Eu sou Sofia, e na minha vida passada, a cegueira e o egoísmo do meu marido, João, custaram-me tudo.
Fuzileiro e "herói" do bairro, ele dedicava a sua lealdade e recursos à viúva do seu melhor amigo, Isabel, e à sua filha, Carolina, enquanto o nosso filho, Tiago, era negligenciado e eu, quebrada.
Vi o meu pequeno Tiago morrer e acabei por segui-lo, consumida pela dor.
Mas o destino deu-me uma segunda oportunidade.
Acordei de novo em 1991, um ano antes da tragédia.
E o padrão repetiu-se: João continuava a sacrificar a nossa família pela "honra" distorcida de proteger Isabel.
O derradeiro golpe? Enquanto eu tentava o divórcio, ele, manipulado por mentiras, drogou-me e levou o nosso filho para uma extração de medula óssea forçada, acreditando que salvaria a filha de Isabel.
Aquele ato de traição não me matou, mas transformou a minha dor numa raiva fria e calculista.
Como podia um homem ser tão cego à verdade, tão cruel com o seu próprio sangue, em nome de uma falsa honra?
A minha vida inteira tinha sido um palco para a sua hipocrisia, e eu não choraria mais.
Desta vez, não haveria súplicas.
Em vez de lutar, comecei a concordar com cada exigência, cada capricho de Isabel e João, com um sorriso vazio nos lábios.
Eles pensavam que tinham o controlo, mas eu estava a tecer a minha própria armadilha.
Decidi "vendê-lo" à mulher que sempre o quis, para que eu e o meu filho pudéssemos finalmente conquistar a nossa liberdade.
Esta era a minha vingança silenciosa, o meu renascimento.
"Divórcio?"
O funcionário do tribunal em Lisboa empurrou os óculos para a ponta do nariz, olhando para mim por cima das lentes.
"Sim, divórcio."
A minha voz soou calma, demasiado calma para a situação.
Ele olhou para os papéis outra vez. "Sofia, esposa do Fuzileiro João. O seu marido está numa missão no estrangeiro, certo?"
"Certo."
"Nesse caso, talvez seja melhor esperar que ele regresse. Ou podemos tentar uma mediação através do Comando Naval. Um casamento militar não é uma coisa simples de terminar."
Ele estava a tentar ser prestável, mas eu abanei a cabeça.
"Não, obrigada. Quero iniciar o processo agora."
Na minha vida passada, eu teria aceitado a sugestão dele, teria esperado, teria tentado a mediação, teria feito tudo para salvar o meu casamento.
Mas eu já morri uma vez. Esta era a minha segunda oportunidade.
Não havia nada para salvar.
O funcionário suspirou, carimbou os papéis com uma força desnecessária e entregou-me uma cópia. "O processo está iniciado. O seu marido será notificado assim que regressar. Têm três meses."
Saí do tribunal e o sol de 1991 pareceu-me estranhamente brilhante. Respirei fundo. O ar cheirava a liberdade.
Apanhei o autocarro de volta para o bairro social perto da base naval do Alfeite. Era um aglomerado de prédios cinzentos, construídos para as famílias dos militares. A nossa casa. O nosso inferno.
Ao entrar no apartamento, o cheiro a mofo e a humidade atingiu-me. Era real. Eu estava mesmo de volta.
Sobre a mesa, uma carta. A caligrafia era do João. Peguei nela. Na minha vida passada, eu teria aberto a carta com o coração a bater descompassado, lendo as suas palavras de amor e sentindo-me a mulher mais sortuda do mundo.
Hoje, rasguei-a em pedaços sem sequer a abrir e deitei-a no lixo. As suas palavras eram veneno doce.
Olhei pela janela. No pátio, a minha vizinha, Isabel, dava um lanche à sua filha, Carolina. Um pastel de nata e um sumo de pacote. Um luxo para este bairro.
O meu filho, Tiago, estava sentado num degrau perto, a comer um pão seco que eu lhe tinha dado. Tinha apenas cinco anos e os seus olhos seguiam o pastel de nata com uma fome que me partia o coração.
Isabel viu-me à janela e sorriu, um sorriso vitorioso.
"Sofia! O João ligou-me ontem. Disse que já me transferiu o vencimento dele. Que homem, não é? A ti manda cartas de amor, a mim manda o dinheiro. Cada uma com o que mais precisa!"
As suas palavras eram cruéis, mas eram a verdade.
Na minha vida anterior, esta verdade matou-me lentamente. Começou no dia em que o marido de Isabel, o melhor amigo e "irmão de armas" de João, morreu em combate.
