Fui vendida.
Essa era a verdade amarga que sentia no frio do mármore sob meus pés descalços, enquanto o cheiro de jasmim na mansão de Dante, o chefe do tráfico do Rio, sufocava meu sonho de ser dançarina de samba.
Minha vida de "passarinho na gaiola de ouro" desmoronou de vez quando uma mulher irrompeu na biblioteca como um furacão rosa-choque.
"Olá, meus amores! Yasmin chegou! A protagonista finalmente está na área para encontrar seu grande amor!"
Ela se autoproclamou, com uma arrogância que beirava o ridículo, declarando que eu não passava de uma "figurante".
"Eu sou a protagonista desta história. Eu e o Dante. Estamos destinados a ficar juntos. Você não passa de um detalhe insignificante", ela cuspiu, o desprezo gotejando de cada palavra, mesmo com meus olhos fixos no anel de prata que Dante havia posto em meu dedo na noite anterior.
Menos de uma hora depois, Yasmin, em sua bolha de delírio, invadiu o escritório de Dante, gritando: "Dante, meu amor!", fazendo o ar da casa congelar e o rosto dele se contorcer em fúria letal.
Ela me confessou, radiante: "Ele mal pode acreditar que eu estou aqui. É o destino, eu te disse!".
Eu sussurrei, horrorizada, "Ele vai te matar!".
Ela riu, me empurrou para o lado e foi para a cozinha, com ares de dona da casa, cantarolando uma música pop, alheia à tempestade que estava por vir.
Mais tarde, Dante a confrontou: "Quem te deu permissão para entrar aqui? Quem te deu permissão para me tocar?".
Ele a empurrou para o chão e perguntou a mim, com um sorriso cruel: "Diga-me, o que eu faço com o lixo que entra na minha casa sem ser convidado?".
Eu, a "figurante", fui ordenada a "levar o lixo para fora".
No quarto, Yasmin me empurrou, me fazendo bater a cabeça.
"Isso é para você aprender o seu lugar. Fique longe do Dante. Ele é meu!", ela sibilou.
Então, ela invadiu a adega de Dante, pegou um vinho caríssimo e o exibiu nas redes sociais.
No dia seguinte, Dante me disse, tocando meu curativo: "Ninguém machuca o que é meu".
Eu, tola, respondi: "Eu não sou sua, senhor".
Ele sorriu, possessivo.
"Ainda não."
Ele pediu para que Yasmin fosse levada ao "quarto de reflexão" e que um vinho caro fosse quebrado na frente dela.
E me convidou para jantar, com a condição de que eu tirasse o curativo: "Eu quero ver a marca que ela deixou".
Naquela noite, sob um céu estrelado, Yasmin tentou me envenenar, mas Dante a jogou na piscina.
Ele me puxou para seu colo, a mão deslizando por minha perna, enquanto ele sussurrava: "Eu gosto quando você está com medo".
Ele me beijou, um beijo de posse.
No quarto dele, ele me tomou, marcando seu território.
Eu era a mulher dele.
Em uma viagem à Amazônia, Yasmin, que inexplicavelmente havia retornado, orquestrou um ataque.
No meio da selva, homens mascarados invadiram nossa cabana, me agarrando.
Dante quebrou a janela, e em um borrão de tiros e fúria, os homens caíram mortos.
"Como você vai me pagar por salvar sua vida, Sofia?", ele perguntou.
Ele lambeu uma gota de sangue do meu pescoço.
"Isso é um bom começo", ele murmurou, e ali, no chão da cabana, ele me fez sua de novo.
No rio, em meio a um tiroteio, Dante, sem hesitar, usou Yasmin como escudo, e uma bala atingiu a perna dela.
Os homens do cartel a sequestraram.
"Estamos com sua mulher", disseram a Dante.
Ele respondeu: "Pode ficar com ela. Ela não vale um centavo para mim. Na verdade, se você a matar, eu te pago."
Ele foi buscá-la.
Dante me chamou de "minha mulher" na frente de Yasmin, esmagando suas últimas ilusões.
De volta à mansão, ele se ajoelhou com um diamante em suas mãos.
