"Existem certas pistas na cena do crime as quais, por sua própria natureza, não podem ser coletadas ou examinadas. Como coletar amor, raiva, ódio, medo? Essas são coisas que somos treinados para procurar. " James Reese
SOPHIE
Em alguma ruína da ilha deserta de Poveglia, Itália.
10 de setembro de 2025.
Entrar na mente de um psicopata é como adentrar uma casa com paredes, teto e chão de vidro.
Tudo está exposto.
Inclusive você.
Cometi meu primeiro erro quando dei corda a ele. Flertei com seu lado psicótico, deixei-o invadir minha mente e permiti que essa relação se tornasse pessoal. Fazer isso com um assassino comum é diferente: um jogo brando de trocas de informações. Com ele, foi sujo e desgastante. E, por mais que seja meu trabalho, não consigo evitar a sensação de estar manchando minha alma. Não há conserto para o que sinto agora. Cada milésimo de segundo revela uma nova descoberta. Aprendi que, para capturar alguém como ele, é preciso dominar a arte da calma, a paciência é essencial.
Mas há um preço!
Nos envolvemos demais. E, quando isso acontece, torna-se impossível distinguir o que é real e o que é manipulação.
Faz cinco meses e três semanas que estou neste jogo. Cinco meses ouvindo aquela voz misteriosa invadir meus pensamentos. Prever sua próxima jogada era o objetivo até que, de repente, fui eu quem se viu no tabuleiro, sem defesa, à mercê dele.
Meticuloso, calculista.
Ele orquestra cada passo com precisão cirúrgica. Não deixa rastros, nem testemunhas, e eu o subestimei.
Um erro.
Só um.
E ele transformou o peão em rainha.
Agora sou eu quem está do outro lado. Presa. Vendada. Esperando pelo fim. Apesar da escuridão, meus sentidos estão em alerta, posso ouvir, sentir e imaginar. Sei que estamos em um lugar bem afastado. O som do mar me diz que estamos isolados, ouço as ondas quebrando e se chocando contra a areia. Sinto o cheiro da natureza misturado ao do meu próprio medo, sua voz ecoa pelo alterador.
Fria, impessoal.
Impossível de identificar. E eu sei: no momento em que ele tirar a venda dos meus olhos... Estarei morta. Ele não vai me deixar ir, ele me conhece tão bem, a ponto de não me subestimar. Sei que posso gritar com toda a força... e ainda assim, isso não me libertaria. Estamos longe de tudo.
O vento quente entra pela janela e acaricia minha pele exposta, exceto pela lingerie que, provavelmente, foi ele quem me vestiu. Não consigo me mover. Aplicou algo que paralisou minhas funções motoras, e agora estou completamente à mercê dele.
A única certeza que tenho é que ele não vai me estuprar. Mas isso não explica as cordas ao redor dos meus pulsos e tornozelos, me prendendo à cama com firmeza. A espessura da corda, o modo grosseiro como foi amarrada, tudo isso foge dos padrões meticulosos dele. E isso, para mim, é um péssimo sinal.
Mas sei que ele fará tudo o que lhe trouxer prazer, e é isso que me atormenta. Meu peito sobe e desce com rapidez. A respiração curta. O desespero silencioso. Sei que a porta irá se abrir a qualquer momento, e quando isso acontecer a tortura vai começar.
Fui tola ao acreditar que conseguiria resolver este caso antes dos próximos corpos aparecerem, posso desaparecer, e tudo continuará.
Ele vai matar de novo. Tudo o que sei sobre ele está nos relatórios, recortes incompletos de um quebra-cabeça que jamais fechou.
Faltam peças.
Faltam respostas.
Falta tempo.
Quando perdemos um dos sentidos, os outros se aguçam, consigo ouvir ruídos suaves vindo de fora da casa e de dentro. Sinto as lágrimas escorrendo lentamente pelo meu rosto. O ranger alto da porta se abrindo marca o ápice do meu tormento. Ela se fecha com um estalo seco e então ouço os passos.
Lentos.
Precisos.
Eles se aproximam... Até pararem ao lado do que imagino ser esta cama macia onde estou amarrada, o colchão afundou, seus dedos tocam meu braço. Subindo devagar, como uma doce tortura, para ele.
- O efeito da droga que está circulando em seu organismo vai passar em breve.
A voz grave preenche o que imagino ser o quarto. A entonação metálica, distorcida pelo modulador, confirma que não verei o rosto do meu carrasco.
- Talvez sinta uma dormência maior no braço. Tive que remover o rastreador e realizar uma pequena cirurgia. - A voz estava calma, controlada. Sabia demais. - A dor vai desaparecer com o tempo...
Mesmo paralisada, sinto tudo. Suas mãos são suaves, quase gentis, enquanto deslizam pelo meu corpo como se o estivessem explorando.
- Mas devo alertá-la: você pode gritar, espernear, até mesmo tentar se soltar... mas descobrirá que as cordas apertam mais. E eu realmente não quero que se machuque.
Minha respiração acelera quando seus dedos tocam o vão entre meus seios e sobem até meus lábios, roçando-os com lentidão. O cheiro de amêndoas toma o ar.
