Já passava do meio dia quando Bianca acordou com o toque do seu celular, era o porteiro do pequeno conjunto de casas onde morava, que lhe enviara uma mensagem dizendo que uma carta havia chegado a seu destinatário. Sem pensar muito, a garota troca de roupa rapidamente, destranca a porta sem nem lavar o rosto e desce três andares de escada desesperadamente.
- Onde ela está? - Pergunta a garota sem perceber que estava sendo grosseira.
- Bom dia senhorita Diaz - diz o porteiro, estendendo a mão para entregar-lhe o envelope - É a tão esperada?
- Bom dia Jaime, me desculpe. Sim, é a carta que eu esperava, estava muito ansiosa para que chegasse.
- E então ... - dizia o homem sem tirar os olhos do papel.
- Desculpe, mas eu vou ler em casa, preciso me preparar psicologicamente caso haja uma informação diferente da que eu espero. Até logo Jaime - diz a garota antes de subir correndo as escadas.
Bianca era a mais velha de 3 irmãs, foi separada de sua família ainda cedo, quando sua mãe, Clarice morreu deixando as três filhas ainda menores de idade. Elas não tinham pai, sua mãe engravidara a primeira vez de um homem casado, que quando soube da gravidez, sumiu após ameaçá-la. Após um tempo, quando Bianca já tinha 6 anos, sua mãe conheceu um homem com o qual se envolveu e após poucos meses engravidou das gêmeas, Coraline e Lisbela. O homem após saber a notícia, prometeu dar todo o suporte a mulher e as filhas, mas sumiu pouco tempo antes do nascimento das meninas.
Aos 8 anos de idade, Bianca trabalhava vendendo doces nas esquinas e com o dinheiro, ajudava sua mãe a comprar alimentos para casa e cuidar das irmãs, já que a mesma estava desempregada e ainda por cima, com duas bebês para tomar conta. Esse cenário se repetiu por um tempo, até que Bianca completou 12 anos e arrumou um emprego na confeitaria perto de sua casa, ela estudaria pela manhã e ajudaria na confecção de doces pelo turno da tarde. O que Bianca ganhava era pouco, mas ainda assim era tudo o que tinham para se alimentar, já que sua mãe tinha dificuldades de arrumar emprego, sendo mãe solteira e tendo ainda crianças para tomara conta.
Quando Bianca completou 16 anos, estava perto de concluir seus estudos e trabalhava algumas vezes na semana limpando casas. Sua mãe já estava doente há algum tempo, mas o que ela ganhava, não era o suficiente para arcar com os remédios nem com custos médicos e a situação só piorava, pois Bianca já não conseguia levar a quantidade necessária de alimentos para caso. Meses se passaram e a mãe de Bianca veio a falecer, deixando a menina de 16 anos e suas duas irmãs de 9 anos. Coraline e Lisbela foram levadas para um orfanato em outra cidade, já Bianca, permaneceu no orfanato da cidade onde morava, sendo separada de suas irmãs por conta de sua idade.
Três anos se passara que Bianca havia perdido sua mãe e nunca mais ouvira falar de suas irmãs, ela estava trabalhando numa cafeteria e não morava mais no orfanato, mas sim em uma pequena casinha de três cômodos que havia alugado em um prédio velho perto da cafeteria onde trabalha há alguns meses. Ela era uma garota muito sonhadora e estudiosa, já havia terminado seus estudos e sonhava entrar para uma universidade. O dono da cafeteria, Osvaldo era um senhor muito gentil e sabia da história triste de Bianca, ele a considerava uma mulher forte e por mais que ela fosse muito inteligente e determinada, aquela cidadezinha não tinha muito a oferecer em relação ao seu futuro. A fim de ajudá-la, ele deu a ela um panfleto onde continham dados referente a oportunidade de intercâmbio em Vila Verona, onde o aluno contemplado pelo sorteio seria acolhido por uma família tradicional de lá e sua estadia seria contemplada mediante ao trabalho de Au pair. Quando viu aquele papel, o peito de Bianca encheu-se de esperança, pois era seu sonho, e assim ela fez. Inscreveu-se no programa de intercâmbio e aguardava ansiosamente por respostas, até que, um mês e meio após a inscrição, ela recebeu uma carta que definiria seu futuro, naquele envelope havia a decisão se ela foi ou não contemplada.
Após subir as escadas correndo, Bianca recuperou o fôlego e decidiu tomar um banho frio para conter as emoções, após isso, ela ligou para seu melhor amigo com quem compartilhava seus sonhos, ele também havia se inscrito no programa.
- Preciso te contar uma coisa – disseram os dois ao mesmo tempo após iniciarem a ligação.
- Não me diga que... – iniciou o rapaz – você também recebeu?
