Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Proibida
Proibida

Proibida

Autor:: renata medeirosM
Gênero: Romance
Nova York 1990 Enquanto eu brinco com meu carrinho o observo perto da piscina. Nathan anda de um lado a outro chutando as coisas pelo caminho e amaldiçoando alguém que provavelmente o deixou contrariado. Finjo que estou concentrado em meu mundo imaginário na esperança de que ele me ignore. Eu não quero ser vitimas de seus ataques. - Me dê seu carro Neil! - Nathan grita insolente. - Não! - eu respondo sem me importar em encará-lo. Nathan bate os pés no chão de forma impaciente. - Eu já disse para me dar! - Você tem os seus - encara-o com firmeza demais para vir de alguém tão pequeno. - Alias tem vários. Por que sempre quer ter as minhas coisas Nathan? - Você sempre fica com as melhores coisas. - Isso não é verdade os carrinhos são iguais e você sempre os escolhe primeiro. - Mas enjoei dos meus e, além disso, alguns estão quebrados - Nathan se queixa. - Por que você não sabe cuidar de suas coisas. Se parasse de jogá-los contra parede sempre que fica com raiva não estariam assim. - Se você não me der eu vou afogar seu gato na piscina. Encaro-o com raiva. Algumas vezes eu tenho muita raiva dele como hoje por exemplo. - Pega! - estico o carrinho para ele já sem me importar é só um carrinho idiota. - Fique com ele. Alias fique com todos eles, mas deixa o Barney em paz, ele é só um filhotinho. - Ah é? - ele ri com deboche. - Acho que será mais divertido saber se os gatos sabem nadar. - Você não faria isso! - encara-o com determinação. O gatinho branco e preto enrosca nas pernas dele sem a mínima ideia de que é alvo de suas maldades. - Então olhe! Nathan pega o gato no chão pelo pescoço e me empurra contra a árvore em que estive encostado. Bato a cabeça contra o tronco e me sinto desorientado por alguns instantes e a cena que segue diante de mim me deixa estático. Minha vontade é de correr até eles e impedir o que ele está querendo fazer, porém minhas pernas e minha cabeça ainda zonza não me deixa sair do lugar. - Pare Nathan - sussurro quase inaudível. - O deixe em paz. Nathan me encara com olhar de desafio enquanto o animal se debate dentro da água. Eu encontro forças de onde não sei e corro ate eles. Vejo-o soltar o animal que jaz imóvel na piscina. Lágrimas inundam meus olhos quando percebo que é muito tarde. - Você o matou! - empurro-o no chão com muita força. - A culpa foi sua - ele faz cara de inocente. - Você me provocou. Vai guardar essa culpa para sempre Neil. Matou seu pobre gatinho. Sim, a culpa era minha. Não devia tê-lo provocado e entregado o maldito carro quando ele pediu. Eu sabia que Nathan seria capaz de uma coisa assim e não deveria tê-lo desafiado. - Jesus Cristos! - uma voz feminina ecoa diante da cena. - O que aconteceu aqui? - Nathan afogou meu gato na piscina mamãe - Neil a encara com olhos cheios de lágrimas. - Ele matou o Barney. - Nathan você fez isso? - o olhar chocado da mãe não consegue acreditar em tais palavras. - Não! - ele começa a chorar. - Ele caiu na piscina e só tentei ajudar, mas eu não consegui mamãe. O jovem se agarra a mãe e chora copiosamente. - Sinto muito! - ele parece bem convincente, menos para mim. - É mentira! - encara-o com raiva. - Ele afogou porque eu não quis dar o meu carrinho para ele. - Não é verdade mamãe - Nathan soluça. - Neil é sempre tão mal comigo. - Vá para o quarto Neil - a mulher o encara com firmeza. - Conversamos depois. - Está bem Lilian. - Lilian? - ela me encara zangada. - Eu sou sua mãe! - Acho que não é - sussurro ignorando seu olhar chocado. Essa foi a primeira vez que parei de trata-la como mamãe. Lilian tinha apenas um filho e esse não era eu. A mágoa por ser punido sem merecimento ficou cravada em meu coração por mais tempo que gostaria.

