Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Perdida em seu toque
Perdida em seu toque

Perdida em seu toque

Autor:: Raiza Robles
Gênero: Romance
Encontrar um amor para toda a vida sempre foi o grande sonho de Safira, mas depois de dizer o tão sonhado sim sua vida mudou completamente. Com a alma ferida e o corpo sangrando, marcada pela ira de seu cônjuge, em meio ao caos, ela encontra Oliver de olhos avelã, ombros largos e características marcantes de um homem impossível de se esquecer. Capaz de mexer internamente com Safira e despertar sentimentos que até então ela desconhecia que podia ter. Sonhos vívidos seguidos de pesadelos que começam a trazer mensagens, libertando a sua alma de forma espiritual e revelando-a sobre a existência da reencarnação, Surge uma grande questão: Será ela capaz de aguentar o relacionamento abusivo em seu atual matrimônio ou sucumbirá as forças do coração e se entregará para viver um sentimento proibido provocados por outro homem que lhe faz ficar Perdida Em Seu Toque.

Capítulo 1 Sobre o livro

Perdida em Seu Toque é o romance de estreia da autora Raiza Robles. A ideia surgiu da convivência com uma pessoa importante em sua vida, vítima em um relacionamento abusivo.

Abalada, avaliou, a partir de pesquisas, o número agravante de casos de violência doméstica contra a mulher e, analisando o padrão de tipos de ações prejudiciais dentro desses relacionamentos, percebeu que, estatisticamente, a vítima não denuncia por medo do seu parceiro que gera diversos ataques, ocasionando um alto índice de feminicídio no Brasil.

Mais familiarizada com essa questão social, a autora obteve o desejo de demonstrar, por meio de ficção, a realidade de muitas famílias, a fim de alertar outras pessoas, colocando à tona alguns indicadores chaves, pois, dificilmente, a vítima obtém ciência de sua inserção nesse relacionamento abusivo.

Por dia, três mulheres são assassinadas, vítimas de feminicídio, no Brasil. A cada dois segundos, uma mulher é agredida no país. Em quase 80% dos casos, os agressores são o atual ou o ex-companheiro, que não se conformam com o fim do relacionamento.

Dito tudo isso, o livro tem como objetivo mostrar a realidade que se passa na pele de uma mulher dentro de uma relação com maus tratos, como é possível sua superação e ainda encontrar o amor verdadeiro.

Safira Mendes Soares é uma jovem estudante em medicina veterinária que vive em São Paulo com seu marido, Leonardo, um bancário que se importa mais com a carreira do que com seu próprio relacionamento. Ele acredita que dinheiro compra amor e, ao invés de presentear sua mulher com carícias, ela recebe somente agressões físicas e psicológicas. Safira sempre colocou seu relacionamento em primeiro lugar, mas tudo isso muda quando ela descobre que esse amor que ela tanto tenta cultivar já se repetiu em outra época, suas descobertas se atrelam aos sonhos de uma outra vida que ela teve e que infelizmente foi interrompida cedo demais.

A jovem precisa mudar seu destino para não repetir os acontecimentos de sua vida passada.

Com ajuda espiritual ela consegue entender que seu amor verdadeiro está lá fora esperando para reencontrá-la e que para não repetir os mesmos erros do passado ela precisará tomar decisões que irão moldar sua realidade.

Capítulo 2 Primeiro Capítulo

- Você não vai escapar, Safira! - Escuto sua voz ao longe, mas minhas pernas continuam correndo sem cessar.

"Ele não pode me pegar..." Penso comigo mesma.

Meus pulmões ameaçam parar e por um segundo sinto que vou desmaiar, mas não posso parar agora. Para me salvar pulei do carro assim que o semáforo se fechou, se não tivesse feito isso, talvez não estaria consciente nesse momento.

Ofegante alerto o motorista do ônibus com batidas incessantes na porta que se abre deixando-me entrar, ele encara meu rosto machucado, mas permanece em silêncio. Abaixo a cabeça para esconder minha face, porém recebo olhares de todos os passageiros.

Desta vez consegui fugir de mais uma surra, espero que quando retornar ele esteja mais calmo. Deveria tê-lo avisado que ficaria até mais tarde na casa de Victor, mas meu celular descarregou, impossibilitando-me de falar com ele.

Passo pela catraca com o coração acelerado e me recomponho para não chamar atenção.

Apanho o aparelho celular e disco o número do meu amigo, mas com as mãos trêmulas desisto no mesmo instante. Encaro meus dedos cortados e não consigo evitar a agonia causada por esse sofrimento e me pergunto repetidas vezes, por que sempre volto para aquele homem?

Me sento no último banco e coloco as duas mãos sobre a cabeça pensando em alguma forma de apagar os vestígios do passado; suspiro, na esperança de convencer a minha mente que agora estou em segurança, debruço sobre a janela e observo tudo ao meu redor, um pouco mais calma.

O vento assopra as folhas verdes das árvores, espalhando-as pelo chão. O cheiro da chuva é inerente, criando um clima agradável, noto diversas pessoas correrem a procura de proteção da chuva que se aproxima.

Ergo a cabeça e encaro o céu negro formado pelas nuvens e um arrepio percorre minha espinha ao sentir as primeiras gotículas de água adentrar pela janelinha do ônibus. Fecho meus olhos cansados e lanço um longo suspiro, imaginando as gotas atingirem meu rosto, posso sentir o frescor.

O momento nostálgico, desperta coisas que estavam enterradas em minhas lembranças. Coloco minha mão sobre o rosto, como um reflexo ao sentir mais uma vez o ardume percorrer pela pele. Lágrimas se formam em meus olhos, mas enxugo-as com a palma da mão. Luto para que elas se mantenham no lugar, a dor no peito é grande ao saber que quando cruzar a porta do meu apartamento tudo voltará a acontecer.

Desde o momento que disse o grande sonhado "sim" minha vida mudou por completo, criei uma barreira dentro da minha mente para não desapontar quem eu mais amo nessa vida, mas o que fazer quando alguém que você se importa tanto, lhe machuca além da sua carne?

Penso no que eu possa ter feito de errado para receber tantos maus tratos, e mais uma vez me questiono o motivo que me liga a este homem. Infelizmente sei da resposta, ainda amo o Leonardo, mesmo depois de tudo o que ele me fez. Às vezes me pergunto se a culpada disso tudo sou eu.

Enterro minhas angústias no profundo do meu coração, sei que amo meu marido e faria tudo por ele, mas as vezes penso até quando conseguirei suportar o seu comportamento instável.

Ouço de muitas pessoas que estou em um relacionamento abusivo, mas sinceramente, não consigo admitir isso. Mentalizo todos os dias que isso é uma fase, mas as vezes é difícil manter o controle o tempo todo, quando menos espero me pego chorando baixinho no banheiro, antes de voltar para a cama e tentar dormir, forçando minha cabeça a esquecer os problemas por meio o sono.

