A primeira vez que vi Arthur Johnson eu era nova em Las Vegas, nasci em São Paulo, mas no fim da adolescência meus avós se mudaram para Salvador, meus avós maternos são bilíngues, eles eram professores de língua e desde cedo aprendi não apenas com eles, como nas escolas com mensalidades caras que eles pagavam, e graças a isso, hoje, consigo falar inglês muito bem, e moro aqui a cinco anos.
Conheci Artur.
Embora nosso estilo de vida seja muito diferente, nos entendemos. Artur me ama. E eu a ele. Hoje em especial ele me convidou para um jantar com sua família, estamos juntos a seis meses e nunca recebi um convite para conhecer seus pais.
Me sinto feliz por isso, porém achei que a festa seria mais reservada, e acho que ele notou meu desconforto.
Uso um vestido cor bege, simples, com algumas miçangas imitando pérolas nas mangas dele. Meus cabelos estão presos em um coque afofado, deixando-os mais livres com suas ondulações de fios castanhos bem claros.
Artur com seus vinte e um anos tem os olhos verdes, expressivos, alto e magro, barba bem ralas, cabelos loiros e ama jogar tênis.
Artur conversa com a secretária do pai dele por alguns minutos, ela é jovem e bastante atraente, Hilary a mãe do Artur tem ciúmes dela, Artur já me disse isso algumas vezes, embora garanta que o seu pai não tenha nenhum caso com a secretária, depois ele vem até mim com uma taça de champanhe que acabou de pegar, me entrega e diz:
- Você é a melhor coisa que me aconteceu. Te amo Liz.
O pai de Artur não tira os olhos de mim, embora essa seja minha primeira vez nessa casa, não é a primeira vez que ele bateu de frente comigo. Ainda não tive coragem de revelar para Artur que o seu pai esteve algumas semanas atrás na minha casa me pedindo para eu me afastar dele.
Como se Artur não fosse grandinho o suficiente para tomar suas próprias decisões.
Esse homem é terrível.
Bruce Johnson é dono de uma rede de hotéis e acha que me aproximei do seu filho por dinheiro, quando na verdade foi o oposto partiu do Artur se aproximar de mim.
Ainda bem que ele não puxou ao pai, para ser sincera estou torcendo por isso, pois até agora ele sempre me tratou de maneira gentil, pego sua mão e lhe dou um leve aperto, lhe assegurando que ele me tem independente de qualquer coisa.
- Eu também. - Digo, me sinto segura ao seu lado.
Ele se afasta de mim, me deixando sozinha em meio as pessoas que não conheço, passo o olhar pela sala de visitas, é como se eu não existisse, como se fosse algum adereço medíocre fazendo parte da decoração.
Engulo o champanhe com raiva.
Noto em uma silhueta masculina e corpulenta no meio da multidão, ao lado de uma senhora mais velha, com cabelos esvoaçado em um penteado exótico, assim como a maquiagem e o vestido numa pegada mais futurista, ela tem olhos puxados e pele negra, a senhora sorri de maneira graciosa para o que parece ser seu acompanhante, ele mantém uma postura fechada, ranzinza.
Sua mão grande segura com força uma taça de cristal, seus cabelos tem fios escuros, sedosos, seu rosto carrega uma fisionomia impenetrável, queixo quadrado e rude, uma barba mais espessa que a do Artur contorna seu rosto, lábios grossos e pele levemente morena. E detalhe, o homem está vestido todo de preto.
Chego a conclusão que ele tem um ar perigoso, como se estivesse totalmente deslocado nesse lugar, mesmo a senhora o guiando, e nisso eu o entendo, me sinto deslocada também e para completar Artur me deixou sozinha.
Ele cruza os braços grandes e definidos através do terno, sinto meus pelos eriçarem quando ele se vira e me nota. Nossos olhos se cruzam, ele franze o cenho um pouco, eu me sinto desconfortável. E coloco a taça vazia na bandeja de um garçom.
Não encontro mais Artur em lugar nenhum, prendo a mão no meu vestido, quero ir embora.
