Eu adorava o jeito que ele dormia todo esparramado na cama, eu quase nunca estava com ele, sempre esperando por uma desgraça no trabalho. Se a pergunta é como eu o conheci? Bem, não é tão simples dizer, eu era a garota do all star encardido, um dia ele tinha sido branco. Falar que para eles eu era uma garota para eles foi um jeito legal de me apresentar, mas na verdade eu era o homo sapiens de gênero discutível.
Mais outra verdade, eu sou Belga não brasileira, meu pai Nestor Rolland Piper ( para quem não conhece) é de lá e ele e minha mãe tiveram um história de "amor" que durou um ano.
Ele foi embora pouco antes de eu nascer e minha mãe voltou para o Brasil onde encontrou outro cara e foi assim por um bom tempo, um cara e depois outro cara... Até eu completar 12 anos, ela ficou grávida e eu fiquei em êxtase porque agora eu teria alguém para dar a mão e não ficaria sozinha quando minha mãe fosse viver uma nova aventura romântica épica, ela começou a fugir quando eu completei 9 anos, por isso que aprendi a ser independente, mas o pai da minha irmã Analice sempre nos ajudou e eu não gostava de fazer protestos ao meu pai.
Ele nunca vinha me ver, mas sempre dizia a mesma ladainha se tiver algum problema eu vou ai te ver com o sotaque mais fofo do mundo, eu não podia colocar ele no meio dos meus problemas, ele tinha os olhos azuis esverdeados e muitas sardas nas bochechas e o cabelo preto tão preto que parece que ele pintava, mas o meu era do mesmo jeito.
A primeira pessoa que eu confiei de verdade foi o Cid ou Aparecido, ele odiava que eu falasse o nome dele inteiro e sabia que quando eu estava brava com ele eu o chamava assim.
O modelo Cid Isolyk que veio do Rio Grande do Sul para o mundo, se não sabem a garota do all star encardido virou a namulher de um modelo internacional, Cid tinha tudo para isso ele era bonito de um jeito diferente tinha os cabelos loiros escuros os olhos castanhos e um sorriso de literalmente um milhão de dólares.
Me lembro que no dia em que o conheci ele me perguntou como fazia para acertar cestas tão perfeitas, eu sempre fui uma boa esportista aquela que era a primeira escolhida na escola, foi assim que a gente se conheceu, em um treino particular meu da escola, eu odiava admitir mas minha mãe estava mais que certa existia amor à primeira vista.
Ele era o meu norte, não havia nenhum plano em meu futuro que não existisse ele, então eu resolvi crescer comprei roupas bonitas e comecei a fazer faculdade de medicina, naquela época eu planejava que iria ser clínica geral e me especializar em ortopedia, tudo estava perfeito, mas ai a minha vida deu uma volta, minha mãe apareceu grávida da sua última fuga com meu professor de natação, que o meu pai pagava, eu gostava dele e isso era positivo, sentia ele como um pai mas a minha mãe o dispensou como um cachorro, ele continuou morando em nossa casa para mim não havia a mínima necessidade dele ir embora, Samuel Sioli foi um bom pai durante três anos, mas quando viu a minha mãe com o milionário Diego Nonato entrou em uma grande depressão, largou o trabalho largou tudo e caiu no mundo das drogas, eu tinha muita vergonha quando ele roubava as coisas e o dinheiro lá de casa, mas como sempre tapava o sol com a peneira já que eu ganhava bem como secretária de um procurador, entretanto ele sempre devia a traficantes e eu morria de medo.
Dois anos se passaram e o medo não foi embora, eu estava quase no meio da faculdade, Analice já estava com 5 anos e mais linda do que nunca com seus belos olhos castanhos claros e os seus cabelos que de tão claros pareciam pintados louros e na altura da cintura, eu me lembro que costumava a vestir como uma princesa e naquele dia não foi diferente, Cid chegou cedo do Japão naquele dia, fazia algumas semanas que não nos víamos, eu estava nervosa porque não via Samuel a alguns dias e ele logo descobriu, ele era perito em descobrir o que eu sentia em duas semanas de flertagem descarada ele já sabia o que eu sentia, ele era bom demais pra mim.