Infelizmente acabei me tornando viciada por ele, criando em minha mente grande dependência desse homem que prometeu diante do altar me proteger e zelar por nosso amor, mas agora é tarde para pensar em tudo isso, sou fraca demais para deixar tudo para trás e recomeçar.

Estes dias com clima chuvoso tem me feito retornar ao passado com frequência, fecho meus olhos lembrando-me vividamente da primeira pancada recebida, as cenas invadem minha cabeça como um filme que acaba de ser rebobinado.

22 de fevereiro de 2015 - Segunda-feira à tarde

O vento forte assopra as portas abertas, batendo-as sem aviso prévio. Acordo assustada e observo a escuridão na sala, viro a cabeça e encontro Leonardo dormindo na poltrona ao lado e levanto decidida a trancar tudo antes da tempestade chegar.

Entro nos quartos e fecho as janelas, admiro por alguns instantes as primeiras gotas tocarem o vidro, a chuva é algo que sempre me fascinou porque acredito que ela renova tudo o que toca.

Caminho para a sala e noto que meu marido ainda está adormecido, cruzo o corredor que liga da cozinha ao banheiro e decido tomar um banho, atravesso a porta sanfonada do banheiro, ligo uma música em meu celular e tiro as roupas. Fecho meus olhos e mergulho na água quente, o vapor invade o ambiente trazendo uma sensação de aconchego. Acredito que esse seja o melhor cômodo da casa.

A sinfonia de Beethoven ecoa pelos azulejos, me fazendo refletir sobre a prova que realizei para cursar medicina veterinária na USP, sinto um frio na barriga só de imaginar a conversa que preciso iniciar com Léo, ele que nunca foi fã dos meus estudos e não tenho muita certeza se ele irá me apoiar, principalmente porque escondi a realização da prova.

O barulho do telefone faz com que eu desperte de meus devaneios, me fazendo esquecer por um instante do que me aflige, estendo meu braço e desligo a música ao ouvir a voz do meu marido, presto atenção ao som abafado da conversa, mas não consigo entender muita coisa.

A ligação é finalizada, e Leonardo entra no banheiro sem aviso prévio.

- Sua vadia mentirosa! - Ouço ele dizer com os olhos saltados. - Achou que poderia esconder algo assim? - Grita desligando o chuveiro e por reflexo me encolho no canto da parede.

- Eu posso explicar... - Me justifico, mas ele agarra meu cabelo.

- Não quero explicações de uma puta mentirosa! Queria tanto ir para faculdade que me enganou. - Ele me arrasta para fora do banheiro e o frio crava em minha pele nua.

- Por favor, meu amor, não faz isso.... Vamos conversar! - Imploro com lágrimas nos olhos.

- Você vai aprender a nunca mais me desrespeitar assim. - Ele grita enquanto bate minha cabeça no piso azulejado e minha visão fica embaçada. Leonardo ainda desfere vários tapas no meu rosto até me fazer perder a consciência.

Volto a realidade ao sentir o ônibus parar, seco as lágrimas que brotaram no meu rosto, desço do ônibus e caminho até a frente do condomínio do meu amigo Victor. As gotas grossas de chuva atingem meu rosto encharcando-me em segundos, ao sentir a chuva tocar minha pele me sinto viva mais uma vez.

Passo pelo portão e o segurança previamente conhecido me avisa que Victor e Rafa não chegaram, mas me entrega a chave reserva para subir. Preciso permanecer aqui até que as coisas se acalmem entre Leonardo e eu, sei que ele virá me buscar e irei ceder, mas nesse instante preciso ficar aqui.

Ao entrar no elevador, começo a relembrar o passado mais uma vez. Um mês após a primeira bofetada, Leonardo recebeu uma proposta no banco de São Paulo e aceitou sem perguntar. Quando descobri, ele me disse que poderia fazer o curso, desde que fosse apenas um hobby, essa era a oportunidade perfeita para eu cursar o que quisesse, enquanto ele trabalhava e concordei me sentindo aliviada por poder estudar.

Depois de alguns dias minha avó faleceu e ele me convenceu a vender a casa em que cresci, localizada em Curitiba, para comprar um apartamento em Pinheiros onde era o polo do banco, quando vi, já estava com os papéis assinados, com a casa vendida e em um avião para São Paulo com a ideia de mudança de vida, mas não foi bem isso que aconteceu.

Os estudos sempre foram minha vida antes de conhecê-lo e quando começamos a nos envolver no ensino médio ele não aceitava meus sonhos, porém apesar de sua relutância eu decidi me matricular na universidade assim que conclui a escola, mas fiz isso sem que ele soubesse e isso me trouxe consequências indesejáveis.

Desperto dos meus pensamentos ao chegar no andar do meu amigo. Encaro o corredor vazio e ouço as árvores baterem nas janelas, enunciando a tempestade que está lá fora. O conforto deveria surgir ao pensar que agora estou quente e segura, mas por quanto tempo permanecerei assim?

Me aproximo da porta 205, procuro refúgio sempre quando sinto que as coisas saíram do controle.

Com as mãos trêmulas, destranco a porta e giro a maçaneta, encaro o cômodo silencioso e suspiro aliviada por estar aqui. Caminho até a cozinha já conhecida e abro a geladeira, apanho uma garrafa d'água e dou um grande gole, recuperando minhas energias. Finalmente já descansada, pego meu celular e disco o número de Victor.

- Oi, Vick. - Digo com um tom desanimado, por mais que queira não mostrar meu estado, ele aparece inconscientemente.

- Oi, Sa, pela voz já sei que fugiu mais uma vez daquele maníaco.... - Victor suspira e continua. - Aquele desgraçado não tem jeito.... Já falamos mil vezes para você denunciar ele Sá! Mas não importa o que o Rafa e eu te dissemos, você não quer colocar esse maldito atrás das grades. - Ele suspira. - Já chegou em nossa casa?

- Você me conhece como ninguém hein? Afinal são mais de dez anos de amizade, não é mesmo? - Sorrio, esquecendo por um segundo o que me abala. - Sim, estou aqui. - Suspiro profundamente e sinto um alívio por ter amigos com quem posso contar.

- Toma um banho no quarto de hóspedes e abre o guarda roupa, deixei algumas roupas suas dobradas e passadas lá, estou terminando uma sessão de fotos e daqui uma hora nós iremos te levar para sair, precisamos comemorar a sua viagem! Você por acaso conversou com o troglodita sobre o intercâmbio?

- Ainda estou resolvendo esse detalhe. -Suspiro. - Eu estou muito cansada para sair, mas podemos pedir uma pizza e assistirmos um filme, assim eu esqueço o meu desastre amoroso.

