Pandora Benedict
Ai meu Deus! Eu preciso ir embora daqui.
Esse era meu único pensamento conforme Matheus despejava novamente seu repertório infinito de ofensas, por causa do seu ciúme doentio.
Na concepção dele, eu era obrigada a desfazer de todas as minhas amizades, de todos que estiveram comigo no processo turbulento do luto quando perdi meus pais. Era proibida de conversar com qualquer pessoa, seja meus professores da universidade, seja algum colega de classe, da família então? Não restou praticamente ninguém e os poucos primos distantes, fui forçada a cortar contato.
Se algum rapaz chegava perto de mim, era motivo de enormes discussões e sempre o motivo eram os mesmos: meu corpo, minhas roupas, minha educação. Segundo ele, responder uma simples solicitação de direcionamento para localizar um endereço, me tornava uma pessoa oferecida.
Eu pertencia a ele. Meu sorriso era dele, meu corpo era dele.
Demorou muito tempo, muito mesmo, até eu perceber que estava em uma relação tóxica. Mesmo com as agressões. Depois que eu perdi meus pais, fiquei perdida, confusa, sozinha e me apeguei ao Matheus como uma forma de escape. No início, ele era um príncipe, embora meu pai nunca gostou dele e só o viu poucas vezes antes do fatídico acidente.
Por que eu não percebi logo?
Fui puxada de volta a realidade quando Matheus me pegou pelos ombros, me sacudindo e gritando a plenos pulmões.
- Você é vulgar demais Pandora. Por isso todo macho que passa na rua fica te olhando, fica te perguntando algo, na primeira oportunidade vão te traçar. Você não percebe que é tudo culpa sua? Você não se dá o mínimo de respeito, olha essas roupas. Estou farto de presenciar esses machos cobiçá-la.
Em seguida, veio o primeiro tapa - de muitos que já levei até aqui - era sempre a mesma coisa. Ele surtava com algo que falaram para ele, por que tinham vigias onde quer que eu fosse, então ele corria para casa e já entrava aos gritos.
Particularmente, já estou cansada dessa vida e toda vez que começa de novo, fico me perguntando se dessa vez, Deus vai ter misericórdia e eu irei de encontro aos meus pais. Não respondo mais. Não tento fazê-lo enxergar o óbvio. Só preciso aguentar hoje, só mais um pouco e serei livre.
- Cansei de avisar para não usar esse tipo de roupa, por que você me força a te disciplinar? Você gosta de apanhar? Já te falei milhões de vezes que seu corpo é imenso, fica ridículo com esse tipo de vestido, não se olha no espelho? Quantas vezes já te falei, devia agradecer por não estar sozinha no mundo, por me ter e pelo meu esforço diário de continuar com você, mesmo sem desejá-la. Entenda de uma vez Pandora, você não é uma mulher largada no mundo e não vai nunca mais se vestir assim, deixando suas pernas a mostra, me ouviu?
Essa foi a última parte do seu discurso que consegui compreender e ele me acertou novamente no rosto e no estômago, me obrigando a dar boas-vindas a escuridão.
Quando despertei, não sei exatamente quanto tempo se passou, eu estava caída no chão no vão entre a cozinha e a sala. Nenhum sinal dele pela casa. Por um momento, pensei que morreria e ficaria enfim livre desse martírio, mas não tive tanta sorte. Depois de verificar se meu corpo aguentaria se mover, com muita dificuldade me levantei.
Essa é a minha oportunidade.
Chegou sua liberdade Pand.
Por alguma razão, quando o advogado dos meus pais me deixou ciente do valor que tinham guardado, eu nunca mexi. Mesmo precisando diversas vezes. Inconscientemente, algo me alertava que aquele dinheiro seria usado em uma extrema necessidade. Chegou a hora.
Não tinha mais nada que me prendesse ao Brasil, devido a minha dupla cidadania, podia entrar na Inglaterra sem precisar de um visto temporário. Novamente agradeço aos meus pais, por me ensinaram seu idioma desde nova, seria muito útil agora.
Rapidamente entrei na internet, localizei uma passagem ainda hoje e reservei um hotel. Depois de juntar poucas coisas que eu possuía e não queria perder, sai rapidamente daquela casa deixando tudo para trás, deixando uma vida de sofrimento para trás, rumo a uma nova vida.
Preciso sumir, ficar invisível e nunca mais voltar.
Depois de eternas 12 horas dentro de um avião, ouvindo pessoas rindo, crianças se divertindo, enfim desembarquei no Heathrow International Airport.
Sem família, sem amigos, mas com uma vontade imensa de viver. Estar aqui é como um renascer e eu vou fazer de tudo para minha vida tomar um rumo brilhante daqui para a frente.
O que vou fazer da minha vida agora? Ainda não sei, mas força de vontade eu tenho.
Depois de reaver a única bagagem que tinha e conseguir trocar meu dinheiro de real para euro, fiquei circulando pelo imenso aeroporto até localizar onde ficava o ponto de táxi. Mesmo que entenda o idioma, é a primeira viagem internacional que faço, então fico momentaneamente perdida, mas no fim tudo dá certo. Na primeira conexão, fiz uma troca de hotel, me dei o luxo de ficar em um mais nobre por dois dias, mas não podia esbanjar muito e procurar emprego urgente. Estava ansiosa para passear por Londres e perceber o novo mundo que me aguardava. Vou procurar com calma um airbnb, dizem que é mais em conta e tem tudo o que a gente precisa, para um começo de vida, vai me ajudar muito.
Meu primeiro arrependimento apareceu assim que localizei o ponto de taxi. Sério que os londrinos são tão mal-educados assim? Ou perceberam que sou turista? Todos os taxistas que localizei parados - repito, parados - no aeroporto, se recusaram a me levar. Será que o hotel era muito longe ou a região que era ruim? Na vigésima tentativa, consegui um abençoado motorista que concordou em me levar.
