Avalon, vinte e três anos antes.
Emy Beaumont era a herdeira legítima do trono. Mas todos sabiam que seu único irmão, Stepjan Beaumont fazia de tudo para que a irmã não assumisse, pelo fato de ela ser mulher.
Emy nasceu sabendo de suas responsabilidades enquanto princesa, bem como quando se tornasse rainha. Então, não tinha nenhuma intenção de abrir mão de seu reinado, principalmente pelo fato de ter sido treinada e preparada a vida inteira para assumir aquele papel, tendo inclusive abdicado de várias coisas ao longo de sua existência pelo fato de ser futura rainha de Avalon.
Embora fosse forte e decidida, Emy Beaumont era uma mulher sensível e tinha uma grande vontade de fazer a diferença em Avalon. Não que não concordasse com a forma de reger de seus pais, mas ansiava por modernidade e negócios com países de primeiro mundo e bem desenvolvidos. Criar fortes alianças era seu maior objetivo, assim como tentar dar uma vida digna a todos os moradores de Avalon, fossem eles aristocratas ou plebeus. Era uma garota caridosa e tinha a simpatia de grande parte do povo.
Insatisfações e ataques rebeldes sempre houveram, mas ela tinha vontade de um dia acabar com aquilo. Seria a paz para o castelo e as pessoas que moravam próximas a ele, bem como para os anarquistas que queriam mudanças nas quais eles também fossem contemplados, o que era justo.
Emy Beaumont assumiria o trono quando o pai morresse, pois ele era o herdeiro legítimo da coroa. Embora seu pai lamentasse profundamente o fato de ela ter nascido antes do irmão, o impedindo de assumir o reinado, aceitava que não tinha o que fazer quanto a isso e que no fim era ela que assumiria.
Por isso desde que nasceu sua única função foi se preparar para ser futura rainha. Cresceu vendo o pai comandar o reino e sua mãe sorrir o tempo todo, mesmo quando tinha vontade de chorar. Embora não tivessem um relacionamento de amor, o rei e a rainha se respeitavam. O casamento, como sempre aconteceu entre as monarquias, foi planejado pelos pais deles. Emy sabia que provavelmente não poderia escolher seu marido, mas aceitava o que se pai havia escolhido para ela, na certeza de que era melhor para o Reino de Avalon. Até porque tudo que ela precisava era concordar enquanto fosse a princesa e seu único objetivo era sempre colocar Avalon em primeiro lugar.
Ela conheceu seu futuro marido, o príncipe de um reino muito distante, um mês antes do seu casamento. Embora ele não fosse o que ela imaginou, também não era muito diferente do que almejou: um homem corajoso e que vinha também da realeza de um outro reino.
Depois do casamento e com o novo príncipe dentro do castelo, o rei sentiu-se mais seguro para fazer suas viagens de negócios, pois tinha não só o filho Stepjan, mas também o esposo de sua filha para auxiliar em Avalon em sua ausência. Claro que ele não admitia que Emy poderia ser capaz de assumir enquanto ele estivesse fora, sendo que um dia, quando ele não mais existisse, ela teria que fazer tudo sozinha.
As viagens do rei passaram a ser cada vez mais frequentes e ele conseguiu fechar grandes negócios benéficos para Avalon. Entre idas e vindas, sempre de forma muito segura, em aviões geralmente particulares e carros blindados com vários guardas reais, o rei veio a falecer, vítima de uma pane na aeronave na qual voava.
A princesa Emy Beaumont, aos dezenove anos, era a herdeira do trono e passaria a ser rainha, o que gerou medo no reino de Avalon. Ela era muito jovem e mesmo sem conhecê-la direito ou saberem sobre seus ideias e objetivos para o reino, a julgavam incapaz. Dentre os burburinhos da nova rainha que surgia e investigações que levavam a um possível assassinato do rei, devido a problemas mecânicos numa aeronave comprada nova e com toda manutenção em dia, saída diretamente do heliporto do castelo, o caos se instalou em Avalon.
Mesmo contra a vontade de Emy, Stepjan, aos dezoito anos assumiu interinamente o trono, fazendo acordo com a corte de que sua irmã em três anos tomaria seu lugar de direito. Não houve o que Emy pudesse fazer, mesmo com o apoio do marido.
