7 anos atrás
Timothy Ritkson
Sinto meu coração batendo forte, batidas tão fortes que consigo ouvi-las.
Não ouso medir meus passos, meus pés têm vontade própria, e sobem as escadas com agilidade. A minha mente se recusa a absorver as palavras ditas por Carl, e repito para mim mesmo que tudo não passa de um mal-entendido.
A cada degrau que subo tenho a sensação de que essa maldita escada não tem fim. Chego ao topo e apoio meu corpo nos joelhos enquanto puxo ar pela boca.
Faço uma nota mental sobre aumentar o ritmo de cardio durante meus treinos.
Percebo que estou a alguns passos do nosso quarto e sinto um arrepio subir pela espinha eriçando os pelos da minha nuca.
Eu não corri por nada, eu não vou ser um covarde. E não tem por que de eu estar me sentindo assim.
Sorrio, afirmando para mim mesmo mais uma vez que tudo não passa de um mal-entendido.
Respiro fundo, ergo o corpo e caminho em direção ao quarto.
Seguro a maçaneta, sentindo a onda de covardia querer tomar lugar, não me movo. Sinto a minha mão suada em contato com o metal frio.
- E só um mal-entendido - repito, forçando um sorriso enquanto giro a maçaneta e entro de uma vez.
Está vazio, Karen não vem ao meu encontro empolgada ou estressada com os preparativos da cerimônia, como tinha acontecido nos dias antes de eu sair de viagem. A esperança de que tudo tenha sido um engano começa a se esvair.
Busco acreditar que ela tenha saído com alguma amiga, ou esteja em algum outro cômodo da casa, no jardim ou na estufa. Mesmo sabendo que eram lugares que ela nunca fez questão de ir.
Dou alguns passos, enquanto meus olhos buscam vestígios da sua presença. A porta do closet está aberta e vejo que não está vazio.
Tenho a sensação de ter levado um soco no estomago ao olhar a mesa de cabeceira.
O anel que a pedi em casamento está ali, suas palavras dizendo que jamais o tiraria ecoam pela minha mente. O pedaço de papel dobrado ao lado dele faz meu sangue gelar.
Seguro a joia, abrindo o pedaço de papel tendo o vislumbre das palavras que mataria o que restava de bom dentro de mim.
Eu estava enganada Ed, eu não posso fazer isso. Me desculpe.Vicky.
O anel em minha mão e jogado com força em um canto do quarto.
- DESGRACADA! - grito a pleno pulmões, como se quisesse expulsar de dentro de mim a dor misturada a raiva.
Cerro os punhos esmagando o pedaço de papel.
Não conseguia e não queria entender, estávamos bem, éramos um casal modelo para a sociedade Londrina. Nos casaríamos em dois dias, ela tinha escolhido tudo, sem se poupar nenhum gasto. Não tivemos uma discussão se quer.
Ela nunca deu sinais, ela sempre foi perfeita.
Minhas pernas estão trêmulas, sinto um gosto amargo invadir a minha boca.
Era doloroso demais, aceitar que alguém como eu tinha sido enganado.
Eu tinha prometido que nunca seria como meu pai, que jamais deixaria o amor fazer com que eu perdesse a cabeça. As palavras de Karen , todas as vezes que ela jurou me amar, mesmo eu já tendo desistido do amor, ela me fez amá-la, e esse amor estava prestes a ser a minha ruína.
Agarro os porta-retratos com suas fotos sorrindo e sinto raiva, eu tinha entregado o meu coração para essa maldita.
Sinto cada partícula de amor que sinto por Karen se transformar em ódio.
Eu não permitiria que as coisas acabassem com um simples bilhete. Destruiria Karen, ela teve o melhor de mim e escolheu brincar, escolheu ir embora. Ela vai pagar, ela vai sofrer por fugido faltando dois dias para o nosso casamento. E ela nunca mais vai brincar com ninguém, ela iria sofrer.
Respiro fundo, ensaiando um sorriso falso.
