Jack Narrando
- Carter, precisamos de você na Rogers Park, temos um assassinato. - estava a caminho do departamento de polícia, quando recebo uma chamada do meu chefe pelo rádio da viatura.
É exatamente assim minha rotina diária, não que eu esteja reclamando, amo meu trabalho e estar no meio da ação faz a adrenalina pulsar em minhas veias.
- Ok. - respondo, seguindo para o local do crime.
Sou o principal investigador do departamento.
Chegando ao local, vejo que a área já foi isolada pela faixa de sinalização amarela, impedindo as pessoas ao redor de passarem ou chegarem perto. Passo pela barreira de contenção e me abaixo, próximo à vítima que estava coberta por um lençol branco. O local do ocorrido era um beco não muito estreito, mas escondido o suficiente para um crime como este. Ao esticar o tecido, fico abismado com o estado da vítima, seu rosto estava deformado, o corpo coberto de sangue, além disso, sinais de tortura, como a falta de dois dedos em uma de suas mãos e marcas de bala.
Como se não bastasse tudo isso, meus olhos param exatamente em seus cabelos, ao notar que eram ruivos, como os de minha esposa, esse já é o segundo caso somente nesse mês, o que me causa uma estranha sensação, sinto calafrios por todo meu corpo.
Lisa pode estar em perigo.
- Está tudo bem, Carter? - olho para o lado, notando a presença do Harris.
- Sim, - saio do meu transe, tentando disfarçar o pânico de minutos antes - É... Parece com a vítima da semana passada - passo a mão no queixo, pensando um pouco - Scott! - chamo a atenção do perito - Recolha tudo que puder e me entregue, preciso de toda informação possível sobre a vítima.
- Sim, detetive. - responde, então me afasto da vítima.
****
- Bom dia, Carter. - recebo o cumprimento de um dos meus colegas de trabalho, assim que adentro o departamento, após retornar da cena do crime.
- Bom dia. - devolvo o cumprimento, enquanto beberico um gole de café que comprei no caminho.
Sento em minha cadeira e vejo meu chefe se aproximando.
Ele coloca uma pilha de arquivos sobre minha mesa, fazendo um pequeno barulho.
Deposito meu copo na mesa e olho para ele.
- Chegaram novos casos suspeitos que precisam ser investigados, no entanto - faz uma pausa e folheia uma das pastas, apontando para a foto - Esse caso aqui, em específico, precisa de uma atenção maior. - inclino um pouco a cabeça para ver do que se trata.
É uma imagem bem feia, uma mulher brutalmente assassinada, foi aparentemente torturada antes de sua morte, está ensanguentada, bem parecida com a vítima de mais cedo e a da semana passada.
Isso está ficando cada vez mais sério.
- A propósito, tenho um pouco de pressa sobre esse caso, a família está desesperada, devido ao desaparecimento da vítima dias antes do ocorrido e suspeito que alguns dos outros casos recentes tenham ligação.
- Não tem outra pessoa que possa lidar com o caso agora?
- Tem, porém, você é o melhor, consegue desvendar qualquer mistério em pouco tempo, como tenho pressa, tem que ser você. - firma o olhar em mim.
Suspiro pesadamente e massageio a testa.
- OK - faço uma breve pausa - Mesmo assassino? - arqueio as sobrancelhas.
- Talvez.
- Ok, senhor. Tentarei ser o mais rápido possível, sabe o quanto tenho estado atolado de trabalho.
- Sei que consegue. - dá um tapa de leve em meu ombro.
Já no fim do dia, quando a delegacia estava quase vazia, haviam somente alguns funcionários, eu observava o arquivo da vítima de mais cedo, analisava cada detalhe do assassinato, sua ficha de antecedentes criminais, relacionamentos e aparentemente não havia nada que pudesse explicar o tal crime.
Finalizo minhas pesquisas, insatisfeito por não ter obtido sucesso em minha investigação e pego meus pertences para ir embora.
- Encerrei o expediente por hoje, senhor. - abro a porta do escritório do meu chefe.
- Alguma pista sobre o caso, Carter? - Harris me pergunta, sentado em sua cadeira, com os dedos cruzados.
- Ainda não, senhor. Amanhã quero ouvir o testemunho dos parentes da vítima, talvez dessa forma, eu consiga obter avanço. - não entro, apenas respondo segurando a porta para não bater.