Inicialmente o príncipe, casado com Emy, percebendo o quanto seria difícil tirar Stepjan do poder, tentou aliança com seu próprio reino, no qual seu irmão assumira como rei. No entanto, não houve ajuda. Stepjan já havia se aliado a todos os reinos que ainda existiam, bem como já tinha a simpatia dos países republicanos vizinhos. Em dois anos o rei Stepjan já tinha todo o povo de Avalon ao seu lado e para Emy tomar o trono seria impossível, pois uma guerra aconteceria.
Emy temia ainda mais pelo fato de ver o quanto Stepjan era manipulador e mentiroso. Dava benefícios ao povo em troca de alianças e aceitação. Ela não conseguia vê-lo fora do poder, muito menos a corte indo a seu favor ou lhe entregando a coroa.
Menos de um ano antes de Emy Beaumont assumir o trono, conforme acordo com Stepjan e a corte, seu marido morreu envenenado dentro do castelo. Meses de investigações e nunca se encontrou um culpado. Ela já temia por sua própria vida, visto que cada vez mais pessoas próximas à ela estavam sendo assassinadas e sem encontrar vestígios de culpados, sendo que toda a polícia e guarda do reino estavam em busca do responsável. Mesmo a mídia do mundo todo de olho no que acontecia em Avalon, nunca foi encontrado o possível criminoso. Então a autoria passou a ser inclinada para os movimentos rebeldes. Emy não queria, mas suspeitava de seu irmão.
Então o golpe contra a futura rainha foi dado há dias antes de ela assumir o trono... Mas não foi um golpe político, como se esperava. Ela foi encontrada sem vida em seu próprio quarto e sem vestígios de qualquer tipo de violência. Os mais próximos de Emy nunca aceitaram a autópsia que dizia: morte natural...
Domingo era o dia que eu tinha que almoçar junto de meu pai. Não importava o que houvesse, naquele dia da semana nos reuníamos na sala de jantar real e fazíamos o desjejum e o almoço na companhia um do outro. Então ele fingia que se importava comigo e eu que acreditava.
Tomei um longo banho e procurei algo para vestir. Iniciar a manhã no desjejum com meu pai era sempre um pouco tenso. Eu tinha que estar impecável. Não que durante os outros dias eu não tivesse cuidado com minha aparência, afinal, eu era a princesa de Avalon. Mas se ele visse qualquer coisa que não estivesse de acordo com o que esperava de mim, eu era punida. A punição não era física, mas com aulas e qualquer coisa que ocupasse ainda mais o meu tempo para aperfeiçoar o que ele julgasse que não estava perfeito.
Enquanto eu olhava para minhas centenas de roupas penduradas no closet completamente iluminado, Mia apareceu:
- Alteza! – ela disse se curvando.
Olhei-a confusa:
- O que significa isso?
- Esqueceu que hoje é domingo, Satini? Estou treinando para quando ficarmos próximas de seu pai.
- Como esquecer que hoje é domingo, não é mesmo? O pior dia da semana.
- Não fale isso! Seja grata por ele vê-la pelo menos um dia na semana. – disse Léia entrando no closet e pegando no cabide um vestido justo de tweed com um casaqueto da mesma tonalidade: preto e branco. Sapatos altos preto foram entregues em minhas mãos.
- Obrigada, Léia. Eu já disse que amo você? – perguntei com um sorriso largo no meu rosto.
- Acho que você diz isso mais que minha própria filha. – ela disse olhando para Mia.
Mia, por sua vez, suspirou:
- Quer me deixar mal com minha mãe, não é mesmo princesa?
Eu ri e saí do closet com as roupas nas mãos, colocando tudo sobre a cama.
- Dúvidas com relação a mais alguma coisa? – perguntou Léia.
- Não... Tudo certo agora que você veio me ajudar.
- Nos encontramos às 8 horas em ponto na sala de jantar real. Não se atrase.
- Estarei exatamente no horário. Quando me atrasei? – reclamei.
Ela sorriu e saiu, fechando a porta.