Nunca mais, nunca mais eu iria abrir p meu coração. Nunca mais sentiria, nunca mais amaria. Todos teriam o pior de mim, sem exceção.
Eu não seria mais um fraco que acredita na grande mentira que é o amor.
Capítulo Um
Isabella Weels
Minhas pernas parecem pesar duas toneladas, a cada passo que dou preciso me esforçar para não cair no chão, já que minha coluna também não quer ajudar.
Passo a mão direita pela lombar sentindo uma pontada de dor na região.
Meus olhos encaram os meus pés, calçados pelas sandálias amarelas gastas e encardidas. Pelo menos o chão está limpo.
Dou um sorriso orgulhoso, segurando firme o esfregão. Antes passá-lo uma última vez pelo chão.
Não que limpar o lugar, vá melhorar o aspecto, mas deixa ele menos ruim. Afinal uma lanchonete que fica em um dos bairros mais perigosos de Londres não é um lugar dos mais glamurosos, não que eu esteja reclamando. Foi o único trabalho que consegui depois de uma árdua procura.
Trabalho feito uma condenada, sirvo as mesas, ajudo na cozinha e ainda limpo todo o local no início e no fim do expediente, ao menos o salário que não é lá grande coisa tem me ajudado a pagar as contas e colocar comida na mesa.
Coloco o esfregão no balde e sigo para o pequeno banheiro destinado aos funcionários. Abro a torneira, lavo as mãos e me sinto tentada em enfiar a cabeça debaixo d'água. Mas me contento em molhar o rosto.
Ergo minha cabeça e quase salto assustada ao ver meu reflexo no espelho. Os fios de cabelos escuros estão desgrenhados estão grudados na testa pelo suor, falta de cores na bochecha e nos lábios deixam em evidência a minha palidez. O uniforme salmão claro não me valoriza nenhum pouco, e o avental encardido manchado de catchup deixa tudo ainda pior.
Busco papel toalha para secar as mãos, mas como de praxe não tem nenhuma.
Seco as mãos no avental.
Desfaço o rabo de cavalo já frouxo, penteio os fios com os dedos e volto a prendê-lo com o elástico, não vai melhorar muito a minha aparência, mas vai fazer eu me sentir melhor.
Meu estômago ronca, e me lembro que não tive tempo para comer, do tanto que o movimento foi intenso. Mesmo o lugar não sendo dos mais apresentáveis, ele tem uma clientela fiel, por causa de uma fábrica de tinta próxima.
Preciso comer alguma coisa antes de ir para casa, não posso correr o risco de passar mal com Tomas no ônibus. Não quero nem lembrar da última vez que isso aconteceu, seus olhinhos assustados acabaram comigo.
Suspiro, passo as mãos pelo avental mais uma vez, ergo o pulso olhando a horas no meu relógio, me assusto ao constatar que já passam das sete da noite.
Me apresso sair e sigo em direção a cozinha.
Tinha certeza de que Tomas estava entediado. Me sentia mal por ter que deixá-lo na dispensa da lanchonete enquanto trabalho, mas não tenho com deixá-lo, já que não posso contar nenhum pouco com as minhas irmãs. Pelo menos o casal dono do local permite que ele fique, desde que não faça nada para atrapalhar o meu trabalho ou de qualquer outro funcionário.
E se tratando de Tomas algo que é difícil de acontecer, ele não é do tipo bagunceiro. Ele foi diagnosticado com Síndrome de Asperger quando tinha quatro anos, asperger é um estado do espectro autista, transtorno esse que afeta a capacidade de se socializar e de se comunicar com eficiência. Tomas não gosta de brincadeiras que exige muitos movimentos e esforço físico, e também não é de muitas palavras, pelo menos com quem não tem intimidade e confiança.
Me sinto melhor com ele por perto, talvez eu seja superprotetora, mas Tomas é tudo que mais amo nesse mundo. Não é que eu não ame meu pai e minhas irmãs, eu os amo muito. Mas o fato de eu ter cuidado do meu irmãozinho desde que nasceu fez com tivéssemos um laço especial.
