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Para Além das Cinzas: O Nosso Amor

Para Além das Cinzas: O Nosso Amor

Autor:: Keely Alexis
Gênero: Moderno
No quinto aniversário de casamento. Ou, como Tiago fazia questão de lembrar, o aniversário do acidente que ceifou a sua família. Em vez de celebração, iniciava-se mais um capítulo da minha tortura insaciável. Ele, o homem que um dia amei mais que tudo, transformara-se num carrasco implacável. Fui forçada a beber noventa e nove garrafas de vinho, um símbolo macabro da minha "dívida de sangue". Confinada, isolada, humilhada, vi-o dar afetos a Clara, uma mulher escolhida pela semelhança com a Sofia de outrora. Fui submetida a uma cirurgia perigosa para doar um rim a ela, depois de um "acidente" suspeito. O nosso leal cão, Max, o último elo do nosso amor passado, foi cruelmente morto. E o cúmulo da humilhação: fui forçada a engolir as cinzas do meu querido amigo. Arrastada de joelhos, sob a vigilância fria dele, até ao cemitério para proclamar os pecados dos meus pais. A dor física não era nada comparada à exaustão da minha alma. Eu só ansiava pela paz, a paz que só a morte parecia poder oferecer. Cansada de amar, cansada de sofrer, o meu único desejo era que tudo acabasse. Num ato de desespero, atirei-me da Ponte da Arrábida, buscando o abraço gélido do Douro. Mas abri os olhos novamente. E, para meu horror e espanto, estava de volta. Um dia antes do acidente fatídico, com todas as memórias vívidas da minha tortura. O mais chocante? Tiago também se lembrava. Agora, perante esta segunda chance inesperada: escolheríamos o ódio mais uma vez, ou haveria redenção para um amor que se transformara em veneno?

Introdução

No quinto aniversário de casamento.

Ou, como Tiago fazia questão de lembrar, o aniversário do acidente que ceifou a sua família.

Em vez de celebração, iniciava-se mais um capítulo da minha tortura insaciável.

Ele, o homem que um dia amei mais que tudo, transformara-se num carrasco implacável.

Fui forçada a beber noventa e nove garrafas de vinho, um símbolo macabro da minha "dívida de sangue".

Confinada, isolada, humilhada, vi-o dar afetos a Clara, uma mulher escolhida pela semelhança com a Sofia de outrora.

Fui submetida a uma cirurgia perigosa para doar um rim a ela, depois de um "acidente" suspeito.

O nosso leal cão, Max, o último elo do nosso amor passado, foi cruelmente morto.

E o cúmulo da humilhação: fui forçada a engolir as cinzas do meu querido amigo.

Arrastada de joelhos, sob a vigilância fria dele, até ao cemitério para proclamar os pecados dos meus pais.

A dor física não era nada comparada à exaustão da minha alma.

Eu só ansiava pela paz, a paz que só a morte parecia poder oferecer.

Cansada de amar, cansada de sofrer, o meu único desejo era que tudo acabasse.

Num ato de desespero, atirei-me da Ponte da Arrábida, buscando o abraço gélido do Douro.

Mas abri os olhos novamente.

E, para meu horror e espanto, estava de volta.

Um dia antes do acidente fatídico, com todas as memórias vívidas da minha tortura.

O mais chocante? Tiago também se lembrava.

Agora, perante esta segunda chance inesperada: escolheríamos o ódio mais uma vez, ou haveria redenção para um amor que se transformara em veneno?

Capítulo 1

No quinto aniversário de casamento, que era também o aniversário do acidente, Tiago Monteiro preparou um "presente" especial para Sofia Alves.

Noventa e nove garrafas do melhor Vinho do Porto Reserva da sua adega, uma por cada alma que ele sentia ter perdido naquele dia fatídico.

Ele sentou-se à cabeceira da longa mesa de jantar, o rosto uma máscara de frieza.

Sofia estava na outra ponta, magra, pálida, os olhos fundos de quem não dormia há anos.

"Feliz aniversário, querida esposa." A voz dele era seda gelada.

"Hoje, vais beber. Uma garrafa por cada pessoa da minha família, e alguns amigos próximos que se foram por causa dos teus pais."

Sofia estremeceu, mas não disse nada. Sabia que era inútil.

"Tiago, os meus pais... eles morreram na prisão. Não foi suficiente?" A voz dela era um sussurro rouco.

Ele riu, um som sem alegria.

"Suficiente? Eles apodreceram numa cela por negligência, uma morte demasiado branda. A minha família foi desfeita em segundos, num inferno de metal retorcido e fogo, por causa da bebedeira deles. Achas que a morte deles paga a vida dos meus pais? Da minha irmãzinha, a Larinha, que nem sequer chegou a ver o seu décimo quinto aniversário?"

A dor na voz dele era palpável, mas rapidamente substituída pela crueldade habitual.

"Não, Sofia. A dívida deles, tu vais pagá-la. Por cada dia dos últimos cinco anos, e por cada dia que ainda te resta."

Ele fez um gesto. Dois seguranças corpulentos aproximaram-se de Sofia.

"Comecem."

