Alicia abriu os olhos com bastante dificuldade, sentia seu corpo dolorido e uma leve dor de cabeça. Não era para menos, por um ano ela esteve em coma após um trágico acidente de carro.
Ela acorda desorientada, olha para os lados, e sem entender muita coisa, vê sua mãe ao lado de sua cama. Vários sentimentos a confundiram nesse momento e enquanto vagava seu olhar pelo quarto em que se encontrava, lágrimas brotaram de seus olhos.
Alguns fragmentos de sonho iam e vinham rapidamente em sua cabeça. Era confuso tudo o que ela estava experimentando naquele momento, e então ela percebeu que, tudo o que havia vivido até aquele momento, teria sido apenas um sonho, um lindo sonho e somente isso.
Ao perceber então que Alicia havia acordada, sua mãe com lágrimas nos olhos se aproxima rapidamente, a abraça fortemente e por alguns minutos elas permanecem assim.
Alicia havia se tornado um verdadeiro milagre. Ainda que tentasse pôr em ordem todos os pensamentos que vinham na sua cabeça, era em vão, não havia uma explicação plausível ou lógica para tudo o que vivera até então.
As lágrimas se intensificaram, e Alicia abraçou sua mãe mais fortemente. Enquanto sua mãe a confortava com seu abraço ela apenas dizia:
Está tudo bem agora meu amor. Estamos juntas novamente.
Mas, Alicia não conseguia parar de chorar, era um mix de emoções por ter uma segunda oportunidade na vida, e, ao mesmo tempo por perder um grande amor que até então ela acreditava ser real.
Aquele dia foi o início de uma segunda chance em sua vida, e mesmo que ainda não entendesse como ou porque teve essa chance, agradeceria cada dia pela oportunidade de abrir os olhos e estar ao lado das pessoas que ama.
Dias após sair do coma, Alicia já estava em casa descansando e se pondo ao dia com tudo o que tinha acontecido em um ano, enquanto esteve em coma.
Mãe, não precisa se preocupar, eu dou conta daqui para frente. E eu vou organizando aos poucos as coisas que quero mudar no apartamento.
Imagina Alicia, você ainda tem que manter repouso. Não pode pensar que só porque saiu do hospital já pode sair correndo para lá e para cá.
Eu sei mãe, mas. Preciso retornar a minha rotina. Vocês já fizeram demais por mim.
Para isso somos sua família. Nós ajudamos quando mais precisamos uma da outra.
Ta sendo tão difícil mãe, entender tudo isso. Eu preciso agora ocupar minha cabeça sabe, preciso arrumar um emprego e me distrair para não pensar tanto nas coisas que aconteceram.
Eu imagino filha. Nós até tínhamos pensado em vender seu apartamento. Mas aí Alexandra disse que quando você acordasse iria gostar de vir para o seu cantinho.
Sim, vocês fizeram bem em não vender. Obrigada por tudo o que fizeram por mim.
De nada. Era difícil vir aqui.
É tudo tão diferente mãe. Tão estranho. Sinto um vazio tão grande no meu peito.
Eu não sei nem o que falar meu anjo. Imagino que deve ser mesmo bem difícil. Por isso falamos que seria muito bom se você procurasse alguma ajuda psicológica.
Eu sei mãe, eu vou me organizar e vou sim.
Te fará bem.
Tenho tantos sentimentos mãe, de tanta coisa que perdi. Eu não pude me despedir do Brian – E enquanto Alicia foi falando sua voz foi embargando – Não pude ver minha sobrinha nascer. Eu nem mesmo sei quem sou eu agora.
E nesse momento a mãe de Alicia a abraçou e deixou que ela continuasse falando e chorando.
Eu perdi tanta coisa mãe. Brian era uma pessoa importante para mim, perdê-lo assim e ainda sem nem mesmo poder me despedir. Eu ainda não consigo entender, como tudo isso foi acontecer. Foi tudo muito rápido.
Sinto no meu coração que Brian salvou você aquele dia.
Eu não lembro do dia do acidente mãe, de nada, não tenho como te assegurar isso, ainda que fosse isso, ele perdeu a vida dele.
Ele estará sempre em nossos corações. Vai ficar tudo bem Alicia.
Eu sei que vai mãe.
Após alguns minutos ali abraçadas, a mãe de Alicia a soltou e continuou:
Você tem certeza que ficará bem sozinha?
Sim, mãe. Pode ir. Sei que a Ale precisa da senhora também. Eu vou ficar em casa hoje, vou descansar um pouco.
Se precisar de algo, pode me ligar.
Pode deixar mãe.
Ao ficar sozinha Alicia preparou uma xícara de chá e sentou-se na varanda. Era um ótimo lugar para relaxar e pensar. Alicia ainda não tinha parado para organizar tudo o que viu e viveu enquanto estava dormindo.
Colocou uma música para tocar, e ficou sentada observando a natureza desde a sua varanda. Alguns flashes do que foram esses 365 dias em coma vieram a sua mente.
Durante os três meses de recuperação, Alicia sempre estivera rodeada pela família e pelos amigos, fazendo com que não tivera tempo para colocar seus pensamentos em ordem. Sentia-se estranha, por mais que tudo o que ela considerava real até aquele momento, durante esses três meses ela simplesmente escolheu não pensar tanto nisso.
Tentando reconstruir sua rotina, estar mais tempo sozinha, lhe deu tempo para refletir, e pensar em tudo o que foram esses 365 dias.
Ao despertar Alicia tinha um único sentimento, seu amor por Ethan, e como tudo isso aconteceu de forma intensa, e inesquecível. Ainda que fosse um sonho, ela carregava o sentimento de ter ao menos uma vez em sua vida aprendido o significado verdadeiro do amor. Com o passar dos dias em que ela foi absorvendo a notícia de que esteve em coma por exato um ano, esse sentimento que ela nutria tão fortemente por Ethan foi se dissipando, e se tornando uma linda lembrança de um amor construído sob medida para ela, enquanto lutava contra o maior desafio de sua vida: Sobreviver.
Ela lutava constantemente contra qualquer sentimento desde que despertara de seu coma, uma vez que, tudo o que ela viveu em sua visão, seria apenas algo da sua cabeça e que nunca existiu.
Eram muitos sentimentos confusos, entre a Alicia antes do acidente, e a Alicia depois dele.
Os dias foram passando e Alicia foi acrescentando várias coisas a sua nova rotina, coisas que antes do acidente ela nem cogitaria fazer. Agora, ela gosta de sair para correr e respirar ar fresco. Gosta de fazer trilhas e estar em contato com a natureza. Além de continuar com seus gostos pela leitura.
Com a idéia ainda de que precisava conversar com alguém sobre seu tempo em coma, Alicia pensou em uma pessoa que ela sabia que jamais a julgaria, ou a contestaria. Foi então que ela resolveu mandar uma mensagem para sua irmã Alexandra.
Alicia: – Oi Ale, não sei como anda seu tempo, mas, eu precisava conversar com alguém. Será que você consegue passar aqui em casa?
Em alguns segundos sua irmã já responde.
Alexandra: – Oi mana, tudo bem?
Alexandra: – Na realidade eu estava mesmo pensando em te mandar uma mensagem para fazermos algo hehehehe.
Alicia: – Estou bem sim! Só precisando conversar um pouco.
Alexandra: – Para você fica bom hoje?
Alicia: – Claro, estarei em casa.
Alexandra: – Daqui meia hora mais ou menos eu chego por aí. Bjs mana.
