ROBYN
"Robyn!" A voz furiosa do meu chefe me deu um susto daqueles.
Meu coração disparou enquanto eu encarava as profundezas dos seus olhos azuis e frios, emoldurados por cílios negros e espessos.
Ele me fuzilou com perguntas sufocantes que eu não consegui responder, pelo menos não agora. Se eu respondesse, não faria a menor diferença, já que ele já estava furioso.
Eu já comentei que ele nunca me chamava pelo meu primeiro nome?
Eu o conhecia bem, afinal, nos últimos seis meses, trabalhava para ele como sua assistente executiva, mas ele não dava a mínima para quem perdia o emprego, desde que ele ganhasse dinheiro.
E esse era Spade Kolby, o capitalista de coração frio, grosseiro e implacável, e cofundador da Zacc & Kross Ventures. Ele também dirigia Emergence Capital como presidente e CEO, a empresa onde eu trabalhava.
"Você me ouviu ou vou ligar para o RH e pedir uma assistente mais competente?" Com uma intensidade assustadora, seu olhar estava tão cravado em mim que ele nem se movia, nem piscava.
Paralisada pelo pânico, acenei com a cabeça.
"Some da minha frente antes que eu mude de ideia." Ele se jogou na cadeira e pegou o café que eu havia deixado na sua mesa mais cedo.
"Obrigada, senhor." Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Após colocar as pastas na sua mesa, me virei.
De fato, eu não podia me dar ao luxo de perder o emprego agora que tinha ainda mais contas para pagar. De qualquer forma, a culpa era minha, pois eu estava atrasada. Não importava se eram cinco minutos ou um minuto, pois para Spade Kolby, que nunca havia se atrasado na vida, isso era um atraso e era inaceitável.
Eu nem tinha chegado à porta quando ele praguejou novamente: "Este não é o meu café."
Ah, merda! Como ele sabia? Eu não fazia ideia do que James, o barista, colocava no café dele, quando pedia o mesmo café preto todas as manhãs, da mesma cafeteria.
"Foi isso que me atrasou, senhor." Embora não fosse verdade, endireitei a postura. "James teve uma emergência. Ele não estava lá quando cheguei. Eu esperei..."
"Você está mentindo. Não quero mais ouvir suas desculpas. Assuma seu erro, senhorita Sharpe. Você se atrasou, e ponto final." Ele jogou o copo de café no lixo sem o menor remorso.
Eu queria dar um sermão nele por desperdiçar comida quando milhões de pessoas dormiam com fome e não podiam pagar por um simples copo de café, mas ele era um babaca e não se importava nem um pouco.
"Vou ligar para saber se ele voltou e trago outro copo para o senhor."
"Não precisa." Ele pegou a pasta, suas narinas ainda dilatadas de raiva.
Felizmente, consegui sair da sua sala sem xingá-lo na cara. Atendi ligações, priorizei suas reuniões e compromissos, organizei suas viagens, detalhei roteiros para o mês seguinte e encaminhei os e-mails importantes para ele.
Se havia uma coisa que eu gostava no meu trabalho, era que ele nunca me contatava nos fins de semana. Ele não exigia que eu buscasse sua roupa na lavanderia ou me mandava resolver seus assuntos pessoais, porque alguém fazia isso por ele.
Eu nunca sequer fui chamada em sua cobertura. Se ele precisava de algo meu, pedia ao seu motorista e guarda-costas, Haddon Wave, para buscar comigo. Ele nunca me pediu para organizar seu almoço ou jantar pessoal, a menos que fosse relacionado a negócios.
No horário do almoço, Piper, minha colega de trabalho ruiva e melhor amiga, sentou-se comigo e colocou um taco na minha tigela. "Você precisa comer."
"Estou comendo", respondi com a boca cheia de salada.
"Você se atrasou de novo", disse ela entre uma mastigada e outra. "E está perdendo peso. Estou preocupada com você."
"Não estou, não." Dei uma mordida enorme no taco enquanto checava meu celular em busca de mensagens, mas não havia nenhuma. "E estou bem."
"Você sempre chegava vinte minutos antes de todo mundo, mas esta semana já se atrasou duas vezes. Como sua mãe está?"
Terminei o taco e, no meio da salada, dei de ombros.
Piper ainda esperava por uma resposta. "Ei. Me liga se precisar de ajuda."
