Acordo sobressaltada, um barulho alto e ensurdecedor faz meu coração disparar, porque sei do que se trata. Um tiro. Olho para o relógio na mesa de cabeceira antiga ao lado da minha cama, são três da manhã, e a súbita urgência em sair dali me deixa aflita. No escuro, ouço vozes se alterando, e mesmo sabendo ser impossível ouvir aquela distância, tento acompanhar a movimentação dentro. Eu preciso sair daqui, ou, pelo menos, me esconder.
Quando abro a porta, vejo a Irmã Angela se aproximando, ela coloca o dedo em riste sobre os lábios e aponta para o roupão, simples porém confortável sobre o baú aos pés da minha cama. Em seguida, com urgência faz sinal para que eu a siga. Eu rezava todas as noites para que eles não me encontrassem, para que me esquecessem, mas a verdade é que em nosso mundo, praticamente tudo se passa de um para outro. O dinheiro, as propriedades, os problemas, o ódio, as promessas quebradas. E eu sou um fruto de uma promessa quebrada.
Quando deixei Nova York, dois anos atrás, sob a promessa que não seria eu a pagar pelo suposto erro de minha mãe, eu sabia, desde o primeiro desvio do motorista, até o embarque em um jato particular, que os Villani não a deixariam em paz. Sabia que eles me achariam, onde quer que eu estivesse, e mesmo aqui, dentro do Convento de Santa Lucia, em um vilarejo a cento e vinte quilômetros de Roma, eu certamente nunca estive segura.
Passo pelos corredores familiares, como se fosse a primeira vez, quase tropeçando em meus pés, estou tremendo de nervosismo e medo, era como se as vozes que se distanciavam a medida que eu descia escadas e me afastava em direção aos fundos da construção antiga, estivessem gravadas em meus pensamentos. O que eles diziam a Madre? Estavam ameaçando, era fato, e lágrimas correm pelo meu rosto enquanto apressamos o passo em direção a uma das celas, onde as noviças costumavam ficar em jejum, durante dias. Irmã Angela abriu um armário, e afastou pelo menos uma dezena de vestes religiosas, e em seguida deslizou a mão por baixo da prateleira mais alta, revelando um fundo falso, e então ela quebrou o silêncio.
– Giulia, entre – ela aponta o fundo escuro onde caberia uma pessoa confortavelmente, se era que poderia achar aquilo confortável – uma de nós virá buscá-la quando eles se forem.
Quase a retruquei falando que os Villani poderiam não deixá-las vivas para que alguém viesse, mas algo no tom de voz da irmã me disse que ela já sabia disso. Enquanto ela me explica sobre como abrir as travas por dentro, me aproximo e a abraço, e ela me abraça de volta, ambas sabemos que pode ser a última vez que vamos nos ver. Os Villani me procuravam, a muito tempo, mas isso não quer dizer que iriam me manter viva.
– Criança, temos pouco tempo, por favor entre, fique em silêncio não importa o que estiver acontecendo aqui fora – ela me entrega uma medalha do Arcanjo Miguel, e me deixa sem palavras, pois ela sempre a usava – reze, tenha fé, que eles não a encontrarão.
– Irmã, por favor, fique comigo – pedi pensando ouvir todo tipo de som se aproximando, quando na verdade era apenas o medo de ser pega gritando dentro de mim.
– Nós prometemos à Donatella – ela fala enquanto me guia gentilmente para o esconderijo – que a manteríamos em segurança. Aqui foi o último refúgio da sua mãe, e enquanto estiver nesse convento, estaremos entre você e os Villani.
O fundo se fecha a minha frente, e logo depois eu a ouço fechar as portas do armário, e então sou apenas eu, o silêncio que veio após os passos da Irmã Angela se afastarem, e a mais completa escuridão.
Não demorou para que eu fosse encontrada, e tenho que confessar que de dentro daquele armário, tremendo e tentando manter minha respiração controlada a fim de passar despercebida, não houve um momento em que achei que eles não me encontrariam. Ouvia minha mãe aos sussurros, ao logo dos anos em que tivemos que deixar tudo para trás, e mudar as pressas, as vezes sem destino, os Villani não paravam até que conseguirem seu objetivo. Quando eu era criança eu não entendia, mas quando o fundo falso do armário foi identificado, e a porta violentamente aberta a minha frente, pela primeira vez desde sua morte, eu senti medo.
– Signorina Cavaliere – disse o homem a minha frente – tem que vir comigo.
