Trancada no porão imundo da minha própria casa, a dor latejante nos tendões cortados era meu lembrete cruel de que eu ainda estava viva.
Meu marido, Mateus, o homem que um dia jurou me amar e proteger, havia ordenado minha mutilação.
Dias se arrastavam em uma escuridão úmida, minha antes luxuosa vida como senhora da casa, esposa do empresário mais bem-sucedido da cidade, reduzida a sobras jogadas como para um cão.
Então ela apareceu, Larissa, a mulher por quem Mateus me trocou, desfilando com meu vestido e o anel que deveria ser meu.
Ela sorria vitoriosa, anunciando o noivado e debochando que meu filho, Leo, a chamaria de "mamãe" - tudo enquanto me acusava de tentar matá-la e Mateus, cego, concordava.
Minha alma foi dilacerada ao ver meu filho, meu pequeno Leo, me atirar um brinquedo, chamando-me de monstro, as mentiras de Larissa enraizadas em sua mente inocente.
Quando Mateus confirmou que acreditava nela, sem sequer olhar para mim, a última partícula de esperança e amor dentro de mim se estilhaçou, me lançando em uma risada vazia e insana.
Foi então que uma voz mecânica ecoou em minha mente, anunciando que eu estava em um romance, que minha "missão de amor" falhara e que eu seria extraída em 24 horas.
A dor de saber que tudo era uma farsa cruel me afogou, transformando meu sofrimento em um espetáculo sem sentido.
No dia da minha "execução", amarrada a uma mesa, Larissa revelou seu plano macabro: meu coração seria transplantado para ela, por ordem de Mateus, que desejava minha morte lenta e dolorosa como "castigo".
Mas, em um golpe de sorte ou destino, meu filho Leo apareceu, chocando Mateus e revelando a farsa, culminando em minha "morte" e extração para meu mundo original.
De volta à realidade, confrontada com a doença de minha avó e a oportunidade de vingança, uma nova chance de reescrever meu destino naquele mundo de mentiras se abriu.
Trancada no porão, a única coisa que me lembrava que eu ainda estava viva era a dor constante nos meus tendões.
Eles foram cortados.
Por ordem do meu marido, Mateus.
Já perdi a conta de quantos dias, semanas ou meses se passaram. O mofo nas paredes e a escuridão úmida são minha única companhia.
Meu corpo está fraco, magro a ponto de os ossos se destacarem sob a pele. Sobrevivo com os restos que a empregada joga para mim, como se eu fosse um cachorro.
Eu fui a senhora desta casa, a esposa de Mateus, o empresário mais bem-sucedido da cidade.
Agora, sou apenas uma prisioneira em minha própria casa.
Passos soaram na escada de madeira. A luz forte da porta se abrindo me cegou por um instante.
Era Larissa.
Ela usava um vestido de seda caro, o mesmo que eu tinha desenhado antes de tudo isso acontecer. Seu cabelo estava perfeitamente penteado e sua maquiagem era impecável. Ela parecia a verdadeira dona da casa.
E, de fato, ela era.
"Sofia, querida, como você está?"
Sua voz era doce, mas cheia de veneno. Ela desceu os degraus com cuidado, segurando uma bandeja com um pequeno prato de comida. Era um pedaço de pão mofado e um copo de água turva.
"Vim trazer seu jantar."
Ela colocou a bandeja no chão sujo, a uma distância segura de mim.
Eu não respondi. Apenas a encarei com os olhos vazios. Falar gastaria uma energia que eu não tinha.
Larissa sorriu, um sorriso vitorioso.
"Sabe, o Mateus me pediu em casamento hoje. Ele me deu um anel de diamante enorme. Ele disse que finalmente se livrou do lixo e pode ficar com seu verdadeiro amor."
Ela estendeu a mão, mostrando o anel que brilhava mesmo na penumbra do porão.
Era o anel que Mateus tinha me dado.
Meu anel.
"Ele também disse," ela continuou, saboreando cada palavra, "que meu amado Leo logo vai me chamar de 'mamãe' oficialmente. Ele te esqueceu completamente, Sofia. Para ele, você é só uma mulher louca e má que tentou me matar."
Meu filho, Leo. Meu pequeno Leo. A dor no meu coração era mil vezes pior que a dor nas minhas pernas.
De repente, a porta se abriu novamente.
Era Mateus.
Ele estava impecável em seu terno caro, alto e imponente. Seus olhos, que um dia me olharam com tanto amor, agora estavam cheios de frieza e desprezo.
"Larissa, o que você está fazendo aqui? Eu te disse para não descer."
Sua voz era dura, mas havia uma nota de preocupação por ela. Não por mim.
"Eu só queria trazer um pouco de comida para ela, meu amor," Larissa disse, com uma voz chorosa, correndo para os braços dele. "Eu me preocupo com ela, apesar de tudo que ela me fez."
Que atriz.
Mateus a abraçou com força.
