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Primeira dama

Primeira dama

Autor:: biazrs
Gênero: Romance
Ananda é uma patricinha que foge de casa e se vê jogada em um morro cheio de desafios e surpresas. Entre amigos de Laís, aventuras inesperadas e desafios diários, ela se aproxima de Khalil - intenso, protetor e impossível de ignorar.Entre provocações, encontros inesperados e o primeiro beijo arrebatador, Ananda descobre que o coração pode se render onde menos se espera. Romance, tensão e química que vão desafiar todas as certezas dela.

Capítulo 1 Um

Ananda

- Me solta! - gritei, acertando um chute certeiro no pau do meu padrasto.

- Desgraçada! - ele gemeu de dor e caiu no sofá, contorcendo-se.

Não esperei pra ver mais nada. Peguei minhas mochilas do chão e saí dali sem olhar pra trás.

Minha mãe tinha viajado, me deixando sozinha com ele. E nesses dias, cada noite virava um pesadelo: bêbado, ele vinha pra cima de mim, tentando me bater. Conseguiu algumas vezes. Uma delas, até me pegou dormindo.

No começo, era tudo perfeito. A família de comercial de margarina. Ele parecia o padrasto dos sonhos: carinhoso, atencioso, me tratava como filha. Mas como dizem, felicidade de pobre dura pouco. Do nada, o homem virou um monstro.

Não culpo minha mãe, ela deixou uma filha nas mãos de alguém que ainda parecia ser o marido ideal. Mas agora... agora eu finalmente estava livre daquela casa maldita.

Peguei o celular e tentei ligar pra Laís enquanto chamava um táxi. Entrei, dei bom dia pro motorista e passei o endereço. O caminho parecia eterno. Quando estávamos quase chegando no morro, liguei de novo. Dessa vez, ela atendeu no terceiro toque.

📲 Ligação

- Ami, o que houve? - a voz dela soou preocupada. - Tava fazendo almoço e meu...

- Me explica como chego na sua casa. Tô na entrada do morro.

- Fica parada na entrada e não fala com ninguém. Tô indo buscar.

📲 Ligação off

Paguei o táxi, e o motorista saiu arrancando sem nem olhar pra trás. Fiquei ali, o silêncio das ruas me apertando o peito. Um silêncio que mais parecia aviso.

Caminhei devagar até a entrada. Ia sentar num batente quando um assobio me fez congelar. Virei a cabeça e vi um grupo de homens armados vindo em minha direção.

As armas reluziam na luz fraca. O coração disparou.

- Quem é você? - um deles perguntou, a voz seca.

Levantei as mãos em rendição, gaguejando algo que nem sei o que foi. Dei um passo pra trás, mas acabei batendo em alguém.

O sujeito atrás de mim segurou firme no meu braço, me puxando contra o corpo dele.

- Vai pra algum lugar? - sussurrou no meu ouvido, a voz grave e ameaçadora.

Um dos outros se aproximou ainda mais e apontou a arma pro meu peito.

- Fala logo quem tu é antes que eu perca a paciência.

Engoli seco, o corpo tremendo. As mãos do cara atrás de mim apertavam meu braço com força, quase me prendendo de vez.

E foi aí que a voz da Laís cortou o ar:

- PEIXE! - gritou. - Ela é minha amiga!

Alívio. Instantâneo. Os caras abaixaram as armas, e até o que estava me segurando soltou devagar, ainda desconfiado.

Laís veio correndo, me puxou pros braços dela como se quisesse me esconder do mundo.

- Você tá bem? Eles te machucaram? - perguntou, os olhos marejados.

Balancei a cabeça, ainda sem fôlego.

O tal do Peixe ergueu o queixo, meio sem graça.

- Quer uma água, mina?

- Ela não quer nada, Peixe! - Laís cortou, furiosa.

Ele ergueu as mãos em rendição, rindo.

- Calma, pô. Sem maldade.

- Obrigada... - murmurei, a voz falhando.

E só então Laís me puxou dali, sem olhar pra trás.

Laís não soltava meu braço, como se tivesse medo de que eu sumisse dali em um segundo. Fomos caminhando rápido pelas vielas do morro, o coração ainda acelerado no meu peito. Eu tentava prestar atenção no caminho, mas meus olhos só viam flashes: as armas, o rosto sério dos caras, a mão dura me segurando.

- O que foi dessa vez, ami? - Laís perguntou baixinho, quase sem olhar pra mim, como se tivesse medo da resposta.

