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Para Sempre Layla

Para Sempre Layla

Autor:: LadyRaquelSouza
Gênero: Romance
Há muitos, existiram Qays e Layla. Apaixonados desde a infância, o amor de Qays por Layla era tão forte que ele se tornou conhecido como Majnum Layla, ou louco por Layla, em todo o deserto. Julgado pela sociedade, Qays precisou se afastar do povo e, longe de sua amada, escrevia poesias diariamente para Layla. Um dia, a moça foi forçada a se casar e a distância agravou. Fadada a chamar um estranho, habib; fadado a vagar no deserto com poesia empoeiradas. Um oásis foi o que lhes permitiu, muitos anos depois por uma única e breve vez, entregarem-se um ao outro. Reza a lenda árabe que, após essa entrega, seus corpos foram encontrados dias depois. Incapaz de retornar a vida infeliz, Layla foi consumida por tristeza. Entendendo não haver mais poesia a fazer, Qays findou a própria vida e a lenda termina. Amanda, grande CEO e herdeira de uma exportadora, enfrenta a maior decisão de sua vida quando a suprema corte iraniana ameaça afetar seus negócios. Para salvar a empresa, ela se vê obrigada a mudar completamente seu estilo de vida, incluindo se casar. Pressionada, pede a Luke, CFO e grande amigo, em casamento. Juntos, eles embarcam na relação arranjada, enfrentando pressões e conflitos que ameaçam seus corações e seus negócios. Num mundo de interesses, corrupção e caos, Para sempre Layla é uma história de amor, tradição e coragem. Não é sobre aquela Layla, mas sobre a Layla e o Qays que todos estão destinados a encontrar quando se permitem amar. Esse é um romance da série Amores Halal, contudo, ainda é um romance adulto e pode conter cenas de sexo e violência, exigindo discrição do leitor.

Capítulo 1 I. Uma Vida Agitada

- O que mais tenho para fazer hoje, Mari? - Amanda perguntou enquanto caminhava de volta à sua sala.

Era um dia agitado para a jovem CEO. Quando chegou à reunião com o setor comercial, não esperava demorar tanto.

- Luke quer falar com você. - Mariana a respondeu. - Disse não ser nada sério, mas me pareceu preocupado.

Amanda parou de andar, olhando para a secretária.

- Terei com ele...

- Se me permite sugerir, reservo o almoço para vocês.

- Você é um anjo na Terra, Mari! - Amanda a elogiou.

A secretária apenas lhe sorriu e a cumprimentou para ir aos seus afazeres enquanto Amanda se apressou para a sala.

Observou os documentos da reunião onde estavam estratégias bem traçadas e seus planos estavam a um passo.

"Franco & Silva Exportações", dizia o logo no computador. Amanda o observou, motivando-se a continuar.

"Almoço?", ela mandou mensagem ao seu CFO.

"Mariana já me avisou... posso te buscar", Luke se ofereceu.

"Agradeço... não estou bem para dirigir hoje!"

Indo ao banheiro, retocou a maquiagem. Mesmo que a pele negra não evidenciasse cansaço, era vaidosa e cuidadosa.

Umedeceu seus cachos; ajeitou o terno e pronto! Estava quase nova, pronta para sair e não demonstrar tanto cansaço.

Os pés incomodavam por muito andar no dia anterior, mas era obstinada e não se deixaria abater facilmente.

Deixando o banheiro, Luke já estava no escritório.

De ascendência árabe, ele não era tão alto; tinha barba bem feita e idade aproximada à Amanda. Os olhos tinham cor de mel e o sorriso com covinhas era encantador.

- Cedo... - Amanda falou.

- Pernoitou? - Ele levantou uma sobrancelha, analisando-a. - Deveria tirar uma folga... isso vai te matar, habibti...

- Veio me dar sermão ou almoçar comigo? - Ela deu de ombros. - Não se preocupa! Está tudo indo muito bem.

- Vamos? - Luke optou por não estender o assunto.

Amanda assentiu e eles saíram, rumo ao carro do rapaz.

- Soube da reunião com o comercial... é bem ambicioso. O que seu pai acha? - Ele puxou assunto enquanto dirigia.

