Jace
Eu olhei por cima do computador quando ouvi o som de saltos batendo, e a figura que adentrou o escritório se assemelhava a uma criança - ligeiramente irritante e totalmente avoada. Louise corria sobre seus saltos pequeninos e acelerava as pernas minúsculas. Eu ri, era impossível não rir. Balancei a cabeça quando ela se aproximou, com o sorriso idiota que iluminava o rosto. Seu rabo de cavalo balançava de um lado para outro como uma hélice. Lou - como Daniel, o cara que é secretamente apaixonado por ela chamava - veio na minha direção. Franzi as sobrancelhas e me inclinei para trás, ajustando as costas no encosto da cadeira. Passei os olhos nela, percebendo seu casaco rosa gritante e estampado por arco-íris e unicórnios. Deixei o ar escapar por minhas narinas com ar de desdém quando ela se sentou na cadeira à minha frente. Louise, a irritante criatura que tenho que aturar todos os dias é um pé no meu saco. Droga! Desde quando nossa chefe decidiu que dois funcionários trabalhando em conjunto seria a melhor solução, tenho que aguentar Louise tagarelando o dia inteiro no meu ouvido. Ela sempre parece ter algo na manga para me irritar. Eu odeio ela.
- Bom dia, Jace! - eu a ignoro, volto meus olhos para a tela do computador e respiro fundo. - Está fazendo sol, mas esse casaco estava perdido no meu guarda-roupa, por isso decidi usar ele hoje. Eu acho que quando faz sol deveria ter arco-íris. Seria lindo, não? - Ela se inclinou, colocando as mãos sobre a tela do meu computador. Que audaciosa... - Você deveria ser educado e dizer "bom dia, Louise!".
- Cala a boca - eu disse, tirando os olhos da tela e erguendo-os até os dela. Percebo que são azuis, levemente imperfeitos por uma mistura amarelada e esverdeada. São brilhantes, e contínuo - Por favor. - Forço um sorriso e noto que minha barba roça meu rosto. Levanto uma sobrancelha. Ela continua na minha frente, perto demais para meu gosto. Louise sorri e fecho meu sorriso.
- Você é chato.
- Vá se foder. - Eu digo. Ela arregala os olhos, fingindo estar magoada e com tédio assisto ela cair em sua cadeira, desfalecida.
- Você deveria ser mais legal comigo. Algum dia desses você não vai ter ninguém para te desejar bom dia. Nem a mim. - Sua voz é firme. Ela dá bom dia para todo mundo do setor. Eu não quero seu bom dia, não quero que ela fique perto de mim e não quero ser legal com ela.
- Louise, se esse dia chegar, vou ser o homem mais feliz do mundo. Agora, se por acaso você ficou cega de repente, estou trabalhando. Não me atrapalha, idiota! - Minha voz arrastou-se precisamente calma. Ela riu.
- Nossa... você é tããão gentil - ela disse com um tom debochado, vi quando girou os olhos nas órbitas e sorriu, pegando um lápis sobre a mesa e mordendo de um jeito sexy. Seus lábios eram carnudos, tão vermelhos e macios, imagino eu, que parecem perfeitos. Como você consegue ser tão... irritante?
Respirei fundo e finalmente me inclinei sobre a mesa, me concentrando, enfim, no que estava fazendo antes da atrapalhada chegar. Ou melhor, da própria "atrapalhação".
Elouise
Eu deixei meu sorriso se afrouxar quando o cretino do Jace me ignorou por completo. Levantei uma sobrancelha e coloquei os fones de ouvido retirados de minha bolsa. Procurei uma música em meu celular e sorri novamente quando retirei os conectores da entrada do celular, deixando a música - que ele odeia - ressoar num volume consideravelmente normal. Balancei a cabeça sobre meu pescoço, deixando o ritmo me abalar. Jace parecia concentrado - ainda - e eu continuei.
Jace Mackenzie é simplesmente o cara mais babaca que pode existir. Quando comecei a trabalhar na Sanders Inc, ele me ignorava por muitos motivos, mas sempre deixava bem claro que eu era o tipo de garota que ele só usaria uma vez, e descartaria como um palito de dentes. Bem, isso era antes de Sarah Sanders, nossa adorável chefe, decidir que funcionários trabalhariam melhor em duplas do que individualmente. Então o maldito do Jace achou que seria ótimo tornar minha vida um inferno, o que não me deu escolha a não ser retribuir na mesma moeda.