Capítulo 1 Proibida

Capítulo Um Socorro! Socorro! - um grito apavorado ecoa na noite fria A rua está deserta, exceto por um cachorro maltrapilho que perambula à procura de alguma comida. As luzes na rua são fracas, com alguns postes espaçados entre si. Desço do carro e corro em direção ao som angustiado. Embora não seja muito tarde, poucas pessoas se arriscam a sair à noite naquela parte da cidade. Aquela é uma região relativamente perigosa e violenta. Há um número considerável de assaltos, brigas, estupros e até mesmo assassinatos.

- Hei! - eu grito para o homem que encurrala uma jovem contra uma porta de metal de uma loja fechada. Ele tenta agarrar sua bolsa com uma mão e com a outra aperta lhe o pescoço. - Solte-a! - grito enfurecido. O homem se assusta e solta a jovem empurrando-a para o lado. Ela se desequilibra e cai soltando um gemido. O homem lança para a jovem um olhar vidrado, louco e alienado. Eu conheço bem esse tipo de olhar transtornado. Na mesma hora vejo que não é uma boa ideia enfrentar o homem, pois ele pode estar armado. Homens naquele estado geralmente não são donos de seus atos, na maioria das vezes, são inconsequentes. Eu poderia estar colocando tanto a mim quanto à jovem em risco naquele momento. Mas, o que eu posso fazer droga? Antes que eu possa pensar no próximo passo, o homem sai correndo levando consigo a bolsa da jovem. Fico dividido entre correr atrás do homem ou socorrer a jovem que geme no chão. Soltando um palavrão, eu escolho a segunda opção. - Tudo bem? - eu digo aproximando-me dela, que treme assustada. Ela está encolhida contra a porta da loja, seus cabelos caem em cascata ao redor do rosto, longos cabelos vermelhos. Uma cor tão intensa que seria impossível de ter sido fabricada. Ergo o seu rosto para observá-la melhor. - Você está bem? - insisto. Quando ela ergue a cabeça, lentamente, sinto meu mundo sair de órbita. Não estava preparado para aquilo. Diante de mim, o rosto mais lindo e angelical que eu já vi em toda a minha vida. Pele de porcelana, coberto por sardas, que comprovam a cor natural dos cabelos, nariz arrebitado e atrevido, lábios vermelhos, carnudos e sedutores. Seus lábios fariam qualquer homem querer mergulhar imensamente neles. Minhas mãos tremem levemente ao segurar aquele rosto fino. Uma carga elétrica percorre por todo o meu corpo. Retiro rapidamente a mão, em choque. - Você está bem? - repito com a voz ligeiramente rouca. A jovem suspira profundamente antes de responder. - A-a-acho que sim - gagueja. Ela abre os olhos deixando-me em transe. São os olhos mais lindos que já pude ver. De um azul absurdamente claro, cristalino, impactantes. - Minha bolsa! - ela olha além de meus ombros. - Infelizmente ele a levou - explico com pesar. - Poderia tê-lo perseguido, mas achei melhor ver como você estava. - Tudo bem - ela responde seu tom refletindo o meu. Então, ela começa a se levantar apoiando-se à porta da loja e fazendo círculos no chão com os pés como se procurasse algo. Nesse momento posso ver o quanto ela é estonteante. Um corpo curvilíneo, magra, mas na medida certa, pernas lindas, apesar de não ser tão alta. Percebo também seu perfume, um cheio almiscarado com tons suaves de florais. Ela é linda. - Minha bengala - ela sussurra trazendo-me para o presente. - Como? - franzo a testa confuso. Será que ela estava anteriormente machucada? Tem algum problema na perna? Pela forma como se apoia em uma perna e mexe a outra, acredito que não. - Minha bengala - ela diz novamente. Agarro-a rapidamente prendendo-a em meu peito largo. - Consegue ver minha bengala, senhor? - ela pergunta ofegante e um pouco assustada com meu abraço repentino. Olho ao redor e vejo uma bengala marrom opaco poucos metros adiante. Aparentemente está intacta. - Sim, está um pouco à frente - respondo. - Deixe-me pegá-la para você - digo, mas não a solto. Encaro aquela bela jovem mulher que segue olhando por sobre meus ombros. Seu olhar parado, estático. Como se estivessem fixados em um ponto longe de mim. É então que a compreensão cai em mim como uma madeira no chão. - Você é cega! - digo rispidamente. A jovem encolhe-se em meus braços. Fica visivelmente pálida e com uma expressão angustiada toma conta de seu rosto. Ela tenta se livrar do meu abraço sem sucesso. - Solte-me - ela sussurra angustiada. Afrouxo os braços, mas não a solto. Eu devo tê-la assustado. Não era minha intenção, mas ao me dar conta do fato, uma raiva enorme apodera-se de mim. Como alguém pode tentar fazer mal a alguém tão frágil como aquela jovem, ainda mais sendo cega?

