- Eu juro que tento fazê-la sorrir sempre, eu a amo mais que tudo. Tento te fazer feliz, há quase três anos. O que te falta? - Khalil Abdu queixava-se novamente para a esposa.
- Você sabe porque não sorrio, mas não te faz diferença alguma, sua consciência é fascinante e leve como uma pena.
Alice respondia com veemência, gesticulando suavemente as mãos e franzindo o cenho, ao passo que inclinava a cabeça para frente a fim de encarar o homem.
Seus longos cabelos negros contrastavam com seus olhos azuis cintilantes, que mudavam para um tom mais escuro quando ela se irritava, o que fazia Khalil recordar-se do mar
caribenho longe da costa, lugar este ao qual a conheceu anos antes.
Pensar naquele litoral o levou para longe daquela nova briga a iniciar, a uma viagem no tempo, ao momento que se descobriu imediatamente fascinado ao vê-la andar dando-lhe as costas e rebolar suavemente devido a largura de seus quadris. Ele a adorava tanto, adorava o quão bela e jovem Alice era e ninguém sabia o quanto ele sentia saudades da alegria contagiante dela.
Absorto em seus pensamentos, sequer reparou em que momento foi deixado sozinho sentado à mesa na sala de jantar. Seu cérebro passou a ser apagado a cada início de demonstração de raiva da esposa.
***
Alice Canelluti era uma italiana maravilhosa, filha de um senador da Itália com uma cozinheira que era responsável pelos pratos servidos no restaurante do Senato della Repubblica e a piada entre eles era que de fato a mulher o conquistou pela barriga.
A bela moça cresceu no meio da política, sonhava estudar e trabalhar com o comércio exterior e gostaria de servir ao seu país de alguma forma com seu conhecimento e também seu sobrenome, mas numa viagem ao Caribe durante suas férias muitas coisas mudaram.
Em um planeta habitado por, na época, 7 bilhões de pessoas, naquele país minúsculo que recebe turistas de todas as partes, estava ela e Khalil Abdu, herdeiro de petrolíferas do Oriente Médio e norte da África, mineradoras e não contente com isso, era dono de uma beleza indiscutível e de pretensões ainda maiores que a sua fortuna ajudava a alcançar.
Apesar de aparentar pouco mais que trinta anos, Khalil era deslumbrante, o supra sumo do Egito, solteiro e discreto, de corpo esculpido provavelmente por Hathor, a deusa da beleza, com seus traços marcantes, olhos e cabelos negros como a noite e ele ainda tinha a aura de caos e mistério conferida pelo deus Seth. "Certamente, um homem que foi feito ao capricho dos Deuses" pensou Alice ao reparar nele quando o avistou pela primeira vez... e uma segunda, terceira, quarta.
Apenas aos vinte e três anos e cursando o último ano de comércio exterior, a jovem tomava um inspirador banho de mar trajando um trabalhado maiô branco.
Khalil parou para ver e crer naquela miragem emergindo das águas, pois julgou que nunca viu uma mulher tão bonita em toda sua vida e considerava que já havia visto e tomado para si várias outras mulheres.
" - Dama, eu poderia saber seu nome?
- Claro! Sou Alice. "
E apenas isso.
Somente isso.
Alice sumiu da ilha como se nunca tivesse existido, como se não passasse de um sonho de Khalil.
Ele sonhou durante noites com aquela mulher, que apenas disse o primeiro nome e pôs-se a caminhar. Ele admirou tanto aquelas curvas. Aqueles quadris que balançavam para lá e para cá que não achava possível que não fosse real tudo o que tinha visto. Estava certo de que nunca conseguiria imaginar toda aquela beleza.
Outra noite, já de volta ao Egito, chegou a queimar em febre pensando nela e decidiu esquecê-la para seu bem, mas só após um ano e meio se convenceu de que não voltaria a vê-la.
Era seu aniversário e ele comemoraria trinta e sete anos naquele vigésimo dia de novembro.