- Você e eu temos tanto em comum... - ele continua - Agora vou preparar nosso almoço enquanto seu corpo se livra das toxinas. Quero você acordada e alerta para tudo que fizermos juntos. - Ele faz uma pausa. Em seguida, desce a venda dos meus olhos. Instintivamente, fecho-os em um gesto de defesa. - Abra. - sussurra.
Mesmo trêmula eu obedeço, por trás da máscara negra, vejo olhos frios, de um azul cortante. A máscara cobre apenas parte do rosto, mas é o suficiente para entender que ele está irritado e tentando provar que estou errada. O fato de ter saído da sua zona de caça, de ter cometido um erro, talvez tenha sido uma exceção. Uma oportunidade rara.
- Você é ótima em análise comportamental e construção de perfis psicológicos, mas falhou ao ler as entrelinhas. - Sua voz permanece calma, mas cada palavra carrega um peso gélido.
Meu corpo ainda dói. Sei que logo estarei consciente o suficiente para reagir, mas não faço ideia de onde está minha equipe, se estão me procurando ou se sequer notaram meu desaparecimento. Ele cometeu um erro ao me escolher.
- Me decepcionou, senhorita Sophie. Imaginar que os assassinatos eram apenas por frequentarem o clube? Muito raso... até mesmo para você. - Avisaram-me para não seguir esse caminho, mas eu não sou boa em ouvir conselhos. - Pretendo corrigir essa sua opinião. - Meu corpo estremece. Ele estava prestes a sair dos padrões. Eu quis gritar, mas o efeito da droga ainda me prende.
- Vai me matar? - sussurro, com a voz fraca.
- Calma. Não sou o monstro que você pensa. - Ele sorri, um sorriso dissimulado, confiante. - Devo dizer que você foi enganada o tempo todo. Eu fui seu captor... mas não sou seu salvador. Você me odeia por tê-la trazido aqui, mas fiz isso para o seu próprio bem. Agora, mantê-la viva é minha responsabilidade. - Ele faz uma pausa, e então sorri, aquele sorriso cínico, quase debochado. - Não vou matá-la, nem torturá-la, muito menos violar seu corpo, que você tanto teme, só preciso te contar exatamente no que está se metendo, antes que me diga o que fará com o que vai ouvir. Relaxe. Se for uma boa menina, posso até te desamarrar... aos poucos.
- Do que está falando? - minha voz mal sai. - Um psicopata com consciência? - Começo a rir da sua expressão. - Sabemos que, no momento em que tirar essa máscara, estarei morta. Mas há falhas no seu plano...
- Eu sou um homem de palavra, senhorita Sophie. - Ele me interrompe, firme. - Mesmo que seu corpo todo amarrado e indefeso me excite, prometi não lhe causar dor. Se quebrar o acordo... ele não me perdoará. Ele gosta de você, ou já estaria morta. - Ele sorri, enigmático. - Além disso, tenho outra convidada no quarto ao lado - diz com um brilho tenebroso nos olhos, e um arrepio me percorre a espinha.
Sinto meu corpo estremecer, a garganta seca, a respiração presa no peito. Gaguejo, tentando formar a pergunta:
- E-e-ela... quem?
- Charlie. - Ele sorri, com um prazer sádico. - Está amarrada no outro quarto. E, se fizer alguma gracinha, posso deixá-la cheia de arrependimentos. Sua amiga pode sofrer. Pode morrer.
- Não a machuque! - imploro e ele parece satisfeito com meu desespero.
- Isso depende só de você. - Estou tonta, tudo dói, minha cabeça gira. - Sabe por que nunca conseguiu me prender? Por que seu perfil nunca se encaixou? Porque você sempre esteve dois passos atrás.
- Você está vendo isso tudo pela perspectiva errada, senhorita Sophie. Sabe por que nunca definiu um perfil correto? Por que nunca me prendeu? - neguei balançando a cabeça - Nenhuma daquelas pessoas era inocente. Cada uma mereceu o que teve. E eu sou muito mais do que a voz no telefone... - Seus olhos brilham. Há um entusiasmo obscuro ali. Uma lembrança das vítimas que parece o embriagar. - Não vai me prender, mas também não espalhará mais mentiras. Você será minha confissão. Contará ao mundo por que eu fiz isso. E depois... voltaremos à caçada. Desta vez, serei sua presa. E meu rosto será a resposta para os verdadeiros criminosos. - Vamos começar do início.
A porta se abre e uma nova figura entra. Mas essa... essa eu conheço. Um homem de feições suaves, olhar frio, diferente de tudo que ele me mostrou antes. Meu coração dispara. A respiração falha. Nunca imaginei que ele seria capaz de algo assim.