Senti sua mão apertando meu pulso.
"É sério, Rob. Não tenho experiência em cuidar de pessoas doentes, mas sei jogar roupa suja na máquina, aspirar o chão e lavar a louça, sabe?"
"Obrigada." Dei a ela um sorriso forçado e respirei fundo. "Minha mãe teve febre ontem à noite. Tive que levantar no meio da noite e dirigir até a casa dela. Vim de lá hoje de manhã. Eu deveria ligar para saber como ela está, mas talvez ela ainda esteja dormindo."
"E Barbie? Já faz dois meses e ela nunca mais voltou ou te ligou?" Ela estava falando da minha melhor amiga desde a faculdade, minha ex-colega de apartamento, Barbra Wilson, quem me deixou com apenas um bilhete.
"Não. E espero que não volte. Aquela vadia." Respirei fundo enquanto meu peito se apertava de raiva. "Se ela estava com problemas, por que não podia se abrir comigo?"
"Você tem razão. Como ela pôde fazer isso com você, justo quando você está lidando com a saúde da sua mãe? Espero que ela não tenha fugido com outro cara. Meu Deus, que egoísta." Seus lábios se curvaram em nojo.
"Tudo bem. Meus problemas são meus problemas." Meu estômago se revirou.
Mãe e eu tínhamos conversado sobre isso. Ela sabia que eu tinha que pagar o aluguel do apartamento sozinha agora. Como as coisas de Barbie ainda estavam lá, eu não podia simplesmente jogar tudo fora e procurar outra colega de quarto.
"Você tentou entrar em contato com ela?" Os olhos verdes de Piper me observavam com atenção.
"Não. Foi ela quem foi embora. Por que eu deveria?"
"Talvez você devesse, Rob. Assim você pode jogar as coisas dela no lixo." Ela esboçou um sorriso malicioso.
"Talvez eu devesse mesmo jogar as coisas dela fora."
Voltei ao trabalho depois do almoço. Mal tinha tocado no mouse e o telefone tocou.
Ao ver que o número era do meu chefe, atendi na mesma hora. "Senhor Kolby."
"Na minha sala."
A sala dele tinha uma vista espetacular do horizonte de Manhattan, e ele estava parado junto à janela, com uma mão no bolso. Seu olhar estava fixo no arquivo em sua outra mão.
O que eu fiz desta vez?
"Há quanto tempo você trabalha para mim, senhorita Sharpe?"
Merda! Eu tinha um péssimo pressentimento sobre esse tipo de pergunta e já podia ouvir as próximas palavras que sairiam de sua boca.
Apesar dos seus olhos penetrantes, respondi educadamente, porque não queria que ele me demitisse. Pelo menos, não agora. "Dois anos no marketing, seis meses como sua assistente, senhor."
"Então que porra é essa?" Ele ergueu o arquivo. "Você revisa o seu trabalho?"
"Sim, senhor."
Quando ele se virou para me encarar, prendi a respiração.
Spade era alto, com um físico incrivelmente em forma. Dizer que ele era lindo era pouco - ele era deslumbrante.
A cicatriz fina em sua sobrancelha esquerda o tornava extravagantemente belo. Ele era a definição de hostil e gostoso, e deixava qualquer mulher tensa de excitação. E quanto mais você o encarava, mais um calor subia pelo seu pescoço enquanto sua mente se demorava em pensamentos sujos e proibidos sobre o que aqueles lábios carnudos poderiam fazer com você.
No entanto, ele também era frio, frio o suficiente para te fazer tremer e soltar fumaça pela boca.
"Mais um erro e você está na rua", disse ele, com os dentes cerrados. "Existem milhares de candidatas mais capazes, então o que te torna tão especial, senhorita Sharpe?"
Abri a boca para responder, mas ele me cortou.
"Nada." Havia tanta escuridão em seu olhar assustador. "Então faça o seu trabalho ou está demitida!"
"Peço desculpas, senhor. Não vai acontecer de novo." Dei um passo à frente para pegar o arquivo dele. "Hum, minha..."
"Eu não me importo com as desculpas que tem. Sua vida pessoal fica do lado de fora deste prédio. Isso aqui não é um grupo de apoio, e não sou psicólogo para ouvir suas baboseiras."
Nossa, ele era frio, insensível e sem consideração, mas tinha razão.
