A cidade brilhava como uma mentira erguida sobre pilares de corrupção, dinheiro e sangue. Cecília Castellani conhecia aquele jogo melhor do que a maioria. Filha do governador Augusto Castellani, jornalista investigativa, noiva do senador Adrian Beaumont e considerada a verdadeira "princesa da política". Ela quase riu da própria ironia. Se as pessoas soubessem... Se fizessem ideia de quantos monstros usavam ternos caros e sorrisos perfeitos, de quantas mãos eram apertadas com firmeza naquelas festas enquanto cadáveres eram enterrados bem longe das câmeras.
A música elegante ecoava pelo salão, embalando um mar de champanhe, vestidos de grife, discursos vazios e pura hipocrisia. Da varanda, segurando uma taça, Cecília observava tudo. O vestido preto abraçava suas curvas com perfeição e o cabelo loiro caía solto sobre os ombros bronzeados. Para quem olhasse de fora, ela parecia apenas calma. Mas estava trabalhando. Como sempre. Escondido dentro da bolsa havia um gravador; no bolso interno do vestido, um pendrive; e no celular, fotos suficientes para destruir pelo menos três carreiras políticas.
- Procurando alguma coisa interessante? - A voz masculina surgiu atrás dela.
Era seu noivo. O sorriso de Cecília apareceu automaticamente, a mesma máscara simpática e ensaiada que costumava reservar para as câmeras.
- Apenas observando.
- Você deveria sorrir mais.
Ela virou-se lentamente para encará-lo. - E você deveria parar de me dizer o que fazer.
Por um instante, algo sombrio atravessou os olhos dele, desaparecendo tão rápido quanto surgiu. Adrian aproximou-se. Ele era inegavelmente bonito, o rosto perfeito para os fotógrafos, mas assumia uma aura assustadora quando estavam sozinhos.
- Estamos sendo observados - ele murmurou.
- Então sorria você.
A mandíbula do senador travou. Cecília adorava provocá-lo, mas o jogo perdeu a graça quando Adrian segurou seu braço com força excessiva.
- Você esquece quem eu sou.
- Não - ela rebateu, puxando o braço de volta com firmeza. - Eu me lembro exatamente.
Adrian sorriu novamente, mas seus olhos permaneceram frios como gelo. - Tenha cuidado, Cecília.
Ela o observou se afastar, um calafrio incômodo percorrendo sua espinha. Algo estava errado. Muito errado. E seu instinto investigativo raramente falhava.
De repente, o celular vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem anônima contendo apenas uma localização: uma sala no quarto andar. O coração de Cecília acelerou. Era aquilo. A reunião clandestina que ela tentava rastrear havia semanas. Respirando fundo para disfarçar a ansiedade, atravessou o salão sem chamar atenção e escapou pelas escadas de serviço. O quarto andar era dominado por corredores vazios, portas fechadas e um silêncio opressivo.
Uma das portas estava entreaberta. Cecília aproximou-se sorrateiramente, captando vozes de homens discutindo lá dentro, e ligou seu gravador.
- A transferência será feita amanhã.
- Moretti não vai interferir.
Ouvir aquele nome fez um arrepio percorrer sua nuca. Moretti era o rei não oficial da cidade, o homem que dominava metade do submundo e o criminoso intocável que ela perseguia incansavelmente há anos. Ela nunca o tinha encontrado pessoalmente, mas sabia exatamente quem ele era. Ou, pelo menos, acreditava saber.
Ela se encostou mais na parede, aguçando a audição.
- O governador jamais descobrirá - um deles garantiu.
- E a filha dele?
- Não importa.
Cecília congelou. A filha dele. Estavam falando dela. O pânico ameaçou dominá-la quando o som de passos ressoou pelo corredor, vindo em sua direção. Ela tentou recuar rapidamente, mas era tarde demais. A porta se abriu de supetão e um dos capangas a encarou, arregalando os olhos.
- Quem diabos é você?
Sem pensar duas vezes, ela correu. O corredor explodiu em gritos e o som pesado de passos a perseguiu. Eram homens, muitos deles. Cecília disparou escada abaixo, praguejando mentalmente contra os saltos altos que dificultavam sua fuga.
- Peguem-na! - alguém rugiu.
