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Pecadora

Pecadora

Autor:: Hugo Alefd
Gênero: Romance
Eu ri, deitada ao lado da minha irmã, ambas apertadas na minha cama de solteiro, como costumávamos fazer nas manhãs de domingo. Era engraçado como Rebeca sempre me fazia sentir livre e solta como normalmente eu não era. Eu sempre tinha sido tímida e quieta; ela, extrovertida e espalhafatosa. - Você​ri?​-​Ela​me​empurrou​com​o​ombro, pressionando-me contra a parede. Empurrei-a de volta, e ela quase caiu. Gargalhamos. Então ela envolveu minha cintura com um braço e ergueu o rosto, olhando para mim e dizendo, inesperadamente: - Estou grávida. Gelei, muda. Virei minha cabeça sobre o travesseiro e busquei os olhos dela, pensando ser mais uma brincadeira. Mas ela estava séria. Deixou a cabeça cair no meu travesseiro e ficamos nos encarando. Senti medo por ela. Minha irmã é quase dois anos mais velha do que eu, mas ainda assim tinha só dezoito anos. Ameacei chorar, mas me segurei. Murmurei, angustiada: - Meu Deus... - Deus não tem nada a ver com isso, Isabel. Ou talvez tenha... - Ela deu de ombros. - Você vai ser titia. - Rebeca, você sabe que isso vai ser uma tragédia aqui em casa. - Eu me ergui e me sentei, tensa. - Papai e mamãe... - Vão querer me matar. Ou melhor, me casar - brincou ela, de novo. Ela se sentou também, passando a mão pelo cabelo curto, na altura do pescoço, em cachos desconexos. Era totalmente diferente do meu, que passava da cintura, como fora o dela um dia, antes de se revoltar e cortar tudo, episódio que quase lhe custara uma surra do nosso pai. - Casar com quem? Quem é o pai do bebê? - Como vou saber, Isa? - debochou ela. - Pode ser qualquer um dos dez ou vinte com quem transei nos últimos tempos. - Ah, Rebeca! - Segurei suas mãos, nervosa. Não concordava com muitas das loucuras dela, mas, no fundo, eu a entendia. E me preocupava, por sua causa e por nossos pais. - Você faz isso só para confrontar os dois! - Faço porque quero! Sou livre! Sou maior de idade e trabalho. Vou contar a eles sobre a gravidez, alugar um quarto e sair daqui. Vou me livrar dessa loucura toda! - Não é loucura. - Tentei justificar. - Papai é pastor e... - Loucura! - repetiu, irritada. - Opressão! É isso o que ele faz com essa igreja que ele criou. Isso não é religião, Isabel. Deus não é essa infelicidade toda que somos obrigadas a suportar. Conheço muita, muita gente cristã que está longe de viver oprimida como nós. Uma parte de mim pensava como ela. Mas, criada desde pequena de maneira rígida, eu tinha medo daqueles pensamentos. Temia também pela salvação da minha irmã, que eu amava mais do que tudo. - Escute... - Coloquei a mão em seu rosto, com carinho e preocupação. - Não precisa dessa revolta toda. Você se machuca e magoa nossos pais, Rebeca. Pode falar o que quiser sem... - Falar o que quero? Desde quando? Não me faça rir, Isa! - Ela suspirou, mas não se afastou. - Sabe que eles não aceitam! É aquela religião maldita deles. - Não diga isso - briguei com ela. - É a nossa religião!

Capítulo 1 Pecadora

Eu ri, deitada ao lado da minha irmã, ambas apertadas na minha cama de solteiro, como costumávamos fazer nas manhãs de domingo. Era engraçado como Rebeca sempre me fazia sentir livre e solta como normalmente eu não era. Eu sempre tinha sido tímida e quieta; ela, extrovertida e espalhafatosa. - Você​ri?​-​Ela​me​empurrou​com​o​ombro, pressionando-me contra a parede. Empurrei-a de volta, e ela quase caiu. Gargalhamos. Então ela envolveu minha cintura com um braço e ergueu o rosto, olhando para mim e dizendo, inesperadamente: - Estou grávida. Gelei, muda.