- baby o que se passa ? - ele perguntava com aquele sotaque gaúcho que eu amava e o seu fan clube que eu era morta de ciúmes também
- não é nada Cid, só o Samuca que sumiu de novo - digo forjando roer unhas, a namorada do Cid não podia ter unhas roídas então forjar sempre faz bem
- podemos ir atrás dele se você quiser - ele diz sorrindo e me abraça, todos diziam que nós dois parecíamos um casal de duas semanas por causa da doçura um com o outro que dava até diabetes
- deve estar cansado, eu não quero atrapalhar você pode descansar eu me viro - digo sem graça mas ele me puxa sem dizer nada do jeito Cid de ser, ele era calmo, a maluca da nossa relação era eu, compreensível e nunca havia gritado comigo, resumindo ele era tudo o que eu podia querer.
Tudo mudou naquele dia, estamos no meio da cracolândia um lugar que eu já tinha familiaridade, eu não gostava disso de saber como era lá mas passava a vida procurando o pai da minha irmã por lá.
Foi tudo muito rápido um homem esquelético com um sorriso cruel e com um brinco na orelha esquerda os pés eram sujos e Cid não reagiu só entregou o rolex e o celular, ele estava paralisado e eu também até que um carro aparece em alta velocidade e tudo se apaga eu não sei se eu não quero lembrar para não sofrer ou se eu não lembro porque sofri demais.
10 anos depois...
- acorda!!! Analice eu vou jogar água com gelo em você, tem que ir a escola - eu digo a minha irmã com seus recém completados 15 anos e a falta de juízo imensa de sempre, com o aparelho ortodôntico e os cabelos castanhos claros chanel, os olhos imensos e azuis e extremamente magra e alta, Analice não se parece comigo nenhum pouco, se parecia com Samuca, mas ele se foi a uma década, ele se sentiu culpado pela morte do Cid, não era culpa dele, eu que pedi para ele ir atrás naquele dia e ele se matou, e quem encontrou o corpo foi a Analice, acho que eu teria feito a mesma coisa se não fosse por minha irmã, ela tem pesadelos com ele até hoje, e isso me faz muito mal, porém eu sei que nem sempre posso proteger ela de tudo e isso me faz mais mal ainda.
- devia ter dado meu lugar para outro espermatozóide - ela diz entrando no banheiro
- tarde demais para isto farol de fusca - eu digo a provocando por causa dos olhos enormes que ela tem
Me olho no espelho e vejo a mesma de sempre, com os cabelos pretos azulados chanel a franja reta e sempre muito arrumado, interior era como Londres em seus melhores bairros, mas o meu exterior era como Síria em seus piores bairros, meus conflitos internos são tantos outros que eu sinceramente nem sei se gosto de mim, eu tinha todo tipo de toque possível, eu limpava muito quando minha mãe fugia, mas tudo piorou quando Cid se foi.
Meu celular tocou pouco antes de eu saborear meu pãozinho francês na chapa com manteiga e meu café preto de sempre, por um pão francês valia a pena as aulas de box tailandês e a academia.
- Piper - digo com meu tom profissional de sempre, nunca Alexis que era o nome da falecida madrasta do meu pai, poucas pessoas me chamam de Alexis, que eu me lembre só o Abner Serra meu antigo colega de faculdade e atual superior na área ortopédica no Hospital das clínicas Charles Darwin, mas não é do meu emprego de lá que me ligaram, é da minha prioridade para com o mundo, um projeto que eu abracei chamado uma luz, é um projeto que ajuda moradores de rua dando remédios e consultas médicas, e às vezes até uma ajuda para aqueles que querem sair das ruas os colocando em albergues e os ajudando a conseguir um novo emprego e a se reajustar a essa sociedade capitalista ridícula que chamamos de mundo, é tanto trabalho que eu não tenho tempo para pensar, e esse é o melhor presente que o mundo pode me dar não pensar nele, dói demais e isto aconteceu ontem me deixando cheia de olheiras. Eu não me lembro de muita coisa só dele sorrindo e falando coisas as quais eu não entendia.
- Precisamos de você aqui e agora se possível, uma emergência ocorreu e o outro clínico geral pegou uma dengue hemorrágica e não está nada bem, estamos perto do parque em frente aquela clínica de estética que você e a Kyoto vão - ngelo diz sem fazer nenhuma piada então a situação estava seria, arrastei Analice pelos braços já que ela não andava logo no banheiro e eu não posso considerar passada talvez banho da minha maquiagem.
