Minha vida era uma tela em branco, pintada com a solitude das ruas e a arte que escorria dos meus dedos.
Então, eles surgiram: Maria e João, meus pais biológicos, e Pedro, meu irmão, com promessas de amor e redenção que pareciam curar o buraco em meu peito.
Mas a estrada que nos levava a essa tal "surpresa" parecia estranhamente familiar, cheia do cheiro sufocante de esgoto e da sombra dos grafites que eu conhecia tão bem.
O carro parou na entrada da favela que assombrava meus pesadelos, e o sorriso de Maria se desfez, revelando a verdade fria: "É aqui que você vai ficar, Sofia. É o seu lugar."
Fui arrastada para fora, e entre o pânico e as lágrimas, vi a marca: duas cobras entrelaçadas, o símbolo deles, de Carlos e Ana, meus pais adotivos, chefes da gangue de tráfico de órgãos.
Eles não me resgataram: eles me venderam de volta para o inferno, para as mãos que me chamavam de "princesa" enquanto comandavam um império de sangue.
Tentei avisar, implorei, mas minhas palavras foram recebidas com tapas e risadas, enquanto negociavam meu preço como se eu fosse um pedaço de carne.
Eles me desfiguraram, cortaram meu cabelo, me deram uma identidade falsa para que ninguém pudesse me reconhecer, nem mesmo Rato, o homem que um dia tremeu ao meu olhar.
Quando Ana, minha mãe adotiva, finalmente me viu, meu rosto machucado e meu nome apagado me transformaram em uma estranha aos olhos dela.
Mas quando Ana a encontrou, a fúria em seus olhos revelou a verdade por trás do "acidente".
Naquele momento, enquanto as sombras se fechavam, a vingança acendeu uma chama fria em meu peito: eu não gritaria por socorro; eu seria a isca para arrastá-los para o abismo comigo.
O carro velho balançava, e o cheiro de mofo e cigarro barato enchia minhas narinas, mas eu não me importava, eu sorria, um sorriso que eu não dava há anos. Ao meu lado, Maria, minha mãe biológica, segurava minha mão, seus dedos calejados eram um conforto estranho. No banco da frente, João, meu pai, dirigia enquanto conversava com Pedro, meu irmão, sobre o preço da gasolina.
Eles eram minha família.
Depois de anos vivendo nas ruas, usando minha arte em muros cinzentos para sobreviver, eles me encontraram, eles me "reconheceram" . Disseram que sentiam minha falta, que me amavam, que queriam compensar o tempo perdido. Eu acreditei em cada palavra. O buraco no meu peito, a busca por um lugar para pertencer, parecia finalmente estar se fechando.
"Estamos quase chegando, querida" , disse Maria, sua voz soando doce, mas com um tom que eu não conseguia decifrar.
"Para onde estamos indo?" , perguntei, olhando pela janela. As ruas largas e os prédios comerciais estavam ficando para trás, dando lugar a vielas estreitas e casas sem reboco, uma paisagem que me causava um calafrio familiar.
"Uma surpresa" , respondeu Pedro, virando-se com um sorriso zombeteiro. "Um lugar para você recomeçar."
Meu estômago se revirou, uma ansiedade fria começou a subir pela minha espinha. Eu conhecia aquelas ruas, conhecia o cheiro de esgoto e fritura que pairava no ar, eu conhecia os grafites que cobriam cada centímetro de parede.
Eram símbolos. Símbolos de poder, de perigo.
O carro parou na entrada de uma favela, um lugar que eu jurei nunca mais pisar. Meu lar de infância, o lugar de onde eu fugi. O lugar que assombrava meus pesadelos.
"Não" , sussurrei, o sorriso desaparecendo do meu rosto. "Não aqui. Por que vocês me trouxeram aqui?"
João desligou o carro e se virou para mim, seu rosto agora sem nenhum traço de bondade. "É aqui que você vai ficar, Sofia. É o seu lugar."
Eles me puxaram para fora do carro com força. Meu corpo inteiro tremia. Cada som, cada olhar das pessoas nas janelas, tudo me transportava de volta. O medo era uma coisa física, uma garra apertando meu coração.
Então eu vi. O grafite principal no muro que servia de portão para a comunidade. Duas cobras entrelaçadas formando um círculo. A marca deles. A marca de Carlos e Ana.
Meus pais adotivos.
Os chefes da gangue que controlava este inferno. Os traficantes de órgãos que compravam e vendiam vidas como se fossem mercadorias.
Minhas pernas cederam, o ar me faltou. Não era uma coincidência, não era um erro. Meus pais biológicos não me encontraram por acaso, eles me trouxeram de volta para a jaula. Para os meus donos.
"Vocês não entendem..." , gaguejei, o pânico tomando conta da minha voz. "Eles vão matar vocês. Eles vão matar todo mundo que encostar em mim."
Uma lembrança invadiu minha mente, tão nítida que parecia estar acontecendo de novo. Eu tinha uns doze anos e um dos garotos da gangue, um pouco mais velho, tentou me beijar à força. Tiago, meu irmão adotivo, o viu.