- Ele está tão confiante quanto eu! - Amanda sorriu largo. - Quero muito conseguir conquistar novos lugares... novos patamares e tudo parece conspirar positivamente.

- Alhamdulillah! - bem-disse. - Estamos estudando as possíveis expansões... observando o cenário dos próximos cinco anos... e, não mentirei, você ficará feliz com o que verá.

- Assim me deixa mais ansiosa! - A moça o repreendeu.

Luke riu e voltou a se ater à direção. Muito cavaleiro, ajudou Amanda a sair do carro e eles foram à sua mesa.

Mariana tivera o cuidado de reservar um espaço num restaurante que atendia às restrições alimentícias de Luke.

A moça o acompanhou nos pratos, habituada a lidar com a culinária árabe dado o tempo de convivência com Luke, amigo de infância e filho de uma grande amiga de seu pai.

Não o acompanhou com as formalidades pré-refeição, afinal, não era religiosa; mas guardou o silêncio, lhe respeitando. A refeição se deu com muita tranquilidade.

Amanda realmente tinha fome. Teve um café da manhã corrido para não se atrasar à reunião após o pernoite.

- Então... o que está acontecendo? - Amanda o indagou.

- São dois eventos que o pai soube e reverberarão na exportadora. - Luke pareceu preocupado. - Primeiro, Nazari.

Amanda franziu o cenho. Antes que Luke iniciasse sua dissertação, pediu uma taça de vinho para ambos - apesar de ele nunca passar da primeira taça, não negava acompanhá-la.

- Você já sabe que o patriarca deles é bem velho... o pai lidou com um rumor que o segundo filho, Farhad, é quem assumirá os negócios... e provavelmente reverá os contratos.

- Ele está doente? - Amanda se preocupou.

- Não está, mas eles não querem esperar chegar um momento delicado para lidar com isso. Muito sábio! - deu de ombros. - Isso significa que deve se preparar.

- Muitos dos nossos lançamentos estão ligados a eles... - A moça ficou pensativa. - Enfim, estamos prontos para lidar... não imagino que isso será um problema tão grande.

- Pode se tornar.

Preocupada, Amanda deu um gole no vinho.

- Rumores dizem que a Suprema Corte do Irã está revisitando uma matéria que pode afetar o consumo de carnes e exigir mudanças drásticas em toda a indústria halal.

- Hm? Do que exatamente falamos? - indagou.

- Dependendo de sua resolução, podem exigir que outras etapas do processo também sejam halal... o que significaria mudar hábitos nos principais pilares da cadeia de produção.

- Isso é impossível! - A moça ficou nervosa de imediato. - Como fazemos isso? Demissão em massa e recontratação? Educação dos nossos executivos e funcionários? Droga!

- Ainda é só um rumor, mas é bom se preparar. Falei com Amir, do Jurídico; ele ficará atento às novidades sobre e moverá o resto do corpo jurídico, se necessário.

- Droga! - A moça continuou maldizendo.

- Dependendo de como for, para não afetar tão drasticamente, é possível que não sejam tão exigentes... não sei... eles são bem ortodoxos... é difícil presumir!

- Isso ajuda bastante... pela sua experiência, o que acha? - Amanda tentou enxergar uma luz no fim do túnel.

- Pelo que estudei da matéria nos últimos dias, há uma exigência que, além da forma de cuidado e abate, também haja uma espécie de arcabouço halal nas outras etapas.

- Mesmo que atinja apenas o corpo executivo, isso significa... eu, sabe!? - Amanda riu, meneando a cabeça.

- Sim, eu sei disso - riu. - É ainda mais complicado... você é, ao menos considerada por eles, kafir... é muito difícil mudar isso e... eu nem sei como seria.

- Kafir é o passado deles! - incomodou-se.

- Calma! - Luke riu. - Sabe que é assim. Não segue a fé, não é casada... é tudo que um iraniano entende como errado!

Amanda deu um gole mais generoso no vinho e se recostou na cadeira. Colocou uma das mãos na cabeça, extremamente preocupada com o cenário.