Com minha saia lápis cinza e a blusa bege eu parecia uma executiva mas o jaleco cortava essa impressão, deixei Analice na escola dela que é integral então ela fica a tarde e a manhã inteira na escola e corri para o endereço que ngelo meu assistente e estudante de medicina me disse, não precisa ser muito inteligente para perceber que ele vai longe.
- caramba! - eu disse quando olhei para aquele corpo pálido e sujo sentado no meio fio bebendo água de coco e com o peito sangrando muito, já o coco que provavelmente foi ngelo que comprou, ngelo é o tipo de gordinho mais lindo que tem os olhos de um castanho amarronzado como os da Analice e os cabelos jogados para trás e com bastante gel capilar dava um aspecto de galã enorme para ele
- não sei como ele consegue ficar sentado, não fala nada e fica só encarando a todos, ele não demonstrou agressividade em nenhum momento, pelo contrário todos que olham para ele com pena, nojo ou compaixão ele abre um sorriso enorme, ele perdeu muito sangue e a ambulância está demorando muito, droga estou desesperado, por mais que você seja boa não vai adiantar muita coisa esse homem precisa urgentemente de uma doação de sangue ou vai cair daqui a alguns minutos - ele diz desesperado, ele se importava como eu com eles, e isso me fazia gostar mais um pouco dele, foi questão de minutos o homem caiu na calçada suja quente e nada de uma ambulância para ajudar porque simplesmente estamos no Brasil! Só vi o coco rolando pela calçada e as coisas piorando com o sangramento na cabeça agora também.
A única coisa que eu pude fazer foi uma pressão para que o sangue não jorrar mais e esperar a ambulância chegar, tiramos a camiseta do homem já na ambulância e percebemos um ferro que por sorte não estava enferrujado quase atravessando seu ombro
- e se eu disser que desconfio que ele andou por um bom tempo com esse ferro no ombro? - pergunta ngelo
- E se eu disser que acho mesmo? - digo pegando o álcool e limpando as mãos.
Coloco minhas luvas e pegamos um pouco do seu sangue para descobrir seu tipo sanguíneo que coincidentemente é o meu que é raro AB- , eu acabei doando meu sangue a ele, afinal meus dados eram um dos poucos lá para as doações.
O ferro foi retirado e pode ser um pouco demorado, mas ele vai sair dessa.
Ele era confuso e pouco confiável como qualquer morador de rua que já conheci, ele provavelmente estava a pouco tempo nessa vida mesmo sujo seus dentes ainda não se encontram podres nem suas unhas muito grandes, mas ele tinha uma barba enorme e seus cabelos estavam na altura de seus ombros, ele tinha até um belo sorriso no meio de tanto cabelo.
- eu já disse que não me lembro! - era só isso que eu conseguia tirar do ser teimoso ao meu lado, o cheiro ruim já não me atrapalhava a muito tempo, já estava acostumada já que o primeiro que eu cuidei foi a muito tempo era o pai da minha irmã, eu tinha 15 anos e agora tenho 27 recém adquiridos
- então você não se lembra se é viciado em crack, heroína, qualquer droga ou bebida alcoólica? Você não costuma beber ou fumar durante o dia? - pergunto tentando ser mais simples
- não tenho dinheiro nenhum - ele diz dando de ombro
- vem cá, qual o seu nome? - pergunto já desconfiando um diagnóstico
- me chamam de Brad Pitt - ele diz como se fosse comum
- quero seu nome de verdade - insisto
Ele força o cenho por um tempo e não diz nada, amnésia com certeza.
- olha, quando se lembrar de algo me avise - digo sem muita esperança, seria bem mais fácil para ele se lembrar se estivesse perto de sua família ou pelo menos de um lugar ao qual se lembra.
Pego minha câmera coolpix dentro de minha bolsa que fica mais no porta malas do meu carro que no meu apartamento.
- dê um sorriso - digo e ele sorri, mesmo sujo a câmera não transmite cheiro, ele parecia um modelo que se vestiu de mendigo, ele lembrava o Cid, eu só não posso me abater por isso.
- é, a câmera te ama - digo sorrindo.
- posso ver ? - ele pergunta e eu viro a câmera em sua direção.