- Calma, donzela, logo estaremos aí para resgatá-la, com pizza e doces, agora deixa essa tristeza de lado e vamos começar a pensar na sua viagem, amiga! Ela será fantástica e quem sabe você não encontra seu verdadeiro príncipe encantado, se o Rafa não fosse meu, eu até que dividia com você. -Victor tenta brincar para me distrair

- Muito obrigada pela generosidade. - Digo rindo. - Mas aceito apenas a pizza e os doces.

- Pode deixar, logo estaremos aí, agora vou desligar para terminar a sessão de fotos. Ah e nem pense em desistir de viajar por causa do Leonardo hein! Poucos possuem a oportunidade de viajar para o exterior com tudo pago.

- Eu vou para estudar, não para me divertir, Vick, a USP me ofereceu a oportunidade de ir para o Canadá por um semestre para realizar pesquisas e, além disso, verei se nesses seis meses consigo um estágio por lá, assim ganho mais experiência. - Digo otimista.

- E por acaso você não consegue estudar e se divertir? Lembre-se que tem 22 anos e não 60 e precisa aproveitar a vida ao lado dos seus melhores amigos aqui, você é um mulherão e se esconde atrás dos livros, com seus olhos azuis conquista todo mundo, e esse corpo de modelo então, amiga, você é uma amazona, pena que se vê como uma mera mortal.

- Victor, as coisas não são tão simples como você diz, eu tenho muitas responsabilidades.

- Todos nós temos responsabilidades, e não é por isso que temos que esquecer de viver, mas vamos ajustando essas coisas com o tempo, afinal sempre estarei ao seu lado, logo mais conseguirei fazer você cortar esse cabelão moreno, mas enfim, isso são coisas que vão mudando com o tempo, não é? Tchau gata, até daqui a pouco. - Com a empolgação de sempre ele desliga o telefone antes de falar qualquer coisa para contrariá-lo, mas Vick está certo, preciso relaxar um pouco as vezes.

Entro no banheiro e começo a tirar minhas roupas, mas cesso ao ver meu reflexo diante do espelho. Observo os pequenos hematomas espalhados pelo meu corpo e o sangue causado das feridas mais cedo. Um sentimento de vergonha me atinge em cheio, coloco a mão sobre a boca me esforçando para não sucumbir. Às vezes me sinto tão impotente que não acredito que isso chegará ao final feliz.

Nada que eu faço acaba com a sensação vazia que carrego comigo, penso como pude chegar a esse ponto. Deveria ter terminado desde o primeiro golpe, mas ele sempre soube como mexer comigo. Fecho os olhos e me entrego à ducha quente limpando meu corpo do sangue seco.

As gotas d'água tocam meu rosto, deslizo minhas mãos sobre meu corpo acariciando os hematomas dados de presente por Leonardo, e agradeço baixinho por permanecer viva mais um dia.

Ouço o barulho da minha cabeça sendo arrastada pelo chão, enquanto o rosto do Léo expressa prazer, grito para ele parar, mas ele continua a me bater, começo a perder o ar e sinto que estou prestes a morrer.

Abro meus olhos, voltando-me para o presente, passo a mão na cabeça e sinto o ardume em meu couro cabeludo. O desespero me apanha e, sem perceber, as lágrimas já estão escorrendo pela minha face se misturando com a água do chuveiro. Desabo no chão em posição fetal.

Inspiro e expiro profundamente, para manter a lucidez, levanto-me do chão, saio do box e me enrolo na toalha, observo a janela do quarto e o céu já está limpo e o sol brilha novamente, como se não houvesse caído uma gota d'água. Essa é uma das características de São Paulo, as quatro estações do ano no mesmo dia. Apanho uma calça moletom, junto com uma blusa de frio vermelha, para esconder meus machucados, visto a roupa e faço um coque simples.

- Sa? - Ouço a voz de Vick vindo do corredor e logo saio do quarto, dou de cara com meus dois melhores amigos que formam o casal mais fofo de todos os tempos.

- Por que está vestida assim? - Rafael arqueia as sobrancelhas, encarando-me desconfiado.

- Estou com frio, só isso. - Minto para não o preocupar.

- Está uns vinte e oito graus com sensação térmica de trinta e dois, quer enganar quem, Safira? - Rafa diz com a voz irritada, e se aproxima, ele segura meus braços, e fico brava ao ser pega de surpresa, ele levanta a manga da blusa, deixando à mostra meus hematomas. - Aquele desgraçado te bateu mais uma vez, quando é que você vai aprender? Vou mostrar a ele uma lição!

- Não acredito, Sa, você prometeu que o denunciaria da última vez. Será que não entende que ele vai acabar te matando? Estamos do seu lado, mas não posso te ver se matando aos poucos, sabe que você tem a lei Maria da Penha ao seu favor, não é? - Vick se aproxima com os olhos cheios d'água, mas eu me afasto.

- Safira, mais de duzentas mulheres são vítimas de feminicídio por mês no país, você quer cair nesses números? O Leonardo é perigoso e cada dia que passa você entrega mais poderes a ele. - Rafael diz com os braços cruzados demonstrando irritação.

- Foi só uma vez está bem, e foi minha culpa, agora se não quiserem que eu saia por aquela porta vamos mudar de assunto! - Digo com a voz firme, mas por dentro me sinto despedaçada por ser tão idiota. - Como chegaram tão rápido? - Mudo de assunto bruscamente, e Victor percebe que não é hora de continuar essa conversa.

- Não te contei? - Victor começa a dizer, limpando as lágrimas que se formaram por minha causa. - O dinheiro que recebi da última sessão de fotos foi a entrada para meu carro lindo. Agora chega de ônibus! Meu trabalho como modelo está rendendo, meu empresário diz que minha "cor" albina se destaca na câmera e todos ficam encantados comigo, acredita que o sem noção acha que é minha "cor", como ele denomina, é que faz o meu sucesso, e ainda fala como se eu fosse uma atração turística exótica. - Vick revira os olhos ao colocar a pizza sobre a bancada, me aproximo e agarro seu pescoço, dando um abraço apertado e um beijo em seu rosto.

- Você faz sucesso pela sua simpatia e seu jeito meigo de ser, ele tem sorte de querer trabalhar com ele. - Sorrio e vejo os olhos do meu amigo lacrimejarem.

- Você veio aqui para te animarmos e é você que me coloca para cima, Sa, você não existe, minha amiga.

- A Safira está certa, meu amor, você é um homem único. - Rafa lança um sorriso e me concentro para manter o foco nessa conversa, sei que no fundo eles pensam que sou fraca, mas o que fazer quando amamos alguém?

- Esse é o meu homem! Mas, chega de melancolia por aqui, quero falar da sua viagem! Já sabe onde vai ficar? Que dia você vai? - Victor diz com sorriso no rosto.