Com o coração martelando nos ouvidos, ela desceu do terceiro para o segundo andar, até finalmente alcançar o primeiro. Empurrou uma porta lateral com força e viu-se novamente no meio do salão principal. Instintivamente, seus perseguidores recuaram, misturando-se entre os convidados; eram espertos o suficiente para não causar uma cena pública. Ela também precisava agir naturalmente. Continuou andando, forçando a respiração a se estabilizar, tentando parecer apenas mais uma socialite caminhando pelo evento.
Foi então que o inferno começou.
Um estampido seco rasgou a música. Depois outro, e mais outro. Tiros. Em segundos, o salão de gala mergulhou no caos absoluto. Taças e vidraças explodiram, mulheres gritaram em desespero, homens correram às cegas e os seguranças sacaram suas armas. Dominada pelo pânico coletivo, Cecília jogou-se atrás de uma mesa tombada. Mais tiros ecoaram no exato momento em que um gigantesco lustre de cristal despencou do teto, fazendo o chão de mármore tremer sob o impacto. No meio da multidão que corria em todas as direções, ela arriscou erguer a cabeça e viu: havia um atirador posicionado na sacada oposta. E ele não mirava a esmo. A arma estava apontada diretamente para o seu pai, o governador.
Ela fez menção de correr na direção dele, mas, de repente, alguém agarrou sua cintura. Uma mão poderosa, firme e implacável a puxou com violência para trás de uma coluna grossa, uma fração de segundo antes que um disparo atravessasse o espaço exato onde ela estava. O mármore da pilastra explodiu, e pequenos fragmentos de pedra arranharam seu rosto.
Cecília arfou, atordoada, e olhou para cima. Diretamente para o rosto do homem que acabara de salvar sua vida.
O mundo ao redor pareceu desacelerar. Ele tinha olhos cinzentos e tempestuosos, vestia um terno preto impecável e exalava uma presença tão perigosa quanto assustadoramente magnética. Cecília sentiu algo estranho e quase impossível tomar conta de si. Era como se já tivesse visto aquele rosto de mandíbula forte antes, como se o conhecesse intimamente, despertando uma parte esquecida de sua própria alma de repente.
O homem também pareceu congelar. Ele a observava com uma intensidade crua, parecendo reconhecê-la, como se estivesse de frente para um fantasma.
- Você está ferida? - A voz dele soou grave e controlada, mas carregava uma emoção contida nas entrelinhas.
Ainda em choque, Cecília balançou a cabeça negativamente.
- Quem é você?
Os olhos cinzentos escureceram. Por apenas um segundo, ela viu dor, raiva e um alívio inexplicável brilharem ali, tudo misturado numa tempestade silenciosa. Quando ele finalmente disse seu nome, a revelação a atingiu como um soco no estômago, roubando-lhe todo o ar.
Lucien Moretti.
O mafioso. O criminoso. O homem que preenchia metade do quadro de suas investigações.
Mas não era o choque da identidade dele que a deixava sem fôlego; era a sensação absurda e instintiva de que aquele nome significava muito, muito mais para ela.
Outro tiro ecoou perto demais. Sem hesitar, Lucien a puxou novamente, protegendo-a com o próprio corpo contra a pilastra. O gesto foi tão automático que pareceu um reflexo enraizado, como se ele tivesse feito aquilo centenas de vezes. Como se protegê-la fosse a coisa mais natural do universo.
Quando seus olhares se cruzaram em meio àquela loucura, Cecília sentiu um medo paralisante pela primeira vez em muitos anos. E não era do atentado, nem dos assassinos, nem do caos que engolia o salão. O medo vinha do fato de que algo profundo dentro dela sussurrava uma verdade impossível: ela o conhecia. De algum lugar. De alguma outra vida. De alguma lembrança meticulosamente enterrada.
Para confortá-la, Lucien passou o polegar discretamente sobre a mão trêmula da jornalista, e o toque causou um curto-circuito em sua mente. Um flash vívido a atravessou: um lago de águas calmas. Uma tarde ensolarada. Um garoto. Um sorriso. Uma promessa.
E então, a imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu.
- Quem é você de verdade? - ela sussurrou.
Lucien ficou imóvel. Os olhos dele percorreram o rosto dela com uma devoção dolorosa, como se procurassem algo precioso e perdido há incontáveis anos.
- Essa é exatamente a pergunta que eu queria fazer para você - ele respondeu.