- Tudo bem, Carter. Entrarei em contato com eles, mas não se preocupe, vai conseguir, não tem ninguém melhor que você nesse departamento. - sorri sem mostrar os dentes.
- Obrigado, senhor. Boa noite. - fecho a porta de seu escritório e vou em direção ao carro para ir até minha casa.
Dirijo pelas ruas de Chicago, sentindo-me exausto por concluir mais um dia e com a mente fervilhando. Tudo que mais desejo no momento é chegar em casa, tomar um belo de um banho e aproveitar o tempo com minha esposa.
Estaciono o carro na garagem de casa e subo a pequena escada, que dá acesso à cozinha. Passo pelo corredor, subindo a escada, que leva ao andar de cima, indo para o quarto. Paro na porta, encosto na parede admirando Lisa, enquanto se olha no espelho e passa perfume. Admiro minha linda e adorável esposa, minha ruiva com algumas sardas no rosto.
Então aproximo-me devagar, coloco uma mão em cada lado de sua cintura e deposito um beijo em seu pescoço.
- Está linda. - digo sorrindo, meus olhos miram a mulher em minha frente, através do espelho.
- Não vi quando chegou. Parece cansado... - inclina a cabeça para trás, repousando em meu ombro.
- E estou. O dia hoje foi daqueles - afasto-me dela e sento na cama, retirando os sapatos - Surgiu um novo caso que está acabando com meus neurônios - ela encosta na penteadeira e cruza os braços embaixo dos seios, prestando atenção em minhas palavras - Ao que parece, temos um novo serial killer na cidade.
- Serial Killer, em Chicago? - ela ri - Tão típico.
- Pois é. - desabotoo a camisa, expondo meu peitoral.
- Tenho certeza que o melhor detetive do departamento de polícia de Chicago, consegue desvendar esse caso. - anda até mim, desamarrando o robe, deixando à mostra o decote em v, que exibe perfeitamente seus seios, sorrio de lado e chego a salivar em desejo por Lisa.
Ela me empurra, fazendo-me deitar e começa a distribuir beijos por todo meu corpo. Animo-me e troco nossa posição, ficando por cima. Ficamos nessa brincadeira, até Lisa trocar nossa posição, ficando por cima novamente e sem demora estávamos nos amando ardentemente, com ela dando cavalgadas com as mãos em meu peito, nossos gemidos de prazer ecoando pelo quarto e eu depositando tapas em sua bunda e a apertando.
****
- Cuidado, Lisa! - desperto aos berros e com a respiração descompassada.
Acordo suando frio e sento na cama, tentando controlar a respiração, passando a mão nos cabelos, após sonhar com minha esposa sendo morta.
- Foi só um pesadelo, amor - Lisa põe a mão em minhas costas e acaricia - Volta a dormir.
Jack Narrando
- Bom dia, amor. - entro na cozinha e dou um beijo casto nos lábios da minha linda esposa.
- Bom dia, meu bem. - ela está preparando o café da manhã.
Sento-me na banqueta atrás do balcão e apenas a observo, sorridente.
Em seguida, Lisa serve dois pratos com ovos e bacon, me entregando um deles e sentando na banqueta ao meu lado.
- Que tal jantarmos fora hoje? Pode ser naquele restaurante que você tanto ama. - convido-lhe, enquanto dou uma garfada na refeição.
- Excelente ideia, amor. Faz tempo que não curtimos o tempo juntos, essa sua vida de policial não colabora muito... - Lisa comprime os lábios, fazendo-me sentir mal por isso.
- Desculpa, Lisa. Mas desde que nos conhecemos, você já sabia como é ser esposa de policial. Não acha que eu queria ter mais tempo livre com você?
- Esquece isso, vamos ter uma manhã tranquila, nada de assunto sério. - diz em tom de brincadeira e sorri largamente.
Apesar de estarmos juntos há alguns anos, nossa relação é exatamente igual ao início, fazemos todo o possível para não deixar o amor esfriar, amamos estar juntos e isso é tudo para nós.
Terminamos o café da manhã e pegamos nossos pertences para irmos trabalhar, antes de ir à delegacia, a deixarei na escola em que Lisa leciona.
