As vezes muitas coisas acontecem na nossa vida, para nos tornarmos mais fortes. Para amadurecer. Nenhum sofrimento é em vão, é aprendizagem.
Mas Bianca preferia não ter aprendido. Ela preferia ter passado a vida inteira sem experimentar a sensação de se sentir incapaz, abandonada, rejeitada e tão substituível.
Ela estava chorando, mas não de tristeza, de raiva enquanto fazia as malas para ir embora daquele apartamento naquela mesma noite.
Assim que terminou as malas, deixando no closet apenas os presentes e tudo que poderia lembrar de seu tão triste e desastroso relacionamento, ela sai do apartamento diretamente para o elevador. Pega seu carro e dirige por uma hora até chegar em frente a casa de seus pais.
- Bianca, o que faz aqui a essa hora? - Francis, seu pai, atende a porta atordoado.
- Pai eu... - Ela não consegue terminar a frase e desaba a chorar. E mesmo sem entender, o mais velho a abraça.
- Tudo bem, tudo bem, eu estou aqui. Entra.
Ainda abraçado nela, ele entra na casa com a garota e não a larga do abraço.
- Mas o que está aconte... - Joanne a vê e para de falar imediatamente. - Dios mío, Bianca. O que houve?
Bia não conseguia responder, apenas chorava abraçada no pai.
Os dois entendem que ela não se sentia confortável naquele momento em falar.
- Vou fazer um chá. - Joanne diz e fecha a porta da frente, que ainda estava aberta, em seguida segue para a cozinha.
- Posso dormir aqui essa noite? - Ela pergunta com a voz abafada.
- Claro querida, claro que sim. - Francis responde e beija o topo de sua cabeça.
- Também queria saber se... Amanhã poderia me levar para Boston, não quero ficar aqui pai. Por favor...
- Tudo bem, certo. Agora vamos tomar o chá que Joanne fez pra você, e suba para o seu quarto então descanse. Se quiser conversar, pode chamar. - Ele diz e ela assente.
Os dois seguem até a cozinha e ela toma o chá de camomila, todos estavam em silêncio e o casal não teve coragem de perguntar a filha o que havia acontecido. Mas o olhar de Joanne para o marido, já dizia tudo.
Bianca não apareceria ali no meio da madrugada, chorando e tão desamparada por nada. O problema havia nome e sobrenome, e eles sabiam bem de quem se tratava, então nenhuma palavra precisava ser dita.
Após aquele momento, eles foram deitar. Novamente em seu antigo quartinho, Bia estava deitada na cama olhando para o teto do quarto. Não conseguia dormir.
Sua mente a estava traindo, já que os flashs da briga passavam na sua cabeça, sem a deixar dormir.
"- Não despeje todas as coisas como se eu fosse o único causador disso. Você estava me sufocando com seu ciúmes idiotas! - Argumenta com o rosto vermelho de irritação, enquanto me olha com raiva.
- Eu estava sufocando você? Você acabou com o que tínhamos e agora a culpa é minha? - As lágrimas evaporam dando lugar a mais raiva.
- Você sempre quer ser a vítima, é incrível. Quer saber Bianca... Eu cansei. - Diz suspirando e se encosta na parede. - Eu cansei dessa droga toda, eu cansei desse namoro que pelo visto não vai para lugar nenhum. Eu cansei de brigar, eu cansei de você!
- Eu acho melhor você parar de falar, antes que diga mais alguma merda que vai se arrepender. - Falo me aproximando dele.
- Não vou me arrepender de nada, cansei de você Bianca. Helena estava certa, Marilyn estava certa... Eu não sei o que ainda estou fazendo com você... - Grita e dou um tapa com tanta força que o barulho ecoa na cozinha.
-- Eu odeio você! Eu odeio você com todas as forças que existem em mim! - Grito pra ele que continua com a mesma expressão de raiva.
- Ótimo, pode me odiar eu não ligo. - Fala andando a passos pesados até a porta da saída.
Quando ele abre a porta então digo.