- Precisa de ajuda? – perguntou Mia.
- Claro que não. Não sou aleijada nem nada, Mia. – reclamei.
- Mas você sabe que é minha função... Às vezes fico um pouco chateada quando você não me deixa fazer nada.
- Mia, você é como uma irmã para mim.
- Isso não significa que eu não tenha minhas obrigações, Satini. Eu sou paga para servir você.
- Você é paga para estar comigo, Mia... Eu só preciso da sua companhia.
- Minha companhia jamais seria cobrada de você, Satini. Sabe o quanto eu amo você.
Eu a abracei com carinho.
- Hum, o que você tem hoje? – ela me perguntou.
Tirei meu roupão e comecei a vestir minha roupa, escolhida por Léia.
- Mia, você sabe que o dia está se aproximando, não é mesmo?
Ela suspirou:
- Sim... Eu sei. Queria não contar, mas não consigo.
- Eu... Estou tão nervosa com isso tudo.
- Imagino, minha amiga. – ela disse me auxiliando a fechar o vestido.
- Casar com um homem que eu nunca vi na minha vida... Isso me arrepia. E você sabe que poucas coisas me dão medo.
- Pensa pelo lado bom, é difícil um príncipe feio.
Eu ri:
- Você só pode estar de brincadeira! Nem sei se a aparência realmente me preocupa. Mas penso em dividir a cama com um homem que eu nunca vi em toda a minha vida. Isso me deixa tensa.
- Talvez ele seja lindo, cheiroso e tenha um corpo escultural. Afinal, ele não é tão mais velho do que você. É um jovem príncipe.
- Me assusta o fato de eu nem saber de onde ele é.
- Eu sei... Mas já procuramos por todos os poucos príncipes ainda existentes no mundo. E nenhum era tão horrível a ponto de fazer você fugir.
- Como eu já disse, aparência é o que menos me importa.
Sentei na penteadeira e comecei a fazer minha maquiagem enquanto ela arrumava meus cabelos.
- Eu tive uma ideia. – falei.
- Você, com uma ideia? – ela riu. – Você sempre tem muitas ideias, Satini.
- Esta é um tanto quanto... Ousada, digamos.
- O que você vai aprontar?
- Você verá no café da manhã com o rei.
Ela parou de me pentear, com a escova em punho e disse preocupada:
- Não se atreva a afrontar o rei Stepjan. Você sabe muito bem que isso é perigoso. Minha mãe já conversou conosco sobre isso.
- Eu não vou afrontá-lo, Mia. Vou lhe fazer uma proposta.
- O quê?
- Você vai saber durante o desjejum.
- Satini... Não faça besteiras.
- Não vou. O não eu já tenho, não é mesmo? Não custa tentar.
- Se não quer me falar antes sobre o que é, pelo menos fale para minha mãe.
- Não. Léia não me deixaria pedir nada ao meu pai, com medo do que ele pudesse me dizer ou fazer.
- Por isso mesmo, consulte-a antes, Satini.
- Não...
- Mas...
- Mia, ele é meu pai, não é um monstro.
- Me desculpe... Não foi minha intenção ofendê-la.
- Não precisa se desculpar. Mas às vezes vocês o tratam de uma forma que eu fico até com medo... Eu não o vejo como um ótimo pai, mas também não é tão horrível assim. Ele não é um pai normal, como outro qualquer... Ele é o rei. Eu sei que ele precisa ser duro comigo algumas vezes.
- Por favor, não me diga que acha que ele faz isso pelo seu bem.
- Não... Eu não quis dizer isso. Mas me vejo no lugar dele daqui a alguns anos e penso se eu não agiria da mesma forma.
- Autoritária?
Eu suspirei:
- Ok, vamos acabar a conversa por aqui.
- Desculpe, Alteza.
- Você está sendo irônica comigo.
- Não estou. – ela disse secamente.
Eu conhecia Mia só de olhar para ela e sabia que ela ficou chateada comigo.
- Precisa de um tempo sozinha, para se preparar? – ela perguntou.
- Sim, obrigada, Mia.