E naquele instante, sob o som de tiros e gritos, sem que nenhum dos dois soubesse, uma guerra começou. Uma guerra com o poder de derrubar governos, destruir impérios e incendiar o próprio inferno.
O cheiro de pólvora ainda pairava no ar, misturado ao perfume caro dos convidados, ao medo e ao sangue. Cecília mal conseguia respirar. As sirenes ecoavam do lado de fora do Hotel Imperial, enquanto seguranças corriam, policiais invadiam o salão e paramédicos atendiam os feridos. Mas ela só conseguia olhar para um homem: Lucien Moretti. O criminoso mais procurado da cidade, que deveria estar sendo algemado, e não protegido, respeitado ou obedecido.
E, ainda assim, todos pareciam abrir caminho quando ele passava, como se fosse um rei, como se pertencesse àquele lugar mais do que qualquer político presente. Aquilo a irritava profundamente.
- Pode me soltar - a voz dela saiu mais dura do que pretendia.
Lucien baixou os olhos para a mão que ainda envolvia o pulso de Cecília e só então a soltou. O contato desapareceu, mas a sensação permaneceu, ardendo como uma queimadura. Maldição. Por que ela continuava sentindo aquilo?
- Seu pai está seguro - a voz dele era calma, controlada. Irritantemente calma.
- Não preciso que você me informe sobre meu pai.
Um canto da boca dele se ergueu, desenhando quase um sorriso. - Claro que não.
Ela odiou aquele olhar. Como se ele soubesse de algo que ela ignorava, observando-a como uma criança tentando resolver um quebra-cabeça simples.
- Você acha isso engraçado?
- Não.
- Então pare de agir como se soubesse mais do que eu.
A resposta demorou, mas quando veio, atingiu-a como um soco.
- Porque eu sei.
O silêncio caiu pesado entre os dois enquanto o coração de Cecília acelerava. - O que isso significa?
Os olhos cinzentos encontraram os seus, profundos, perigosos e familiares. Droga, por que tão familiares?
- Significa que você está em perigo - Lucien respondeu.
- Eu sou jornalista. Estou sempre em perigo.
- Não desse jeito. - A tensão cresceu e algo na voz dele mudou, como se estivesse falando sério. Como se estivesse assustado. E aquilo era impossível, pois homens como Lucien Moretti não sentiam medo, especialmente por outras pessoas.
A conversa foi interrompida quando um homem alto, de barba curta e terno escuro - claramente um segurança -, aproximou-se rapidamente.
- Chefe.
Lucien virou-se imediatamente. - Fale.
- Encontramos o atirador. Morto.
Cecília congelou. - Morto?
O segurança assentiu. - Dois tiros na cabeça. Execução.
O salão pareceu ficar ainda mais frio.
- Quem fez isso? - perguntou Lucien.
- Ainda não sabemos, mas alguém limpou a cena.
Lucien praguejou baixo. Sua expressão tornou-se sombria, perigosa, assassina. Pela primeira vez naquela noite, Cecília viu o verdadeiro homem por trás do terno elegante: o predador, o rei do submundo. E aquilo deveria assustá-la. Mas não assustava. O que a aterrorizava era o fato de que uma parte dela se sentia segura perto dele. Segura perto de um mafioso. Aquilo não fazia sentido nenhum.
- Eu preciso ir.
Lucien a interceptou de imediato. - Não.
A resposta saiu rápida e dura demais. Cecília arqueou uma sobrancelha. - Não?
- Você não vai a lugar nenhum sozinha.
- Desde quando você manda em mim?
A mandíbula dele travou. Por apenas um segundo, algo atravessou seus olhos. Uma dor profunda e antiga. - Desde que alguém tentou matar você.
Ela abriu a boca para retrucar, mas fechou novamente. O problema era que ele tinha razão, e ela odiava isso.
Trinta minutos depois, o governador já havia sido levado para um local seguro. A imprensa cercava o hotel e helicópteros sobrevoavam a região; a cidade inteira já falava do atentado. Cecília estava prestes a entrar em seu carro quando percebeu algo estranho. Muito estranho. Seu motorista, Roberto, não estava ali, e ele jamais desapareceria naquele tipo de situação. Jamais.
Seu estômago afundou. - Onde está Roberto?