Como de costume, preparou um enorme banquete, convidando inúmeras figuras importantes ao redor do mundo para comemorar a data, além de algumas importantes figuras políticas, pois suas empresas abasteciam muitos países de petróleo, gás e minérios. Ele almejava muito um cargo político agora que já possuía tudo. Ele já tinha poder demais, mas desejava que o mundo falasse sobre o Egito atual, que vai muito além do passado de faraós e pirâmides. Khalil sabia que poderia mover quase todas as peças do tabuleiro do poder econômico e político da África e de certa parte da Europa, mas era muito ocidentalizado e não estava conseguindo convencer o poderio egípcio para ingressar de vez no meio político, então decidiu forçar este ingresso com a tática de outros políticos recomendarem-no simplesmente fazendo-os "conviverem" e encantarem-se por ele, por seu idealismo e consciência histórica, como se o fato dele ser um dos homens mais ricos e jovens do mundo pudesse se tornar só um detalhe.
O banquete daquele ano seria servido no Palácio Aisha Fahmy, no exclusivo bairro de Zamalek, Cairo. Normalmente Khalil preferia estar na Europa e dar seus banquetes anuais em qualquer castelo no Vallée de la Loire, o jardim da França, mas para criar o ar de proximidade com a sua origem, desta vez preferiu o Egito.
Zamalek abrigava a antiga mansão da família a poucos quilômetros da festividade e ele gostava das cores, da mistura de arquitetura ocidental e oriental e aquele palácio era a perfeita representação disso, tendo sido projetado pelo arquiteto italiano Antonio Lasciac.
Quando os convidados sentaram-se para serem servidos e ouvir o entusiasmado senhor Abdu falar eloquentemente sobre a riqueza cultural egípcia, globalização e laços a serem ainda mais estreitados entre o passado, presente e, tão sutil quanto imperceptível, dizer para aquelas figuras mundiais que eles deviam muito à África pela exploração de recursos ao longo de séculos e que o favoreceu muito e que o mundo não seria o que é sem o Egito, engasgou-se com as próprias palavras e saliva.
O cordeiro temperado com especiarias apimentadas, mel e grãos de mostarda inebriava o aroma no ar, mas Khalil farejava outro perfume agora, enquanto observava a mulher que entrava naquele enorme salão, vestida em traje de seda azul escuro, com uma echarpe imitando pelo animal branco, belas joias prateadas e lábios preenchidos de vermelho intenso.
Era Alice. E era uma pessoa real.
Ela sorriu para ele, um sorriso misto de surpresa, deboche e atração. Mediu-o por inteiro e mordeu o lábio inferior sem perceber.
Era daquele cordeiro que Khalil queria se servir, a vida inteira.
- O senador Matheo Canelluti, da Itália, pede desculpas por não comparecer, senhor Abdu. Venho em nome dele, prestar-lhe as congratulações. - Dizia a inacreditável e maravilhosa, Alice. - Aliás, o senhor me é mais agradável à beira-mar no Caribe. - sussurrou ela, sorrindo misteriosa.
Khalil mal pôde acreditar que aquela mulher ainda se recordava de seu rosto, o que ele mais queria e buscava havia mais de um ano, finalmente estava ao seu lado e ele se sentia adolescente por não saber como agir. Estava com vontade de mandar a todos embora, ou como seus ancestrais faziam quando queriam uma mulher difícil: raptá-la.
Alice por sua vez era bastante atrevida, pediu com educação, para sentar-se ao lado do aniversariante, o que deixou o homem radiante.
Khalil não havia tirado os olhos de Alice a noite inteira e estava muito ansioso pelo final do banquete, a fim de conversar mais com ela.
Sentiu ciúme de cada homem que apenas a cumprimentou.
Quando os convidados começaram a se despedir de pouco em pouco, a linda jovem italiana se aproximou dele.
- A noite foi bastante agradável, mas devo me despedir. - Disse ela, seriamente.
- Partir? Está cedo! Aproveite um pouco mais a festa. - O embaixador demonstrou um pouco de desespero na fala. Ela não podia deixá-lo outra vez. - Você deve ficar.
- Senhor Abdu, do Egito. Por que eu deveria ficar? Cumpri com um dever puramente político esta noite. Compareci e já posso me retirar. - Sorriu Alice, debochada.
- Te busco há mais de um ano, você não pode me deixar agora.
O coração dela acelerou, mas sua calma ainda se manteve ao retrucar.