- Meu padrasto... de novo. - respirei fundo. - Planejei fugir, achei que ele tava dormindo. Mas fiz barulho na janela. Ele me pegou no flagra e tentou me bater. - mostrei os roxos no braço, a pele marcada como prova. - Se eu tivesse ficado, não sei se estaria viva agora. Só consegui escapar porque chutei ele no saco e corri.

Laís apertou minha mão com mais força.

- Já ligou pra tua mãe?

- Nem pensei nisso, foi tudo muito rápido.

- Então liga logo. Esse desgraçado não pode ficar solto, nem perto dela.

Assenti, engolindo o choro que insistia em subir. Eu não queria desmoronar ali, na frente de todo mundo.

Ela abriu o portão de casa e me puxou pra dentro, fechando atrás de nós como se fosse a barreira final contra o mundo lá fora. Suspirei, finalmente sentindo o peso sair das costas.

Laís virou pra mim e, do nada, abriu um sorriso.

- Lembra quando a gente sonhava em morar juntas?

Sorri de volta, mesmo cansada, mesmo quebrada.

- E se a gente tentasse agora?

- Eu quero! - falamos juntas, e a risada saiu leve, como se limpasse todo o medo que eu carregava.

Ela apontou pra cozinha.

- Fiz lasanha.

- Mentira! - arregalei os olhos.

O cheiro maravilhoso tomou minhas narinas, aquecendo o vazio que eu sentia por dentro. Corri atrás dela e vi a forma em cima da mesa.

- Isso tudo é pra mim?

- Claro que não, sua safada. - ela riu. - Os cornos daqui me obrigaram a cozinhar.

- Cornos?

- Dois amigos meus, o Tico e o Teco.

- Se forem bonitos que nem aqueles que me pararam lá embaixo, pode mandar vir.

- Safada! - gargalhou, e eu gargalhei junto.

Enquanto ajudava ela na cozinha, entre cheiro de comida e fofoca, eu percebi: pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia respirar. Eu não era mais prisioneira daquela casa, nem daquelas mãos violentas.

Eu era livre. E ninguém ia tirar isso de mim.

Capítulo 2 Dois

Ananda

Depois de algumas garfadas de lasanha, Laís me cutucou com o cotovelo.

- E aí, vai enrolar até quando pra ligar pra tua mãe?

Suspirei, largando o garfo. O gosto da comida parecia desandar na boca.

- Tá, tá bom... - peguei o celular com as mãos trêmulas.

Respirei fundo antes de apertar o número dela na tela. O coração batia tão alto que parecia que minha mãe ia ouvir mesmo antes de atender.

📲 Ligação

- Filha? - a voz dela soou feliz, aliviada. - Eu ia te ligar mais tarde, como você tá?

Engoli seco, sentindo a garganta queimar.

- Mãe... eu não tô bem.

O silêncio dela do outro lado foi imediato.

- O que aconteceu, Ananda? - agora a voz já vinha tensa, assustada.

As lágrimas começaram a descer, mesmo que eu não quisesse.

- O Carlos... ele... - minha voz falhou. - Ele tentou me bater de novo. E hoje... hoje ele me pegou quando eu tentava fugir.

- O quê?! - ela praticamente gritou. - Como assim? Ananda, você tá machucada?

Olhei pros roxos no meu braço. O nó na garganta quase me sufocava.

- Ele me bateu duas vezes, mãe. E hoje... se eu não tivesse corrido, eu não sei... eu não sei se tava viva agora.

Do outro lado da linha, ouvi o choro contido dela.

- Meu Deus do céu... Ananda, me perdoa... eu nunca imaginei... eu juro que não imaginei...

- Eu não quero desculpa, mãe. - minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Eu quero que você não volte pra casa enquanto ele estiver lá. Você entende? Ele pode fazer com você o que fez comigo.

O silêncio dela doeu. Eu quase conseguia ouvir a respiração pesada, o coração dela acelerado.

- Eu vou resolver isso. - disse por fim, decidida. - Eu prometo, filha.

📲 Ligação off

Deixei o celular cair em cima da mesa, as mãos ainda tremendo. Laís me puxou pro colo dela, como se fosse meu porto seguro.

- Tá vendo? - disse baixinho, fazendo carinho no meu cabelo. - Agora começa a tua vida de verdade.

Fechei os olhos e deixei o choro vir de vez, mas não era mais só dor. Era libertação.