Ele não disse nada, apenas arrastou o garoto para um beco. Eu nunca mais o vi, mas os gritos... os gritos ecoaram na minha cabeça por semanas. Mais tarde, ouvi Ana conversando com Carlos.
"Ele ousou tocar na nossa princesa. Tiago fez o certo. Ninguém toca no que é nosso." A voz dela era calma, quase maternal, mas as palavras eram uma sentença de morte.
Essa era a proteção deles, um amor possessivo e mortal.
Eu me virei para João e Maria, agarrando suas roupas, desesperada.
"Por favor, me levem embora daqui. Eu juro, eu sumo. Eu nunca mais apareço na vida de vocês. Eu dou todo o dinheiro que eu tenho. Por favor!"
Maria me empurrou com nojo, limpando a mão na calça como se eu fosse sujeira.
"Cala a boca, garota inútil" , ela cuspiu as palavras. "Você acha que a gente te quis de volta por quê? Por amor? Você só nos trouxe desgraça desde que nasceu."
Pedro riu, um som cruel e cheio de desprezo.
"Finalmente você vai servir para alguma coisa. Acha mesmo que a gente ia deixar você ficar com a 'herança' ? Você não é nada. É só um produto que a gente finalmente conseguiu vender."
Vender.
A palavra ficou suspensa no ar, pesada e afiada.
Eles não me resgataram, eles me venderam. De volta para o lugar de onde eu tinha lutado tanto para escapar. Minha busca por pertencimento, por amor, era uma piada. Eu era só um objeto, uma mercadoria, trocada por um punhado de dinheiro. E os compradores eram as mesmas pessoas que me chamavam de "princesa" enquanto comandavam um império de sangue.
O medo era tão intenso que quase me fez vomitar. Outra lembrança, ainda mais aterrorizante, me atingiu como um soco. Uma vez, durante o jantar, eu reclamei da comida que Ana tinha feito, uma coisa boba, infantil.
Carlos, meu pai adotivo, não levantou a voz, ele apenas me olhou com seus olhos frios e vazios.
"Você não gostou, princesinha?"
Ele se levantou, pegou meu prato e o prato de todos na mesa, e jogou tudo no lixo. Naquela noite, e nas duas noites seguintes, ninguém na casa comeu. Ele se sentou à mesa vazia conosco, em silêncio, apenas nos observando. A fome era a punição. Uma lição silenciosa e brutal sobre gratidão e poder. Eu aprendi a nunca mais reclamar de nada.
Esse era o tipo de gente para quem minha "família" estava me entregando.
"Por favor, eu imploro" , repeti, a voz embargada pelo choro e pelo pânico. "Eu errei. Eu não devia ter procurado vocês. Eu juro, eu desapareço. Finjam que nunca me viram. Por favor, me tirem daqui."
João me deu um tapa no rosto, com força suficiente para me fazer cair no chão sujo.
"Chega de drama. Você nos custou muito caro. Agora é hora de pagar."
Maria se agachou ao lado dele, e eles começaram a conversar baixo, como se eu já não estivesse mais ali, como se eu fosse um animal amarrado esperando o abate.
"Quanto você acha que o Rato vai nos dar por ela?" , perguntou Maria, seus olhos brilhando de ganância.
"Ele disse que o preço seria bom. Ela é jovem, saudável. O dinheiro vai dar para pagar a dívida do Pedro e ainda sobra pra gente reformar a casa" , respondeu João, já fazendo planos com o dinheiro da minha vida.
Pedro se aproximou, chutando meu pé. "E o meu carro novo. Não esquece do meu carro."
Eles riam, dividindo o lucro da minha venda.
"O Rato disse que ela tem o perfil que eles procuram" , continuou Maria. "Bonita, vai servir bem para o 'trabalho' . Talvez nem precisem abrir ela logo de cara."
A menção daquele nome fez meu sangue gelar ainda mais.
Rato.
Eu o conhecia. Ele era o chefe da segurança de Tiago, meu irmão adotivo. Um homem baixo, sorrateiro, com olhos que nunca encaravam os seus diretamente. Ele era leal a Tiago, e temia Carlos e Ana mais do que a própria morte. Ele sabia quem eu era. Sabia que eu era a "princesa" da família.
Se Rato estava envolvido, isso significava que meus pais adotivos não sabiam que eu estava voltando. Isso era uma transação clandestina, feita por baixo dos panos. E isso era ainda pior.
Um fio de esperança, fino e frágil, surgiu no meio do meu desespero. Se eles não sabiam, talvez eu pudesse usar isso.
"Vocês são idiotas" , eu disse, a voz rouca, tentando me levantar. "Vocês não sabem com quem estão lidando."
Eles pararam de rir e me olharam.
"Rato trabalha para o Tiago" , continuei, vendo um lampejo de confusão no rosto deles. "Tiago é o filho do chefe. E eu... eu sou a irmã dele. A filha adotiva de Carlos e Ana. A 'princesa' que vocês estão tentando vender."
Eu precisava fazê-los entender. A vida deles dependia disso. A minha também.
"Se eles descobrirem o que vocês estão fazendo..." , minha voz falhou. "Eles não vão só matar vocês. Eles vão fazer vocês desejarem a morte todos os dias, por muito, muito tempo."