Desculpe-me. Não queria te assustar - suspiro. - Só fiquei surpreso. - Não tem por que! Afinal, como você poderia saber que sou cega? Desculpe-me se isso o incomoda - diz ela amargamente. - Incomodar? - encaro-a confuso. - Acha que isso me incomoda? - digo rangendo os dentes. - Senhor, eu posso ser cega, mas eu não sou burra e eu sinto as coisas - aproveitando-se de meu choque, ela se solta e começa a caminhar tateando o ar. Fico instantaneamente irritado. Não me sinto incomodado, pelo contrário. Algo me atrai para essa jovem. Claro que seu rosto angelical e o que eu posso ver de seu corpo agora que está de pé contribuem e, muito. Qual homem não se sentiria atraído por uma jovem tão bonita? Mas é mais que isso, algo me atraía para ela, como se um ímã imaginário, uma espécie de aura entre nós, me puxasse para mais perto ainda. Já conheci muitas mulheres interessantes com as quais me perdi na calada da noite, mas até então nunca senti tal magnetismo. - Está enganada! - seguro seu braço. Novamente através da manga do casaco que ela está vestindo eu posso sentir a eletricidade. "Inferno!" - Poderia me passar à bengala, por favor? Minha casa não é longe e logo posso deixá-lo livre desse transtorno - ela diz sombriamente. Resmungo um palavrão e vou à busca da sua bengala. Ela está a poucos metros adiante na calçada. - Aqui - digo segurando sua mão para entregar-lhe a bengala. Sinto seu leve estremecimento. Seria ainda o choque ou ela também sente a mesma atração que eu? Por Deus, isso é errado! Sendo ela jovem demais para mim e mesmo se não fosse eu não poderia. Ela parece inocente demais para um homem como eu, além disso, existem outros impedimentos. - O que faz aqui sozinha? Onde estão seus pais? - pergunto apreensivo. A jovem ri confusa. - O que meus pais têm a ver com isso? - ela devolve a pergunta. - Deixar uma garota da sua idade, andar sozinha nessa parte da cidade e ainda mais sendo... - paro de falar antes de prosseguir. - Cega? - diz ela amargamente. - Apesar de ter me ajudado, o que agradeço e muito, não acho que seja da sua conta – ela se vira dando-me as costas. - Claro que é! - ataco. - Para onde vai? Temos que avisar seus pais e dar queixa à polícia - seguro firmemente em seus pulsos. - Meus pais não precisam saber - ela tenta se soltar. - E a polícia não fará nada. Eu não vi quem foi, portanto... - São uns irresponsáveis! - eu interrompo-a irritado. - Poderia dar queixa contra eles também e, além disso, eu consegui ver o cara. Você o conhece? - Err... hum... Olha, só quero ir para casa. Não dê queixa, por favor - ela suplica tentando soltar suas mãos. Será que ela o conhece? Por que está sendo tão evasiva e pedindo para não dar queixa? Resolvo perguntar de novo. - Você o conhece ou não? - insisto. Ela parece pensar por um momento, balança a cabeça e fica muda. Definitivamente essa história me parece mal contada, mas considerando o infortúnio pelo qual ela passou essa noite, decido não insistir. Bom, pelo menos, não agora. - Olha, ainda acho que você deveria dar queixa. Eu vi o homem e poderia facilmente descrevê-lo. Não deveríamos deixá-lo nas ruas à solta. Nitidamente, ele é um bandido e pode fazer mal a outras pessoas inocentes. Entretanto, essa é uma decisão sua e não vou insistir. Mas antes de qualquer coisa, vamos telefonar para seus pais - digo calmamente.

Capítulo 2 Proibida

Meus pais estão mortos! - ela diz como se estivesse sentindo dor. Em seguida, começa a chorar copiosamente como se só agora percebesse o perigo que havia corrido. Eu a abraço apertado, enquanto ela chora em meus braços. Sinto um nó na garganta. - Tudo bem - sussurro acariciando os seus cabelos, tentando confortá- la. – Tudo bem. Alguns minutos depois, ela vai se acalmando e seu choro viram suspiros sentidos. Ergo lhe o rosto com o dedo, fascinado por aqueles olhos, que banhados de lágrimas ficam ainda mais hipnotizantes.