Ninguém respondeu. Ela olhou novamente para o carro parado, completamente vazio, e uma sensação horrível percorreu sua espinha. Puro instinto. Foi então que ela viu uma luz piscando sob o veículo. Pequena, vermelha, ritmada. Seu sangue congelou. Uma bomba.
- ABAIXEM-SE!
A voz de Lucien cortou a noite, e tudo aconteceu rápido demais. Braços fortes envolveram sua cintura, fazendo o mundo girar logo antes da explosão. O som foi ensurdecedor. O carro foi lançado pelos ares enquanto chamas iluminavam a rua em meio a vidros explodindo e pessoas gritando. O calor atingiu o rosto de Cecília, que sentiu o corpo bater violentamente contra o chão. Mas não sentiu dor, porque Lucien estava sobre ela. Protegendo-a mais uma vez. Seu corpo absorveu o impacto, o braço envolvendo a cabeça dela, o peito funcionando como um verdadeiro escudo.
O mundo parecia distante, abafado. Ela ergueu os olhos e encontrou os dele. Por um instante, tudo desapareceu: as sirenes, o fogo, os gritos, a destruição. Restaram apenas aqueles olhos cinzentos. Intensos. Assustados. Mas não por si mesmo, e sim por ela.
E então aconteceu. Outro flash a atingiu, mais forte desta vez. Uma praia, o mar, o sol. Um garoto correndo, com os mesmos olhos cinzentos. Uma risada e a sua própria voz infantil ecoando: *"Promete que nunca vai me esquecer?"*
A lembrança desapareceu como fumaça, e Cecília arfou, buscando ar. Lucien percebeu. Ela sabia que ele tinha percebido.
- O que houve?
- Eu... - a cabeça dela latejava. - Eu vi alguma coisa.
Ele ficou imóvel, completamente paralisado. - O quê?
Ela não sabia explicar, nem para si mesma. - Você.
A palavra escapou antes que pudesse impedir. O rosto dele empalideceu. Pela primeira vez desde que o conhecera, Lucien Moretti parecia verdadeiramente vulnerável, e aquilo a assustou mais do que a bomba.
Muito mais tarde, Cecília estava sentada em uma sala segura da polícia, mas não escutava uma palavra do que os investigadores diziam. Sua mente permanecia presa em uma única pergunta: quem queria matá-la? Primeiro os tiros, depois a bomba. Aquilo não era coincidência, era uma caçada implacável, e alguém muito poderoso estava por trás daquilo.
De repente, seu celular vibrou. Era uma mensagem anônima, sem número ou identificação. Apenas uma frase que fez seu coração parar de bater:
*"Pergunte ao seu pai o que aconteceu no Lago Ravenna há quinze anos."*
O sangue desapareceu de seu rosto. Quinze anos. Exatamente a época do acidente. Exatamente a época das memórias perdidas. Ela levantou-se com tanta brutalidade que derrubou a cadeira para trás.
- Senhorita Castellani? - chamou um dos policiais.
- Preciso sair.
- Agora não é seguro.
- Eu não perguntei se era.
Ela saiu a passos largos antes que alguém pudesse impedi-la. Precisava encontrar o pai, precisava de respostas urgentes. Precisava entender por que seu passado parecia perseguir Lucien Moretti de forma tão visceral.
Mas, enquanto atravessava o corredor vazio da delegacia, Cecília não percebeu a figura que a observava das sombras. Um homem elegante, de postura impecável, com um sorriso sutil no rosto: Adrian Beaumont, seu noivo.
A tela do celular dele ainda estava acesa, exibindo a mesma mensagem enviada, o mesmo número anônimo e o mesmo texto. E o sorriso que se alargou em seus lábios não tinha absolutamente nada de humano.
- Corra, Cecília - a voz dele saiu num sussurro envenenado. - Corra direto para a verdade. Porque quando descobrir quem você realmente era... vai implorar para ter permanecido esquecida.