Alicia: – Bjs. Te espero.
Umas das atividades que Alicia desenvolveu após seu acidente, foi o de cozinhar, ela conseguia se distrair, e assim ficar longe da ansiedade, enquanto fazia delícias para sua família, após retornar ao seu apartamento, ela intensificou mais ainda seu tempo na cozinha, e aproveitando o momento que receberia sua irmã, decidiu então fazer um delicioso bolo de chocolate. Ligou uma música e foi para a cozinha. Quando estava colocando o bolo no forno para assar, ouviu tocarem na porta. Rapidamente ela sai para atender.
Oi mana. – Disse Alicia.
Oi Alicia. Que saudade – Alexandra falou abraçando Alicia.
Cadê a Sophia?
Hoje a mãe do Jeremy a levou para passear, aproveitei uma folguinha heheheh. Por isso eu disse que ia te mandar mensagem.
Fez bem Ale. Entra, vamos. Estou assando um bolo de chocolate para nós.
Que delícia. E me conta como está sendo esse retorno para casa?
Ai Ale, difícil. Mas, necessário, assim pelo menos eu não me sinto um fardo para ninguém.
Não pense assim, você nunca foi um fardo para nós.
Mas era como eu me sentia quando estava na casa da mamãe.
Nada como a casa da gente.
Exatamente isso. Esses meses foram muito estranhos e difíceis. Ter que lidar com todas as notícias, com tudo o que aconteceu em um ano enquanto eu estive em coma, foi simplesmente arrasador.
Eu imagino. E eu queria ter ficado mais perto de você nesse recomeço. A Sophia demandou mais tempo do que eu imaginava esses últimos meses. Ai você coloca a Sophia, o Jeremy, o trabalho, acabei falhando com você.
Não Ale, eu sei que não dá para simplesmente largar tudo. Eu não conseguia conversar com a mamãe. Não sei, era estranho.
O que mais esta te incomodando?
Eu tive um apagão de um ano na minha vida. Eu não lembro como tudo aconteceu não me lembro nada do dia do acidente. Mamãe me contou por cima, ela queria me proteger de tudo até mesmo de saber do acidente.
Foi bizarro. Na realidade esse acidente aconteceu como naquela velha expressão, você estava no lugar errado e na hora errada.
Como assim?
Vocês estavam parados no semáforo, naquele dia ventava e chovia bastante, mas, não havia aviso de qualquer temporal ou tempestade. Simplesmente uma enorme árvore caiu sobre o carro de vocês. Lamentavelmente, havia outro carro parado no semáforo também. Lembro pelas notícias que era um casal, a mulher havia sofrido apenas escoriações leves, e o homem chegou a ficar em coma, mas não me lembro por quanto tempo. Brian faleceu no local e você ficou em coma por um ano.
Tem alguma explicação?
Pelo que os peritos disseram, os piores casos foram Brian e você devido a que o primeiro carro era o de vocês, estavam mais próximos do tronco da árvore que por sinal era enorme e grossa. Você se lembra de dirigir naquele dia?
Não! Não me lembro de nada.
Essa foi a explicação da perícia. Brian estava no lado do carona, então o tronco pegou mais em cima do carro de vocês e ao lado do carro de vocês estava outro carro, onde pegou uma pequena parte do tronco e os galhos da árvore.
Essa parte do acidente eu pude entender, eu vejo muito claro isso. Você disse que havia outro carro?
Sim!
Isso a mamãe não me disse.
O homem parece que quebrou o braço e sofreu um traumatismo craniano, assim como você.
Quando tempo ele ficou em coma?
Não me lembro, mas foi próximo a seis meses no máximo, porque recordo que falei com a mamãe que você deveria ter acordado como ele, e que não era bom sinal você continuar em coma.
E a mulher?
Ela ficou poucos dias no hospital, pelo que parece eles eram noivos. Ao menos foi a noticia que saiu no jornal.
Você sabe quem são eles?
Eu li algumas matérias, mas agora não lembro. Podemos pesquisar depois, não vai ser difícil encontrar.
Gostaria algum dia de me encontrar com eles.
Pode ser um encontro interessante.
Sim.
E a ansiedade como anda?
Depois que vim para casa, esta um pouco mais difícil controlar. Mas, então eu criei alguns hábitos que estão me ajudando.
Que bom!
Ale eu me sinto tão perdida, nem mesmo sei por onde recomeçar. Eu tinha um plano antes do acidente, e agora nada mais faz sentido.
Você tinha o Brian, a faculdade, os amigos.
Eu tinha o Brian, mas mesmo que ele não tivesse falecido nesse acidente idiota, eu hoje não estaria com ele.
Por quê?
Você já se perguntou o que acontece com uma pessoa? Quando ela esta em coma?
Ela dorme.
Exatamente, ela dorme. E o que acontece quando dormimos?
Sonhamos?
Sim! Ale, sonhamos. Eu passei um ano da minha vida, vivendo outra vida em um sonho. Um sonho onde eu entendia que, eu estava em coma, e buscava de todas as maneiras acordar e não conseguia, onde Brian não havia falecido, onde eu via você ainda grávida. Onde eu conheci alguém que fez meu coração bater mais forte, e fez com que borboletas voassem na minha barriga.
Como assim Alicia?
Sabe o que é você acordar se sentindo outra pessoa? Eu acordei descobrindo que o meu sentimento pelo Brian não era tão intenso e forte como eu pensava. De alguém que eu levaria no meu coração pro resto da vida, mas, que não era o amor que eu pensava sentir.
Talvez esse sentimento possa ser uma maneira que seu corpo encontrou de lidar com o luto mana. Lidar com a perda de alguém importante para você.
Não, você não entendeu. Eu vivi um novo amor enquanto eu dormia. Eu descobri o que é amar de verdade. Eu descobri a essência do amor, o valor dele e quando eu acordei eu perdi tudo isso.
Alexandra não sabia o que falar, ela sentia tristeza nas palavras de Alicia, e entendia como toda aquela conversa estava sendo difícil para ela.
Alicia então começou a relatar tudo o que viveu durante esses dias em coma. Alicia riu, brincou, se emocionou e chorou contando a sua irmã tudo o que vivera ao lado de Ethan Muller. Ela então finalizou seu relato, limpando as lágrimas.
Falar do Ethan faz meu coração acelerar, quando eu acordei e vi que ele não era mais que um sonho, um amor que eu mesma idealizei para mim, eu tive um sentimento de perca novamente. Não me leve a mal, Brian era maravilhoso para mim, mas de alguma maneira eu sinto que não era nosso destino ficar juntos.
Alicia, eu estou emocionada com tudo o que você me contou. Eu nem sei o que falar.
Para mim, foi real Ale, foi o amor mais real que eu já vivi. Ethan, me transmitia uma paz, uma tranqüilidade quando conversava comigo. Ele era calmo, paciente, era enérgico, além de lindo.
Você já tentou procurar por ele?
Ale, ele não existe. Ele foi apenas uma criação da minha cabeça para passar pelo tempo em coma.
E se ele existir?
E se não?
É surreal tudo o que você me contou. E você está com isso desde que acordou, sem por para fora toda essa angústia?
Por isso eu precisava conversar com alguém, e ninguém melhor do que minha melhor amiga e irmã.
Eu falhei com você. – Alexandra falou com a voz embargada, abraçando Alicia.