Um deles abriu a primeira garrafa com um estalo seco, o cheiro adocicado do vinho invadindo a sala. Encheu um copo grande.

"Bebe," ordenou Tiago.

Sofia olhou para o líquido escuro, depois para o rosto implacável do marido. As lágrimas que ela já não tinha para chorar apertaram-lhe o peito.

Um dos seguranças agarrou-lhe o queixo, forçando-a a abrir a boca. O outro entornou o vinho.

O líquido gelado desceu-lhe pela garganta, provocando-lhe engasgos. Ela tossiu, o vinho a manchar-lhe o vestido simples.

"Mais," disse Tiago, impassível.

Copo após copo, o ritual macabro continuou. Sofia sentia o estômago revirar, a cabeça a andar à roda. A humilhação era quase tão má quanto o mal-estar físico.

"Quando... quando é que isto acaba, Tiago?" ela conseguiu balbuciar, entre golfadas de ar.

"Quando eu disser que acabou."

Nesse momento, a porta da sala de jantar abriu-se e uma jovem entrou. Era alta, esguia, com longos cabelos escuros e olhos brilhantes.

Sofia olhou para ela, e o seu coração parou por um instante.

A rapariga era a sua imagem cuspida, a imagem de Sofia antes do acidente, antes de cinco anos de sofrimento lhe roubarem o brilho e a juventude.

"Tiago, querido, o que se passa aqui?" A voz da recém-chegada era melodiosa, mas com um toque de impaciência.

Tiago, que até então não desviara os olhos de Sofia, virou-se para a jovem. A sua expressão suavizou-se instantaneamente, a frieza a dar lugar a uma ternura que Sofia não via há uma eternidade.

"Clara, meu amor. Nada de mais. Apenas a dar um presente à Sofia."

Clara Bastos aproximou-se, o seu olhar a varrer Sofia com desdém.

"Um presente? Ela não me parece muito grata. Mas também, o que se pode esperar de alguém como ela? Indigna." Clara encolheu os ombros delicadamente. "Anda, Tiago. Deixa-a com os seus... presentes. Temos coisas mais importantes para fazer."

Ela pegou na mão dele, afastando-o da cena.

Tiago hesitou por um momento, o seu olhar voltando para Sofia, que agora tremia violentamente. Depois, como se afastasse um pensamento incómodo, seguiu Clara.

Quando estavam quase a sair, Clara tropeçou ligeiramente, esbarrando numa pequena mesa lateral onde repousava uma jarra de cristal. A jarra caiu, estilhaçando-se no chão.

"Oh!" exclamou Clara, com uma falsa preocupação. "Que desastrada que eu sou!"

Sofia, que estava perto, instintivamente tentou aparar a queda, mas os seus reflexos estavam lentos. Um dos cacos maiores voou e cortou-lhe a mão. O sangue começou a escorrer.

Clara olhou para a mão de Sofia, depois para um pequeno arranhão no seu próprio braço, quase invisível.

"Ai, Tiago, olha! Arranhei-me!" choramingou Clara, mostrando-lhe o braço.

Tiago correu para o lado dela, ignorando completamente Sofia e a sua mão a sangrar.

"Deixa-me ver, meu amor! Estás bem? Dói muito?" Ele pegou no braço de Clara com uma delicadeza infinita, soprando suavemente sobre o arranhão.

Sofia olhou para a cena, o coração a afundar-se ainda mais. A dor física na sua mão não era nada comparada à dor emocional que a consumia.

Tiago beijou o arranhão de Clara. "Anda, vamos tratar disto. E tu," ele disse, virando-se para Sofia com um olhar gélido, "continua. Ainda tens muitas garrafas pela frente."

Ele pegou em Clara ao colo, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ao passar por Sofia, murmurou, para que só ela ouvisse, usando um diminutivo que outrora fora só dela: "A minha Sofi... não, a minha Clara, precisa de cuidados."

Ele saiu, deixando Sofia com os seguranças, o sangue a pingar no chão e o eco das suas palavras cruéis.

Um dos seguranças suspirou. "Senhora, por favor..."

Sofia olhou para as garrafas restantes. O seu olhar perdeu-se nelas, e as memórias vieram, como sempre vinham nestes momentos de desespero.

Lembrou-se de Tiago, o seu Tiago, antes do ódio. O rapaz com quem crescera, o seu primeiro e único amor. As tardes passadas a correr pelos vinhedos do Douro, as promessas sussurradas sob o luar. O dia em que ele a pedira em casamento, ali mesmo, naquela quinta que agora era a sua prisão.

E depois, o dia do acidente. O dia que deveria ter sido o mais feliz das suas vidas. A festa de noivado, a alegria, a bebida a fluir. Os pais dela, donos de uma pequena padaria tradicional, felizes, talvez demasiado felizes, demasiado embriagados. Insistiram em conduzir de volta para casa, apesar dos avisos.

No cruzamento, não viram o carro que se aproximava. O carro onde seguia a família de Tiago: os pais, a irmã mais nova, a caminho para se juntarem à celebração.

O casamento transformou-se num funeral. O amor de Tiago transformou-se num ódio avassalador.