- fazia um tempo que não me olhava, eu tô horrível - ele diz sorrindo, acho que antes da amnésia ele era um metrossexual como o Cid, ele tinha mais cremes que eu, mas graças a Deus negava usar maquiagem, só em ensaios fotográficos e desfiles de moda.
- horrível como? Você se lembra de como era antes? - pergunto.
- estou magro, me lembro que nem sempre comia lixo, mas mais nada desculpe - ele diz.
- tudo bem, meu amigo ngelo vai arrumar um lar temporário caso você queira sair das ruas e recomeçar - digo mesmo não tendo lá muita esperança, se eles aceitam sempre acabam voltando para as ruas mesmo quando conseguem um emprego. - eu quero sim, muito obrigado - ele diz e me abraça de uma hora para a outra, ele devia ser forte já que não está tão magro, eu não sabia o que pensar sobre aquele abraço só fiquei simplesmente estática, eu não sabia se não queria ou se estava nervosa demais e com medo de sentir algo pelo belo homem que me abraçava, eu sabia que podia confundir tudo por ele me fazer lembrar o Cid, eu sabia também que não tinha nojo já que abracei muitos moradores de rua.
- cadê o ngelo ? - pergunto ao nosso ortopedista Riquelme, ele veio do Haiti, fugiu da fome e agora só quer agradecer ajudando, ele é o único ortopedista do nosso grupo que trabalha aqui no período integral.
- a irmã dele passou mal de novo, e como o cunhado dele está viajando sobrou pra ele - Riquelme diz, a irmã dele Angélica está grávida, ela tem 16 anos quase a idade de minha irmã, inclusive elas foram amigas na infância tem até fotos delas juntas no aniversário de 6 anos da Analice, cheguei a conclusão de que terei que levar eu mesma o Brad como o chamam para um albergue, saio dos meus devaneios com o barulho do meu celular.
- Piper - digo já sabendo que era do colégio da Analice.
- Senhorita, sua irmã desobedeceu as regras de nossa instituição de ensino, precisa vir buscar ela - ele diz.
O plano foi resolver meus problemas com o Brad, não podia deixar ele por lá vai que ele decide voltar às ruas, eu ia me sentir culpada com certeza.
- gosta de música Brad ? - pergunto.
- eu gosto daquela do filme da baby - ele diz e eu sorrio.
- Tá falando de dirty dancing the time of my life ? Se for você tem sorte porque eu tenho um pen drive só para os clássicos - digo e procuro, a primeira música que aparece é o thriller Michael Jackson, depois suspicious minds Elvis Presley, BSO pretty woman, e finalmente The time of my life.
- Essa música é legal, mas olhe para frente - ele diz.
- Já dirigiu antes? - pergunto.
- não sei - ele responde.
- você ainda está com fome? Eu tenho alguns amendoins por aqui - digo tentando puxar da memória onde coloquei
- eu quero - ele diz e eu sorrio pegando o grande saco de amendoim.
- é melhor me dizer e bem rápido o que aconteceu - digo em uma expressão de reprovação, a única coisa que tinha em comum que tinha com Analice era a aversão ao sol, as bochechas dela estavam vermelhas, as minhas só não estavam porque usei o filtro solar.
- Eles me pegaram beijando o sobrinho do Abner, satisfeita? - ela pergunta.
- muito, sabe que está de castigo e que eu não gosto do Rogério, aquele garoto cheira problema - digo e ela me olha com aquele olhar de desespero oficial dos adolescentes, o fim do mundo para eles é isso já para nós adultos é perder o emprego.
- não pode fazer isso comigo! Eu vou me matar se quer saber, eu juro que me mato e você vai se sentir culpada a vida toda - ela diz e eu cruzo os braços e balanço a cabeça, as poucas curvas de minha irmã que é muito alta para a sua idade, resumindo ela tinha um corpo oficial de modelo, muita perna e pouco tronco, ela normalmente só queria shorts jeans curtos, eu as vezes compro vestidos que são raramente usados.
- quem vai se matar? - Brad pergunta assustado.
- não sei, mas eu vou morrer de amor - ela diz - tá legal, já entendi o Ro pulou, mas ele eu posso namorar?