Lembro-me do dia do funeral. João segurava a mão de Isabel, não a minha.
"Prometo que vou cuidar de ti e da Carolina como se fossem a minha própria família. É a minha honra."
Ele disse-lhe isto à frente de todos. E cumpriu a promessa.
A partir desse dia, a nossa casa ficou mais fria. O dinheiro, que já era pouco, tornou-se ainda mais escasso. As roupas novas eram para a Carolina. Os jantares especiais eram na casa de Isabel. O tempo livre do João era para consertar coisas na casa dela.
Para mim e para o Tiago, sobravam as desculpas e as promessas vazias.
"Temos de nos mudar para este bairro social, meu amor. Fica mais perto da Isabel, posso ajudá-la melhor. É temporário, prometo. Assim que as coisas melhorarem, compramos a nossa casa de sonho."
A casa de sonho nunca chegou.
O ponto de viragem, a memória que me assombra mesmo depois da morte, foi o dia em que Tiago adoeceu. Tinha uma febre altíssima. Liguei ao João, desesperada.
"Não posso ir agora, Sofia. A Carolina também está doente, parece ser mais grave. Levo-a ao hospital privado. Leva o Tiago ao hospital público, é perto."
E desligou.
Levei o meu filho a pé, debaixo de uma chuva torrencial. Ele ardia nos meus braços. Quando chegámos ao hospital, já era tarde demais. Uma pneumonia fulminante, disseram os médicos.
O meu filho morreu nos meus braços, no corredor de um hospital público sobrelotado, enquanto o pai dele pagava um tratamento de primeira classe para a filha de outra mulher.
Eu não aguentei. Pouco tempo depois, segui o meu filho.
E depois, acordei. De volta a 1991, um ano antes da tragédia. Com a oportunidade de mudar tudo.
"Mãe?"
A voz do Tiago tirou-me das minhas memórias. Ele entrou em casa, com os olhos tristes.
"Mãe, porque é que nos vamos divorciar do pai?"
Ajoelhei-me à sua frente. O seu rosto pequeno estava confuso. Como é que eu lhe podia explicar?
"Porque o pai não gosta de nós, meu querido."
"Gosta sim! Ele manda cartas a dizer que tem saudades!"
A inocência dele era uma faca no meu peito.
"Tiago, vamos fazer uma aposta. O pai chega hoje de viagem. Quem é que achas que ele vai visitar primeiro? A nós ou a tia Isabel?"
Ele hesitou. "A nós. Nós somos a família dele."
"Está bem. Se ele vier ter connosco primeiro, eu rasgo os papéis do divórcio. Se ele for a casa da tia Isabel primeiro... tu vens comigo para longe daqui. Combinado?"
Ele acenou, com os olhos cheios de uma esperança que eu já não tinha.
Sentámo-nos à janela, a esperar. As horas passaram. O sol começou a pôr-se.
Finalmente, um táxi parou em frente ao prédio. O meu coração gelou, mesmo já sabendo o que ia acontecer.
João saiu do carro. Alto, fardado, o herói do bairro.
Ele olhou na direção do nosso prédio. Por um segundo, pensei ter visto hesitação.
Mas depois, virou-se e caminhou diretamente para a porta de Isabel. Vimo-lo a entregar-lhe um envelope grosso, provavelmente o dinheiro. Vimo-lo a dar um beijo na testa da Carolina e a entregar-lhe uma boneca nova.
A porta fechou-se.
Olhei para o meu filho.
As lágrimas corriam silenciosamente pelo seu rosto. A aposta estava perdida. O seu pequeno mundo tinha acabado de se despedaçar.
Ele olhou para mim, com os lábios a tremer.
"Mãe... vamos embora."
Abracei-o com força. Desta vez, eu ia protegê-lo. Desta vez, íamos sobreviver.
A porta da nossa casa abriu-se de repente. Era o João.
Ele entrou com um sorriso cansado, alheio à devastação que acabara de causar.
"Meu amor! Tiago! Cheguei!"
Tiago encolheu-se atrás de mim, recusando-se a olhar para ele.
João franziu a testa, confuso. "O que se passa? O meu campeão não vem dar um abraço ao pai?"
Ele aproximou-se, mas Tiago agarrou-se à minha perna com mais força.
João suspirou e tirou um pequeno carro de brincar do bolso. "Olha o que o pai te trouxe."
Era um carrinho de plástico barato, do tipo que se vende em qualquer quiosque. Nada comparado com a boneca de caixa que ele tinha dado à Carolina.