- Heitor venha pra cá agora – disse a moça antes de finalizar a ligação.
Em menos de dez minutos o rapaz já batia na porta, ele morava a dois quarteirões de sua casa e o porteiro já o conhecia, por isso o deixou subir.
- E então, vamos abrir juntos como prometemos? – indagou o rapaz, ainda do lado de fora.
-É agora ou nunca – disse Bianca o puxando para dentro
Os dois sentaram no chão e começaram a rasgar o envelope com cuidado para abri-lo. Em seguidas, lágrimas escorriam dos olhos dos dois que se olharam imediatamente, Bianca sorria enquanto chorava, mas o choro de Heitor, era de tristeza.
-Eu não consegui – disse o rapaz de cabeça baixa.
Bianca imediatamente se levantou e sentou novamente ao lado do amigo, colocando sua cabeça no ombro dele.
- Não fique triste, meu amigo. Tenho certeza que oportunidades incríveis surgirão da sua vida.
- Você conseguiu não foi – perguntou o amigo levantando o olhar para ela.
- S-sim.
Imediatamente Heitor se levantou num pulo e puxou Bianca abruptamente para que ela se levantasse também e eles começaram a pular, se abraçar e soltar gritos de alegria. Apesar de não ter conseguido a vaga, Heitor estava muito contente por sua amiga, pois conhecia sua história e sabia que ela merecia.
- Pois vamos, comece a arrumar as malas, quando é a viagem?
-Aqui diz que já é na próxima segunda-feira – disse a moça segurando o papel – Mas e meu emprego? Preciso contar para o senhor Osvaldo.
-Oras, até parece, ele assinará sua demissão com orgulho.
Uma semana se passou e Bianca já estava de malas prontas para viajar, ao descer as escadas com a bagagem, deu de cara com Jaime, Heitor e Osvaldo.
- Venha, deixa que eu te ajudo com isso – disse o porteiro, tomando uma grande mala que Bianca carregava na mão esquerda.
- Já estacionei o carro aqui na frente, não pense que não irei te levar até o aeroporto – disse Osvaldo, o dono da cafeteria.
- E eu vou junto – afirmou Heitor.
As malas foram colocadas no carro e o porteiro se despediu de Bianca, dizendo que ela não se esquecesse dos amigos que deixava. Ela se despediu com um abraço. Jaime não tinha muita intimidade com Bianca, mas percebia que ela era uma moça trabalhadora e gostava muito dela, assim como ela também tinha um carinho por ele. Chegando ao aeroporto, Heitor deu uma abraço demorado em Bianca, que durou cerca de dois minutos e desejou sucesso a amiga.
- Não se esqueça de me ligar e mandar mensagens para contar tudo – disse ele.
- E você lá vai me deixar esquecer? – disse Bianca sorrindo e com os olhos cheios de lágrimas.
Em seguida, foi a vez de seu Osvaldo se despedir, ele deu um abraço na sua ex-funcionária e a entregou um envelope parto com um volume.
- Pegue, isto é para lhe ajudar no primeiro mês, sei que vai ser difícil e você precisará – disse o homem.
- Seu Osvaldo ... E-eu não posso aceitar, o senhor já fez demais por mim.
- Aceite minha querida, não me fará falta e sei que lhe será muito bem vindo. Agora vamos, não vai querer perder o voo.
- Obrigada, saiba que jamais esquecerei o que fizeram por mim – disse a garota chorando e segurando os dois, num abraço coletivo.
Após embarcar no avião, Bianca não pôde deixar de tirar diversas fotos e mandar para seu amigo Heitor, afinal ela nunca havia experimentado de tamanha emoção. Após algumas horas ela adormeceu. O tempo passou e ela acordou com a comissária de bordo lhe chamando, o avião já havia pousado e os passageiros haviam descido. Bianca então agradeceu e saiu em busca de suas malas.
Já fora do avião e com as bagagens em mão, a moça avistou um homem alto, todo vestido de preto e que segurava um cartaz com seu nome. Era o motorista dos Reynolds, ele a esperava assim como foi combinado em e-mails trocados entre ela e o anfitrião. Logo, Bianca caminhou e parou na frente do homem alto.
- Senhorita Diaz? – perguntou o homem, num tom sério.
- Sim. – Respondeu a moça com um sorriso meio desconfortável.
- Deixa que te ajudo com isso – disso o homem, tomando em suas mão todas as bagagens de uma só vez – siga-me.
E assim Bianca o fez, seguiu o homem até o carro, uma SUV preta. A moça ficou encantada, das poucas oportunidades que teve de entrar em um carro, nunca viu um daqueles na cidadezinha onde morava. Os dois seguiram viagem em silêncio, até chegarem no destino.
"uau eles devem ser muito ricos" pensou Bianca ao olhar para a mansão.