"Você é boa demais, meu amor. Não deveria se preocupar com essa mulher."
Ele olhou para mim, no chão.
"Você ainda está viva? Pensei que já teria morrido de fome."
Cada palavra era uma facada.
"Mateus," eu sussurrei, minha voz rouca pelo desuso. "Por quê?"
"Por quê?" ele repetiu, com uma risada fria. "Você ousa perguntar por quê? Você empurrou a Larissa da escada. Você quase a matou. Você merece apodrecer aqui."
Eu não a empurrei. Eu o salvei de um incêndio, e no meio da confusão, ela se jogou no chão e me acusou. E ele acreditou nela, sua paixão de infância, e não em mim, sua esposa e mãe de seu filho.
Larissa, aninhada no peito de Mateus, de repente ficou pálida e levou a mão ao coração.
"Ai... meu coração..." ela gemeu.
Mateus entrou em pânico.
"Larissa! O que foi? Seu coração de novo?"
Ele a pegou no colo com cuidado.
"O médico disse que você não pode ter emoções fortes! É tudo culpa sua!" ele gritou para mim, antes de subir as escadas correndo com Larissa em seus braços.
A porta se fechou, me mergulhando na escuridão mais uma vez.
O coração dela.
Essa era a desculpa para tudo. Desde que ela reapareceu em nossas vidas, seu "coração fraco" era a razão pela qual Mateus a protegia, a desculpava, a amava.
E era a razão pela qual eu estava aqui, apodrecendo.
Mas eu sabia a verdade. O médico que a atendeu após a "queda" era um primo distante dela. Era tudo uma farsa. Uma farsa que destruiu minha vida. E eu não tinha como provar.
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No dia seguinte, a porta se abriu de novo.
Desta vez, não era Larissa nem Mateus.
Era meu filho, Leo.
Ele tinha cinco anos, a imagem cuspida de Mateus, mas com os meus olhos. Ele segurava um carrinho de brinquedo na mão.
Meu coração deu um salto.
"Leo..." eu sussurrei, tentando me arrastar para mais perto.
Ele deu um passo para trás, com medo.
"A mamãe Larissa disse que você é uma mulher má. Ela disse que você a machucou."
Sua voz infantil era cheia de acusação.
"Não, meu amor... Eu sou sua mãe. Sofia."
"Você não é minha mãe! Minha mãe é a Larissa!" ele gritou, e jogou o carrinho de brinquedo em minha direção. O plástico duro bateu na minha cabeça.
Não doeu fisicamente, mas a dor em meu peito foi insuportável. Meu próprio filho me odiava e me atacava.
Ele foi ensinado a me odiar.
Naquele momento, Mateus apareceu na porta.
"Leo! O que você está fazendo?"
Ele desceu rapidamente e pegou Leo no colo. Ele viu o carrinho no chão perto de mim. Seu rosto ficou ainda mais duro.
Ele não me defendeu. Ele apenas repreendeu o filho por ter descido até ali.
"Eu te disse para não vir a este lugar sujo. Vamos, sua mãe está te esperando para o almoço."
Ele se virou para sair, levando meu filho.
"Espere," eu disse, com a pouca força que me restava.
Ele parou, mas não se virou.
"Mateus, olhe nos meus olhos e me diga," minha voz tremia. "Você realmente acreditou que eu a empurrei da escada?"
Houve um longo silêncio. Um silêncio que confirmou tudo.
"Sim," ele disse finalmente, sem se virar. "Eu acredito nela."
Ele subiu as escadas e fechou a porta.
Naquele momento, algo dentro de mim morreu. A última centelha de esperança, o último resquício de amor que eu sentia por ele, se apagou completamente.
Eu olhei para o teto escuro e comecei a rir. Uma risada vazia, louca. Eu ri até as lágrimas escorrerem pelo meu rosto sujo.
Eu me lembrava do dia em que ele me pediu em casamento. Estávamos em um campo de lavanda, o sol se pondo no horizonte. Ele se ajoelhou, com o anel na mão, o mesmo anel que Larissa agora usava.
"Sofia," ele disse, com os olhos brilhando. "Você me tornou o homem mais feliz do mundo. Case-se comigo. Prometo te amar e te proteger para sempre."
Para sempre.
Que piada cruel.
Naquela noite, enquanto eu tremia de frio e fome no chão duro, uma voz mecânica soou na minha cabeça.
[Sistema ativado. Anfitriã, sua pontuação de amor por Mateus chegou a zero. A missão de conquista falhou.]
Sistema? Missão? Eu estava delirando?
[Você está em um romance. Sua missão original era fazer Mateus se apaixonar por você completamente. Você falhou.]
[Devido à falha da missão, você será extraída do mundo do romance em 24 horas. Contagem regressiva iniciada.]
Então, nada disso era real. Minha dor, meu sofrimento, meu filho... era tudo parte de uma história estúpida.
E eu ia morrer.
Bem, talvez a morte fosse uma libertação.
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