Meu rosto fica em chamar com a persistência do homem em me olhar, me deixa um pouco fora de mim. Por que ele ainda está me olhando? Não posso mais continuar no mesmo ambiente que ele. Deus. Por que diabos fui reparar nele? Passo por uma mesa de bufê. Penso que posso pegar algo e disfarçar, pelo menos farei alguma ação - a de comer, e não ficar parada em um canto como uma estátua. É, faço isso, pego algumas coisas e como e ao passar o olhar pelo ambiente eu não vejo mais aquele homem, nem seu olhar perseguidor.
Deixo o prato vazio de lado, saio beirando as laterais do recinto, encurralada, e a procura de um lugar menos barulhento possível.
Abro uma porta, e entro em uma sala pouco iluminada com uma sensação tênue do silêncio me acalmando, a sala está escura também e acho que me encontro em um escritório, fecho a porta atrás de mim e tateio a parede em busca do interruptor.
- Deixe apagada. - Me assombro ao ouvir o som de uma voz masculina, e um tanto impaciente.
O cheiro da sua colônia fica cada vez mais próxima, recuo o dedo da parede, assim como o meu corpo que choca com algo firme, meus tornozelos tocam no tecido da sua roupa.
- Eu sinto muito, não queria interromper, só estava à procura de um lugar calmo.
Minha boca está seca, estou completamente amedrontada de ficar trancada no escritório com um estranho, não consigo vê-lo, mas a sua respiração ainda continua muito próxima de mim.
- Aqui tem tudo, menos calma. - Ele cheira a partilha de hortelã e a tabaco.
- Eu vou sair, desculpe.
- Fique.
Posso não ver muito bem, há uma fraca iluminação vindo do jardim, as persianas da janela estão abertas, o barulho de algo se chocando na porta, posso imaginar que seja sua mão.
Estremeço, deixo um fraco lamento sair entre os lábios. Movo minhas mãos pela porta e encontro a fechadura, destravo e uso toda minha força para abri-la, porém não funciona. O suor pinica em minhas axilas, expelindo meu medo por cada poro da minha pele.
- Deixe-me ir. - Peço em um sussurro.
- você é a garota que estava me olhando. - Ele diz, passa a mão em meu braço, toca nas pérolas do meu vestido, produz um som de deleite. - É você.
Faz essa afirmação antes de tocar em minha cintura, até meus quadris, vira meu corpo, e mesmo sobre o tecido, me desconcentro com seu toque. Que inferno ele está fazendo?
- Deixe-me ir.
Devo admitir que gosto do seu cheiro, e sua voz, e logo me lembro da figura sombria que me observava, másculo e enigmático, e agora que ele está tão perto sinto algo diferente de tudo que sentir, ele me causa isso, é como um dia ensolarado sendo apreciado da areia da praia. Obviamente a temperatura está quente.
Mas eu tenho que parar isso o quanto antes...
- Não quero. - Ele diz, e enfia os dedos na minha nuca, bagunçando meu coque até soltá-lo. Inferno. Ele acabou de me despentear... qual o problema dele? Sei que isso é errado, tenho um namorado, ainda assim esse "algo errado" me atrai. - Quero fazer qualquer coisa, exceto deixar você sair por essa porta, linda.
Pisco atordoada.
Mesmo nesse vestido sem graça, nada em mim chama atenção, já ele, é um homem sedutor, ele penteia os fios do meu cabelo com os dedos, e minha cabeça move minha para trás. Desde quando sou tão descarada em deixar um homem me tocar assim?
- Eu preciso ir ago...
Não me deixa completar, pois toca ao redor dos meus lábios com o polegar, mantenho os lábios entreabertos, ele vai além e me beija, indo mais fundo com sua língua, me beija de maneira avassaladora, tento me ajeitar, tremendo na base entre os saltos, com o medo de ser pega. E isso é excitante, mas por que? Por que eu me sinto excitada com essa ideia? Quem sou neste momento? Eu não sou assim. Juro que não. o prazer parece se expandir cada vez que ele dá voltas com sua língua, tento acompanhá-lo, mas me sinto precipitante tanto na arte de ceder ao perigo, como na de beijar tão bem quanto ele.