O carro adentrou os portões e em seguida parou em frente uma grande porta e Bianca desceu.
- Pode ir, suas malas serão entregues em breve no seu quarto – disse o motorista antes de arrancar com o carro.
Bianca engoliu seco e respirou fundo olhando ao redor, ela nunca havia ficado diante de tamanha beleza e riqueza, como havia naquele lugar. Após alguns minutos observando, a garota finalmente tomou atitude de bater a porta, mas para a sua surpresa, ela abrira sozinha e de lá saiu uma idosa muito simpática de cabelos grisalhos.
- Seja bem vinda senhorita Diaz. Chamo-me Adelaide, sou a governanta da casa – falou a simpática senhora fazendo gesto para que Bianca entrasse. – Venha, vou lhe levar ao escritório e em seguida poderá conhecer o seu quarto.
Bianca então seguiu Adelaide pelos enormes corredores daquela linda mansão, até chegarem a uma porta, onde a governanta deu três leves batidas.
- Entrem – Uma voz masculina soou lá de dentro.
Adelaide fez sinal com a mão para que Bianca entrasse, em seguida fechou a porta atrás dela e saiu, deixando-os sozinhos. Ao olhar em volta, Bianca não pôde deixar de observar o quão grande aquele escritório era e notou também que havia uma enorme pintura na parede de um homem muito bonito que aparentava ter seus 55 anos.
- Como posso ajudá-la, Senhorita Diaz? – indagou o homem calmamente, ele estava sentado em uma grande cadeira de couro, só que virado de costas, sem que Bianca pudesse vê-lo.
- S-senhor Reynalds, eu serei a nova babá de sua filha mais nova e estudarei na Universidade Meifeng, como tratamos por e-mail - disse ela, aparentemente nervosa.
- Por favor, me chame de Adam – disse o rapaz sorrindo e virando a cadeira para que pudesse olhar a moça, que olhou de volta surpresa quando observou que se tratava de um lindo rapaz de cabelos dourados e olhos verdes que brilhavam como esmeraldas quando ele a olhava – O senhor Reynalds é meu pai e ele está viajando a negócios, eu sou responsável na ausência dele.
Adam era o filho mais velho, ele possuía 25 anos, enquanto seu irmão do meio, Ander tinha 20 e Amber 10.
Após um breve silêncio entre eles, Adam falou enquanto olhava sorridente para Bianca:
- Adelaide irá te mostrar o seu quarto, espero que se sinta em casa, qualquer problema pode tratar diretamente comigo. No mais, pode ir desfazer suas malas e descansar da viagem, esteja pronta às 7, Adelaide lhe buscará no quarto para jantarmos e para que você possa conhecer meus irmãos. Amanhã falaremos sobre sua nova rotina e suas obrigações. Até mais, te vejo no jantar – disse o rapaz sorrindo e acompanhando Bianca até a porta do escritório.
- Até mais. – disse a moça, saindo.
Ao sair da sala, Adelaide já a esperava do lado de fora.
- Venha minha querida. – disse a governanta enquanto subiam as escadas que se encontravam no centro da sala de jantar.
Ao chegar no topo da escada, caminharam por um longo corredor até chegar a última porta.
- Senhorita, seu quarto fica nessa porta, se precisar de algo não hesite em me chamar. Volto antes do jantar para lhe chamar – disse Adelaide , se distanciando.
Quando Bianca olhou para trás, a governanta já estava em uma distancia que seria incapaz de ouvi-la, então a menina abriu a porta do quarto e entrou. Ela ficou incrédula com a imensidão daquele quarto que era duas vezes maior que a casinha de três cômodos que ela morava. Para sua surpresa, suas bagagens já se encontravam ali. Bianca decidiu então que tomaria um banho e depois descansaria até a hora do jantar, então ela tirou as roupas que vestia e então se enrolou numa toalha de banho e ao abrir a porta do banheiro, deu um pulo para trás e quase deixou a toalha cair com o que aconteceu.
- Então você é a nova empregadinha, estava ansioso para conhecê-la.
O rapaz era alto, assim como Adam e possuía uma estrutura esbelta e voz aveludada. O seu cabelo era escuro, enquanto seus olhos eram de um verde vibrante.
– O que faz aqui? – Berrou Bianca dando um pulo para trás, sem notar que estava de toalha.
– Estou na minha casa, e você é minha funcionária. – disse o rapaz olhando Bianca de cima a baixo com um sorriso malicioso em seus lábios.
A garota ligeiramente corou e sentiu um nó na garganta.
– Não precisa se assustar, só vim desejar as boas vindas, não esperava encontrar tamanha receptividade– disse o rapaz, se aproximando da porta de saída do quarto e sem tirar os enormes olhos verdes de Bianca.
