Eu era a filha do chefe da máfia mais poderoso do Rio de Janeiro. Por seis meses, fui chantageada para ser a amante secreta e informante do queridinho da Polícia Federal, Caio Mendonça. Mas, bem quando me apaixonei por ele, ele anunciou seu noivado com a filha de um senador em rede nacional.
Ele chamou nosso relacionamento de "arranjo político" e me disse que eu era apenas uma garantia para manter meu pai na linha.
Sua nova noiva, então, me humilhou publicamente, me chamando de "lixo".
Eu sacrifiquei tudo por ele, até mesmo o filho secreto que poderíamos ter tido, apenas para ser usada e descartada como um brinquedo do qual ele se cansou. Será que eu fui algo mais do que um trabalho para ele?
A vergonha da minha desgraça pública matou minha avó. Meu pai, vendo meu mundo destruído, tirou a própria vida para me dar uma nova. Ele forjou minha morte, me deu uma nova identidade e me deixou uma fortuna. Analu Moretti estava morta, mas Anna Russo estava apenas começando sua vingança.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Analu Moretti
A primeira vez que vi o Delegado Federal Caio Mendonça, ele estava do outro lado do salão lotado do Copacabana Palace, um copo de uísque na mão, parecendo o dono do lugar. Ele provavelmente era. O baile de gala anual da PF era o seu reino, e todos ali eram seus súditos.
Ele era o convidado de honra, representando a Polícia Federal.
Eu não deveria estar ali. Minha presença era um insulto a tudo que aquela noite representava. Eu era Analu Moretti, filha do chefe da máfia mais poderoso do Rio. Para aquelas pessoas, eu não era uma convidada; eu era a inimiga, vestida em alta-costura.
Caio era tudo que eu não era. Ele era a lei; eu era o crime. O nome de sua família estava gravado na história da polícia federal, um legado de honra e dever. O nome da minha família era sussurrado em becos escuros e falado em voz baixa nos tribunais, um legado de medo e sangue. Éramos dois lados da mesma moeda manchada, eternamente opostos.
E, no entanto, todos os olhos naquele salão estavam nele. Eles o observavam com uma mistura de admiração e respeito, suas conversas diminuindo para um murmúrio sempre que ele passava. Ele tinha a reputação de ser implacável, ambicioso e brutalmente eficaz. Diziam que ele era o futuro da PF. Uma estrela em ascensão.
Nossos olhos se encontraram por um segundo fugaz do outro lado do salão. Os dele eram de um azul surpreendente, penetrante, frios e analíticos. Eles passaram por mim sem um pingo de reconhecimento, como se eu fosse apenas mais uma peça da decoração suntuosa.
Mas eu sabia que não era verdade.
Mais tarde, enquanto a orquestra tocava uma melodia suave e os casais dançavam na pista, ele passou por mim. O cheiro de seu perfume, uma mistura nítida e limpa de bergamota e algo mais escuro, como cedro, me envolveu. Por um momento, esqueci de respirar.
Quando ele passou, meu olhar caiu sobre o punho branco e impecável de sua camisa. Logo abaixo do tecido caro, espiando por baixo da manga, estava o traço fraco e escuro de uma tatuagem. Era um padrão familiar, um pequeno e intrincado desenho de espinhos entrelaçados.
Um desenho que eu conhecia intimamente, porque minha própria tatuagem correspondente estava escondida sob a seda do meu vestido, uma marca secreta logo acima do meu quadril.
Eu o vi ajustar sutilmente o punho, seus movimentos suaves e treinados, escondendo a marca da vista. Foi um gesto rápido, quase imperceptível, mas que me causou um arrepio na espinha. O segredo que compartilhávamos era um fogo perigoso, que poderia queimar nossos dois mundos até o chão.
Horas depois, o baile era uma memória distante. A formalidade sufocante foi substituída pelo silêncio de sua cobertura na Zona Sul, com as luzes da cidade brilhando como diamantes espalhados lá embaixo. O ar aqui era diferente, carregado de uma tensão que era ao mesmo tempo aterrorizante e inebriante.