Virei minha cabeça sobre o travesseiro e busquei os olhos dela, pensando ser mais uma brincadeira. Mas ela estava séria. Deixou a cabeça cair no meu travesseiro e ficamos nos encarando. Senti medo por ela. Minha irmã é quase dois anos mais velha do que eu, mas ainda assim tinha só dezoito anos. Ameacei chorar, mas me segurei. Murmurei, angustiada: - Meu Deus... - Deus não tem nada a ver com isso, Isabel. Ou talvez tenha... - Ela deu de ombros. - Você vai ser titia. - Rebeca, você sabe que isso vai ser uma tragédia aqui em casa. - Eu me ergui e me sentei, tensa. - Papai e mamãe... - Vão querer me matar. Ou melhor, me casar - brincou ela, de novo. Ela se sentou também, passando a mão pelo cabelo curto, na altura do pescoço, em cachos desconexos. Era totalmente diferente do meu, que passava da cintura, como fora o dela um dia, antes de se revoltar e cortar tudo, episódio que quase lhe custara uma surra do nosso pai. - Casar com quem? Quem é o pai do bebê? - Como vou saber, Isa? - debochou ela. - Pode ser qualquer um dos dez ou vinte com quem transei nos últimos tempos. - Ah, Rebeca! - Segurei suas mãos, nervosa. Não concordava com muitas das loucuras dela, mas, no fundo, eu a entendia. E me preocupava, por sua causa e por nossos pais. - Você faz isso só para confrontar os dois! - Faço porque quero! Sou livre! Sou maior de idade e trabalho. Vou contar a eles sobre a gravidez, alugar um quarto e sair daqui. Vou me livrar dessa loucura toda! - Não é loucura. - Tentei justificar. - Papai é pastor e... - Loucura! - repetiu, irritada. - Opressão! É isso o que ele faz com essa igreja que ele criou. Isso não é religião, Isabel. Deus não é essa infelicidade toda que somos obrigadas a suportar. Conheço muita, muita gente cristã que está longe de viver oprimida como nós. Uma parte de mim pensava como ela. Mas, criada desde pequena de maneira rígida, eu tinha medo daqueles pensamentos. Temia também pela salvação da minha irmã, que eu amava mais do que tudo. - Escute... - Coloquei a mão em seu rosto, com carinho e preocupação. - Não precisa dessa revolta toda. Você se machuca e magoa nossos pais, Rebeca. Pode falar o que quiser sem... - Falar o que quero? Desde quando? Não me faça rir, Isa! - Ela suspirou, mas não se afastou. - Sabe que eles não aceitam! É aquela religião maldita deles. - Não diga isso - briguei com ela. - É a nossa religião! - Pode ser a sua; a minha, não! Mordi os lábios, nervosa. Eram dois lados radicais, dois extremos. As brigas não eram novidade, mas agora Rebeca tinha ido longe demais. Nossos pais nunca aceitariam aquilo. Seria uma afronta sem perdão. - Rebeca, você não sabe mesmo quem é o pai do bebê? - Segurei a mão dela. - Podemos falar com ele. Talvez queira se casar, e aí contamos ao papai e... - Acho que até sei quem é, mas quem disse que quero me casar? Sair de uma prisão e cair em outra? Vou criar meu filho sozinha. Estou vendo um quarto para alugar. Aí pego minhas coisas, conto aos velhos e me mando. Simples assim. - Ter um bebê não é algo simples. Como vai trabalhar e cuidar dele sozinha, longe daqui? - Dou um jeito. - Ela sorriu e cruzou as pernas nuas. Usava um pijama de short e camiseta, outra afronta, já que nossos pais não permitiam roupas que expusessem o corpo. Aproximou-se, beijou minha bochecha e disse, tranquila: - Não se preocupe comigo. Vou ser mais feliz longe deste inferno aqui. Não sorri nem me despreocupei. Ruth – nossa irmã mais velha, de vinte e dois anos –, Rebeca e eu aprendemos cedo a viver de acordo