Ela saiu e fechou a porta e eu levante e respirei fundo. Os domingos ao lado do meu pai eram sempre uma caixinha de surpresas. Eu nunca sabia sobre o que conversaríamos, exceto sobre meu casamento, que era um assunto constante em nossas conversas. Eu era prometida em casamento ao príncipe desde que nasci. Acordo entre os poucos reinos que ainda existiam nos arredores (às vezes nem tão arredores). Sim, no século XXI ainda existia casamento arranjado, especialmente na realeza, em especial quando as monarquias estavam cada vez mais extintas ao redor do mundo. Laços e uniões eram imprescindíveis para manter o pouco que ainda havia de reinado por aí. Eu não sabia sequer o nome do meu futuro marido, muito menos o lugar de onde ele vinha. Claro, tudo isso para minha... Segurança. E dele, é claro.
Ninguém conhecia o meu rosto em Avalon. Desde que nasci, eu fui protegida da mídia nacional. Meu pai dizia que era para minha proteção. O povo conheceria a princesa de Avalon, Satini Beaumont, no dia do meu casamento, quer seria também a minha coroação.
Sempre me pareceu que o casamento era algo distante. E realmente era. Mas agora faltavam seis meses. E quando este tempo passasse, eu seria a esposa de um homem que eu não conhecia e isso passou a me assustar um pouco. Se me passou pela cabeça fugir ou questionar sobre isso? Não. Eu sabia que sempre foi e talvez sempre seria desta forma entre a realeza. Claro que eu soube de princesas que fugiram e tentaram ser felizes no amor. Mas eu não sabia de nenhum caso que deu certo. Se que queria ter nascido na realeza? Sinceramente eu não sei. Mas eu era grata por estar viva.
Minha mãe teve seis abortos antes de me ter. E morreu no meu parto. Acho que ela não podia ter filhos, mas insistiu muito até conseguir. Léia me disse que meu pai nunca quis uma filha mulher. Claro que aquilo me magoava profundamente, embora ele nunca tenha me dito com aquelas palavras. Mas eu sentia o quanto ele queria ter tido um filho homem para assumir Avalon. Por isso eu me achava um milagre da vida e não contestava ter nascido uma princesa, cheia de deveres e obrigações. Eu sabia que amava a vida. E acho que amaria da mesma forma se eu fosse uma rebelde da Coroa Quebrada, vivendo fora do castelo. Eu gostava de ter sangue correndo entre as minhas veias, das sensações que meu corpo produzia, de poder ver as cores da natureza e sentir a água banhando meu corpo.
E de tudo que eu conhecia da vida, que era bem pouco, uma coisa eu tinha certeza: eu não queria casar virgem. Não havia nenhuma cláusula que dizia que a princesa deveria ter relações pela primeira vez com o príncipe, seu marido. E mesmo que tivesse, acho que eu iria infringir esta cláusula. Por quê? Imagine se eu não gostasse de dormir com ele? Jamais poderia saber se com outro era melhor. Claro que eu não falei isso com Mia, pois ela iria me achar a pessoa mais louca do mundo e me daria um sermão. Mas era meu pensamento e pronto. E eu não precisava compartilhá-lo com ninguém. Por sorte isso eu podia fazer: pensar sem precisar contar. Então quando minha mente falava sozinha eu podia dizer e sentir tudo que meu corpo não sentisse e minha boca não falasse.
Já não bastava toda a vida que eu tinha com uma rotina dura, cheia de pessoas ao meu redor, observando tudo que eu fazia. Pouquíssimas pessoas moravam dentro do castelo comigo e meu pai. Quem circulava por ali eram pessoas de extrema confiança dele. E ninguém ousava fazer qualquer coisa que pudesse causar a ira do rei Stepjan Beaumont.
Léia me criou desde que nasci. Pegou-me dos braços de minha mãe quando ela morreu comigo aninhada em seu corpo e me deu todo amor que eu tive o prazer de conhecer. Ela não me tratava diferente dos seus filhos. Por isso eu tinha tanto afeto por Mia. E um pouco por Alexander também. Embora nos déssemos muito bem quando éramos crianças, conforme fomos crescendo eu e Alexander nos afastamos um pouco e agora mais brigávamos do que nos entendíamos. Meu primeiro beijo foi com ele. Quase o peguei a força. Mas eu já tinha quatorze anos e se ele era o único garoto que eu conhecia.