- Conta comigo. - Luke tentou tranquilizá-la. - Continuarei te atualizando conforme souber mais. Ainda não falei com seu pai, mas é bem provável que a mãe o faça.

- Poderei conversar com ele amanhã... ou depois, sei lá - deu de ombros. - Pode me encaminhar o que tem sobre?

- Sem problemas. Eu acompanharia para te poupar.

- Amável! Mas, não sossegarei enquanto não entender do que isso se trata. - Só faltaram os olhos brilharem de tanta obstinação. - Isso não pode nos afetar!

- Não quero que se torne uma desculpa para você trabalhar ainda mais... entendeu? - Preocupado, ele terminou sua taça de vinho e a colocou na mesa.

- Impossível, não?

- Fará o quê? Irá até o Irã? Terminará presa e eu não poderei fazer muito para te ajudar! - criticou. - Acalme-se... nós só podemos esperar e orar... Salah! - suspirou.

- Odeio esperar!

- Mas, deve aprender. Se os rumores acertam, devem começar a debater esse assunto nessa semana. Manterei você atualizada sempre que puder. Se precisar, busque Amir.

- Procurarei, procurarei...

Capítulo 2 II. Uma Máquina Executiva

Ainda era uma terça-feira e Amanda não poderia estar se sentindo mais pressionada, tentando presumir como ficariam os negócios com a tal mudança entre os iranianos.

A exportadora era um grande nome do mercado halal e poderia se recuperar, mas precisaria começar a galgar novos nomes para assumir as posições dos clientes que perderiam.

O grupo iraniano Nazari era o maior cliente e não ter a receita advinda dos negócios com eles seria muito impactante para a empresa, exigindo criatividade para driblar a crise.

Luke a dirigiu de volta à empresa e seguiu ao seu escritório enquanto Amanda também foi à sua sala e se trancou, deixando um único recado para sua secretária:

- Estou indisponível pela próxima hora!

Mariana lhe alertaria sobre as próximas reuniões, mas a CEO apenas a ignorou e conseguiu ficar só por uma longa hora, que usou apenas para tentar se tranquilizar.

Era muito ansiosa comumente e isso seria demais.

Voltando ao trabalho, foi objetiva, como sempre. Precisou de novos contatos com todo o corpo da empresa para reaver os balanços dos anos anteriores e repensar suas estratégias.

Era tarde quando Luke terminou seu trabalho e foi no escritório de Amanda para deixar os papéis que ela pediu, mas a moça não o atendeu quando ele bateu.

O rapaz apenas suspirou, meneando a cabeça e entrou, encontrando-a cochilando com os braços sobre os papéis.

Luke foi à mesa para usar o ramal e falar com Mariana.

- Senhora? - A moça atendeu rápido.

- Não é ela, Mari... sou eu. - Luke falou. - Já deveria ter ido embora, mas o mau exemplo da patroa não ajuda - repreendeu. - Antes de te dispensar, pode pedir uma refeição para a noite? Acompanho ela por hoje.

- S-sim, senhor! - A moça assentiu.

Mariana pediu a refeição para ambos e ficou para receber. Levou ao escritório e Luke a dispensou do trabalho.

O CFO diminuiu o nível da luz do escritório e sentou com os papéis da matéria iraniana para transcrevê-lo empregando termos mais simples e fáceis de entender.

Era quase meia-noite quando Amanda acordou assustada - nem percebera em que momento cochilara.

- Se continuar não dormindo direito e acordando assim, morrerá disso! - Luke a alertou, olhando-a de canto de olho.

- L-Luke? - Aturdida, franziu o cenho. - Q-que hora-

- São meia-noite agora. - Ele a interrompeu. - Já dispensei sua secretária e temos uma refeição... Não é adequado pernoitar com você, mas faço esse esforço.

- Desculpa! - Ela se reparou. - Não queria dar trabalho.

- Não se preocupa. - Ele parou o que fazia para levantar e esquentar as refeições. - Estou descomplicando um pouco o material que reuni sobre o incômodo assunto do almoço.

- Você é um anjo! - elogiou. - Não sei o quão bom está meu persa para entender um jurisdiquês iraniano - riu.