Durante o caminho conversamos amenidades, pergunto-lhe como vão às coisas na escola. Lisa vai me contando cada detalhe e eu apenas a observo, vendo como seus olhos brilham, à medida que ela fala. Sou louco por essa mulher, completamente apaixonado, não poderia estar mais feliz.
Paro o carro frente à escola.
- Tenha um ótimo dia, meu bem. - ela diz e me dá um beijo molhado.
- Obrigado, meu amor. - não me contenho ao ver o seu sorriso e retribuo.
Espero Lisa entrar e quando a perco de vista, dou partida, retornando à estrada.
****
- Então, vocês tinham um relacionamento? - questiono o jovem sentado à minha frente, no interrogatório, a respeito da última vítima assassinada.
- Não sei se podemos chamar exatamente assim, tínhamos um rolo, mas podíamos ficar com outras pessoas.
Fico abismado como esses jovens são, tão inconsequentes, não se importam com nada, além de aproveitar a juventude adoidados.
- Já terminaram alguma vez? - apoio os cotovelos na mesa, repousando o queixo sobre as mãos e aguardo por sua resposta.
- Sim, diversas vezes. Ela dizia não querer se apegar a nenhum homem, mas quer saber, nunca entendi isso, sempre fui gamado nela. - dá um sorriso de lado e seus olhos parecem vagar.
Analiso suas feições, enquanto fala, para ver se está mentindo. Qualquer gaguejada é suficiente para usar contra ele.
- Não estou mentindo, senhor. Eu juro. - diz, como se soubesse o que estou fazendo.
- Ok, isso é tudo. - mexo no arquivo sobre a mesa, não o olhando diretamente.
- Posso ir?
- Sim. - respondo-lhe.
Ele sai.
Fico analisando os arquivos e tudo que me foi dito pela família e os mais próximos da vítima, nada muito comprometedor.
****
É fim de expediente, hora de ir para casa, estou ansioso por nossa saída hoje, queria muito tê-la buscado no trabalho, mas a essa hora certamente ela já deve estar em casa, me esperando.
Meu celular vibra no bolso da calça. Pego e antes de atender, vejo o nome dela, no identificador de chamadas.
- Oi, amor. - sorrio.
- Oi, meu bem. Estou ligando para avisar que infelizmente teremos que remarcar nosso jantar, o pessoal do trabalho decidiu ir à um barzinho de última hora, fiquei sem jeito para recusar.
Murcho os ombros, frustrado.
- Tudo bem, podemos ir outro dia - faço uma pausa, ainda desanimado - Qual barzinho? - sim, sou um pouco controlador quando se trata dela.
Sou policial, sei bem do que o ser humano é capaz, então a protejo com unhas e dentes se necessário for.
- Aquele a duas quadras da nossa casa. - fico em estado de alerta ao ouvir isso, o lugar é próximo à cena do último crime. Chego a engolir em seco, porém, tento disfarçar.
- Tudo bem, mas não chega tarde em casa.
- Não se preocupe, ficarei bem, provavelmente chegarei antes de você. Até mais!
- Até. E não esquece, eu te amo.
Ela não diz mais nada, somente encerra a chamada. Antes, porém, consigo ouvir burburinhos ao fundo, tive a impressão de ter escutado uma voz masculina, mas deixo passar, balançando a cabeça de um lado a outro, na esperança de desviar desses pensamentos.
- Boa noite, Carter - Harris me cumprimenta - Algum avanço em relação ao caso do serial Killer?
- Ainda não, senhor. Mas estou fazendo todo o possível.
Esse caso já está começando a mexer com minha cabeça, jamais demorei tanto para concluir uma investigação.
- Sei que vai conseguir - meneio a cabeça - Até amanhã. - vira em direção à saída.
- Boa noite, senhor.
Fico ainda um tempo fazendo pesquisas em sites de suspeitos de assassinatos e pessoas procuradas, no entanto, não consigo nada. Vez ou outra minha mente vai até Lisa, a preocupação em saber se está bem, é grande. Cansado disso, pego meu terno sobre o recosto da cadeira e vou até meu carro.
****
O caminho até minha casa foi tranquilo, haviam poucas pessoas perambulando nas ruas, tudo bastante calmo. A brisa leve do vento batendo contra meu rosto, através da janela, e curtindo o trajeto, ao som de Blitz - A dois passos do paraíso.
Sinto-me leve com a música. Até tamborilo os dedos no volante, no ritmo.