- você pode largar de ser inconsequente, você não vai namorar, não tem idade nem maturidade o bastante para isso - digo e ela me olha ofendida.
- É normal que minhas mãos fiquem inchadas? - Brad pergunta, mas eu ignoro.
- por que eu não posso namorar com ele? - Analice pergunta pela milésima vez.
- deve ser porque ele tem a idade da sua irmã que te criou - digo e olho no retrovisor do carro e vejo um Brad vermelho.
- Algum problema? - pergunto já parando no albergue mas ele não responde só pega na garganta respira fundo e apaga.
- Por que esse homem está tão sujo? - Everton pergunta com aquele jeito medíocre de sempre, aquele tipo de rico que acha que pessoas pobres o fazem mal, os pais são fazendeiros e tem uma plantação de soja no Mato Grosso do Sul, mas mesmo provavelmente vindo da classe baixa, são entojados e soberbos, Everton é bonito, mas um bonito convencional cabelos pretos olhos castanhos, boca bonita, mas o que mais me chamava a atenção em um homem para mim ele não tinha, simpatia e um olhar que faz a gente derreter como manteiga na panela quente, ele não seria nem de longe o tipo de cara que eu flertaria.
- ele veio da rua, suspeito que teve uma crise alérgica com os amendoins que eu dei - digo.
- não acredito que trouxe um mendigo para dentro de um dos melhores hospitais da América Latina - Everton diz e eu reviro os olhos.
- O fato dele ser um morador de rua não faz ele ser menos humano que você - digo e ele me olha como se eu o comparasse a dejetos.
- olha suas ideias de mudar o mundo são lindas, super apoio mas não traga mais esses seres humanos aqui, por favor - ele diz.
- não vai acontecer de novo relaxa - digo enquanto ele observa a enfermeira colocando adrenalina na veia do Brad, acho que a frescura faz dele um ótimo profissional, acho que o meu TOC que me faz sair de luvas para onde eu for e a claustrofobia, a síndrome do pânico e tudo mais me fez uma boa profissional também.
- o que não vai acontecer? - pergunta Abner, ótimo queria mesmo falar com ele, alguém tem que segurar aquele sobrinho dele.
- Eu trouxe um morador de rua para cá, sei que não era certo, mas até ele ser atendido pelo SUS já tinha virado pó - digo.
- e há algum problema sobre isso? - ele pergunta.
- Não quero cuidar de moradores de rua, ele está fedendo e sujou toda a roupa de cama - ele diz e eu rezava para que o Brad fosse violento, se bem que ele está apagado de qualquer forma.
- Você fez faculdade que eu saiba para ajudar pessoas, acontece de vez em quando pra quem fica na emergência como eu e a Alexis, todos os dias se quer saber - ele diz.
- não vou dizer mais nada, quando esse hospital virar um albergue você não reclama - ele diz e sai todo estressadinho.
- ele quase entrou em coma, eu ia me sentir tão culpada se isso acontecesse - digo.
- Tá tudo bem, mas ele está fedendo - ele diz e eu olho para ele com uma expressão fechada.
- se for para apoiar ele, pode ir embora - digo.
- calma, e a gente podia sair, eu faço uma reserva no restaurante Japonês dos pais da Kyoto que você adora e passa na sua vigilância sanitária particular - ele diz sorrindo - não entendo como alguém com tanta mania de limpeza consegue ficar perto de alguém tão fedido.
- é porque eu sempre carregava o pai da minha irmã fedendo para casa, ele não era um vagabundo, pelo contrário ele sofria com o que ele fazia, acima de doente eu sou um ser humano e me coloco no lugar das outras pessoas - digo irritada.
- vocês estão atrapalhando o paciente a descansar! - ouço a voz de uma das enfermeiras que mais me odeiam nesse lugar, ela é tão importante na minha vida que mal sei o nome dela, eu e Abner acabamos saindo do quarto.
- trancou a garganta dele, agora ele poderia estar em coma - digo e ele me olha com compaixão.
- me desculpe - ele diz e Analice nos vê do corredor e já chega correndo.
- soube do que aconteceu entre o seu sobrinho desajuizado e a minha irmã desajuizada ? - pergunto.
- suponho que não, hoje não conversei com ele, e com a minha irmã você sabe que nossa relação não anda nada boa - ele diz cabisbaixo, eu não entendia como dois seres humanos que não se desgrudavam, que eram vizinhos foram se distanciar daquela forma, um mistério que eu adoraria desvendar.