com a religião dos nossos pais. Meu pai havia começado como obreiro de uma igreja pentecostal no interior do Rio de Janeiro, mas discordava de muitas das ideias que ouvia ali. Mudamos para uma vila no Catete, bairro de classe média da capital, e ele não se adaptou a nenhuma das igrejas que frequentou. Como era muito severo, achava quase todas liberais demais, mesmo aquelas tidas como mais rigorosas. Acabou fundando a sua própria igreja em uma casa alugada perto da nossa, dando-lhe o nome de Deus É Por Nós. Lá ele se tornou pastor e assumiu todas as responsabilidades que o cargo acarretava, realizando obras para ajudar a comunidade. Sua base foram a Bíblia e os fundamentos pentecostais de sua formação, mas ele moldou a nova religião de acordo com o que acreditava e nos educou com base nela. Rebeca, no entanto, sempre demonstrou pensar diferente. Meus pais a acusavam de ter sido corrompida pela devassidão, deixando o demônio ditar seus passos. No entanto, apesar das brigas, dos enfrentamentos mais e mais ousados dela, acreditavam poder salvá-la. Rebeca os acusava de nos oprimirem com ideias arcaicas, e a cada regra que nos era imposta minha irmã se revoltava mais. De um lado, estavam meus pais e Ruth, que não suportava as rebeldias da irmã do meio. De outro, Rebeca. E eu tentava equilibrar tudo, aparar as arestas. Como escolher um dos lados, se eu amava a todos e tinha dúvidas sobre o que era o certo? Agora tudo parecia ter chegado a um ápice. Depois de cortar curtos os cabelos, usar roupas da moda e namorar ostensivamente, envergonhando nossa família, Rebeca estava grávida, sem nem ter certeza de quem era o pai. Nervosa, eu a soltei e cruzei os braços, tentando pensar em uma saída. - Ei, não fique assim! - Rebeca me puxou, sorrindo. - Libere essa tensão, garota! Eu a olhei, sem acreditar que ela não via a gravidade daquilo. - Não percebe o que isso pode causar na nossa família? Nosso pai vai se sentir traído, humilhado. Isso vai magoar muita gente! - E as vezes em que fui magoada? Algum deles se preocupa comigo? - Sim! - Não! Nem com você! São só regras estúpidas! Não sou feliz aqui, Isabel. Ninguém é feliz nesta casa, nem mesmo eles! Nem Ruth, casada com aquele idiota, cheia de filhos, fingindo ser perfeita! Nem você! Ou vai me dizer que dá para ser feliz em um lugar onde tudo é proibido? - Ela apertou os olhos, irritada. - Não é assim... - É exatamente assim! E você sabe disso! Naquele momento, a porta do quarto se abriu. Nós nos calamos. Ruth apareceu, olhando-nos com desconfiança. Ela estava grávida pela terceira vez em quatro anos. Tinha se casado aos dezoito com um obreiro da igreja, Abílio. Parecia mais velha do que era, obesa, com um aspecto cansado. Não devia ser fácil cuidar de todo o trabalho doméstico e de duas crianças pequenas aos sete meses de gravidez. Percebi que o bebê dela seria abençoado pela família, enquanto o de Rebeca seria visto como fruto do pecado. Ruth olhou com desaprovação para a roupa de Rebeca, mas não disse nada. Já haviam discutido por anos a fio, e agora uma ignorava a outra sempre que era possível. - Mamãe está chamando para ir à igreja, Isabel. - Já vou. Ela apertou os lábios. Odiava ver a gente juntas. Dizia que eu acobertava as maluquices de Rebeca, que vivíamos de segredinhos. Saiu e fechou a porta. - Ela deve ter ouvido nossa conversa. Aposto - resmungou Rebeca. Eu me levantei, tirei o pijama e coloquei meu vestido longo de botões. Ajeitei os cabelos num coque enquanto Rebeca me observava com carinho.