Entro na cozinha desfazendo o laço do avental.
Meu coração se aperta ao ver Tomas sentado de um jeito que não parece nenhum pouco confortável em cima de um saco de batatas, entretido com algo que passa na tela do meu celular. A cozinha minúscula mal tinha espaço para o fogões e freezer velhos, e a dispensa menos ainda.
Yana está empilhando pratos limpos, e se vira ao notar a minha presença, e abre um sorriso. A mulher de meia idade e o marido tem sido anjos na minha vida, sei que não é qualquer lugar que iria permitir Tomas .
- Que bom que terminou tudo menina, já está ficando tarde - fala enquanto guarda os pratos no armário.
Tomas tenta se levantar e me apresso em ajudá-lo para evitar que ele se desequilibra.
- Espere aí! Vem cá! - faço uma careta sentindo a minha coluna ao apoiá-lo na minha cintura.
- O que foi? - questiona me olhando.
- Não foi nada. Você se divertiu? - passo os dedos pelos cabelos encaracolados.
Ele franze o cenho e aperta os lábios.
- Suas costas estão doendo. Me coloque no chão, tenho sete anos, não precisa me segurar no colo - afirma, e me apresso em colocá-lo no chão.
Ouço a gargalhada de Yana.
As vezes Tomas age como um miniadulto, e nunca deixo de me surpreender com a sua inteligência.
- Está bem, nada de colo para você rapazinho.
- Esse garoto é uma figura. Tem certeza que tem sete anos mesmo Tomas ? - Yana pergunta em meio ao riso.
Tomas olha para ela fazendo uma careta engraçada.
- De acordo com meu tamanho, peso, capacidades motoras e cognitivas. Eu sou uma criança de sete anos - diz com o indicador no queixo.
Aparentemente Yana não estava esperando por uma resposta tão detalhada.
Rio da sua expressão embasbacada.
- Já vamos para casa Bella? - Tomas da um puxão na barra da minha camiseta me fazendo olhar para ele.
Me inclino para respondê-lo.
- Sim querido, podemos ir para casa - ele dá um sorrisinho.
Com certeza, ele deve estar exausto de ficar quase o dia todo ali.
- Você precisa comer alguma coisa menina. Está até pálida - Yana me estende um prato com hambúrguer e algumas batatas fritas - Está tão magrinha!
Dou duas mordidas no hambúrguer e confiro as horas.
- Estou pronto! - bate com os pezinhos no chão.
- Você é rápido. Pegou tudo?
Assenti com a cabeça.
- Meu celular? - ele volta a assentir - E o seu T-rex?
Ele faz uma careta e tira a mochila das costas.
- Não é um T-rex, esse é o Dilofossauro - tira o dinossauro de plástico de dentro da mochila me mostrando - Eles são diferentes, o T-rex não tem essa protuberância no crânio - me explica passando os dedos na cabeça do dinossauro de brinquedo.
Desde quando uma criança fala protuberância e crânio com tanta exatidão.
- Está bem, não vou errar da próxima vez - dou uma piscadinha para ele - Agora guarde e vamos, já está tarde.
Entrego o prato para Yana.
- Você nem comeu, vai acabar passando mal menina - me repreende.
- Como quando chegar em casa. Tenho que fazer o jantar para o meu pai. Ele conseguiu um emprego novo - digo empolgada.
Meu pai estava a mais de duas semanas no novo emprego como segurança, algo que me deixava animada. Ele não costuma durar muito nos trabalhos.
Depois da morte da minha mãe ele mudou completamente, perdeu o rumo, mergulhou no mundo da bebida e dos jogos de azar.
Meus pais eram a minha referência de amor verdadeiro, eles se amavam de uma maneira tão bonita, se completavam. Eles tiveram uma história de amor linda, digna de um filme.