Para onde mais eu iria afinal? Não muito longe dali eu ouvia vozes, fora do convento mais tiros e mesmo que eu me recusasse, mesmo que eu protestasse, esperneasse, eu não sabia o que estava acontecendo. Se eu respondesse que não iria a lugar algum, ele poderia me jogar sobre seus ombros com facilidade, e levar-me para onde quisesse. Ou poderia pegar a arma que eu o vi colocando no coldre antes de dizer qualquer coisa quando me viu, e me acertar. A única certeza que eu tinha é que ele não iria me matar. Se essa fosse sua missão, ele já a teria cumprido.
– Signorina, per favore – ele estendeu a mão, enquanto outro homem entrava na cela, guardando o celular no bolso – precisamos ser rápidos.
– Levi, os russos – este parecia de mal humor, como se ali fosse o último lugar onde gostaria de estar – alguém estava nos seguindo, estão vindo às dezenas!
O homem que agora eu sei que se chama Levi, olha apreensivo em minha direção:
– Terá que vir comigo, ou cairá nas mãos deles, se eles não matarem todos antes!
– A Madre... – eu consegui falar – as irmãs, o que fizeram a elas?
– Estão todas bem – o outro homem disse ríspido – se se preocupa com elas, temos que sair daqui agora!
– Eu prometo que nada acontecerá a signorina – Levi insistiu, apontando a porta.
Senti a mão de Levi me guiando pelo corredor, indo para os fundos da construção antiga, meus pés descalços sobre o chão gelado e o ar da noite invadindo meus sentidos assim que a porta se abriu. Tiros foram ouvidos novamente, fazendo meu coração acelerar, e então me voltei rapidamente para o prédio, não era assim que eu deveria deixar o lugar que me acolheu por anos, depois da morte de minha mãe, senti um aperto em meu braço e o outro homem me arrastando para o carro, ao qual Levi dirigiria, me xingando em bom italiano!
– Entra, logo – ele me empurrou no assento de couro e em seguida afastou-se, indo de volta para a noite, enquanto Levi colocava o carro em movimento.
Ele acelerou, e eu vi homens falando em seus celulares, ordenando que deveriam manter os russos ocupados nas proximidades, e que a segurança em Província di Roma deveria dobrar, ao fundo a Madre e algumas freiras em frente a porta principal, olhavam em direção ao carro, ergui a mão para acenar, mas sabia que elas não conseguiriam ver, e foi então que ouvi Levi falar com alguém no viva voz.
– Estou a caminho, chefe.
– Estamos enviando reforços – disse a voz do outro lado da linha, que me fez cair na real, se Levi havia o chamado de chefe, era ele, o próprio Michael Villani falando – bom trabalho, Levi.
Em seguida, ele desligou. Não pude deixar de pensar em como era o tal Villani, pois apesar de saber exatamente o motivo de ser levada para ele, tentei ignorar sua existência até aquele momento. O maldito Villani, que havia mandado invadir o convento, atormentando a todas, com homens por todo lugar, vasculhando o local que era de paz e tranquilidade com sua presença inadequada lá! Senti um tremor percorrer meu corpo, de raiva e indignação, era por isso que minha mãe havia fugido, esse não é um mundo justo para uma mulher. Depois disso respiro fundo, e começo a ficar com medo real do que pode me acontecer, não posso chorar, Roma fica às poucas horas dali, e agora sei que ele está me esperando.
Só quero manter o mínimo de dignidade, mas o fato é que desde a hora que acordei entendo que o mínimo controle que ainda tinha sobre minha vida e decisões foi deixado para trás, no pequeno quarto que eu ocupava, de onde gostava de ver a paisagem campestre da janela, e acordar com o canto dos pássaros. Tudo havia ficado para trás, não havia trazido nada comigo. Objetos pessoais, documentos, as fotos com meus pais, as cartas de Nikolai. Diante das circunstâncias me pergunto agora se não deveria ter levado a sério quando Nik disse que deveria fugir com ele, sabia que se tivesse aceitado, ele daria um jeito, mas voltaria a mesma vida que tivera com a mãe durante anos, e não queria fugir para sempre.
Pensava se em Chicago, meu tio já estava sabendo o que havia acontecido. Joe Cavalieri, o irmão mais velho de minha mãe, que vinha por anos cobrindo rastros e providenciando recursos para nos manter longe das vistas da máfia, principalmente da siciliana, bem representada pelo nome Villani em Nova Iorque. A situação era preocupante, o conflito entre Villanis e Cavalieris já durava décadas, e eu aprendi muito cedo, que não precisava ter matado alguém para ter sangue em minhas mãos.