- Como eu disse ao meu amigo: só eu posso tocá-la. Aliás... olá, Sophie. Surpresa em me ver? - Puxa uma cadeira e senta-se à minha frente, sorrindo. - Você estava certa sobre serem dois psicopatas. Só desconfiou da pessoa errada. Temos, sim, uma história para contar. E ela precisa começar do começo. - Seu sorriso é genuíno, quase entusiasmado. - O que fazemos é justiça. Uma troca justa, se levarmos em conta o que cada uma daquelas pessoas fez para morrer. Ele executa. Eu garanto que nada nos ligue aos crimes. - Mas então... ele muda o tom. - Nossa parceria está chegando ao fim e encontrei algo que vale a pena lutar mas, convencê-la disso não será fácil... Ele vai se suicidar por nós.
Fui vigiada desde o momento em que cheguei a Florença e agora, sou a vítima.
Mas não serei uma vítima passiva.
Agora eu sei quem eles são.
E não será tão fácil me dobrar.
Florença em Tons de Cinza
Residência abandonada na Toscana, Itália
27 de Maio de 2025
Sempre gostei de observar as pessoas: suas expressões, fisionomias e tudo que pudesse me ajudar a revelar quem, de fato, elas eram. Dediquei-me intensamente, e cada passo da minha trajetória exigiu esforço. Cheguei onde estou por mérito. Sou a melhor no que faço, e não deixo que esse território masculinizado me diminua. Sou dona de mim. Uso tudo ao meu alcance para conseguir o que desejo, sem perder o poder que possuo.
Há cinco dias, fui informada de que seria designada para uma nova missão, a mais importante da minha carreira. Se capturasse o responsável, poderia escolher qualquer cargo, em qualquer lugar. Um novo serial killer estava aterrorizando a Toscana, matando inocentes sem um padrão lógico, como todo psicopata. A sede da investigação: Florença.
Enfrentei um voo de mais de quatro horas. Minha mesa me aguardava com tudo pronto para o início do trabalho. Já havia me inteirado do modus operandi dele, estudei-o por dias, e cada detalhe estava gravado em minha mente. Acredito que ele escolha as vítimas antecipadamente e, de alguma forma, as conheça. Não há sinais de arrombamento. A forma como ele as deixa indica que é muito mais perigoso do que todos imaginam.
Esse "unsub" não descarta suas vítimas. Ele as mata lentamente, torturando-as de forma intensa e cruel. Sempre deixa um vídeo propositalmente no aparelho de DVD, mostrando-o amarrando a vítima na cama, aterrorizando-a por horas, obrigando-a a fazer tudo o que lhe vem à mente - sem padrão, sempre no improviso. Quando está no controle e a vítima admite merecer aquilo, ele a estrangula e assiste à agonia final.
Mas o que mais intriga é o cuidado com que monta a cena. Após o assassinato, ele dá banho nelas, perfuma seus corpos com os mesmos óleos corporais, maquia-as, pinta suas unhas, veste-as como prostitutas e posiciona os corpos impecavelmente em algum cômodo visível da casa. É meticuloso. Por isso, os jornais e blogs o apelidaram de "O Assassino das Bonecas". Eu, particularmente, detesto quando dão nomes a psicopatas - isso alimenta o ego doentio deles, gera teorias, perseguições e até fã-clubes. E esse foi o maior erro: não controlar a imprensa.
Bati as pontas dos dedos no banco do carro. As luzes de Florença brilhavam sob o céu noturno como joias em um manto negro, olho para o relógio em meu pulso, pouco mais de dezenove horas, respirei fundo, tentando organizar os pensamentos. Sorte minha ter optado por uma blusa branca de cetim leve, acompanhada de um conjunto de saia e terno preto. Coloquei os óculos escuros para não encarar o sol diretamente. Suspirei alto. O taxista que deveria me levar até minha nova casa precisou mudar a rota, outro corpo havia sido encontrado. Eram tantas vítimas ao longo dos anos que me pergunto como não o pegaram antes.
Três anos. Esse foi o tempo que o deixaram livre. Percebi que a inconsistência entre os intervalos das mortes o tornava ainda mais perigoso. Começou com quatro meses entre os crimes... agora, temos um corpo novo a cada semana. Outro padrão: cada vítima era morta de uma forma diferente, mas havia uma técnica comum. E algo a mais, cartas de tarô, desenhadas à mão, sombrias e únicas, deixadas ao lado de cada corpo.
Vinte e nove vítimas, todas assassinadas com o mesmo padrão. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista concreta. Exceto por uma: a estética da morte, a arte, a composição das cenas, o respeito quase reverente pelos corpos... Era mais do que um psicopata. Era um artista da morte. Peguei o relatório de novo. As anotações que escrevi à mão estavam circuladas, rabiscadas, destacadas com raiva. Algo não se encaixava. Algo me escapava.
"Perfis fragmentados, motivação difusa e execução perfeita."
Apenas percebi que o táxi havia parado quando o motorista me chamou pela segunda vez, "chegamos moça... Moça? Já chegamos", paguei a corrida e o motorista desceu para ajudar com as malas. "Você está obcecada demais!" A voz em minha mente me tirou do transe, observei ao redor: a cena era um verdadeiro espetáculo. Faixas amarelas delimitavam a área do crime, mantendo os curiosos afastados. A casa era enorme.