Não mana, esse era o momento que devíamos conversar. Tem algo que vou levar para a vida, nada acontece por acaso. Tudo acontece em seu devido tempo. Nós só não entendemos o motivo. Esse era o nosso momento. O acidente, a nossa conversa. De todas as maneiras eu seria outra Alicia, mesmo que Brian ainda estivesse aqui.
E se você escrevesse um livro?
Um livro?
Sim, e contasse para o mundo a história de amor de Ethan e Alicia.
Você acha que seria uma boa história?
A melhor história.
Vou pensar seriamente nisso.
Não podemos esquecer do bolo. Quero comer bolo antes de ir hahahhahahahah.
Verdade. Vamos lá na cozinha terminar ele.
E passaram algumas horas conversando e comendo o bolo de chocolate que Alicia havia feito. Mesmo conversando sobre outros assuntos com Alexandra, Alicia mantinha na mente a idéia de escrever um livro contando uma improvável história de amor.
Depois que Alexandra foi embora, Alicia ficou repassando toda a conversa que tiveram. E a idéia de escrever um livro estava cada vez mais forte na sua cabeça. Então ela colocou uma música para tocar, e pegou um bloco de notas e uma caneta.
Enquanto Alicia ouvia uma suave melodia, a mensagem por trás da música lhe direciona e lhe dá o incentivo que precisava para seguir um novo caminho.
''...Eu ressurgirei e o farei mil vezes. Ressurgirei alto como as ondas...''
A música lhe trouxe a inspiração para iniciar um novo projeto, e assim ela começou rascunhar singelas palavras pelas finas linhas de um papel em branco.
Um novo dia se inicia, eles não têm sido fáceis, muitos conflitos, desconfianças e crises de ansiedade.
Deixar o passado para trás e reescrever uma nova história tem sido mais complicado do que Alicia imaginava. Recomeçar é a palavra que mais a define nesse momento. Ela havia deixado todo o seu passado para trás e decidido se reinventar. Não existia mais o noivado ou a carreira. Os sentimentos esfriaram, as amizades acabaram e a família estava um caos disfarçado.
Alicia se olha no espelho esperando ver aquela de que todos tanto falam, tocando suas cicatrizes ela vê apenas uma Alicia, a mulher que busca se encontrar numa nova identidade, mesmo que digam que ela não era assim. Disposta a se afastar de tudo e de todos que tentarem impor a ela uma vida que já não existe mais.
Sentada em sua poltrona, olhando pela janela os raios do sol adentrar e perdida entre seus pensamentos, lembranças ou desejos, não havia percebido que seu interfone tocava insistentemente.
Alô.
Bom dia, por favor a senhorita Alicia Curts.
Sim!
Sou entregador, e tenho uma encomenda para a senhorita.
Tudo bem, um momento que já vou descer.
Alicia correu até o quarto e pegou um suéter e saiu, descendo os degraus rapidamente.
Olá.
Olá, senhorita. Aqui esta sua encomenda. Por favor, assine aqui e aqui.
Claro, e o senhor Adams?
Quem?
O senhor Adams, o carteiro que sempre atende essa região.
Ahhh.. Sim! Sou de uma empresa terceirizada.
Claro! Que pergunta besta a minha, é que você está sem uniforme.
Quanto ao uniforme, ficaria muito grato se a senhorita não abrisse uma reclamação. Sabe como é final de semana neh!
Claro. Não se preocupe.
Enquanto ela segurava a prancheta com o formulário da entrega, seus olhos se perderam olhando o rosto de Ethan. Aqueles óculos escuros impediam de ver a cor de seus olhos, fazendo com que seus pensamentos se perdessem enquanto seu coração batia acelerado, um nó na garganta se formava e isso lhe deixava desconcertada.
A senhorita poderia me devolver a prancheta?
Ohh... Desculpe-me mais uma vez minha distração. Mas, preciso perguntar-te algo.
Por favor.
Tenho a impressão de que já nos conhecemos. Qual é o seu nome?
Meu nome é Ethan. Ethan Muller.
Ethan... Não me é estranho esse nome. Mas...
Sim... ?
Não. Desculpe-me não o conheço, devo ter ouvido esse nome em algum lugar.
Acontece senhorita Alicia. Tenha um bom dia.
Igualmente senhor Ethan.
Alicia pegou sua encomenda e ficou observando Ethan entrar no carro, sem muita demora apenas se virou e subiu novamente até o seu apartamento. Durante o caminho até o seu apartamento ficou curiosa com a caixa que acabara de receber, e mais ainda com o entregador.
Subindo as escadas, Ethan não saía da sua cabeça. Virando a caixa a procura de remetente finalmente Alicia chega ao seu apartamento.
Que homem estranho, senti que o conhecia. Mas, deve ser minha cabeça mais uma vez, me pregando uma peça. – Pensou Alicia.
Ao entrar em seu apartamento Alicia ouviu que seu telefone tocava e apressou-se para atendê-lo.
Alô.
Oi Alicia.
Oi Ale. Tudo bem com você?
Sim! Tudo bem e você?
Estou bem sim!
Como esta no apartamento novo?
Está ótimo. Adaptando-me a cada dia.
E como está o nosso bebê?
Crescendo muito. Não vejo à hora de ver o rostinho dela.
E eu também. Minha primeira sobrinha. Quando vocês virão me visitar?
Vou ver com Jeremy, eu queria ir no próximo fim de semana, mas, Jeremy está passando a direção do hospital para o Lyne e não sei quanto tempo ainda ele terá que cumprir a jornada.
Humm... Mas, eu espero que venham logo.
Como você tem se sentido?
No geral bem. Desde que me mudei não tive nenhuma crise de ansiedade. A cabeça um pouco lenta ainda. Não tive nenhuma lembrança até agora. Tenho alguns flashes, mas, parecem fragmentos de sonho mesmo.
Que bom lembra que te disse que havia algumas coisas que deveríamos conversar?
Sim.
Com certeza faria você entender muita coisa.
Me diga então.
É complicado mana, não é algo que deveríamos falar por telefone. Quando eu for te visitar poderemos conversar.
Entendi, só estou meio cansada de todo mundo dizer o que devo ou não fazer, não conseguia mais ficar com a mamãe, ela queria que eu me casasse com Brian por obrigação. Que eu ficasse sempre do lado dela, para que pudesse me vigiar constantemente. Do que ela tem tanto medo?
É apenas super proteção. Ela passou por dias terríveis enquanto você estava em coma.
Entendo, mas, ela poderia me dar mais espaço.
Poderia sim, mas, e o Brian?
Conversamos por telefone. Às vezes ele vem aqui. Não sinto mais nada do que carinho por ele e claro agradecimento por ter me cuidado todo esse tempo.
Sim, entendo.
Ainda assim sinto como se estivesse traindo a confiança dele. Porque ele me esperou todo esse tempo. E eu acordei e, não sou mais a mesma pessoa. Eu tenho sonhos...
Não, não se culpe por isso. Ele entenderá com certeza.
Sim, ele é maravilhoso. Ele me ajudou com a mudança, e sempre me liga para saber como estou. Acho que ainda levará um tempo para me acostumar. Penso que ele ainda nutre alguma esperança.
E ele tem alguma chance?
Eu não vou falar que nunca. Mas, acredito que não. Eu ainda não entendo meus sentimentos direito, e não posso me entregar a uma relação com dúvidas. Nos relacionamos muito jovens, éramos amigos e isso facilitou muito o sentimento um pelo outro. Não quero continuar apenas por isso sabe, apenas pela amizade linda que construímos nesse tempo.
Claro, começar algo baseado apenas no desejo de uma pessoa não vai dar certo.