Bianca por sua vez, assim que o rapaz saiu, correu até a porta e trancou-a, ela não entendera nada, ficou sem reação com aquele rapaz ali, em seu quarto.
Já eram mais de 7 quando Adelaide batia na porta:
– Senhorita Diaz, o jantar está servido. Os patrões esperam-na na sala de jantar.
– Por favor, Adelaide, me chame de Bianca. – disse a garota, abrindo a porta sorridente.
– A senhorita está ainda mais formosa vestida assim – disse a governanta, olhando Bianca de cima a baixo.
A garota corou e agradeceu. A caminho da sala de jantar, Bianca descia as escadas. Ela usava um vestido róseo simples, mas muito bonito e antes que pudesse terminar de descer as escadas o olhar dos dois irmãos e da pequena Amber, estavam virados para ela que caminhava calmamente até a mesa onde realizariam a refeição. Adam imediatamente se levantou sorridente e puxou a cadeira.
– Bia, sente-se aqui! Estes são meus irmãos, Ander e Amber – disse o rapaz.
– E-é um prazer conhecê-los – disse Bianca desconfortavelmente após notar que Ander se tratava do rapaz que a observara no banheiro – meu nome é Bianca.
– O prazer é todo meu! – pronunciou Ander enquanto olhava Bianca de cima para baixo e sorria maliciosamente.
A garotinha de 10 anos, por sua vez, observava sem dar um pio.
– Amber, não vai se apresentar a sua nova babá? – indagou Adam.
– Eu já disse que não quero droga de babá nenhuma. – retrucou a garotinha enquanto cruzava os braços.
– Amber! Bianca me desculpe por isso. – Falou Adam com olhar de reprovação para a irmã. – pois saiba minha irmãzinha, que conversaremos mais tarde.
A garotinha então continuou de braços cruzados, só que dessa vez fazendo uma cara feia. O jantar então foi servido por Adelaide e todos comiam silenciosamente sua refeição.
– Vinho? – Ofereceu Adam a Bianca para tentar quebrar o gelo.
– Obrigada, eu não bebo – respondeu ela gentilmente, mas constrangida com aquela situação.
Após terminar sua refeição, Amber se levantou e seguiu em direção as escadas.
– Onde vai mocinha? – perguntou o irmão mais velho.
– Vou para meu quarto
– Lembre-se que passarei lá para conversarmos – finalizou ele e ela então subiu.
Minutos se passaram e Adelaide perguntou se poderia retirar a mesa, Adam disse que sim e pediu que seu irmão e a moça ficassem, pois ele queria fala algo.
– Bia, você começa amanhã na Universidade, não é? – Indagou Adam.
– Sim
– Ótimo, o Ander estuda lá também e então você poderá ir de carro com ele. Ele irá te apresentar o local.
– Eu vou? – disse Ander levantando uma das sobrancelhas e erguendo sua taça de vinho até a boca
– Mas é claro, ou vai deixar nossa convidada perdida? – retrucou Adam, dessa vez num tom mais sério, tentando forçar uma risadinha.
– Tudo bem, eu a levo. Esteja pronta cedo, não irei tolerar atraso – disse Ander antes de se levantar e sair.
Um silêncio se prolongou por aquela sala durante alguns minutos, até que Adam interrompeu o silêncio:
– Me desculpe pelos meus irmãos, sei que é difícil para você estar recomeçando em um ambiente novo e com pessoas diferentes, mas farei o possível para que sua estadia aqui seja a melhor possível – Adam falou com a expressão meio triste, mas olhando carinhosamente para Bianca.
– Tudo bem, eu queria mesmo te agradecer por ter me recebido tão bem e por ter sido tão gentil comigo disse a moça.
– E o seu quarto? Gostou? É como você imaginava? Eu pedi para que deixassem o mais confortável possível para sua chegada – disse ele retomando o sorriso que havia em seus lábios mais cedo.
– Aquele quarto é um sonho – disse Bianca, mas a moça se lembrou do ocorrido de mais cedo com Ander e de uma hora para outra seu sorriso desapareceu.
– A-algum problema? Pode me falar – disse o rapaz, percebendo como a feição da moça havia mudado
– Não, é que a casa que eu morava era bem menor que aquele quarto – disse ela divertida, tentando disfarçar seus pensamentos, ela preferiu não contar o ocorrido para Adam. – E o seu pai, quando volta?
– O meu pai? – perguntou ele, sério.
– Sim, você disse que o senhor Reynalds está viajando
– Ahh, sim. Ele não tem previsão de volta (limpando a garganta). Mas qualquer coisa que você precisar, pode tratar comigo – retruca o rapaz sorrindo amigavelmente.
– Tudo bem, e quanto as minhas atividades com a Amber?