- Você tem certeza de que não quer mesmo dar queixa à polícia? - digo docemente. - Aquele homem solto é um perigo para outras mulheres inocentes como você. - Por favor, não... - ela suplica. Enrugo a testa. Por que ela insiste em não prestar queixa? Deve algo às autoridades? Rio internamente do absurdo daquele pensamento. Claro que não! O que uma jovem frágil e indefesa como ela poderia fazer contra a lei? Mas há algo ali. Será que aquele homem é alguém conhecido? Um amigo ou namorado? O simples pensamento incomoda-me muitíssimo. - Tudo bem. Mas vou levá-la para casa então, não posso deixá-la sozinha com esse homem à solta - digo firmemente. - Não aceitarei recusa de sua parte. – Não é preciso. Leve-me ao ponto de ônibus aqui perto - ela pede. – Não! - eu urro. - Ou me deixa levá-la até sua casa ou iremos à delegacia. Mas não a deixarei sozinha no ponto de ônibus - digo incisivamente. - E eu não vou entrar no carro de um estranho! - ela rebate esfregando as mãos. - Façamos o seguinte... - suspiro tentando controlar a ira que começa a me dominar. - Eu chamo um táxi para levá-la, tudo bem? - digo em um sussurro. Ela parece refletir por alguns instantes. - Tudo bem, pode chamar o táxi - ela consente. - Venha - digo guiando-a pelo ombro. - Espere um momento. Após esperarmos um carro passar, atravessamos a rua. Faço sinal para um táxi que passa alguns minutos depois e enquanto converso com o motorista, vejo-o observá-la e fico incomodado novamente. Ela está ereta e rígida como uma rainha e é linda, não há como negar isso. Alguns fios de cabelo caem sobre o seu rosto dando-lhe um toque angelical. Só agora noto que o cabelo dela é longo, caindo abaixo da cintura de forma sensual. Nunca tive fetiche por cabelos, mas aqueles mexem e muito com a minha libido. Posso facilmente imaginá-la deitada nua em lençóis negros de seda e com aqueles cabelos ruivos espalhados, chamando por meu toque. Balanço a cabeça para afastar tal pensamento inoportuno. Após combinar com o motorista, retorno até ela, que segura à bengala com tamanha força, que as juntas de seus dedos estão brancas, desmentindo sua altivez anterior. - Venha - seguro sua mão gelada. - O táxi já está aqui. Tem certeza que não quer prestar queixa ou que eu a deixe em casa? - pergunto esperançoso. Ela volta a ficar pálida. Há alguma coisa ali? Seria o homem um namorado? Outra vez o pensamento me incomoda. - Não! - ela se apressa. - Acho que ainda não agradeci - ela sorri tristemente. - Obrigada. - Cuide-se! O táxi já está pago - Acaricio sua bochecha com um toque leve como uma pluma, mas que a faz estremecer e dar um passo para trás com a respiração ofegante. Medo ou prazer? A pergunta martela em minha mente. Pelo seu rosto corado acredito que seja a segunda opção e isso me deixa fodidamente excitado. Inferno! O que estou fazendo? Afasto qualquer pensamento indecoroso e ajudo-a entrar no carro. Observo-a conversar com o motorista, possivelmente passando o endereço. Ouço alguma coisa sobre Edifício Boulevard no Bronx e então o taxista começa a dirigir. Olho para o táxi por alguns instantes e sigo apressadamente para meu carro, que por incrível que pareça, ainda está intacto, estacionado no mesmo lugar, apesar do perigoso bairro. O carro por si só indica perigo. Nenhum delinquente ousaria mexer ou furtar um Jaguar XF prata, uma indicação claramente que seu dono só não é alguém que você gostaria de enfurecer. Enquanto dirijo, penso na jovem intrigante. Nem sequer perguntei seu nome. Penso com amargura que deveria ter insistido mais sobre o homem. Será que ela realmente o conhece? E se conhece que tipo de relação teria com ele? Não muito boa, na certa, pois ele a agrediu e a roubou. E ainda por cima seus pais estão mortos! Com quem será que ela vive? Quem cuida dela? Por que ela estava sozinha em um lugar como aquele? Eu quero ter tudo e todos em volta de mim sobre controle e todas essas incógnitas em volta dessa jovem estão me deixando louco! Tenho que vê-la novamente, mas como? Pelo menos ouvi vagamente sobre o edifício que ela mora. Sim! Vou pedir ao Peter que investigue e descubra ainda hoje seu endereço. Carregaria outra enorme culpa dentro de mim se algo acontecesse a ela. Apesar de ter dado dinheiro suficiente ao taxista, mas ainda assim... Droga! Não deveria tê-la deixado ir sozinha de táxi. Agora não ficarei tranquilo enquanto não souber se ela está bem, em segurança, em casa. Decido ligar para Peter imediatamente. - Peter, sou eu, Neil - cumprimento-o meio angustiado após ser atendido no segundo toque. - Olá, Neil! Está tudo bem? Você me parece apreensivo - ele pergunta preocupado. - Sim, está tudo bem. Quer dizer, bem, mais ou menos. Acabo de ajudar uma moça que estava sendo assaltada e deixei-a em um táxi para levá-la em casa. Insisti para fazer isso, mas ela não quis arriscar sair com um estranho. No entanto, agora estou preocupado por saber se ela chegou até sua casa em segurança. Você pode verificar isso? Ouvi-a dizer ao taxista que morava no Edifício Boulevard, mas não ouvi o nome da rua. Encontrei-a no Bronx, ela deve morar por perto. – digo em um só fôlego.