Isso mesmo. Mas, mudando de assunto, recebi uma caixa hoje.
Ahh... Sim e de quem?
Não tem remetente. Ainda não abri.
Humm... Fiquei curiosa.
Você já olhou para uma pessoa e teve a impressão de já tê-la visto em algum lugar?
Sim.
Nossa, quando eu olhei para o entregador, parecia que eu o conhecia há muito tempo, muito estranho. Até tentei forçar a cabeça, mas, acho que foi só uma impressão mesmo.
Isso é muito natural para qualquer pessoa, não é algo exclusivo de alguém que tenha tido um traumatismo. E como era o nome dele, você perguntou?
Ethan.
Ethan???
Sim, você conhece algum? Vai que eu conheci antes do acidente.
Conheço sim, mas, faz um tempo que não o vejo. Ele te falou alguma coisa?
Na realidade conversamos pouco apenas me entregou a caixa e saiu sorrindo.
O que tem na caixa?
Ainda não abri.
Então vou te deixar tranqüila. Só liguei para saber como você estava mesmo. Estou doida para te ver.
Eu também. Te amo mana, manda um beijo para o Jeremy. E cuida bem dessa pequena ai.
Pode deixar. Tchau.
Alicia olhou para aquela caixa, olhou todos os objetos. Pegou um cd e colocou em seu aparelho para tocar. Ouvindo atentamente a música que se iniciou, pegou novamente a caixa, colocou-a sobre uma pequena mesinha, sentou-se no chão e pegou o cartão que havia na caixa.
"Querida Alicia, tive que encontrar muita coragem para preparar essa caixa, e mais ainda para entregá-la. Pensei em várias maneiras de te contar um pouquinho da minha história, e o momento em que ela se cruza com a sua história. Peço que tente entender o que estou prestes a dizer, não só entender, mas, estar aberta a algo incrivelmente inimaginável. Essa é uma caixa com vários itens que em algum momento significaram alguma coisa para você ou para mim. Eu espero que alguma dessas coisas te faça relembrar parte dos últimos meses antes que acordasse. Parece loucura, mas, loucura seria se eu não tentasse fazer com que o seu coração se lembrasse de mim."
Sem acreditar no que estava lendo. Alicia piscou várias vezes e voltou a ler a primeira parte daquele cartão e assim prosseguiu até o final.
Sem compreender do que se tratava aquela encomenda, Alicia começou a passar a mãos pelos objetos, tentando decidir o que faria. Últimos meses era o que havia mencionado na carta. O que teria acontecia nesses últimos meses? Mesmo temerosa de que tudo aquilo não passasse de uma brincadeira ou de que fosse mais uma tentativa de Brian de lhe conquistar, ela continuou olhando as coisas que havia na caixa.
Havia também um postal de uma praia que lembrava muito sua infância, os bons momentos que você viveu com sua irmã e seu pai. Atrás desse cartão havia uma pequena mensagem:
"A primeira noite que passamos juntos-ao menos dormindo lado a lado e tivemos a esplêndida chance de ver o nascer do sol nesta praia tão linda."
E antes de continuar lendo, Alicia pegou cada item na caixa e observando cuidadosamente, procurando algo do que se lembrar. Ela então pegou o suéter, olhou-o de todos os lados, levou-o junto ao rosto e inspirou profundamente, era um perfume suave e gostoso. Mas, isso não foi familiar e nem mesmo a fez se lembrar de nada. Ainda confusa por não compreender o que essas coisas fariam, ela pegou então um envelope onde havia uma carta.
"Tenho tanto para te falar, tenho tanta vontade de falar sem rodeios, mas, só o farei se você quiser me ouvir. Quisera que as palavras saltassem da minha boca em harmonia como uma suave melodia. É difícil ter tanto para falar e ter tanto medo de como isso vai parecer. Só falarei se você estiver disposta a realmente me ouvir, não com os ouvidos do corpo, mas, com os ouvidos da alma, porque somente assim você será capaz de compreender tudo o que aconteceu. Na caixa coloquei alguns itens que considerei importantes para nós em algum momento da nossa história. Um suéter, que foi uma peça de roupa que você usou quando esteve comigo, lembro-me de haver dito que tinha gostado do perfume que havia nele. Também coloquei um livro, porque sei que adora ler. E esse especificamente te chamou bastante atenção. Você adorou esse livro. Apesar de não ter tempo de terminá-lo, porque foi embora antes que pudesse concluí-lo. Leia-o, e conte-me como tudo acabou. Nunca tive coragem de lê-lo, pois terminá-lo seria como se estivesse terminando a minha história com você e essa eu não queria que acabasse jamais. Sei que tudo isso esta confuso para você, e mais ainda ficará. Mas, você precisa ao menos desconfiar de que um dia, estivemos juntos, e de que a resposta que tanto procura pode estar comigo, porque poder te contar a minha história fará toda a diferença em nossas vidas. Não espero que você se apaixone por mim, nem mesmo que acredite em tudo o que tenho para lhe dizer, apenas espero que você aceite que tudo isso foi possível. Que tudo o que vivemos foi real, tão real quanto possamos querer que tenha sido. Que você um dia me conheceu. Apenas peço que faça um esforço, que pense em cada detalhe que te enviei. Espero que possamos nos encontrar, e então poderei te dizer tudo o que desejar saber...
Ao pegar o envelope grosso com o que ela imaginava serem fotos, assustou-se tremendamente quando viu o que havia no envelope. Eram cartões postais, com as mais belas paisagens. Paisagens essas que viviam em seus sonhos, em suas lembranças adormecidas.
...Sei que você acabará se lembrando, porque fizemos uma promessa um para o outro, e eu sei que foi o destino que uniu os nossos caminhos, ainda que tortuosos. Espero ansioso o dia em que você olhará em meus olhos e verá através de mim, assim como eu vi através de você. Eu estarei aqui sempre a te esperar.
Com amor,
Ethan Muller
E como se seus braços estivessem cansados Alicia deixou-os cair juntamente com o que acabara de ler. Havia lido certo? Era esse mesmo o nome do entregador? E esse nome ficou soando em sua cabeça.
Ethan Muller, o entregador. Como não me passou pela cabeça? – Pensou Alicia
Instintivamente Alicia foi até a janela olhar para rua a procura do entregador, qual não foi sua surpresa ao olhar para baixo o viu parado na porta de seu carro, notando que ela olhava para ele, simplesmente entrou no seu carro e partiu.
Ele voltou, sabia que eu olharia isso tudo agora. – Pensou Alicia.
Sem saber o que fazer, leu uma vez mais a carta e tentou, tentou ao máximo possível lembrar-se de alguma coisa. Mas, não conseguiu, pensou que aquilo deveria ser uma alucinação dele, já que ela não se lembrava nem mesmo de seu nome. Meses antes de acordar? Como seria isso possível, estava ela em coma.
Alicia apenas ficou observando e pensando no pequeno diálogo que tivera com Ethan há poucos minutos. Olhando os objetos, refletindo sobre o sentido de todas essas coisas e só então se deu conta que talvez ele pudesse ter razão, lembrou-se de quando o olhou pela primeira vez, do nó em sua garganta e do seu coração a palpitar. E se tudo isso fosse para ajudá-la a se lembrar?
Pegou o livro em suas mãos e ficou analisando a capa e o seu título: "Diário de uma Fênix". Mas, não o leu, apenas deitou-se no sofá com ele em suas mãos e ficou olhando para o teto.