Aproximei-me, mostrei meu distintivo e pedi que colocassem minhas malas na viatura. Peguei apenas minha maleta prateada com o kit forense, vesti o jaleco azul e arrumei o fio da câmera no pescoço. Respirei fundo. Ao entrar, o cheiro forte de alvejante me atingiu como um soco.
Segui as vozes até a sala. Agentes fotografavam e recolhiam possíveis evidências, mas se conhecessem de fato o criminoso, saberiam que era perda de tempo. Como nas outras cenas, havia fortes indícios de que não encontrariam nada.
Encostei-me à parede e ouvi a conversa.
- Como nas outras cenas, ninguém ouviu ou viu nada - comentou uma agente de cabelo curto.
- Ele está ficando mais ousado. Veja como posicionou essa moça... como se fosse uma boneca - disse outro, a única diferença entre as bonecas e as vítimas, eram os olhos esbranquiçados pós mortem - E foi em apenas seis dias. O cerco está se fechando, ele sabe disso. Vai cometer erros.
- Aí é que você se engana - interrompi, firme. Todos se viraram - Ele não está sendo ousado. Psicopatas não jogam dados. Eles planejam cada detalhe. Ele sabe que o estamos caçando, e aprecia o jogo. Vê-lo assim, nos confundindo, é parte da sua diversão. E o cheiro de alvejante que inunda a casa? Significa que qualquer evidência será inválida. Vocês ainda esperam encontrar uma digital? Além disso, posso supor que ele pode se tornar instável quando algo sai fora do controle.
Um homem se aproximou de forma imponente, ele tem pouco mais de trinta anos, cabelo negros, olhos castanhos gélidos e intenso, uma barba bem feita, um porte físico que indicava força e autoridade. A fúria em seu olhar era quase palpável, nada amigável, uma junção perigosa a meu ver
- Aqui é uma cena de crime, não um palco para amadores ou curiosas tentando sair na primeira página do jornal - rosnou. Sua voz rouca e intimidadora me causou um leve arrepio - Saia, ou eu mesmo a retirarei.
Respirei fundo. Tirei os óculos e sorri. Mais um babaca tentando me intimidar.
- Não vai fazer isso. Sabe por quê? - mordi o lábio, deliberadamente - Porque sou a agente especial Sophie, da Europol. Fui transferida para formar uma força-tarefa conjunta. - Levei os óculos à boca e observei como seus olhos seguiram o movimento - Agora... posso trabalhar, ou quer competir pra ver quem tem o maior pênis? Já aviso que irá perder. - Ele pareceu engolir em seco. Irritado.
- Sou o agente Harrisom e esta é a minha equipe! - Notei a possessividade em sua voz, mas não me deixei intimidar. Ele não se apresenta pelo primeiro nome, apenas pelo sobrenome, e isso já diz muito sobre alguém.
- Teremos tempo para apresentações mais tarde. Vamos à cena do crime? - estendi a mão, mas ele simplesmente ignorou. - Vou interpretar sua falta de profissionalismo como um "sim". Ver a cena pessoalmente, e não apenas pelas fotos, pode me ajudar a entender melhor. Quem é a analista comportamental? - perguntei calmamente, me aproximando da moça.
- Sou eu, agente Bethy! - ela estendeu a mão e me cumprimentou. - Mas ainda não temos um perfil concreto. Esse homem é minucioso, temos apenas uma ideia muito superficial. - notei pela voz que estava cansada, mas ainda conseguia sorrir com um charme despreocupado. Meu oposto.
- Acredito que o primeiro ponto a ser analisado é: quem são as vítimas? Entender o motivo pelo qual ele as escolheu pode nos levar ao perfil. - O agente posicionou-se atrás de mim. Talvez tentasse me intimidar. Senti sua respiração nos meus cabelos.
- Já tentamos isso, mas não conseguimos muita coisa!
Umedeço os lábios e passo a analisar, com atenção, cada detalhe ignorado na primeira abordagem. Então, os indago:
- O que, de fato, sabemos sobre as vítimas?
Observo o corpo milimetricamente. Ela estava deitada no sofá, como se posasse para um artista. Maquiada. Cheirosa. Cabelos perfeitamente escovados. As roupas - vulgares - seguiam o padrão das outras vítimas. Talvez ele os escolhesse por parecerem prostitutas ou garotos de programa.
- Todas moravam em Florença. Tinham vidas exemplares, filhos, maridos ou esposas. Participavam ativamente da sociedade. O mais estranho é a vestimenta: não condiz com quem realmente eram. - A agente Bethy me encara, confusa com algumas particularidades da cena. - Eles não faziam programa. Eram casados, com famílias aparentemente perfeitas. Não frequentavam a mesma igreja, nem os mesmos lugares. Nenhuma família conhece a outra. É como se a escolha fosse aleatória.
- Talvez estejam olhando para o lado errado do crime. - explanei. Notei que Harrisom não gostou.
- Que lado errado? - perguntou, sem esconder o tom ríspido.