- Nem quer entender! - Luke também riu.

Enquanto ele lidava com a refeição, Amanda organizou toda a papelada na mesa para conseguirem não sujar nada.

Eles tiveram sua refeição e Luke compartilhou o arquivo para explicar o pouco que tinha da situação e como agentes importantes da indústria estavam lidando com o rumor.

O número de conservadores ou ultraconservadores não era tão pequeno no Irã e isso dava maior força para uma interpretação que poderia afetar a exportadora.

- O patriarca Nazari nunca cedeu à tendência alguma... sabe algo sobre o sucessor? - Amanda o indagou.

- A má notícia é que os filhos Nazari são conservadores... a intensidade varia... mas estou certo que todos são a favor de mudanças nesse sentido - suspirou.

- Tomarei a dianteira e solicitarei uma reunião para discutirmos passos futuros, considerando a mudança.

- Isso pode ajudar. Indica boa vontade e eles podem gostar - riu. - O que estudamos tanto que nos fez dormir no trabalho? - Mudou o assunto, observando os papéis anteriores.

- Temos que repensar as estratégias... qualquer plano expansionista deve considerar uma crise! - falou apressada.

- Gosto da determinação e do quanto soa confiante, mas precisa tomar cuidado para não atropelar nada no caminho - aconselhou. - Busque seu pai, talvez ele ajude.

- É a segunda noite que não vou em casa! - A moça se recostou na cadeira com as mãos na cabeça. - Misericórdia!

- Isso não é vida, habibti!

- Não se preocupa! - A moça deu uns tapinhas no próprio rosto e suspirou, recuperando o sorriso confiante.

Novamente, o rapaz optou por silenciar.

Sempre que conversava com Amanda sobre os péssimos hábitos, sobre seu vício em trabalho, nunca conseguia extrair nada positivo... apenas desconforto da moça.

Eles voltaram ao trabalho e ele se juntou para dar suas sugestões. Como diretor financeiro, não estava no cargo só por ter sua família próxima à família Franco e Silva.

Estudara muito e fora preparado para tal cargo. O objetivo inicial não era ocupar uma empresa fora da família, mas o pai de Amanda necessitou e seus pais atenderam.

Pouco antes do amanhecer, Luke recebeu uma ligação da mãe, Luiza, muito preocupada para saber onde estava o filho e o porquê de ele não comunicar que dormiria fora.

- A namorada ficou chateada? - Amanda riu.

- Quem me dera... me pouparia de muita coisa - arfou, rindo. - Era a mãe... esqueci de avisar do pernoite...

- Deve ser complexo... - A moça compadeceu-se.

- Bastante... as pressões do pai só aumentam, mas eu ainda consigo resistir às suas ideias de me casar - riu.

- São hanabalitas, não!? - A moça franziu o cenho.

- Sim - assentiu. - Já estou enrolando para casar há muito tempo... nem é porque quero, mas ele jamais entenderá.

Ambos acabaram gargalhando.

Luke ajudou para a moça organizar sua papelada do dia, fazendo o que Mariana provavelmente já fizera em seu canto, mas ainda não compartilhara com Amanda.

- Terei com Amir e o corpo jurídico assim que terminar de ler tudo isso. Não são tantas reuniões, mas... após ter com eles, quero reunir nossa mesa diretora para conversar.

- Estou pronto, habibti. - Ele sorriu. - Precisando de algo, basta chamar e venho para tentar ajudar, tudo bem?

- Já disse que é um anjo? - Amanda riu.

Luke a cumprimentou e deixou a sala.

Amanda ainda tirou mais um cochilo em sua mesa para esperar a chegada de Mariana, que entrou na sala, perfumando-a com cheiro de café recém-passado.

- Senhora... - Mariana a despertou.

- Ah, Mari! Eu te amo! - Amanda sorriu-lhe, sonolenta.

O cheiro estava divino e era tudo que ela precisava.

- Precisa dormir... e sabe disso, não!? - Mariana lhe disse. - Até te chamaria para sairmos, mas você está numa viagem sem fim para o fundo do poço! - riu.