Eu não estudava fora do castelo. Tinha professores que vinham me dar aula. E Alexander e Mia me acompanhavam. Então os professores nunca sabiam qual de nós duas realmente era a princesa, pois não podíamos revelar. Penso como pude me acostumar àquilo desde criança: você é a princesa, herdeira de tudo, um dia comandará este reino, mas ninguém pode saber que você é você.
Voltando aos beijos, depois eu aperfeiçoei meus beijos e acho que hoje eu já posso me considerar uma expert. Como eu fiz isso? Os guardas reais, claro. Fora da nossa bolha dentro do castelo, os guardas não tinham certeza se eu ou Mia era a princesa. Enquanto isso eu beijava umas bocas para quando eu encontrasse o meu marido não fizesse feio. Nunca me apaixonei por nenhum deles. Acho até que eles fugiam um pouco de mim e me achavam louca e pervertida. Certamente pensavam que Mia era a princesa: dócil, recatada e educada. Eu não me importava o que pensavam sobre mim. Eu ria sozinha quando imaginava a reação deles quando soubessem um dia que eu era a princesa. Poderiam se gabar por aí dizendo que beijaram a princesa nos corredores estreitos e frios do castelo de Avalon.
Meu pai havia acordado que se fosse de minha vontade e aceitação de meu marido que eu fizesse uma faculdade depois do casamento, assim o faria. Mas fora de Avalon. Dentro do meu reino era proibido. Por quê? Para minha segurança novamente, já que todos saberiam que eu era a princesa.
Por que se preocupavam tanto com minha segurança? Eu não sabia. Mas uma vez, há muitos anos atrás, enquanto brigávamos, Alexander me disse que todos odiavam meu pai. E por isso me matariam se me vissem na rua. Na época eu era tão nova e dei de ombros. Achei que ele falou só para me magoar. Mas agora eu me pegava pensando naquilo de vez em quanto. Seria verdade? Talvez. Mas eu havia saído tão poucas vezes de dentro do castelo que não tinha como saber. E das vezes que saí, nunca foi num carro real, com brasão, muito menos aparentando ser uma pessoa da realeza. Conheci algumas lojas caras próximas do castelo. Só isso.
Olhei-me no espelho e estava impecável. Hora de enfrentar Stepjan Beaumont, o temido rei de Avalon... E para mim, simplesmente meu pai frio e distante.
Mia estava me esperando na porta. Não havia guardas no corredor onde dormíamos. E os que faziam vigia nos aposentos mais familiares eram os de extrema confiança do meu pai. Saindo da zona de convivência diária, nenhum deles sabia exatamente quem eu era. Por isso Mia dormia próxima dos nossos aposentos, junto de sua mãe. Léia ocupava aquele corredor porque sempre me cuidou, então acho que meu pai não arriscaria me mandar para a ala dos empregados com a governanta do castelo e sua mais fiel criada. Cresci junto de Mia e conforme fomos ficando amigas inseparáveis, a nomeei minha dama de companhia, pois eu não conseguia ficar longe dela. Era a minha única e melhor amiga e pensar em perdê-la era algo que não passava pela minha cabeça. Meu pai concordou. Acho até que ele nunca a deixaria sair do castelo, em função de nossas idades serem próximas e a confusão que ele gostava de causar em todo mundo sobre minha identidade.
Andei ereta junto de Mia até o salão de jantar onde eu faria a primeira refeição do domingo com meu pai, o rei Stepjan Beaumont. O lugar onde nos encontrávamos no final de semana e que eu a maioria das vezes fazia as minhas refeições sozinha era um dos espaços amplos e pouco arejados do castelo. A mesa em formato oval comportava somente 14 pessoas, por isso era usado somente para momentos mais íntimos. O salão de jantar das visitas era em outro local. Ainda assim as toalhas impecavelmente brancas e a decoração com várias flores naturais da estação estavam sempre ali, esperando por mim.