Capítulo 3 Proibida

Bronx? Assalto? Neil eu estou ficando preocupado. O que ainda está fazendo aí? - ele pergunta ansioso. - Eu estava esperando o maldito homem por mais de uma hora. Peter tem certeza de que era mesmo aqui? - Foi o que ele me disse - ele parece frustrado. - Eu deveria ter ido com você. - Bom, de qualquer maneira, não estou mais no Bronx e não tenho como explicar agora. Por favor, faça o que estou lhe pedindo e me retorne o quanto antes. Estarei em casa aguardando notícias suas- digo encerrando o interrogatório. - Ok. Vou ver o que posso fazer - ele diz e eu desligo.

Capítulo Dois Chego a minha casa e me encaminho para verificar Anne. Ela dorme tranquilamente. Beijo-a na testa. Sigo para o banheiro e tiro minhas roupas. Preciso de um banho. Ligo o chuveiro e mal ele esquenta estou embaixo dele. Ponho minhas mãos na parede e deixo a água cair forte nas minhas costas. Ainda perdido em saber o que me atraiu tanto naquela bela jovem. Conheço e conheci mulheres muito bonitas, minha esposa é uma delas, mas nunca me senti tão perdido. Como nenhuma outra mulher me fez ficar. Mas eu não sou digno dela e mesmo que eu fosse não devo. Tenho complicações e cicatrizes demais, quem vêm acompanhadas de muita obscuridade, muitos erros, muitos arrependimentos. Qualquer pessoa que se aproxime de mim, com certeza sai ferida. E aquela jovem parece ter problema suficiente para si mesma. Possuir uma cegueira é fácil se comparada à escuridão em minha alma e as complicações que meu mundo traz. Comigo nunca haverá luz. Não há dias de sol, ele nunca brilhará. Desligo o chuveiro após ensaboar-me e lavar os cabelos. Pego uma toalha quente no toalheiro, passo sobre meu corpo rapidamente, envolvendo-a em minha cintura e sigo para o quarto. Confiro meu relógio e já se passou uma hora desde que falei com Peter. Verifico o celular, nenhuma ligação. Vou para a sala e decido me servir de uma dose de uísque enquanto espero por notícias. Ainda posso sentir aquele perfume. E aqueles olhos... Nunca mais os esquecerei. Ando de um lado pro outro na grande sala e o tempo parece não passar. Nenhuma notícia ainda. Sirvo-me de mais uma dose. Tomo quase que em um único gole e começo a ficar ansioso. Quanto tempo já se passou? Nenhuma notícia ainda. Será que ela chegou bem? Deveria ter ficado no Bronx e aguardado notícias de Peter. Inferno! Estaria mais perto e agora estou em casa, longe e sem notícias! Nunca me perdoarei se algo acontecer à ela. Deveria tê-la levado ao meu flat. Que estúpido que eu sou! Agora estou agoniado e de mãos atadas. Maldito Peter que não liga! Decido ligar para ele e exigir alguma notícia. Quando chego ao quarto para pegar o celular, ele toca. Atendo aliviado. - Peter! Você conseguiu o que eu te pedi? - pergunto apressado. - Hei cara! Calma aí! Por que essa agonia? - ele diz zombeteiro. - Peter, você conseguiu o que eu pedi ou não? Não brinque comigo - falo furiosamente. Estou mais preocupado do que achei que estivesse. - Sim, sim. Consegui - ele responde calmamente. - Então me passe o endereço, droga! - digo ríspido. -Um minuto, vou pegar uma caneta. Eu pego a caneta e um pedaço de papel. - Pronto, pode falar. Ele me passa o endereço, eu agradeço e desligo. Sigo para meu closet e rapidamente visto uma cueca