- Já está tudo acertado com a faculdade, minha passagem está em mãos, vou ficar em um pequeno apartamento estudantil com outros brasileiros, acredito que será uma aventura, porque ninguém se conhece.

- Nossa que fantástico, quero diversas fotos, imagina se você encontra um brasileiro lá e se apaixona? - Vick diz sorridente.

- Victor, eu sou casada! Mesmo com os problemas, ainda tenho um marido. - Explodo de raiva.

- Ok, mas isso é muito relativo, hoje você está, amanhã pode não estar, e vamos combinar, seu marido é um completo babaca, você nutre um relacionamento abusivo e não percebe, deveria deixá-lo logo de uma vez. - Ele fala me servindo um pedaço de pizza.

- Me deixa em paz, Victor, você só diz isso porque nunca gostou do Léo, desde a escola implicava com o nosso namoro.

Caminho até o sofá e me jogo com o prato nas mãos.

- Ele só quer te proteger, Safira, isso se chama preocupação, e se pensarmos bem, esse cara sempre foi uma pedra no sapato, com seu ciúme possessivo e sua paranoia, lembro do dia em que te cumprimentei e ele quis cair na briga. - O Rafa fala sério.

- Viu, até o Rafa concorda comigo. Quantas vezes você dormiu aqui em casa para não ficar sozinha? Ou pior, para que ele não te batesse? - Victor diz com nojo em seu olhar. - Aquele troglodita deveria estar atrás das grades isso sim, e o pior é que quando ele souber da viagem ficará furioso, tenho até medo do que pode acontecer.

- Ele vai me apoiar. - Suspiro sem acreditar em minhas próprias palavras.

- Isso é o que você quer acreditar, ele só pensa nele mesmo, o Victor está certo, ele não prioriza suas necessidades, se abalar o mundo dele, as coisas mudam de figura e creio que você merece muito mais. - Rafa diz ao sentar ao meu lado argumentando muito bem.

Suspiro com ar de derrota.

- Dois contra um, não vale. - Termino de comer a pizza.

- A verdade dói, não é? Mas enfim, vou me calar, vamos comer uma pizza enquanto assistimos ao filme, hoje vou te dar um desconto. - Victor pisca para mim e coloca meu filme preferido de comédia, "As branquelas". Deitada no sofá, com os olhos pesados, encaro a tela da TV, o barulho do filme se distancia aos poucos e sem notar mergulho em um sono profundo.

Desperto, de repente, e olho o ambiente ao redor, confusa. Será que estou sonhando acordada?

Encaro meu reflexo no espelho que está sobre uma cômoda antiga, acaricio o móvel para sentir se isso é real, e inspiro profundamente, consigo sentir o cheiro de madeira pura invadir minhas narinas.

Toco o espelho com as pontas dos dedos ao observar minha face exposta, como um quadro na parede. Surpreendo-me com meus cabelos ordenados por uma trança delicada, dando forma ao meu rosto. Coloco a mão sobre meu peito, apanhando o estranho medalhão preso em meu pescoço.

Levanto-me da poltrona confortável, caminho pelo quarto observando algumas pinturas espalhadas nas paredes, me aproximo da janela e sou surpreendida com uma bela vista das montanhas.

Agora tenho a certeza que estou perdida em um sonho, meus pensamentos são interrompidos por algumas batidas na porta, e antes que faça qualquer coisa, vejo uma garota com cabelos curtos e olhos castanhos escuros entrar no quarto.

- Sra. Mardell, seu marido está a sua espera na carruagem. - A garota de olhos castanhos escuros faz uma breve reverencia ao se aproximar e a encaro confusa.

- C-como? Você deve estar se confundindo, sou a Safira, não tem nenhuma "Sra. Mardell" por aqui. - Digo com um tom assustado, fazendo aspas no ar, e a jovem arregala seus olhos mais espantada que eu.

- Perdoe-me, senhora, quem é Safira? -A menina me encara com as bochechas rubras, mas antes que tenha a chance de responder, somos interrompidas por um rapaz com os cabelos castanho escuros e olhos cor de avelã.

Observo os trajes de época do homem recém-chegado e apenas nesse momento noto que também estou com roupas de uma moça do século 19. O vestido verde escuro balão se contrasta com o corselete que se alinha ao meu busto. Encaro tudo isso ainda perdida, mas quando me encontro com o olhar do desconhecido a minha frente tenho uma sensação confortável, sentindo uma súbita e inexplicável alegria.

- Brenda, deixe-me cuidar da Sra. Mardell, diga ao meu irmão que logo ela estará a caminho da carruagem. - Os olhos cor de avelã do rapaz me fita, e de repente ele segura a minha mão direita e a beija suavemente.

Seus lábios macios fazem com que ondas elétricas percorram pelo meu corpo, e enrubesço sem ao menos saber o porquê. Meu coração acelera por um segundo quando ele passa seu polegar sobre as costas da minha mão, e solta, enquanto seus olhos intensos penetram os meus.

Sua energia me puxa aos poucos para si e de repente sinto vontade de me jogar em seus braços, esse desejo proibido ganha forma e não entendo o que está acontecendo comigo. Somos atraídos como um magnetismo indescritível, e por um segundo pressinto que nossos corpos já se conhecem. Uma corrente de eletricidade atravessa cada músculo do meu corpo, e de repente sinto uma ponta de tristeza me atingir ao saber que tudo isso não passa apenas de um sonho.

- Como desejar, senhor. - Ouço a jovem dizer. Ela se reverencia e sai do quarto.

- Meu amor, estava com tanta saudade, senti-me ludibriado quando descobri que estava de partida, vós não quereis mais fugir?

Ele me envolve em seus braços e entrelaça seus dedos em meu cabelo, trazendo-me para perto de si. Minha cabeça se aconchega em seu peitoral e fecho os olhos sentindo-me completa pela primeira vez, a confusão paira em meus pensamentos, mas como isso é um sonho, quero desfrutar cada segundo dele.

Coloco minhas mãos sobre seu rosto e o acaricio. Nossos olhares se encontram e mesmo com o silêncio entre nós, permanecemos conectados. Levanto a cabeça e encosto meus lábios sobre os seus, entregamo-nos aos beijos completamente apaixonados e atraídos um pelo outro.

- Com você eu vou para qualquer lugar. - Digo sem pestanejar, dominada pelo calor do momento.

- Então precisamos ir, Edgar se zangará ao notar nossa ausência, vamos rápido antes que ele apareça. -Ele se afasta e entrelaça seus dedos aos meus, mas fico paralisada ao sentir uma dor súbita invadir meu peito.

Um medo inexplicável se instala de repente e fico paralisada ao senti-lo crescer a cada segundo. Não consigo compreender tudo o que está acontecendo aqui. É difícil com a montanha russa de emoções tomando conta do meu corpo.

- Algo está errado.... Precisamos ficar, o que está havendo? E quem é Edgar? - Falo disparada.