Capítulo 2 Pecadora

Você é tão linda, Isabel! Eu a encarei e baixei a guarda, como sempre acontecia. - Isso não importa. - Claro que importa. É linda por dentro e por fora e merece ser muito feliz. - Eu sou. - É nada! - Claro que sou. - Quer me enganar, Isa? - Balançou a cabeça. - Aquele cara não é pra você. É um imbecil! - Não fale assim do Isaque! - Um idiota, como o Abílio! Quer o futuro de Ruth para você? Ser escrava de um babaca burro e gordo, que vai encher você de filhos? - Às vezes, você me irrita! - Saí de perto dela e fui para a porta.

Rebeca levantou num pulo e me abraçou por trás, beijando meu pescoço e dizendo entre risadas: - Não fica emburradinha, não! Sabe que amo você e falo pro seu bem! - Pare com isso! Eu ri também, pois fazia cócegas. Abracei-a de volta, cheia de preocupações. Rebeca parecia leve e feliz. - Vai dar tudo certo - murmurou. Eu sabia que não, mas faria jejum e oraria a Deus para que aliviasse a ira do meu pai. - Coloque uma roupa decente e pense com calma - pedi. - Por favor. - Tenho coisas mais interessantes a fazer! - Ela piscou e voltou a se jogar na minha cama. Ficava mais na minha cama do que na dela, que estava sempre bagunçada. Seu tom me alertou de que estava aprontando mais alguma. - Rebeca, por favor, não arrume mais confusão! - Pode deixar, meu amor. - Ela sorriu, maliciosa. Suspirei e saí do quarto. Meus pais, Ruth, meu cunhado e meus sobrinhos, Esther e Paulo, de quatro e dois anos, estavam prontos. Cândida, minha mãe, olhou-me séria. - Ao menos perguntou se sua irmã nos acompanharia hoje para ouvir a palavra de Deus? - Ela não vai, mãe. - Claro que não! - ironizou Ruth. Eu a encarei, séria. Ela adorava piorar a situação. - Vamos​logo.​-​Meu​pai​parecia​irritado.​Saiu​e​o seguimos, cada um com sua Bíblia. Morávamos no Catete, em uma vila que tinha sido um cortiço ocupado por portugueses empobrecidos, pessoas de classes baixas que queriam viver na Zona Sul e nordestinos que alugavam quartos baratos. Muitos acabavam não tendo condições de arcar nem com aquilo e caíam em vícios, daí o grande número de mendigos nas redondezas e bêbados nos bares decadentes. Muitas famílias ainda se aglomeravam em quitinetes e casas apertadas, algumas das quais tinham sido incrementadas, ganhando puxadinhos até virarem algo parecido com pequenos prédios sem nenhuma infraestrutura. Camelôs ocupavam as calçadas com suas bugigangas e era normal disputarem a gritos com o funk que saía pelas janelas e com os cultos das pequenas igrejas que pipocavam pelo bairro. A confusão sonora e visual chegava a causar dor de cabeça. Roupas balançavam nos varais externos naquela manhã de domingo, ressaltando a aparência feia da vizinhança. A feira do dia anterior tinha deixado um cheiro de frutas podres no ar devido aos montes de lixo acumulados nos cantos à espera do lixeiro, que só passaria na segunda-feira. Para piorar, os vira- latas espalhavam todo o lixo em busca de comida. Meus pais seguiam à frente na calçada, sérios, bem- arrumados. Ele, de terno; ela, com uma roupa de domingo. Abílio ia depois, com o filho caçula no colo. Estava bem acima do peso, e suas pernas roçavam uma na outra. Seus cabelos rareavam, embora não tivesse nem trinta anos. Suava muito e, assim como Ruth, parecia acabado. Minha irmã vinha ao meu lado, respirando fundo por conta do peso da barriga de sete meses. Levava