– Logo chegaremos a residência Villani, signorina – ouvi a voz de Levi, calma, e percebi que eu me olhava pelo espelho – sei que deve estar com medo, mas amanhã pela manhã voltará ao seu país.
– Foi o seu "chefe" quem decidiu isso, ou Joe Cavalieri?
– Foi o Sr. Villani, pensando no que seria melhor para você – ele voltou os olhos para a estrada, pouco movimentada a sua frente.
– Ele não tem ideia do que fez – falo encerrando o assunto, com a impressão que eu e o Sr. Villani não iriamos nos dar bem.
Se havia silêncio dentro do carro, minha cabeça parece estar prestes a explodir. Não consigo pensar em algo, sem lembrar de outra situação importante, ou conversa anterior, mensagem, carta ou telefonema, e eu preciso pelo menos saber como me comportar, o que dizer, já que logo estarei frente a frente com um dos homens mais perigosos da máfia. Minha mente fervilha com inúmeras possibilidades do que poderia acontecer quando encontrasse Michael Villani, e apesar de durante todo aquele tempo procurar saber o mínimo possível a seu respeito, e dos seus "negócios de família", cada vez que ouvia seu nome, as palavras impulsivo, implacável, cruel sempre o acompanhava.
– Chegamos – ouvi Levi, e olhei para grandes portões a frente do carro, a medida que nos aproximávamos. Ele baixa o vidro por um instante, na intenção de apressar o homem na guarita, e os que estavam perto dos portões, que são rapidamente abertos.
Passamos rapidamente entrando em um caminho que levava a frente de uma bela mansão, pouco iluminada, mas muito elegante. Levi estaciona em frente a entrada principal, e me pede um instante. Observo homens em lugares estratégicos, pensando que Michael Villani teve um imenso trabalho para que eu chegasse até ele, e logo Levi abre a porta do carro para que eu também saia do veículo. Ele aponta a porta, que se abre logo que chegamos perto. Um hall silencioso e muito bem decorado com seu piso bicolor clássico, e iluminação indireta, que levava a duas escadas curvando-se até o andar superior. A nossa frente, um grande salão, igualmente bem decorado e depois portas duplas de madeira fechadas, e como fomos naquela direção, logo tive o palpite que deveria ser algo como uma biblioteca ou escritório.
Quando Levi afastou as portas, que correram silenciosas vi um ambiente essencialmente masculino, alguns homens cercavam a mesa que estava ao fundo, e quando eles se retiraram pude ver a figura do homem a minha frente. Ele olhou para mim, deu uma baforada em seu charuto, colocando-o de lado sobre o cinzeiro em seguida. Olhou-me por um tempo, como se considerasse se deveria me dirigir a palavra, com seus olhos azuis impiedosos, até levantar-se e vir em minha direção. Michael Villani era muito diferente do que eu imaginava. O tipo atlético, sem exageros, os cabelos negros e a barba cerrada, ele realmente sabia causar uma boa primeira impressão, no meu caso, nem tão boa assim apesar de admitir que era de fato muito bonito. Vestindo roupas bem cortadas, a camisa branca com as mangas dobradas revelavam braços fortes, a calça e o colete ajustava-se perfeitamente a um corpo malhado. O rosto seria digno de capas de revista, o queixo quadrado, lábios bem desenhados, e um nariz perfeito. Nada a ver com o homem de beleza inexistente que eu havia criado em minha mente todo aquele tempo!
– Srta. Giulia Cavalieri – a voz dele soou baixa e propositalmente inexpressiva, Michael se chegou mais perto de mim, como se estivesse querendo ter uma visão melhor, e saber se havia algo mais além de pés descalços, um pudico traje de dormir e um simples roupão – devo dizer que estou surpreso.
Claro que estava! Perto dele, eu deveria parecer desleixada e bem, não que costumasse me vestir como as mulheres que ele estava habituado a conviver, mas certamente estaria mais apresentável.
– Eu sinto muito – disse, ele não desviava seu olhar e estava começando a me deixar preocupada – mas, não tive tempo de me arrumar, já que fui acordada a tiros, levada as pressas por Levi, e arrastada para um carro por aquele outro!
– Arrastada? – seu olhar estreitou-se na direção de Levi, querendo saber do que se tratava.
– Fabian, chefe – Levi respondeu imediatamente.
– Ele a arrastou para o carro?
– Paciência nunca foi o forte dele, senhor – ele pigarreou, e continuou – eu devo dizer que a signorina estava abalada, ela não teve culpa.
– Diga a Fabian para me procurar pela manhã – senti um calafrio, o tom de voz dele foi levemente incisivo, e ameaçador.
– Sim, senhor.