Ele estava parado junto à janela do chão ao teto, de costas para mim, a cidade projetando longas sombras pelo cômodo. Ele havia afrouxado a gravata e o primeiro botão da camisa estava desabotoado.
"Você estava me encarando", ele disse, sua voz baixa e rouca, cortando o silêncio.
Eu não neguei. "Você também."
Ele se virou então, e a máscara fria do agente da PF havia desaparecido. Em seu lugar estava o homem que eu conhecia nas horas roubadas da noite, o homem cujo toque era tanto um castigo quanto uma prece.
"É um risco, Analu", ele murmurou, cruzando o espaço entre nós em três longas passadas. Suas mãos encontraram minha cintura, me puxando para junto dele. "Você sabe disso."
Eu sabia. Ah, eu sabia. A filha de um chefão da máfia e o queridinho da PF. Não era apenas um risco; era um pacto suicida. Se alguém descobrisse, minha família seria destruída. Sua carreira, seu legado, seriam aniquilados. Estávamos brincando com fogo em um quarto cheio de gasolina.
No momento em que seus lábios encontraram os meus, um zumbido agudo vibrou de seu celular na mesa de centro. O som quebrou o momento, nos puxando de volta para a realidade brutal de nossas vidas.
Ele se afastou, um brilho de fúria em seus olhos, e pegou o telefone. A tela lançou uma luz azul pálida em seu rosto, iluminando as linhas duras de sua mandíbula.
Então eu vi. A manchete que piscou na tela.
Caio Mendonça, da PF, Anuncia Noivado com Isabela Almeida, Filha do Senador Almeida.
O ar sumiu dos meus pulmões. O mundo girou. Meu coração, que batia descontrolado contra minhas costelas momentos antes, parecia ter parado. Gelou.
"Caio?" Minha voz era um sussurro engasgado.
Ele não olhou para mim. Seus olhos ainda estavam fixos na tela, sua expressão indecifrável.
Eu me afastei dele, o calor de seu corpo agora parecendo uma queimadura. "O que é isso? Um noivado?"
Ele finalmente olhou para cima, seus olhos azuis tão frios e distantes quanto estavam no baile. "É um arranjo político. É bom para a minha carreira."
As palavras foram como tapas no meu rosto. Cada uma mais fria e mais dura que a anterior. "E o que eu sou?", perguntei, minha voz tremendo com uma dor tão profunda que parecia uma ferida física. "O que eu fui para você nos últimos seis meses?"
Ele não respondeu. Apenas me observou, seu rosto uma tela em branco.
"Eu sou apenas... uma garantia? Uma maneira de manter meu pai na linha?"
O silêncio que se seguiu foi minha resposta. Ele se estendeu entre nós, denso e sufocante, cheio de todas as verdades não ditas de nosso relacionamento.
Lembrei-me do dia em que tudo começou. Ele apareceu no escritório do meu pai com um arquivo grosso o suficiente para prender toda a minha família para o resto da vida. Mas ele não queria meu pai. Ele me queria. Ele usou aquela evidência, aquela vantagem, para me chantagear a entrar nisso... nesse caso. Ele me fez sua informante, seu segredo, seu brinquedo.
E a parte mais patética? Eu me apaixonei por ele. Em algum lugar entre os encontros clandestinos e os segredos sussurrados, a coação se transformou em outra coisa. Eu me permiti acreditar que a ternura em seu toque, o olhar em seus olhos no meio da noite, era real. Eu confundi dependência com desejo, posse com amor.
"Eu pensei...", comecei, minha voz falhando. Tentei dizer a ele que o amava, que tolamente acreditei que ele poderia sentir algo por mim também. Mas as palavras ficaram presas na minha garganta, estranguladas pela traição crua.
Ele me interrompeu antes que eu pudesse dizê-las. "Acabou, Analu."
Ele caminhou até sua pasta, seus movimentos precisos e distantes. Ele tirou uma pilha de papéis e uma caneta, colocando-os na mesa à minha frente.