– Não se preocupe, você começa amanhã. Quando chegar da universidade, você a ajudará a fazer as atividades da escola e depois pode brincar com ela. Após o jantar, estará liberada.
– Certo, então peço licença para me retirar e ir para o meu quarto.
– Só mais uma coisa – disse o rapaz enquanto Bianca se levantava – amanhã eu não estarei em casa, devo chegar na hora do jantar, mas o que precisar pode ligar para meu celular. E não dê corda as gracinhas do meu irmão, às vezes ele consegue ser muito inconveniente. Quanto a Amber, ela é uma boa garota, só precisa se acostumar com a idéia de uma nova pessoa morando aqui. Por favor, tenha paciência.
Após alguns minutos de conversa, os dois se despediram e subiram junto à escada, cada um para um lado, ambos para seu quarto. Bianca estava exausta, então se jogou na cama e pegou o celular para enviar uma mensagem para Heitor.
"Desde que cheguei aqui aconteceram muitas coisas. É uma mansão incrível, como a dos filmes. Amanhã te conto tudo (emoji com carinha feliz)"
"Mal posso esperar para saber de tudo" respondeu Heitor
"Boa noite, amigo. Até amanhã"
"Boa noite se cuida"
No dia seguinte, Bianca acordou bem cedinho para tomar um banho e se arrumar, em seguida desceu as escadas e deu de cara com Ander, desfrutando de uma linda mesa de café da manhã.
– Bom dia Ander
– Está atrasada – retrucou o rapaz
– Acho que começamos mal, podemos tentar de novo?
– Você está me convidando a ir ao seu quarto para ter aquela recepção acalorada novamente? – perguntou o rapaz sorrindo enquanto mordia uma maçã
– Do que você está falando? Eu não sabia que estaria lá – responder a moça, corada
– Tome logo seu café, ou vamos nos atrasar, depois conversamos melhor sobre isso – retrucou o rapaz com um sorriso malicioso.
Após tomarem o café, os dois seguiram em direção ao jardim, onde o carro de Ander estava estacionado. Era um lindo Mustang vermelho de vidros escuros.
– Não vai esperar que eu abra a porta né? Não faço o tipo cavalheiro – disse o rapaz entrando no carro e ligando o som em volume alto.
– Você faz isso sempre? – disse a garota em tom alto e tampando os ouvidos
– Só quando quero te irritar – respondeu ele sorrindo enquanto diminuía o volume.
Os dois conversaram enquanto Ander dirigia até a universidade. Bianca não podia deixar de notar como aquela cidade era linda, e as casas que eles passavam pelo caminho eram todas luxuosas.
"Não deve haver pobres aqui" ela pensou.
Ao chegarem à Universidade, Ander estacionou e então desceu do carro. Bianca saiu logo em seguida e começou a andar atrás do rapaz.
– O que você acha que está fazendo? – perguntou ele.
– Indo conhecer a Universidade com você, ué.
– Nada disso, nos separamos aqui. Encontre-me neste mesmo local na hora da saída.
– Mas Ander, eu não conheço nada aqui...
– Pois trate de conhecer, não posso ser visto com você
O rapaz então se distanciou e os olhos de Bianca encheram de lágrimas, ela não conhecia nada nem ninguém. Além disso, Ander havia sido um grosso. Bianca começou então a olhar para os lados e andar procurando placas que indicassem o local.
– Ei, você. Psiu
– Você está falando comigo? – Bianca perguntou, engolindo o choro
–Sim – respondeu uma garota de cabelos curtos, lisos e escuros, praticamente sem curva nenhuma. Seus olhos eram negros como um céu sem estrela, sua pele alva e o corpo magro, mas bem desenhado – O Ander Reynalds fazendo mais uma vítima não é mesmo? Não deixe que ele faça suas lágrimas caírem.
– Vítima? – indagou Bianca
– Sim, eu vi quando conversavam e ele disse que não queria ser visto com você, ele faz isso com todas as garotas de quem se aproveita, primeiro se faz de galã apaixonado e depois as dispensa.
– M-mas não é nada disso, eu não tenho nada com ele? – explicou Bianca
– E por que ele falou com você daquela forma então? – indagou a menina de cabelos curtos
– Eu não sei, mas hoje é o meu primeiro dia aqui, sou intercambista e estou morando na casa dos Reynalds. Ander ficou de me apresentar a Universidade, mas me deixou aqui plantada
– Oh, seja bem vinda. Não tinha um povinho menos chato pra você morar na casa? – disse a garota gargalhando – A propósito, me chamo Michele, mas pode me chamar de Mia
–Me chamo Bianca, mas pode me chamar de Bia – respondeu ela sorrindo
– Vem, vou te mostrar tudo aqui
Bianca então seguiu Michele, que a mostrou todos os locais na universidade, as bibliotecas, salas de aula, refeitório, banheiros, quadras, garagens, e por fim, um grande corredor de armários onde continham os quadros de aulas com os horários.