"Vou refazer até o final do dia, senhor." Saí correndo de sua sala antes que ele pudesse me lançar mais insultos.
Verifiquei o arquivo no meu computador e o revisei, o que me fez rir. Não era à toa que ele estava tão puto da vida...
"Mas que diabos?" Pisquei várias vezes.
Havia uma linha em um parágrafo do relatório onde eu escrevi algo que fez minhas bochechas arderem de vergonha.
"Meu chefe é um gostoso, mas um escroto egoísta."
Eu realmente escrevi isso? De jeito nenhum.
Eu queria rir muito, mas ainda precisava do emprego.
Não fiz isso, fiz? Se gostar do chefe já não fosse clichê o suficiente, eu nem sabia como chamar isso.
SPADE
Ter uma secretária executiva atraente é um problema, e ficar atraído por ela é ainda mais perigoso.
Quando li seu currículo antes de ela se tornar minha secretária, ela já era uma das melhores funcionárias no setor de marketing.
Isso não me surpreendeu, pois Robyn se formou com mérito. Como ela era sempre pontual. a escolhi, mesmo que ela fosse bonita demais e pudesse me distrair do trabalho.
Nos últimos meses, ela perdeu um pouco de peso, e eu sabia o motivo, mas ela continuava deslumbrante.
Nesta semana, ela se atrasou duas vezes. Se ela não fosse boa no que fazia, eu a teria substituído, mas também tinha motivos para mantê-la à distância, e alguns poderiam achar que essa era uma atitude um tanto sombria e distorcida.
E talvez fosse mesmo.
Eu odiava atrasos e queria alguém confiável que pudesse trabalhar sob pressão pelo salário que pagava. Embora eu pudesse ser um pouco mais tolerante com Robyn, isso era algo que ela não precisava saber.
As pessoas costumavam me chamar de frio e insensível, mas eu nunca brincava com meu trabalho, onde milhares de funcionários dependiam do salário que eu pagava para se sustentarem.
Meu celular começou a vibrar sobre a mesa. O identificador de chamadas mostrava Ozias Quinton, um dos ex-militares que trabalhavam no Grupo de Recursos de Ósmio.
Atendi a ligação. "O que conseguiu descobrir?"
"Ela mora em um apartamento pequeno com uma colega de quarto, que saiu há meses. A amiga dela é a mesma pessoa do trabalho. A vida dela se resume basicamente ao trabalho e aos fins de semana com a mãe. Ela não bebe e nem vai a festas."
"E relacionamentos?"
"Solteira, sem nenhum homem em vista, digamos. Os pais estão separados desde que ela estava no ensino médio. O pai dela, Rusell Sharpe, é o chefe da Accent, uma empresa de recursos privados. A mãe, Denise, é uma enfermeira que foi diagnosticada recentemente com uma doença cardíaca rara e passou por uma cirurgia cardíaca."
"Ah." Era claro que eu já sabia de tudo o que ele acabara de me dizer, mas pensei que algo novo tivesse acontecido nas últimas semanas.
"Há mais alguma coisa que queira saber? Talvez sobre a situação financeira? Posso investigar mais a fundo a vida pessoal dela, se quiser, senhor."
"Não. Isso é tudo. Quinton?"
"Senhor."
"Com qual doença a mãe dela foi diagnosticada?"
"Mixoma atrial."
"Obrigado." Após encerrar a ligação, soltei um suspiro profundo. "O que diabos estou fazendo? Já não fiz o suficiente?"
Cheguei à mansão Kross uma hora antes do jantar. Pelo visto, Adley chegou mais cedo do que eu.
"Que bom que você apareceu." Os olhos de Adley se iluminaram. Ela era neta de Lex Kross, herdeira do seu império bilionário - as Indústrias e Corporações Kross. Além disso, ela era casada com um bilionário mulherengo regenerado, Mykel Creed.
"Ei, Ad." Beijei sua bochecha. "Sempre apareço todo fim de semana. E você? O que te traz aqui?"
"Você só aparece quando não esperamos por você." Adley era linda, seu rosto adorável e seus olhos azuis grandes e brilhantes. "Nenhuma aventura recente? Como se jogar no buraco quente agora mesmo?"
"Deixe o pobre homem em paz", disse Lex do quintal.
Ele era um gênio, com uma mente que funcionava perfeitamente graças à sua experiência.