- Não. O senhor buscava Alice. Eu sou a senhorita Canelluti, representante de um dos senadores da Itália em sua festividade, mas...- ela se aproximou de Khalil, e pôde sentir seu perfume amadeirado - Alice 'do Caribe', estará em sua casa para hóspedes e solicita que o senhor, quando estiver livre de seus convidados, lhe faça uma visita.
Ela deu-lhe um formal aperto de mão e se retirou, deixando no rosto do homem um sorriso largo.
Uma hora depois ele batia na porta de um dos quartos da casa de hóspedes, que ficava um pouco afastada da propriedade principal.
Ele encontrou Alice com seus longos cabelos soltos e revoltos, trajando uma fina camisola branca de manga-longa, solta pelo corpo e pouco acima dos joelhos.
– Rahmetak Ya Rabb!* Como é magnífica! - Exclamou Khalil.
– Entre. Acho que levamos tempo demais para nos encontrarmos novamente e agora não consigo esperar sequer um minuto para ser sua!
Assim que a porta do quarto daquela casa se fechou, os beijos eram desesperados de um casal cheio de saudades que há muito não se viam.
Khalil comprimia seu corpo ao de Alice como se tentasse fazê-la prisioneira de todo aquele desejo guardado há tempos somente para ela e por ela, enquanto sentia a língua quente da moça deslizar em seu pescoço e seus pelos eriçarem-se ao longo de seu corpo. Ele queria devorá-la, queria provar cada fluido corporal dela.
Alice afastou-o gentilmente e o guiou até a cama, lenta e silenciosamente, sinalizando que eles teriam muito tempo para tudo enquanto o despia sem pressa alguma e a partir dali tudo foi lento e demorado, pois não queriam perder nada.
Era como se Alice de fato pertencesse a Khalil a partir do momento em que ele jorrou para dentro dela seu desejo, sua paixão e toda a sua virilidade.
Contra tudo e todas as antigas tradições, o segundo encontro foi a primeira noite de amor dos dois.
Três meses depois, casaram-se e ambos amavam-se acima de qualquer coisa.
***
"E agora?" pensava ele, de volta ao presente. "Agora ela não me ama mais e talvez nunca a reconquiste."
Todo o amor que queimava entre os dois estava reduzido às brasas que sozinho Khalil tentava manter acesas a todo custo, mas ironicamente um dos homens mais ricos do mundo não possuía recursos suficientes para comprar algo impossível de ser precificado: os sentimentos e felicidade de Alice.
(* Rahmetak Ya Rabb - Misericórdia, oh Senhor)
O apetite de Khalil já havia terminado há algum tempo.
Levantou-se e foi até a adega que mantinha numa parte do porão, servindo-se de um Scotch 15 anos e quebrou o copo no chão por jogá-lo com força, o que o fez sentir que finalmente estava colocando a amargura para fora, instantaneamente acalmou-se.
O homem estava tão obcecado em melhorar a relação com Alice que no último ano havia perdido muitos compromissos, afastou-se da rotina de negócios e de suas intenções políticas, totalmente dedicado à uma melhora que não demonstrava sinais de que iria acontecer.
Decidiu que um ano perdido era suficiente e que talvez estava se esforçando da maneira errada, pois parecia repelir ainda mais a mulher e também estava cansado e esgotado.
"Por que eu simplesmente não me divorcio?" Pensou, olhando fixamente para os cacos do vidro no chão e reconsiderando em seguida, sentindo remorso por ter pensado em tamanho absurdo. "Ela está doente, o casamento é isso, não posso desistir só por ela estar em dificuldades. Quando ela estava feliz e linda, eu a queria, não vou abandoná-la. Ela só está doente e vai melhorar".
Teve uma oportuna ideia e iria comunicá-la.
Caminhou lentamente até a suíte onde Alice se encontrava, sem sequer anunciar sua entrada e a encontrou recém saída do banho, espalhando uma loção corporal apenas vestida de roupas íntimas, sem saber se era correto o que sentia ao vê-la tão despida, sob uma claríssima iluminação do cômodo, depois de tanto tempo. Estava controlando e disfarçando a vontade de abraçá-la, beijá-la e relembrá-la de toda a paixão que deixou de ser demonstrada.
