Olivia - Ponto de Vista
Há um ano, Olivia vivia sob o mesmo teto que Damon, o alfa da Alcatéia Lunar. Há um ano, ela tentava, em vão, entender o homem com quem havia sido forçada a se unir. Estava sendo moldada para ser Luna, guiada pela própria mãe dele, como se tudo fosse certo, como se aquele destino já tivesse sido escrito antes que ela pudesse ter escolha.
Mas Damon a odiava.
Ele odiava sua presença, odiava estar marcado com ela, odiava cada gesto que ela fazia, por mais silencioso ou cuidadoso que fosse. E, acima de tudo, ele exigia uma resposta que ela não podia dar.
"Por que você fez isso comigo?", ele perguntava com raiva nos olhos, como se ela tivesse arquitetado tudo.
Mas Olivia não sabia.
Naquela noite, a primeira coisa que ela se lembrava era de acordar. O quarto de hotel estava em silêncio, e o sol já invadia as cortinas. Ela sentia dores no corpo - entre as coxas, nos pulsos, nos tornozelos. Marcas roxas, sinais de cordas. E nada fazia sentido.
Ela tentou se recompor, mas o pânico tomou conta quando a porta se abriu abruptamente e seu pai entrou, frenético. Luiz parecia fora de si ao vê-la naquele estado. Seus olhos passaram dela para Damon, que ainda dormia na cama.
"Você marcou a minha filha?!", ele gritou, fazendo Damon despertar num sobressalto. O alfa a olhou com confusão. Passou a mão pelo próprio pescoço e, ao sentir a marca, sua expressão mudou. Raiva. Incredulidade.
"O que você fez comigo?", ele rugiu.
Olivia apenas chorou. Ela não sabia. Não lembrava. Era como se alguém tivesse apagado sua memória ou ela tivesse sido arrancada.
Luiz continuava gritando. Damon mandou que ele se calasse. Mas seu pai não abaixou a cabeça, nem diante do futuro alfa. Continuou a exigir responsabilidade, a clamar por honra, por justiça.
Foi quando Damon, num impulso de fúria, socou Luiz no rosto. Olivia gritou, correu até o pai, ajudando-o a se levantar.
"Eu vou cuidar disso, filha. Vou falar com o Alfa Richard. Vamos resolver isso", Luiz disse com os olhos cheios de raiva e dor.
E foi assim que tudo começou.
O escritório do Alfa Richard era amplo, revestido em madeira escura e com o brasão da Alcatéia Lunar entalhado na parede atrás da grande mesa. O silêncio ali era quase tão sufocante quanto os olhares que recaíam sobre Olivia. Quando ela se sentou, uma pontada aguda a fez se encolher discretamente. Richard percebeu.
- Chame o médico da matilha - ordenou a um dos guardas, com a voz firme.
Damon permaneceu parado, de braços cruzados, encostado na parede. Seu olhar pousava sobre Olivia com uma frieza que cortava mais do que qualquer dor física. Ele já havia contado sua versão: não se lembrava de nada, apenas que acordou marcado, ao lado dela. E não havia consentido.
Quando Richard virou-se para Olivia, seus olhos carregavam mais paciência que julgamento.
- E você? O que tem a dizer?
Ela respirou fundo, lutando para manter a voz firme.
- Eu... também não me lembro. Acordei confusa, com dor... e vi meu pai entrando no quarto. Só isso. Juro que não sei o que aconteceu naquela noite.
Luiz a olhou com o cenho franzido, surpreso.
- Olivia... você estava desaparecida. Achamos que tinha sido sequestrada! Foram dias de agonia.
- Quatro dias, para ser exato - corrigiu o Alfa Richard, recostando-se na cadeira. - Damon e Jeremiah lideraram as buscas, dia e noite. A matilha toda ajudou. E você estava a poucos quilômetros daqui, em um hotel humano.
Luiz bufou, claramente descontente.
- Por isso não a encontraram. Estavam procurando no lugar errado. Damon sabia onde ela estava desde o início, é óbvio.
- Eu não a levei! - rugiu Damon, dando um passo à frente, a voz carregada de raiva.
Richard ergueu a mão, pedindo silêncio.
- Chega. Gritar não vai ajudar. Precisamos de respostas, e nenhuma está aqui ainda.