- Lucas, eu vou te dizer uma coisa e quero que preste atenção. Se você passar por essa porta, pode esquecer que um dia me conheceu, esqueça tudo que um dia aconteceu entre a gente e finja que eu não existo. - Falo sentindo a respiração ficar ofegante.
Ele só dá uma risada sarcástica.
- Se você sair por essa porta, é definitivo. Sem voltas. - Digo tentando recuperar a respiração normal e ele me olha.
- Você sabe que a gente sempre volta. Não vou dormir em casa. - Diz por fim e sai batendo a porta."
Lembrar machucava mais ainda, era como se Lucas tivesse cravado uma faca afiada bem no meio do peito dela, e as lembranças servissem para cutucar a ferida, a fazendo doer mais.
Bia virou de lado na cama, e pegou o celular. Logo no protetor de tela viu uma foto sua com ele, então tratou rapidamente de apagar tudo, inclusive seu número. Rapidamente ela também enviou uma mensagem para Tunner.
Já que na noite passada a garota havia prometido a ele que iria o apresentar a cidade de Londres, mas não seria possível, já que agora seu plano era fugir para longe o mais rápido possível. Tunner quando vê sua mensagem, liga para ela.
- Você não precisa voltar para os Estados Unidos mais tarde, só por minha causa. Afinal, nem faz um dia que você está aqui. E você planejou essa viagem há muito tempo.
- Bia, eu poderei voltar outras vezes. Você é minha amiga, e eu não vou deixar você passar por essa barra sozinha, eu estou aqui para te apoiar. Amanhã eu volto para Boston junto com você, e aproveito para te dar dicas para o primeiro dia na faculdade. Ser caloura em Harvard não é nada fácil. - Ele fala a última frase descontraído.
- Se é assim que você quer, então tudo bem. Vou tentar dormir agora, e assim que desligarmos eu irei quebrar esse chip. Pela manhã compro um novo e te ligo por ele, e também te digo que horas iremos pegar o voo.
- Certo, não se preocupe comigo, só se cuide e por favor durma. Lucas é um idiota.
- Eu sei, boa noite Tunner.
- Boa noite, Bia.
Assim que desligaram a ligação, Bianca fez exatamente o que havia dito. Quebrou o chip, e então foi tentar dormir.
A manhã logo chegaria e seria um novo dia. Ela deitou tentando concentrar seus pensamentos no que aconteceria daqui para frente.
Ela ganhou uma bolsa em Harvard e está indo para lá, e apesar do coração partido, ela tem um futuro incrível e isso que importa. A partir daquele momento, Bianca prometeu enterrar Lucas no fundo de suas piores memórias, prometeu que o esqueceria para sempre e todo o sentimento de amor que um dia ela sentiu, havia se convertido em ódio.
Ele não merecia as lágrimas dela, não merecia que ela estivesse triste. Como o próprio disse, ele cansou dela, então estava tudo bem. Ela também havia cansado dele... Então era recíproco.
[Bianca Pov].
7 anos depois...
Estava na minha sala quando Tunner entra.
- Achamos. - Ele fala e logo retiro os olhos dos papéis na mesa e o encaro.
- Onde? - Pergunto já me colocando de pé.
- Em Benton Harbor, dois enormes contêiners. Com certeza lotados de cocaína.
Quando ia responder, meu celular começa a tocar em cima da mesa.
- Quem é? - Tunner pergunta.
- Brian. - Digo e seus olhos se arregalam.
- Atende, vou tentar rastrear a chamada. - Ele diz e já vai até sua mesa ligar o computador.
Essa missão estava parada a exatamente quatro meses. Então, há mais ou menos um mês decidiram nos colocar no comando.
Estavamos em ascensão na base do FBI, e em pouco tempo conseguimos conquistar um espaço considerável para a pouca idade. E se não fosse pelo fato do criminoso ter fugido quando finalmente conseguimos provas concretas sobre ele, já teríamos o prendido.
Mas pelo visto parecia que eu estava com sorte, já que o mesmo estava ligando para o meu celular. Quer dizer, para o celular de Chloe, meu disfarce.