Alice soltou um grito de susto ao vê-lo a encará-la, mas logo desviou o olhar e agiu como se ele não estivesse ali.
– Querida. - Khalil se aproximou, tocando-lhe os ombros.
– Em primeiro, você prometeu não beber... estou sentindo o cheiro daqui. -Disse ela, a voz começando a embargar.
– Eu sei, mas eu juro que estou sóbrio - Disse ele, abraçando-a por trás.
– E jurou outras vezes. - Alice começou a chorar compulsivamente, fazendo-o soltá-la do abraço por se sentir culpado.
– Alice, eu tomei uma decisão... e cumprirei toda e qualquer palavra que lhe disser. Eu acho que... você vai gostar... - ela olhou muito desconfiada, e gesticulou para que ele continuasse. – Preciso retornar à vida política e de negócios. Urgente. Sendo assim... Viajarei sozinho e lhe deixarei a vontade para fazer o que quiser, caso queira viajar, visitar seus pais, eu preferiria até, você sabe porque não gosto de te deixar sozinha, mas fica o meu voto de confiança. Te peço apenas que, ao meu retorno, você esteja presente. Quero sempre te encontrar em casa quando eu estiver de volta de minhas viagens! E então, o que você pensa sobre isso?
Era muita coisa para digerir, ela sabia que jamais conseguiria fugir de Khalil, mesmo se tentasse desesperadamente outra vez, pois ele a encontraria em qualquer lugar do mundo, mas o fato de ter a oportunidade para ficar um pouco longe dele e ter a possibilidade de repensar suas escolhas, sua vida e seu casamento sem a influencia dele já a aliviava indescritivelmente.
Ela sorriu, um largo sorriso, cujo Khalil não via há muito tempo.
– Quando você sairá de viagem? - Perguntou, tentando ocultar sem sucesso aquela euforia.
– Amanhã mesmo, no início da tarde.
– Isso é tão maravilhoso!
Alice não conseguiu se conter, naquele minuto estava tão eufórica que poderia se permitir um pouco de prazer, ia ser mais do que cumprir sua "obrigação" como esposa. Naquela noite, ela o recompensaria de bom grado. Se sua liberdade tivesse preço, ela pagaria qualquer coisa.
Naquela noite, imaginou que a moeda de troca desejada pelo marido era uma noite de amor. Alice fez questão de despi-lo, nunca o viu tão sem reação e surpreso. Ela se concentrou em como estava feliz dele ir para longe, que viajaria para ver os pais, sentia saudades de vê-los sem a presença do bilionário do Egito. Por poucos instantes, observou-o e admirou sua beleza, não pôde deixar de pensar que o tempo só fazia melhorar aquele desgraçado.
A bela jovem se forçava a recordar do homem gentil, amoroso e fervoroso que Khalil foi um dia. Se agarrava ao fio de lembrança, para conseguir saciá-lo e saciar a si própria.
Khalil abraçou-a e beijou-a com amor e carinho, mas não conseguiu se sentir excitado, pois era visível para ele que Alice não estava necessariamente sentindo vontade de fazer amor com ele, só não estava conseguindo demonstrar adequadamente que a ideia de se afastar dele a deixava exultante. Não era ele, era a ausência dele que estava deixando-a feliz.
– Não posso, querida. Sinto muito, hoje não.
Alice o olhou, e sem esboçar reação alguma, deitou-se ao lado do marido, virou-se para lado oposto e adormeceu. Sequer se importou que Khalil nem havia se retirado, pegou num sono profundo como se alguém a tivesse dopado de remédios para dormir.
Inicialmente o homem se sentiu deprimido. "Ela não se importou em me ver dizer não a ela. Sinal de que não se importa mais, não se importa mesmo", mas quando passou a deslizar as mãos carinhosamente nos cabelos da esposa e ver o rosto se distender ao receber aquele gesto com um leve sorriso em seus lábios, aquela sensação negativa passou.
– Você só tem que ser minha, então farei tudo e qualquer coisa por você. Meu amor.
Sussurrou ele, porém Alice já não o escutava mais.
Talvez, se naquele momento o ouvisse pelo menos dentro do inconsciente e pesado sono, ele não teria se excedido, descontrolando-se e realmente não a faria mais sofrer.