Meus lábios se estremecem em sua boca, suas mãos vasculham em minhas costas parecem procurar minha pele, meu vestido não tem brecha alguma, ele morde meu lábio inferior que arde, como se fosse para se vingar por não ter tanta liberdade ao me tocar.
Mas seu beijo compensa qualquer toque, se bem que queria mais, toco em seu rosto para afastá-lo, mas ao sentir a textura da sua barba grossa esqueço dos últimos minutos de existência, de pensamentos, do que me trouxe aqui, e até mesmo o porque não posso beijar outro cara, porque isso é tão bom, tão envolvente que me inebria, o que me faz retribuir o beijo com ânsia, ele exprime um som de um gemido. Meu corpo esquenta como um inferno. Ele está gostando desse beijo tanto quanto eu? Porque eu devo estar no chão, derrubada e desmaiada tendo um sonho bom.
O homem misterioso separa os lábios e eu reclamo devolvendo a mordida que ele deu enquanto me beijava, ele rir descaradamente nos meus lábios, e não desiste da ideia de interromper o beijo. Dizem que tudo o que é bom dura pouco, não é?
Entretanto, ele prolonga os beijos até meu pescoços, arqueio com a mente confinada em seus toques, suga minha pele e merda isso vai deixar uma marca, toco em seus ombros o afastando.
- Me diga seu nome. - Ele diz, sua voz está rouca e controlada. Enquanto continua me beijando na região do pescoço me fazendo arrepiar com sua boca em minha pele, e os pelos da sua barba.
- Não. Melhor não.
Segura meu pulso colocando contra a porta.
- Não vai sair daqui enquanto não souber seu nome.
- Vão sentir minha ausência, vão vim me procurar, me deixe ir.
Ele salta uma lufada descrente, me encolhi mais ainda. Adotando postura de presa, ele é um caçador, mas creio que esteja caçando a pessoa errada. Sou uma mulher simples, não ousaria largar minha vida banal para me envolver com ele.
- Não vão vim e você sabe disso, ninguém parecia se importar com você na festa. Então por que está aqui?
- Não é um problema seu.
Tento ocultar meu medo na grosseria. Meu orgulho também, pois ele tem razão ninguém ali além do Artur se importa comigo.
- Me diga seu nome. - Fala em um tom mais exigente.
- Liz.
- E o que mais?
- Ana Liz.
- Isso... - Se cala e afasta seus lábios da minha pele. - Ana Liz de quê?
Meus avós escolheram esse nome, Ana era o nome da minha mãe. Tento me desvencilhar do seu aperto, consigo livrar minha mão, mas ainda estou imobilizada entre a porta e ele.
- Martins.
- Ana Liz Martins. - Ele segura meu queixo, ergue e o morde. - Eu vou encontrar você. Agora pode sair. Eu posso lhe dá tudo, menos tranquilidade.
Abro a porta bruscamente, me sentindo tirada da minha zona de conforto, da segurança da minha tranquilidade. Quem era aquele homem? Não sei nada sobre ele, mas pode ser algum amigo de negócio do pai do Artur espero que, o que aconteceu entre a gente permaneça entre essas paredes.
Espero nunca mais vê-lo.
Eu preciso de muita energia para o meu trabalho, desde que comecei a trabalhar nesse restaurante busco algo em minha área, curso gastronomia, mas ainda não tenho chance alguma de conquistar uma vaga como auxiliar de cozinha, por isso consegui usar experiência de garçonete para trabalhar nesse restaurante.
Chego no meu turno logo pela manhã, passo pano na mesa com o álcool em todas as mesas da minha praça, pego os talheres já esterilizados por outro grupo de garçons e começo a montar meu mise en place, colocando na ordem adequada. Conforme as regras do restaurante.