Enquanto circulava pela cidade a caminho do hotel, comecei observar pela janela um mundo completamente diferente e a insegurança bateu com força. Era apenas uma recepcionista de uma clínica quando decidi largar tudo e me mudar, era formada em Direito - pasmem, formada aos 19 anos - tudo por que aos 15 fiz uma prova dificílima e após gabaritá-la me formei antes do tempo, automaticamente entrei na universidade mais cedo. Só eu sei como foi terrível fazer na reta final dois anos em um só. Mas no fim valeu a pena, meu esforço foi recompensado quando passei na OAB, mas nunca exerci essa profissão. Até por que, quem iria contratar uma advogada de 19 anos? Portanto, zero experiencia no ramo. Como vou me sustentar aqui? Mas vai dar certo.
Calma Pand, não se desespera ainda, faz poucas horas que chegou.
Respira e não pira.
Chegando no hotel, fiquei momentaneamente estática, era um hotel típico da realeza - impossível ser o que eu queria e reservei – com certeza o taxista errou, mesmo mostrando o endereço correto no telefone. A fachada dele era incrível e estava acessa devido o horário, tudo brilhava, logo ao lado tinha uma roda gigante enorme, também acessa.
Era deslumbrante.
Por um momento, me vi sonhando com uma realidade que não era minha, onde eu entraria nesse hotel maravilhoso depois de aproveitar a roda gigante, acompanhada de um britânico lindo que me amaria acima de tudo, me respeitaria e me faria esquecer a realidade horrível em que eu vivia. Será que meu príncipe é britânico? Dei risada sozinha, precisava parar de ser sonhadora, onde eu estava com a cabeça pensando em romance, sendo que minha experiência era traumática o suficiente e me forçava a fazer voto de celibato eterno. Me assustei com o taxista gritando comigo, completamente alterado.
- Chegamos, pegue sua bagagem no porta-malas.
Fiquei perdida entre as realidades por um curto tempo, até esqueci o idioma novo e não compreendi o porquê ele estava alterado, até vir um novo grito.
- Agora!
Britânico temperamental.
Desci apressada, peguei minha única mala e ele arrancou com o carro ainda gritando coisas que não compreendi. Que cara louco, primeiro me leva ao local errado e depois ainda tem o disparate de ficar nervoso.
London Marriott Hotel County Hall
Não era esse hotel que solicitei, nem sei a distância daqui até o hotel correto. Esse taxista abusado fez de propósito, deve ter percebido que ninguém aceitava me levar e me trouxe para qualquer lugar.
Decidida a não desistir no primeiro empecilho, juntei minhas coisas e comecei a andar distraída no celular tentando me localizar no GPS. Deus abençoe o plano internacional, se não ainda estaria no Aeroporto sem saber o que fazer, embora seria melhor do que aqui na rua. Mas levantei a cabeça, não vai ser eu perdida em Londres no primeiro dia que vai me apavorar, minha vida no Brasil me apavora, aqui é somente um mero detalhe.
Como se não bastasse tamanha humilhação - sair do Brasil fugindo e me perder no primeiro dia em Londres - começou chover muito, e a temperatura aqui caiu muito rápido. Não que estivesse calor, já que logo ia começar o inverno, mas não estava preparada para ficar ao tempo desse jeito, meu suéter era bem meia boca, mas com a chuva e sem ter onde me abrigar, vou congelar.
- Se isso é um teste Deus, já estou pronta para acordar em uma cama quentinha a qualquer momento viu? - Resmunguei olhando para cima.
Como se a resposta dos céus viesse em forma de piada, localizei um abrigo do outro lado da avenida e não parei para pensar direito, meu corpo estava tendo pequenos espasmos de frio. Sem olhar se era seguro, comecei atravessar a rua e fui atingida por um veículo que não vi chegando.
Por um milésimo de segundo, enquanto eu voava depois da colisão me perguntei se era dessa forma que minha vida terminaria. Fugindo de um ex-namorado tóxico, perdida em Londres, molhada igual um patinho em uma chuva torrencial e atropelada por um estranho.
Eu não posso morrer depois de tanto, não depois de ter suportado tudo e conseguido me libertar. Preciso de mais tempo, preciso conquistar o mundo. Preciso ser feliz. Foi a última coisa que pensei, antes de colidir com o chão e apagar.
***
Acordei ouvindo diversas vozes ao mesmo tempo e um bip infernal que me causava um latejar absurdo na cabeça. Doía muito. Com certeza não morri, já que sinto dor. O barulho me deixou ciente que estava em um hospital, mas onde exatamente? Minha mente estava muito confusa e cheguei a pensar que era mais um dos episódios das surras do Matheus que me levava até a emergência.
Quanto ele me surrou dessa vez? Sonhei que tinha me libertado, mas era tudo uma fuga da minha mente?
Após alguns instantes de pânico, consegui identificar a voz de alguém ao meu redor e nunca imaginei que compreender outro idioma me faria tão bem assim. Não foi ilusão, dessa vez não foi o Matheus que me direcionou até a emergência. Como uma tormenta, meu desastroso primeiro dia em Londres voltou a minha mente. Gemi de desgosto. Como pude atravessar uma avenida sem olhar, nem no Brasil eu fazia tamanha tolice, fui cometer esse erro absurdo logo aqui. Sou a única culpada, ninguém mais.
Meu corpo todo doía e estava me sentindo meio atordoada, foi com muito esforço que consegui abrir os olhos para fechá-los rapidamente em seguida por conta da claridade. Assim que me adaptei com a luz forte, observei ao meu redor e me deparei com um quarto de hotel muito sofisticado. Na realidade, estava mais para um hotel chique que via diariamente na TV nos filmes de romance que amava assistir. Tirando a cama de hospital, muito confortável por sinal, e os diversos aparelhos que estavam ligados a mim, o quarto era excepcional.
Logo ao lado da cama, tinha duas poltronas que pareciam muito confortáveis, mais ao lado tinha uma mesinha com jarra de água, café e outra que provavelmente era chá, e diversos aperitivos, que fizeram meu estomago roncar.
Do outro lado do quarto, havia um sofá enorme que tomava praticamente a parede inteira. A porta de acesso ao quarto estava ali próxima, assim como outras duas portas, que julguei uma sendo o banheiro e não consegui identificar a outra.