"O que é isso?", perguntei, minha voz quase inaudível.
"Um acordo de confidencialidade", disse ele, seu tom plano, desprovido de qualquer emoção. "Ele descreve os termos do fim do nosso... arranjo. Assine, e eu esquecerei que as provas contra seu pai existem."
Meus olhos percorreram o documento. Era um contrato frio e legal que cortava todos os laços entre nós, apagando os últimos seis meses como se nunca tivessem acontecido. Era um documento que reduzia tudo o que eu sentia, tudo o que eu havia sacrificado, a uma transação comercial.
Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar a caneta. As lágrimas embaçaram minha visão, mas eu as forcei a voltar. Eu não lhe daria a satisfação de me ver quebrar. Não completamente.
Com um suspiro final e devastador, rabisquei meu nome na linha.
Ele pegou os papéis da minha mão trêmula, seus dedos roçando nos meus por uma fração de segundo. O breve contato foi como um choque elétrico, um lembrete doloroso do que eu estava perdendo.
Ele não disse mais uma palavra. Apenas se virou e saiu do apartamento, me deixando sozinha no quarto silencioso e vazio.
Fiquei ali por um longo tempo, encarando a porta fechada. Então, meus joelhos cederam e eu caí no chão. Peguei a caneta que ele havia deixado para trás e olhei para a cópia do acordo na mesa. Com um soluço estrangulado, peguei os papéis e comecei a rasgá-los em pedaços minúsculos e inúteis, as bordas afiadas cortando minhas palmas.
O caminho de volta para a mansão dos Moretti foi um borrão. Os portões familiares e os gramados extensos não ofereceram conforto. Entrei em casa, esperando evitar minha família, mas minha avó estava me esperando no grande hall de entrada, uma expressão preocupada no rosto.
"Analu, querida, você está pálida. Está tudo bem?"
Forcei um sorriso, os músculos do meu rosto parecendo rígidos e estranhos. "Só estou cansada, vovó. Foi uma noite longa."
Ela estendeu a mão e colocou uma mecha de cabelo solta atrás da minha orelha, seu toque gentil e quente. "Você tem trabalhado demais. Aquele homem... ele não é bom para você."
Eu congelei. Ela sabia? Como ela poderia saber?
"Que homem, vovó?"
"O Mendonça", disse ela, sua voz carregada de uma desaprovação que ela raramente mostrava. "Eu vejo como você fica quando o nome dele aparece no noticiário. Eu sou velha, Analu, não cega."
Eu não sabia o que dizer. A mentira que eu queria contar morreu em meus lábios. Eu apenas assenti, incapaz de encontrar seu olhar preocupado. O que eu era, realmente? Sua amante? Sua informante? Um peão em um jogo que eu nunca quis jogar?
Naquela noite, o sono foi um estranho. Fiquei acordada, encarando o teto, a imagem do rosto frio e indiferente de Caio gravada em minha mente. A dor era uma coisa viva dentro de mim, um peso frio e pesado no meu peito.
No dia seguinte, tive que comparecer a um almoço de caridade que minha família patrocinava. Era uma obrigação da qual eu não podia escapar. Ao entrar no salão lotado, meu coração parou.
Lá estava ele. Caio Mendonça. E ele não estava sozinho.
Em seu braço estava uma mulher linda, de cabelos loiros e um sorriso que parecia ao mesmo tempo doce e presunçoso. Ela usava um vestido branco impecável que gritava dinheiro antigo e privilégio. Isabela Almeida. Sua noiva.
Eles se moviam pelo salão como a realeza, um casal perfeito de um mundo perfeito. Um mundo ao qual eu nunca poderia pertencer.
Os olhos de Isabela me encontraram do outro lado do salão. Ela sussurrou algo no ouvido de Caio, e ele se virou para me olhar. Por um momento, nossos olhares se cruzaram, e eu vi um brilho de algo em seus olhos - arrependimento? culpa? - antes que desaparecesse, substituído por aquela indiferença familiar e arrepiante.