"Case-se comigo, Sofia. Seja a rainha do meu inferno."
Eu, a "figurante", me tornei a rainha de seu inferno, em uma história torta, mas real.
Fui vendida.
Essa era a única verdade que importava no ar denso e perfumado daquela mansão. O cheiro de jasmim e maresia se misturava ao cheiro metálico de perigo. Eu, Sofia, que sonhava em sentir o calor das luzes do palco do carnaval, agora sentia o frio do mármore sob meus pés descalços. Meu sonho de ser dançarina de samba morreu no dia em que me tornei assistente pessoal de Dante, o chefe do tráfico de drogas do Rio de Janeiro.
Cada dia era um exercício de sobrevivência. Eu aprendi a andar sem fazer barulho, a falar apenas quando me perguntavam e a manter meus olhos baixos. A mansão era uma gaiola de ouro, com janelas que iam do chão ao teto e mostravam o azul infinito do mar, mas os muros altos e os homens armados em cada canto me lembravam constantemente da minha condição.
Eu estava organizando os livros na biblioteca dele, um cômodo silencioso e sombrio que parecia o único lugar seguro da casa, quando a porta se abriu com um estrondo.
Uma mulher entrou como um furacão.
Ela usava um vestido rosa choque tão curto que parecia mais uma blusa, saltos agulha que faziam um barulho irritante no piso de madeira e óculos de sol enormes que escondiam metade do seu rosto. Ela segurava um celular, gravando a si mesma.
"Olá, meus amores! Yasmin chegou! A protagonista finalmente está na área para encontrar seu grande amor!"
A voz dela era alta, estridente e cheia de uma confiança que beirava o ridículo.
Ela parou de gravar e me olhou de cima a baixo, o desprezo evidente em seu rosto mesmo com os óculos escuros.
"E você, quem é?"
Sua voz era afiada.
"Sou Sofia. A assistente do senhor Dante."
Eu respondi, minha voz um sussurro.
Yasmin riu, um som desagradável.
"Assistente? Querida, você quer dizer a empregada. Uma figurante. Não se preocupe, toda novela precisa de figurantes para preencher o cenário. Mas não se esqueça do seu lugar."
Ela se aproximou, o perfume doce e enjoativo dela me sufocando.
"Eu sou a protagonista desta história. Eu e o Dante. Estamos destinados a ficar juntos. Você não passa de um detalhe insignificante, um obstáculo temporário."
Eu não disse nada. Apenas continuei a arrumar os livros, minhas mãos tremendo um pouco. Discutir seria inútil e perigoso. Neste mundo, o silêncio era minha melhor arma.
Ela notou meu silêncio e pareceu ainda mais irritada.
"O que foi? O gato comeu sua língua, figurante? Ou você é tão sem importância que nem consegue falar?"
Eu parei o que estava fazendo e olhei para minhas mãos. Na minha mão esquerda, um anel simples, de prata, sem brilho ou pedras. Um anel que ninguém notaria. Dante o colocou no meu dedo na noite anterior, em silêncio, depois de me encontrar chorando no jardim. Foi um gesto inesperado, um que eu ainda não entendia completamente.
Levantei a mão lentamente, sob o pretexto de arrumar uma mecha de cabelo que caiu no meu rosto. Deixei o anel visível por um segundo, um brilho discreto sob a luz fraca da biblioteca.
Vi um flash de confusão no rosto de Yasmin quando ela olhou para o anel, mas ela o descartou rapidamente, convencida demais de sua própria importância para considerar o que aquilo poderia significar. Para ela, era apenas um pedaço de metal barato na mão de uma serviçal.
Ela bufou, entediada com a minha falta de reação.
"Enfim, onde está o Dante? Meu futuro marido precisa saber que sua rainha chegou. Ele está no escritório dele, no segundo andar? Aquele com a vista para a praia?"
Meu sangue gelou.
"Não fale o nome dele em voz alta assim. E ninguém pode ir ao escritório dele sem ser chamado."
Eu disse, minha voz um pouco mais firme do que antes. Era uma regra básica da casa. Uma regra que, se quebrada, tinha consequências terríveis.