- Mas a responsabilidade está! - rebateu Luiz, endurecendo a voz. - Ele marcou minha filha. Ele a possuiu. Querendo ou não, ela é sua companheira agora. Você vai aceitá-la, Damon, ou eu mesmo irei ao Conselho dos Alfas. Você será punido.
Damon soltou uma risada amarga.
- Isso é ridículo. Eu não fiz nada. Nenhum de nós sabe o que aconteceu!
A porta se abriu com força, interrompendo o confronto. Taylor, a madrasta de Olivia, entrou chorando, quase tropeçando em si mesma, seguida de perto pelo médico da matilha. A presença dela surpreendeu Olivia, nunca se deram bem, a convivência era fria e distante. Mas naquele momento, Taylor parecia sinceramente abalada.
Taylor não era exatamente uma madrasta cruel, nunca foi. Mas desde os doze anos, Olivia simplesmente não conseguia se aproximar dela. Conviviam sob o mesmo teto com respeito silencioso e cordialidade forçada, sem afeto, sem trocas reais. Apenas coexistiam.
Por isso, vê-la entrar no escritório chorando, correndo em sua direção, foi tão inesperado quanto confuso.
- Quem fez isso com a minha garotinha? - Taylor perguntou, a voz embargada, abraçando Olivia com força.
Foi ali, naquele abraço tão fora do comum, que a dor no peito da jovem se somou à física. Taylor a envolvia como se, pela primeira vez, sentisse algo sincero. Como se, por um breve instante, a distância entre as duas tivesse desaparecido.
- Vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Houve gritos atrás delas. Damon e Luiz voltaram a se desentender, e o Alfa Richard já se mostrava impaciente. O médico da matilha, um homem de fala baixa e olhos atentos, se aproximou de Olivia com delicadeza.
- Precisamos avaliá-la - disse ele. - O banheiro privativo do alfa está disponível. Vamos, por favor.
Olivia assentiu com um gesto tímido. Taylor a acompanhou até a porta, mas ficou do lado de fora, respeitando o espaço. O banheiro era espaçoso e bem iluminado, com toalhas limpas e cheiro de sabão neutro. Ela se sentou sobre o banco acolchoado, e o médico começou o exame.
Suas mãos eram experientes e cuidadosas, mas nem mesmo isso conseguiu impedir o constrangimento. Ele avaliou os hematomas, verificou seu pulso, seus olhos, seus sinais vitais. Depois de um tempo, soltou um suspiro pesado.
- Me desculpe pelo seu estado atual, Olivia... - disse em voz baixa. - Nem eu posso entender completamente o que aconteceu aqui. Mas isso não foi culpa sua. E nem minha.
Ela mordeu o lábio, tentando segurar as lágrimas. Mas os olhos se encheram contra sua vontade.
Nem mesmo Damon lhe pedira desculpas.
Nem um gesto.
Nem uma palavra.
Como se ela fosse apenas uma consequência, um erro inconveniente, uma obrigação que ele rejeitava com nojo.
- Seu lobo é jovem, mas saudável - continuou o médico, oferecendo um comprimido. - Com este analgésico, você conseguirá descansar. Sua cura será rápida. Em dois ou três dias, seu corpo vai se regenerar. Mas... se sentir dor emocional, não tente esconder. Essas feridas levam mais tempo.
Olivia engoliu em silêncio, sem saber se o agradecia ou se chorava ali mesmo.
A decisão veio no fim da manhã, como uma sentença: Damon teria que honrar sua marca.
Mesmo sem provas, sem lembranças, sem desejo, o Alfa Richard foi firme. Havia uma marca. Havia uma união. E acima de tudo, havia o escândalo prestes a estourar se Luiz levasse o caso ao Conselho dos Alfas.
Damon não contestou.
Não porque aceitasse. Mas porque não podia arcar com as consequências de uma denúncia.
Naquela tarde, Olivia foi transferida para o quarto dele. Uma mudança simbólica e cruel. Damon não estava presente, o que de certa forma, era um alívio. O cômodo era amplo, frio e impessoal, como o próprio alfa. Ela passou a noite inteira acordada, os olhos fixos no teto, sem conseguir dormir no espaço que agora deveria chamar de lar.
Meses haviam se passado, Olivia estava sentada na varanda, com uma xícara entre as mãos. O chá esfriava lentamente, ignorado. Como ela.
