazios, preciso abastecer, e eu não sei onde tem um.

- Vou te levar ao mercado e você vai me contando todo o babado no caminho. Não entendi por que você decidiu vir pra cá com tanta urgência e sozinha.

Todo o caminho desde a saída do apartamento até chegar ao mercado, contei tudo a ela. A forma como Isaías me tratava e como eu tentava contornar e até agradar a ele na esperança de que ele me desse alguma folga, mas com o tempo sua possessividade só piorava.

Quando falei da agressão que sofri na semana passada, o que me fez tomar a decisão de sumir, Juliana ferveu de ódio.

- Aquele traste. – Resmungou ela quando ainda estávamos no ônibus. – Sabia que ele era um chato e ciumento, mas não sabia que chegaria a te agredir.

- Nem eu, amiga. – Suspirei. – Gostava dele, sabe, mas ultimamente eu estava mais por comodismo. Ele não me permitia fazer nada, até minhas roupas estava regulando e você sabe que não gosto de roupas curtas, coladas... essas coisas.

- Sei. – Ela sorriu olhando para a janela. – Você sempre foi meio certinha, apesar de gostar de uma cervejinha.

- Não vejo nenhum problema nisso. – Rimos antes de voltar ao assunto, mas desta vez falando do que eu faria agora.

Eu queria agora uma vida nova. Não era a primeira vez que eu tentava me afastar dele, mas o maníaco perseguidor do meu ex-namorado insistiu até que eu voltasse para casa da primeira vez.

Nessa época ele ainda não havia me agredido e voltei para a casa de meus pais depois de uma discussão sobre trabalho, ele não queria que eu trabalhasse, mas acabou me convencendo e vivemos juntos por mais alguns meses até que se tornou insuportável. Nem do meu pai eu apanhei na vida, não iria aceitar um tapa que viesse de outro homem. E foi isso que me fez ligar na mesma noite para a Juju e pedir sua ajuda.

Comprei tudo o que achei necessário e chamamos um motorista de aplicativo, já que voltar para casa de ônibus, cheia de bolsas de compras não era uma boa ideia. Quando atravessamos a porta do apartamento e jogamos as bolsas na sala, minha miga se jogou no sofá.

- Animada para amanhã?

- Claro. – Sentei no outro sofá a sua frente. – Só estou um pouco tensa.

- Por quê? – Ela se ajeitou no sofá, prendendo os cabelos cacheados no alto da cabeça em um enorme coque.

- Eu pesquisei o endereço da escola e vi que fica em um bairro chique. Nunca trabalhei em uma escola assim, sempre trabalhei em escolas mais simples.

- O diretor da escola é gente boa. A minha amiga que levou seu currículo trabalha lá como serviços gerais há alguns anos e gosta de trabalhar lá. Paga direitinho e dá benefícios.

Suspirei.

- Eu sei e isso é ótimo, mas estou tensa.

Ela se esticou pegando minha mão.

- Vai dar tudo certo, ele vai gostar de você.

Assenti agradecendo a presença dela ali, e tudo o que fez por mim. Não a desapontaria, faria meu melhor no dia seguinte.

***

Já tinha três dias que eu estava no meu novo trabalho. Nunca havia trabalhado em uma escola tão grande e em um bairro rico como esse, mas no fundo era tudo igual, crianças são crianças em qualquer lugar. E como professora de ensino infantil, pude constatar isso rapidamente.

Meus pequenos se distraíam com massinha e brincadeiras, assim como as crianças das escolas que trabalhei, e eu tinha uma ajudante, a Larissa. Pelo que fiquei sabendo, Larissa assumiu a turma sozinha por duas semanas depois que a professora precisou ser internada às pressas. Sendo assim, eles estavam precisando de uma professora do ensino infantil com a mesma urgência que eu precisava de um emprego e isso foi providência divina.

A escola era na Barra da Tijuca, bem distante de onde eu morava, em Olaria, um bairro bem mais simples, levava mais de uma hora de ônibus para chegar até lá, mas com o salário, em breve poderia comprar um carro, o que facilitaria as coisas para mim.

A maioria dos professores eram meio agitados e apressados, mal paravam para falar alguma coisa, mas minha vizinha da sala ao lado, a Anna, era gente boa. Me emprestava sua ajudante quando eu precisava e eu emprestava a minha, olhávamos a turma uma da outra quando precisávamos nos ausentar por algum motivo, passávamos o intervalo e a hora de almoço conversando, e estava sendo muito bom ter uma amiga no meu trabalho.

Mas durante toda a semana uma coisa me incomodava: as mensagens do Isaías. Eu sabia que ele não ia desistir fácil. Ele ligava e eu nunca atendia, cogitei mudar meu número de telefone, mas acho que uma hora ele vai cansar. Agora ele já não ligava, mas me enchia de mensagens. Enchia mesmo, pois eu bloqueei o contato e ele não consegue mais me mandar mensagens.

Antes de bloqueá-lo, quando estava me preparando para almoçar com a Anna, eu vi suas mensagens. Incrível como elas iam mudando de tom. As primeiras era cheias de carinho, me pedindo perdão e dizendo que não vivia sem mim. Depois começou a dizer que eu não podia fazer aquilo, como se fosse minha obrigação e as últimas estavam mais ríspidas, me dizendo que eu era dele e que se eu fugi para ficar com outro homem que iria descobrir.

Não contei para a Anna o que me afligia, mas ela percebeu meu semblante desanimado e tentou mudar de assunto, me animando, mas eu também não ficaria presa a um homem como meu ex-namorado, propus a Anna que um dia desses deveríamos sair juntas, e ela topou dizendo que precisávamos nos distrair um pouco, concordei, só não sabia exatamente quando colocaríamos nosso plano em prática.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022