Olhei ao redor enquanto percebia o computador iniciar. lambi o lápis e o mordi, olhando para ele e tinha certeza que ele também estava me olhando. Ele sempre me olha com aqueles olhos castanhos curiosos. Ai... e que olhos... a não ser pelo jeito bruto, e acredite, ele se assemelha e muito com um gorila quando se trata de modos, ele é terrivelmente - pro meu azar, é claro - lindo. O desgraçado consegue ser o próprio tesão encarnado. Com aquela camisa tentadoramente junta ao corpo cheio de músculos definidos, me imaginei, várias vezes, aliás, experimentando o calor e o jeito dele, bruto, de me foder. Parei de morder os lábios e de repente notei que estava mordendo meu lábio inferior. Droga!
Ele literalmente transou com todas as mulheres do andar, e imagino eu que até Sarah entrou na equação. Ele é um pervertido. Semana passada Julia, a amiga de Daniel, um cara que me persegue como um cachorro carente, disse que ele era o melhor. Disse que ele fazia a um nível de excelência que se perguntou se não foi o mesmo quem havia inventado. Ela disse que gozou 5 vezes, sem parar. E eu, claro, só podia imaginar o que acontecia entre os dois enquanto estavam trancados em algum lugar do escritório. Maldito. Sorri, deixando minhas pernas se apertarem. Senti um calor em apenas pensar como ele iria...
- Oi, Lou - Daniel interrompeu meus pensamentos e virei minha cabeça para o lado. Sorri para ele e percebi que só então Jace olhou na minha direção. - Eu tava pensando se a gente poderia sair mais tarde... eu gostei da nossa última vez. - Daniel Miller é fofo. Ele é o tipo de cara que você não acha com frequência. Ele é simplesmente muito fofo, até demais. Ele não é de se jogar fora. Seus cabelos são loiros e encaracolados, seus olhos são azuis e seu sorriso é perfeito, na verdade, ele sempre está sorrindo como um bobo. Quando ele percebeu o que Jace estava fazendo, disse que iria me proteger dele, de qualquer forma, o que me fez me aproximar dele, e o que fez ele nunca mais desgrudar de mim. Ele é muito carente, num nível irritante. - Por favorzinho? - Semicerrei os olhos quando sua voz mudou de firme para fraca e fina. Jace sorriu, tapando a boca, fingindo que estava tossindo.
- Eu não queria te prometer nada, porque minha agenda está beeem puxada, mas quem sabe na sexta? - Eu digo, olhando para ele. Seus olhos azuis brilharam como uma luz atingindo seu limite.
- Você não vai se arrepender! - Ele disse, comemorando por trás da voz extremamente feliz.
- Ela tem um péssimo histórico. Na verdade, um horrível. - Jace disse, sorrindo pelo que me pareceu a primeira vez hoje. - Não me leva a mal, Dan, mas você é um idiota do caralho. Ela vai usar você e depois jogar fora. De homem para homem... - ele levantou as mãos quando franzi o cenho, surpresa.
- Jace, por favor, não fale dela desse jeito. Ela não merece quando você é maldoso assim. - Ele alargou o sorriso e pareceu segurar uma risada. Eu bufei e olhei para Dan. De uma coisa Jace tem razão, eu realmente não queria sair uma outra vez com Dan. Da última vez que saímos, o levei para meu apartamento e ele teve uma queda de pressão quando me viu pelada. Foi totalmente frustrante, e o pior é que eu queria tanto... ele acordou 10 minutos depois e me implorou por desculpas.
- Bem, isso não é do meu interesse. - Jace recuou, e então o chamou com a mão. Quando Dan passou por mim e se inclinou para escutar o que ele iria dizer, eu pude ouvir o tom provocantemente alto: - boa foda. Se é que você aguenta...
Dan o encarou com fúria, mas é claro que não fez nada demais a não ser olhar para mim como se nada tivesse acontecido e sorrir, girando e voltando ao seu lugar.
Eu definitivamente não entendo por que Jace me inferniza tanto. E não que seja exclusivamente pessoal, ele faz isso com todo mundo, mas mais comigo. Ele é a própria definição de tortura. Tanto por ser o que é - uma delícia - quanto por ser quem é - um grosso.