Isabela o guiou em minha direção, seu sorriso se alargando. "Analu Moretti, certo?", disse ela, sua voz pingando uma doçura condescendente. "Meu pai já mencionou sua família." O insulto não dito pairava no ar entre nós: família do crime.
Forcei minha voz a ser firme. "Isabela Almeida. Um prazer."
"Caio me contou tanto sobre você", ela continuou, apertando o braço dele. "Ele disse que você foi... muito prestativa com alguns de seus casos."
A palavra "prestativa" estava carregada de veneno. Era uma provocação clara e calculada, destinada a me lembrar do meu lugar. Eu era a informante. A ferramenta.
Olhei para Caio, esperando que ele dissesse algo, que me defendesse, que mostrasse sequer um pingo da conexão que um dia compartilhamos.
Ele apenas ficou ali, seu rosto uma máscara de indiferença educada. "Isabela, devemos ir. Seu pai está esperando." Ele se virou para mim, sua voz formal e desdenhosa. "Senhorita Moretti."
Foi o último prego no caixão do meu coração tolo. Ele não apenas me descartou, mas estava permitindo que sua noiva me humilhasse em público.
Eu os observei se afastarem, a risada triunfante de Isabela ecoando em meus ouvidos. Quando eles passaram por uma coluna, ouvi-o murmurar algo para ela, sua voz baixa demais para eu entender as palavras. Mas eu vi a resposta dela. Ela olhou para trás por cima do ombro, um olhar de puro e absoluto desprezo em seu rosto, e disse: "Não se preocupe, querido. O lixo está se retirando sozinho."
Minha compostura finalmente se quebrou. Eu me virei e fugi, abrindo caminho pela multidão, ignorando os olhares curiosos. Não parei até estar do lado de fora, o ar frio da tarde batendo em meu rosto.
E então, a chuva começou a cair. Gotas gordas e frias que se misturavam com as lágrimas quentes que escorriam por minhas bochechas. Fiquei ali na tempestade, completamente sozinha, enquanto o mundo que eu havia construído em torno de uma mentira desmoronava em ruínas.
Ponto de Vista: Analu Moretti
A chuva caía em lençóis, colando meu vestido de seda na pele, mas eu mal sentia o frio. Tudo o que eu sentia era o calor ardente da humilhação e o frio gelado da traição de Caio. O lixo está se retirando sozinho. As palavras de Isabela ecoavam na minha cabeça, um mantra cruel e implacável.
Era isso que eu era para eles. Lixo. Um segredinho sujo de um mundo que eles desprezavam, para ser usado e descartado quando não fosse mais conveniente. Meu amor, meu sacrifício, meu coração tolo e partido - tudo não significava nada.
Um carro parou ao meu lado, seus faróis cortando a cortina cinzenta de chuva. A porta do passageiro se abriu e Isabela Almeida se inclinou para fora, segurando um guarda-chuva. Seu sorriso era enjoativamente doce.
"Você vai pegar uma pneumonia aqui fora", disse ela, sua voz carregada de falsa preocupação. "Precisa de uma carona?"
Eu apenas a encarei, um animal preso no brilho de um predador.
"Ah, não me olhe assim", ela ronronou, saindo do carro. O guarda-chuva protegia seu cabelo perfeitamente penteado e seu vestido caro, enquanto eu estava encharcada e derrotada. "Eu não sou a inimiga."
Ela deu um passo mais perto, seus olhos me examinando com uma mistura de pena e triunfo. "Ele me contou tudo, sabe."
Meu sangue gelou. "Tudo?"
"Sobre o pequeno arranjo de vocês", disse ela, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Como ele te tinha na palma da mão. Como você estava tão desesperada para salvar sua família patética que faria qualquer coisa que ele pedisse."