Então ele voltou sua atenção para mim novamente, mas eu não conseguia parar de pensar em como ele reagiria com Fabian. Em um reflexo me encolhi, ao perceber a mão direita de Michael alcançando uma mecha do meu cabelo, afastando-a do meu rosto.
– É mais bonita do que sua mãe.
– Conheceu minha mãe? – ele parecia muito certo do que dizia.
– Não pessoalmente – então ele apontou algo em cima da mesa atrás dele e pude ver que havia uma foto dela lá – as mulheres de sua família – ele fez uma pausa, como se estivesse lembrando de algo, depois continuou – eu ouvi dizer, que atraem vários admiradores.
Não respondo, com receio do rumo que aquela conversa poderia tomar, então ouço o barulho de saltos vindo em nossa direção, até entrar no cômodo e parar a alguns passos de onde estou. Por algum motivo, não acho uma boa ideia olhar para trás, como se esse simples movimento fosse me fazer perder algo importante a respeito do porque estávamos todos ali. Como ele não se dirigiu a mulher recém-chegada, permaneci em silêncio.
– Quantos anos tem, Giulia?
– Dezessete – falei, e vi um breve revirar de olhos do homem a minha frente – faço dezoito algumas semanas.
– Sabe porque está aqui?
– Porque um Villani foi rejeitado por minha mãe – eu cuspo as palavras, já estava farta daquela rixa e ressentimento.
– Porque Villanis e Cavalieris tem disputado cada beco de Nova Iorque e Chicago desde que a sua mãe rejeitou o meu pai – a voz dele era baixa, e ele avançou lentamente parando a centímetros de mim – cada clube, cada ponto, carregamento roubado, jogo ilegal, sempre há um Villani apontando a arma para um Cavalieri. Não foi só um acordo de casamento desfeito, mas provavelmente sua mãe não contou a história toda.
– Michael – ouço a voz da mulher, uma nota de inquietação predominando – não deveriam falar sobre isso agora.
– Minha mãe não amava o seu pai – saio em defesa dela novamente – ela nunca teve a opção de recusar aquele acordo. E seu pai superou, a prova é que aqui estamos, os filhos de Donatella e Erico, frente a frente.
Ele aproxima-se mais me segurando pela nuca, o cheiro do seu perfume, charuto e uísque são uma mistura curiosamente agradável, os dedos envolvendo-me como se estivessem se acomodando entre minha pele e cabelos, ouço sua voz baixa em meu ouvido:
– Uma puta, que traiu os seus, sem se importar com o enfrentamento, que começou lá mesmo na igreja – a pressão dos dedos dele ficou mais forte – e continuou no local onde seria a recepção. E se aproveitando da situação, homens do seu tio, Tony, nos roubaram, mataram soldados leais, arrastando a minha famiglia para a mesma lama onde Donatella chafurdava.
Dou um passo para trás quando, e é tarde demais quando percebo o estalo do tapa que desferi no rosto do Villani insolente que odiava minha família, os olhos dele pareciam cintilar de ódio, cruéis.
– Porque me trouxe aqui se odeia tanto os Cavalieri?
– Porque ao contrário da sua mãe, eu mantenho minha palavra – ele falou, sem alterar seu tom – seu tio Joe Cavaliere agora é o capo, e tanto ele quanto meu pai queriam acabar com essa rixa. Então, meses depois da morte da sua mãe, eles concordaram que a melhor maneira de dar o primeiro passo, é a união entre nossas famílias.
– Meu tio não pode ter concordado com isso!
– Partiremos amanhã para os Estados Unidos, e assim que chegarmos lá tenho uma reunião com ele – então ele respirou fundo, então olhou por cima do meu ombro – leve-a.
Já é tarde, e enquanto sirvo-me de mais uma dose de uísque penso na idiotice que havia feito ao prometer ao meu pai em seu leito de morte, algo de que eu certamente me arrependeria para o resto de minha vida. Era claro, tanto para os Villani, quanto para os Cavalieri que aquela desavença já havia durado tempo demais, e que talvez esse acordo funcionasse, e se as famílias não pudessem deixar no passado tudo o que havia acontecido, pelo menos que o embate cessasse, o que poderia gerar até mesmo alguma colaboração entre todos os envolvidos.
Ela é jovem demais. E insolente demais. Encarou-me como se estivesse acima do bem e do mal, e não vamos nos entender se me contrariar somente porque acha que está certa. Sei que Giulia deve agir assim por inúmeros motivos, toda a vida nas mãos de Donatella, que não pensava em nada a não ser em si mesma, guiando-a por uma infância e adolescência conturbada, sempre fugindo, escondendo-se. Porém, era a oportunidade que ela teria de viver em segurança, confortavelmente, e contanto que conseguisse manter aquela linda boquinha fechada, talvez haja uma chance de fazer isso dar certo.