Minha mãe abriu mão de tudo, de todo o dinheiro da família, pelo meu pai. Meus avós, se é que posso chamá-los assim, não aceitaram o relacionamento dos dois por meu pai não ter posses e deserdaram a minha mãe.
Ela e meu pai saíram do interior de Massachusetts e vieram tentar a vida na Inglaterra. Meu conseguiu entrar para a polícia, e minha mãe conseguiu se tornar professora de literatura. Eles tiveram uma vida repleta de amor, quatro filhos e muitas alegrias.
O nosso mundo desabou, quando minha mãe foi diagnosticada com glioblastoma um câncer cerebral que já estava em estado avançado, não tinha mais o que ser feito. A vimos definhar dia após dia, até o momento de sua partida, isso foi demais para o meu pai. Ela partiu deixando seus quatro filhos, Tomas era praticamente um bebê.
Ela deixou um vazio gigante dentro de nós.
Era como se ele tivesse desistido de viver, como se uma parte dele tivesse morrido com ela. Ele foi expulso da corporação policial por má conduta, e a partir daí tudo ficou ainda pior.
Foi nesse momento que eu soube que precisava deixar o meu lado adolescente sonhadora dentro de uma gaveta e cuidar da minha família. Eu precisava nos manter unidos, era o que a minha mãe iria querer.
- Bella? - Tomas me chama e percebo que fiquei envolta nos meus pensamentos por tempo demais.
- Que bom que ele conseguiu um emprego - Yana da um sorriso acolhedor.
Ela sabia dos problemas do meu pai, já que tive que me atrasar algumas vezes para cuidar de algo causado por ele.
- Ele parece estar gostando desse. Espero que ele fique - ajudo Tomas a colocar a mochila.
- E muito pesado para você sozinha menina.
- Já me acostumei - sorrio amarelo.
Mesmo já estando acostumada, não deixa se ser exaustivo. Mas não vou reclamar, olhar para frente sem lamentar faz tudo melhorar.
- Suas irmãs podiam ajudar você com o garoto, ou sei lá, fazer o jantar para você descansar - joga um pano de prato nos ombros e cruza os braços.
Emma e Emilie, são gêmeas idênticas, tem dezessete anos, acho que elas são iguais em tudo, até na personalidade. Elas não são do tipo que ajudam. Elas são individuais demais para se preocupar com o meu cansaço ou com o bem estar de Tomas .
Com a partida da minha mãe, meu pai cedeu demais as suas vontades e elas se acostumaram a ter tudo o que quisessem sem qualquer esforço. E eu também sou culpada, porque sempre dou um jeito de fazer as suas vontades.
Me sinto na obrigação de dar o meu melhor, por ser a irmã mais velha. Mas no fundo tenho uma sensação estranha, de que elas me odeiam.
- Não estou tão cansada assim - minto - Vamos? - seguro a mão de Tomas e ele assente.
- Não se esqueça que amanhã é seu dia de folga - diz, apontando para o calendário manchado dependurado na parede.
Não costumo pegar folgas, preciso mais do dinheiro do dia trabalhado do que do descanso. Mesmo sentindo que meu corpo pode entrar em um colapso exaustivo a qualquer momento.
- E não, você não vai vir Bella. Olhe só para você, precisa descansar - diz com a expressão endurecida.
Acho que meus argumentos não a convenceriam.
Isabella
Acho que meus argumentos não a convenceriam.
Me despeço, e sigo com Tomas para o ponto de ônibus.
Não iria me dar o luxo de descansar todo o final de semana, usaria um pouco do tempo livre para ficar com Tomas , organizar o caos que estava minha casa e a noite tentaria conseguir com Eden algo para noite.
Eden e Silvie são minhas melhores amigas, somos um trio desde o colégio. As duas são irmãs com um ano de diferença, moramos no mesmo bairro desde que nascemos. A família de delas trabalha com buffet de eventos, e já trabalhei com eles algumas vezes.