a filha pela mão. Nas esquinas, prostitutas e travestis já tinham encerrado o expediente da noite anterior. Algumas iam para casa por ali mesmo, outras paravam num bar para tomar a saideira. Eu tinha a impressão de que a pobreza se perpetuava em certos lugares. Muitas pessoas tinham passado pelo bairro, mas eu não via ninguém melhorar de vida nem tentar mudar aquele lugar. Digo, meu pai bem que tentava. Ele tinha montado na igreja um programa de arrecadação e distribuição de alimentos e iniciativas para arrumar emprego e moradia para quem não tinha e para auxiliar vítimas de tragédias. O pastor Sebastião podia ser excessivamente rígido, seguindo seu entendimento dos textos bíblicos e impondo costumes à família e aos fiéis, mas era um homem honesto, que tentava ser justo e nunca tinha desviado nem um real da igreja para proveito próprio. Vivíamos apenas do seu salário como pastor. Tudo o que arrecadava ele investia em obras sociais. Ajudava muita gente, a ponto de não ter tempo para si mesmo. Deixava suas vontades de lado em nome de algo maior, que era evangelizar. Cada pessoa que levava para a igreja, cada alma que libertava do que entendia como vício ou pecado, era uma vitória para ele. Dizia ser esse seu papel no mundo. Depois de muitos anos de trabalho, a sede da igreja Deus É Por Nós era própria e tinha sido reformada. Era simples, com bancos de madeira compridos, e estava sempre impecável. À frente, tinha espaço para um órgão, duas grandes caixas de som, um púlpito com microfone e com apoio para a Bíblia e uma mesa com cadeiras de espaldar alto. Os fiéis já começavam a chegar com seus livros sagrados. Todos tinham mais ou menos o mesmo estilo: homens de terno ou camisa social, mulheres com cabelos longos e roupas compridas. - Todas as famílias vêm inteiras para o culto. E eu, que sou o pastor, que deveria dar o exemplo, tenho a família desfalcada - disse meu pai, baixo e entredentes, visivelmente contrariado. - Tudo vai se resolver. Deus cuidará, Sebastião - disse minha mãe, que no fundo também parecia irritada. Ruth, contrariando minhas expectativas, não aproveitou a oportunidade para ressaltar como Rebeca agia errado e como ela, ao contrário, era obediente e temente a Deus. Senti o nervosismo voltar. Rebeca não parecia ligar para a reação de nossos pais à sua notícia, embora o clima em casa me fizesse imaginar que a qualquer momento uma tragédia podia acontecer. Por mais rigoroso que meu pai fosse, tinha suportado muitos caprichos da filha rebelde. Ela o humilhava perante a congregação, deixando claro que ele não tinha domínio sobre ela, que a casa do pastor não era de paz e que havia um ente desvirtuado, que não respeitava o que ele mesmo pregava. Todos se voltaram para nos cumprimentar quando chegamos. Eu sentia que nos tratavam com um respeito excessivo só por sermos parentes do pastor. Éramos admirados e servíamos como exemplo, e por isso as ações de Rebeca preocupavam tanto meu pai. A maioria dos fiéis achava que o demônio queria enfraquecer a obra do pastor corrompendo sua filha. As pessoas oravam por ela e acreditavam numa vitória final de Deus, o único capaz de trazê-la de volta como uma ovelha desgarrada. Na primeira fileira, encontramos meu namorado, Isaque, e seus pais. Nós nos conhecíamos desde sempre, e ele tinha sido o único homem aprovado como meu futuro marido pelos meus pais.