Estou sonhando, ou melhor, estou delirando. – Pensou Alicia.
Alicia levantou-se e foi até a janela e permaneceu olhando em direção ao carro que Ethan havia ido, enquanto tocava em seu aparelho uma de suas músicas favoritas, sentiu que a melodia fazia seu coração palpitar, como se estivessem se lembrando do que sua cabeça não lembrava.
Olhando para fora todo aquele brilho do sol tocando as árvores, tocando os carros, tocando as pessoas. Não conseguia aceitar que havia perdido lembranças importantes. Lembranças essas que ainda nem havia decidido se eram reais ou não, mas, estava certa que de um jeito ou de outro Ethan fazia parte delas.
Com o livro na mão folheou-o diante da janela esperando ter um lapso de memória, mas, nada aconteceu. Apenas achou uma página marcada, onde claramente podia-se ler:
"A verdade estava diante dos meus olhos, apenas não estava preparada para aceitar a verdade que poderia mudar quem eu fui, quem eu sou e quem ainda viria a ser."(Diário de uma Fênix)
Fechando rapidamente o livro, Alicia esperava ansiosamente que as respostas viessem a seu encontro. Lamentava-se cada minuto por não conseguir toda a explicação que necessitava. Alguém teria que dá-las. Alguém que estivesse ao seu lado em todos aqueles momentos.
Alexandra!!! – Disse levantando-se rapidamente do sofá.
Seu nome veio como um raio em sua cabeça.
Alicia pegou o telefone e discou uma série de números. Mas, quando tocou a primeira vez ela desligou. Colocou o telefone de volta em sua base, foi até o quarto e pegou uma bolsa, e foi colocando dentro dela peças de roupas, e objetos que julgava necessário para uma pequena viagem.
Colocou todos os objetos na caixa novamente e fechou-a. Retirou o cd do aparelho e colocou-o juntos aos outros. Certificou-se que todas as janelas estavam fechadas, que tudo estava trancado. Pegou sua carteira, sua bolsa e a caixa e colocou tudo no carro.
Voltou para a sala e olhou-a novamente como se estivesse querendo dizer algo, mas, as palavras não saiam. Entrou no carro e mesmo imaginando que estava indo atrás de uma ilusão, decidiu que este seria o último nó a ser desatado antes de seguir com a sua nova vida.
Virou-se para o banco de trás e abriu a tampa da caixa. Pegou o cd e colocou-o para tocar. Ali começaria a sua viagem com destino a uma nova realidade. Uma viagem que poderia mudar sua vida para sempre.
Após algumas horas de viagem Alicia chega à casa de sua irmã, com a cabeça virada em um turbilhão de pensamentos que iam e vinham ela já não entendia o que era real, sonho ou desejo. Colocou para tocar mais uma vez o cd que havia ganhado com os outros itens misteriosos do então senhor X, ou Ethan como já havia descoberto.
Enquanto a música tocava Alicia enviou uma mensagem para sua irmã avisando que acabara de chegar, e perguntando se Alexandra estava em casa. Não obteve resposta de sua mensagem, mas, rapidamente viu a porta da frente se abrir e sua irmã com cara de espanto sair e vir em sua direção.
Rapidamente Alicia desligou a música, e saiu do carro.
Aliciiiiaa. O que você está fazendo aqui?
Oi Ale. Vim fazer uma visita.
Você veio dirigindo?
Sim.
Entre, vamos. O que levou minha irmã dirigir por mais de 2 horas?
Ale, não vim aqui para levar sermão.
Desculpe. Só me preocupo com você. Ainda assim fiquei imensamente feliz em te ver.
Eu estava precisando de companhia, e você é minha irmã não é?
Claro.
Alexandra chegou bem próxima a Alicia e a abraçou apertadamente e por longos minutos.
Que bom ter você aqui Alicia.
Eu também estou feliz de estar aqui.
Você já comeu?
Não. Mas, não estou com fome. E Jeremy está em casa?
Não. Ele tem plantão hoje.
Quando ele tem plantão você dorme sozinha?
Sim. Daqui 2 meses não vou mais ficar sozinha.
Sim claro. Como sua barriga esta grande.
Sim. Já vou entrar no sétimo mês.
Esta linda.
Alicia, eu te conheço. Tem alguma coisa te incomodando. Você não viria aqui assim do nada. Te chamei tantas vezes e você não veio.
É bom o Jeremy não estar em casa hoje. Eu preciso de um tempo só com você.
Sabia que não era só saudade hahahahhaha. É sobre a caixa?
Assim você me ofende heheheh. Por que você acharia isso?
Porque não sou ingênua. E porque imaginei que pudesse acontecer isso.
Sim tem a ver. E tem a ver comigo. Mas, será que eu poderia tomar um banho antes?
Claro.
Estou um pouco cansada por causa da viagem.
Vem, vou te levar até o quarto. Você já sabe onde fica, mas, vou te acompanhar. Pode deixar suas roupas neste guarda-roupa. Aqui tem uma toalha para você. E quando terminar estarei na sala.
Obrigado Ale.
Você quer um chá?
Não, estou bem, obrigado.
Alexandra saiu do quarto deixando-a sozinha. Alicia se sentia deslocada, como se muitas peças ainda faltavam por se encaixar. Mas, havia vindo até ali por um propósito e não iria embora sem descobrir toda a verdade por trás de tanto mistério.
Alicia entrou na ducha, e ficou ali por alguns minutos. Vestiu-se e foi até a sala lentamente, e quando estava chegando ouviu Alexandra falar ao celular, e como não queria interromper apenas esperou antes de entrar na sala.
E mesmo que não quisesse de onde estava pôde ouvir toda a conversa.
Sim, mas, você tem que entender que não vou poder esconder fatos. Não sei por que começar joguinhos dessa maneira. Eu te disse que se quisesse conversar com ela eu não iria me opor, Mas fazer joguinhos? Sim eu entendo que isso pode ajudar Ethan. – Alexandra dizia ao telefone.
Ethan? – Pensou Alicia.
Mas você tem que entender que ela é minha irmã. E se ela me perguntar eu vou responder. E se não for à resposta correta, sinto muito. Você deveria ter pensado nisso antes de começar. Vou fazer o possível. Sabe que gosto muito de você, Mas não vou mentir. Eu sei que não está me pedindo para mentir, mas está pedindo para não contar tudo o que sei. Isso não é mesmo? Tudo bem. Vou tentar, eu prometo. Mas não te prometo que ela vai conseguir se lembrar, ou aceitar alguma coisa disso tudo. Eu sei que você não tem esperanças. Só peço que não as tenha mesmo. Lembra quando pensamos que ela iria se lembrar de algo? Ela não lembrou, e foi muito complicado para você, eu gosto tanto de você que não quero que se iluda novamente. Não crie expectativas Ethan, isso nunca acaba bem. Tudo bem. Tchau. – Alexandra desligou rapidamente e sentou-se no sofá.
Alicia ficou atônita com tudo o que acabara de ouvir, parecia que vivia numa redoma onde tudo era segredo, onde tudo era oculto. Quando Alicia percebeu que Ale desligaria, começou a chamá-la em voz alta para que não percebesse que estava ouvindo a conversa.
Aleee...
Oi, estou na sala Alicia.
Desculpe falar alto. Onde posso estender a toalha? Deixei na porta, Mas não sei se você estende lá fora.
Pode deixar ali mesmo. Não se preocupe.