Então atendo o celular.
[Ligação on].
- Oi meu amor? - Falo assim que atendo, e Tunner faz um sinal para mim, avisando que já está tentando rastrear a chamada.
- Oi docinho, desculpe ter sumido esses últimos dias. Eu tive alguns problemas. - Ele fala.
- Não tem problema, eu super entendo como é ocupado. Agora o que quero mesmo saber é... Quando iremos nos ver de novo?
- Se você quiser, agora mesmo. - Responde e olho para Tunner, que está ouvindo a ligação.
Meu amigo faz que não com a cabeça.
- Talvez mais tarde? - Pergunto mais para Tunner do que para o criminoso. Então meu amigo assente, e Brian também responde.
- Claro, podemos nos encontrar daqui a três horas?
- Pode ser daqui a quatro horas? - Questiono já contando com o tempo que eu e minha equipe estaremos indo atrás desses contêineres.
- Sem problemas, esteja pronta e sozinha na saída da cidade. Eu irei te buscar no meu carro. Até mais tarde docinho. - Fala e desliga antes que eu responda qualquer coisa.
Então volto a encarar Tunner.
- Conseguiu rastrear?
- Não, ele está usando um chip descartável. Mas isso não é problema, você irá se encontrar com ele daqui a quatro horas, pegamos as drogas e pegamos ele... tudo isso no mesmo dia. - Diz sorridente.
- Isso, você tá certo. Então vamos logo com isso. - Digo e ele concorda.
- Já reuni alguns agentes para nos acompanhar, e três peritos contando comigo, para agilizar todo o processo.
- Certo, então se estão nos esperando, vamos indo. - Falo pegando a arma, o distintivo e colocando o celular no bolso da calça. Então saímos dali.
Uma das coisas que eu mais adoro no meu trabalho é a adrenalina, não tem coisa melhor do que assumir um caso, poder se disfarçar e fazer várias loucuras como se estivesse em um filme de ação.
Devo admitir que se disfarçar é meu hobby favorito e o plano deu super certo. Esse é o primeiro caso que eu e Tunner ficamos a frente, com um chefe auxiliador é claro. Mas eu sinto que essa pode ser a tacada final, para finalmente conseguirmos um caso em que ficarei a frente sem precisar de ninguém me observando. Vai ser eu e a MINHA equipe, a chefe.
Seria um sonho.
Já dentro no carro, olho novamente a tela do celular e vejo na barra de notificações uma mensagem de minha melhor amiga, Agatha.
"Quando estiver vindo para casa, traz mais cereal, comi tudo."
Desde que conheci Agatha nas provas de admissão para Harvard, nos tornamos inseparáveis. Nossa amizade era a distância até a minha vida dar aquela mudança louca, e eu ir embora de Londres para os Estados Unidos estudar e principalmente fugir dos meus problemas.
Os sete anos passaram voando desde que cheguei aqui, e se quer saber, nem sinto falta de Londres. Desde a pior noite da minha vida, eu passei a odiar tudo que envolva a Inglaterra e nunca mais pus os pés lá, e nem planejo por.
Meus pais foram morar no México, e decidiram criar minha irmã mais nova lá, juntamente com o restante da família. O plano de papai, em abrir um escritório de advocacia em Londres deu super certo. E como chefe, ele usou da mordomia de poder cuidar de tudo a distância enquanto trabalham para ele. Então, não tinha que ir a Inglaterra para visitar meus pais, já que os mesmos também já não moravam lá. E aquilo de certo modo me confortava.
Sou tirada dos meus pensamentos, quando ouço a voz de Tunner.
- Já estamos chegando. - Ele fala sorridente enquanto dirige.
- Finalmente vamos acabar com isso, faz dias que não durmo por causa desse caso.
- Vamos finalmente descansar. - Diz se acomodando no banco do motorista e concordo.
Isso, vamos finalmente descansar e não tem como a vida ficar melhor.
[...]