"Ouviu o velho." Dei de ombros.
Mykel Creed já foi o protegido de Lex até se casar com Adley.
Muitos anos atrás, quando eu estava perdido e sem nada, Lex surgiu do nada, me oferecendo duas opções: vida ou inferno. Ele me ensinou tudo o que eu precisava aprender sobre negócios e foi uma das poucas pessoas que me tratou como um ser humano.
Adley riu. "Pobre bilionário, vovô."
"Como estão Mykel e as crianças?"
"Você deveria vir jantar na sexta-feira." Revirando os olhos, ela pegou sua bolsa e continuou: "Se não estiver ocupado se matando."
"Já está indo?"
"Sim. Tomei chá com o vovô. Prometi às crianças um jantar e uma noite de cinema. Ao contrário de você, tenho filhos, Spade. Você deveria se casar e gastar seus bilhões com as pessoas que ama."
Soltei um gemido mentalmente.
Percebendo o olhar no meu rosto, ela segurou meu braço rapidamente. "Ei. Você não pode estar apaixonado pela natureza enquanto seu coração está congelado. O amor não funciona assim. Sei que você passou por um inferno, mas será que não pode dar uma chance às mulheres de bem?"
"Que mulheres?"
Seus olhos se estreitaram. "Você é inacreditável."
"Querida, vá logo. As crianças estão esperando", disse Lex impacientemente.
"Tchau, vovô. Te vejo no próximo fim de semana. Te amo." Ela deu um tapa no meu braço antes de sair. "Deixe esse coração descongelar, Spade. Já faz anos. Você é bonito demais para morrer sozinho."
Um sorriso se formou nos meus lábios enquanto eu seguia a voz de Lex.
"Oi." Sentei-me em frente a ele, olhando para o vasto e bem cuidado jardim.
"Como está, filho?"
"Estou tão bem quanto da última vez que você me perguntou, ontem à noite. Mas obrigado por perguntar." Servi-me de chá na xícara. "Quer mais?"
Ele balançou a cabeça e suspirou, como se tivesse algo em mente.
"Está tudo bem?", perguntei.
"Eu deveria te perguntar o mesmo. Está tudo bem?"
Após olhá-lo por um momento, tomei um gole do chá. "Sim. Os negócios estão ótimos."
"Claro que estão. Vi os relatórios das suas empresas."
Coloquei a xícara de chá sobre a mesa, esperando que não tivesse nada de errado com sua saúde. Anos atrás, ele passou por um transplante de rim bem-sucedido, mas sempre havia riscos e complicações a longo prazo.
"Então, qual é o problema, Lex?"
Depois que me formei na faculdade, ele financiou minha ideia de negócio inicial. Assim, Zacc & Kross Ventures foi fundada. Com sua orientação e conexões, nos tornamos uma empresa multimilionária. Cerca de três anos atrás, fundei Emergence Capital com meu suor e dinheiro arduamente conquistado. De um garoto frio e perdido, me tornei quem era hoje por causa dele.
"Não me diga que você quer que eu encontre uma mulher e me case."
"Acho que você pode encontrar uma mulher sozinho, se ainda não encontrou." Ele sorriu, seus olhos azuis brilhando. "Já cansei de bancar o cupido com minha neta."
"E você falhou nisso", eu disse com uma risada. "Adley encontrou seu par sozinha."
"É verdade. Bem, fui convidado para um leilão de gala, mas estou velho demais para ir."
"Desde quando as galas se tornaram muito jovens para você e para todos?"
"Vá e participe, Spade."
"Por que não Adley ou Mykel?"
Ele me encarou. "Está saindo com alguém?"
Meu rosto se esquentou desconfortavelmente. "Não. Já sou casado com meu trabalho. Você só pode estar brincando. Não vou. E eu te disse que não estou interessado em namorar agora depois... ah..."
Que merda! Esse tipo de evento...
"Então vá para casa." Ele se virou e olhou para o outro lado.
Franzi a testa. "Você não está chateado comigo porque não vou a esse evento. Vou doar cem mil em seu nome. Só não estou interessado."
Colocando o convite sobre a mesa, ele perguntou: "Salvar mulheres fará você mudar de ideia?"
Ah, merda! Era esse tipo de leilão... Pensei que fosse um leilão de namoro para arrecadar fundos. Quero dizer, quem diabos faz isso?