Giulia em roupas caras e saltos deve fazer bem o papel de esposa jovem, e por mais que Carolyn me satisfaça, a ideia de que ela era intocada não me desagradava. Imagino que vivendo em uma região pacata sob a responsabilidade das freiras, sua criação fosse extremamente rígida, mas por experiência própria, sei que garotas assim costumam surpreender depois de alguns avanços. E se não fosse o caso, nada que uma amante não resolvesse.
Mal acabo de tomar meu drinque, vejo minha irmã, Linda, voltando, já em trajes de dormir, sob o robe azul marinho. Ela senta-se na poltrona próxima a minha.
– Ela dormiu – diz Linda, pensativa – pobre menina.
– Hum – eu sei que ela está me preparando um sermão, mas não estou disposto a ouvir. Giulia nasceu em um mundo onde não existem pobres meninas. E ela mesma podia falar sobre isso depois de ter me dado um tapa, que certamente não esquecerei.
– Foi duro com ela, irmão – Linda continua depois de uma pausa – Giulia está assustada, eu mesma me lembro de quando estava chegando a maioridade, nosso pai teve que usar de muita diplomacia para recusar propostas de casamento que me foram feitas.
– Ele foi sensato, com você – falei afrouxando a gravata – já para mim, deixou o fardo de um casamento arranjado.
– Acha que mamãe foi um fardo para ele? – ela pergunta, e eu mesmo já havia pensado a respeito.
– Nossa mãe foi um arranjo as pressas, como se isso pudesse fazer todos esquecerem o que havia acontecido. Não foi a primeira opção, e papai nunca a amou, porém, ele foi um bom marido.
Era verdade, ele tinha sido um bom pai, presente na medida do possível, se não havia amor entre eles, pelo menos eram companheiros, e o respeito era mútuo.
– Achou Giulia bonita? – olho de canto para Linda, que riu maliciosa.
– O que eu achei não faz diferença, depois de acertados alguns detalhes devemos oficializar assim que ela completar a maioridade – esperei que essa resposta fosse suficiente, mas ela se aprumou na poltrona.
– Quero lembrá-lo que não pode se aproveitar da situação enquanto ela estiver sob nosso teto – disse ela como se eu não soubesse.
– Não se preocupe, não tenho a mínima intenção de deitar-me com ela – levanto-me já sonolento – vou dormir, partiremos cedo.
Apesar das poucas horas de sono, acordo bem disposto depois de uma noite sem sonhos. Depois de uma ducha rápida, me visto sem pressa, e saindo do meu quarto ouço a voz de Linda, animada no final do corredor, certamente falando com Giulia. Confesso que fico curioso a respeito do assunto entre as duas, mas decido descer para uma xícara de café, enquanto leio o jornal. Já havia me entretido com as notícias do dia quando ouço novamente a voz de minha irmã, e quando olho em direção as duas, sou pego de surpresa.
Giulia está ao lado dela, e pela expressão mais tranquila, estou certo de que mesmo com a ajuda de um remédio para dormir, sua noite deve ter sido reparadora. Os cabelos loiros estão soltos, e ela usa um vestido azul escuro, justo, um pouco mais curto do que seria aceitável para quem iria se tornar minha esposa. Não deixo de reparar no que estava escondido pelos trapos religiosos da noite anterior, o corpo esguio, curvas nos lugares certos, um belo par de seios pesando dentro do decote, sem exageros. Me mantenho olhando para ela por mais tempo, pensando que Giulia Cavalieri não era o tipo de garota que eu me sentiria atraído, mas era bonita demais para ser ignorada.
Ela evita olhar em minha direção, como uma criança birrenta. Dobro o jornal e continuo olhando em sua direção enquanto ela ouve Linda falando sem parar sobre compras.
– Parece que os Cavalieri não costumam dizer bom dia – provoco, recebendo um olhar de desaprovação de Linda. As bochechas de Giulia assumem um tom rosado sob as sardas, e ela olha para mim, não havia reparado que seus olhos são verdes.
– Bom dia – disse, e logo depois recusou o café, preferindo chá.
– Eu estava falando com Giulia que é uma pena que tenhamos que partir tão rápido – Linda disse – ela está sem roupas!
– Para mim ela parece perfeitamente vestida – volto minha atenção ao jornal novamente.