Ao retornar à sala Alicia se sentou pegou caixa e mexendo em alguns do itens, ela olhou para Alexandra e disse:
É tão estranho não me lembrar. Eu olho essas coisas e sinto um vazio tão grande.
Quanto a esses itens infelizmente não consigo esclarecer nada.
E sobre o que você consegue me esclarecer? – Alexandra manteve silêncio.
Viu Ale, é sobre isso. É sobre vocês decidirem por mim, é sobre a mamãe, é sobre o Brian. É sobre não me permitirem escolher em que devo ou não acreditar.
Não me inclua nesse meio. Vamos sair para comer algo e assim conversamos sobre o que você quiser. O que você acha?
Por mim tudo bem.
Perfeito.
Pouco tempo depois Alicia e Alexandra estavam a caminho de um barzinho novo na cidade, onde tinha música ao vivo. Durante o caminho pouco conversaram. Logo chegaram e se sentaram em uma mesa mais afastada. Aos poucos o clima ia se suavizando, Mas Alicia prontamente começou a questionar Alexandra.
Como você o conheceu?
Quem?
Ethan!
Ahhhh, sim. Ele foi meu paciente.
E...?
O que exatamente você quer saber?
Se existia algo estranho que tivesse acontecido em meio a esse tornado que foi esse acidente, por que ninguém me contou quando eu acordei?
Porque a pessoa mais envolvida em tudo não fazia mais parte da sua vida, mamãe e Brian achavam desnecessário.
E você?
Eu queria te contar tudo, mas Brian convenceu a mamãe que, era melhor não trazer tudo a tona novamente, ainda mais quando você não tinha lembranças nenhuma, nem do coma e muito menos do acidente.
Mas você sabia que era ele quando te disse o nome do entregador?
Desconfiei, era bem a cara dele fazer isso. Só tive certeza quando você me disse o nome dele.
E qual é o segredo? O que são aquelas coisas que ele me mandou? Quando eu o conheci? E o mais importante por que eu não lembro dele, nem de nada do que ele me enviou?
São muitas perguntas juntas. Mas tem coisas que infelizmente não consigo entrar em detalhes, porque eu sei uma parte quem sabe a história completa é ele. Somente ele vai poder esclarecer todas e cada uma das suas dúvidas.
Então, por que simplesmente ele não vem em mim e me conta? Por que ele tem que se esconder?
Ele pensou que te enviando uma caixa com algumas coisas que fazem parte da história de vocês pudesse reavivar alguma memória. Mas, eu não sei Alicia o que, ou como. Na realidade eu só fiquei sabendo dessa caixa no dia que você falou.
Ele disse que eu saberia onde encontrar ele. Não tenho idéia de como fazer isso, mas, você sabe não é mesmo?
Não. Ele não mora mais na mesma casa. E eu nunca fui ao trabalho dele.
Mas você tem o telefone dele não é Ale?
Sim.
Então liga para ele pede para ele vir até aqui.
Você tem certeza Alicia?
Eu já não tenho certeza de nada essa é a real.
Alicia, o que aconteceu é realmente difícil de acreditar. Mas ele conseguiu me convencer de uma maneira que não há dúvidas de tudo o que ele fala. Eu não posso te dizer que você deve acreditar ou aceitar. Mas é algo que eu poderia classificar como impossível.
Mas não seria mais fácil simplesmente chegar e dizer olha Alicia é assim, foi assim, não foi assim?
Os métodos do Ethan são estranhos devo confessar, Mas você só acordou do coma depois que ele conversou com você.
Como assim? Não lembro de ninguém no quarto quando eu abri os olhos. Vocês chegaram um tempinho depois.
O Ethan tinha certeza que poderia fazer você acordar caso ele pudesse te ver, conversar com você, mas, o Brian impedia.
Cada vez que ele tentou te visitar o Brian inventava alguma coisa e não permitia que ele visse você. Mesmo não sendo o médico responsável por você, era o hospital onde ele trabalhava então ele tinha meios de proibir visitas. Eu não sei o por que ele insistiu tanto nisso. Acabou que Ethan passou mal no hospital e tivemos que levar ele para a observação, ele havia se dado alta dias antes e escondeu que não estava bem. Já na observação, ele saiu e foi até o seu quarto. Não sei bem quanto tempo ele ficou com você, mas quando o achamos, ele estava desmaiado segurando sua mão.
Ual... esse cara é louco?
Não que eu saiba, ele apenas é um cara apaixonado. E esta tentando da maneira dele te fazer lembrar dele. Ele tem tanta certeza que você possa lembrar, assim como teve quando disse que quando ele conversasse com você, você acordaria.
Eu realmente quero conversar com ele, tenho sonhos que já não sei de são reais ou apenas sonhos. Você acredita que se pedirmos ele vem aqui?
Eu acredito que sim. Mas você tem certeza que é isso que você quer?
Eu acho que já está na hora de esclarecermos algumas coisas.
Vamos pedir alguma coisa para comer porque esse pimpolho está saltitando aqui.
Vamos sim. Obrigada por estar ao meu lado.
Alicia sempre estarei ao seu lado.
Por um tempo a conversa entre as irmãs foi descontraída e divertida. Relembraram momentos juntas, e colocaram as novidades em dia.
Algumas horas depois o assunto voltou a ser o Ethan.
Alicia eu já estou bem cansada, você realmente quer que eu envie uma mensagem chamando o Ethan?
Sim por favor.
Eu só não vou ficar porque preciso deitar um pouco.
Não tem problema. Pode ir descansar.
Tudo bem, vou enviar uma mensagem para ele.
Não demorou quase nada e Alexandra recebeu uma resposta de Ethan.
Ele acabou de confirmar que vem. Disse que chega em 20 minutos.
Obrigada Ale.
Você realmente não se importa se eu for para casa?
Claro que não. Eu pego um táxi, não se preocupe.
Pegue essa chave, não se preocupe com hora para chegar, dormirei mesmo. Cuida-se.
Você também se cuida. Te amo mana.
Também te amo.
Logo que Alexandra saiu, Alicia pediu um coquetel para aliviar a tensão que estava sentindo naquele momento, tentando processar todas as informações do dia.
Perdida entre seus pensamentos e ansiedade, ela se pega olhando para porta, quando vê Ethan entrando.
Não sei se é o álcool, mas, agora me sinto até mais confiante. Ual, não me lembrava que ele era tão bonito. – Pensou Alicia.
Seus olhos iam acompanhando ele, que vinha diretamente até a mesa.
Boa noite senhorita Curts.
Olá Ethan.
Seus olhos ficaram fixos um no outro, e nenhum dos dois queria quebrar essa ligação.
Eu posso me sentar? – Perguntou Ethan.
Eu poderia me negar? – Respondeu Alicia rapidamente.
Sempre! Comigo você sempre terá um escolha Alicia. Não sou quem você pensa, posso garantir que sou muito mais do que isso.
E quem é você Ethan Muller?
Como Alicia continuou a conversa amistosamente, Ethan sentou-se à sua frente, esticou-lhe a mão e continuou:
Prazer, meu nome é Ethan, eu sou formado em ciências da computação, tenho minha própria empresa de programação tenho 28 anos, sou taurino. Amo viajar, mas, também sou muito família. Amo ficar em casa e maratonar uma série ou assistir a um filme. Minha comida preferida é lasanha, mas não tenho frescura para comer. Amo pizza e batata frita. Já estive em um relacionamento duradouro, até mesmo fiquei noivo, mas o destino tinha outra história para mim. Estou procurando viver minha vida sem arrependimentos afinal, nunca sabemos quando pode ser nosso último dia!