- O lado sentimental. - Não deixei que ele retrucasse e continuei: - Estão esquecendo que este psicopata enxerga o mundo de forma distorcida. Algo o motiva - ainda não sabemos o quê - mas ele não vê suas vítimas com pena. Existe uma raiva profunda pelo objeto que ele ataca. Há um padrão, e é nosso trabalho descobrir qual.
- Você é sempre assim... gélida? - ele perguntou. Sorri com sua provocação.
- Não é frieza. É objetividade. Este caso exige precisão, não sentimentalismo. - Peguei a câmera e tirei algumas fotos da cena. Ignorei todos ao meu redor. Precisava focar nos detalhes que me revelariam mais do que se via a olho nu.
A construção do ambiente revelava: ele a torturou psicologicamente por horas. O legista se ajoelhava ao lado do corpo. Após algumas análises e medir a temperatura do fígado, concluiu-se que a morte ocorreu há dois dias. Dois dias... e ninguém viu ou ouviu nada.
Ele as obriga a cozinhar, limpar... mas apenas elas comem. Isso mostra seu conhecimento dos nossos procedimentos - e o quanto é esperto.
Notei que ninguém havia se preocupado em verificar o aparelho de DVD. Me aproximei, liguei o aparelho e inseri o disco. Ainda não havia assistido os outros vídeos, mas conhecia algumas fotos - elas estavam apavoradas.
- Viram o filme? - perguntei.
Todos negaram com um balançar de cabeça. Péssimo sinal. Começamos mal. Apertei o play, assisti alguns segundos e desliguei. Coloquei o disco em uma sacola de evidências.
Então, algo chamou minha atenção. Em uma pilha de possíveis provas, dentro de uma sacola de evidências, havia um envelope vermelho.
Lembrei-me de cada cena de crime, e nenhum envelope havia sido relatado nos relatórios ou incluído entre as provas. O mais estranho era o que estava escrito, à mão, na frente do envelope: "Sophie Beauchamp"
Meus dedos hesitaram por um segundo. Coloquei as luvas e abri o envelope com cuidado, mantendo o controle sobre minha respiração. Dentro, havia uma única folha dobrada, escrita com uma caligrafia impecável:
"Você chegou, bonequinha, Finalmente! Cada escolha leva a uma porta. Você abriu a errada. A beleza da arte está em quem a interpreta, e você está interpretando tudo errado. Mas tudo bem... estou aqui para guiá-la. Esse corpo é só o começo."
Engoli em seco, lutando para manter a postura. Iria compartilhar essa pista com a equipe no momento certo, mas havia algo inquietante naquela mensagem, algo pessoal. Imprudente da parte dele me provocar assim... ou seria intencional? Mais perturbador ainda era a ideia de que ele sabia exatamente quem eu era. Eu podia contar nos dedos quem tinha conhecimento da minha vinda, então uma pergunta me trouxe novamente a realidade.
- Por que mandaram você pra cá? - perguntou um dos homens, enquanto analisava o celular e o computador da vítima.
- O senhor é...? - perguntei, encarando-o pela primeira vez.
- Analista Collins. Trabalho com análise técnica. - respondeu com orgulho.
- Me enviaram porque nossos superiores querem respostas. O governo quer silenciar o alvoroço da mídia. Vim para resolver este caso e prender o responsável o mais rápido possível. - Fiz uma pausa e me levantei. Vesti as luvas e me aproximei do corpo. Afastei delicadamente as mechas de cabelo do pescoço e fotografei as marcas de asfixia. - E porque um ano e meio é tempo demais para um caso aberto. Pior ainda: com corpos surgindo regularmente. Antes era um a cada dois meses... agora é um por semana.
Olhei para todos à minha volta.
- Isso mostra como ele pegou gosto pela coisa. Como está ousado. Destemido.
- Já processamos a cena, chefe. Vamos ao departamento analisar as evidências. - disse Harrisom com um tom autoritário. Tentava reafirmar sua posição. Provavelmente sentia-se rebaixado. Isso o incomodava.
- Tudo bem. Irei para casa trocar de roupa e os encontrarei na sala de reuniões. Quero estar a par de tudo. - concluo. - Aprendi algo neste trabalho: nem todos são inocentes. Nem todos são culpados. Precisamos aprender a interpretar as entrelinhas, porque às vezes as pessoas mentem tanto... que começam a acreditar nas próprias mentiras. E fazem os outros acreditarem também.
Tirei as luvas, descartei-as e guardei as evidências recolhidas na maleta, entregando-a a Harrisom, que me lançou um olhar de raiva. Ignorei.
Um dos peritos organizava as plaquinhas amarelas, posicionando-as sobre as possíveis evidências antes de fotografá-las - apenas por garantia. Em breve, teríamos todo esse material em mãos.
Faltava apenas uma coisa.
Peguei os óculos laranja do kit e coloquei-os, junto com a lanterna de luz ultravioleta. Vasculhei o ambiente em busca de vestígios de sangue.
Foi quando vi.
Manchas.
Vestígios que ele nunca deixará antes.
Fiquei surpresa.
Ele cometeu um erro?
Agora o jogo estava começando a ficar interessante.