Meu príncipe desconhecido me puxa para o canto da sala, escondendo-nos ele faz sinal para me calar e me abraça forte.

- Ele está vindo, precisamos ficar escondidos, tudo ficará bem se ficarmos juntos. - Ele sussurra em meu ouvido.

- Vitória! Onde você está? - Uma voz familiar se aproxima, e ao ouvi-la meu corpo se comprime. A onda de medo esmaga meu peito e me solto dos braços do rapaz desconhecido em uma procura desesperada pela saída.

- Meu amor, não! - O rapaz tenta me segurar, mas fico paralisada ao ver outro homem de cabelos negros e olhos castanhos mel entrar na sala, ficando a minha frente.

- Ramonn... Você pretendia fugir com a minha esposa? - Os olhos do homem de cabelos negros enchem-se de fúria. - Meu irmão, esperava tudo de você, menos isso.

- Edgar, deixe-nos ir, ela não te ama. Por favor, lhe peço um pouco de compreensão, meu irmão, não precisamos terminar assim. - Ouço tudo em silêncio e vejo uma arma empunhada nas mãos do homem à minha frente.

- A Vitória é minha e sempre será, seja nesta ou em outra vida, jamais a deixarei ir. - Ele aponta a arma em direção ao meu peito, meu coração acelera e Ramonn me puxa para seus braços.

- Não importa como, sempre nos encontraremos, te amarei por toda a eternidade. - Sinto os lábios de Ramonn selarem os meus e no segundo seguinte, um barulho de tiro ecoa, e no mesmo minuto, perco o ar.

Suando frio e sem respirar, acordo desesperada, como um reflexo, eu tateio meu peito à procura da bala que senti atingir o meu coração. O vazio me invade e não consigo conter as lágrimas que teimam em cair, minha mente gira, e sinto meu estômago embrulhar, enquanto uma tristeza de perca me agarra.

- Calma, Sa, eu estou aqui. - Sinto Vick me abraçar, enquanto suas mãos acariciam meu cabelo, choro desesperadamente, sentindo-me perdida. – Foi só um pesadelo, já passou... Calma.... Está tudo bem.

- Não foi só um pesadelo. - Murmuro agarrando-me ao meu amigo. - Foi bem mais forte que isso. - Sussurro para mim mesma.

Capítulo 3 Segundo capítulo

Sentada em frente da bancada, encaro a xícara de café, já fria, buscando em minha mente o significado para a noite de ontem. Todas as vezes que fecho meus olhos, vejo Ramon, e sinto nosso pequeno momento juntos, será que foi apenas minha imaginação me pregando uma peça? Algo me diz que aquilo foi mais que um sonho, foi muito intenso para ser apenas uma obra criada pela minha cabeça.

Ainda com o cabelo bagunçado, pijama e chinelo, me debruço sobre o balcão suspirando enquanto formulo mil e uma teorias sobre o sonho de ontem. Ao reviver aquele sonho, lembro-me da minha marca de nascença perto do peito, bem onde o homem denominado como Edgar atirou no momento em que eu sonhava, será que existe mesmo essa coisa de outras vidas? Ou almas gêmeas?

A voz do Ramon não sai da minha cabeça, ouço a todo instante ele me dizer

"- Não importa como, sempre nos encontraremos, te amarei por toda a eternidade."

Será que alguma parte disso foi real? Tantas perguntas sem qualquer resposta e a principal delas é: se foi real e por que só tive esse lapso de memória agora?

- Safira, você está me ouvindo?

Volto a realidade ao sentir a mão do Leonardo tocar o meu ombro. Lembro-me da noite anterior quando ele me espancou e fugi, depois de passar algumas horas na casa dos meus amigos ele apareceu na porta do prédio na madrugada e disse que não sairia dali sem mim.

Victor queria chamar a polícia porque temia o pior, mas, iludida como sou, acreditei que Leonardo estava arrependido e aceitei ir com ele que me presenteou com um lindo buquê de flores para dar ênfase a suas desculpas.

Não sei quanto tempo ele está aqui. Os minutos de repente se tornaram horas, balanço a cabeça em negativa, espantando alguns pensamentos, pronta para ouvir o que meu marido tem a dizer. Largo a xícara de café na bancada e me viro para encará-lo.

- Hm... Desculpa, o que você dizia?

- O que pensa tanto que não ouviu o que disse? Você sabe o quanto odeio repetir as coisas! - Ele fecha os punhos colocando-os sobre o balcão. - Preste atenção dessa vez, me entendeu?

- Desculpe, estou te ouvindo. - Forço um leve sorriso e guardo meus receios.

- O banco pretende expandir o mercado implantando outro polo no Mato Grosso do Sul e como sou o gerente, fui escolhido para avaliar o novo lote, meus superiores visam algo grande para minha carreira, eles pensam em me promover para a presidência, imagine como seria bom para minha carreira isso, e para esse projeto acontecer, vou viajar para o Mato Grosso do Sul por cinco meses e se tudo der certo vamos nos mudar para lá. - Ele sorri, e vejo o brilho de ambição em seu olhar.

- Morar lá? Como assim, Léo? E a nossa vida aqui? Ainda estou na faculdade e não posso abandoná-la assim... é a USP! - Enfatizo o nome da faculdade no meu tom de voz, para ele perceber a importância que a minha bolsa possui. - Ainda faltam dois anos para concluir o curso, e você sabe o quanto lutei para realizar meu sonho em ser médica veterinária.

- Ah, Safira, fala sério, você quer mesmo ser uma simples médica de cachorros? Pense grande, estará casada com um presidente bancário, não precisará fazer nada mais da sua vida, apenas ficar ao meu lado sendo a bela garotinha de sempre, essa faculdade é apenas um hobby idiota, já conversamos sobre isso. - Ele revira os olhos e caminha para o quarto e vou atrás dele.

Me espanto com a revelação que ele me faz, minhas pernas perdem as forças e meu olhar de indignação prevalece.

- Esse é o meu sonho, Leonardo Mendes Junior, quem é você? Não estou lhe reconhecendo mais. - Falo alto tentando soar convincente.

- Pelo amor de Deus, Safira, você quer viver enfurnada em um consultório com cães pulguentos? Esse é seu grande sonho? Faça-me o favor, desde o ensino médio disse que seria um bancário de sucesso e você decidiu ficar comigo, agora não pode voltar atrás. - Ele grita, passando pelo pequeno corredor do nosso apartamento, vou atrás dele com lágrimas nos olhos.

- Eu também possuo sonhos e objetivos nessa vida, não posso seguir cegamente seus passos, você também estava ciente sobre o meu sonho, e disse que o realizaria, somos parceiros, temos que contar um com o outro, em todas as decisões. - Digo com a voz trêmula, completamente nervosa com o pensamento individualista do Léo.