Estavamos correndo contra o relógio, os contêineres estavam trancados e eu não tinha tempo a perder.
- Precisamos dar um jeito de arrombar isso, não temos a tarde toda. - Resmungo para Tunner, quando encaro o relógio em meu pulso.
- Estamos fazendo o possível, calma. Vai dar tempo. - Ele tenta me tranquilizar.
- Conseguimos, abrimos um. - Um agente grita avisando, e então nos dirigimos até lá.
Assim que o portão do contêiner é aberto, vimos diversas barras e principalmente sacos enormes fechados.
- Preciso de uma luva. - Aviso com um sorriso no rosto, como se estivesse acabado de achar uma mina de ouro.
Um agente da perícia me entrega a luva, e então me aproximo dos sacos enormes e corto um deles com uma adaga bem afinada, fazendo o plástico cortar como um tecido de cetim e saindo pelo rasgo um refinado pó branco.
Pego um pouco daquele pó e vejo a espessura, bingo, o pegamos em cheio.
- Pegamos ele galera, fotografem e recolham o máximo de provas possíveis. - Digo em voz alta, saindo do contêiner enquanto outra equipe entra para fazer o que mandei.
Tunner estava falando no telefone e me aproximo dele.
- Sim senhor, precisamos para daqui a meia hora no máximo. Lucy já deu todas as coordenadas necessárias para as viaturas, eles já sabem onde tem que se esconder. Perfeito, até logo. - Ele falava no celular, e logo desliga. - Já solicitei as viaturas para prendermos Brian quando ele for "te buscar". Lucy já cuidou de tudo por nós.
- Lucy é incrível. - Elogio nossa parceira. - Eles irão levar tudo para a base, o saco que abri estava cheio de cocaína. - Informo e ele sorri.
- Somos bom nesse lance de polícia.
- É, nós somos. - Concordo. - Temos que pegar a estrada para chegar a tempo de pegarmos o Brian, minhas roupas ainda estão no porta malas?
- Sempre.
- Volto daqui a pouco.
Caminho até o carro preto que sempre usamos, e então abro o porta malas para pegar uma roupa menos suspeita que uma calça jeans preta, blusa escura, jaqueta de couro e botas.
Enfim entro no carro e me visto. Ainda tínhamos tempo para chegar lá.
Pelo vidro fumê vejo Tunner cuidar dos agentes por mim, estava tudo sob controle.
Depois de vestida e o lugar estar limpo, seguimos caminho para a rodovia na saída da cidade.
A saída de Chicago consiste em uma pista no meio do nada, com uma área florestal ao redor. Se eu não fosse policial, jamais iria para o meio do nada me encontrar com alguém. Eu tenho amor a minha vida, principalmente se esse cara for um criminoso.
- Falta quanto tempo? Será que vai demorar muito? - Tunner pergunta na escuta, enquanto eu ando de um lado para o outro, no meio fio da estrada vazia.
- Não sei, marcamos para depois de quatro horas e não dissemos horários específicos. - Respondo.
Ele e mais policiais estavam escondidos entre as árvores, só a espera do criminoso aparecer para que eu possa aborda-lo e enfim o prendermos.
- Está ficando de noite, acha que ele vem? - Ele continua a insistir.
- Ele virá, não daria bolo no seu docinho Chloe. - Ironizo. - Lucy, olha nas câmeras da rodovia, tá vindo algum carro por aí?
- Só um segundo... - Ela responde e a escuto digitar. - Está vindo, uma Range Rover Evoque preta está a 5 quilômetros.
- Ótimo, em suas posições, ele está se aproximando. - Aviso e então me preparo para o meu tão sonhado momento.
Esse momento seria meu, finalmente.
Assim que avisto o carro se aproximar, sorrio para ele. Mesmo não o vendo, já que os vidros do carro eram escuros.
Ele estaciona pertinho de mim e então me aproximo do vidro do motorista, que ele logo abaixa com um sorriso enorme.
- Estava com saudades, docinho? - Pergunta e me apoio no seu vidro, sorrindo também.