- Nossa, Mari! - riu, franzindo o cenho. - Que horror!

- De verdade...

- O final de semana já está chegando... está tudo bem!

- Menina! - Mariana riu. - Posso começar a ler tudo o que tem para fazer durante o dia sem você dormir?

- Pode, sim... o café vai me salvar - gargalhou, se ajeitando na cadeira para dar iniciar mais um dia.

Capítulo 3 III. Uma Guerra Fria

- Sigamos observando. Quero atualizações de cada avanço ou novo rumor - dizia Luke ao estagiário. - Sei estar fora do nosso escopo, mas posso poupá-lo de outros trabalhos por ora.

- Sim, senhor! - O jovem assentiu rapidamente.

O tempo de Luke durante o dia era escasso. Na ligação com sua mãe, fora avisado de um almoço com o pai e um homem, que o rapaz já sabia ter alguma filha.

Mesmo que conseguisse usar o trabalho como desculpa para não se prolongar nesse tipo de conversa, sabia que logo não conseguiria justificar o porquê de ser solteiro.

Seu pai fora muito paciente e isso estava acabando. Mesmo com a ajuda de sua mãe, a validade estava chegando...

Foi uma manhã de muito trabalho, principalmente lidando com as expectativas dos números nos próximos dias.

O cenário não era positivo e o mercado já conhecia o rumor da corte iraniana, o que fazia a exportadora perder um pouco mais de valor de mercado que ele gostava de ver.

Moveu-se com alguns dos seus para atenuar os impactos das notícias na especulação, o que ajudou, mas precisava de algo concreto quando o rumor se provasse real.

Na hora do almoço, dirigiu para encontrar o pai, que o aguardava na companhia de um homem. Os óbvios traços árabes já lhe davam uma ideia do que esperar.

- Salaam aleikum! - O jovem abriu seu melhor sorriso para cumprimentar ambos ao se aproximar.

- Wa aleikum essalam... - Ambos retribuíram e sentaram.

Lidaram com seus asseios, antes da refeição, e todos os preceitos necessários para pedirem sua comida. Enquanto aguardavam a chegada da refeição, seu pai apresentou:

- Esse é Tariq bin Muhammad Al-Ali. Expoente na alhicultura e um grande amigo de seu pai. Tariq, meu primogênito e único filho, Luke bin Ibrahim Al-Malik.

- Tasharrafna, senhor! - Luke sorriu-lhe. - Presumo ser uma formidável área de atuação, mas confesso que me falta conhecimento para ter grandes conversas sobre - riu.

- É jovem... fala como intelectual... tem postura de soldado. - O homem analisou. - Gosto do que vejo, Ibrahim... Quantos anos têm e com o que trabalha... Luke, não?

- Sim. Tenho vinte e três anos. Sou atual CFO da Franco & Silva Exportações. Graduado em Ciências Contábeis; tenho um MBA em Finanças e planejo me lapidar cursando Economia, Engenharia Financeira e Matemática Aplicada.

- Nasceu aqui ou no deserto de casa? - arguiu.

- Sou brasileiro. Visito minha casa, mas não tenho ambições de retornar a Arábia, senão para as sagradas visitas à Meca, senhor. - Luke foi objetivo, mesmo sabendo do quanto aquela resposta era impopular.

Tariq franziu o cenho, desconfortável com o que ouviu, mas assentiu com a cabeça e cessou seu interrogatório.

Muito incomodado, Ibrahim fitou o filho.

A refeição foi servida e eles comeram, solenes.

- Foi formidável conhecê-lo. Infelizmente, não posso me estender! - Luke o disse, tirando um cartão do paletó. - Contate, caso necessite de algo. Será ótimo atendê-lo.

- Masha'Allah, jovem! - Tariq sorriu-lhe. - Também não posso me demorar, mas ligarei para marcarmos um jantar.

- Ficarei feliz em aceitar, senhor!

Tariq se levantou e cumprimentou ambos para partir.

- Essa precisava ser a resolução, Malik? - Ibrahim indagou o filho, respirando fundo para omitir seu desgosto.

- Perdão, meu pai. Falei algo que o incomodou?