Cecília não se lembrava de ter saído da delegacia, de ter dirigido ou sequer dos semáforos e das ruas. Tampouco notou a chuva fina que começava a cair sobre a cidade. Tudo o que conseguia ouvir, repetindo-se em sua mente como um disco arranhado, era uma única frase: Pergunte ao seu pai o que aconteceu no Lago Ravenna há quinze anos. Quinze anos. Exatamente a idade das lembranças desaparecidas. Exatamente a idade das perguntas sem respostas, a idade exata do seu vazio. Ela apertou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Durante anos, aceitara a versão oficial: um trágico acidente de carro, uma criança gravemente ferida, trauma e, por fim, a perda parcial da memória. Fim da história. Mas agora, nada mais parecia fazer sentido. Lucien Moretti, os flashes inexplicáveis, a sensação absurda de conhecê-lo, o atentado no hotel, a bomba sob seu carro e, finalmente, a mensagem. Tudo estava perfeitamente conectado. Ela simplesmente ainda não conseguia enxergar como.
A mansão dos Castellani estava cercada por seguranças. Muito mais do que o normal. Refletores varriam os jardins e homens fortemente armados patrulhavam os portões; o atentado havia colocado toda a propriedade em estado de alerta máximo. Mesmo assim, quando Cecília passou pela porta principal, ninguém tentou impedi-la. Os empregados desviavam o olhar, tensos e visivelmente assustados. Ela reconhecia aquele clima pesado, o mesmo silêncio elétrico que antecede uma tempestade. Seu pai estava escondendo alguma coisa, ela podia sentir nos ossos. Subiu as escadas apressadamente, sem sequer tirar os saltos, atravessou o corredor principal ignorando os chamados dos funcionários e escancarou a porta do escritório com violência.
Augusto Castellani levantou os olhos dos documentos sobre a mesa. Por um instante, a surpresa atravessou seu rosto, rapidamente substituída por uma profunda preocupação.
- Cecília.
- O que aconteceu no Lago Ravenna?
Um silêncio completo e absoluto engoliu a sala. O sangue desapareceu do rosto do governador num piscar de olhos e, naquele exato momento, ela soube. A mensagem era verdadeira. Seu pai não apenas conhecia aquele nome, mas tinha pavor dele.
- Quem falou sobre isso? - ele perguntou.
- Responda.
- Cecília...
- RESPONDA! - A voz dela ecoou pelo escritório amplo. Ela raramente perdia o controle a ponto de gritar, mas estava exausta. Cansada das mentiras, dos segredos e de ser eternamente tratada como uma criança.
Augusto levantou-se lentamente. Pela primeira vez em muitos anos, a fachada inabalável ruiu e ele pareceu velho. Muito velho.
- Algumas coisas precisam permanecer enterradas.
- Então existe alguma coisa.
- Sim. - A resposta veio rápida, honesta e dolorosa. - Existe.
O coração dela disparou no peito. - Eu estava lá?
- Sim.
- Lucien Moretti estava lá?
Augusto simplesmente fechou os olhos, e aquilo foi resposta suficiente. O ar abandonou os pulmões da jornalista.
- Meu Deus...
- Cecília...
- Quem era ele para mim?
O governador permaneceu imóvel, e seu silêncio foi muito pior do que qualquer resposta articulada.
- Pai...
- Eu não posso.
- Não pode ou não quer?
- Não posso. - A voz dele falhou. Aquilo a assustou profundamente; Augusto Castellani nunca falhava. Mas agora, parado à sua frente, parecia um homem esmagado pelo peso de quinze anos de culpa. - Você não entende.
- Então me faça entender.
- Não.
- Você está me protegendo?
- Estou tentando.
Ela soltou uma risada ríspida e amarga. - Engraçado. Porque ultimamente todo mundo parece querer me proteger. Você, a polícia, Lucien Moretti. E ninguém tem a decência de me dizer de quê.
Os olhos do governador escureceram de súbito. - Lucien se aproximou de você?
Ela ignorou a pergunta, mantendo o foco. - O que aconteceu naquela noite?
- Vá embora, Cecília.
- Não.
- Vá embora.
- NÃO! - Ela espalmou as duas mãos com força sobre a mesa de mogno, fazendo os objetos estremecerem. - Eu quase morri hoje. Tentaram me matar duas vezes. Eu mereço respostas!
Os olhos de seu pai encheram-se de algo que ela jamais vira neles: pânico. Puro e absoluto pânico.
- É exatamente por isso que você precisa parar de procurar.
O escritório mergulhou novamente em silêncio. Aquelas palavras soavam absurdas. Quanto mais perigo a rondava, mais ela sentia a necessidade de descobrir a verdade. Ela era jornalista, afinal de contas; era quem era e era o que fazia de melhor.