Yasmin me olhou como se eu fosse um inseto.
"Quem você pensa que é para me dar ordens? Uma figurante tentando ensinar a protagonista como atuar? Patético."
Ela se virou e caminhou em direção à escada, seus saltos ecoando como tiros no silêncio da casa.
"Ele vai ficar feliz em me ver. Homens como o Dante precisam de uma mulher como eu, não de uma ratinha assustada como você."
Eu queria gritar para ela parar, para não ser tão estúpida, mas a porta se fechou atrás dela, me deixando sozinha com o som do meu coração batendo descontroladamente no peito.
Ela não fazia ideia do perigo que estava correndo.
E, por algum motivo, eu sabia que as consequências da sua estupidez recairiam sobre mim.
Yasmin se olhava no grande espelho do corredor, ajustando o vestido minúsculo e passando um brilho labial cintilante. Ela praticava seu sorriso, um sorriso que ela imaginava que derreteria o coração de um homem como Dante. Em sua mente, a cena já estava escrita: ela subiria as escadas, bateria suavemente na porta do escritório dele e, quando ele abrisse, ficaria hipnotizado por sua beleza e ousadia. Ele a puxaria para dentro, a beijaria apaixonadamente e declararia que estava esperando por ela a vida inteira.
Ela era a protagonista, afinal. E protagonistas sempre conseguem o que querem.
Ela subiu as escadas, o barulho dos seus saltos um anúncio da sua chegada. Ela não viu os olhares duros dos seguranças postados no corredor, nem sentiu a temperatura do ambiente cair vários graus. Para ela, eles eram apenas parte do cenário, extras em sua grande cena de amor.
Dante estava em seu escritório, mas a porta estava entreaberta. Ele não estava sozinho. Ele conversava com dois homens de terno, a voz baixa e letal. Eu estava na parte de baixo da escada, fingindo limpar um vaso, mas na verdade paralisada de medo, esperando o desastre acontecer.
Quando Yasmin chegou ao topo da escada, ela não hesitou. Ela empurrou a porta do escritório com um gesto dramático.
"Dante, meu amor!"
A voz dela ecoou pelo corredor silencioso.
A conversa dentro do escritório parou instantaneamente. Um silêncio mortal caiu sobre a casa.
Dante se virou lentamente. Seu rosto, geralmente uma máscara de calma perigosa, estava contorcido em uma fúria fria. Seus olhos, escuros como a noite, fixaram-se em Yasmin. Não havia amor ou desejo neles, apenas uma irritação gelada. Era o olhar que ele dava a um inimigo antes de eliminá-lo.
Os dois homens de terno se encolheram, como se esperassem uma ordem para atirar.
Yasmin, em sua bolha de delírio, não percebeu nada disso. Ela viu apenas que tinha a atenção dele.
Ela desceu correndo as escadas, o rosto radiante, e parou na minha frente.
"Você viu? Ele ficou sem palavras! Ele mal pode acreditar que eu estou aqui. É o destino, eu te disse!"
Ela sussurrou para mim, cheia de si.
Eu apenas olhei para ela, meu rosto pálido.
"Ele vai te matar."
Eu disse, a voz trêmula.
Ela riu.
"Não seja ridícula, figurante. Ele está apaixonado. Agora saia da minha frente, preciso preparar um café para o meu homem. Ele deve estar estressado com os negócios."
Ela me empurrou para o lado e foi em direção à cozinha, como se fosse a dona da casa.
"E não qualquer café. Um café forte, como ele. Do jeito que só uma mulher de verdade sabe fazer."
Ela abriu os armários com força, fazendo um barulho terrível.
"A partir de hoje, eu cuido do Dante. Você pode voltar para o buraco de onde veio."
Ela me olhou por cima do ombro, um sorriso vitorioso nos lábios.
"Fique longe dele, entendeu? O protagonista não se mistura com a figuração."
Ela se virou e começou a preparar o café, cantarolando uma música pop irritante, completamente alheia à tempestade que estava prestes a desabar sobre sua cabeça. E eu sabia, com uma certeza terrível, que a chuva ia respingar em mim.