Capítulo 3 Pecadora

Sorri para ele, que sorriu de volta. Isaque era um tipo comum, de pele clara, estatura mediana e cabelos e olhos castanhos. Nosso namoro não era muito diferente de uma amizade. O máximo que fazíamos era dar as mãos de vez em quando. Eu nunca o tinha beijado. Prestes a fazer dezessete anos, eu nunca tinha dado um beijo na boca. Eu me sentei, e Gilmara, a mãe dele, ficou entre nós, então nem conseguimos nos falar. Todos se acomodaram, e meu pai se posicionou diante do microfone. O organista começou a tocar, e todos ficaram em silêncio.

Logo, meu pai receberia sua congregação e faria as apresentações iniciais. Eu me desliguei um pouco do que ele falava, perdida em pensamentos. Gostaria de estar ali com o espírito elevado e a mente tranquila, mas não era só a gravidez de Rebeca que me preocupava. Apesar de nunca ter sido rebelde como ela, eu pensava em coisas que não deveria. Criada como fui, ouvindo que o diabo não​​ganharia​​força​em​minha​vida​se​me​mantivesse concentrada em Deus, eu estava decepcionada comigo mesma. Talvez fosse difícil demais ser cristã no mundo em que vivíamos, cercados de devassidão na televisão, na escola, na rua, entre conhecidos e vizinhos. Todo mundo parecia ansioso por​pecar​e​espalhar​o​pecado.​​Era​preciso​uma​força grandiosa para não se deixar corromper. Minhas colegas de escola só falavam em garotos, sexo, namoro. Elas se maquiavam e usavam roupas curtas e justas. Minha mãe me mandava ficar longe delas, mas como eu poderia me isolar das minhas amigas, com quem me dava tão bem? A verdade é que me influenciavam de alguma maneira, pois ainda bem nova comecei a ter curiosidade sobre diversos assuntos. Como muita coisa não era falada em casa, e sabendo que qualquer pergunta errada seria motivo para castigos, eu guardava tudo para mim. Rebeca também me influenciava, contando as coisas que fazia, como se divertia, os rapazes que conhecia. Eu ficava chocada, mas também balançada. Queria e não queria ouvir. Era como se metades de mim, com vontades diferentes, brigassem o tempo inteiro. Enquanto meu pai falava ao microfone para uma plateia atenta, eu, envergonhada, baixei os olhos para minhas mãos no colo. Ele achava que só uma de suas filhas era pecadora. Estava enganado. Mesmo que eu não demonstrasse, uma parte de mim questionava tudo aquilo. E pecava. Como nas vezes secretas em que me toquei. Ou em que me imaginei beijando Isaque, tirando minha roupa para ele, sendo penetrada. Freei o pensamento, culpada, ainda mais por estar na casa de Deus. Eu orava muito, pedindo perdão. Aos doze anos, tinha descoberto sozinha o que era masturbação -, e me sentia impura e culpada quando não resistia àquilo. Era por isso que eu entendia Rebeca. Não era apenas por amá-la muito que eu não conseguia me afastar. No fundo, eu sabia que a diferença entre nós duas era que ela, sempre feliz e expansiva, cheia de vida, questionava a religião abertamente enquanto eu fazia isso escondida. Acontece que Rebeca deixara de ter controle sobre si mesma e se apaixonara pelo desafio. Abandonara de vez a igreja. E a situação se tornara insustentável. Para onde isso a havia levado? A ser mãe solteira? A ser expulsa de casa? Respirei fundo, angustiada, e voltei a olhar para meu pai, fingindo ouvir sua pregação. Foi quando, como se pudesse ler meus pensamentos, ele disse: - Muitos me perguntam o que é pecado: pôr em prática seus pensamentos impuros ou simplesmente pensá-los? E eu vos respondo agora. Em Mateus, Jesus lembra o que os antigos diziam sobre adultério e vai além, argumentando que, se o olho direito o escandalizar, você deve arrancá-lo e atirá-lo longe. O mesmo deve fazer com sua mão se ela tentar corromper você. Abram suas Bíblias e acompanhem. Eu conhecia bem aquela pregação por causa dos vários cultos a que tinha assistido e do que aprendíamos em casa. Era isso o que mais me envergonhava. Saber tão bem o que era certo e, ainda assim, fazer o errado. - Jesus não queria dizer, ao pé da letra, que os fiéis deviam arrancar os olhos e as mãos. Não era isso, meus filhos. Quem entendeu diga "amém"! - Amém! - responderam os fiéis, num coro alto. Meu pai acenou com a cabeça. Aos cinquenta e seis anos, tinha cabelos grisalhos e um início de calvície. Era moreno, com rugas marcadas e olhar imponente. Não era de sorrir muito, como se estivesse sempre preocupado. - A ideia era se abster do uso do olho ou da mão com aquela intenção. Nenhum homem deveria olhar a mulher do próximo nem mulher nenhuma que não fosse a sua, porque isso já constituiria adultério. Como Jesus se dirigia a muitos homens casados, usou uma linguagem que eles entenderiam. Mas, na verdade, sua fala diz respeito a todos os pecados. Não devemos cobiçar nem querer tocar em uma mulher fora do nosso matrimônio. Apenas aqueles que contraíram matrimônio podem manter contato carnal. Temos que ser capazes de controlar nosso corpo, não o contrário. - Amém! - Jesus condena a mão direita, e não preciso explicar a que se refere. Eu enrubesci, sabendo que meu pai se referia à masturbação. Minha mãe já tinha lido aquela parte para a gente e explicado que se tocar era proibido. - Assim como deixa claro que cobiçar em pensamento já é pecado - continuou ele. - O coração precisa se recusar ao erro, pois o corpo é templo do Espírito Santo, e você não é dono do seu corpo. Se o seu corpo é de Deus, qualquer impureza que cometa contra ele estará sendo cometida contra Deus! É difícil entender, irmãos? Quem compreendeu diga "amém"! - Amém! Eu também falei "amém", em um murmúrio envergonhado. - Os homens veem a aparência, mas Deus vê o coração. Você pode fingir, esconder-se dos homens, mas não de Deus! Se alguém aqui foi consumido pela devassidão, pelo adultério ou por pensamentos impuros, se foi discipulado pelo mal, está na hora de lutar contra tudo o que é desaprovado por Deus. Não basta dizer que não consegue, como faria um viciado. Nem se entregar a sentimentos de vergonha, tristeza e culpa e depois voltar a pecar. Não, meus irmãos! Trata-se de esquecer o bombardeio vindo do inferno e se colocar nas mãos de Jesus, em uma luta diária - que será recompensada por Ele! Quando perceber que seu coração é puro, Deus o libertará

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