Paro em frente à minha casa, que está bem silenciosa e quieta. Estranho, pois, Lisa havia dito que não demoraria. Desligo o som do carro e abro a porta, caminho a passos curtos em direção a porta de casa, está tudo muito escuro e silencioso, tanto que foi possível ouvir o ranger da porta ao ser aberta.
- Lisa. - chamo logo ao entrar.
Não ouço resposta. Continuo andando, talvez ela esteja na cozinha.
- Amor.
Já na cozinha, ponho o dedo indicador no interruptor, ligando a luz e dou um grito de desespero ao ver minha esposa caída no chão, completamente ensanguentada. Consigo escutar cada batida frenética e desesperada do meu coração.
Há uma marca de facada em sua barriga e dou falta de um de seus dedos da mão, justamente o anelar.
Pouco me importo com isso, só quero saber se minha mulher está viva.
- Lisa! - aproximo-me dela, me agachando - Lisa, por favor, acorda. - a chacoalho, mas nada dela acordar.
Sem pensar demais, pego o celular do bolso, discando o número do serviço de emergência, porém, não largo a cabeça dela, que está apoiada em meu braço.
- Serviço de emergência, em que posso ajudar? - é uma voz feminina.
- Por favor, enviem uma ambulância, minha mulher está morrendo. - minha voz está alterada pelo choro e nervosismo.
Nunca pensei que me veria numa situação como essa.
- Tudo bem, mantenha a calma, senhor.
- Calma? Como terei calma? É a minha mulher! - falo mais alto que pretendia.
- Senhor, por favor... - pede com bastante paciência novamente. Não a respondo.
Diante das circunstâncias, não me resta mais nada a não ser escutar a mulher do outro lado, que não faço ideia de quem seja.
- Me informe seu endereço, que enviaremos uma ambulância o mais rápido possível.
Respiro fundo e controlado. Ou pelo menos tento.
Passo toda informação pertinente a ela.
- Não se preocupe, o socorro não irá demorar a chegar.
Não respondo mais, a única coisa que se passa em minha mente é essa loucura que acaba de acontecer.
****
Enquanto eu aguardava o socorro chegar, liguei também para meu chefe, o Harris, informando todo o ocorrido. Ele não pensou duas vezes, antes de finalmente vir até minha casa, acompanhado de mais duas viaturas e toda a equipe policial, a fim de investigar.
Quando a ambulância chegou, a colocaram numa maca e levaram-na para dentro da van, tentando fazer tudo que lhes era possível para mantê-la viva, mas eu sabia, no fundo, sabia que não havia mais jeito, Lisa estava morrendo e eu estava perdendo o meu bem mais precioso nessa vida. Entro na ambulância também, indo para o hospital, com o coração aflito.
Sentado no estreito e acolchoado banco da ambulância, com a cabeça entre os braços, eu apenas chorava, mesmo sem ter certeza do fato.
Chegamos ao hospital e Lisa é levada às pressas para dentro. Fico na recepção e mesmo estando atordoado, respiro, ainda mantenho em mim a esperança que ela esteja viva.
Fico andando de um lado a outro com as mãos na cabeça.
Algum tempo se passa...
- Senhor... - ouço uma voz feminina, paro e olho em sua direção.
- Fizemos tudo que estava ao nosso alcance... - a pausa que sucedeu essa frase me dilacerou por dentro - Sinto muito. - a jovem com semblante exausto, comprime os lábios e mesmo tentando disfarçar, percebo seus olhos lacrimejados.
Só um ser humano extremamente insensível para não se comover.
Não digo uma palavra sequer, somente assinto com um menear de cabeça.
- Se quiser, pode se despedir. - diz antes de se afastar de mim.
A verdade é que nem sei como reagir a isso, foi tudo tão rápido e repentino...
Só queria que o tempo voltasse para que eu pudesse ter ao menos alguns minutos a mais com Lisa. Isso é tudo que eu poderia pedir.
Até as lágrimas já secaram, restando somente a dor da perda.
- Carter - vejo meu chefe, parado ao meu lado, de pé - Sentimos muito pela perda de sua esposa, sabemos o quanto a amava.
Nem sabia que ele estava aqui.
Comprimo e lábios e faço um breve meneio de cabeça.
- Há algo que possamos fazer por você?