E tentaria conseguir algo para o final de semana, pois a nossa vizinha poderia ficar de olho em Tomas enquanto eu trabalho.
Precisava juntar dinheiro para que Tomas continuasse acompanhamento psicológico.
O ônibus não demora em passar. Tomas está entretido com fones de ouvido vendo um vídeo sobre buracos negros no meu celular.
Escoro a cabeça na janela do ônibus, olhando a cidade iluminada, pingos de chuva começam a se chocar contra o vidro. Mordo o lábio e procuro pelo guarda-chuva na bolsa, bufo ao ver que não havia trazido. Me restava agora torcer para que não estivesse mais chovendo quando chegássemos ao nosso destino.
***
- Acorda Bella - A voz de Tomas me faz despertar.
Acabei adormecendo durante o percurso.
Meu irmãozinho está com os olhinhos assustados e percebo que estamos no meu bairro. Por pouco não passa do lugar que desceríamos.
Meu corpo necessitava de algumas horas de sono para voltar a funcionar.
- Você está com sono Bella? - Tomas pergunta balançando as nossas mãos enquanto caminhamos lado a lado.
- Só um pouquinho - respondo juntando o indicador ao polegar.
Era um quilômetro do ponto de ônibus até a nossa casa. Meus pés estavam me matando e eu só queria um banho. Pelo menos a chuva tinha passado.
- Quando eu crescer eu vou trabalhar e você não vai precisar ficar tão cansada - diz, me fazendo parar.
Tomas é uma criança mais que especial, ele é único.
Fico em sua frente e me abaixo até estar com os olhos rente aos dele.
- Você não tem que pensar nisso ok? - ele é pequeno demais para querer algo assim.
Se depender de mim, ele terá um futuro lindo, jamais vai precisar desistir dos seus sonhos porque eu vou me esforçar que eles possam ser realizados.
- Sardinhas! - Ele fala empolgado, apontando com o indicador.
Me levanto e me viro, vendo Eden vindo em nossa direção.
Tomas a chama de sardinhas e Silvie de irmã da Sardinhas, Eden é ruiva e tem o rosto coberto por sardas, a primeira vez que ele a chamou pelo apelido eu quase morri de vergonha, mas minha amiga achou fofo, e desde então ela é a Sardinhas.
- Toca aqui cara! - estendeu a mão para Tomas dar um tapinha - O que você fez com o seu celular garota? - me pergunta.
- Está na aqui - Tomas me estende o celular.
- Você não respondeu nenhuma mensagem, eu e Silvie ficamos preocupadas - diz seria.
- Meu celular ficou o dia todo com Tomas . E ele não disse nada sobre você ter me mandado mensagens - digo, abrindo o WhatsApp.
- Mas você disse que não posso ver suas mensagens - ele levanta as mãos e dá de ombros.
Eden dá uma risadinha.
Vejo que ela havia me mandado algumas mensagens falando de um cara que ela queria me apresentar. Ainda bem que não vi as mensagens, estou fugindo de qualquer coisa que envolva troca de saliva.
- Estava me esperando chegar? - pergunto. Já que a encontramos assim que descemos do ônibus.
- Só assim para eu falar com você, não é?
- Onde está Silvie? - pergunto, voltando a caminhar - Vamos Tomas .
- Foi jantar na casa da namorada - revira os olhos - E eu estava te esperando porque estou determinada a te ajudar a tirar essa teia de aranha da boca.
- Eden! - a repreendo acenando com a cabeça para Tomas .
- Você tem teia de aranha na boca Eden? Isso não é normal!
- Está vendo? E só uma brincadeira querido - torço o nariz fazendo um careta.
Eden resolveu mudar de assunto e falar sobre seus planos de fazer um intercâmbio para o Brasil até chegarmos em casa. Eden estava terminando a faculdade de gastronomia, e seu maior sonho era conhecer a culinária de cada parte do mundo, enquanto Silvie terminava relações internacionais.
Era bom vê-las realizadas e felizes.