- eles foram pegos em um momento íntimo, o que é extremamente proibido no colégio - digo.
- como assim íntimo? - ele pergunta, depois a fama de fofoqueira é feminina.
- eles são crianças, estavam se beijando - digo da forma mais rispida e com tom de reprovação que eu consegui.
- ah, claro - ele diz sem graça.
- já que eu estou de castigo acho justo que ele fique também - Analice diz e eu balanço a cabeça negativamente para ela.
- não se meta no meio disso, Analice, ele não é nada seu nem meu - digo.
- vou ver o que posso fazer - Abner diz e dá uma piscadela para ela que fica toda animada, eu me lembro que ele sempre foi legal com Analice por motivos óbvios, ele sempre quis namorar comigo desde quando entrei para a faculdade, mas para mim só existia o Cid e o Leonardo Dicaprio mas como o Leonardo Dicaprio estava muito longe, ficava com o Cid.
- Você deveria casar com a minha irmã - Analice diz.
- para de se meter na vida dos outros - digo e ele me olha com esperança que é eliminada no meu olhar de aversão, eu nunca tinha me casado mas toda vez que eu e Cid saímos juntos ele falava a seus amigos e patrões estilistas que era para se preparar para o vestido do nosso casamento.
- o mendigo acordou - ouço a voz irritante do Everton - vê se joga ele em um albergue logo.
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- então, qual é o seu nome ? - Analice pergunta se referindo a Brad, ela usou o Bluetooth para colocar um de seus pops, Iggy Azalea e Britney Spears Pretty Girls.
- Me chamam de Brad Pitt - ele diz do mesmo jeito que disse a mim e eu acho que a expressão de minha irmã é a mesma.
- ele tem amnésia, Analice - explico e ela me olha com uma expressão surpresa.
- é mais o nome é bem apropriado, o Brad Pitt das ruas, ele é um gato, vai dizer que não percebeu maninha - ela diz e eu o vejo pelo retrovisor, ele parecia um ouriço dos olhos bonitos de um castanho amarronzado bem claro, diferente do Cid com os olhos azul claro, ele seria o tipo de homem que eu sairia com certeza, ele não é o primeiro morador de rua bonito que eu vejo, e provavelmente não será o último.
- Estou dirigindo - digo fingindo não ter me afetado com o comentário.
- Você não lembra de nada? Agora que você desmaiou pode ter se lembrado, não pode ? - ela pergunta.
- é como se tudo fosse um borrão, minha vida toda - ele diz e eu observo a fala dele, ele parecia ser inteligente.
- quando eu tiver idade para namorar, posso namorar um morador de rua em recuperação? - Analice pergunta e eu sorrio, pelo menos eu não a criei com preconceitos e isso é uma das minhas coisas favoritas nela e uma das minhas medalhas de honra a criação de Analice.
- mas claro, se ele tiver a sua idade e estiver em recuperação em caso de vício - digo e ela cruza os braços e faz uma cara de poucos amigos
- o amor não tem idade - Brad diz e eu fecho a expressão. Comentario de pedofilo, entretanto vou relevar por ele estar nitidamente confuso.
- isso mesmo! - Analice diz.
- mas a safadeza tem, ainda não estou pronta para ser avó - digo.
- pensei que ela fosse sua irmã - ele diz.
- Ela é, mas eu a criei como filha, para mim ele ou ela seria meu neto - digo já parando na frente de casa, amanhã eu ia procurar um lugar para ele ficar, hoje ele ia ficar lá em casa, ele merecia depois de quase morrer por minha causa. Analice dormiria na minha cama comigo de porta trancada.
- Tem razão, se importa se eu dormir um pouco no carro? - ele pergunta.
- Nem um pouco - digo e ele se deita.
- podemos ficar com ele? - Analice pergunta.
- podemos pelo menos por essa noite, não se esqueça de trancar a porta, por mais que você ache ele bonito, não vai gostar de ser estuprada, ele parece ser legal, mas não é totalmente confiável - digo e ela concorda com a cabeça meio assustada.