Será que os hospitais públicos de Londres são assim? Como um estalo, me veio a voz da minha mãe, me avisando que os outros países não eram iguais o Brasil, que por mais que o SUS fosse horrível, tinha hospitais públicos. Esse aqui só podia ser particular.
Quando esse pensamento me atravessou, meu coração disparou aumentando aquele bip miserável, fazendo algum tipo de alarme soar e imediatamente diversos médicos e enfermeiras entraram no quarto correndo, procurando entender o que estava acontecendo comigo. Estava infartando, com certeza.
Com a dor que sentia no corpo, uma perna imobilizada e um braço preso em uma tipoia, já consegui perceber que não foi um acidente leve. Me deparar com um quarto como nos filmes, me fizeram entrar em colapso. Não só bastava ter sido atropelada, ainda ia ficar sem nenhum tostão e devendo um rim naquele hospital.
A dor insuportável na minha cabeça piorou muito e minha visão embaçou, minha respiração ficou irregular e meu peito doía. Estava em pânico. Tentei me concentrar em algo que me ajudasse a aliviar a pressão que estava sentindo, mas nada surtia efeito, parecia que eu estava me afogando dentro de mim mesma, afundando cada vez mais. Foi quando senti alguém segurando minha mão e foquei nos olhos mais lindos que já havia visto.
Era um homem espetacular e me encarava com um vinco na testa, visivelmente preocupado comigo. Meu ar estava escasso, sumindo muito rápido, quando o desconhecido colocou uma mão em meu peito e guiou a minha até o dele, respirando fundo.
- Vamos lá mocinha, me siga ok? Respira comigo - Ele disse baixinho.
Ficamos nos encarando por um tempo, até que percebi que ele estava respirando muito forte, seguindo o mesmo padrão que o meu e começou diminuir aos poucos, com muito esforço o segui.
Aos poucos, o ar voltou aos meus pulmões, me causando um alívio imediato. O bip infernal começou a normalizar conforme ia me acalmando.
- Isso, boa garota. - Ele sorriu
Assim que tudo normalizou, consegui reparar nele e o que vi, me fez prender a respiração. Ele tinha os olhos mais azuis que já tinha visto na vida. Sua postura era elegante - rico com certeza - usava terno feito sob medida, porque não tinha nada de tecido sobrando, o vestia muito bem. Seu cabelo muito bem penteado, era de um castanho claro, com alguns fios loiros. Não podia negar que muito provavelmente embaixo daquele terno, havia um homem com um corpo de deixar qualquer mulher babando. Ele era lindo demais para o meu próprio bem.
Em seguida me deparei com outro par de olhos, esses eram azuis, mas um tom de azul que não impactava quando observado de perto e me julgavam, demonstrando tamanha irritação que fiquei impactada por um momento. Quem são essas pessoas? Essa mulher me encarava como se eu fosse a culpada pela fome no mundo. Provavelmente era esposa do Deus grego e estava se sentindo incomodada por ficar me observando nesse leito.
- Senhorita? - O médico, que até então não tinha notado na sala falou calmamente, tirando minha atenção da mulher odiosa ao lado. - Sou o Dr. Alexander, responsável pelo seu caso e vou acompanhá-la até a sua alta, que deve ocorrer em no mínimo duas semanas.
- O que? - Praticamente gritei e percebi meu descuido gritando em português, imediatamente procurei me acalmar.
- Desculpa, o que? Não posso ficar aqui duas semanas.
- Seus ferimentos foram muito graves. Quando deu entrada no hospital, estava com um sangramento interno gravíssimo, traumatismo craniano, fratura de uma costela, da perna direita, sem contar a que teve no punho esquerdo. Foi submetida a uma cirurgia de emergência para localização do foco de sangramento e colocada em coma induzido para melhora do quadro. Depois de 24 horas com melhoras consideráveis, fomos tirando os sedativos gradativamente. Foram longas 72 horas após a retirada do sedativo até que enfim despertasse, o que aconteceu a aproximadamente 20 minutos, para ser exato. Precisamos refazer os exames para minimizar quaisquer sequelas e posteriormente...
- Espera Dr. - Interrompi, procurando me acalmar para não entrar novamente em pânico. - Como vim parar aqui? Só me recordo de avistar uma cobertura do outro lado da avenida e tentar chegar lá porque estava congelando na chuva. Depois disso, não me lembro de mais nada, até acordar aqui.
A mulher, que até então não tinha falado nada, bufa e com visível descontentamento praticamente grita comigo.
- Você entrou na frente do carro do meu homem, sua desqualificada. Por isso está aqui. Agora é muito fácil se fingir de esquecida, quando obviamente se jogou para chamar atenção - Ela despeja em cima de mim.
Quando dei por mim, estava chorando compulsivamente, não pelo que a mulher me acusou, mas por mim. Meu desespero era palpável, não conhecia nenhuma daquelas pessoas, estava vulnerável e nem sabia como ia resolver toda essa situação. Essa mulher nem me conhecia e já me julgava sem me dar oportunidade de tentar explicar o que me recordava daquele dia, sem falar que o olhar do Deus Grego me deixava nervosa. Em um movimento rápido, o médico fez um sinal para a enfermeira, que aplicou um novo medicamento no meu soro, que me causou uma leveza praticamente instantânea e mergulhei no aconchegante breu.
***
Não sei quantas horas se passou até que despertei novamente. Agora o quarto estava na penumbra, somente com um fio de luz vindo por debaixo da porta. Não sabia dizer ser era dia ou noite já que as janelas estavam cobertas por grossas cortinas que cortavam qualquer luz. Olhei ao redor do quarto acreditando que estava completamente sozinha, e me assustei ao me deparar com uma sombra no canto do quarto, encostado na parede e me encarando. Meu primeiro impulso foi gritar, até reconhecer aquelas írises fantásticas do Deus grego que vi mais cedo.
O que ele fazia aqui? Quem ele era? Cadê a mulher? São tantos questionamentos, que estava me deixando tonta.
- Olá - A voz de barítono ressoou pelo quarto e trouxe arrepios ao meu corpo, que com certeza não estava preparada para sentir. Agora que estava mais calma, consegui perceber seu tom de voz com clareza. Combinava muito com ele. Forte. Grave. Marcante.