Eu sempre soube que seria impossível eu fazer uma faculdade, não teria tempo ou dinheiro. Mas no fundo, bem fundo mesmo, ainda existe o desejo de estudar artes visuais.
Assim que chego próximo a minha casa peço para Tomas entrar, para conversar com Eden por alguns minutos.
- Já te disse para prestar atenção no que fala na frente do Tomas - cruzo os braços.
- Desculpa amiga, e que eu estou empenhada...
- Nem comece com esse assunto. Eu não quero conhecer ninguém - afirmo.
Ela revira os olhos.
- Meu Deus Isabella! Dar uns beijinhos não arrancar pedaço não. Você acha que algum dos personagens do seu livro vau aparecer montado em um cavalo branco? - bate o indicador na minha fronte - Acorde!
Bufo.
- Eu não sou tão ingênua assim - ela dá um sorriso - Mas não quero sair me agarrando com qualquer um. Eu ainda vou conhecer alguém especial e vou me apaixonar.
Pode parecer antiquado e bobo, mas eu sou do tipo romântica, que sonha com um relacionamento Clichê em que a garota conhece o gentil e bondoso príncipe encantado, eles se apaixonam e vivem felizes para sempre. E tinha esperança de que esse príncipe fosse parecido com o Henry Cavill, não faz mal sonhar.
É uma ideia um tanto idiota? É.
Mas eu não quero ficar com vários caras e me sentir mal por isso.
ISABELLA
- Em que planeta você vive criatura? Você tem 21 anos e nunca beijou!
- Claro que beijei! Lembra daquele garoto no colégio?
- E aquilo lá foi um beijo? Pelo amor de Deus né Bella! Você vai morrer virgem - ergue os braços fazendo drama.
- Estou bem assim, não preciso de ninguém - era verdade, enquanto não surgisse alguém que me fizesse sentir borboletas no estomago, não iria enfiar qualquer um na minha vida.
- Pare de se preocupar com a minha vida amorosa. Por que você não tem um namorado então? - dou uma risada provocativa.
Ela me olha furiosa. Sei que ela tem uma queda pelo meu vizinho de frente e amigo Ben, mas ela é orgulhosa demais para assumir isso.
- Estou muito bem, nada de relacionamentos.
- Devia se preocupar com você, e não comigo - assopro um beijo.
Ela dá uma risada, e ergo o queixo orgulhosa por tê-la deixado mais uma vez sem palavras.
- Seus pais vão precisar de ajuda esse final de semana? - pergunto, torcendo por uma resposta positiva.
- Sim. Por que?
- Estou livre amanhã. Consegue me encaixar? - junto as mãos, fazendo um drama leve - Por favorzinho!
- Hum...Não sei! O evento que vamos fazer não é muito, digamos. Normal!
- Não tem problema, eu dou conta. Posso ajudar a preparar os pratos, servir bebidas - afirmo.
- Não é isso, sei que você dá conta. E que esses ricaços são um pouco excêntricos, se é que me entende.
Eu não entendia, mas precisava do dinheiro.
- Você pode se assustar...
- Corta essa Eden, não vou me assustar. Vai me encaixar ou não?
- Vou falar com a minha mãe. Quem vai ficar com o carinha?
- Vou pedir para Martha ficar de olho nele, se ela tiver compromisso, pago as gêmeas.
- Me recuso a acreditar que você paga suas irmãs para cuidar do seu irmão mais novo. Sabe que isso é cruel da parte delas não é?
Eden não gostava das minhas irmãs, e eu não podia julgá-la por isso.
Preparo para me despedir de Eden quando vejo um carro da Metropolitan Police Service parar próximo a nós, Ben descer e vir nossa direção.
- O...oi Ben! - Eden fica completamente desconcertada perto dele.
Bem, acho que todas as garotas do nosso bairro agem como ela. Ele um homem muito bonito, corpo atlético, bíceps marcados, rosto quadrado com feições delicadas, os olhos azuis e o cabelo loiro deixam o pacote completo. Ele claramente poderia ser modelo se não tivesse escolhido ser policial.