Estava sozinha. Como sempre.
Não iria para a aula de Luna hoje. Não fazia mais sentido. Por que aprender a ser a companheira de um alfa que a desprezava? Que sequer fingia respeito?
Na noite anterior, havia pedido mais uma vez para que ele a rejeitasse. Era a terceira vez naquele ano. E, mais uma vez, Damon recusou.
Não por medo de feri-la.
Não por arrependimento.
Mas por puro instinto de autopreservação.
Naquele exato momento, ele conversava com seu pai, Alfa Richard, tentando argumentar, novamente, sobre como aquela união era absurda. Mas o mais velho já havia deixado claro:
- Luiz está à espreita. Se você rejeitá-la agora, ele vai ao Conselho. E você será punido. Expulso. Talvez até destituído da liderança.
Damon havia voltado da conversa com o semblante tenso. Passou por Olivia sem sequer olhá-la. Apenas jogou as palavras no ar como se cuspisse pedras:
- Não vou te rejeitar. Não agora. Mas exijo que fale o que aconteceu naquela noite.
Ela apenas abaixou os olhos, engolindo o choro que ameaçava subir.
- Eu não sei - respondeu pela milésima vez. - Juro que não sei.
A ausência de memória era um fardo pesado demais. Damon a considerava culpada por algo que ela mal compreendia. Acreditava que ela o manipulou, ou que planejou tudo para prendê-lo. Mas Olivia mal conseguia se prender em si mesma.
Durante o último ano, ela se afundou nos estudos. Era sua única escapatória. Passava os dias em livros, nas aulas com a mãe de Damon, que a tratava com educação cortante. Sonhava com o dia em que receberia a permissão de se mudar para o campus. Lá, talvez pudesse respirar.
Mas nem isso era simples.
Ela sabia que Damon encontraria alguma loba para aquecer sua cama no segundo em que deixasse a casa. Mas Olivia nutria, lá no fundo, uma esperança amarga: se ele se deitasse com outra, marcasse ou unisse a alma a alguém além dela, ela teria o direito de rejeitá-lo. Seria sua única saída.
Mesmo que doesse.
Mesmo que a rasgasse por dentro.
Ela queria ser livre. E essa era a única brecha.
Seis meses se passaram. Seis longos meses em que ela se manteve quieta, submissa, estudando, suportando o peso de um nome que não pediu e o olhar indiferente de um homem que a odiava.
Naquela noite, Damon entrou em seu quarto como uma tempestade. A porta bateu contra a parede com tanta força que fez Olivia derrubar a xícara de chá. A porcelana se partiu no chão, mas ela nem teve tempo de reagir.
A aura dele preencheu o ambiente como um manto sufocante.
Forte. Fria. Impiedosa.
Seu lobo, seu instinto, a fez reagir antes mesmo que ela pudesse pensar. Olivia expôs o pescoço, abaixando a cabeça em sinal de submissão. Mas aquilo não foi suficiente.
- Por que você fez isso comigo?! - ele gritou, a voz reverberando como um trovão.
A pressão sobre ela aumentou. Sua loba, Sam, choramingou dentro de si, encolhida em dor. O corpo de Olivia cedeu, os joelhos bateram no chão com um impacto seco, e a dor se espalhou por cada músculo como uma lâmina.
- Eu... eu não fiz! - ela soluçou, mal conseguindo respirar.
- Você fez! - Damon rugiu, a fúria irradiando dele como calor de incêndio.
Ele empurrou mais de sua aura sobre ela. O comando alfa invadiu seus ossos, suas veias e sua mente. O chão parecia sugar sua alma.
- Eu ordeno que me diga por que fez isso comigo!
Era como ondas sucessivas de dor. Cada ordem era um choque. Cada palavra, uma punição. Olivia estava completamente prostrada, o rosto colado ao chão, as mãos tremendo. As lágrimas escorriam incontrolavelmente. Seu nariz sangrava, sua boca também. O gosto do sangue era amargo, metálico. A cabeça latejava como se fosse explodir. Sam uivava dentro dela, desfeita em sofrimento, apertada numa bola de medo e impotência.
- Damon, eu não fiz isso com você... eu juro...
Ela nunca havia mentido. E ele sabia disso. A ordem alfa impedia que ela mentisse. E mesmo assim ele insistia, como se a tortura fosse uma forma de vingança por algo que nem ele compreendia.