Como pode um ser humano ser tão privilegiado assim, se não bastasse a beleza dele, a voz é maravilhosa e me deixou cativa. Tanto que esqueci de responder.
- Me perdoe não ter me apresentado mais cedo, não tive oportunidade. Sou Oliver Parker. O médico achou melhor aplicar um calmante leve, somente para evitar que seu nervosismo fosse prejudicial a sua saúde, devido a cirurgia delicada que passou recentemente, não queria que sofresse um ataque cardíaco ou piorasse as dores que provavelmente sente na cabeça. Consegue conversar comigo calmamente agora? - Ele explicou calmamente, como se tivesse medo da minha reação.
Meu senhor, por um momento lembrei do filme Crepúsculo. Edward falando com a Bella pela primeira vez.
Foco.
- Só queria compreender o que aconteceu. Preciso... ir embora... Recomeçar minha vida... - Comecei falar já soluçando novamente e disparando novamente aquela porcaria de bip.
- Se acalma pequena, ficar nervosa só vai piorar seu quadro e vão precisar sedá-la novamente. Não precisa se preocupar com nada, estou cuidando de tudo. Você está aqui por um descuido meu e vai ter tudo o que precisar para sua melhora. Vou cuidar de você.
- Como?
- Estava em meio a uma discussão com a Emilly, você a viu mais cedo, enquanto estávamos a caminho da casa dela. Ela não aceitou o término muito bem. Devido isso, me distraí na direção por um momento e ... bom, o resto nem preciso explicar, já que você está nessa cama de hospital.
- Você não tem culpa de eu ter entrado na frente do seu carro.
- Tenho culpa por estar distraído e não ter desviado de você.
- Nem por isso precisa bancar meu tratamento.
- Preciso sim, para minha sanidade mental
- Não vejo necessidade. Não sei como vou pagar tudo, já que tenho poucos euros após a conversão, mas darei um jeito.
Suspiro frustrada.
Encarei novamente aqueles olhos que me diziam tantas coisas, me imploravam para aceitar o que ele me dizia, não me julgava por ter entrado na frente do carro, pelo contrário demonstravam uma preocupação que nem cabia a ele, já que nem me conhece. Mas também mostravam um interesse genuíno em mim. Era isso que eu não conseguia compreender, o que de tão interessante havia em mim, para impressionar esse homem? Reparei nele com mais afinco e diferente da primeira vez, agora ele usava jeans escuro, tênis de marca preto, uma blusa polo azul marinho e seu cabelo estava levemente bagunçado, como se tivesse passado a mão muitas vezes. Estava mais lindo ainda.
- A propósito, não sei o seu nome. - Ele me despertou do transe com aquela voz de barítono que me causava arrepios em lugares que não deviam arrepiar e pude sentir meu rosto esquentar.
Que isso Pandora, você nunca corou na presença de nenhum homem antes. Antes de responder considero mentir. O medo causa isso nas pessoas, não conheço esse homem, por mais que esteja me ajudando, mas depois do Matheus, não sou uma pessoa que vai confiar no primeiro sorriso que aparecer. No fim, decido ser honesta.
- Pandora Benedict.
- Pandora? Nunca tinha ouvido antes. Aliás, seu sotaque é bem carregado, de onde é? - Ele me interrogou.
Fiquei receosa e ele percebeu.
- Pode confiar em mim.
- Não sou de Londres.
- Ok, não vou forçar, mas aos poucos você vai me contar a sua história, vai aprender confiar em mim. Posso te perguntar quando chegou a Londres?
- Vergonhoso dizer, mas quando o acidente ocorreu, tinha recém-chegado a Londres. - Expliquei.
- Me desculpe Oliver, estou meio nervosa e confusa. Deu tudo errado aquele dia, desde conseguir um taxi, até o taxista que enfim aceitou me levar para um hotel que não foi o solicitado. A chuva foi um bônus no caos, devido isso e ao frio congelante que estava sentindo, não parei para pensar nas minhas ações, somente queria chegar embaixo de alguma cobertura, para conseguir identificar onde estava e ir até o hotel correto. Lógico que não deu certo de novo, porque não vi aonde ia e entrei na frente do seu carro. - Bufei. Era impressionante o problema que causei sem nem perceber, pelo menos agora não estava na chuva, soltei um risinho sem humor. - Acho que... se não fosse o acidente, teria parado no hospital de qualquer forma, só que com hipotermia.
Estava cansada, completamente desmotivada e com dores no corpo. Minha cabeça estava explodindo com uma dor insuportável, a ponto de me deixar inquieta na cama.
- Ficaria desesperado também no seu lugar, mas, como minha mãe vive dizendo, Deus escreve certo por linhas estranhas. - Oliver riu. - Vamos acreditar que estava no destino nos encontrar, posso te ajudar a se adequar em Londres.
Sem nenhuma razão e não entendia o porquê, meu corpo todo relaxou depois da declaração dele, como se tudo estivesse certo no mundo. Como se ali tivesse a resposta para tudo o que eu precisava para viver. Isso era uma completa insanidade. Mas me vi retribuindo seu sorriso cativante.
Não precisava confiar minha vida a ele, até porque, não nos conhecíamos. Mas como ele mesmo falou, podia me auxiliar nesse início de vida em Londres, não ia recusar ajuda. Mesmo desconhecido, foi o primeiro a ser gentil comigo, mesmo em cima da atual circunstância.
Mas preciso me proteger de Oliver Parker.
Preciso aceitar a ajuda no tempo que estiver internada e depois se ele tiver alguma sugestão de lugar onde possa arrumar um emprego que pague minimamente bem. Depois, preciso seguir meu rumo sem olhar para trás, sem me apegar a ninguém.
Não sei quanto tempo o médico ia me prender aqui, mas, já estava fazendo planos de juntar um dinheiro bom e retornar ao meu país. Essa experiência de quase morte, passado o pânico, me deu o gás que faltava para recuperar a minha vida. Matheus nunca mais seria um problema, pois entraria com um pedido de restrição contra ele assim que possível. Vou pegar minha vida de volta, mas não fugindo, encarando de frente.