Eu queria xingar Lex até o inferno, mas tinha um imenso respeito por ele, que era meu mentor e o homem que me deu a vida que tinha hoje. Eu sabia que, no momento em que ele me mandasse ir, eu nunca poderia recusar, mesmo que tivesse que pular no abismo para agradá-lo.
Era o quanto ele significava para mim.
Peguei o convite e verifiquei a data. "Sabe, quando você me pediu, não foi um convite, mas uma ordem."
"Aproveite a noite, filho. Só Deus sabe o quanto você precisa de alguns dias de folga."
Depois do jantar, fui à academia da mansão. Por frustração, dei alguns socos brutais no saco de pancadas pendurado na estrutura de metal, o atingindo várias vezes com chutes simultâneos.
Meu peito arfava, e o suor escorria pelo meu rosto. Fiquei ali, meu olhar fixo no saco com o rosto do monstro, me zombando e rindo de mim por ser tão pequeno, fraco e patético.
Com um rugido furioso, dei um soco final. "Você não está aqui. Não passa de uma invenção do meu pesadelo."
Após tomar banho, respirei fundo e fui dormir. Meu coração batia tão forte. Por um momento, senti-me desorientado até que a mesma parede azul-quente chamou minha atenção.
Dormi no meu antigo quarto, o primeiro quarto para onde Lex me levou depois que fugi da minha última casa de acolhimento. Às vezes, me sentia reconfortado por não estar mais dormindo encolhido no chão frio ou no porão escuro.
ROBYN
"Mãe, tem certeza que vai ficar bem?" A casa da minha mãe não ficava muito longe do meu apartamento, e eu queria ficar com ela para cuidar dela até que ela voltasse a trabalhar. Porém, quanto mais eu ficava, mais a incomodava.
Do sofá, ela me fuzilou com o olhar. "Se me perguntar isso mais uma vez, te chuto para fora desta casa."
Sorrindo, me inclinei para beijar sua bochecha. "Ok. Me liga se precisar de qualquer coisa."
"Não estou mais com febre, querida. Só vá e se divirta."
"Sei como me divertir, mãe." Peguei minha bolsa no sofá.
"Assistir a séries idiotas na Netflix não é diversão, e que bom que você finalmente vai sair esta noite."
"Bom, vou tentar me divertir." Nem tinha chegado na porta quando a ouvi me chamar.
"Vê se transa, filha."
"Mãe!" Minhas bochechas queimaram ao pensar que ela sabia que eu praticamente não tinha vida fora do trabalho. Eu estava na seca há anos, mas tinha namorados leais: meus vibradores, meu dildo e, em breve, talvez um parceiro de inteligência artificial. Fiz uma careta só de pensar nisso.
"Você é uma adulta. Seu último namorado foi há dois anos. Não dependa tanto daqueles aparelhos. Pênis são muito melhores para vaginas do que coisas que vibram."
Eu caí na gargalhada. "Você é mesmo uma enfermeira, hein?"
"Eu entendo de pau e de pinto também. E de buceta, Robyn."
Enxuguei as lágrimas que surgiram nos cantos dos meus olhos. "Descanse um pouco. Te vejo de manhã."
"Não. Não volte pra casa enquanto não transar, mocinha."
"Tchau, mãe. Te amo. Piper chegou."
"Manda um oi para Piper."
Quando entrei no banco do passageiro, Piper sorriu. "Alguém está animada esta noite." Ela usava um vestido branco de duas peças, próprio para balada, que exibia seu abdômen definido e chapado.
"Dá pra acreditar? Minha mãe não quer que eu volte pra casa enquanto não transar."
"Ela está certa, gata", ela respondeu, dirigindo em direção à avenida principal. "Quando foi a última vez que você teve uma noite daquelas? Ou só ficou com um cara qualquer? Você trabalhou tanto que esqueceu como se divertir."
"Isso não é verdade", protestei, olhando para ela. "Você está saindo com alguém?"
"No momento, prefiro sexo casual."
"Fácil para você dizer." Olhei para ela. "Você é a garota ideal. Ruiva de olhos verdes."
"Sangue irlandês, gata", ela disse com orgulho.
"Pois é. Você é tão deslumbrante, que me sinto uma garota comum quando estou perto de você."