"O mal nunca é fora do comum e sempre humano. Compartilha nossa cama e come à nossa mesa. "(Poeta W. H. Auden)
Enquanto todos saíam e o perito terminava de posicionar as placas, solicitei que borrifassem luminol pela casa e apagassem as luzes. Faríamos uma busca minuciosa por vestígios de sangue ou qualquer substância que pudesse nos ajudar a identificar o culpado. Era como procurar uma agulha em um palheiro.
Para me ajudar, Harrison ficou. Começamos a vasculhar cada cômodo. Mas algo não fazia sentido.
Subi as escadas e entrei no quarto. Notei a mala feita em cima da cama - uma particularidade presente em todas as demais vítimas. Porém, nas outras, não havia digitais, nem traços de DNA. Nenhum rastro.
Fiquei mais de uma hora sozinha observando cada detalhe, até começar a questionar em voz alta:
- Há um sinal claro de luta aqui. Quadros quebrados... mas cadê os cacos? E mais interessante: onde foi parar a sujeira deles? - murmurei, incomodada com a precisão cirúrgica do assassino.
- Eu apostaria no lixo - respondeu Heitor.
Olhei para ele, confusa e surpresa.
- Peça a dois peritos que revirem o lixo no quarteirão, em busca de algo relevante - pedi. Ele pegou o celular e passou a ordem. Notei uma aliança em seu dedo e não resisti à pergunta:
- Tem filhos?
Ele assentiu com um sorriso leve.
- Sim. Uma menina linda de seis anos, sapeca e adorável, chamada Lis. Mas, se depender da minha esposa, temos muitos planos para aumentar a família.
Havia felicidade em sua voz. Mordi o lábio e me agachei para analisar o tapete.
- E você?
- Não tenho filhos, não tenho marido... e não acredito em relacionamentos duradouros. Só casos de uma noite, sem muita significância - respondi, sincera. Não gosto de me envolver. Sei muito bem como quem se ama pode sofrer por causa do trabalho que realizamos.
- Interessante... - murmurei, voltando o foco para o chão. - Há gotas gravitacionais respingadas no tapete. Acho que são da vítima.
Peguei um swab, coletei o material e guardei no tubo. Ele brilhou em tom púrpura: sangue.
- Então houve uma luta neste quarto. Ele a domina e depois a amordaça. Mas não há sinal da corda, nem da amarra - comentei, franzindo a testa. Ele era esperto. Nunca deixava nada para trás. Sem exceção.
- Mas como ele a domina sem que grite? - Heitor perguntou, intrigado.
Essa talvez eu soubesse responder.
- Todas as vítimas eram casadas, correto? E tinham filhos, se bem me lembro. Isso me leva a crer que ele as chantageia. E elas acreditam, até o último segundo, que vão sobreviver. Mas algo me diz que ele se alimenta do medo delas... que gosta de vê-las implorar pela vida enquanto ela escapa de seus olhos.
Heitor apenas assentiu em silêncio.
Revisamos todos os cômodos. Nada mais. Até a pia e o ralo do banheiro haviam sido limpos e desinfetados. Nenhuma pista restou.
- Vou direto para o laboratório. Mas, se quiser, posso te deixar em casa. Seria uma forma de me desculpar pelo jeito como meu chefe agiu. Ele não está acostumado a dividir o osso - nem a perder para uma mulher, ainda mais sob os holofotes da mídia.
Sorri. Ele parecia sincero, então aceitei.
Descemos as escadas e liberei o corpo para o legista. Considerando tudo que coletamos, só podia concluir que seria uma longa noite.
Pegamos minhas malas e as colocamos no porta-malas. Foi uma viagem longa, o suficiente para termos uma conversa informal. Heitor era focado, determinado. Jamais havia desistido de caçar esse criminoso. E, agora, o mais importante era impedir que novas mortes acontecessem.
Assim que o carro parou, ele deu a volta rapidamente e abriu a porta para mim. Fiquei surpresa. Cavalheirismo era algo raro. A casa era bonita, o bairro parecia calmo. Era perto do local onde eu trabalharia, mas não conhecia bem a cidade e poderia facilmente me perder.
Ele insistiu em esperar no carro. Recusei. Pedi que aguardasse na sala - não tinha nada para oferecer, ainda não havia feito compras, mas ele disse que daria um jeito.
Subi com minhas malas. E enquanto caminhava escada acima, uma dúvida pairava sobre mim:
Como ele caçava suas vítimas?
Precisaria de um carro grande... talvez uma van, algo comum aos olhos dos outros. Um veículo que não chamasse atenção. Mas não acredito que fosse um carro qualquer. Ninguém entra voluntariamente num carro assim. Ele é cuidadoso. Confiante. E está evoluindo suas técnicas.
Poderia ser um taxista? Talvez. Mas nada explicava como ele as pegava. Onde ele as abordava. E, principalmente, por que as escolhia.
Sabemos de uma coisa: ninguém viu as vítimas sendo sequestradas ou forçadas. Não havia sinais de arrombamento nas casas. Isso deixava claro duas possibilidades - ou ele foi convidado a entrar, ou a vítima estava inconsciente, e ele entrou se passando por alguém conhecido.