Os pais de Sofia foram presos. A influência de Tiago, mesmo que indireta, pairava sobre o caso. Negligência médica, desespero. Morreram na prisão com poucos meses de diferença. As suas últimas palavras para Sofia foram uma súplica, uma promessa: "Aguenta, minha filha. Aguenta por cinco anos. Se depois disso, não houver esperança, junta-te a nós."

Cinco anos. Cinco anos de tortura psicológica, de privações, de ver o homem que amava a transformá-la no alvo de toda a sua dor. Ela vivia apenas por aquela promessa.

Clara aparecera há três meses. Uma substituta, escolhida a dedo pela sua semelhança com a Sofia de outrora. Tiago cobria-a de afecto, de presentes, de tudo o que negara a Sofia. E Sofia via tudo, cada beijo, cada abraço, cada palavra carinhosa dirigida à outra, era uma faca a revirar-lhe as entranhas.

Faltavam apenas sete dias para o fim da promessa. Sete dias.

Sofia agarrou uma pequena fotografia de família, amarrotada e manchada com uma gota seca do seu próprio sangue de um ferimento anterior. Os rostos sorridentes dos seus pais olhavam para ela.

"Mãe, pai... em breve," sussurrou ela, a voz embargada. "Em breve estarei convosco."

Os seguranças observavam-na, desconfortáveis, mas cumprindo ordens. O vinho continuava a ser servido.

Capítulo 2

Sofia acordou na manhã seguinte com uma dor de cabeça lancinante e o corpo dorido. Alguém lhe tinha tratado o corte na mão, uma ligadura limpa envolvia-a.

Lembrou-se da promessa. Seis dias.

Olhou para o calendário na parede do seu pequeno quarto. Era o aniversário de Tiago.

Uma ideia louca, desesperada, formou-se na sua mente. Uma última tentativa. Talvez, só talvez, se ela lhe mostrasse que ainda se lembrava, que ainda se importava...

Passou o dia na cozinha, um espaço que raramente lhe era permitido usar. Preparou o prato favorito de infância dele: Arroz de Pato. As suas mãos tremiam, mas ela persistiu.

Depois, com papel e canetas que encontrara numa gaveta esquecida, fez um pequeno álbum. Colou fotografias antigas, deles os dois, nos tempos do liceu, sorridentes e despreocupados. Escreveu pequenas legendas, memórias de um tempo feliz.

Ao fim da tarde, enviou-lhe uma mensagem, um número que ele raramente usava para falar com ela, mas que ela sabia que ele veria. "Encontra-me no nosso velho miradouro. Tenho um presente para ti."

Esperou. O sol começou a pôr-se, pintando o céu de laranja e roxo. O miradouro sobre o Douro, onde tinham partilhado tantos sonhos.

Ele chegou, atrasado, o cheiro a perfume caro a precedê-lo. Viu o Arroz de Pato, o pequeno álbum.

O seu rosto contorceu-se numa careta de desprezo.

"O que é isto, Sofia?"

"É o teu aniversário, Tiago. Eu só... queria..."

Ele pegou no recipiente com o arroz e, sem uma palavra, atirou-o pela encosta abaixo. O álbum teve o mesmo destino.

"Não quero nada que venha de ti. Das tuas mãos sujas de sangue."

As lágrimas vieram aos olhos de Sofia. "Tiago, por favor. Já se passaram cinco anos. Não podemos... tentar recomeçar?"

Ele riu, um som áspero. "Recomeçar? Tu achas que o teu sofrimento se compara ao meu? Achas que cinco anos apagam a imagem dos corpos carbonizados da minha família?"

Ele agarrou-a pelos ombros, os dedos a cravarem-se na sua carne.

"Os teus pais não mataram só os meus pais e a minha irmã. Mataram o meu avô, que morreu de desgosto pouco depois. Mataram os meus sonhos, o meu futuro, o meu amor por ti!"

A sua voz quebrou na última frase, mas a raiva regressou rapidamente.

"Nunca te vou perdoar, Sofia. Nunca."

Nesse momento, Clara apareceu, um sorriso radiante no rosto. Trazia nas mãos um pequeno lenço dos namorados, bordado com esmero.

"Tiago, meu amor! Feliz aniversário!"

Ela entregou-lhe o lenço. Era uma réplica exata de um que Sofia lhe oferecera anos antes, um que ele guardara como um tesouro.

Ele pegou no lenço de Clara, os olhos a brilhar.

"É lindo, Clara. Obrigado." Ele abraçou-a com força, beijando-a apaixonadamente, ali mesmo, à frente de Sofia.

Sofia observou-os, o coração a partir-se em mil pedaços.

Percebeu então. Não era Clara que a tinha derrotado. Era a Sofia do passado, a Sofia que Tiago amara. Ele amava a memória dela, mas odiava a mulher em que ela se tinha tornado, a mulher que ele próprio tinha ajudado a destruir.

Ele ainda a chamava "Sofi" nos seus momentos de maior crueldade, como se para se lembrar a si mesmo quem ela fora, e o quanto a odiava agora. Mas a "Sofi" que ele amava, essa estava morta há muito tempo.

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