Minha mente voltou, não para a coação, mas para o começo. Antes das ameaças e da chantagem. De volta a um tempo que parecia outra vida, quando eu era apenas uma garota na Academia de Polícia, a melhor da turma, cheia de ideais. Caio Mendonça tinha sido um palestrante convidado, um jovem agente brilhante com olhos que viam através de mim. Nós nos conectamos instantaneamente, duas mentes afiadas atraídas uma pela outra. Conversamos por horas sobre justiça, sobre mudar o mundo. Eu tinha sido tão ingênua. Eu me apaixonei pelo homem, não pelo distintivo.
Nossas famílias eram o abismo entre nós. Meu pai, o Don, viu um Mendonça e viu o inimigo. Ele me forçou a abandonar a academia, me puxando de volta para a gaiola dourada de nosso império criminoso. Ele me disse que um homem como Caio nunca me aceitaria de verdade, que nossos mundos nunca poderiam se fundir. Eu o odiei por isso na época, mas agora, suas palavras pareciam uma profecia.
Anos se passaram. Não nos vimos novamente até que ele se tornou o agente principal de uma força-tarefa dedicada a derrubar a família Moretti. Quando ele me encurralou, o calor em seus olhos havia desaparecido, substituído por uma determinação fria e calculista. A escolha que ele me deu não era escolha alguma: tornar-me sua amante secreta e informante, ou ver minha família queimar. Eu os escolhi. Sempre eles.
"Você não tem ideia do que está falando", consegui dizer, minha voz rouca.
O sorriso de Isabela se alargou, uma coisa cruel e afiada. "Ah, eu acho que tenho." Ela se inclinou mais perto, seu perfume enjoativo no ar úmido. "Ele me disse que você era apenas um jogo. Um meio para um fim. Uma maneira de manter seu pai na coleira enquanto ele reunia provas suficientes para destruí-lo."
As palavras eram como pequenos e afiados cacos de vidro se cravando em meu coração.
"Ele me disse que você era um peão", ela continuou, sua voz um silvo venenoso. "Um brinquedo com o qual ele se cansou de brincar. Você realmente achou que ele poderia amar alguém como você? A filha de um mafioso?"
Uma única lágrima quente escapou e traçou um caminho pela chuva fria em minha bochecha. A última brasa de esperança dentro de mim se extinguiu, deixando para trás nada além de cinzas frias e escuras.
"Então, faça um favor a todos nós", disse Isabela, sua voz endurecendo. "Esqueça-o. Desapareça. Você já cumpriu seu propósito."
Ela voltou para o carro, a porta batendo com um ar de finalidade. Enquanto o carro se afastava, eu a vi olhar para trás, seu rosto emoldurado na janela, uma imagem de satisfação presunçosa.
A próxima vez que vi Caio, foi no ambiente estéril e impessoal de uma suíte de hotel que ele usava para nossas... reuniões. Dias se passaram. Eu não comia. Eu não dormia. Eu era um fantasma assombrando as ruínas da minha própria vida.
Ele estava parado junto à janela, assim como naquela noite, olhando para a cidade. Ele não se virou quando entrei.
"Você está um caco", disse ele, sua voz desprovida de simpatia.
"Eu me sinto como um", respondi, minha voz plana. Caminhei em sua direção, parando a alguns metros de distância. "Me diga uma coisa, Caio. Algo daquilo foi real?"
Ele finalmente se virou para me encarar, sua expressão indecifrável. "Do que você está falando?"
"Isabela me contou o que você disse a ela", falei, minha voz tremendo apesar de meus melhores esforços para mantê-la firme. "Que eu era um peão. Um brinquedo. É verdade?"
Um fantasma de sorriso tocou seus lábios, uma coisa cruel e zombeteira. "Ela tem um talento para o drama."
"Então você nega?", insisti, uma lasca desesperada de esperança que eu não conseguia matar crescendo em meu peito.
Ele deu um passo mais perto, seus olhos frios. "Eu nego que fui forçado a fazer qualquer coisa. Você veio até mim, Analu. Por vontade própria."
A mentira era tão descarada, tão audaciosa, que me tirou o fôlego. "Você me chantageou! Você ameaçou minha família!"
"E você obedeceu", disse ele suavemente. "Não tente se fazer de vítima agora. Nós dois conseguimos o que queríamos."