- Podem trazer a Lisa de volta? Não, então não há nada que possam fazer... - minha voz soa um pouco rude e Harris ergue as sobrancelhas - Perdoe-me.
- Tudo bem, Carter. Eu entendo. E não se preocupe, quem quer que tenha feito isso, iremos descobrir.
- Obrigado. - respondo-lhe e ele sai em seguida, direcionando-se à saída.
As horas foram passando e voltei para casa, por mais que eu quisesse me esconder do mundo, não era possível. Não tive nem mesmo coragem para me aproximar do corpo de Lisa.
Como não temos familiares ou parentes por perto, decidi tentar erguer minha cabeça para preparar o sepultamento dela, que deveria ser logo na manhã do dia seguinte.
****
Já havia amanhecido e eu não preguei os olhos durante toda a noite, após resolver tudo sobre Lisa, queria deitar no sofá para descansar, não queria passar a noite em qualquer outro lugar, que não fosse minha casa, nossa casa. Porém, mesmo contra minha vontade, era necessário visto que o lugar era uma cena de crime.
Ah, Lisa... São tantas lembranças, tantos momentos felizes.
O cheiro dela está impregnado em cada cômodo da casa.
Cada vez que eu fechava os olhos, lembranças de nós dois ou até mesmo dela, rondavam a minha mente como um fantasma. O pior de tudo isso, é que mesmo querendo chorar para ver se a dor no peito se esvaia, não consegui.
Fui o primeiro a chegar no enterro da minha mulher, porém, mantive distância no período em que o padre discursava.
- Para alguns, a morte é um fim de tudo, mas para mim, que assim como muitos aqui presentes, que tem fé em Deus, a morte é o início de tudo. É difícil dizer isso a alguém que acaba de perder um ente querido, porém, é a realidade e não há como negar. Desde o fundamento do mundo, somos obras divinas... Do pó viemos e ao pó voltaremos. - enquanto o padre dava seu discurso, eu juro que minha vontade era mandá-lo calar a boca.
As palavras dele não estão me ajudando em nada. Por isso me afasto ainda mais e espero a cerimônia terminar para que eu pudesse ter um momento a sós com minha esposa, antes de finalmente a enterrarem.
Quando o padre termina e a maioria já foi embora, aproximo-me da imensa caixa de areia aberta no chão e vejo o caixão fechado, dentro. O dia está chuvoso, é incrível como geralmente chove quando alguém morre, como se o universo também se entristecesse com a perda.
Segurando o guarda-chuva preto, me agacho e tento dizer algo, porém, nenhuma palavra sai de meus lábios. Fecho os olhos e respiro fundo.
- Ah, Lisa... Minha Lisa... Queria dizer tantas coisas, mas meu peito dói demais, já perdi meus pais e agora você também se foi - lágrimas brotam em meus olhos - Nunca mais ouvirei novamente sua voz manhosa me pedindo para pegar algo em cima do armário, pois você não alcança, ou levarei um tapa na mão ao tentar roubar comida da panela, enquanto cozinha. Não sei como será minha vida sem você, daqui em diante.
Respiro fundo, sentindo meu coração despedaçado.
- Eu prometo, Lisa... Não importa quanto tempo demore, irei descobrir quem fez essa desgraça com você. Nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.
Ainda agachado, jogo uma rosa sobre o caixão, despedindo-me dela.
Jack Narrando
Faz uma semana que Lisa morreu, mas ainda sinto o mesmo vazio me assombrando noite e dia. Cada canto da nossa casa me traz inúmeras lembranças dela, de nós...
Se eu fosse um homem religioso e pudesse pedir algo a alguma divindade, seria que me desse somente mais um dia com minha esposa. Um único dia seria suficiente para lhe dizer tudo que eu queria, antes de sua morte.
Agora tudo que me resta é dedicar-me cada vez mais ao meu trabalho, dar o meu melhor para descobrir quem fez essa crueldade com Lisa e com as vítimas anteriores.
Desde que ela se foi, tenho evitado fazer qualquer coisa em casa, especialmente as refeições, porque esse sempre foi um momento sagrado para nós.
Antes de sair de casa, passo pela sala de estar e pego um porta-retrato numa mesinha de canto, nele contém uma foto dela, nesse dia tínhamos acabado de chegar da nossa lua de mel e sentamo-nos no sofá para ver nosso álbum de fotos, seus olhos brilhavam a cada imagem que via e seu sorriso estava largo, por isso não pensei duas vezes, tirei essa foto dela [AM1] de surpresa.