Ethan pela perspectiva de Ethan, como posso confiar que esse é seu verdadeiro eu?
Tem uma frase que gosto muito "Você não conhece as pessoas, você conhece a parte que elas permitem que você veja".
Então você está me dizendo que irei ver apenas o que você me permitir? Isso não seria contraditório da sua parte?
Pelo simples fato que não tenho o que esconder. Aquilo que eu deixo ver é o que existe. E se me permitir eu gostaria de apresentar esse Ethan para você.
Não era bem assim que eu imaginava a nossa conversa.
E como você imaginava que seria a nossa conversa?
Eu tenho tantas perguntas, eu tinha preparado todo um questionário.
E o que te fez sair do roteiro?
Você!
Você pode mudar o rumo da nossa conversa sempre que desejar.
Acho que vou querer mais uma bebida.
Eu pego para você, o que vai querer?
Um cosmopolitan por favor.
Tudo bem. Já volto.
Alguns minutos sem o Ethan ao lado de Alicia fizeram com que ela pudesse se recompor, e repensar tudo o que queria fazer e qual o rumo que a conversa deveria tomar. Os pensamentos de Alicia estavam uma bagunça, o que fez com que ela respirasse profundamente várias vezes, até se acalmar.
Eu perdi totalmente o controle dessa conversa. Como eu deixei isso acontecer? Ele me desconserta. – Pensou Alicia – Preciso focar no que decidi para essa conversa. Eu queria encontrá-lo para perguntar da caixa, sobre a carta, sobre o que ele tem para me contar, Mas agora parece que já não faz mais sentido. Me sinto tão confortável ao lado. – Analisou Alicia em seus pensamentos.
Logo Ethan retorna a mesa, e a conversa retoma seu curso.
Aqui está a sua bebida.
Obrigada Ethan.
Não há de quer.
Ethan, eu queria te encontrar porque preciso entender algumas coisas, e depois que recebi a sua caixa minha curiosidade se aflorou.
Eu realmente achei que as coisas que coloquei dentro caixa poderiam reacender alguma memória sua, e assim eu não precisaria me passar por louco. Até mesmo cheguei a cogitar que eu tinha perdido razão.
Minha família achava que você estava louco, exceto a Ale claro.
Provavelmente hahahahhaha. E sei que corro o risco de você também me achar um louco. Esse foi o motivo de ter tentado uma alternativa incomum te enviando uma caixa com itens que poderiam avivar alguma recordação. Mas aqui estou Alicia, aberto a todas e quaisquer perguntas que você tenha para mim.
Quando você foi à minha casa, você usava óculos escuros. Estava de dia, não achei estranho. Mas porque está usando eles agora?
De tudo que você poderia me perguntar, me pergunta sobre meus óculos? Hahahahahha. Não faz nenhum sentido.
Nada na minha vida faz sentido Ethan hahahahhahh. Só observei porque me chamou atenção quando o vi entrar.
Eu tive uma complicação após um traumatismo craniano. Eu infelizmente não dei atenção a isso e comecei a ter hemorragias. Não tinha me dado conta, mas, eu tive AVC. As seqüelas foram paralisia parcial da parte esquerda do corpo e também da visão. Fiz fisioterapia, e consegui recuperar os movimentos do corpo. Mas a visão infelizmente ficou comprometida. Eu perdi 80% da visão do olho esquerdo. Assim que não me sinto confortável sem os óculos. É como se eu não fosse mais o Ethan, como se eu não fosse mais ninguém.
Eu... eu não imaginava que você tivesse passado por tudo isso. Mas não há uma cirurgia que possa reverter essa situação? Ou que ao menos ajude a melhorar mesmo que seja um pouco.
Eu poderia fazer, mas não é precisa. Porque o problema não está no olho, está no cérebro. Por isso eu desisti.
A música no bar estava amena. Alicia sem pensar muito se levantou e agindo apenas com o coração e no impulso se posicionou diante de Ethan. Ele apenas levantou a cabeça para olhá-la enquanto ela posicionava suas mãos no rosto de Ethan, uma de cada lado.
Seguindo o instinto, naquele momento Alicia levou as mãos até o óculos de Ethan, mas, ele rapidamente segurou suas mãos, olhando-a fixamente tentando entender qual era o seu objetivo.
Confie em mim. – Disse Alicia.
Sempre! – Respondeu Ethan.
Então rapidamente Ethan abaixou as mãos, assim Alicia se aproximou mais ainda de Ethan e lentamente retirou os óculos do rosto de Ethan.
Esses óculos, eles não define quem você é, e nunca definirá! – Sussurrou Alicia.
Enquanto falava Alicia colocava os óculos em cima da mesa. E ainda agindo sob emoção, colocou a mão no peito de Ethan. Involuntariamente sentiu como suas batidas eram cada vez mais rápidas e fortes, e como seu toque perturbava o corpo dele.
O que define quem você é, esta aqui no seu coração. Esse é o Ethan que você deve mostrar ao mundo! – Sussurrou Alicia.
Ao perceber a proximidade que havia entre ela e Ethan, rapidamente cortou o momento e voltou para o seu lugar sem falar mais nada. Simplesmente se sentou e continuou olhando para o Ethan assim como ele.
Me desculpe, acho que avancei um sinal vermelho. Se você se sente melhor usando os óculos, use-o. Eu não deveria ter feito isso. Me desculpe mais uma vez.
Na realidade pela primeira vez na minha vida, eu me senti a vontade estando sem os óculos. Obrigado.
Não há de que. Eu não queria ter...
Alicia! Não precisa se desculpar, fez bem para mim. E acabei de me lembrar que você ainda nem fez as perguntas que queria.
É estranho, Mas nesse momento não faz sentido qualquer pergunta que eu tenha pensado antes.
Por quê?
Porque de repente eu tenho a oportunidade de conhecer o verdadeiro Ethan. Não o que todos têm medo que eu conheça.
E você ficará bem assim?
Não sei. Eu apenas queria tentar nos dar uma oportunidade. Uma oportunidade de sermos amigos.
Eu consigo viver com isso.
Ethan há pouco eu terminei um relacionamento, um relacionamento que eu acreditava ser para a vida inteira. Me desculpe se estou sendo muito direta com você, mas não estou procurando nada disso.
Eu não esperava nada mais que sinceridade de você.
Apenas não quero que você crie expectativas a meu respeito, ou até mesmo uma nova realidade de algo que talvez nunca chegue a acontecer.
Compreendo perfeitamente Alicia. E como estamos sendo sinceros um com outro sobre o que esperar daqui para frente, eu também gostaria de sê-lo com você.
Fico agradecida por isso.
Eu apenas não posso esconder os meus sentimentos de você, e falar que não tenho expectativas também seria hipocrisia minha, até porque ninguém faria tudo o que fiz sem esperar nada.
É justamente por isso Ethan que não quero te dar esperanças de algo que nem mesmo sei ainda. Eu estou numa busca interna, e no meio dela encontrei você.
Eu aceito isso Alicia, apenas quero que saiba que enquanto eu puder lutar por você, enquanto eu tiver a chance não desistirei, nunca.
Enquanto Ethan falava, ele olhava fixamente para Alicia, esse olhar fez com que Alicia sentisse uma palpitação, e um frio na barriga que nem mesmo ela entendia como era possível. A proximidade, o som ambiente e as palavras de Ethan contribuíram para que Alicia se sentisse ansiosa.