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Brad adormeceu em meu carro, eu e Analice que já está no castigo que se resume a sem notebook e celular já que eu nunca deixo ela sair no meio da semana, coloquei em um canal de clipes musicais e tomei uma vitamina ao invés de comer comida.
- acho que acabei dormindo no seu carro, me desculpe, se quiser eu vou embora - ele diz, tocava Poison Rita Ora, eu amava essa música tanto quanto amava o nome Rita.
- não precisa, passe a noite aqui, tem roupas de homem aqui, se quiser tomar banho, o banheiro fica no corredor daquele quarto escrito Warning! Devil's home - digo rindo, só a Analice mesmo.
- é... muito obrigado - ele diz sorrindo.
- as panelas são suas, coma o quanto quiser eu e a Analice já comemos - digo indo para dentro do meu quarto, todas as coisas do Cid se encontram por lá, as roupas já estão todas novamente na moda já que as roupas são de outra década, a moda normalmente volta, já fazia algum tempo que eu não mexia nas coisas do Cid, isso não é nada bom, sinto o suor em meu rosto e o descontrole sobre as mãos, eu estava tremendo a falta de ar me deu a certeza de que eu estava tendo uma crise de pânico.
- Hein, se importa se eu comer umas balas daquele pote... coloca o rosto para cima, respira fundo - ele dizia me sentando em minha king size - fica um pouco aí, eu vou buscar água pra você beber.
- mi meu remédio na bolsa - gaguejo.
Ele corre até a minha bolsa e pega meu remédio e segura em meu braço para que ele pare de tremer para que eu consiga engolir o remédio, logo eu comecei a me aliviar, se eu não consigo tomar o remédio na hora eu sabia que poderia ser grave se ele não tivesse aparecido.
- obrigado - digo com um sorriso sincero.
- você tem sorte que como o Cid era um modelo, ganhava muitas cuecas de ensaios que fazia e mal usava - digo e percebo que falei dele inconscientemente.
- Cid é seu marido? - ele pergunta e eu engulo seco.
- Ele era meu namorado, quase marido já que a gente morava junto, ele morreu a 10 anos - digo e ele me olha surpreso.
- eu sinto muito - ele diz meio sem graça, pegou uma das calças de moletom preferidas do Cid, eu sempre me lembrava dele, o azul marinho o vestia bem, mas no meio das lembranças boas vinham também as lembranças ruins como o jeito que ele ficou depois do atropelamento, a beleza magnífica do amor da minha vida se foi com aquele carro em alta velocidade.
- Tá tudo bem, tome cuidado com a maníaca da minha irmã - digo sorrindo e mudando de assunto.
- Ela é encantadora, acredita na magia do amor - ele diz já indo até o banheiro.
- acho que você deve pensar que eu sou a bruxa dos contos de fadas - digo.
- você é uma grande mãe e não é feia então não pode ser a vilã - ele diz e eu sorrio.
- a malévola era uma boa mãe e mais bonita que eu, coincidentemente a mulher que a interpretou é esposa do Brad Pitt americano - digo e ele sorri.
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- por que ela jogou o feitiço na garota ? - ele pergunta já terminando de comer o balde de pipoca.
- Uma mulher apaixonada e magoada pode acabar fazendo algo terrível - digo e ele me olha com um belo sorriso, agora limpo ele parece mais bonito.
- vou te dar alguns cremes que ganhei de amostra grátis, para tirar suas queimaduras de sol - digo e ele me olha com gratidão, o olhar que faz a pessoa derreter como manteiga na panela.
- queria te agradecer por ter me deixado ficar aqui essa noite, ninguém nunca foi tão legal assim comigo, eu queria te deixar orgulhoso de mim, queria conseguir um emprego - ele diz animado, ninguém sabia o nome do Brad de verdade e muito menos alguém tinha sua carteira de trabalho, não seria fácil já que ninguém ainda disse que o conhecia no site de desaparecidos que eu coloquei.
- Eu tenho um amigo comerciante, não posso te garantir nada mas posso tentar arranjar um emprego para você - digo.
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Hoje é um dia feliz para Analice, suspensão de três dias e isso significa dormir até a hora que ela quiser, hoje é meu dia de descanso pois ao anoitecer terei que entrar na emergência, eu costumo meditar um pouco para aguentar as cenas fortíssimas que vejo de vez em quando, alguns pacientes acabam me lembrando o Cid.