Artur anda meio ocupado esses dias, ajudando seu pai no hotel, a minha praça foi reservada para o café da manhã. Assim foi o que me falaram, os clientes que se servem, mas eu tenho que pegar as bebidas manter a mesa limpa, remover ou trocar os pratos, copos, talheres quando eles precisarem.
Não é o melhor emprego do mundo, mas paga o suficiente para suprir minhas necessidades, digamos assim.
- Já terminou aí? - pergunta o meu Maître.
Ele é um senhor de meia idade, careca e com ar de determinação, muito mandão, detesta atrasos e eu estou me atrasando.
- Só falta algumas taças. - Falo me adiantando para pegar as taças que faltam.
Um grupo de homens entram no restaurante, chamam atenção não apenas por estarem com algum tipo de fardamento preto, mas por serem homens atraentes, conto três homens, o último fica de costas para a minha praça, conversando no balcão provavelmente esteja confirmando se está tudo ok na reserva.
- Olha que gostosos. - Savana fala sobre meus ombros, enquanto tento equilibrar as taças na bandeja e espiar os homens ao mesmo tempo - Troca de praça comigo, por favor.
- Savana... - Chamo sua atenção para ela voltar para o trabalho.
Savana é mais alta, com peitos maiores também, quadris largos, negra com lindos cabelos cheios e crespos, ela é linda e chama atenção não apenas por sua beleza, mas pelo carisma. Nós também temos idades próximas, no entanto, ela é mais velha.
- Sortuda. - Pisca os olhos.
Equilibro a bandeja e faço o percurso de volta até a minha praça com a bandeja cheia de taças.
Espero chegar a tempo, antes que o Maître veja que alguns deles já sentaram na mesa e eu não terminei de colocar tudo nela.
O homem que estava no balcão caminha pelo corredor, me dá uma tremedeira ao reconhecer o indivíduo de algumas semanas atrás, ele se volta para a praça, e eu também.
Nos encaramos antes dele sentar, ele permanece sério como se não tivesse me reconhecido, quero jogar tudo para cima e sair correndo, me esconder atrás do restaurante. Longe da acusação que me faço desde que o beijei e não contei para o Artur.
Algo dentro de mim grita:
Traidora, traidora, Artur não merece você!
Limpo a garganta, engulo o nó da vergonha. Devo ter ficado completamente vermelha agora.
Um homem de cabelos loiros, sorriso frouxo, meio párvulo, quando me ver, assobia e diz:
- Uauu... Não tinha me falado que esse restaurante era tão interessante. Toca no cotovelo do rapaz ao lado.
Há esses dois que parecem mais jovens, o outro mais velho que não disse nenhuma palavra e permanece com a cara fechada, e claro o homem misterioso que eu beijei.
- Eu disse que esse restaurante seria bom para comemorarmos nosso progresso - o outro rapaz moreno tira o aparelho celular do bolso.
Enquanto o homem misterioso permanece de braços cruzados observando os dois jovens.
- Não é hora de palhaçada, - diz o mais velho - estamos aqui para tomarmos café.
- E pelo visto ser babá desses dois. - Me arrepio, ao ouvir a voz do homem misterioso novamente. - Eu vou me servir.
Ele não me dá atenção, sequer olha para mim. Graças a Deus. Suspiro. Queria que ele tivesse agido dessa forma na festa também, aquele beijo não teria acontecido. Aos vinte e três anos não ia imaginar que trairia o Artur daquele jeito. E com um homem bem mais velho, não diria com idade de ser meu pai, mas que é velho o suficiente para me sentir inexperiente ao seu lado. Talvez tenha trinta e cinco anos, ou mais.
- Bom dia senhorita. - Fala o mais velho, que tem olhos castanhos escuros.
Restando apenas ele na mesa, os outros se levantaram para se servirem.
- Bom dia senhor! - respondo.
- Posso me servir do que quiser?
- Sim senhor, apenas as bebidas serão pagas as outras coisas na mesa estão inclusa...