Meu coração se aquece em recordar esse dia e sinto o peso das lágrimas em meus olhos.
Pisco repetidamente, tentando não me entregar a dor da saudade. Repouso novamente o porta-retrato sobre a mesinha e sigo para fora de casa.
**
- Bom dia, Carter. Se não estiver apto a voltar, pode ir para casa, sei que não deve estar sendo fácil. - Harris, meu chefe, diz colocando uma mão em meu ombro em gesto de conforto e comprime os lábios.
- Tudo bem, senhor. Não se preocupe, estou bem. Além disso, preciso ocupar minha mente para não enlouquecer. - ele meneia brevemente a cabeça em concordância.
- Sendo assim, temos uma boa notícia para você - arqueio as sobrancelhas em expectativa - Compartilhamos nossas informações com o departamento federal e parece que eles tem um caso bem-parecido com o da Lisa e das vítimas anteriores a ela.
- Onde quer chegar com isso? - repouso os cotovelos sobre a mesa e cruzo os dedos, observando atentamente suas palavras.
- Eles decidiram enviar alguém para nos ajudar, provavelmente ela já está chegando. - noto uma certa animação em sua voz.
- Ela? - uno as sobrancelhas em sinal de confusão.
- Sim, logo você irá conhecê-la, assim que ela passar por essas portas. - aponta para a saída.
- Ok.
Ao terminarmos de falar, a imagem de uma mulher - muito bonita, tenho que admitir, mesmo com meu luto e sabendo que não tenho olhos para outra - adentra o lugar.
- Olha aí! Nossa nova colega acaba de chegar. - Harris olha-a sorridente.
Ela é morena, tem os cabelos negros como a noite e longos, descem até a cintura. Usa um terninho que demarca bem suas curvas, que são bem avantajadas.
Desvio o olhar, me repreendendo por admirá-la, Lisa acaba de falecer, isso é um completo desrespeito.
- Olá! - nos[AM5] cumprimenta ao se aproximar de nós - Sou Emma Baker, fui enviada do departamento federal.
- Seja bem-vinda, senhorita Baker - enquanto eles conversam, faço o possível para não encará-la - Gostaria de te apresentar Jack Carter, seu parceiro. É ele quem está cuidando desse novo caso.
- Suponho que ele seja o cara que perdeu a esposa - dessa vez me encara com seu olhar penetrante. Podia jurar que está tentando me decifrar.
Apenas meneio a cabeça em afirmação ao que ela disse.
- Minhas condolências, senhor Carter - estende a mão em minha direção - Garanto que iremos descobrir quem fez isso. - confesso que pensei em não retribuir o gesto, porém, acabo cedendo.
- Obrigado. - sou curto em minhas palavras, tentando evitar olhá-la.
Mas sinto que tem algo de estranho nela.
- Bem, agora que já se conheceram, irei deixá-los a vontade. - Harris nos dá as costas, retornando a sua sala.
Mesmo não querendo olhar, vejo cada movimento dela para sentar-se na cadeira frente a minha mesa.
E por último, mas não menos importante, o cruzar de suas pernas.
Poderia jurar que isso é proposital, espero estar errado, pois, não sou o tipo de homem cafajeste.
Pigarreio, sentindo-me bastante sem graça e observo ao meu redor, para me certificar de que não havia ninguém olhando.
- É... A senhorita obteve algum avanço em sua investigação? - ela dá uma gargalhada crua e seca, inclinando a cabeça para trás.
Franzo o cenho.
- Eu disse algo errado?
Ela aproxima o rosto de mim e eu aguardo o que irá falar.
- Não vim aqui fazer o trabalho por você, vim porque temos investigado um caso bastante parecido com esse, estamos a procura de um homem que está fugitivo faz tempo. Então não pense que já tenho tudo resolvido, porque está enganado. Não sou apenas um rosto bonitinho que você ou qualquer outro aqui irá ver desfilando, batalhei muito para chegar onde estou e certamente não vou deixar tudo ir por água abaixo por falta de profissionalismo de sua parte. Fui clara? - engulo em seco ao escutar.
- Sim. - minha voz quase não sai.
- Ótimo! Podemos ir até sua casa? - ela fica de pé.
