Cora
Eu estava vivendo um pesadelo.
Só podia ser.
Em algum momento eu iria acordar naquela cadeira desconfortável do hospital, com a cabeça apoiada na cama da minha mãe e o cheiro de remédio impregnado nas roupas. Em algum momento alguém pisaria no meu pé sem querer, uma enfermeira me chamaria para atualizar o estado dela e tudo isso acabaria.
Mas quanto mais o tempo passava... mais eu percebia que aquilo era real.
E pior:
Eu estava presa naquele inferno.
De um lado estava minha vida.
Do outro, a vida da minha mãe.
Eu seria egoísta e cruel se escolhesse a mim mesma... e infeliz se escolhesse salvar minha mãe.
Só que aquilo nem sequer era uma escolha.
Eu jamais deixaria minha mãe morrer.
Não depois de tudo o que ela fez por mim.
Não depois das noites em claro.
Dos empregos humilhantes.
Da comida dividida ao meio para fingir que já tinha jantado.
Não depois dela destruir a própria saúde para me criar sozinha.
- A proposta é essa, Cora. - Dona Alma disse friamente.
Ela estava parada bem na minha frente no corredor do hospital, elegante demais para aquele lugar cinzento e frio. O salto fino ecoava no piso claro enquanto ela segurava a bolsa cara em uma mão e o celular na outra, como se estivesse resolvendo um simples negócio.
Porque era exatamente isso que aquilo era para ela.
Um negócio.
Atrás de mim, minha mãe lutava para respirar em um quarto de hospital.
Na frente... estava o contrato que decidiria meu futuro.
- Isso é uma tremenda loucura... - minha voz falhou.
Ela arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
- Não. Loucura seria deixar sua mãe morrer por orgulho.
Aquilo acertou meu peito em cheio.
- Você precisa de dinheiro para pagar o tratamento da sua mãe. - ela continuou calmamente. - E eu preciso de uma nora.
Meu estômago revirou.
- Dante está noivo. - ela disse. - Então preciso casar Otto. Existem negócios envolvidos nisso, alianças importantes... e você é uma garota simples, educada e fácil de moldar. Não leve para o lado pessoal, querida, mas quando dinheiro entra... amor sai.
Meu Deus.
Meu Deus...
Aquilo não podia estar acontecendo.
Eu tinha acabado de completar dezoito anos.
Dezoito.
Enquanto outras garotas estavam escolhendo faculdade, roupas para festas ou o garoto que queriam beijar... eu estava sendo negociada no corredor de um hospital.
- Senhora... eu não posso simplesmente casar com alguém que eu nem conheço.
- Pode. E vai.
A segurança cruel na voz dela fez minhas mãos tremerem.
Antes que eu respondesse, a porta do quarto da minha mãe se abriu abruptamente.
O médico apareceu com expressão séria.
E naquele instante eu soube.
Meu coração despencou.
- Senhorita Cora, sua mãe precisa ir para cirurgia agora. Se não operarmos imediatamente... ela não passa desta noite.
O mundo parou.
Literalmente.
Tudo ficou silencioso.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Eu olhei para o médico.
Depois para Dona Alma.
Depois novamente para o médico.
- A cirurgia... - minha voz saiu trêmula. - Quanto custa?
O silêncio dele respondeu primeiro.
E aquilo destruiu o pouco que ainda existia dentro de mim.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Só um segundo.
Mas foi o suficiente para entender que eu já tinha perdido.
- Vá. - falei baixo. - Pode levá-la.
Abri os olhos e encarei Dona Alma.
Ela já estava sorrindo discretamente.
Como se soubesse desde o início que venceria.
- A Dona Alma vai fazer o pagamento.
O médico assentiu imediatamente.
Tudo aconteceu rápido demais depois disso.
Enfermeiros correram.
Macas passaram.
Minha mãe foi levada às pressas enquanto eu segurava o choro até sentir o peito doer.
- Boa escolha, querida. - Dona Alma comentou enquanto digitava algo no celular. - Depois da cirurgia sua mãe será levada para uma casa de repouso particular. Enfermeiras disponíveis vinte e quatro horas por dia.
Eu devia me sentir aliviada.
Mas me sentia vendida.