Estava distraída, fazendo mil planejamentos na minha mente, quando ouvi uma batida suave na porta. Provavelmente era algum dos enfermeiros ou médicos do local, mas me surpreendi quando Oliver se levantou e foi abrir a porta.
Quando retornou ao quarto, atrás dele vinha outro homem, tão deslumbrante quanto. Seus olhos eram de um tom brilhante, não tão comum assim, lembrava mel. Era tão alto e forte quanto Oliver, mas algo em sua postura deixava uma aura de poder que afastava qualquer um que se dignasse a olhar por mais tempo. Seu semblante era carrancudo, como se não entendesse o que fazia ali. Estava vestido informalmente, com camisa preta de botão, calça escura e sapatos, o que me surpreendeu foi o coldre na cintura.
Era policial.
Não imaginei que seria necessário falar com a polícia, mas eu estava internada, entrei na frente de um carro. Podiam pensar que eu era suicida.
Com esse pensamento, não consegui controlar o sorriso involuntário que se abriu no meu rosto. Seria cômico se não fosse tão trágico né? O que me imobilizou, foi quando o segundo desconhecido retribuiu meu sorriso.
Não estava preparada para o baque que senti quando vi seu rosto mudar, ficar mais suave com um sorriso que me tirou o fôlego. Meu Deus, que homem deslumbrante.
Esses dois vão ser a causa da minha morte, só sorrirem mais um pouquinho.
*Dia do Acidente*
O dia foi terrivelmente exaustivo, os processos estavam se multiplicando e quanto mais resolvia, outros apareciam, como se fossem uma hidra. Aproximadamente às 18hrs, a Srta. Sullivan telefonou, avisando da presença da Emilly.
Porra, que inferno.
Nem tive tempo de inventar qualquer desculpa e Emilly irrompeu pela porta, parecendo que estava a caminho de uma guerra. Muito provavelmente, não teve acesso ao Archie - meu melhor amigo - e veio atormentar a minha vida no escritório novamente.
Se arrependimento matasse.
Eu e Archie aviamos falado com ela há exatas duas semanas, depois de um relacionamento de 02 meses. O que começou consensualmente e com ambos interessados, terminou conosco não suportando ouvir o nome de Emilly. Ela já estava barrada na portaria do prédio, não sei como passou pelos seguranças.
Emilly nos enganou direitinho, no início da nossa relação, fomos claros que não queríamos nada sério e que ela estava liberada a encontrar quem quisesse. Enquanto nosso desejo fosse mútuo, estava tudo certo. Porém, com o passar dos dias, percebemos a enrascada. Ela ficou possessiva. Aparecia no escritório quando queria e causava escândalos com meus clientes. Tal como, aparecia na delegacia e arrumava confusão com as colegas de equipe de Archie.
A gota d'agua foi quando ela conheceu Olivia, que chegou recentemente dos Estados Unidos e estava no bar com a gente comemorando seu retorno. A maluca apareceu sem ser convidada, puxou Olivia da mesa enchendo-a de impropérios e não satisfeita, ameaçou fisicamente e tentou agredi-la. Pensei que Archie enlouqueceria de tão puto que ficou. Nesse dia, chegamos à conclusão que nosso tempo com Emilly findou e tivemos uma conversa franca, que aparentemente não surtiu nenhum efeito.
Lá vamos nós de novo.
- O que faz aqui Emilly? - Questionei bravo
- Vim te ver, estou com saudade. Você e Archie não podem me abandonar dessa forma. Eu amo vocês - Ela soluçou, já começando novamente seu pranto questionável. Era sempre assim, ela aparecia sem ser convidada, chorava de soluçar tentando nos comover, implorava para reatar e quando percebia que nada disso adiantava, começava a berrar aos quatro ventos o quanto éramos horríveis e injustos por abandoná-la. - Vocês precisam entender que eu sou o amor da vida de vocês, aquela que vai conhecer finalmente o quarto no terceiro andar. É tudo para mim, como não percebem?
- Pela última vez, você não pode ficar aparecendo no meu trabalho dessa forma. Já te expliquei tudo várias vezes e parece que não consegue entender. Nosso relacionamento deu o que tinha que dar, não está saudável. Não me force entrar com uma medida preventiva contra você.
- Mas eu amo vocês. - Ela gritou
- Eu não amo você. - Bradei, furioso por precisar frisar isso novamente. - Nosso relacionamento nunca foi a base de amor Emilly, foi só prazer. Nós te avisamos previamente e você aceitou. Eu não me envolvo por amor, não quero amar. Exatamente para evitar esse momento desagradável, que procuramos alguém no clube, que entenda que tudo não passa de prazer, momentos, com o fim previsto. Não fui feito para relacionamentos duradouros.
- Você está errado Oliver. É perfeito para relacionamentos, perfeito para mim. - Ela continua chorando. - Não preciso do Archie como preciso de você.
- Essa discussão não nos levara a nada. Você já sabe o que eu acho, vai embora Emilly.
- Isso não vai acabar assim, não pode acabar assim. Perceba de uma vez que eu sou a mulher da sua vida.
- Emilly, meu dia já foi cheio o suficiente para continuar aqui ouvindo você se lamuriar. Vai embora.
- Oliver, presta atenção, se você não ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.
- Isso é uma ameaça?
- Não, é um juramento.
Nesse momento percebo que não vou render mais nada no escritório, junto minhas coisas e faço uma anotação mental de enviar um e-mail para a Srta. Sullivan, informando que Emilly está proibida de entrar nos escritórios, porém se aparecer, ela tem permissão de chamar os seguranças para retirarem-na do prédio. Como previsto, Emilly acha que ganhou e me segue até o estacionamento privado que é de uso exclusivo dos advogados sêniores.
Me viro para despachá-la, quando me pede baixinho.
- Pode, pelo menos, me levar até em casa? Vim até aqui de táxi.