Incógnitas.
Que eu vou descobrir.
Às vezes, psicopatas mudam o modo de agir por razões que, para eles, parecem óbvias - e para nós, meras suposições. Pode ser para nos confundir... ou apenas para saborear novas sensações. Algumas vezes, é só pelo prazer. Na maioria dos casos, é a raiva pela vítima - ou pela ocasião - que o faz alterar seu método, sem jamais abandonar sua assinatura.
Mas havia algo estranho nesse suspeito. Enquanto eu me aprofundava nas evidências, sentia como se fossem dois assassinos. Não era provável... mas era uma sensação persistente.
A assinatura me dizia que não era uma mulher, e sim um homem meticuloso, organizado, focado. Um jogador. Ele quer nos dizer algo - ou mostrar. Mas o quê?
Eu havia tirado a roupa do dia e usava apenas uma lingerie branca rendada. Algumas peças estavam estendidas sobre a cama. Precisei decidir a mais formal, a que passasse mais autoridade. Meus pensamentos ainda estavam embaralhados.
Batidas suaves na porta me puxaram de volta à realidade. Respondi que já estava indo. Esqueci completamente que ele me esperava na sala. Deve ter se preocupado com a minha demora.
- Me desculpe, é que fiquei preocupado. Meu chefe me mataria se perdesse nossa convidada. - Ele parecia sincero.
- Obrigada - agradeci, suspirando. - Só me perdi num pensamento que não sai da minha cabeça... Como ele escolhe suas vítimas?
A pergunta de um milhão de dólares.
- Tentamos seguir os passos das vítimas, mas não chegamos a nada sólido. Não há padrão. A única semelhança é que todas desapareceram sozinhas, em locais movimentados. Mas cada uma foi vista em um lugar diferente, sem conexões claras.
O caso era um labirinto - e eu sempre gostei de enigmas.
Escolhi um terninho preto com uma camisa social branca. Séria. Profissional. Depois de calçar a bota, chamei sua atenção:
- Por que não pediram ajuda antes?
- Porque, no começo, não era uma vítima por semana. Ele deixava os corpos em locais abertos, com pouca ou nenhuma segurança. Foi só há menos de um ano que ficou ousado. - Ele fez uma pausa e me encarou. - E tem mais: as casas onde os corpos foram encontrados não pertenciam às vítimas. Estavam vazias há algum tempo. Mas, há menos de um ano, começou a ficar ousado, recebemos uma denúncia anônima, e a ligação era sempre de um número descartável, impossível de rastrear e ele usava um alterador de voz. Cada vez, um número diferente.
Ele fez uma breve pausa, e então se virou para me encarar.
- Entendi. Mas quero deixar claro que estou aqui para ajudar. Vim como cortesia da Europol, mas, se eu sentir que preciso tomar a frente da investigação, farei isso sem pensar duas vezes. Há pessoas morrendo, senhor Collins.
Ele estendeu a mão e eu a apertei.
- Heitor, a propósito. - Ele sorriu, soltando minha mão. - Acho que começamos com o pé esquerdo. Não costumo confiar nas pessoas, mas toda ajuda é bem-vinda. Só peço paciência com o Gabriel. É um bom homem... e um agente ainda melhor. Mas desde que perdeu a esposa, há seis anos, ele nunca mais foi o mesmo.
Não soube exatamente onde ele queria chegar com aquilo, mas deixei passar.
- Está pronta? - perguntou.
Concordei com um aceno, guardei as roupas que não usaria na mala e peguei minha bolsa. Haveria tempo para desfazê-la. me instalar depois.
***
Heitor me levou até a sede. Assim que entramos, percebi os olhares curiosos - e alguns, nada amigáveis. Fofoqueiros. Como se fossem me intimidar com expressões azedas. Patético. Apesar disso, notei que todos trabalhavam com afinco. Mas havia algo que não se encaixava nesse jogo macabro. Em certos momentos, o psicopata parecia... outra pessoa.
Isso me fascinava.
Heitor me conduziu até a sala de reuniões. Sem surpresa, a equipe já discutia sobre a nova vítima. Fiquei impressionada com a estrutura: uma tela digital grandiosa que processava e analisava dados em tempo real.
O agente Harrison se calou no instante em que entrei e esperou me acomodar para me lançar um olhar fulminante, o suficiente para atravessar minha pele.
- Está atrasada. Aliás, os dois estão. E você, Heitor, disse que só a acompanharia até em casa. Parece que se perderam no caminho. - O tom dele era ríspido, acusatório. Respirei fundo antes de responder, com suavidade.
- Você não é meu chefe para exigir justificativas. Quanto ao Heitor, ele foi um cavalheiro. - Fiz questão de usar um tom ambíguo. Que ele interpretasse como quisesse. Nossos olhos se encontraram por um segundo. Bastava isso.
- Heitor vai se sentar ou vamos continuar perdendo tempo? - O agente se acomodou.