– Vou ter aula agora na sala 16 e você? – Michele perguntou
Bianca então procurava seu nome dentre as listas de alunos que havia.
– Sala 2 – ela respondeu.
– Xii, fica lá no térreo. Então eu te encontro no intervalo para o almoço?
– Sim
– Nos vemos no refeitório então, até logo – disse Mia se distanciando.
Bianca foi então para a sala 2, onde assistiu sua aula, e por volta das 11h foi até o refeitório encontrar Michele como combinado. Ao adentrar o refeitório, Bia viu em uma das mesas, Ander rodeado de pessoas e todas aparentavam ser nariz em pé, assim como o Reynalds. Ela então passou direto por essa mesa e fingiu não tê-lo visto. Ele, por sua vez, observava discretamente a garota.
Ao chegar no final do corredor, Bianca encontrou Mia sentada em uma mesa com mais três amigos, sendo uma garota e dois garotos.
– Galera, quero apresentar vocês a Bia, ela é nova aqui – disse ela a seus amigos – Bia, estes são Bryan, Otto e Olívia.
Todos cumprimentaram Bia e então foram almoçar juntos. Após algum tempo, a novata já havia se enturmado com aquele grupo de amigos. Após o almoço, todos se preparavam para voltar às suas respectivas salas quando Otto perguntou:
– Bia, nos vemos na hora da saída?
– Mas é claro, onde vocês estarão? - retrucou a garota.
– Nos vemos no estacionamento principal então.
Bia e seus novos amigos se levantaram, se despediram e cada um seguiu para um lado diferente. A garota ainda se sentia um pouco perdida, porém mais tranquila por ter feito novos amigos. Ela caminhava pensativa pelos corredores da universidade a procura da sala que teria aula naquele momento, quando de repente é surpreendida por alguém que a puxa para dentro de uma sala vazia.
– Aaaah! – grita a garota.
– Calma, está ficando louca? – diz a voz masculina, tampando a boca da garota com uma das mãos para abafar o grito, e com o seu corpo ele a pressiona contra a parede.
O corpo de Bianca estremece quando ela vê aqueles lindos olhos verdes se encontrando com os dela e aquele corpo musculoso pressionando o seu contra a parede. Ander exalava um cheiro muito gostoso, mas a garota não entendia o comportamento dele.
- Afaste-se de mim - disse Bianca o empurrando, mas sem sucesso, ele era muito maior e mais forte que ela.
- Já disse pra você se acalmar, não tenho intenção de machucá-la, só quero conversar - disse o rapaz com um sorriso cínico nos lábios, que mais parecia um convite para um beijo.
Ander então se afasta suavemente de Bianca, esta por sua vez, afasta-se mais ainda do rapaz que continua sorrindo.
- Não sei o por que você tem medo de mim, estou sendo gentil, não costumo ser assim com todas - diz o rapaz ainda sorrindo.
- Eu não tenho medo de você! - esbraveja a garota. - Diga, o que quer comigo?
- Aquelas pessoas com quem você estava hoje, não a quero andando com eles.
- E desde quando você tem que querer algo no que diz respeito a minha vida?
- Desde que você está hospedada na minha casa - diz o rapaz se aproximando da moça, que se afasta dando passos para trás.
- Posso estar na sua casa, mas minhas únicas obrigações são com o seu pai, que me convidou!
Quando ouviu falar do seu pai, Ander gelou e então arregalou os olhos.
- Oras, não seja boba. Afaste-se daquelas pessoas, elas poderão te trazer problemas, estou avisando.
- E você por acaso quer que eu fique sozinha? Foram eles que me acolheram aqui quando você me deixou sozinha.
O rapaz então começa a se aproximar sorrindo, enquanto olha profundamente nos olhos da garota que instantaneamente gela.
- Então você está se sentindo sozinha? - diz ele se aproximando ainda mais.
- E-Eu ... - Bianca se afastava, mas sem notar que estava novamente encurralada contra a parede. - Pare com isso, o que você quer?
O rapaz então a toma em seus braços e rouba-lhe um beijo profundo. A respiração de Bianca acelera, mas ela retribui o beijo, capturando sua língua. O rapaz pressionava seu corpo contra o dela, enquanto passava uma das mãos por dentro de seus cabelos e levava a outras até os seus seios, sem interromper o beijo.
Ao decorrer do beijo, o corpo dos dois foi relaxando e desta vez sentado sobre uma mesa, Ander puxou Bianca para junto dele.
De repente, os dois são surpreendidos por alguém que bate forte na porta.
- Porra ... - pronuncia Ander.