Mesmo sabendo que vou me arrepender amargamente, concordo em levá-la, já que o prédio onde ela mora atualmente fica a caminho da minha casa, que está localizada um pouco mais distante da cidade, por que prezo muito pela minha paz de espírito quando estou de folga. Tanto eu, quanto Archie, levamos tempo procurando um lugar bom para fixar residência. Quando descobrimos essa casa, foi um verdadeiro marco. Era perfeita, com 03 andares, bastante espaço, muitos quartos para receber amigos e família, fora que a área de lazer era impressionante. Foi um bom investimento.
Durante o caminho, procurei bloquear Emilly o máximo possível, já que ela continuava o caminho todo se lamuriando do quanto a vida estava triste desde que nosso relacionamento terminou, que não tinha ânimo para sair como antes - o que era mentira, pois já havia visto Emilly em diversos pubs, acompanhada de amigos e homens desconhecidos.
Em determinado momento, senti sua mão na minha coxa, subindo em direção ao meu pau, que não estava nem um pouco interessado naquela carícia. Antes que ela pudesse tocá-lo, segurei seu punho.
- O que pensa que está fazendo? - Praticamente rosnei.
- Só te lembrando o quanto pode ser bom. - Ela ronronou
- Emilly, se dê o respeito
- Pode ser bom, garanto. Me deixe te provar.
- Chega! - Gritei. - Será que não percebe o quanto está sendo inconveniente? Essa é a última vez que tenta me tocar sem ser solicitada.
- Meu benzinho, me deixa te relaxar, é nítido o quanto está estressado com o trabalho.
Não tive tempo de respondê-la.
Como uma assombração, percebi pelo canto do olho uma mulher loira atravessar a rua sem olhar para onde ia. Notei tarde demais que tinha me distraído com a maluca do meu lado e não tinha como parar o veículo a tempo. Meu coração parou quando colidimos com a mulher desconhecida, que voou alguns metros longes, caindo no chão em um estrondo.
Deus, permita que ela não tenha morrido.
Desci correndo do veículo, sem me importar com a chuva e sendo seguido de perto por Emilly, me aproximei da mulher desacordada.
- O que essa mulher queria se atirando na frente do seu carro dessa forma? Chamar sua atenção. Tomara que tenha morrido.
- Cala a boca Emilly, antes que eu chame a polícia e mande te prender.
Com a mão tremendo muito, não sei se de frio ou de nervoso, procurei a pulsação da mulher no chão. Não era possível ver seu rosto, somente a massa de cabelos loiros que cobriam sua face. A pulsação estava fraca.
Imediatamente saquei meu celular e solicitei uma ambulância com urgência.
Graças a Deus meus pais eram médicos e donos de um hospital muito conceituado em toda Londres, assim que me identifiquei, a ambulância entrou em trânsito.
Cerca de 5 minutos depois, consegui ouvir o som das sirenes.
Assim que a ambulância parou, os paramédicos saltaram do veículo e correram até a desconhecida, realizaram todos os procedimentos necessários para em seguida colocarem-na na maca. Em uma primeira avaliação, ela tinha fraturado o punho esquerdo e quebrado a perna. Provavelmente tinha tido uma concussão fortíssima ou um traumatismo craniano, mas isso só poderia ser mais bem avaliado no hospital. Ela estava com a cabeça sangrando e isso estava me agoniando mais do que eu podia prever.
Quando a ambulância saiu em alta velocidade para o hospital, notei jogado de canto uma pequena mala, que provavelmente era da estranha. Após guardar tudo no porta-malas, segui em direção ao hospital.
***
Entrei correndo no hospital e a recepcionista me informou que a desconhecida estava em cirurgia com o Dr. Alexander Parker - vulgo, meu pai - e que era necessário aguardar para maiores informações.
Me dirigi até a sala de espera reservada, diferente da área comum essa era exclusiva para familiares dos médicos do hospital. Estava inquieto e não conseguia ficar parado. Minha mãe apareceu cerca de 40 minutos depois da minha chegada, portanto seu uniforme médico que sempre admirei e correu até mim.
- Querido, acabaram de me informar que você estava aqui, o que houve? Tá tudo bem? - Ela questionou, visivelmente preocupada.
Essa era a minha mãe.
A mulher que sempre se preocupava com tudo e fazia até o impossível para solucionar problemas. Ela era meu orgulho.
- Eu... atropelei uma... moça mãe - gaguejei. - Não sei... como ela está. Unica informação que eu tenho, é que ela está em cirurgia com meu pai.
- Como foi que isso aconteceu meu filho? - Ela estava de olhos arregalados. Sempre me orgulhei de não tirar o foco da direção em nenhum momento, desde que tirei minha habilitação aos 16 anos. Fui muito responsável. Era inadmissível cometer um erro dessa proporção. Sempre me falaram que enquanto eu dirigisse, devia pensar na minha vida e mais ainda, na vida de quem poderia sair prejudicado em um acidente caso eu fosse desatento.
Agora estava ali, parecendo um garoto na frente da minha mãe, aguardando a bronca que viria em seguida.
Precisava da bronca.
Porra, precisava de notícia.
- Calma meu filho, vou entrar e tentar descobrir o que aconteceu, depois você me conta como foi, ok? Respira. - Ela me acalmou.
Depois que ela saiu, tudo se tornou um borrão.
Percebi que de pouco em pouco tempo, a recepcionista vinha até a saleta e tentava me oferecer algo, mas eu sempre negava. Minha mãe demorou mais tempo do que eu esperava ser saudável para minha sanidade mental.
Quando ela retornou, eu estava desesperado.
- Então mãe, como ela está? - praticamente implorei por notícias.
- A situação é bem delicada meu filho, seu pai disse que a garota fraturou o punho esquerdo e quebrou uma perna, que foi imobilizada pelo ortopedista, porém isso não foi o mais grave. Além de um traumatismo craniano severo, que ele precisou drenar parte do sangue que conseguiu, ela está com uma hemorragia interna, que até o momento, eles não localizaram seu foco. Devido isso, ela já teve duas paradas cardíacas.
Enquanto ela ia falando, meu mundo foi desabando aos poucos.
A cada nova informação, o meu desespero aumentava mais.
Tudo culpa da Emilly, que me distraiu com sua loucura, eu nunca iria perdoá-la se essa moça morresse. Eu nunca iria me perdoar.