Acordei com o som de um funk estourando em algum lugar lá fora. Não era despertador, mas servia. Pisquei os olhos, confusa, até lembrar: eu não estava mais na minha cama de lençóis macios, nem no meu quarto cheirando a perfume importado. Eu estava na casa da Laís, no meio da favela.

Me levantei, ajeitando a blusa amassada, e fui até a cozinha. O cheiro de café recém-passado me guiou até ela. Laís estava de shortinho, mexendo a panela como se nada pudesse abalar o humor dela.

- Dormiu bem, madame? - perguntou com um sorrisinho irônico, colocando duas xícaras na mesa.

- Dormi... - cocei a nuca, ainda meio perdida. - Só que o barulho aqui não deixa ninguém esquecer onde tá, né?

Ela riu.

- Aqui a gente acorda no ritmo, ami. Acostuma.

Depois do café, Laís insistiu em me levar pra dar uma volta. As vielas eram cheias de gente, crianças correndo, vizinhas conversando alto, cheiro de comida misturado com fumaça. Eu tentava fingir naturalidade, mas cada olhar que sentia sobre mim parecia dizer: ela não é daqui.

Na esquina, três caras estavam encostados, rindo e fumando. Quando nos viram, endireitaram as posturas. Laís levantou a mão num cumprimento rápido.

- Esses são os cornos que falei ontem. - murmurou no meu ouvido.

Arqueei a sobrancelha.

- Cornos?

- É, ué. Khalil, Peixe e Tzão.

Eles se aproximaram. O primeiro, Khalil, tinha um sorriso maroto que já me deixou em alerta.

- E aí, Laís? Quem é a princesa?

Revirei os olhos. Princesa? Sério?

- É minha amiga, Ananda. Vai ficar aqui um tempo. - Laís respondeu firme.

Peixe arqueou a sobrancelha, me olhando de cima a baixo.

- A patricinha vai aguentar o morro? Quero só ver.

Cruzei os braços.

- Eu tenho nome, sabia?

Os três riram. Até o grandão, Tzão, deu uma risada grave.

- Gostei. - ele disse. - Não abaixou a cabeça.

- Gostar o quê, Tzão? - Laís já cortou, me puxando pelo braço. - Vocês três, nem ousem.

Eles continuaram rindo enquanto a gente se afastava. Eu ainda sentia os olhares grudados em mim, como se me testassem só por existir ali.

- Você não devia ter respondido. - Laís resmungou. - Aqui cada palavra pode virar zoação.

- Não sou saco de pancada de macho, amiga. - retruquei, sem pensar.

Ela respirou fundo, mas não segurou o sorriso.

- Tá bom, dona Patricinha. Vamos ver até quando segura esse fogo.

E seguimos, lado a lado. Eu tentando me acostumar com o peso daquele novo mundo, e ele já começando a me moldar.

Capítulo 3 Três

Ananda

O calor parecia mais pesado ali, misturado com o som das crianças correndo descalças e o funk que ecoava de algum beco próximo. Eu tentava acompanhar Laís sem tropeçar nas pedras soltas, mas sentia todos os olhares grudados em mim como se eu tivesse uma placa piscando na testa: estranha no ninho.

- Relaxa, ninguém morde - Laís riu, percebendo meu desconforto. - Vem cá, vou te apresentar os moleques de verdade agora, sem correria.

Parados perto de uma moto, três garotos observavam a cena. Eu já tinha visto eles na casa da Laís mais cedo, mas nunca tinha gravado direito quem era quem.

O primeiro era impossível de não reparar: alto, pele morena, cabelo preto, barba fechada com cavanhaque e bigode. As tatuagens no braço e no pescoço só reforçavam a cara de mal.

- Ih, Laís, trouxe a Barbie pro morro? - disse ele, com um sorriso debochado. - Aposto que nunca pisou num lugar desses.

Esse só podia ser o Khalil.

Ao lado dele, um pouco mais baixo, mas com o corpo bem definido, estava um garoto de porte médio, ombros largos, tatuagem tomando conta apenas do braço direito. Ele me olhou com curiosidade, mas sem o mesmo tom de deboche.

- Seja bem-vinda, princesa - falou, levantando a mão num cumprimento simpático.

Esse era o Peixe.

O último era o mais alto dos três. Branco, quase um poste, devia ter uns 1,90, cabelo preto, cavanhaque bem aparado. Diferente dos outros, não parecia tão interessado em me julgar - mas o riso fácil mostrava que ele não ia perder a oportunidade de zoar.