Bianca imediatamente se afasta do rapaz, que continua sentado sobre a mesa, e se ajeita. A porta se abre.
- Ander Reynolds, não iremos mais tolerar este tipo de comportamento em nossa instituição, já o advertimos inúmeras vezes, esta será a última. - diz uma mulher mais velha, falando seriamente - Por favor me acompanhem, vamos resolver este inconveniente em minha sala, os dois serão expulsos!
Bianca arregala os olhos.
- Senhora Norman, não acha que está sendo radical demais? - diz o garoto sorrindo enquanto desce da mesa e ajeita as roupas no seu corpo.
- Radical? Esta será a última vez que o senhor me desafia, e não tem conversa com seu pai que me faça mudar de ideia. E você? Quem é você? - disse a senhora, virando-se para Bianca.
A senhora Norman era uma mulher que aparentava ter seus 55 anos, ela era coordenadora do curso de ciências jurídicas da Universidade e prezava pelos bons costumes. Ander, por outro lado, era um rebelde que se aproveitava do poder e influência de sua família, para aprontar o que quisesse.
- E-eu - Bianca pigarreava.
- Senhora Norman, não vê que está prestes a cometer uma injustiça? - disse o rapaz sorrindo, enquanto caminhava na direção da coordenadora e passava o braço pelos ombros dela - Esta senhorita se chama Bianca Diaz, e ela é a nova aluna intercambista da Universidade.
A coordenadora permaneceu em silêncio e examinou a garota de cima a baixo?
- E o que os dois faziam sozinhos nesta sala vazia? - perguntou a senhora.
- Eu estava solidariamente mostrando as dependências de Meifeng para a novata - o rapaz falou, piscando para Bianca, que sorriu discretamente. - Além disso, minha família está acolhendo ela em nossa casa.
A coordenadora olhou os dois, em seguida os liberou.
- Dessa vez passou, Reynolds, mas da próxima vez que eu pegá-lo com alguma garota em nossas dependências, você não me escapa.
- Um bom dia para a senhora também, senhora Norman - disse o rapaz ironicamente enquanto se retirava da sala e Bianca saiu logo atrás, mas dessa vez, ela optou por pegar o caminho oposto ao do rapaz, que ao olhar para trás, se surpreendeu com a ausência da garota.
Bianca então retornou a sua sala, já atrasada, mas felizmente conseguiu pegar metade da aula. Ao final, ela se dirigiu até o estacionamento, onde havia combinado com os novos amigos.
- Bia, estamos aqui! - acenou Mia para a garota que então se dirigiu até eles. - Estávamos aqui pensando, você não gostaria de ir ao bar Rose 's com a gente?
- Me desculpem, mas eu preciso voltar pra casa com o Ander, sou babá da irmã dele, não posso chegar tarde.
- Ander Reynolds? - perguntou Bryan
- Sim, vocês por acaso o viram?
- Amiga, ele acabou de sair de carro com a namorada - disse Olívia.
Bianca engoliu seco e permaneceu quieta olhando para os lados, ela não via o Mustang vermelho de Ander.
- Você pode ir até o Rose's com a gente e depois eu te deixo em casa, estou de carro - disse Otto.
- Tudo bem, mas não posso demorar.
- Sem problemas, eu também não pretendo demorar - respondeu o rapaz.
Logo, Otto, Bryan, Olívia, Mia e Bianca entraram no carro e seguiram rumo ao bar Rose's. Chegando lá, haviam várias pessoas de diversos cursos da Universidade.
- Geralmente a galera vem aqui pra se divertir depois da aula. - disse Otto, olhando para Bianca pelo retrovisor.
Eles entraram no bar, Olívia pediu uma rodada de shot's de tequila para 5 pessoas e a garçonete imediatamente trouxe.
- Obrigada, eu não bebo - disse Bianca recusando o copo que a amiga lhe oferecia.
- Ah, mas você não vai fazer uma desfeita dessa, logo no seu primeiro dia né? Da um gole aí - disse Mia, insistindo que a garota bebesse.
Bianca estava claramente incomodada com a situação, mas acabou cedendo quando de repente observou em uma mesa mais distante Ander bebendo com os amigos, e ao seu lado estava uma garota magra de cabelos ruivos que se vestia como uma patricinha. A garota então virou o shot e em seguida bateu o copo sobre a mesa. Logo, se ouviam gritinhos dos seus amigos que comemoraram a situação.
Após alguns minutos conversando e bebendo, Bianca pediu para que Otto a levasse para casa, pois já estava ficando tarde. O rapaz assentiu com a cabeça e pegou as chaves do carro de cima da mesa, levantando-se.
- Vocês não vão - perguntou a garota aos outros amigos que permaneceram sentados.
- Não, vamos ficar até mais tarde, se cuida. - disse Mia fazendo sinal de tchau com as mãos.