- Muitas saudades, docinho. O carro está destravado? - Pergunto, como se fosse para eu mesma entrar.
- Agora está. - Ele fala e escuto o carro ser destravado, então em um movimento rápido abro sua porta e retiro a arma da cintura apontando para ele. Esse já era o sinal para a equipe sair do esconderijo e cercar o local.
- Levante as mãos até onde eu possa ver e desça do carro. FBI, Brian White você está preso! - Digo exatamente como havia ensaiado durante todo esse tempo, apontando a arma para ele.
Sem saída e cercado, ele desce do carro com as mãos levantas e derrotado.
- Podem levá-lo. - Digo assim que ele é algemado.
- Sua vadia traiçoeira, você vai me pagar! - Ele grita enquanto é levado para a viatura.
- É claro... Eles sempre dizem isso. - Falo e Tunner ri.
- Conseguimos. - Meu amigo levanta a mão para que façamos um toque.
- É, conseguimos. Somos incríveis. Agora vamos embora daqui.
O carro é rebocado e então fomos diretamente para a base das águias. Onde todos estavam contentes com a prisão de Brian, já que assim, colocaríamos fim na maior máfia de tráfico do estado.
- Quem irá interroga-lo? - Pergunto para meu chefe, após pedir licença e entrar em sua sala.
- O agente 003 já foi para a sala de interrogatório, e o agente Beck para a perícia. - Senhor Wilson, o capitão, avisa que o chefe que estava nos auxiliando, e acompanhando nosso desenvolvimento iria cuidar disso, enquanto Tunner estava na perícia. Que era sua especialidade.
- Certo... E o que eu faço? - Pergunto.
- Está liberada. - Diz. - Saiba que nós todos da base 1 de Chicago estamos todos orgulhosos do seu desenvolvimento, Martínez. Você e o agente Beck fizeram uma ótima dupla.
- Sim, Lucy Davis também merece o crédito. Foi um trabalho em equipe. - Incluo nossa amiga de trabalho.
- Claro que sim, mas, eu enxergo em você uma liderança grandiosa digna de uma futura chefe. - Fala fazendo meus olhos brilharem. - Você não tem medo de assumir desafios Bianca, e é uma das coisas que mais me surpreende em você. Foi incrível como regeu esse caso com ideias inovadoras, que ninguém havia pensado ainda. O agente 003 me fez um relatório simplesmente espléndido ao seu respeito,
- Eu fico lisonjeada.
- Nós da base que ficamos, pode ir para casa descansar, agente. Está dispensada. - Avisa e então agradeço e saio.
Enfim respiro confortavelmente, eu estava conquistando meu espaço. Pego meu notebook na minha sala, minha bolsa e então saio a caminho do meu carro que está estacionado em frente a base.
Precisava ir para casa e comemorar, não tinha como minha vida ficar mais maravilhosa.
Antes de ir em casa, fiz questão de passar no mercado e comprar algumas garrafas do melhor vinho e o cereal que Agatha pediu. Hoje iria comemorar em grande estilo, e quem sabe no fim da noite fazer um karaokê de uma música dos rebeldes.
Assim que abro a porta do apartamento, levo um susto com o estado da nossa casa.
- Mas o que aconteceu aqui?! - Pergunto incrédula ao olhar aquela bagunça.
- Ah você já chegou, estou testando umas coisas pra nossa decoração. - Agatha diz e só então vejo que a mesma está em cima do balcão, grudando algo no teto com uma furadeira.
A música estava alta tocando Life goes On, de Oliver Tree enquanto ela faz um barulho horroroso com aquela furadeira e canta alto. Os vizinhos nos odeiam.
Jogo minha bolsa no sofá e me aproximo dela. Com cuidado pra não cair poeira nos meus olhos.
- O que você tá fazendo hein?
- Comprei uma luminária com luzes de festa. - Diz parando o que estava fazendo, para me olhar.
- Pra colocar na cozinha? - Pergunto com a sobrancelha arqueada. - Mas por que tá usando uma furadeira na lâmpada?!