Esse era o Tzão.

- Essa é a minha amiga, se comportem - Laís falou, me puxando pra frente. - Gente, essa é a Ananda.

- Princesa nada, Barbie mesmo - Khalil riu, me olhando de cima a baixo. - Deve ser fresca demais, aposto que não sabe nem andar sozinha sem motorista.

Senti meu sangue ferver.

- Você nem me conhece pra sair falando isso.

Ele arqueou uma sobrancelha, provocador.

- Não precisa conhecer muito pra ver. Tá escrito na tua cara.

- Então talvez você precise olhar melhor - rebati, firme, surpreendendo até a mim mesma.

Tzão gargalhou alto.

- Eita, Khalil tomou logo na lata!

Peixe balançou a cabeça, rindo.

- Gostei da Ananda... vai dar trabalho por aqui.

Laís bateu palmas, se divertindo.

- Eu avisei que ela tinha resposta na ponta da língua.

E ali, no meio daquela zoeira, eu percebi que o jogo estava só começando.

Laís não me deu tempo nem de respirar. Assim que as provocações diminuíram, ela já puxava meu braço.

- Bora, bora, bora! - disse animada. - Hoje é sexta, e sexta é dia de barzinho improvisado.

Antes que eu pudesse reclamar, já estávamos atravessando as vielas até parar num espaço aberto, cheio de mesas de plástico coloridas, caixas de som estourando funk e uma caixa de isopor lotada de latinhas. Um cheiro de churrasquinho no espeto tomava conta do ar.

- Senta aí, Barbie - Khalil apontou a cadeira com um sorrisinho torto. - Mas cuidado pra não sujar a roupa de marca.

- Cala a boca, Khalil - Laís retrucou, mas eu já estava me sentindo desafiada.

- Roupa de marca dá pra lavar, língua venenosa não tem sabão que resolva - rebati, arrancando risadas de Peixe e Tzão.

- Essa garota tem resposta! - Tzão gargalhou, batendo na mesa.

Peixe, que já abria uma latinha, me ofereceu.

- Vai, aceita. Aqui todo mundo bebe junto.

- Eu não bebo cerveja - falei, sem pensar.

Silêncio. Quatro pares de olhos em cima de mim.

- Eu sabia! - Khalil explodiu em riso. - Fresquinha confirmada.

- Fresquinha nada, ela só não gosta - Laís me defendeu, mas estava rindo também.

Tentei não dar bandeira e peguei a latinha da mão do Peixe.

- Então hoje eu vou aprender.

Dei um gole rápido, a careta veio automática. A gargalhada deles ecoou pelo beco.

- Tá vendo, Barbie? Aqui cê aprende na marra - Tzão falou.

Depois da zoeira, Khalil bateu na mesa.

- Bora fazer um joguinho. Verdade ou desafio. Sem frescura.

Laís arregalou os olhos.

- Ih, ferrou. Eles adoram usar esse joguinho pra humilhar os outros.

- Relaxa, eu sei jogar - falei, mesmo sem ter certeza.

A garrafa girou. Caiu em mim primeiro.

- Verdade ou desafio? - Khalil perguntou, sorriso malicioso no canto da boca.

Olhei pros três, depois pra Laís.

- Desafio.

Os três trocaram olhares cúmplices.

- Quero ver essa Barbie cantar funk aqui, em pé, no meio do barzinho - disse Khalil, batendo palma e já chamando atenção da galera em volta.

Laís colocou a mão na testa.

- Ah, não...

Meu coração disparou. Funk, no meio daquela galera toda, sendo que eu mal sabia as letras direito. Mas desistir não era opção.

Eu respirei fundo, subi na ponta da cadeira e, do jeito mais desafinado possível, comecei a cantar junto com a batida que saía da caixa de som. A plateia improvisada foi ao delírio, entre vaias e risadas.

Quando terminei, descendo da cadeira quase tropeçando, até Khalil estava batendo palma.

- Tá bom... confesso, não esperava que tivesse coragem.

Sorri, ainda sem fôlego.

- Pois é, às vezes você precisa conhecer melhor as pessoas antes de falar delas.

Peixe ergueu a latinha.

- Brindemos à Barbie mais corajosa do morro.

Todos brindaram, e pela primeira vez naquela noite, eu senti que talvez estivesse começando a caber ali.

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