As confortáveis cadeiras almofadadas em tom caramelo combinavam com os quadros caros e antigos que adornavam as paredes com papel adesivo. Dois lustres enormes pendiam do teto, iluminando a mesa com velas que eram usadas em ocasiões especiais, senão luzes artificiais em tons amarelados. Uma lareira antiga tinha a intenção de deixar o ambiente menos formal e mais acolhedor, afinal era um espaço familiar. O tapete era sempre muito bem limpo e meus pés afundavam nele confortavelmente. O luxo sempre esteve presente na minha vida... Mas ainda assim me faltava muita coisa que eu creio que qualquer outra pessoa tinha: amor.
Sentei-me na extremidade da mesa e coloquei meu guardanapo sobre minhas pernas. Faltando um minuto para as oito horas meu pai chegou e sentou-se na outra extremidade. Exatamente o lugar de seis pessoas nos separava em distância. Nunca nos aproximamos em nenhuma das refeições.
- Bom dia, Satini. – ele cumprimentou.
- Bom dia, meu pai.
- Como foi sua semana? – ele perguntou sem olhar para mim, servindo-se de café fumegante.
- A mesma coisa de sempre. – me limitei a dizer.
- Sim, sim...
Eu servi meu café. Mia e Léia ficaram em pé esperando enquanto fazíamos o nosso desjejum. Quando eu fosse coroada eu as colocaria na mesa, junto de mim. Elas eram minha família. Lembro que uma vez pedi isso ao meu pai e ele não me respondeu nada. Limitou-se a me olhar de uma forma tão horrível que não me atrevi a continuar a conversa. Mas eu era pequena. Dois guardas reais sempre acompanhavam nossas refeições, um em cada lado da porta.
- Contei e faltam seis meses para o meu casamento. – falei.
Ele me fitou:
- Está mesmo contando?
- Sim... Isso é bem importante para mim.
- Não sabia que se importava tanto com isso.
- Como não me importaria? É o meu casamento. Com um homem que eu não conheço.
- Um príncipe. – ele corrigiu. – Alguém do seu nível, da realeza. Sempre foi e sempre será assim.
- Como você conheceu minha mãe? – questionei.
- A conheci quando já sabia que ela seria minha esposa. Negócios... Sempre foram negócios... Pelo bem do sobrenome e do reino.
- Meu pai, às vezes sinto-me como "um negócio"?
- Não, você não é um negócio, mas o seu casamento sim... Uma aliança, podemos dizer.
- Eu nunca vivi nada fora deste castelo.
Ele me encarou sombrio:
- O que você quer, Satini? Vai mesmo discutir comigo sobre o casamento, justo agora, faltando alguns meses para ele se concretizar?
- Eu... Não quero discutir sobre o casamento. – olhei para Léia, que me fitava com os olhos arregalados e fazendo sinal para eu não prosseguir. Dei de ombros: - Mas eu quero discutir sobre a minha vida.
- Como assim?
- Alguma vez lhe pedi algo, meu pai?
- Não. – ele disse.
- Alguma vez fiz algo que não fosse exatamente como você queria?
- Não. Você é uma filha que não me dá problemas. E eu acho que isso é normal, Satini. Sempre soube das suas responsabilidades enquanto princesa e futura rainha de Avalon.
- Eu não quero discutir sobre o casamento. Pelo contrário, eu o aceito. Mas tenho um pedido a fazer. Em nome de tudo que eu nunca pedi na minha vida até hoje.
Todos me olhavam, até mesmo os dois guardas, que raramente retiravam os olhos da imagem frontal que lhe aparecia. Olhei-os pensativa tentando lembrar se já havia beijado um deles no corredor. Claro que não... Eram de confiança do meu pai então não andavam nos andares inferiores. Eu ri. Se meu pai soubesse o que eu fazia dentro daquele castelo... Na verdade eu não era tão obediente assim, como ele pensava.
- Qual seu pedido, Satini Beaumont? – ele perguntou largando o talher e me olhando atentamente.
- Eu quero poder sair do castelo. Conhecer Avalon antes de casar. Quero ver nosso povo fora que vive fora destes muros.
Ele riu ironicamente:
- Você só pode estar louca.