- Comprei um suporte também, e estou tentando colocar no lugar do outro. Mas não estou conseguindo. - Fala frustrada e senta no balcão.
- Você vai acabar criando um buraco no teto se continuar assim. - Respondo olhando o estrago que ela fez no meu teto.
- Ia ficar tão bonito as luzes de festa enquanto a gente janta... - Fica cabisbaixa.
- Por que você não coloca no banheiro?! - Pergunto e ela se anima de novo.
- Vou lá agora mesmo! - Desce do balcão, pega suas coisas e vai direto para o banheiro.
- Sabe, no caminho de casa eu passei no mercado. Comprei vinho e cereal, vamos comemorar porque conseguimos prender o White. - Digo em voz alta por conta da música.
- Sério? - Grita do outro cômodo.
- Sim, senhor Wilson até me elogiou. Eu acho que falta muito pouco pra mim ser promovida. - Continuo falando em voz alta, enquanto guardo os vinhos na geladeira e em seguida pego uma maçã verde, e caminho até o banheiro que Agatha está.
- Isso é demais, enquanto você estava vivendo um filme de ação com Vin Diesel. Eu fui em uma loja de construção escolher uma privada nova, e acabei voltando com essa lâmpada.
- Uma privada? Mas pra quê? - Pergunto e então ela para o que está fazendo.
- Acabei quebrando a privada do banheiro do meu quarto. - Diz me fazendo ficar ainda mais confusa. - Nem pergunte.
- Eu não ia. - Falo e ela volta a furar o teto. Então meu celular vibra no bolso.
Era uma mensagem de meu pai.
"Filha, próxima semana será o aniversário de sua irmã. Se puder dar uma pausa na sua vida dupla e tirar umas férias, estaremos te esperando.
Beijos, te amamos."
Ah, havia me esquecido disso. Angela, minha irmã mais nova estará completando 7 anos. E eu nem sequer lembrava. Desde que comecei a trabalhar na polícia, minha vida tem sido só isso. Correr atrás de bandido e nas horas vagas fazer uma viagem com meus amigos nem um pouco normais, havia sido meu mantra.
Mas já faz um ano que eu nem sequer sei o que é uma folga, talvez eu precise desacelerar um pouco.
Respondo a meu pai que faria o possível.
- Consegui! - Escuto a voz de Agatha e então percebo que ela havia conseguido grudar o negócio no teto. - Aperta o interruptor pra mim.
Pede e assim faço, no mesmo instante as luzes de festa dominam todo o banheiro. Deixando o ambiente bem colorido.
- Olha só, ficou icônico. - Digo e ela começa a dançar a música que tocava.
- Nós podemos fazer uma festa aqui, o que acha?
- Pode ser, eu trouxe vinho.
- É a segunda vez que diz isso, e eu adorei a ideia. Poderíamos ficar bêbadas, comer cereal sem leite e fazer um karaokê de rebelde. - Diz enquanto desce da cadeira.
- Acredita que eu pensei na mesma coisa?!
- Ótimo, então está decidido.
- Vou subir pra tomar um banho e vestir algo confortável. Enquanto isso, acho melhor você limpar aquela bagunça na cozinha. Sabe que Tunner tem Toc por limpeza.
- Ele é um fresco. - Resmunga carregando suas coisas para fora do banheiro.
Eu, Agatha, Tunner e Lucy moramos no mesmo apartamento faz três anos. Na verdade, eu e Agatha moramos juntas desde a faculdade. Mas seu irmão Tunner, e Lucy se juntaram a nós depois. E desde então tem sido algo incrível e um pouco caótico. Imagina quatro pessoas com personalidades completamente diferentes, debaixo do mesmo teto? Pois é, na parte prática nem é tão caótico assim.
[...]
Após o banho e vestir um pijama decorado com solzinhos sorridentes, eu e minha melhor amiga estávamos na sala de casa tomando a sexta garrafa de vinho, enquanto dançávamos telephone da Lady Gaga, e agora cantávamos no karaokê.