- Mas você conhece seu pai, ele não vai desistir dela. Ele vai lutar muito e forçá-la lutar. Tenha fé meu filho. - Minha mãe me abraçou
- Ela não pode morrer mãe. - Solucei.
- Vai dar tudo certo meu filho, confia em Deus. - Ela me acarinhou. - Agora, consegue me falar como foi que isso aconteceu?
- Eu estava com a Emilly. - Vi quando seu rosto se fechou, mamãe nunca negou que não gostava de Emilly e de como ela se portava perto de mim e Archie. Minha mãe é uma verdadeira onça quando se trata dos filhos e de quem ela considera filho no caso de Archie. Sempre nos avisou que ela não era o que se mostrava, que traria problemas no futuro. Se eu tivesse ouvido antes. - Ela apareceu no meu escritório de novo hoje, fez o mesmo teatro de sempre e no fim, me pediu carona. Sabia que devia recusar, mas não o fiz. Durante o caminho ela começou de novo, mas diferente do escritório, ela ... - Parei, não ia contar a minha mãe que ela tentou agarrar meu pau, era constrangedor. - Enfim, ela começou se descontrolar e por um momento, eu desviei a atenção da avenida para olhá-la, acabei me envolvendo na briga e nesse descuido, não vi quando a garota entrou na frente do carro. Não sei de onde ela veio, nem porque fez isso. Mas percebi tarde demais, não tinha para onde ir, minha velocidade estava alta de uma forma que não percebi, acredito que devido o nervosismo do momento. A colisão foi inevitável. Eu a vi voando mãe, mas vê-la caindo deixou tudo em câmera lenta. Ela não pode morrer.
- Meu filho, te falei sobre Emilly antes e não vou fazer como muitos e falar que eu te avisei, por que você é adulto, maior de idade e bem resolvido. Espero que agora, perceba bem com quem se envolve. Deus é misericordioso, não há de levar essa moça. Ela é muito nova, tem muito o que viver ainda, tenhamos fé.
E assim ficamos pelas próximos 5 horas. Minha mãe não saiu do meu lado em nenhum momento e quando meu pai apareceu, me faltou ar. Seu semblante era carregado de preocupação e cansaço.
- Como ela está pai?
- Seu quadro está estável no momento, conseguimos localizar o foco da hemorragia interna. Durante a queda ela fraturou também uma costela, que causou uma perfuração. No momento, o que mais me preocupa é o inchaço do seu cérebro devido a pancada. Fizemos tudo o que estava em nosso alcance, agora depende unicamente do seu organismo. Ela está em coma induzido, as próximas 24 horas serão cruciais.
- Posso vê-la?
- Ela está no CTI agora, vou autorizar sua entrada. Não é permitido ninguém fora a família, mas como não sabemos nada dela, seja rápido sim? - Meu pai aconselhou.
Em seguida me direcionou até o andar do CTI, onde tive que colocar roupa cirúrgica para evitar contaminá-la com qualquer coisa que possa estar na roupa que vim da rua.
Assim que entrei no quarto, o ar gelado era meio fúnebre. A cama parecia grande demais para a criatura pequena que estava no centro dela, ligada em todos aqueles aparelhos que atestavam sua vida. Me aproximei devagar, como se, qualquer mínimo barulho pudesse despertá-la. Quando cheguei perto da cama, estanquei no lugar. A garota que estava no leito, era muito jovem, provavelmente na idade da irmã de Archie, Olivia, que recentemente comemorou seu aniversário de 19 anos.
Era linda.
Parecia uma princesa, seus traços eram quase angelicais, uma pele muito clara envolta de uma massa de cabelos loiros cheios, que destacavam sua beleza. Uma beleza fantasmagórica agora, já que sua pele estava sem viso, meio acinzentada nesse quarto de hospital.
- Você precisa ficar boa princesa. Não pode pagar por erros de julgamento que eu cometi no passado, preciso que fique boa - sussurrei. Fiquei mais alguns minutos observando sua face, depois me retirei.
Novamente na saleta com meus pais, solicitei que assim que ela saísse do CTI fosse encaminhada a um dos quartos familiares. Como o hospital era dos meus pais, tinha o andar da família, com leitos preparados em caso de qualquer urgência com um de nós, sem afetar o público do hospital. Se eles estranharam minha solicitação, nada disseram.
Foram longas 24 horas, até que meu pai comprovasse que houve melhoras significativas e decidir retirar a sedação aos poucos. Seu cérebro, contrariando tudo o que acreditávamos, desinchou rapidamente e os exames posteriores indicaram que possivelmente ela não teria sequelas, já que apresentou um trabalho normal nas funções cerebrais.
Isso me deixou otimista.
- Acabei de retirar toda a sedação dela. - Meu pai informou.
- Então agora ela vai finalmente acordar?
- Depende unicamente dela, se ela estiver pronta para acordar, irá. Precisamos somente aguardar. Ela já respira sozinha sem auxílio de aparelhos, o cérebro está trabalhando normalmente.
Essa era a parte difícil, aguardar. Podia levar minutos, horas ou dias até que ela despertasse.
Durante esse tempo que fiquei aguardando que despertasse, trabalhei remotamente. Sai poucas vezes do seu lado. Queria estar presente que finalmente acordasse, mesmo que eu fosse um completo desconhecido para ela.
Enquanto divagava, meu celular tocou, atendi rapidamente quando vi que era Archie.
- Fala irmão, como você está? A garota já acordou? - Ele questionou. Archie e eu fomos criados juntos, já que seus pais eram amigos próximos dos meus. Somente ele sabia com clareza como eu estava me sentindo por ter sido causador do acidente da garota. Ele se disponibilizou para vir ficar conosco no hospital, mas falei que não era necessário. Eu avisaria qualquer mudança no quadro.
- Infelizmente ainda não. - Suspirei
- Que barra irmão, o que o seu pai diz sobre isso?
- Que depende dela, que seus sinais vitais estão bons, seu cérebro também. Não sei por que ela não acorda. - falei exasperado.
- Logo ela vai acordar, confia.