Ele estendeu a mão, segurando meu queixo, seu polegar acariciando minha bochecha. O gesto, antes tão terno, agora parecia uma marca de ferro. "E agora", disse ele, sua voz baixando, "eu tenho a Isabela. Uma mulher do meu mundo. Uma mulher que pode me dar um futuro. Você não pode competir com isso."
A finalidade em sua voz foi como uma sentença de morte. A esperança em meu peito murchou e morreu.
Afastei-me de seu toque, meu corpo recuando como se fosse de uma chama. Peguei um pedaço de papel dobrado da minha bolsa, minha mão tremendo enquanto o estendia para ele.
"O que é isso?", ele perguntou, seus olhos se estreitando.
"Leia", sussurrei.
Ele pegou o papel e o desdobrou. Era um laudo médico do meu doutor. Um laudo confirmando que, duas semanas atrás, eu havia passado por um procedimento. Um aborto.
O filho dele.
Nosso filho.
Observei seu rosto passar de confusão para choque, e então para uma raiva sombria e fervente.
"Quando?", ele exigiu, sua voz um rosnado baixo.
"Não importa", eu disse, minha própria voz ganhando uma força que eu não sabia que possuía. "Está feito. Assim como nós. A partir deste momento, Caio, você e eu não somos nada. Acabou."
Ponto de Vista: Analu Moretti
Os olhos de Caio, geralmente tão controlados, brilharam com uma fúria crua e possessiva. O branco clínico do laudo médico se amassou em seu punho. "Você não tinha o direito", ele rosnou, sua voz um ronco baixo e perigoso. "Aquele era meu filho também."
"Um filho que você nunca teria reconhecido", retruquei, as palavras com gosto de ácido na minha língua. "Um filho que teria sido uma mancha em seu casamento político perfeito. Eu fiz o que tinha que fazer para proteger minha família. Algo que você me ensinou muito bem."
A verdade era que eu havia considerado mantê-lo. Por um momento fugaz e tolo, pensei que um filho poderia ser a única coisa que poderia preencher o abismo entre nossos mundos, a única coisa que poderia fazê-lo me escolher. Mas então veio o anúncio do noivado, a dispensa brutal e as palavras venenosas de Isabela. Uma criança merecia mais do que ser uma moeda de troca em um jogo perdido. Uma criança merecia um pai que amasse sua mãe.
"Acabou, Caio", repeti, minha voz mais fria agora, blindada pela minha dor. "Você tem o seu futuro. Deixe-me com o meu."
Virei-me para sair, mas ele se moveu mais rápido. Sua mão agarrou meu braço, seus dedos cravando-se em minha carne como garras. "Você não decide quando acabamos", ele sibilou, me puxando de volta para ele. "Você acha que pode simplesmente ir embora depois do que fez? Você vai pagar por isso."
Ele me empurrou para trás, e eu tropecei, caindo no sofá macio. Antes que eu pudesse reagir, ele estava em cima de mim, seu peso me prendendo. O cheiro dele - bergamota e fúria - encheu meus sentidos, me sufocando.
Uma dor aguda e lancinante atravessou meu baixo-ventre. O aviso do médico ecoou em meus ouvidos - sem atividade extenuante, descanso, recuperação. Meu corpo, ainda sensível e se curando do procedimento, gritou em protesto.
Isso não era paixão. Não era nem mesmo luxúria. Era punição. Era um ato brutal e calculado de vingança, projetado para me machucar e humilhar. Ele estava reafirmando seu controle, me lembrando que eu era dele para quebrar.
A dor, tanto física quanto emocional, era uma agonia incandescente que me consumiu. O quarto começou a girar, as bordas da minha visão se turvando na escuridão. A última coisa que ouvi foi meu próprio soluço engasgado enquanto a consciência, misericordiosamente, se esvaía.
Quando acordei, o quarto estava vazio. O sol do final da tarde entrava pela janela, iluminando os grãos de poeira dançando no ar. No chão, espalhados como confetes cruéis, estavam os pedaços rasgados do laudo médico. Um testemunho zombeteiro da minha ingenuidade.