Ander, que saía do banheiro do bar, observou quando Bia e Otto entraram no carro e ficou surpreso, mas voltou para a mesa onde estavam seus amigos.
Quando chegaram em frente aos portões, Bia agradeceu a Otto, se despediu e desceu do carro, seguindo a pé em direção a entrada. O porteiro que a reconheceu, destrancou os portões para que ela entrasse e quando chegou à porta, Adelaide já a esperava:
- Senhorita Bianca, a pequena Amber já chegou da escola e a espera no quarto dela.
- Tudo bem Adelaide, só vou passar no meu quarto para deixar minhas coisas e tomar um banho rápido, obrigada.
Chegando em seu quarto, Bia trancou a porta, tirou suas roupas e resolveu tomar um banho morno na enorme banheira que havia no banheiro do seu quarto. Durante o banho, ela fechou os olhos por alguns minutos e sem querer, se pegou pensando em seu beijo com Ander. Como poderia? Um homem tão lindo, tão atraente, mas tão grosso e que não vale o chão que pisa.
Após o banho, Bianca se veste e então se dirige ao quarto da garotinha?
- Amber? - Bianca chama enquanto bate suavemente na porta
Sem respostas.
Ela decide então entrar?
- O que você quer? - pergunta a garotinha, já de cara feia.
- Eu estava pensando, poderíamos brincar de alguma coisa, ou eu posso te ajudar com suas atividades.
- Eu não quero, não preciso de uma babá - retruca a garotinha, franzindo o cenho.
- Mas o seu pai acha que sim, por isso estou aqui. - diz Bianca sorrindo - Ora, vamos. Não pode ser tão ruim assim. Quando eu tinha sua idade, sonhava em ter alguém para brincar comigo e ajudar em minhas atividades.
- Você não tem irmãos? - perguntou a garotinha, fingindo desinteresse.
- Bem, eu tenho, mas fui separada delas muito cedo. E também, na sua idade eu precisava trabalhar para ajudar minha mãe a criar minhas irmãs. Mas isso não importa agora, estou aqui com você e quero te ajudar no que for preciso - disse Bianca dando um sorriso forçado meio tristonho.
A garotinha então olhou para ela com um misto de aflição e tristeza. Ela parecia comovida com aquilo. Apesar de não ter uma mãe e de seu pai não ser tão presente, ela sempre teve seus dois irmãos que a criaram muito bem e era rodeada de empregados fazendo suas vontades. Apesar da pouca idade, Amber era muito esperta.
- Você pode me ajudar a arrumar meu cabelo? - perguntou a garotinha
- Mas é claro. - disse Bianca sorrindo e se aproximando de Amber que já estava sentada em frente a sua penteadeira.
Ao longo da tarde, Bianca ajudou Amber com suas atividades escolares e elas brincaram e conversaram bastante. Mais tarde, ouviram batidas na porta do quarto que em seguida se abriu:
- Ora ora, fico muito feliz que as duas estejam se dando bem. - disse Adam olhando da porta e abrindo um enorme sorriso.
- Sim, a Amber é um amor.
- Ela demonstra ser durona no início mas é uma garotinha muito sensível - Adam fala sorrindo. - Só vim avisar que cheguei mais cedo e que o jantar está servido, encontro vocês lá embaixo.
Em poucos minutos, Amber e Bia desciam as escadas. Adam já estava sentado em sua cadeira, e para sua surpresa, Ander também. Bianca evitava contato visual com o rapaz.
Durante o jantar, Adam resolveu quebrar o gelo:
- E então Bia, como foi hoje seu primeiro dia na Universidade?
- Ahn, foiii... É... muito bom, conheci algumas pessoas muito legais - Ela falou, forçando um sorriso desconfortável.
Adam então levantou uma das sobrancelhas e desconfiou que algo estivesse errado.
- Tem certeza de que correu tudo bem? - indagou o rapaz.
- Mas é claro!
- E o Ander? Ele te levou e apresentou a Universidade?
Bianca então levantou ligeiramente o olhar para Ander que a olhava seriamente.
- S-sim, ele me apresentou tudo. - Bianca não gostava de mentir, mas não queria criar mais indisposição com o rapaz, já que o relacionamento dos dois não era tão fácil.
Após o jantar, Amber subiu para seu quarto, em seguida Ander também subiu e Bianca e Adam ficaram conversando por mais um tempo. Em seguida, Bia pediu licença e subiu para seu quarto. Ao chegar no topo da escada ela caminhou até o fim do corredor e então abriu a porta, entrando em seu quarto.
- Eu achei que não viria mais - disse Ander sentado na cama.
Bianca instantaneamente gelou e reuniu forças para perguntar:
- O que você está fazendo aqui?