Não foi a primeira vez.
Mas foi a pior.
Dessa vez, ela sentiu que ele poderia matá-la.
A porta se abriu com um estrondo.
- Damon, pare! - gritou Jereh, o Beta da alcatéia.
Ele entrou no quarto como uma flecha, atravessando o espaço entre eles num segundo. Seus olhos estavam arregalados, cheios de urgência e medo.
- Ela é sua companheira, porra! Você vai matá-la!
E só então Damon recuou. Sua aura foi puxada de volta num rompante. Ele parou, respirando com raiva, olhando para o chão como se fosse o inimigo.
Sem dizer mais nada, saiu, batendo a porta atrás de si.
Olivia permaneceu onde estava. O corpo todo tremia. Não conseguia mover um músculo sequer.
Jereh correu até ela e a pegou no colo com todo o cuidado do mundo, como quem recolhe os cacos de algo frágil. O toque dele era quente, seguro. Ela se encolheu em seus braços, soluçando baixinho.
- Shh... eu tô aqui. - ele sussurrou. - Ele não queria fazer isso. Ele tá confuso, Olivia. Você sabe.
Ela fechou os olhos com força, sentindo o gosto do sangue ainda fresco na garganta.
Confuso?
Quantas vezes ele precisava quase matá-la para "entender"?
Confuso não era.
Era cruel.
E Jereh, por mais que tentasse protegê-la, não podia consertar o que já estava destruído.
Aquele tinha sido o dia.
O último.
A última vez que Olivia havia falado com Damon. A última vez que o olhara nos olhos. Desde então, ele simplesmente... desapareceu. Não fisicamente, claro, continuava na casa, na alcatéia, liderando como sempre. Mas, para ela, era como se ele não existisse.
Ou como se ela tivesse se tornado invisível.
Ele não pediu desculpas.
Nem naquela noite.
Nem no dia seguinte.
Nem nunca.
Mas ela também não esperava mais isso dele.
Damon queria respostas. Exigia uma verdade que ela não tinha. Algo que nem mesmo Sam, sua loba, conseguia alcançar dentro da mente em branco de Olivia. Era um vazio cruel, uma noite apagada por completo, como se alguém tivesse arrancado aquele pedaço da alma dela com garras afiadas.
Então ela fez o que sempre fazia: recuou.
Inscreveu-se na universidade, longe da alcatéia, longe de tudo que a lembrasse dele - e esperava. A cada notificação no celular, seu coração acelerava, torcendo para ver aquela resposta. A liberdade estava a poucos passos.
Sempre que podia, se afastava de Damon. O evitava nos corredores. Nos jantares. Nos encontros obrigatórios da matilha. Passavam um pelo outro como estranhos. Mas nem o silêncio era leve, carregava um peso, uma ausência que machucava mais do que qualquer grito.
Ela não conseguia odiá-lo.
E isso era o mais difícil.
Damon nunca havia encostado nela fisicamente. Nunca a machucou com as mãos, mas sim com a ausência, com o desprezo, com a brutalidade do que fazia usando sua aura. Era um prisioneiro da mesma situação que ela. Ambos marcados por algo que não escolheram. Mas, enquanto ele odiava o laço, Olivia... só queria entender.
Queria lembrar.
Queria se libertar.
Um mês depois daquela noite em que pensou que ia morrer, Olivia acordou sentindo algo diferente.
Frio... e quente.
Estava deitada em seu canto habitual da cama, o mais distante possível, na beirada, como sempre fazia. Tinha virado isso: um hábito. Um escudo.
Mas quando abriu os olhos naquela manhã, ele estava lá. Damon.
Perto demais.
De costas, mas perto. Dormindo. No mesmo colchão, dividido apenas pelo silêncio e por um abismo.
Era estranho.
Ele nunca dormia ao lado dela. Desde o início, deixava o quarto depois que o sol se punha, voltava tarde, ou nem voltava. Quando voltava, o cheiro de outras lobas o acompanhava. E Olivia fingia que não sentia.
Mas agora... ele estava ali.
A respiração dele era ritmada. Tranquila. O peito subia e descia devagar. Por um instante, ela se perguntou se era real. Se não estava sonhando.
Ficou imóvel.
Não queria acordá-lo. Não queria que ele visse o susto em seu rosto. Muito menos as perguntas nos olhos.