- O que custa deixar, meu pai?
- Eu protegi você a minha vida toda das pessoas lá fora. Acha mesmo que eu faria isso?
- Por isso mesmo. Protegeu-me e hoje ninguém sabe que eu sou a princesa. Sequer sabem meu nome...
- Fora de cogitação...
- Meu pai...
- Não. – ele falou secamente.
Eu poderia aceitar aquele não, mas não o fiz:
- Eu mereço. Por minha mãe...
- Como assim?
- Eu não a conheci. Ela morreu ao dar-me a luz... Talvez ela tivesse conversado comigo sobre as experiências que eu poderia ter do lado de fora do castelo, o que eu acharia, como são as pessoas que não são da realeza...
- Então bem sabe que és a responsável pela morte dela, não é mesmo? – ele disse sarcasticamente, tentando fazer eu me sentir mal.
- Ela teve seis abortos antes de engravidar de mim. Será que sou mesmo a responsável? – arrisquei.
Ele me olhou com raiva e disse:
- Volte para seu quarto imediatamente.
Eu levantei, respirando fundo. Senti vontade de chorar, mas não daria este gosto a ele. Mia foi me acompanhar e ele ordenou:
- Não, Mia. Ela ficará sozinha. Pelo menos até o horário do almoço.
Então ele ainda quereria me ver ao meio-dia, mesmo depois de tudo? Andei furiosa até meu quarto e deitei na minha enorme cama, olhando para o teto.
Eu sabia que Stepjan poderia não ser um homem bom, mas eu também não o via da forma como todos o viam: com medo. O fato de minha mãe ter tido seis abortos era porque ele sempre quis um filho homem. Por ironia do destino, ela só conseguiu parir um filho vivo e na sétima gravidez. E era uma menina. Depois disso ela morreu. Então se acabou a chance dele de ter um herdeiro homem. Eu sempre ouvi boatos de que ele não aceitava muito bem mulheres no poder. Por este motivo não havia mulheres na corte, na guarda e em nenhum lugar que não fosse o que ele julgasse que elas poderiam estar: na cozinha, na limpeza, como governantas ou damas de companhia. O dia que eu fosse coroada colocaria mulheres na guarda. E na corte, onde poderiam me ajudar na tomada de decisões e votos por uma Avalon justa e igualitária, ao lado dos homens.
Meu pai nunca casou depois da morte de minha mãe. Isso já fazia dezessete anos. Nunca conversamos sobre ele arranjar outra esposa, mas eu acho que lhe faria bem. Eu sabia que ele devia dormir com mulheres, pois era muito tempo sem ninguém e ele era um homem muito bonito. Só não sei se ele usava prostitutas de luxo ou comia as criadas do castelo.
Eu precisava convencê-lo a me deixar sair daquelas paredes. Ninguém sabia que eu era eu. O que poderia acontecer? Eu me apaixonar por alguém e fugir? Eu ri sozinha. Era exatamente o que eu queria, tirando a parte de fugir. Eu queria conhecer alguém que me desconsertasse. Que fizesse meu coração bater mais forte, como nos filmes que eu via. Que me desse prazer das formas mais diversas possíveis. Ainda assim eu não deixaria o amor me vencer. Eu casaria com meu príncipe desconhecido no final das contas, porque eu nunca fugi desta responsabilidade. Eu queria ser a rainha de Avalon. Eu queria a coroa na minha cabeça, como um dia minha tia Emy Beaumont quis.
Faltando dez minutos para o meio-dia ouvi batidas na minha porta. Era Léia.
- Vamos, Satini. Seu pai a esperará ao meio-dia.
Eu levantei da cama, fazendo uma careta. Fiquei ali deitada por quase quatro horas. Enquanto ia atrás de mim, Léia pediu:
- Não o enfrente, querida.
- Não estou afrontando-o, Léia. Só foi um pedido.
- Céus, a quem você puxou? Certamente não foi a sua mãe... Você parece...
- Emy Beaumont? – perguntei. – Era isso que você diria?
- Sim...
- Você sabe que um dia eu vou descobrir a história da minha tia, não é mesmo, Léia?
- Acha que escondo algo, Alteza?