- Contar um com outro? - Ele se vira com os olhos sobressaltados e uma veia pulsa em sua testa. - Não seja hipócrita! - Ele grita e se aproxima, segura meu braço me fazendo encolher.

- Acha que não sei sobre seus planos? Semana passada chegou uma carta de confirmação da sua GRANDE VIAGEM, você é mesmo estúpida em achar que poderia esconder isso de mim. - Ele tira do bolso a carta que a USP me enviou e que não cheguei a ler e a joga com força em minha direção.

- Eu ia te contar sobre isso, Léo, e perguntar sua opinião, mas você não me deu chances de conversar, porque nem fica em casa direito, essa viagem é somente para adquirir novos conhecimentos na área em que irei atuar, não vou morar lá, assim como você irá a trabalho para o Sul, mas pensar em morar, isso é uma grande decisão que deve ser tomada em conjunto.

- Não importa o que pensa sobre isso, após esses cinco meses, se conseguir meu cargo na presidência vamos morar lá, você querendo ou não. - Leonardo diz sem olhar para o meu rosto, ele se veste com roupas sociais e entra no banheiro para arrumar o cabelo, me ignorando por completo.

- Como assim? Estamos construindo nossos objetivos para ter um futuro melhor juntos... - Passo as mãos nos olhos limpando as lágrimas que escorrem em meu rosto. - Somos um casal, uma dupla que tem que contar um com o outro, não dois indivíduos que vivem sobre o mesmo teto por obrigação, estou cansada dessa relação onde somos casados apenas no papel.

- Não foi o que você pensou quando aceitou essa proposta absurda de viajar! - Ele esbraveja, vindo em minha direção e sinto sua saliva pingar em meu rosto. Seu ato parece de um cão selvagem.

- Eu sei que deveria falar com você..., mas... - Gaguejo já estremecendo com medo da sua reação e sinto imediatamente uma bofetada arder em minha face.

- Cala a boca! Estou farto das suas mentiras, deveria me agradecer por ainda estar com você ao meu lado, ninguém aguentaria suas insanidades.

- Você está certo, me perdoa... temos que parar com essa discussão. - Suspiro, absorvendo toda a culpa mais uma vez para mim e saio do seu lado, sentando na beirada da cama.

- Olha o que você me obriga a fazer... - Ele suspira cansado, voltando para o banheiro. - Desculpe por isso, está bem? Não gosto desses seus objetivos, mas podemos conversar sobre tudo isso, chegar a um consenso como sempre fazemos, ok? - Ele sai do banheiro e fica a minha frente. - Vamos parar com essa briga idiota agora, por favor. - Ele me abraça e eu começo a ceder, retribuo o abraço encostando a cabeça no seu abdômen. - Só esqueça essa maluquice de viagem que tudo ficará bem...

- Não temos filhos, não vejo qualquer impedimento para viajar, por que só você pode realizar o que deseja? Vou viajar sim, não é uma questão de troca, ficarei o mesmo tempo que você fora de casa.

- Você não é mais a mesma, o que aconteceu, Safira? Agora quer asas para voar? Você é minha e não precisa disso, quando irá entender que quem decide as coisas aqui sou eu, chega dessa conversa fiada, estou cansado disso já.

- Não estou brincando, Leonardo, assim como você, tenho meus projetos e planos e esse será um deles, você não sentirá minha falta, porque estará trabalhando também, estou investindo em mim mesma. Sou sua mulher, não uma criança que você manda e desmanda, aprenda que também possuo voz ativa e já está decidido.

- Não brinque com minha paciência Safira Mendes Soares, você não sairá desse apartamento, está me entendendo?! - Ele agarra meu cabelo com força, me machucando cada vez mais e levanta a mão, dando-me novamente um tapa em meu rosto.

Sinto minha face queimar, enquanto lágrimas brotam em meus olhos, mais uma bordoada vem em minha direção, ele agarra meu cabelo me impedindo de sair. A dormência em meu maxilar predomina, o encaro perplexa e seus olhos expressam a mesma fúria do homem chamado Edgar, do meu sonho e pela primeira vez o medo invade meus pensamentos ao encarar o Leonardo.

- Me solta... você está me machucando, por favor, pare com isso. - Começo a implorar para ele soltar meu cabelo, meu couro cabeludo arde cada vez mais.

- Me perdoe, não sei o que deu em mim, você falou tantas coisas que perdi a cabeça... - Ele me solta rapidamente e lágrimas brotam dos seus olhos. - Mas a culpa disso é sua, você quer me deixar, e você não pode, porque é só minha! - Ele senta na cama e abaixa a cabeça, coloco a mão sobre seu ombro e o faço me encarar.

- Está tudo bem, você me conhece e sabe que não vou fazer nada além de estudar, por favor, me deixe ir. - Suspiro e lhe dou um selinho sentando ao seu lado. - Quero te avisar que também vou viajar depois de amanhã, o voo sairá às 12h00 nesta segunda-feira. - Digo sem rodeios, ele laceia à gravata com ira e respirando fundo.

- Tudo bem.... - Diz sem olhar para o meu rosto. - Se essa é sua decisão, Safira, não posso fazer nada, a não ser concordar. - Ele suspira, com ar de cansado, e me encara finalmente.

- Sério? - Um sorriso de alívio invade meu rosto. - Estou fazendo o mesmo que você, correndo atrás do que desejo, e não quero brigar, Léo, só ficarei um mês a mais que você fora, será muito rápido, não precisamos de toda essa balbúrdia por isso.

- Assim que voltarmos dessas viagens nós podemos focar mais no nosso casamento, essa distância nos fará bem, pensaremos mais um no outro, sei que sou genioso, mas também sei o quanto te amo, e farei o meu melhor para as coisas voltarem aos eixos.

Ele me agarra e me enche de beijos, depois de alguns minutos me levanto e vou em direção a porta.

- Obrigada, meu amor. - Respondo a ele com um sorriso de felicidade.

- Preciso melhorar em muita coisa com você, e peço desculpas pela minha falta de compreensão, se está feliz com essa viagem tudo bem, não toco mais no assunto, mas lembre-se que sou seu marido e tem que me ouvir. - Ele diz levantando da cama.

- Ouço você todo o dia, só quero o seu apoio.

Sorrio para ele, antes de deixar o quarto.

- Eu sei disso, mas você tem que se lembrar que é minha, Safira, e sempre será, desde o dia em que nos conhecemos e isso nunca mudará. Sou o único homem que vai ficar com você. - Ele suspira, e me acompanha até a cozinha.

- Vou fazer um almoço para nós, seu prato preferido, lasanha de berinjela.

O vejo apanhar a pasta em cima do sofá e torço o nariz inconformada.

- Você vai trabalhar? Não jantamos juntos ontem e não iremos almoçar hoje também? E eu disse que segunda-feira eu estarei rumo ao Canadá, não quer ficar um tempo comigo?