Ela virou o rosto para a janela, puxou o cobertor devagar, sem fazer barulho, e fechou os olhos de novo, fingindo dormir.
Mas seu peito doía.
Não de medo.
Dessa vez... era outra coisa.
Faltavam três meses para seu aniversário de dezoito anos.
Mas Olivia não se importava.
Não tinha participado de nenhum planejamento. Nenhuma escolha de tema, lista de convidados ou ideia para o vestido. A festa parecia pertencer a outra pessoa, alguém que ela não era mais. Talvez alguém que nunca tinha sido.
Nos últimos vinte e oito dias, Olivia não falou com ninguém.
Não com Taylor.
Não com a professora de etiqueta lunar.
Muito menos com Damon.
Sabia que estavam começando a cochichar. A observá-la como quem observa um animal ferido. Como se esperassem que ela explodisse. Ou sumisse.
Mas ela não tinha mais forças para se importar.
Estava deitada na cama, não por preguiça, mas por exaustão silenciosa. Tinha levantado apenas para olhar pela janela e observar os pássaros do outro lado do vidro. Eles dançavam no céu com uma liberdade que doía nos olhos. Como seria voar para longe de tudo aquilo?
O barulho da porta se abrindo não a fez virar.
Ela já sabia quem era.
Damon entrou com seus passos decididos e irritadiços, como se sempre estivesse prestes a explodir. Estava mais uma vez impaciente. Com ela. Com a situação. Com o silêncio que preenchia o quarto há meses.
- O que há de errado com você agora? - ele soltou, a voz carregada de frustração.
Olivia não respondeu.
Nem olhou para ele.
A pergunta pairou no ar, seca, sem esperança de resposta. Ele provavelmente já sabia que ela não diria nada. Não diziam nada um ao outro desde o que aconteceu. E se antes o silêncio era uma escolha... agora era a única coisa que restava.
Damon bufou. Afastou uma cadeira. Mexeu em alguns papéis.
E então, um cartão caiu na cama.
Era o cartão de identidade da matilha dele. O brasão prateado reluzia no canto, e o nome "Damon Blackthorn" vinha logo abaixo, frio e imponente. O cartão caiu ao lado do rosto de Olivia, que sequer se mexeu, apenas moveu os olhos, brevemente. E voltou a olhar os pássaros.
Eles pareciam felizes.
Ela não.
- Vai comprar um vestido - ele disse, seco. - A minha mãe tá enchendo o saco com isso.
A ordem foi lançada como quem joga uma pedra num lago calmo, sem se importar com os círculos que ela gera. Damon não olhou para ela.
Por que ele tinha deixado o cartão dele ali?
Achava que ela pegaria e gastaria o dinheiro dele?
Olivia desviou o olhar da janela para o retângulo prateado ao seu lado, como se fosse algo sujo. Um presente irônico, vindo de quem nunca a enxergou de verdade.
Ele parecia esquecer que ela já tinha um cartão. Um da própria matilha. Um que ele mesmo lhe deu uma semana depois de tê-la forçado a mudar para ali.
Ela nunca o usou.
Assim como nunca usou nenhuma das roupas que a mãe dele comprou. Estavam todas penduradas no closet, alinhadas, intocadas, ainda com as etiquetas.
Ela não queria o dinheiro dele.
Nunca quis.
Ela só queria... sair dali.
Seus olhos voltaram para o céu, para os pássaros que voavam soltos.
Tão livres.
Um pensamento deslizou em sua mente como seda cortando carne. Suave, perigoso, definitivo.
Sem pensar, levantou-se da cama. A mesma cama onde dormia todos os dias ao lado de um estranho que o destino havia lhe jogado. Caminhou até a varanda. O vento tocava sua pele com gentileza, o único toque que não a fazia encolher.
Lá embaixo, o mundo seguia. Longe do controle. Longe das regras.
Damon, lá de dentro, ouviu o barulho da porta de vidro. A voz dele ecoou abafada, vindo do banheiro:
- O que você está fazendo?
Ela não respondeu.
Sabia o que ele queria dizer. Não era preocupação com ela. Era medo de que estivesse nua na varanda, para todos verem. Porque ele não gostava disso. Porque ele mandava.
Mas Olivia não se importava.
Ela já não se importava com nada.