– Sim, porque sou uma mulher prevenida e fui as compras ontem a tarde – ela continuou – serviram perfeitamente – ela pigarreou, tentando me fazer falar – Mike!
– Meu Deus, Linda, o que foi agora? – olho por cima do jornal, e em seguida para o relógio em meu pulso – se não se importa, não temos muito tempo, tome seu café, sim?
– Não acha que o vestido ficou perfeito? – as vezes acho que Linda não saiu do colegial, ela queria que eu falasse que Giulia estava bonita, e eu quero apenas que ela coma a maldita torrada porque tenho mais o que fazer.
Olho para Giulia cuidadosamente, chegando mais perto, ela é aquele tipo de mulher, que não importa quantas vezes você olhe, parece cada vez mais bela. Ela faz um beicinho contrariado, porque estou a poucos passos dela.
– Ficou – falo e termino de beber meu café, deixando a xícara ao lado da de Giulia – não se demore.
Deixamos a Itália em um voo particular, e mesmo depois de horas dentro de um avião, Giulia e eu não nos falamos, e isso persiste enquanto já nos Estados Unidos, Linda tenta intermediar algum tipo de conversa entre nós, ainda no aeroporto falo rapidamente com minha irmã sobre estar indo para um de nossos clubes, e a instruo para que mantenha sob vigilância constante, pelo menos até que eu e Joe Cavalieri acertemos os termos.
– Me mantenha atualizada, por favor – disse ela, enquanto olhamos a garota entrar no carro que as levará a casa de Linda.
– Receio que terá notícias minhas hoje – desconfio que Cavalieri já deve estar a minha espera, querendo levar a sobrinha para Chicago, e não tenho a intenção de entregá-la. Não até que ele me garanta o controle de parte dos cassinos, e do tráfico, e ainda assim, a garota ficará aos cuidados dos Villani, para que ele não mude de ideia e a ajude a sumir pelo mundo, como Tony fez com Donatella.
Dentro do carro, Levi está comigo, e acaba de ser comunicado que Joe Cavaliere está no Saint's, como eu já esperava, já que o local, antes de meu pai assumir, era da família dele, e talvez ele quisesse negociar isso também, o que eu jamais faria. Esperava ter um pouco mais de tempo, para alguns acertos rápidos com meus capitães, e uma palavrinha com Chris Villani, meu consieglieri, e tenho que adiar.
Quando o carro para a frente do Saint's, é imediatamente cercado, reconheço nossos soldados, e assim que saio do veículo, vejo Joe Cavalieri, postado na escadaria, com cara de poucos amigos, o chapéu fedora pendendo para o lado direito. Percebo seu homens próximos também e concluo que Fabian deve ter chegado sem maiores problemas a casa de Linda, Cavalieri provavelmente achava que Giulia estaria comigo.
– Onde está ela? – perguntou assim que ofereci minha mão para cumprimentá-lo, apertando-a, esquecendo-se que eu poderia dominá-lo, derrubando-o ali mesmo.
– Em um local seguro – falo baixo, e em seguida passo por ele, que me segue. Olho em volta calmamente e então o encaro – mande-os embora – ele ri, cínico – não entrará aqui se não o fizer.
Percebo a irritação de Joe Cavalieri, e sei muito bem que ele não é o tipo que lida bem com ordens, ainda mais vindo de alguém considerado muito jovem para ter o mesmo título que ele. Cavaliere chama discretamente um deles, que acena positivamente com a cabeça, e em seguida os homens se retiram. Aponto para a porta de vidro a nossa frente e entramos no clube, no hall vazio, apenas o som de nossos passos em direção do elevador.
Quando a porta do elevador se abre no quinto e ultimo andar do antigo prédio, onde desde que meu pai havia assumido os negócios, costumava se reunir, fosse com aliados, parceiros, sócios, e até mesmo resolver algum impasse com cartéis, gangues e outras facções. Além do primeiro e principal andar, onde há shows e as mesas de jogos mais concorridas pelos frequentadores, há um andar inteiro de jogos "executivos", onde acontecem as maiores apostas, e apenas jogadores convidados podem participar.
– Fez um belo trabalho aqui – disse ele, olhando para o escritório, e ele tinha razão, aquele prédio era uma espelunca, e meu pai o havia transformado em um dos clubes mais luxuosos do país, e ali mesmo, onde a vista de Nova Iorque em um belo anoitecer, discutiremos o destino de Villanis e Cavalieris.
– Nada comparado com o que era antes do Villani – disse, e em seguida servi doses de uísque para nós.