Arrastei meu corpo maltratado de volta para a mansão dos Moretti, a dor em meu âmago um lembrete constante e latejante de sua crueldade. Ao passar pela porta, o braço direito do meu pai, Marco, correu ao meu encontro, seu rosto sombrio.
"Analu, temos um problema."
Meu coração afundou. "O que foi?"
"A Federal", disse ele, sua voz baixa. "Eles começaram a fazer batidas em nossos negócios. Operações portuárias, armazéns, restaurantes. Estão atingindo tudo, de uma vez só."
Um pavor frio me invadiu. Isso não era uma verificação de rotina. Era um ataque coordenado. Era Caio cumprindo sua ameaça.
"Tem que ser o Mendonça", sussurrei, mais para mim mesma do que para Marco. "Ele está por trás disso."
"O momento parece... intencional", concordou Marco, seus olhos cheios de preocupação.
Nos dias que se seguiram, o império Moretti começou a desmoronar. Caio foi sistemático, implacável. Ele sufocou nossas linhas de abastecimento, congelou nossos ativos e virou nossos parceiros contra nós com ameaças e intimidação. Ele estava desmantelando o legado da minha família, peça por peça.
Deixei minha própria dor de lado, despejando cada grama de minha energia para tentar estancar a sangria. Trabalhei sem parar, cobrando favores, movendo ativos, tentando ficar um passo à frente dele. Mas era como tentar remendar um navio afundando com as próprias mãos.
Para salvar o que podia, tive que comparecer a um jantar com delegados de alto escalão, homens que estavam na folha de pagamento do meu pai há anos. O ar na sala de jantar privada era denso com fumaça de charuto e o fedor da corrupção. Eles me olhavam com cobiça, seus olhos cheios de uma fome predatória, fazendo piadas grosseiras sobre o infortúnio da minha família.
"Não se preocupe, garotinha", um delegado corpulento arrastou as palavras, batendo na minha mão com sua palma suada. "Se você jogar suas cartas direito, podemos fazer seus problemas desaparecerem."
Trinquei os dentes, forçando um sorriso. Pela minha família, eu suportaria isso. Eu engoliria meu orgulho, riria de suas piadas patéticas e beberia seu uísque barato. Levantei meu copo, o líquido âmbar queimando um caminho pela minha garganta e atingindo meu estômago como um soco. A dor no meu abdômen se intensificou, uma agonia aguda e lancinante, mas eu não vacilei. Apenas sorri e servi outra dose.
De repente, a porta da sala se abriu. Caio estava lá, sua presença sugando todo o ar do ambiente. Ele olhou para mim, seus olhos percorrendo meu rosto corado e o copo na minha mão, um brilho de algo indecifrável em suas profundezas antes de desaparecer.
Ele ignorou os cumprimentos servis dos outros homens e caminhou diretamente para mim. Ele se inclinou, sua voz um sussurro baixo destinado apenas a mim.
"Se você quer que isso pare", ele murmurou, seu hálito quente contra minha orelha, "você sabe o que tem que fazer." Ele gesticulou para os delegados, que nos observavam com olhos gananciosos. "Beba com eles. Entretenha-os. Mostre a eles um bom momento. Um copo para cada dia que eu adiar a próxima batida."
Meu sangue gelou. Ele tinha visto minha humilhação. Ele tinha observado esses abutres me circulando e, em vez de ajudar, estava usando isso. Ele estava me forçando a me degradar, a me apresentar para esses homens nojentos, tudo pela pequena chance de comprar mais alguns dias para minha família.
Olhei em seus olhos frios e impiedosos, procurando por um traço do homem que eu pensei conhecer. Não havia nada. Apenas um estranho que usava seu rosto.
Minha voz era quase um sussurro, carregada de uma dor que ia muito além do físico. "Sua palavra ainda vale alguma coisa?"
Ele se endireitou, sua expressão inflexível. "Um copo, um dia. A escolha é sua, Analu."