- Preciso resolver algumas coisas no banco, até mais tarde, deixe a lasanha no forno que depois eu como.

Ele beija minha testa em despedida e o encaro indignada.

- Mas hoje é Sábado! O que vai fazer no banco no SÁBADO? - Altero a voz enfurecida. - Você nunca fica em casa, digo que vou viajar segunda-feira e ficar seis meses fora e você vai simplesmente trabalhar ao invés de ficar um tempinho comigo? - Reclamo chorosa.

Ele fica à minha frente e agarra o meu pescoço.

- Para de drama, Safira, depois te recompenso com um jantar ou coisa do tipo, vai sair com as "bichas" dos seus amigos e fica tudo certo. - Ele diz apertando meu pescoço. - Estou atrasado por sua causa, essa conversa está encerrada! - Me joga no chão frio, eu encaro suas costas enquanto cruza a porta de saída meus olhos se enchem d'agua.

Saio da cozinha deixando as panelas para trás e entro no chuveiro. Desta vez será diferente, vou sair de casa e curtir com meus amigos, comprar coisas para minha viagem e esquecer esse homem das cavernas que possuo como marido. Envio mensagem para o Victor contando tudo o que aconteceu e peço para ele me encontrar no shopping às 13h00.

"Leonardo, você vai se arrepender por não me valorizar. " Penso em voz alta ao sair do chuveiro.

Visto um Shortinho preto social, uma camiseta de gola V branca, calço um scarpin nude, escovo meus longos cabelos negros e faço uma maquiagem leve em meu rosto e no meu corpo para cobrir os hematomas.

Preparo minhas malas de viagem, para ficar tudo pronto, logo em seguida saio de casa.

Entro no carro que solicitei por aplicativo e ativo o meu modo automático para esquecer todo o vazio que me consome. O motorista me encara pelo retrovisor e morde os lábios inferiores fazendo-me dar risada, cruzo as pernas e lanço um sorriso para ele.

- Gosta do que vê? - Pergunto provocando-o.

- Claro, dona, você é a mulher mais bonita que já esteve em meu carro. - Ele responde com um sorriso malicioso.

- Muito obrigada. - Agradeço entregando o dinheiro para ele.

- Disponha, até outra hora... Delícia. - Ele diz indo embora.

Entro no shopping Eldorado e caminho até a praça de alimentação, vários olhares me cercam e noto que exagerei no visual. De repente sinto uma mão agarrar meu ombro, meu coração acelera e me viro em um estalo, suspiro aliviada ao ver Vick com óculos de sol, blusa polo azul, calça preta e um chapéu. Ao seu lado, Rafa veste uma bermuda jeans clara, com uma camisa gola V preta, seu cabelo loiro arrepiado destaca o visual.

- Safira! Quase não te reconheci, finalmente minha amazona se soltou. - Victor grita e todos ao nosso redor nos olham, fico vermelha no mesmo minuto. - Mas se você está assim é porque algo aconteceu, na última vez que se arrumou de verdade foi quando brigou com sua avó e isso já faz tempo, nos diga o que houve?

- Meu marido é um verdadeiro estúpido, ele sabia da viagem, porque invadiu minhas correspondências. - Suspiro desanimada. - Além disso decidiu sozinho que vamos nos mudar para o Sul e depois, quando falei o que penso sobre isso, o vi perdendo a cabeça, agarrando meu braço com muita força e quase me vi apanhando mais uma vez.

- Que cretino! Quem ele pensa que é? Onde está o respeito entre vocês? - Victor fica indignado, enquanto Rafael me encara com a expressão séria.

- Safira, está na hora de você aprender a se defender, deixe-me treiná-la, muitas mulheres aderem a defesa pessoal e acredito que também deva tentar. - Rafa diz com o olhar de preocupação de sempre.

- Sei que você tem as melhores das intenções, Rafael, mas não estou pronta para me tornar uma arma contra o meu marido.

- Você não vai atacá-lo, simplesmente se defenderá... se não fizer algo logo ele pode tentar... matá-la. - Os olhos do Victor se marejam, eu o abraço.

- Victor está certo, não queremos perdê-la para aquele miserável, porque se chegar a esse ponto eu juro que não pensarei duas vezes e livrarei o mundo de mais um porco.

- Agradeço a preocupação, pessoal, juro que quando estiver pronta para isso falarei. - Puxo Rafa para mais perto e damos um abraço coletivo. Me sinto mais aliviada ao saber que não estou completamente sozinha, encontrei dois irmãos para vida e eles fazem meus dias melhores. - Dói sentir que meu casamento está se desmanchando aos poucos. - Digo já quase chorando.

- Safira, o apartamento é seu! Expulsa aquele cretino de lá! Você está esperando o que? Outra bofetada? - Vick me repreende e abaixo a cabeça.

- Eu vou fazer isso, mas depois da viagem está bem? Talvez as coisas mudem. - Suspiro.

- Ele é agressivo com você desde a época do colégio, se não mudaram em oito anos que estão juntos, acha que mudará agora? Acorde para realidade, ele não tem jeito, ou você o larga ou poderá acontecer coisa pior futuramente. - Victor diz com a expressão de preocupação.

- Leonardo possui um amor obsessivo Safira e isso não é saudável. - Rafa olha no fundo dos meus olhos, como um perito avalia uma joia. - E sinto que você está infeliz, além disso, está com medo das consequências.

- Você tem razão, Rafael, mas prefiro tomar qualquer decisão depois da viagem, sinto que preciso disso para esclarecer meus sentimentos.

- Bom, se prefere assim eu entendo. - Victor respira fundo e projeta no mesmo segundo um grande sorriso. - Agora podemos ir às compras! - Meus amigos respeitam minha decisão.

Depois de horas entrando e saindo de diversas lojas e conversas sobre coisas aleatórias, decidimos assistir um filme de comédia. Pegamos a última sessão do filme "de pernas para o ar 3" e perdemos a noção do tempo com as gargalhadas que ecoaram na sala de cinema. De repente paro para pensar como sou feliz quando estou longe de casa, noto que o dia se transformou da água para o vinho.

O filme chega ao fim e saímos das salas, encaro o relógio que marca 23h00 e me surpreendo com o tempo que fiquei fora de casa, momentos como esse são raros quando se trata de diversão. Abraço os meninos, pronta para me despedir.

- Tem certeza que você não quer uma carona? - Victor insiste e lanço um sorriso para ele.

- Não precisa "papai", sei me cuidar sozinha está bem? Não precisam se preocupar, chamei o motorista de aplicativo.

- Então deixa a gente ficar com você até ele chegar. - Rafael se pronuncia.

Amo eles como se fossem meus irmãos. Coloco a mão no ombro dos dois.