– Mesmo achando de péssimo tom esse seu comentário sou obrigado a concordar – Cavalieri sentou-se a cadeira confortável e eu em meu lugar, atrás da mesa, ambos bebemos em silêncio e logo depois ele continua – agora vamos ao que interessa, Villani – seu rosto assumiu uma expressão sombria – onde está Giulia?
– Está segura, como já lhe disse – falo, descontraído.
– Vai me entregar a menina, Villani, ou teremos problemas – a voz era de quem não aceitaria qualquer recusa, certamente faria muitos levariam isso em consideração, não eu.
– De jeito nenhum.
– Vamos, garoto, não seja tolo como seu pai foi – ele parecia não ter noção do perigo que corria falando de Erico Villani – vou localizar minha sobrinha, e vocês pagarão um preço altíssimo se algo acontecer a ela.
– O que acha que fiz com ela? Além de salvá-la das mãos dos russos e trazê-la de volta em segurança – relaxo, e bebo mais um gole – você poderá vê-la, assim que chegarmos a um acordo – faço uma pausa – mas não vai levá-la a lugar nenhum.
Chegando a bela residência onde vive Linda Villani, logo noto a presença de segurança por toda a parte, como na mansão em Província di Roma, o lugar é imenso. Fabian abre a porta do carro para mim, enquanto Linda sai pela outra porta falando com alguém ao celular. Fabian Schiavo é minha escolta pessoal, e pela maneira que vem se comportando desde que saímos da Itália, Michael deve tê-lo ameaçado de morte por ter me jogado no banco do carro enquanto deixávamos o convento. O homem está me tratando como se eu fosse feita de cristal, abrindo portas, cuidando até mesmo se subo ou desço alguma escada, e apesar de ter achado divertido nas primeiras vezes, está começando a me irritar.
Linda me trata com muita gentileza, apesar de não confiar nem mesmo em minha sombra depois de tudo, me sinto bem na presença dela. Ela sorri calorosamente enquanto entramos na casa, passando por um pequeno hall e indo em seguinte para uma sala confortável de onde posso ver outros ambientes. Em um deles uma garotinha vestida em seu pijama de unicórnio nota nossa presença e em seguida corre para minha anfitriã.
– Mamãe! – diz ela, genuinamente feliz em ver Linda, que a pega no colo quase chorando – você voltou!
– Eu não disse a você que seria rápido? – ela olhava para a menina como se não a visse a semanas – Senti tanto a sua falta, minha princesa!
– Eu também – ela abraçou a mãe com força, beijando seu rosto em seguida – trouxe presentes?
Aprecio a conversa delas, como Linda me disse, Morgan é esperta e fala o tempo todo, um raio de sol! Então a menina se vira para mim, e me olha como se estivesse decidindo se gosta ou não da minha presença.
– Quem é ela, mamãe?
– Essa moça bonita é Giulia, uma amiga da mamãe – disse Linda encorajando a menina a chegar mais perto de mim – ela ficará uns dias conosco.
– Olá, Morgan – me abaixo para ficar da mesma altura dela, e ela sorri – sua mãe me mostrou fotos suas, mas você é ainda mais linda pessoalmente!
– Obrigada! – ela diz, e olha para Linda – Podemos ficar com ela?
– Morgan! – Linda a repreende, mas eu acabo rindo da pergunta – desculpa, Giulia!
– Ela é linda, mamãe, e você e a vovó sempre dizem que tio Michael precisa de uma namorada – Morgan fala, e sinto que meus rosto fica vermelho.
– Seu tio Michael, hum... – Linda tenta mudar de assunto – querida, o que quer pedir para o jantar?
– Qualquer coisa? – a menina perguntou sorrindo – Pizza!
– Ótimo! – ela concorda – Você vai escolhendo os sabores com a Tina – ela indicou a babá da menina que estava perto – enquanto eu acomodo Giulia no quarto de hóspedes!
Depois de prometer a menina que não demoraria, subimos para o andar superior, enquanto Linda me fala sobre aquela casa ter sido ocupada por seu irmão antes de se tornar capo, e que o quarto dele seria o meu nos próximos dias.
– Hum, ele não vai se incomodar com isso?
– Não se preocupe, ele é um irmão desnaturado, quase não vem aqui – ela ri – e essa não é mais a casa dele. Sabe, eu me mudei para cá por insistência dele, depois que Freddy morreu – ela havia me contado sobre a morte do marido durante a viagem – Michael ainda morava aqui.
– Vocês parecem se dar muito bem – digo, enquanto entramos no quarto, tons mais escuros predominam.
– Sim – ela fala, enquanto abre a porta do closet e indica a do banheiro – pode ficar à vontade – tanto ela quanto eu ouvimos a voz de Morgan pelo corredor, procurando pela mãe.