E naquela noite, depois de quase dois longos anos, eles estavam dormindo abraçados novamente, como uma simbiose de pessoas aninhadas nos braços do amor.
Desacordados, pareciam não enfrentar pesadelos na vida conjugal e nem em suas próprias mentes.
Desacordados, estavam plácidos e estranhamente, ainda pareciam apaixonados.
Desacordado, Khalil parecia a oitava ou nona maravilha do mundo.
Alice foi acordada por sentir mãos alisando seus cabelos.
Recordou-se da noite anterior e sentiu vontade de continuar de olhos fechados, de dormir até que o marido tivesse que partir para sua viagem.
Khalil não a deixou realizar tal feito. Abraçou-a forte e beijou seus lábios.
Ela aceitou o carinho, sem retribuir desta vez, pois estava contando as horas para que ele viajasse logo.
– Eu amo os seus cabelos, tão longos. - Disse ele, sentindo o aroma dos fios negros entrelaçados em sua mão.
Ela apenas sorriu.
Khalil estava sendo gentil demais, cordial demais, amoroso demais, tudo "demais" e ela estava absolutamente em estado de alerta e desconfiança.
Não parecia o homem dos últimos tempos, que a forçava a saciá-lo contra sua própria vontade e ela ainda tentava sustentar isso como uma obrigação de vida conjugal, o fardo eterno da mulher, com a afirmação retrógrada de que "homens são assim mesmo".
Veio à mente de Alice que ambos viveram em um apartamento luxuoso mais próximo ao centro do Cairo, pois ela desejava retomar os estudos, embarcar em uma especialização, pois estava entediada de ser apenas a jovem esposa do magnata do petróleo. O marido era um homem extremamente inteligente e ela não queria parecer inferior, precisava se ocupar.
Foi ali que todo o pesadelo começou.
***
Logo após Alice iniciar sua pós-graduação, Khalil passou a beber compulsivamente e demonstrar um ciúme doentio pela jovem, pois, de alguma forma, o frescor da juventude da esposa, seu ímpeto por independência despertou nele uma insegurança há muito adormecida. Ele sentia pavor de ser abandonado e trocado e esse sentimento lhe causava uma angústia indescritível, trazendo a tona comportamentos deveras obsessivos.
Alterado, dizia que ela queria voltar aos estudos para estar rodeada de pessoas da idade dela e que não o amava, pois ele era muito tempo mais velho, que os anos acentuariam ainda mais a diferença de idade entre ambos, que não tinha os mesmos hábitos e diversões dos jovens da idade dela e apostava que era isso que fazia falta a ela. Acrescentava ainda que sua companhia estava tão entediante que a esposa não o achava suficiente e queria ampliar seu círculo social.
Quanto mais difícil Khalil se tornava, mais proximidade Alice o entregava e desenvolvia muitas programações em casal para que pudessem realizar nos momentos vagos que ele tivesse. Criou hábitos de estudos extraclasse apenas enquanto tivesse trabalhando, seguia a risca uma rotina metódica de horários e pouco se enturmava, pois além de querer trazer conforto à perturbação mental causada pela insegurança do marido, não podia esquecer que ele era bastante poderoso e ela precisava preservar a privacidade deles.
Com essas atitudes, Alice conseguiu convencê-lo, temporariamente, o quanto o amava e que a diferença de idade nunca foi uma questão entre eles, pois ela mesma sempre foi bastante sozinha e que com ele se sentia preenchida. Reforçou que o achava a pessoa mais inteligente que conhecia e que queria evoluir para que eles sempre tivessem o que conversar, que não queria ser conhecida apenas por ser a "bela e jovem esposa de Khalil Abdu".
Essas discussões e afirmações eram repetitivas, cansativas e Alice estava considerando a possibilidade de desistir da especialização. "Quem sabe um dia, com o avanço da internet, eu consiga estudar em casa", pensou.