- Ouviu isso Mark? Não podemos exagerar na bebida ou tudo vai para o seu bolso.
- Melhor você calar a boca Conor, e vim logo se servir. - Mark fala. Agora sei o seu nome...
Mark.
Mark.
Mark.
Por que me beijou?
Não vou ser hipócrita eu também o beijei.
O homem que estava sentado vai até a mesa também.
Enquanto Mark retorna com um prato não muito cheio, hoje também ele está todo de preto. O que ele é? Algum tipo de agente especial? Trabalha para um serviço secreto?
Eu sou uma pessoa que adora teorias, vivo cheio delas na minha mente, na verdade eu cultivo uma mente fértil...
Isso me faz pensar sobre aquele dia no escritório, não era para ele estar ali, mas na festa.
Estava por acaso fazendo algum tipo de investigação? Imagino que o pai do Artur esteja envolvido em algum negócio sujo. Não dúvido, Bruce passa imagem de uma cara que faz muita coisa errada debaixo do pano. Será? Oh meus Deus...
Então eu que peguei ele no flagra, e possivelmente o resto foi tudo para me distrair, para fugir das indagações do real motivo de estar no escritório. Seus beijos, seus toques e palavras mentirosas que me fizeram acreditar que eu era desejada por ele. Não era de se esperar que a decepção me atingisse de maneira tão brutal.
Qual o meu problema? Por que eu fui por esse caminho? Não. Não Ana Liz. Foque no trabalho e largue suas teorias loucas de lado. Mas não é coincidência demais me encontrar com ele novamente no local que eu trabalho? Por acaso beijei um tipo de stalker?
- Quero um suco de abacaxi com hortelã. - Ele pede, apenas disse com os olhos focados em seu prato, como demoro alguns segundos para responder levanta o olhar para me encarar de maneira severa.
- Sim, eu vou pegar.
Pego a minha bandeja.
- Espere aí, espere o os outros se sentarem e falarem o que querem, para não dar mais de uma viagem.
Os dois rapazes mais jovens se sentam na mesa, conversando entre si sobre suas escolhas no bufê.
Me recuso a agradecer ele por isso, porque é o meu trabalho faço isso todos os dias, rodo esse salão e conheço esse restaurantes tanto quanto os cômodos do meu pequeno apartamento.
- O que vão querer para beber? - pergunto.
- Por favor, um suco de laranja. - Diz o jovem mais risonho.
- Dois sucos de laranja. - O moreno fala.
- Uma cerveja, bem gelada. - Fala Conor.
- Não pode beber em horário de trabalho Conor.
- Eu faço minhas regras no meu café da manhã Mark, se eu quiser beber cerveja vou beber cerveja. - Replica Conor, cortando um pedaço da torta de morango.
- Com licença.
Me afasto deles, Savana atravessa o salão, vou até a cambuza e faço o pedido das bebidas, aguardo fazer o suco de abacaxi com hortelã que é para Mark. E laranja para os dois mais novos, não vai demorar muito, as frutas estão descascadas. E a essas horas ficam duas pessoas na cambuza.
- Obrigada Brian. - Agradeço ao rapaz que fica na campuza.
Ele ajeita a toca antes de dar as costas.
O restaurante serve café da manhã, pois é cercado por prédios comercial, funciona durante a noite também, fins de semana apenas pela noite e os funcionários revezam a escala. O dono paga horas extras, como se fosse um bônus. E os donos são brasileiros, amigos dos pais de Savana, e ela também é brasileira, claro.
- E aí? - Savana pergunta, joga a bandeja no balcão da cambuza, pega alguns pratos sujos da sua bandeja e fala: - Um cliente lambuzou todo o prato com a calda de chocolate.
Monto minha bandeja e coloco adoçantes, canudos, ela faz o mesmo.
- As coisas se complicaram, sabe.... - Cochicho. - Lembra da festa na casa do Artur e do homem misterioso que beijei?
- Sim! Não vai me dizer que é algum deles?
Ela espia o salão, mas necessariamente para minha ilha.