Colocou a mão na grade.
Sentiu o metal frio.
Subiu.
E então... pulou.
Sem pensar. Sem hesitar.
Apenas... voou.
Ouviu seu nome ser gritado.
- OLIVIA!!!
Era Damon. Ele parecia horrorizado.
Mas era tarde demais.
No ar, sentiu o vento açoitando seu rosto.
O coração acelerado.
A dor de estar viva e presa desaparecendo.
"Livre."
Ela sussurrou, com os olhos fechados, como uma prece.
Por um instante, pensou que poderia mesmo voar.
Mas sua loba, Sam, entrou em pânico. Sentiu o instinto animal lutar por ela. A dor da transformação tentando vir antes do impacto, uma última tentativa de sobreviver.
Um uivo de dor ecoou dentro de si.
Depois... escuridão.
A abençoada inconsciência a tomou.
Olivia acordou devagar.
O teto branco. O zumbido das máquinas. O lençol áspero demais.
Estava no hospital da matilha.
Sentia o corpo pesado, como se todos os ossos tivessem virado pedra. Mas o pior era o vazio.
Sam.
Ela chamou sua loba.
Nada respondeu.
Era como se tivesse sido arrancada de si mesma. Um eco oco onde antes existia algo quente e feroz. Agora, restava só... ela.
Sozinha.
Não precisava abrir os olhos para saber.
Ele estava ali.
Damon.
Seu cheiro preenchia o quarto, mais do que o cheiro de desinfetante ou o ranger da cadeira de couro onde ele se sentava. Ele estava próximo, quieto. Sentado ao lado da cama, como fazia todos os dias.
Ela nunca olhava para ele.
E ele nunca tocava nela.
O silêncio entre eles era espesso, sufocante, cheio de palavras que nunca seriam ditas.
Durante um mês inteiro, Olivia permaneceu naquela cama.
Em paz.
Dormia sozinha todas as noites. Ninguém obrigava nada. Ninguém esperava nada. Só respirava.
Jereh vinha sempre.
Sentava-se à beira da cama, pegava sua mão, falava com ela como se ela fosse de vidro. Dizia que tudo seria diferente, melhor. Às vezes, implorava para ela falar com ele.
Mas ela não falava com ninguém.
Nem mesmo com ela mesma.
Quando o médico finalmente permitiu, ela foi levada de volta.
De volta para o quarto que não era seu.
O quarto de Damon.
Ela não queria estar ali. Não queria nem lembrar como chegou, se foi carregada, se andou, se se arrastou.
Mas... não tinha escolha.
Ainda era a companheira dele.
E agora, a varanda estava pregada. As janelas, trancadas. Havia pregos onde antes havia vento.
Nenhuma fresta. Nenhuma escapatória.
Como se estivessem com medo de que ela tentasse voar de novo.
Como se ela fosse um animal ferido. Uma coisa perigosa que precisava ser mantida em cativeiro.
Enjaulada.
A liberdade nunca pareceu tão distante.
Ela se viu ali.
Na cama dele.
Não apenas deitada ao lado.
Mas com o corpo dele pressionado contra o dela, os braços dele a envolvendo como se ela fosse algo precioso que pudesse escapar a qualquer momento.
Todas as noites.
No começo, pensou que era só o calor do quarto, ou um pesadelo em que seu corpo se movia por conta própria. Mas não - era real. No hospital, ela estava sozinha.
Mas de volta ao quarto dele... não mais.
Damon nunca a tocaria assim.
Não ele.
Mas Condor... o lobo dele...
Ele sim.
O lobo dele sentia falta dela. De Sam. Da presença quente de sua companheira, mesmo que ferida, mesmo que calada, mesmo que distante. E agora que Sam estava ausente, talvez em silêncio dentro dela, era como se Condor tentasse protegê-la até que ela voltasse.
Talvez fosse isso.
Ou talvez fosse só mais uma cela invisível.
Olivia não tinha certeza de qual resposta doía mais.
Ela não o afastava.
Mas também não se permitia ceder.
Fechava os olhos, virada de costas, e fingia que o mundo lá fora não existia.
Fingia que era Sam quem sentia tudo aquilo.
Que ela não estava ali.
Porque naquele quarto onde a janela estava trancada com pregos, o único lugar para onde ainda podia fugir...
Era para dentro de si.