- Te encuentro, despierto. Me dices: "lo siento" Con una lágrima derramas. - Canto no karaokê representando a cena.
- Me abrazas, me pides un hielo. Y yo me quedo... - Agatha canta embolando as palavras e acabamos rindo uma da outra.
- Você tá cantando errado. - Digo me jogando no sofá enquanto ria, já estava vendo tudo girando.
- Eu acho que a pizza não caiu muito bem, eu preciso vomitar. - Ela fala e corre cambaleante para o banheiro de visitas.
Depois disso, só lembro de encostar a cabeça na almofada e dormir.
- É por isso que eu digo que pessoas irresponsáveis não deveriam beber, olha que sujeira. - Escuto uma voz reclamar, e já sabia quem era.
Abro os olhos com dificuldade por conta da claridade, e pisco seguidas vezes antes de enxergar direito enquanto sento no sofá.
- Bom dia. - Digo coçando os olhos e bocejando em seguida.
- Bom dia né, o que aconteceu aqui? Tá tudo uma zona. - Ele diz apontando para a mesinha de centro da sala, que estava com a caixa de pizza de queijo que eu e Agatha pedimos ontem a noite.
E só de olhar me dá náuseas.
- Lucy, conseguiu tirar a cara da minha irmã de dentro da privada? Ai, que nojo.
- Espera, vocês chegaram agora do trabalho? São que horas? - Pergunto ignorando Tunner reclamar como um velho de 90 anos.
- São sete da manhã, foi uma noite bem tensa na base. - Diz se sentando no sofá, bem longe da bagunça.
- Algum problema?
- Não e sim. Não, porque conseguimos provas concretas sobre o envolvimento, e chefia de Brian com a máfia white. Mas o sim dos nossos problemas, é que eles não tem nenhuma ligação com as serpentes que estão nos assolando. Pelo contrário, as duas máfias são rivais.
- Então quer dizer que o caso não acabou? - Pergunto cansada.
- Bom... Vamos se dizer que chegamos ao nível dois do caso, possivelmente coloquem agentes mais experientes na missão. Já que até agora não descobrimos de onde são esses criminosos que estão exportando drogas pra cá.
- Só de pensar já fico cansada. - Falo e olho para ele. - Senhor Wilson ontem nos parabenizou pelo trabalho, e também me elogiou pela liderança. - Aviso e ele sorri.
- Estou orgulhoso de você, desde ontem o nome mais comentado é o seu. E não é porque quebrou o record do agente 017, de quem come mais donuts, e sim porque arrasou no caso de ontem. Merece todo o reconhecimento.
- Eu tenho uma super equipe, sem você como perito e Lucy como hacker eu não seria nada. - Digo sem graça.
- Está sendo modesta, tenho certeza que esse foi o início do aumento de sua patente. Ouvi dizer que o capitão falou que daria uma boa chefe.
- Sim ele disse. - Concordo sorrindo. - Se ele me deixasse ficar a frente do nível dois desse caso, vou ser a pessoa mais feliz do mundo. Eu sinto que é o nosso momento, finalmente chegou.
- Não vamos desistir, acredito no seu potencial e sei que já está dentro.
Assim que ele termina de falar, o toque de notificação do meu celular toca na mesinha de centro. E então me levanto para ver de quem é a mensagem.
E assim que vejo, meus olhos se arregalam.
"Mensagem do capitão: Bom dia, agente Martínez. Solicito sua apresentação imediatamente na base do FBI para uma reunião."
Me viro para Tunner assim que termino de ler, e ele também estava lendo algo.
- Senhor Wilson também falou com você? - Pergunto e ele assente.
- Eu pensava em tirar um cochilo, mas o dever chama. Vou preparar um café. - Ele fala levantando.
- E eu vou me aprontar, será que ele vai nos colocar no caso? - Pergunto eufórica.
- Espero que sim, vai lá, eu te espero.
Dou um gritinho de empolgação e corro para as escadas, a caminho do meu quarto.
Se eu for escalada para esse caso, será o melhor dia da minha vida!