- Sim, é!
- Qual? Me diz, pelo amor de Deus, qual?
- Um tal de Mark, o cara que estava no balcão confirmando a reserva. - Falo sem jeito, pego a garrafa de cerveja e os dois sucos de laranjas já prontos.
- E o mais lindo também. - Savana morde os lábios. - Eu trocaria ele pelo Artur.
- É mais que beleza... O Artur me entende, me ama, e semana passada colocou um anel em meu dedo. - Olho para o anel, o anel que me deixou deslumbrada.
Savana revira os olhos.
- Eu ainda prefiro o tal do Mark.
- Nada te impede de dar em cima dele.
- O meu trabalho de garçonete me impede, queria ter encontrado ele nessa festinha na casa do Artur e de preferência em um dos quartos.
- Sua louca, ao trabalho.
Pego a bandeja e retorno, coloco a jarra de suco de abacaxi na mesa, assim como do suco de laranja. Por último a garrafa de cerveja.
Sirvo o copo de Mark primeiro, não porque ele é prioridade, mas porque foi o primeiro a pedir.
- Deixa que eles se servem. - Fala Mark.
- Qual é Mark? - pergunta o rapaz loiro em um tom divertido.
Mark apenas o ignora.
Depois do café da manhã Mark vai até o balcão pagar pelas bebidas, os outros se despedem, agradecendo pelo atendimento.
Eu começo a limpar a mesa.
Depois de um tempo encaro um par de botas no chão, próximo a mesa que estou limpando.
- O senhor esqueceu alguma coisa?
- Ainda me lembro de você. - Isso me desestabiliza. - Nos encontraremos por aí.
Ele sai. Desejo que Mark esqueça o endereço desse restaurante, mas isso não vai acontecer, o que me faz ir atrás dele, saindo da minha zona de conforto novamente. Antes dele chegar ao estacionamento digo:
- Senhor Mark, isso não vai ser possível.
Ele se vira, balançando as chaves do carro entre os dedos.
- E por que não?
- Não quero mais nada que envolva aquele meu erro, eu sou noiva. Por favor, não volte mais a esse restaurante.
- Você é muito convencida em achar que pode me impedir de frequentar esse restaurante, sou livre para ir onde quiser.
Por último abaixa o olhar até minha mão, eu tinha pegado ele encarar o meu anel enquanto servia, mas agora isso é mais evidente. É a prova que existe um compromisso entre eu e Artur, mas Mark parece não se importar com isso.
Sei que Artur é um homem ocupado, e achei muito fofo da parte dele me enviar algumas flores, pego as rosas na portaria, depois chamo o elevador, cheiro as rosas enquanto o elevador sobe, suspiro e não tenha dúvidas que Artur é a minha melhor escolha.
Leio o bilhete escrito:
Hoje eu busco você para jantarmos, há algo que preciso contar.
Um misto de ansiedade, apreensão, e muita curiosidade para saber o que ele precisa me contar.
Meu apartamento é pequeno, mas ajeitei ele, meus avós me mandando alguns trocados para ajudar na compra da mobília, quando me mudei tinha apenas o necessário para sobrevivência.
Agora tenho um sofá em um tom rosa bebê, e de frente para ele um puff quase da mesma cor, eu ainda quero colocar esse puff em meu quarto e no lugar dele colocar uma poltrona, que ficará encostada na pilastra, que separa minha pequena sala da cozinha americana. Nessa pilastra fica um humilde painel com a minha TV. Há uma pequena estante onde ficam meus livros, minha samambaia.
E na cozinha há uma mesa compacta com duas cadeiras, há uma porta para o meu quarto, outra para o meu banheiro, entre a cozinha e o banheiro há uma minúscula área de serviço.
Não é o lugar mais lindo do mundo, mas é o meu cantinho onde convivi todos esses meses.
Tomo um banho, depois levo um tempo ajeitando meus cabelos e me maquiando, olho para minhas unhas e fico desanimada, pois não há vestígios de vaidade nelas, resta apenas os cotocos.