- Acho sim.
- Chega de histórias. Pare de incomodar o rei com seus caprichos.
- Caprichos? É a minha vida, Léia.
- Então tenha amor a ela.
Dizendo isso ela abriu a porta e meu pai já estava sentado à mesa, no mesmo lugar de quando o deixei.
Sentei olhando a infinidade de comida à minha frente. E eu não estava com fome.
- Podemos conversar, Satini. – ele disse.
O encarei surpresa. Eu havia entendido certo?
- Sobre? – me fiz de desentendida e peguei um pouco de salada, colocando no meu prato.
- Sua saída do castelo.
Parei e o fitei:
- Está pensando em deixar? – perguntei surpresa e já ansiosa com a resposta.
- Pensei a respeito. E acho que pode sim conhecer Avalon além dos muros do castelo.
- E o que terei que fazer em troca? – nada com meu pai era sem ter que pagar um preço.
- Aceitar seu casamento sem contestar.
- Mas eu nunca contestei, meu pai.
- Estamos com algumas situações em questão... E adiantaremos o casamento em um mês.
- Como assim?
- Se casará em cinco meses e não mais seis. Preciso da união com o novo reino o mais rápido possível.
- Que problemas temos, meu pai?
- Isso não lhe diz respeito.
- Mas... Eu sou a futura rainha, herdeira do trono. Deixe-me saber o que acontece para talvez poder ajudar de alguma forma.
- Limite-se a explorar Avalon, Satini. É só esta sua obrigação. E depois casar-se com o príncipe e... – ele parou de falar, parecendo que quase escapou algo que não deveria.
- E... – encoraje-o.
- Você deixará Avalon. – ele disse calmamente.
- Como assim?
- Morará com seu marido.
- Mas... Eu sou herdeira de Avalon. Como posso deixar meu reino e morar com meu marido num lugar que sequer conheço?
- Será herdeira quando eu vir a morrer. E isso não será tão em breve, acredite.
Como assim ele me mandaria embora de Avalon? Eu não acreditava no que estava ouvindo. Eu era sua única filha, herdeira da coroa e ele me queria longe?
- Ainda quer conhecer Avalon fora dos limites do castelo? – ele perguntou.
- Sim... – falei já sem ter muita certeza de nada.
- Alexander estará voltando de viagem. Ele e Mia a acompanharão a qualquer lugar que você vá.
- Alexander não... – reclamei.
- Ele é o único que confio para cuidar de você.
- Mas ele está fora de Avalon há anos...
- Já falei com ele antes de termos esta conversa. – ele olhou para Léia. – Seu filho está voltando, Léia. Fará a segurança pessoal de Satini e depois o encarregarei de liderar a guarda real.
- Obrigada, rei Stepjan. – ele disse curvando-se.
Eu me dava bem com Alexander na infância. Mas depois que crescemos não nos entendemos mais. Como já contei, foi com ele quem troquei meu primeiro beijo. Alexander era prepotente, arrogante e faria qualquer coisa que meu pai pedisse.
- Eu aceito suas condições.
Era melhor andar nas ruas de Avalon com Alexander do que nunca conhecer meu reino. Agora eu tinha uma longa jornada, que era convencer meu pai e não me obrigar a partir para um lugar desconhecido.
- Outra coisa. – ele continuou.
- Fale.
- Nunca, jamais, chegará perto da divisão com a Coroa Quebrada.
Meu coração bateu mais acelerado. Eu sabia tão pouco sobre a Coroa Quebrada. E o fato de ele mencionar aquilo fez eu me arrepiar.
- Longe da Coroa Quebrada sempre, meu pai. – eu disse sem ter muita certeza se conseguiria manter aquela promessa.
- Poderá sair assim que Alexander chegar. Ele montará todo o esquema de segurança para você. Mas como bem sabemos, ninguém a conhece fora daqui... Então creio que não haja muito perigo. E se houver... Foi sua escolha. – ele me encarou.
- Até parece que você deseja que haja algo ruim. – falei confusa.
- Não foi o que eu falei. Mas entenda como quiser. Não lhe devo satisfações sobre o que eu penso ou deixo de pensar.