- Não entendi. - revira os olhos, parecendo impaciente.
- Foi lá que o assassinato aconteceu, estou certa?
- Ah! - finalmente compreendo o que quis dizer - Sim.
- Está esperando o quê? Vamos! - gesticula como se fosse óbvio.
Já vi que será bem difícil trabalhar com essa mulher.
Levanto, pegando minha arma que deixei sobre a mesa e assim seguimos para fora da delegacia.
A parte boa é que não fomos no mesmo carro, porque nem sei o que poderia acontecer.
**
- Onde exatamente tudo aconteceu? - pergunta assim que entramos em minha casa.
Para no meio da sala de estar me olhando.
- Siga-me, por favor. - estendo a mão, mostrando-lhe o caminho.
Ela vem logo atrás de mim.
- Foi aqui? - já começa a observar atentamente tudo ao seu redor.
- Sim, mas especificamente ali, próximo à pia. - aponto e me mantenho sério.
- Ok. - caminha até lá e se abaixa, parecendo procurar por vestígios do crime.
- Sabe que tem tido muitos assassinatos em série na cidade, não é mesmo? Não há nada que eu já não tenha visto, estou a frente disso há um bom tempo.
- Não insulte minha inteligência. - me responde com o maxilar trincado, parecendo irritada.
- Desculpe, não quis ofendê-la.
- Que seja! - me ignora, voltando ao que estava fazendo antes.
- Se me der licença, tenho uma ligação para fazer. - informo.
Ela não responde, mas vejo mexer a cabeça, não dando a menor importância ao que digo.
Enquanto faço a bendita ligação, passam alguns minutos e a mulher aparece na sala.
- Se importa se eu olhar em seu quarto? - já havia perdido a paciência com ela, então quanto menos tempo ficássemos no mesmo lugar, melhor.
- Tudo bem. - coloco a mão no celular, tapando o fone para poder respondê-la.
Em seguida ela some de minha vista.
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Emma Narrando
Não saberia dizer o que, mas tinha algo nessa história que não batia. Pelas poucas informações que me passaram a respeito desse caso, a esposa dele era bastante caseira e as breves saídas que dava, era para trabalhar. Sendo assim, qual seria a razão para alguém tê-la matado?
Inimigos? Duvido muito.
Giro a maçaneta, entrando no quarto do casal e vou analisando cada detalhe, para que nada passe despercebido.
Como estou de luvas, não há risco de contaminação de provas.
Ando até o guarda-roupas, vasculhando peça por peça, mexendo nos bolsos, porém, até o momento não há nada de errado.
Até que algo me chama a atenção, aparentemente uma peça de roupa feminina, que suponho ser da Lisa. Está jogada na lixeira, dentro do banheiro, mas foi deixada lá de qualquer jeito, e quem fez isso, esqueceu de abaixar a tampa.
À medida que vou até lá, a sensação que tenho não é nada boa. Aperto o interruptor, ligando a luz e me abaixo para ver melhor. Retiro o vestido branco da lixeira e minha mente recorda perfeitamente que era a roupa que Lisa estava usando no dia do crime.
O coração chega a palpitar de emoção em saber que talvez eu descubra tudo isso mais rápido que pensei.
Pego o celular no bolso, para ver a foto e me certificar de que não estou enganada e estava certa o tempo todo, era a roupa que ela usava no dia exato[AM2] .
Vou mexendo na peça e noto uma mancha de sangue. O que penso ser estranho é que ela estava bem ensanguentada no dia e há apenas uma única mancha, isso me deixa bastante intrigada. Isso só me dá uma única certeza. Jack matou a esposa.
Sem pensar demais, envio uma mensagem ao chefe do departamento de polícia.
"Enviem uma viatura o mais rápido possível, Jack Carter é o possível culpado."
Recolho a peça de roupa com a amostra de sangue e guardo para levar ao laboratório.
Deixo tudo exatamente como estava e caminho para fora do quarto, pegando minha arma.
Desço a escada e como ele está de costas se torna bem fácil coagi-lo.
Aponto a arma em sua direção e o vejo virar-se.
- O que está acontecendo? Ficou louca? - seus olhos estão arregalados.
- Jack Carter, você está preso pelo assassinato de Lisa Carter. Tem o direito de permanecer em silêncio e qualquer coisa que disser poderá ser usado contra você.