Desanimada ao abrir a porta do apartamento, preparada para enfrentar a carranca do marido, foi surpreendida por ele estar sentado calmamente a esperá-la com um embrulho nas mãos. Ao vê-la, levantou ao seu encontro e deu-lhe um beijo apaixonado, entregando o embrulho em suas mãos "É para você, minha vida, sei que será a maior especialista em comércio exterior", disse. Alice se deparou com uma linda joia que representava sua formação, que era um colar em ouro branco e o pingente de mapa-mundi cravejado de pequenos diamantes. Ela acreditou que aquele gesto era de apoio e de trégua, quando sentiu as mãos dele fechando o colar ao redor de seu pescoço ela sentiu o arrepio da paixão por ele percorrer cada poro de sua pele. Virou-se para ele e olhou no fundo de seus olhos para dizer que o amava e em seguida, o beijou demoradamente, retirando as roupas dos dois ali mesmo, na sala.
– Alice, os empregados! Vão nos ver! – Disse o homem, louco de paixão, mas ainda cauteloso.
– Que vejam, eu não me importo com nenhuma pessoa nesse mundo além de você. Você é meu e eu te amarei em qualquer lugar, qualquer ambiente, onde eu bem quiser.
Era dessa forma que eles resolviam seus problemas no início do casamento: se amando, adiando conversas duras, sendo imaturos.
Semanas após a entrega da joia e a reconciliação dos dois, que ocasionou uma trégua nas discussões diárias, Khalil resolveu buscá-la na instituição de surpresa e sem avisar.
Ele comprou alguns livros que Alice precisaria e lindas canetas banhadas a ouro, como uma manutenção do seu pedido de desculpas e demonstração de apoio aos seus estudos. Saindo do carro em que a aguardava para ter visão melhor do portão, avistou um rapaz alisar o braço de Alice e dar-lhe um beijo no rosto.
Sua expressão de ansiedade e amor mudou para uma grande carranca. Ele voltou para o carro e seguiu para casa, acreditando que as suas inseguranças estavam todas justificadas e confirmadas.
Indignou-se por estarem morando num apartamento próximo ao centro, para que ela pudesse estudar na melhor faculdade da região e ela permitir tais liberdades com um homem que não fosse ele mesmo. "Eu sou o homem dela, ela é minha, para isso me casei".
Esperou-a chegar, embriagado de bebida, de raiva, de ciúme. Em sua mente perturbada começaram a aparecer imagens de sua esposa com aquele homem, escondida na biblioteca o traindo, já que sabia que ela nem se importava em ser vista pelos outros. Andava de um lado para outro, repetindo que daria a ela uma lição que jamais iria esquecer, que infligiria nela uma dor tão grande que só assim ela poderia entendê-lo.
Sem saber o que a esperava, Alice se atrasou por meia hora de seu horário rotineiro de chegada. Sorridente, se aproximava para cumprimentar seu marido, quando foi surpreendida por um doloroso golpe de cinto de couro que a fez cair de imediato no chão.
Khalil estava cego, quanto mais ela pedia para ele parar, mais ele continuava e em dado momento, ela jurava que ele iria extingui-la da existência. As agressões cessaram quando Alice não conseguia mais mover músculo algum, em posição fetal, inconsciente.
Foram sete meses de muito alcoolismo por parte do marido, ameaças e agressões contra ela a partir daquele dia e ela nunca mais foi a mesma pessoa. Ela não tinha a menor ideia do que havia transformado e transtornado tanto seu amado Khalil, que brutalmente a punia daquela forma somente por viverem na mesma casa.
Quando ela se olhou no espelho, não se reconhecia. O corpo estava marcado, machucado, magro e nem seu rosto era poupado. Seus olhos pareciam fundos e ainda maiores, opacos, e ela sabia que nunca antes tinha sido tão infeliz.
A moça, inicialmente, tentava resistir ao que acontecia, tentava lutar, mas era tão menor e mais frágil que nunca escapava, depois entrou em um estado profundo de apatia e negação. "Isso não é real, não está acontecendo de verdade". Porém, sempre que se via no espelho, lá estava, a demonstração de que tudo era real. "É só eu não olhar mais".
Alice se sentia profundamente vazia, tentava criar teorias, justificativas, entender o que houve e o que fez para merecer aquilo. Ela oscilava entre querer que o marido recobrasse a consciência e parasse com aquilo, para que eles pudessem retomar o casamento e entre detestá-lo por ser um homem ruim.
A paranoia dele em relação a sua juventude o fez destruí-la e a colocar em cárcere na mansão em Zamalek, onde ninguém poderia ajudá-la.