O conheço Benjamin Stuart desde de criança, quando sua mãe se mudou para a casa de frente a nossa, e então nossas famílias se tornaram próximas, ele é quatro anos mais velho que eu, e sempre foi muito atencioso comigo e com meus irmãos depois da morte da nossa mãe.
- Boa noite Eden! - diz sério, e vejo o sorriso no rosto da minha amiga desaparecer - Oi Coraline, que bom que te encontrei - sorri se aproximando.
- E...Oi Ben! - forço um sorriso.
- A dias que não te vejo, senti sua falta - engulo em seco com a sua fala.
Silvie insiste que ele é apaixonado por mim, e pensar que isso pode ser verdade fico agoniada. Não o vejo dessa forma, ele é quase um irmão mais velho. E além do mais, Eden tem uma queda, uma queda não, um penhasco por ele. A sua expressão agora deixa claro o quanto está chateada pela fala de Ben.
- Também tenho andado muito ocupado - aperta o rádio, preso ao seu uniforme.
- E verdade, não me lembro a última vez que te vi Ben - Eden tenha puxar assunto e sinto que é a minha deixa para entrar.
- Bom eu preciso entrar e ver o que Tomas está fazendo - digo, me virando para entrar em casa.
- Espere - Ben segura delicadamente o meu braço me impedindo de ir.
- Acho que estou sobrando aqui - Eden sorri sem humor - Vou indo. Boa noite, Ben, nos falamos depois Bella.
- Eden...- Não deveria estar me sentindo tão desconfortável.
- Até mais Eden - Ben dá um tchauzinho e se volta para mim com um sorriso de orelha a orelha.
- É melhor eu entrar. Tomas está lá dentro com as gêmeas - forço um sorriso.
- Tem tanto tempo que não conversamos. Eu estou saudade - toca meu ombro e eu dou dois passos para trás.
Oh merda. Que ódio, não acredito que Silvie está certa. Me recuso a acreditar nisso.
- Algum problema?
Percebo que estou balançando a cabeça em negativa feito uma idiota.
- Não é nada - minto.
- Queria saber... - pigarreia - Se você aceita sair comigo?
- Que? - que merda.
Ele ainda está sorrindo, chega a ser irritante.
- É um convite para sairmos para jantar. Um encontro.
Seria um ótimo momento para o chão se abrir embaixo dos meus pés.
- Olha Ben, você está confundindo as coisas - ele está ficando maluco.
- Não estou confuso Bella, eu gosto de você - diz com segurança.
O grito vindo de dentro chama a nossa atenção. E eu nunca estive tão feliz em ouvir um grito de Emilie, ou Emma. Até a voz delas é idêntica.
- Preciso entrar - nem me dou o trabalho de olhar para Ben, só corro para dentro - A gente se fala depois.
- Isa...- ele tenta dizer algo, mas entro rápido tirando a sua oportunidade.
A última coisa que eu esperava ouvir hoje era Ben falando que gosta de mim.
Abro a porta e dou de cara com Tomas segurando um pacote de biscoitos me olhando assustado.
- Seu pirralho retardado! - Emma vem correndo e tenta tirar os biscoitos de Tomas .
- Ei que isso? Para que esse escândalo? - fico na frente de Tomas .
- Esse moleque roubou os meus biscoitos.
- Os biscoitos que eu comprei para ele você quer dizer? - retruco.
Ela bufa revirando os olhos.
- Até onde me lembro você não come açúcar e farinha branca - completo.
Ela cruza os olhos me olhando com deboche.
- Estou comendo agora.
- Emma ele é só uma criança, não posso acreditar que está fazendo uma cena por causa de alguns brinquedos - não estou com um pingo de paciência.
Ben conseguiu estragar a minha noite com aquela conversa.
- Você só se importa com esse pirralho retardado. Vocês são iguais, dois retardados - diz entredentes.