Luke sabia bem o que falara e o porquê do pai estar tão desgostoso, mas ainda fingiu que nada fizera de propósito.

- Continue assim e será ainda mais difícil casá-lo!

- Hm... pretendia me casar com ele!? - debochou.

Ibrahim bufou de raiva, mas não respondeu o filho.

- O senhor está muito nervoso, meu pai. Perdoe a brincadeira, mas não pode levar isso tão a sério, eu acho.

- Não posso levar a sério!? - O homem riu, irônico. - São oito anos desde que se tornou adulto e ainda tenho um filho solteiro, sem a menor perspectiva de me dar netos!

- Tenho vontade de dá-lo netos e constituir família, meu pai. In sha' Allah! - Luke se defendeu. - Infelizmente, não conheci ninguém que me pareceu enviada por Allah para tal.

- Fugir de casamentos já me parece haram suficiente!

- Não estou fugindo, perdão. - Ele se reparou ao perceber que o irritara mais do que ocorria comumente.

- Pode ir para o trabalho! - Ibrahim disse, desgostoso.

- Sim, senhor, meu pai. Salaam aleikum!

- Wa aleikum essalam, filho. Juízo! - O homem desejou.

Luke se apressou ao carro e suspirou. Realizou suas íntimas preces, afinal, não tinha o menor intuito de se casar com uma desconhecida e a demora poderia acarretar nisso.

Voltou ao trabalho por volta das duas da tarde.

Não foi um dia tão fácil dada a mente avoada com as dificuldades pessoais, mas Luke conseguiu continuar traçando as possíveis estratégias para o futuro.

Com um esboço bem desenhado, conseguiu nutrir o setor de comunicação para boas sinalizações ao mercado que seriam aplicadas na estratégia de marketing do mês.

Encerrou seu dia de trabalho às cinco, horário padrão. Aguardou o pôr do sol, observando-o da janela para ter seu momento íntimo de oração, antes de assumir o volante.

Não enfrentou um trânsito tão agitado.

Chegando em sua casa, foi até sua mãe, que dispensara as empregadas do dia para cuidar da refeição. O silêncio na casa evidenciava que o pai ainda não chegara.

- Boa noite, minha mãe. Salaam aleikum!

- Ah, meu amor. Wa aleikum essalam! - Luiza beijou sua testa. - Seu pai conversou comigo e está muito irritado. Tento ajudar, mas respostas malcriadas para ele não são a saída.

- Perdão, minha mãe! - Luke riu. - Não consegui segurar, mas vi o quanto ele ficou mais irritado que o normal.

- Ele não quer ser incisivo... mas, está cogitando te dar um prazo para casar; senão ele fecha um acordo de casamento sem o seu consentimento.

O jovem olhou para a mãe, engolindo seco.

- Tentarei ajudar, mas não acho que consigo.

- Claro... - Luke assentiu com a cabeça, chateado. - E-eu... já... deveria- - suspirou, desapontado. - Eu... estarei pronto... procurarei... sei lá! - deu de ombros, aturdido.

Luiza se aproximou para abraçá-lo.

- In sha' Allah! - O jovem bem-disse. - E-eu... vou...

- Vá se banhar... Você merece! Onde passou a noite?

- Amanda pernoitou no escritório de novo. Para não deixar Mariana ficar, a dispensei e fiquei. - O jovem disse. - Não é haram, mas é, com certeza, makruh... cuidarei no banho.

Luiza apenas assentiu e desvencilhou-se do filho para permiti-lo ir ao seu quarto. Era uma casa grande e o quarto de Luke ficava no segundo andar.

Apenas quando chegou ao quarto, Luke sentiu o peso do pernoite sobre seus ombros. Seguiu ao seu banho para lidar com a limpeza pela noite inapropriada.

Ficou algum tempo na banheira, aguardando o total cair da noite para realizar suas preces antes de sair do quarto.

O jantar fora extremamente incômodo.

Ao chegar, seu pai ainda deixou o descontentamento claro. Ficou silenciado a maioria do tempo e não parecia ter vontade alguma de conversar com o filho.

Tempos difíceis definitivamente estavam por vir.

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