- Já se passaram 72 horas cara, desde que foi retirada toda a medicação. Nenhum sinal de que ela vai despertar. - Desabafei
- Quer que eu vá até aí aguardar com você? - Ele ofereceu novamente. Dessa vez, me vi inclinado a aceitar.
- Pode vir no final do expediente se estiver tudo bem para você. Estou preocupado com ela irmão.
- Ela vai ficar bem. Mais tarde estou aí.
Depois que ele desligou, me concentrei em um processo difícil que a audiência estava chegando. Nunca perdi nenhum caso, tanto, que meus adversários não gostavam de me enfrentar no tribunal. Era bom na minha área.
Me desliguei do mundo enquanto estudava aquele processo, pegando todos os pontos que julgava relevante pontuar ao juiz, quando uma batida na porta me trouxe de volta. Antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, Emilly entrou no quarto.
Puta que pariu.
Ela nem sequer olhou para a paciente, vindo diretamente até mim, parado próxima sussurrou.
- Meu benzinho, como você está?
- O que faz aqui Emilly?
- Ora, estou preocupada com você... e com essa garota que se jogou na frente do seu carro. Ela é desequilibrada.
- Desequilibrada é você, que continua forçando sua presença onde não é chamada. Vai embora, não é bem-vinda.
- Que isso benzinho, vim te fazer companhia. Você não sai desse hospital para nada.
- Fora.
- Mas eu... - Ela já ia começar seus teatros de novo, quando um som chamou minha atenção. A garota se mexeu na cama, movimentando levemente o braço bom, guiando-o até a cabeça. Imediatamente me levantei e me aproximei da cama. Finalmente. Ela estava acordando, ainda não tinha aberto os olhos, mas sua respiração era audível, seus movimentos eram poucos devido as imobilizações que tinha a seu redor. Apertei um botão próximo da cama, logo meu pai entrou seguido de diversas enfermeiras.
- O que houve? - Ele perguntou.
- Ela está acordando. - Informei.
- Graças ao bom Deus. - Ouvi umas das enfermeiras sussurrar, seguido de muitas outras.
Bloqueei todas as vozes quando a garota finalmente abriu os olhos. Os olhos dela eram simplesmente deslumbrantes, sua íris tinha um toque amendoado envolto por pontos acinzentados, tornando-a única. Ela olhava ao redor do quarto com um enorme vinco na testa, deixando-a ainda mais fofa - fofa Oliver? - aos poucos, seus batimentos cardíacos começaram a disparar pela máquina.
- O que? - Questionei
- Acho que ela está tendo uma crise de ansiedade. - Uma das enfermeiras informou, se aproximando mais da cama.
Sem pensar direito no que fazia, segurei sua mão. Imediatamente seus olhos se concentraram em mim, roubando meu fôlego.
- Vamos lá mocinha, me siga ok? Respira comigo - praticamente sussurrei.
Enquanto ela me encarava, forcei minha respiração até que meu peito subia e descia na mesma velocidade nauseante que o dela. Aos poucos, comecei a diminuir, respirando devagar. Foi com muita satisfação que percebi que ela se esforçava para me seguir e depois de algumas tentativas, começou a normalizar. Seu semblante aliviado, me deixou em paz, pela primeira vez em dias.
- Isso, boa garota. - Não contive o sorriso.
Meu pai se aproximou dela depois de algum tempo, se apresentou e a mocinha só esboçou alguma reação quando ele disse que iria observá-la por mais duas semanas.
- O que? - Ela disse, levemente histérica. Deixando-nos apreensivos por um momento. Que idioma era aquele? Será que ela não fala inglês? Isso seria um problema. Um enorme problema. De todos os idiomas que eu falava, aquele não estava incluído.
- Desculpa, o que? Não posso ficar aqui duas semanas. - Ela se corrigiu e falou perfeitamente meu idioma. O suspiro de alívio de todos os presentes no quarto foi audível.
Não prestei mais atenção no diálogo deles, estava mais concentrado em notar seus movimentos, como era meiga em se comunicar, sua voz tinha um timbre baixo mesmo assim se fazia escutar com perfeição.
Não estava preparado para ser surpreendido por ela dessa forma.
Ela era muito jovem.
Era ainda mais nítido agora com ela acordada, parecia vulnerável demais.
Um bufo me tirou dos meus devaneios e foi com muito desgosto que notei que era Emilly.
- Você entrou na frente do carro do meu homem, sua desqualificada. Por isso está aqui. Agora é muito fácil se fingir de esquecida, quando obviamente se jogou para chamar atenção. - Emilly despejou seu veneno. Não tive tempo de retrucá-la, porque a menina novamente se desesperou, dessa vez entrando em um pranto assolador. Todo mundo se comoveu. Meu pai me olhou com o semblante preocupado e orientou que a enfermeira devia sedá-la novamente. Suas reações nesse pouco tempo de interação, podia ser prejudicial a sua saúde.
Imediatamente a enfermeira aplicou uma medicação direto no soro que estava em seu braço e aos poucos, a princesa foi parando de chorar e se perdendo na inconsciência. De novo.
***
Depois de longas horas novamente, a pequena despertou de novo. Dessa vez, somente eu estava no quarto a sua espera e não chamei ninguém. Sei que era necessário, que precisavam refazer exames para atestarem sua saúde, mas decidir aguardar alguns minutos. Notei o exato momento que ela me localizou encostado na parede, primeiro se assustou e depois voltou a respirar normalmente.
Isso me surpreendeu, porque me vi prendendo a respiração até a dela normalizar.
O que está havendo comigo?
Consegui conversar com a pequena, que quase se descontrolou novamente movida a diversas preocupações que no momento, não eram relevantes.
Eu iria ajudá-la no que fosse preciso.
Ela não sabia ainda, mas a partir do momento que entrou na frente do meu carro, selou seu destino.
Seria uma espécie de guardião, amigo, guia.
Ela não ficaria sozinha e solta por Londres sem ninguém para auxiliá-la
Ela era toda desconfiada, não quis me contar de onde vinha. Tenho muita paciência, ela ia confiar em mim um dia para contar sua história e porque veio para Londres.
Pandora.
Nome único, igual a mocinha que o portava.
Você está a salvo agora.