Sabendo que não poderia contar com ninguém, vigiada o tempo inteiro, Alice apenas queria morrer. Estava exausta, não falava uma palavra nos últimos meses, sempre em silêncio, e se encolhia toda vez que ouvia os passos pelos corredores.
Duas semanas antes de atingir seu limite, não se alimentava bem e desejava definhar de uma vez e encontrar a paz em algum lugar do universo. Dormia quase 20 horas por dia e metade dessas horas sonhava com o passado, com o Caribe, com a Itália, com seus pais e sentia uma melancolia desesperadora.
Havia atingido seu limite máximo e usaria as poucas forças que lhe restavam para aproveitar que o marido havia saído para uma reunião de negócios. Normalmente quando ele saia para este fim, costumava demorar para voltar.
Quando a porta de sua suíte estava fechada, os empregados não entravam lá. Ela então entrou no banheiro, se trancou e ingeriu uma altíssima dose de remédios. O corpo relaxou dentro da banheira e ela sentiu que estava muito perto do que buscava: acabar com a dor.
Khalil retornou extremamente cedo e, procurando por Alice, encontrou a porta de sua suíte trancada e o que lhe foi mais estranho era o barulho de água que ele tentava identificar de onde seria. O raciocínio foi rápido ao ajudá-lo a deduzir o que poderia estar acontecendo e ele arrombou a porta. Quando correu para o banheiro encontrou Alice inerte na banheira, que já transbordava líquido para fora. Cartelas vazias espalhadas pelo chão denunciaram o que a jovem havia feito.
Rapidamente ele a retirou dali e enrolou-a numa toalha, e a posicionou no chão seco mais próximo da cama para lhe fazer respiração boca-a-boca. Quando a agua começou a sair, ele iniciou manobras de massagem cardíaca, enquanto gritava e chorava em desespero. "Volte para mim, meu amor. Alice, por favor". Quando sentiu que havia um pulso fraco sequer a vestiu. Simplesmente colocou-a no carro e correu ao hospital mais próximo.
No dia seguinte à sua tentativa de acabar com a sua dor, Alice acordou. Quando entendeu que estava salva, viva, foi quando passou a odiar o marido. O odiava por tê-la feito viver para olhar novamente o seu algoz.
Desde então, Khalil parou de beber e trancou-se em casa para ter certeza de que ela não atentaria contra si mesma novamente. Pagou tudo o que seu dinheiro pôde comprar para remover quaisquer marcas de sua violência física contra Alice, que por sua vez logo estava quase tão bonita quanto antes. Já para Khalil, ela parecia ainda mais bonita depois de passar por todo aquele trauma, ela parecia mais... real... De alguma forma, ele passou a vê-la no mesmo patamar de santa que via a própria mãe.
"Agora ela é mais forte", ele se justificativa.
Ele nunca deu a ela chance para defesa, para explicações, nem mesmo disse o porquê de tudo aquilo.
O corpo de Alice estava belo novamente, mas as cicatrizes da alma, estas nunca seriam apagadas. Sua mente estava fragmentada, em frangalhos e ela acreditava que perdeu sua capacidade de sentir algo bom. Bloqueou a simpatia, a empatia e confiava em nada ou ninguém. Passou a agir com praticidade, pragmatismo e até com narcisismo.
"Me ouviram gritar e não me salvaram. No hospital, viram as marcas e não o denunciaram. Ninguém me ajudou, ninguém se importou... Então ninguém merece algo bom vindo de mim. Acabou". Ela levava esse pensamento consigo até o fim dos seus dias.
***
– Querida, você me acompanha até o aeroporto? - Disse Khalil.
– Com certeza. - Disse Alice.
Ela queria acompanhá-lo para ter a certeza de que realmente o marido partiria, que não se tratava de uma pegadinha..
Khalil se despediu dela com um beijo e forte abraço.
Quando o jato decolou, ela desejou que a aeronave explodisse no ar.
No retorno para casa, avistou um salão de beleza e ordenou ao motorista que parasse.
Entrou no lugar que estava com uma cabeleireira vaga, acomodou-se na cadeira e disse:
– Corte meu cabelo inteiro. Quero na altura de meu queixo.