- Eu não vou parar - sentenciou.
Augusto abaixou a cabeça, como se no fundo já esperasse por aquilo, como se soubesse, desde o início, que havia perdido aquela batalha.
- Então, que Deus nos ajude.
Do outro lado da cidade, Lucien observava a fotografia sobre sua mesa. Fazia quinze anos que não via aquela imagem, mas, mesmo assim, reconheceu cada detalhe imediatamente: a praia, o lago, o verão vibrante e os sorrisos escancarados. Ele, Cecília e Noah. Três crianças. Três sobreviventes. Ou pelo menos era o que todos acreditavam. Seu olhar permaneceu fixo na menina da fotografia. Os cabelos dourados bagunçados pelo vento, o sorriso enorme, os pés descalços na areia. Inocente. Viva. Tudo capturado pouco antes de o mundo deles desmoronar. Antes do sangue, da escuridão. Antes de perdê-la.
Os dedos dele apertaram as bordas da foto. No verso, havia uma mensagem escrita à mão, num tom de ameaça fantasmagórica: Vocês três deveriam ter morrido naquela noite.
Alguém estava brincando com ele. Alguém que conhecia a verdade. Alguém que, sem dúvida, estivera lá.
A porta do escritório se abriu, e Matteo entrou. Ele era seu braço direito e o seu amigo mais antigo.
- Encontramos o homem que enviou a fotografia? - perguntou Lucien, sem tirar os olhos da imagem.
Matteo balançou a cabeça negativamente. - Não.
- Isso é impossível.
- Eu sei.
Matteo ficou em silêncio, o que tornava a situação ainda mais preocupante, pois poucas coisas no mundo eram impossíveis para Lucien Moretti.
- E a filha do governador? - Matteo sondou.
Lucien demorou alguns segundos para responder. - Continua viva.
- Por enquanto.
Os olhos de Lucien tornaram-se duros e gelados. - Ela continuará viva.
- Você não pode protegê-la para sempre.
A frase atingiu um ponto incrivelmente sensível, principalmente porque Matteo tinha razão. Lucien passara os últimos quinze anos a observando de longe, garantindo que estivesse segura e eliminando ameaças sorrateiramente, muito antes que ousassem chegar perto. Mas agora, o inimigo havia atravessado todas as barreiras de segurança. Duas vezes. No mesmo dia. E aquilo significava apenas uma coisa: a verdadeira guerra havia começado.
Já passava da meia-noite quando Cecília finalmente deixou o escritório do pai. Não conseguira as respostas que queria, mas obtivera algo ainda pior: confirmações. Lucien fazia, sim, parte de seu passado; o trágico incidente no Lago Ravenna realmente existira; seu pai estava absolutamente aterrorizado; e alguém, de fato, estava tentando matá-la.
Ela caminhava pelo corredor principal, imersa em pensamentos, quando ouviu um barulho diferente. Metálico, suave, quase imperceptível. Parou de imediato. Puro instinto. Prendeu a respiração, aguardando no silêncio, e então ouviu novamente. Vinha do andar de baixo. Seu coração acelerou. Os seguranças deveriam estar patrulhando aquela área, mas não havia sombra de ninguém. Estranho. Extremamente estranho.
Ela começou a descer as escadas devagar. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. O corredor do térreo estava deserto e as luzes permaneciam acesas, fazendo tudo parecer tranquilamente normal. Até que seus olhos captaram o detalhe: a porta dos fundos estava entreaberta.
Um arrepio gélido percorreu sua espinha. Cecília aproximou-se na ponta dos pés, escondendo-se nas sombras, e então ouviu uma voz. Não era nenhum dos funcionários da casa, nem um dos seguranças de Augusto. Era um homem desconhecido, falando baixo ao telefone, escondido dentro de sua própria mansão.
- Ela está aqui - ele sussurrou.
O sangue de Cecília congelou nas veias.
- Sim. Sozinha. - Houve uma pausa, enquanto o invasor escutava as instruções do outro lado da linha. Então, ele respondeu: - Entendido. Vamos levá-la esta noite.
Cecília parou de respirar. O pânico a invadiu. Havia intrusos dentro da propriedade blindada do governador, e eles estavam ali para sequestrá-la. E, naquele exato instante... o homem começou a virar lentamente na sua direção.