boxer, uma calça jeans preta, uma camiseta também preta e um casaco cinza por cima. Desço as escadas rapidamente e chamo Calvin pelo interfone. - Sr. Durant. Algum problema? - ouço sua voz sonolenta pelo interfone. - Não, mas preciso que você me leve a um lugar agora. - Prontamente, senhor. Aguardo-o no carro. Pego minha carteira e sigo para a garagem. Calvin me aguarda do lado de fora do carro com a porta aberta. Entro no carro calado. Ele dá a volta e senta-se à direção. - Algum lugar em especial, senhor? - ele pergunta dando ré no carro. Passo o endereço que anotei no papel para ele. - Vá o mais rápido que puder - eu digo. Ele olha o endereço assentindo e pisa no acelerador. Já se passou meia hora quando Calvin finalmente estaciona em frente a um prédio velho, com a tintura desbotada e pedaços da mesma já caíram há muito tempo. - Você tem certeza de que é aqui, Calvin? - pergunto ao meu segurança e motorista. - Sim, senhor - ele assente. - Eu cresci nessa região, conheço o Bronx como a palma de minha mão. Olho mais uma vez para o prédio a minha frente e me pergunto se devo verificar ou não se a garota está bem. Ela disse que os pais morreram, mas deve existir alguém para cuidar dela. Tem que haver, ela não pode morar sozinha ali. - Inferno! - rujo completamente alheio ao Calvin que está ao meu lado de olhos arregalados. Não conseguirei voltar para casa sem saber ter alguma resposta como: O que os responsáveis por ela, se é que há algum, pensam morando em um lugar totalmente inseguro como este? Como podem deixa-la à mercê de todos os tipos de perigo? Conheço lugares como esse o suficiente para saber que é o lugar ideal para vagabundos, drogados e prostitutas. Olho o prédio mais uma vez, vejo que o portão está aberto, outra indicação que o lugar realmente não é seguro. Possui quatro andares. Por um lado é bom, porque é pequeno. Por outro lado, vou ter relativo trabalho para encontrar seu apartamento. Terei que bater de porta em porta, fazendo papel de idiota, para perguntar se alguém a conhece e já passa da meia noite. Certamente uma garota como ela não passa despercebida.

- Calvin - ele me observa impassível. - Vou me encontrar com uma pessoa aqui. Vá para um lugar mais seguro e aguarde meu telefonema, não vou demorar. Ele assente e eu desço do carro. Entro no prédio e subo para o primeiro andar. Bato na primeira porta com certo nervosismo, não apenas pela hora, mas por não saber o quê ou quem vou encontrar. Devo estar ficando completamente maluco! Sair de porta em porta atrás de uma garota é no mínimo estupidez. Penso em desistir e então a porta se abre. Uma loira, seminua, vestida em uma minúscula camisola e descabelada me olha de cima abaixo com interesse. - Entre, são sessenta dólares - ela fala meio grogue e segue para um sofá velho e encardido. Ela dá uma longa tragada em seu cigarro, olha pra mim novamente e diz. - Bem, pra você... - ela olha em direção a minha calça e dá um sorriso cínico. - Não cobraria nada. - Desculpe-me pela hora, senhora - digo olhando dentro do minúsculo apartamento, vejo que há duas portas à esquerda e me imagino se não vai sair dali um marido ciumento ou um cafetão. - Fico lisonjeado, mas não vim aqui para isso.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022