- Já disse que não precisa se preocupar, podem ir. - Eles finalmente assentem com a cabeça e me deixa ali, aguardando o taxi.

Parada em frente ao shopping vejo um carro estacionar rente ao meio fio, noto os detalhes do carro e vejo que não é o que eu pedi. Caminho alguns passos para frente me afastando do veículo, porém ele continua me seguindo. Corro para o shopping, mas já está fechado e as ruas estão quase vazias.

Um homem de moletom preto sai do carro e corre em minha direção, meu coração acelera e apresso ainda mais os passos, mas não são suficientes para despistar o estranho, sinto uma pressão em meu braço e giro para encarar seu rosto, completamente assustada.

- V-você... murmuro ao ver a face do homem, o motorista de aplicativo que peguei mais cedo. - Socorro! - Grito desesperada.

- Oi, delícia. - Aquele sorriso malicioso de antes aparece e começo a ser arrastada para o carro.

- SOCORRO!!! - Grito mais alto, pedindo mentalmente para que algum ser divino venha me ajudar.

- Calma, você vai gostar! - Ele diz sorrindo.

- Solta ela!

Encaro a sombra de outro homem correndo em nossa direção.

- Calma, só vamos passear! - Ele abre a porta do carro e sinto uma pressão no meu braço do lado contrário. Outro homem me puxa para longe e desfere um golpe no rosto do motorista que me atacou. O homem entra no carro e vai embora, enquanto meu salvador fica à minha frente.

- Está tudo bem com você? - Ele pergunta e o encaro ainda em choque.

- Acho que sim... - Suspiro aliviada. - Obrigada.

- De nada... - Ele responde me observando por alguns instantes.

- O que foi? - O questiono, ainda sentindo a adrenalina tomar conta do meu corpo.

- Só estava pensando, aqui parece ser bem perigoso... você gostaria de uma carona para casa? - Ele pergunta e encaro seus olhos cor de avelã e por algum motivo acredito que posso confiar nele.

- Não precisa se preocupar, já chamei um carro, logo ele estará aqui. - Me afasto desconfiada.

- Tem certeza? Acredito que seria mais seguro se eu te levasse... - Ele insiste e isso me irrita.

- Por que quer tanto me levar? Pretende fazer a mesma coisa que aquele homem? - Altero meu tom de voz e ele faz sinal de paz com a mão.

- Claro que não, eu jamais faria isso com uma mulher, é que apenas me preocupo com sua proteção e. - Ele tenta se justificar, mas o corto.

- Como posso confiar em você? Eu não te conheço! - Dou alguns passos para trás hesitando olhar para ele.

- Acredite, minhas intenções são limpas e claras, quero apenas te levar em segurança para casa. - Ele se aproxima e encaro seus olhos brilhantes. - Se você me permitir, é claro. - Um sorriso brota em seus lábios e algo me diz que posso lhe dar um voto de confiança.

- Tudo bem... - Suspiro baixando a guarda e cedo ao seu pedido.

- Obrigado, assim dormirei mais tranquilo esta noite. - Sorri aliviado pela minha decisão. - A propósito, me chamo Oliver Morin, muito prazer. - Ele estende sua mão e a aperto sem jeito. O calor da sua mão é reconfortante e me sinto protegida.

- Sou Safira Mendes, o prazer é meu. - Nos cumprimentamos e ele oferece seu braço para que eu me apoie.

- Poderia me acompanhar, por favor? - Mais uma vez um sorriso surge em seu rosto.

- Não força a barra! - Respondo-o também sorrindo e seguro em seu braço, o acompanhando.

O frio percorre as ruas, eriçando os pelos do meu corpo. Abraço-me esfregando meus braços para criar algum calor, mas o vento gélido não diminui. Andamos duas quadras e o observo cessar os passos de repente. Olho ao redor para ver se já chegamos em seu carro, mas não encontro algum. Ele retira seu casaco preto e coloca em meus ombros.

- Desculpe a ousadia, mas notei que estava com frio. - Ele me dá explicações sem que eu fale algo.

- O-obrigada. - Visto-me e inspiro o cheiro do perfume masculino impregnado em seu casaco.

Depois de cinco minutos de uma caminhada silenciosa, chegamos ao carro dele. Ele abre a porta eu entro no banco do passageiro e coloco o trajeto no GPS e seguimos em silêncio. Encaro sua sombra sobre o volante e me pergunto de onde ele veio, porque seu sotaque é muito aparente, mas de repente ele vira o rosto, encarando-me de volta.

- Algum problema? - Ele me pergunta com uma expressão preocupada.

- Nenhum, só estava pensando, você não é daqui, é? - Indago curiosa e vejo um leve sorriso se formar em seus lábios.

- Bom, não sei o que me denunciou, mas de fato não sou daqui... vim para o Brasil passar a semana. - Ele diz com um tom de voz descontraído.

- E o que te trouxe até o Brasil? - O questiono enquanto não chegamos ao destino final.

- Digamos que estou aqui para fazer uma pesquisa de história. - Ele diz em um tom leve e divertido, e imagino qual seja sua profissão. - Chegamos... - Diz estacionando na frente do meu prédio. Suspiro desanimada, estava começando a me interessar pela conversa.

- Mais uma vez obrigada, eu não sei o que aconteceria comigo se você não tivesse aparecido. - Lanço um sorriso leve.

- Disponha. - Seu tom de voz é gentil e me sinto segura em sua presença.

- E boa sorte com sua pesquisa de história. - Digo saindo do carro.

- Obrigado, boa noite. - Ele sorri, e vai embora somente quando entro em meu condomínio.

Parada em frente à entrada do edifício percebo que ainda estou vestida com o casaco daquele homem gentil e pergunto-me se terei alguma chance de devolver algum dia. Cruzo os portões e cumprimento o porteiro que me encara surpreso, ele sorri e me informa que o elevador já está funcionando e suspiro aliviada. Meus pés não aguentariam subir até o meu apartamento.

Adentro o prédio e pressiono o meu andar no elevador. Recosto-me no espelho e encaro meu reflexo, uma sensação de realização se forma, por um minuto me sinto uma mulher poderosa, o sorriso toma forma em meu rosto e saio do elevador com o dia ganho. Entro no meu apartamento e o noto ainda vazio, suspiro cansada, tudo o que preciso agora é da minha cama.

Me acomodo nos lençóis finos da cama de casal e viro-me para pegar no sono, mas minha mente vaga entre milhões de pensamentos procurando respostas sobre tudo o que houve.

O sonho da noite passada se materializa em um minuto e não entendo o que meu inconsciente tenta me dizer. Quando fecho os olhos sinto o toque do Ramon acariciar meus braços, enquanto o som da sua voz ecoa pelos meus ouvidos fazendo-me arrepiar, mas uma coisa eu entendo, irei encontrar minhas respostas custe o que custar.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022