Eu gostaria de tentar algo, vai soar um pouco estranho. Mas acredito que talvez com isso você se sinta menos pressionada ou confusa quanto a estar comigo. Quando eu falar sobre nós ou sobre o que sinto por você, falarei em terceira pessoa. E quando, e se é claro você se sentir prepara para assumir algo, eu volto para nós em primeira pessoa.
Realmente soou estranho. Mas pode funcionar.
Então vamos ver se funciona.
Me conte um pouco sobre o seu acidente.
Eu estava noivo havia um ano, namoro de faculdade. Estávamos juntos a quase cinco anos. Nos formamos e noivamos. Já estávamos preparando o casamento.
Isso é lindo, amor de faculdade.
Elly era fantástica, sempre foi a minha melhor amiga. Talvez tenha sido por isso que resolvi me casar com ela.
Sem entender as reações de seu corpo perto do Ethan, Alicia começou a sentir um incomodo quando Ethan começou a falar de sua noiva.
Hoje eu vejo que nunca senti amor pela Elly, sentia um amor de amigo. E então tinha a pressão da família para que nos casássemos. E foi por isso que resolvemos nos casar.
Pela maneira como você fala, parece que já não estão mais noivos.
Não. Ela se casou recentemente com meu melhor amigo.
Como assim?
Sim, e tenho que confessar que foi o melhor dia da minha vida, porque o noivado havia acabado, e Elly estava nos braços de alguém que eu sabia que cuidaria dela como eu faria. Enfim, estávamos indo ver as flores do casamento. Eu deixava Elly cuidar de tudo, mas claro ela queria que eu me envolvesse também. O dia estava claro, ensolarado. E Elly estava dirigindo, ela sempre fora muito prudente, Mas algo a distraiu, possivelmente um animal e nós saímos da pista.
Nossa.
Batemos contra uma árvore, Elly ficou poucos dias no hospital. Eu sofri traumatismo craniano, e várias outras coisas. Fiquei no hospital por muito tempo.
E mesmo você no hospital ela foi capaz de se apaixonar por outra pessoa?
Ela sofreu demais Alicia, não a culpo.
Mas quando amamos, não importa o tempo, ou a situação.
E se não for amor? E se for apenas carinho, respeito. Eu não a culpo porque ela provavelmente se sentisse como eu. E no meio dessa tormenta que foi esse acidente ela se apoiou em alguém que ela confiava e no final ambos se apaixonaram.
Mas você não sentiu isso como uma traição deles?
Eu senti que eles estavam tendo a oportunidade de serem felizes e como isso me bastava. Não acredito que havia amor entre nós. Não o amor verdadeiro.
E o que é para você, Ethan Muller, o amor verdadeiro?
O amor para mim, é um misto de emoções e sentimentos. Aquele frio na barriga quando encontramos a pessoa... – Por um momento Ethan descrevia como Alicia estava se sentindo, sem que ela tenha proferido uma única palavra. Enquanto ele falava, mais hipnotizada ela ficava. –...aquele desejo de proteção e cuidado, aquele sentimento de preocupação, aquela visão de futuro onde você não vê mais sozinho, onde tudo começa a fazer a sentido.
Entendi. – Respondeu Alicia.
E você Alicia Curts, acredita em amor verdadeiro?
Igual aqueles dos contos de fadas?
Para você o que eu relatei parece um conto de fadas?
Para mim você descreveu exatamente um.
Mas, você ainda não respondeu minha pergunta.
O amor é algo tão mais grandioso do que possamos dimensionar algum dia.
Isso quer dizer que você acredita?
Sim, eu acredito, eu apenas não acredito que seja tão cheio de frufrus.
Como o que?
O frio na barriga, a ansiedade.
Alicia Curts você já amou alguma vez?
Fui noiva também.
Não foi essa a minha pergunta. Eu fui noivo e também pensei amar ela, porém descobri mais tarde que não era amor.
Não sei se o amor se apresenta da mesma forma para todas as pessoas, mas ,sim já amei.
Alicia, o amor transforma, de alguma maneira e de distintas maneiras ele transforma, quando você o sentir você, com certeza, irá se lembrar das minhas palavras.
Acho que está ficando tarde Ethan, e Alexandra esta sozinha em casa.
Claro, vamos. Eu vou pagar a conta e te levo em casa.
Posso pedir um táxi.
Não por favor, eu faço questão de te levar.
Enquanto Ethan se dirigia até o balcão para pagar a despesa, Alicia ia se dirigindo para a saída.
Em poucos minutos estavam no carro seguindo para a casa de Alexandra. Estando tão perto de saber, de ter algumas de suas perguntas respondidas pensou que nada poderia ser assim tão difícil de entender. Mas, durante o trajeto havia muito silêncio, talvez todas as descobertas da noite tenham sido excessivas.
Sabia que havia passado por momentos difíceis, e que grande parte de sua mudança foi devido ao tempo que ficara em coma. Ethan então ligou o som e uma música suave tocava "...Nós podemos, podemos nos render?..." E os pensamentos de Alicia ficaram ainda mais confusos, ela poderia se render a essa paixão? Poderia se render a aceitar o improvável?
Quando voltou em si, Ethan a chamava, já haviam chegado a casa de Alexandra.
Alicia?
Ah sim!
Estava te chamando, mas, você parecia não estar aqui.
Foi uma noite bastante esclarecedora, só estava perdida entre meus pensamentos.
Espero que não tenha te assustado?
De maneira alguma.
Podemos nos encontrar amanhã?
E de alguma maneira sem entender como ou por que Alicia não conseguiu simplesmente recusar o pedido de Ethan.
Claro. Combinamos por mensagem.
Mas, você ainda não me passou seu número.
Eu tenho o seu.
Entendi.
Bom Ethan, obrigada pela noite. Foi muito boa.
Obrigada você pela companhia.
Nos falamos. Boa noite.
E assim Alicia foi abrindo a porta do carro. Ethan também saiu e se pôs de frente a Alicia.
Espero que você tenha bons sonhos. Boa noite Alicia.
E se aproximando Ethan lhe deu um beijo na testa. Sua única reação diante desse contato foi sorrir e lhe dizer:
Igualmente.
Ao entrar Alicia se dirigiu até seu o quarto e ficou repassando todos os momentos, ansiando o toque de Ethan, e reavaliando seus pensamentos e sentimentos. Vendo que o sono ainda não havia chegado, ela colocou uma música e deitou-se novamente na cama e então lembrou que poderia ler o livro que havia recebido, levantou-se e foi até a mesinha que havia no quarto, onde estava a caixa, retirou o livro de lá e voltou para cama.
Pegou-o como se estivesse degustando algo, virou-o de um lado a outro, e então começou a ler o prólogo da história enquanto no rádio tocava uma de suas músicas favoritas.
Dedilhou aquelas singelas linhas, e então como um flash em sua cabeça visualizou momentos distorcidos, mas, sentiu como se já houvesse lido aquelas palavras e de haver tido o mesmo sentimento que tinha agora.
Continuou a folheá-lo até última página na intenção de lembra-se de mais alguma coisa, por uma noite aquilo havia sido o suficiente para sua cabeça começar a doer.
Passando a mão pelo seu rosto, Alicia afundou-o no travesseiro e deitou-se mais uma vez na cama e assim ficou até que adormeceu.
Alicia não queria se precipitar com Ethan apesar de ter se sentido muito bem com ele na noite anterior. Decidiu esperar pelo menos um dia, para que pudesse assimilar tudo o que conversaram e tudo o que estava sentindo naquele momento.