Tiago olhou para o carro e depois para o pai, com os olhos cheios de uma desilusão que um adulto não conseguiria fingir. Ele não pegou no brinquedo.
João ficou sem jeito. "Estive primeiro em casa da Isabel para lhe deixar o vencimento. Coitada, precisa do dinheiro para as despesas."
Ele olhou à volta do nosso apartamento húmido e pequeno. "Isto não são condições, eu sei. Mas tem paciência, meu amor. Assim que a Isabel estiver mais estável, arranjamos um sítio melhor."
As mesmas palavras. A mesma promessa vazia.
Na minha vida anterior, eu teria sorrido e dito que não importava, que o importante era estarmos juntos.
Desta vez, fiquei em silêncio.
Isabel apareceu à nossa porta, como uma sombra.
"João, querido, desculpa interromper. Mas a Carolina está com tosse outra vez. Tens aquele xarope que trouxeste da Alemanha?"
"Claro, claro," disse João, virando-se imediatamente para a sua mala.
Ele tirou um frasco de xarope importado, caro. Entregou-o a Isabel, ignorando completamente o facto de Tiago ter estado a tossir a noite toda.
"Obrigada, João. És um anjo," disse Isabel, lançando-me um olhar triunfante por cima do ombro dele.
Quando ela saiu, João virou-se para mim, finalmente parecendo notar o meu silêncio.
"Estás bem, Sofia? Pareces pálida."
"Estou cansada," respondi, com a voz vazia.
Naquela noite, Tiago teve febre. Passei a noite em claro, a pôr-lhe panos molhados na testa, a ouvir a sua respiração ofegante. O meu coração estava apertado de medo. O medo da memória.
De manhã, a febre tinha subido. Ele estava a arder.
Peguei no telefone e liguei para o quartel do João.
"Ele não está," disse o oficial de serviço. "Teve de levar a filha da viúva do camarada dele ao hospital. Parece que a menina também está doente."
O telefone caiu-me da mão.
Estava a acontecer outra vez. A mesma sequência de eventos, o mesmo abandono.
Mas desta vez, eu não ia ficar à espera.
Peguei no Tiago ao colo, enrolei-o no melhor cobertor que tínhamos e saí para a rua. A chuva começou a cair, uma chuva fria e persistente, tal como na minha memória.
"Mãe, tenho frio," murmurou Tiago, aninhando-se contra mim.
"Eu sei, meu amor. Vamos já tratar de ti."
O hospital público ficava a vinte minutos a pé. A chuva engrossou, transformando-se numa tempestade. As minhas roupas estavam ensopadas, o meu cabelo colado à cara. Tiago tremia incontrolavelmente nos meus braços.
Eu estava a desesperar, a sentir o pânico a subir, quando um carro parou ao meu lado.
A janela do passageiro desceu.
"A senhora precisa de ajuda? O seu filho não parece bem."
Era um homem com um rosto gentil e olhos preocupados.
"Por favor," gaguejei, "preciso de ir ao hospital."
"Entre, rápido."
Ele saiu do carro à chuva para me ajudar a sentar com o Tiago no banco de trás. O seu nome era Miguel. Era arquiteto, disse ele.
Quando chegámos ao hospital, ele ajudou-me a levar o Tiago para as urgências. Os médicos levaram-no imediatamente.
Enquanto esperava, exausta e a tremer, vi uma cena que me gelou o sangue.
Num quarto privado, do outro lado do corredor, estava o João. Ele segurava a mão da Carolina, que estava deitada numa cama, com um ar aborrecido mas saudável. Isabel estava sentada ao lado, a comer um bolo.
Ouvi a enfermeira a falar com o João. "Não se preocupe, Comandante. Já pagou por todos os exames e pelo quarto privado. A sua filha terá o melhor tratamento."
A minha filha.
Senti uma raiva fria a tomar conta de mim.
O médico do Tiago veio ter comigo. "O seu filho tem uma pneumonia. Precisa de ficar internado e de tomar antibióticos fortes. Vai ter de pagar o tratamento adiantado."
Eu não tinha dinheiro. O João tinha levado tudo.
Olhei para a minha mão esquerda. Para a aliança de ouro que ele me tinha dado, com a promessa de amor eterno.
Tirei-a do dedo. O metal ainda estava quente da minha pele.
Fui à loja de penhores mais próxima e vendi-a. O dinheiro que me deram mal chegava para a primeira noite de internamento.
Mas era o suficiente.
Voltei para o hospital e paguei. O meu casamento estava oficialmente morto e enterrado. Tinha-o vendido para salvar o meu filho.