– Linda, eu não quero atrapalhar, posso me virar por aqui – disse, pois a menina precisa da mãe – vou tomar uma ducha e desço em seguida.
Depois que ela sai, fecho a porta, respiro profundamente e pela primeira vez no dia sinto meu corpo relaxando, meus ombros doem, meus pés estão me matando nesse salto, e silêncio e ao menos alguns minutos sem notar que alguém está me vigiando é tudo o que eu mais desejo! Tiro os saltos, e uma sensação de alívio percorre meus pés, tornozelos e panturrilhas, não eram tão altos quanto os que Linda havia sugerido que eu deveria usar, mas para mim eram altos o suficiente para considerá-los uma tortura.
Vou até o closet e reparo que há algumas peças de roupas lá, poucas, mas que devem servir até que como disse Linda, fossemos autorizadas a sair de casa. A anfitriã está animada para me levar as compras, e eu não tenho dúvidas que fará disso um evento. Além das minhas roupas, reparo que alguns ternos, sapatos, acessórios masculinos ocupam uma pequena parte do closet enquanto estou me despindo e paro imediatamente. Aquele quarto todo parecia ter a presença de Michael Villani, como se ele estivesse bem aqui, me olhando com aqueles olhos impiedosos. Termino de me despir no banheiro amplo e claro, ansiosa por uma boa ducha, enquanto os acontecimentos desde que fui levada pelos Villani.
Foi tudo tão rápido que chego a me perguntar se é real, ou se é apenas um sonho ruim do qual não consigo acordar, mas sou trazida a realidade quando sinto que minha mão ainda dói depois do tapa em Michael. Respiro fundo, sentindo meus olhos lacrimejando ao lembrar da maneira grosseira como ele falou de minha mãe. Pensar que as palavras dele era exatamente o que as pessoas falam a respeito de Donatella aperta meu coração, e mais ainda o fato de que naquele momento ele e meu tio devem estar decidindo meu futuro e me negociando.
Não foi por isso que minha mãe fugiu, afinal? Para poder viver sua própria vida, sem que a máfia decidisse por ela, e aqui estou eu, prestes a vivenciar tudo do que ela havia fugido a vida inteira. Gostaria de falar com meu tio, ele é um homem poderoso e temido, tanto ou mais que Michael Villani, e minha mãe sempre confiou nele, não quero acreditar que ele me entregará a um casamento arranjado com um homem como aquele.
Quando volto para o quarto, não sinto fome, mas a vida com Donatella ensinou-me que quando estamos em desvantagem, criar problemas não é uma boa estratégia, e estou certa de que tenho tempo para pensar em uma forma de escapar daquele acordo. Coloco um vestido simples e um tênis branco, e logo, desço para o jantar.
Morgan é uma garotinha adorável, e faz questão de se sentar ao meu lado, contando-me sobre a escola, suas bonecas com quem ela pretende organizar um chá no dia seguinte, para o qual eu e Linda seremos convidadas. A risada da menina é contagiante e sua companhia me faz esquecer por um momento do real motivo de estar em sua casa. Depois do jantar, Linda deixa que a filha assista ao desenho que ela tanto gosta por mais alguns minutos enquanto me oferece uma taça de espumante.
– Não contarei a ninguém – ela diz, piscando para mim e servindo-me uma taça.
A bebida é suave e falamos sobre Joe Cavalieri, meu tio. Linda aparentemente não tem queixas a seu respeito, e me revela que no dia seguinte ele virá, em companhia de Michael para me ver. Fico feliz com a notícia, mas o fato de que Michael também virá frustra meus planos de conversar a sós com meu tio, e tentar convencê-lo a não aceitar aquele arranjo. Eu preciso de tempo, para pensar em uma forma de escapar daquela casa, e da vigilância constante que me foi imposta.
Logo, Morgan dorme no colo da mãe que sobe para colocá-la na cama enquanto eu permaneço ainda por um tempo, bebendo o que Linda disse ser chamado pelo irmão de "bebida para mulheres". Não posso evitar um revirar do olhos, assim como já havia percebido que as roupas escolhidas para mim, eram para agradá-lo, e que parecia que não importava a opinião alheia, a dele sempre permanecia.
Volto para o quarto sonolenta, o que é bom, pois ao menos posso ignorar a sensação de que aquele quarto me parece uma extensão do controle de Michael Villani. Tomo um analgésico pois a dor de cabeça constante que estou sentindo desde cedo parece ter ficado mais forte, e logo vou para a cama.