Escolho um vestido preto bem básico, meu orçamento é pouco para gastar em roupas, pois cada centavo faz diferença. Para uma garçonete em restaurante e estudante universitária, bolsa, notas... só é pensar em faculdade que começo a ter dor de cabeça.
Por fim, passo um batom rosa, pressiono os lábios e espero que isso seja o suficiente.
Deixei meu celular na bolsa em cima do sofá, e vejo algumas ligações não atendidas da minha avó.
Pela hora ainda tenho tempo de retornar à ligação e é o que eu faço.
Ela me atende, mas antes de dar atenção ao celular, ela fala alguma coisa para meu avô sobre a gata chamada Francisca que ela cria como se fosse uma filha.
- Oi gatona, vi sua ligação. - Falo, sobrando o ar na mão constatando a eficácia da minha escovação e enxaguante bucal.
- Até que fim atendeu alguma ligação minha! - fala, sabendo que não faz nem dois dias que nos falamos. - E como você está minha filha?
- Ando bem, e a senhora?
Rodopio na sala correndo para a cozinha, umedeço um pano de prato e passo na mancha de base no meu vestido, sou muito desastrada quando o assunto é maquiagem.
- Ah, minha filha, eu estou levando as coisas, você sabia que seu avô quase matou a Francisca intoxicada com a inseticida?
Ela sempre fala sobre esses assuntos... não a condeno, pois são aposentados e vivem procurando coisas para fazer, mesmo achando que eles merecem um descanso, são os melhores avós do mundo.
- Sério?
- Sim, saímos e ele resolveu colocar o remédio com a gata dentro de casa, Francisca respirou tudo... Mas mudando de assunto como vão as coisas com você e o Artur?
- Indo muito bem, já disse que somos noivos...
- Nem me fale, seu avô achou uma falta de respeito isso! Artur nem sequer ligou para conversar sobre a decisão de noivar com a nossa neta!
Mordo os lábios rindo um pouco. É, a gente entrou nessa conversa novamente, sinceramente eu queria muito que ele pedisse minha mão em casamento para eles. Ou conversasse com eles sobre isso.
Artur disse que no casamento eles estarão presentes, mas ainda assim algo me diz que não é o suficiente. Eles me criaram, quando minha mãe me entregou para eles, logo após a morte do meu pai. Meu pai morreu em um acidente após meu nascimento.
Deixo o pano em cima da pia e respondo:
- Com certeza a senhora iria dizer para ele que sou uma péssima candidata - brinco - ia dizer para ele cair fora.
- Claro que não, só acho que devemos participar desse negócio aí.
Acho graça do "negócio aí", rio e digo:
- A senhora nunca vai ficar fora da minha vida, certo? Agora tenho que ir, beijos, linda.
- Tudo bem, vê que se cuida!
Desligo a ligação, sento-me no sofá e calço as sandálias, prendo as fivelas. Artur é sempre pontual, pego uma bolsa de mão e enfio meu celular dentro, e o batom, aceno para o porteiro, atravesso a rua com a Mercedes-Benz de Artur buzinando, com o vidro abaixado, ele está com a cara de quem aprontou ou vai aprontar alguma coisa.
- Oi amor. - Digo ao entrar no carro, beijo sua bochecha.
- Você está linda.
- Ah, obrigada.
Ele pisca, dirigi até um restaurante muito longe de onde moro, é o que costumamos frequentar. Se ele tivesse me levado no restaurante onde trabalho além de não demorar tanto no trânsito eu poderia ter meu desconto de 15% para funcionários, mas Artur detesta o restaurante e já deixou claro inúmeras vezes, acho que os pais deles já tiveram algum tipo de desentendimento com o chefe.
Enfim, melhor não estragar nossa noite sugerindo para ele ir lá.
Ao chegar, saio do carro, ele pede para eu ir na frente então eu vou, não demora muito para ele me alcançar.
Nos sentamos na mesa reservada, essa é a única vez que ele puxou a cadeira para mim e começo a estranhar, pois de repente ele criou senso de cavalheirismo?