O agente Harrisom estava visivelmente irritado e ficou emburrado quando foi interrompido por Heitor que me apresentou ao resto da equipe:
- Estes são os membros da nossa equipe: Ryan, Celine e Bethy. Nossos chefes estão em reunião e nos encontraremos mais tarde. Essa é a agente Sophie, enviada pela Europol para colaborar na investigação. - Ele revirou os olhos. - Essa é a Karen, nossa hacker. Está conosco há cinco dias e já é a mais habilidosa com quem trabalhamos.
- Prazer em conhecê-los. - Cumprimentei com um sorriso contido. - Fico feliz que tenha conseguido se adaptar, Karen. Já trabalhamos juntas. Fui eu quem a indicou para esse caso. Mas gostaria de esclarecer algo: vim como consultora. Não para assumir a investigação, nem para roubar os holofotes da mídia. Apenas em último caso. Então, agente... ainda não me disse seu nome.
O encarei. Ele parecia se irritar ainda mais comigo. Se eu não fosse mulher, talvez já tivesse explodido. Se eu fosse homem, ele teria mudado o tom há muito tempo.
- Acredito que esteja desinformada. Seu diretor foi muito claro sobre sua função. Sou o agente Gabriel, a propósito. Pode continuar de onde parei já que veio assumir o caso. - Se sentou como uma criança birrenta negada ao doce.
- Preciso falar com o John. Um instante.
Antes que eu saísse, ele murmurou uma provocação:
- Já se chamam pelo nome, ela deve ter muita intimidade com o diretor.
Levantei-me e, ao sair, ouvi uma provocação dele, baixa o suficiente para cutucar minha paciência:
- O namorado não contou tudo a ela.
Mal sabia ele o tipo de relacionamento que eu tinha com o diretor da Interpol.
- Pelo menos alguém aqui ainda transa. - Disparei e saí da sala com elegância, peguei o celular e disquei para meu pai. Ninguém precisava ouvir aquela conversa.
Do lado de fora, ele atendeu e observei sua expressão, aquele sorriso de quem sabe que aprontou.
- Que história é essa de me colocar na liderança da equipe? Vim como apoio, não para causar intrigas. - Falei direto, irritada.
- Princesinha, que surpresa. Boa noite pra você também! - Ele fez voz de ofendido
- Sem teatrinhos. O que não está me contando? - Ele suspirou.
- Foi ordem superior. Eu só cumpri. Coloquei você na liderança quando o agente responsável não estava apresentando resultados. Tive que agir. Me perdoe por não avisar antes. - Suspirei, massageando a têmpora.
- Agora entendo a raiva do Gabriel... Ele acha que vim roubar o lugar dele. Isso só vai piorar a tensão.
- Desde quando você se importa com comentários?
- Desde que interferem no meu trabalho. Não preciso de mais atritos. Só quero fazer o que vim fazer.
- Se alguém criar problema, resolva. Corte o mal pela raiz... ou então... transe com o problema. Vai que o benefício é mútuo.
- Pai! - exclamei, envergonhada. - Faz isso de propósito? Por favor, só me avise antes de agir pelas minhas costas. Agora preciso resolver isso em paz.
- Só te preparando pro mundo real,lembre-se: a bondade, nesse mundo, raramente é uma vantagem. Me avise da próxima vez que tiver uma situação delicada.
- Está bem. Boa noite, pai.
- Boa noite, princesinha.
Desliguei e guardei o celular no bolso, ao me virar, dei de cara com Gabriel. Seu olhar era de pura confusão, literalmente.
- Ele é seu pai?
Não respondi. Segui em direção às escadas. Mas ele segurou meu braço, forte o bastante para me parar. O choque dos nossos corpos foi imediato. Nossos corpos estavam perigosamente próximos. Sua respiração quente tocava meu rosto.
- Fiz uma pergunta. E gosto quando me respondem. - Seu tom era baixo, quente... mas hostil. Estava um degrau abaixo de mim.
- Me solte. Ou eu grito.
- Quando me responder, eu solto. - Sua respiração quente roçava meu rosto. - Não sou um monstro, mas aqui... é a minha cidade. Minha equipe. Meu caso. E aqui, minha palavra é lei. Não vou deixar que despeça meus agentes.
Seu olhar estava preso aos meus lábios.
- Sim. É meu pai. E se me tocar de novo, eu quebro sua mão... e seu braço. Estamos entendidos?
Engoli em seco. Seus olhos estavam fixos nos meus lábios.
- Se eu realmente a tocasse... duvido que houvesse arrependimentos.
- Nunca! - Disparei.
Ele parou na porta, ainda sorrindo.
- Profissionalismo, senhor Harrison. Só isso que espero desta relação de trabalho.
Ele passou a língua pelos lábios.
- Quem disse que desejo algo mais? Aliás, desejo apenas que vá embora... e rápido.
Afastei-me. A cada passo, meu coração batia mais rápido. Ele era um homem perigoso. E de homens perigosos... eu sempre mantive distância.
Respirei fundo e me afastei. Mas, quanto mais distante dele eu ficava... mais acelerado o meu coração batia.
Ele era um homem perigoso.
E desse tipo... eu sabia que precisava manter distância.