Dando uma olhada rápida na minha roupa, ela comentou: "Você por acaso se olha no espelho? Tem noção do quão gostosa você é? Você é gostosa pra caralho. Se eu não fosse hétero, com certeza te dedava agora mesmo."
"Nossa." Apertei minhas coxas uma contra a outra, o que a fez rir.
"Só estou te dizendo a verdade. Você é gostosa pra caralho, mesmo com suas calças largas e blusas enormes. Você tem as pernas mais lindas e torneadas que poderiam andar quilômetros. Você tem peitos lindos e um rosto de boneca, e olha esses seus olhos."
"Castanhos?" Ergui as sobrancelhas.
"Não perguntei a cor. Você tem olhos grandes e redondos. Esse é o seu ponto forte. Garota, até o nosso chefe, eu já vi ele te secando várias vezes."
Bufei e soltei um som que lembrava guincho de porco. "Nosso chefe frio e rabugento? Impossível. Eu achava que ele me odiava. Ele odeia todo mundo."
"Ele pode odiar todo mundo, mas ainda tem um pau. E aposto que é um pau enorme, grosso e comprido."
"Ah, meu Deus!" Revirei os olhos. "Não é à toa que minha mãe gosta de você. Ela te ligou para me mandar transar também?"
"Não, mas estou te falando a verdade. Acho que o senhor Kolby está a fim de você."
"Não. Definitivamente não. Ele é bonito -"
"Não. Ele é lindo de morrer com um pau de vinte e cinco centímetros. Se ele quisesse me foder por uma noite, eu com certeza deixaria. Não me importaria se ele não me reconhecesse na manhã seguinte."
"Você é louca, Pip." Solei uma risadinha.
"É por isso que você me ama."
Pura verdade.
Se não fosse por ela, eu poderia ter enlouquecido tentando encontrar um motivo para Barbie ter me abandonado. Perder uma melhor amiga que, aparentemente, nem teve a coragem de dizer adeus, foi devastador.
Barbie havia deixado apenas um bilhete, como se nunca tivéssemos tido anos de amizade. Era uma loucura como foi fácil para ela simplesmente abandonar a pessoa que fez parte da sua vida por anos.
Eu também entendia o que era virar a página e ficar com a pessoa com quem se queria passar o resto da vida. Se esse fosse o caso dela, ela poderia ter dito. Eu ficaria feliz por eles e, talvez um dia, eu também teria a minha chance, mas ela foi apenas uma vadia egoísta e egocêntrica!
Chegamos a uma das baladas mais quentes da cidade. Eu esperava que estivesse lotada num sábado à noite, e estava certa.
Mal conseguíamos nos mover através da multidão. A música era alta demais, o cheiro forte demais, a pista de dança abarrotada demais.
"Olha só quem está aqui." Bruna Periera, que eu chamava de Bruna a bruxa, percorreu meu corpo com o olhar, da cabeça aos pés. "Pensei que você só aparecesse no Halloween."
Ela era linda, sexy, com olhos castanhos e cabelos longos e ondulados, e tinha cinquenta mil seguidores no Instagram.
Eu já tinha visto sua bunda mais vezes do que a minha. Para ser justa, ela tinha uma bunda natural incrível.
"Oi, Bruna", cumprimentei com um sorriso.
Às vezes, eu sentia inveja e insegurança perto dela. Ela conseguia usar o vestido mais feio e fazer parecer que foi feito sob medida para ela. Às vezes, ela também era uma cretina, talvez na maior parte do tempo, mas era porque ela era confiante na própria pele.
"Ela odeia o Halloween, Bruna. Ficou traumatizada quando era criança por causa de uns valentões de máscaras."
"Só isso?", ela debochou. "Ou ela só não sabe se divertir."
Eu queria revirar os olhos e jogar algo no rosto bonito de Bruna, mas hoje à noite, escolhi a diversão em vez da minha raiva.
"Vou pegar umas bebidas pra gente, gata." Piper foi até o bar, me deixando sozinha com Bruna.
"Então, por que nosso chefe estava puto com você?", perguntou Bruna.
Eu não sabia por que não gostava dela. Inveja? Ou seu comportamento irritante simplesmente me tirava do sério.
Bruna ergueu sua sobrancelha perfeita para mim enquanto bebia uma Margarita, esperando minha resposta.
A questão era: quando foi a última vez que meu chefe não esteve puto com todo mundo?