Faço meu pedido, Artur escolhe o vinho. Noto suas mãos nervosas ao servir o vinho na minha taça.
- Então, eu disse que ia contar algo importante para você.
- E fiquei curiosa desde então...
Sorvo o vinho, um sabor mais encorpado desce até minha garganta, o vinho é bom. Ótimo. Talvez o melhor vinho que já provei em algum jantar com o Artur.
E para mim coisas boas só acontecem em datas especiais, na maioria das vezes me contento com o que dá, o que tem.
- Eu fui promovido de gerente de hotel a um dos assistentes do dono que é o meu pai.
Se eu ouvi bem ele é "um dos" não que não seja um cargo importante é mais um passo na vida dele e estou feliz por isso, meneio a cabeça sorrindo.
- Parabéns!
Ele solta um riso, e essa é a primeira vez que o vejo sorri desse jeito. Presumo que ficar perto do pai e dos negócios dele é realmente algo muito importante para ele.
- Sim, só precisava disso. - Abre as mãos e coloca em cima da mesa uma caixinha - podemos nos casar, comprei um anel novo e mais caro.
- Eu já tenho um anel. - Digo sem saber como reagir, as coisas estão indo um pouco rápidas demais. Casar agora?- Artur, eu... nem sei o que dizer.
- Diz que sim! Pelo amor de Deus, ainda dá tempo, você pode pensar que tudo está acontecendo rápido demais, mas preciso de você... Vamos morar em um lugar maior que aquele seu quartinho desconfortável.
Isso é irritante, ele chamar meu apartamento de "quartinho desconfortável", pois é confortável o suficiente para eu dormir, comer e viver!
- Eu vou pensar.
- Você já aceitou ser minha noiva. - Fala convencido, desabotoando um botão do seu terno - aceita querida. Eu te amo, - pega minha mão e beija - não há nada que nos impeça, sou fiel a você, ao nosso amor...
Engulo em seco, me lembrando daquela maldita festa que beijei um estranho.
- Preciso lhe contar algo.
- Sou todos ouvidos.
- Eu beijei um cara, na festa na casa dos seus pais, não sabia quem era, entrei no escritório e ele estava lá, não me deixou sair e nos beijamos. - Não quero parecer a dramática ou fingida, mas meus olhos marejam.
Artur se afasta, acho que essa história de casamento não vai ir além, na verdade acho que ele vai terminar comigo. E eu não quero que isso aconteça, mas ele não é obrigado a perdoar uma traição.
- Por que só disse isso agora?
- Eu sinto muito Artur, fiquei apavorada que terminasse comigo, eu te amo e se vamos nos casar quero que saiba disso.
Cerra os olhos, com ar de desconfiança, percebo raivas também, porém ele só me encara de volta.
- Eu te amo, eu vou te perdoar. Aceita se casar comigo?
Fico balançada pela sua atitude, eu posso ser movida pela emoção, meus sentimentos, para dizer:
- Eu aceito, mas preciso conhecer seus pais e você meus avós.
- Claro, vamos todos nos conhecer melhor. Mas acho que somos adultos para fazermos nossas escolhas.
- Meus avós são importantes para mim. - Me lembro que eles sempre estiveram comigo, nas dificuldades, nos conselhos, nas receitas bobas do vovô para manter um homem mal caráter longe de mim. - São muito importantes para mim.
Olho para a comida sem vontade alguma de comer.
- Eu entendo, mas não acha que eles vão se cansar fazendo uma viagem do Brasil até Las Vegas apenas para me conhecer?- Na verdade, eu estava pensando que ele faria a viagem até o Brasil para conhecê-los - quando terá todo tempo do mundo, na festa de casamento, por exemplo. Pense sobre isso.
- Eu aceito casar com você, mas sobre as outras coisas eu vou pensar melhor. Chegaremos a uma solução.
O jantar com ele não teve mais nenhuma novidade, apenas a sua promoção no trabalho e o pedido de casamento.