- Como todos vocês sabem, Sanders Inc é uma empresa que sempre está em constante mudança. Nós sempre queremos o melhor e oferecemos o melhor, sempre procuramos a satisfação e entregamos a satisfação. Sempre, não importa quem seja, somos, temos o prazer de ser, na verdade, os melhores. É por isso que agora - Sarah conseguia ser bem clara às vezes ( quando não parecia uma louca e estava gritando com todo mundo, o que, em geral, acontecia com muita frequência). Ela apontou para uma TV atrás de si. Sarah era o tipo de mulher desejada por muitos homens, e eu duvido, e muito, que ela seja como eu, uma pobre mortal que não chega aos pés do que ela é. Paradoxal. - Nós decidimos inovar de novo. - Minha atenção é totalmente tomada pelos cabelos loiros lisos e sedosos. Comparada a ela, meus cabelos ruivos que geralmente deixo preso num rabo de cavalo longo parece uma palha. Ai que inveja... ela tem uma cintura tão fina, que me pego todos os dias rogando praga para que a desgraçada exagere na pizza. Sarah é elegante e glamourosa, não me admira que ela tenha um caso com Jace. Ela poderia tê-lo facilmente num estalar de dedos. Quem quisesse, na verdade. Eu também odeio ela. Odeio por ser linda e por conseguir tudo o que quer. Fala sério... ela parece uma versão humana da Barbie, só que menos esquisita. Apesar de ter 45 e cinco anos. Mordo mais um pedaço do croissant e praguejo internamente. Ela tagarelou mais alguma coisa, o que adora fazer, já que literalmente só grita o dia todo e obriga seus escravos a prestarem serviços. - Cada um de vocês vão pensar numa ideia nova, avassaladora e incrivelmente impactante. - Ela arrasta os olhares dos homens enquanto desliza na frente da TV. Todos estão de olho nela, e quando olho do canto do olho para Jace, após observar as pessoas quase babando, ele ainda está com a mesma cara feia de sempre, com os braços cruzados sobre o peito e exalando tédio. Há boatos de que ele tenha um caso com a chefe, mas ainda nada comprovado. Eu odeio ele por isso, também. Quando percebe que estou o encarando, levanta uma sobrancelha e ergue o braço, abrindo a boca.
- E quanto aos parceiros? Podemos trocá-los? - Ah, a pergunta que ele sempre fazia assim que possível. A cada um mês, havia uma discussão sobre isso. Eu sabia bem o porquê dele não me querer por perto, e ele sabia bem que não queria me ter por perto. Sempre que podiam, todos trocavam de parceiro, mas isso nunca aconteceu conosco. Apesar dele me odiar 100% do tempo, o que eu acho super engraçado - aliás me divirto muito -, nós somos os melhores quando se trata de profissionalismo. Sarah diz que somos excepcionais, e que não importa o quanto ele me odeia, o que importa é se ainda faz sentindo e se ele continua fazendo gostoso... eu não entendi a última parte, mas... - Eu tenho percebido que minha parceira tem se saído muito bem nos resultados gerais. - Porcaria! Isso é um golpe baixo. Ninguém mexe nos meus bombons! A cada super ideia obtida por nossas mentes, ganhamos 2 estrelas. Ao completar 5 estrelas, ganhávamos um prêmio: uma caixa de bombons que Jace gentilmente me jogou na cara - eram deliciosos. Ganhamos as 5 estrelas 3 vezes seguidas e descobri porque ele não aceitava os bombons: ele odiava chocolate. Meu Deus! Quem odeia chocolate? Eu engulo outro pedaço do meu croissant.
- Temo que não haja resposta necessária à sua pergunta, sr. Mackenzie. - Ele torceu a boca, parecendo confuso. - Todos os parceiros vão ser mantidos por tempo indeterminado. Nosso trabalho tem rendido frutos, muitos deles excelentes inclusive. Isso se deve ao total aproveitamento de ideias.
- Na verdade - eu digo, ainda de boca cheia. Me ajeitei na cadeira quando Jace me olhou com os olhos furiosos - eu acho que minha dupla tem dado muito certo. - Agora ele me olha como se quisesse me estrangular. Credo. - E digo mais... somos os melhores. - Dizer essas palavras e ver a cara dele é muito melhor que ter um orgasmo duplo. Se eu ainda estivesse comendo, engasgaria quando segurei o riso.
Bastou dizer aquilo para que toda a sala virasse uma algazarra de vozes. Jace me encava com ódio. Ele apertou os braços cruzados e reclinou na cadeira. Gargalhei por dentro.