- Você vai comigo hoje. - ela continuou. - Não adianta ficar aqui. A cirurgia vai demorar e precisamos começar os preparativos.
- Preparativos...?
- Seu banho de loja. - respondeu naturalmente. - E preciso apresentar seu futuro marido.
Meu coração quase saiu pela boca.
- Pretendo fazer o casamento dos meus dois filhos em seis meses.
- Seis meses?! - praticamente engasguei.
Ela pareceu achar graça.
- Não sou tão desumana assim, Cora. Vou dar tempo para vocês se conhecerem melhor. Pela lógica humana, casais levam cerca de três meses para se apaixonar. Vocês terão o dobro disso.
Eu queria rir.
Ou gritar.
Talvez os dois.
- Isso é absurdo...
- Bem-vinda à alta sociedade, querida.
---
A mansão dos De Luca parecia saída de um filme.
Não.
Nem filmes mostravam algo daquele tamanho.
Os portões gigantes se abriram lentamente enquanto o carro avançava por uma estrada cercada de jardins impecáveis.
Fontes.
Estátuas.
Luzes douradas.
Aquilo não parecia real.
Parecia o tipo de lugar onde pessoas como eu jamais deveriam entrar.
Segurei minhas mãos nervosamente no colo enquanto o carro estacionava diante da escadaria principal.
Meu reflexo apareceu no vidro.
Cabelos presos de qualquer jeito.
Olhos inchados de chorar.
Moletom velho.
Eu parecia uma intrusa.
Quando saí do carro, duas garotas já nos esperavam na entrada.
Bonitas.
Elegantes.
Ricas.
Uma delas tinha cabelos castanhos longos e postura delicada. A outra usava preto da cabeça aos pés e tinha um olhar divertido e perigoso ao mesmo tempo.
- Cora. - Dona Alma anunciou. - Essas são Judith e Kami. Amigas de infância dos meus filhos. Cresceram praticamente como irmãos.
As duas sorriram para mim.
Judith primeiro.
- Prazer em conhecer você.
Kami veio logo depois.
- Relaxa, você parece que vai desmaiar.
Eu quase ri de nervoso.
- Talvez eu vá.
Ela soltou uma gargalhada.
- Gostei dela.
Dona Alma entregou a bolsa para uma funcionária.
- Elas vão ajudá-la em tudo o que precisar para se tornar uma futura De Luca.
A palavra futura pesou no meu peito.
Futura De Luca.
Meu Deus.
Eu realmente tinha vendido minha vida.
---
Duas horas depois eu estava dentro da loja mais cara que já tinha visto.
Tudo brilhava.
Sapatos.
Joias.
Vestidos.
Perfumes.
Até o ar parecia caro.
Eu me sentia completamente deslocada enquanto uma mulher mexia no meu cabelo e outra tirava minhas medidas.
Kami estava jogada em uma poltrona mexendo no celular.
Judith analisava vestidos em um catálogo.
- Preto valoriza mais ela. - Judith comentou.
- Vermelho. - Kami rebateu imediatamente. - O corpo dela fica perfeito em vermelho.
- Vocês estão falando como se eu fosse uma boneca.
Kami ergueu os olhos.
- Bem-vinda ao mundo dos ricos.
Revirei os olhos.
- Vocês são malucas.
As duas riram.
- Ainda nem começou. - Kami disse.
Uma atendente apareceu com vários vestidos.
Quando percebi, estavam me empurrando para um provador.
- Experimenta esse primeiro. - Judith pediu gentilmente.
- Não tenho escolha, né?
- Não muita. - Kami respondeu sorrindo.
Bufei.
Minutos depois saí usando um vestido preto justo que eu jamais teria coragem de tocar em uma loja comum.
As duas me olharam em silêncio.
E então:
- Meu Deus. - Kami arregalou os olhos. - Otto vai enlouquecer.
Corei imediatamente.
- Para com isso.
Judith sorriu.
- Otto é um amor, Cora. Sério. Você deu sorte.
- Sorte? - quase ri. - Fui obrigada a casar.
- Entre os De Luca... você realmente deu sorte. - Kami respondeu.
Aquilo me fez franzir a testa.
- O que isso significa?
As duas trocaram um olhar rápido.
- Significa que poderia ser o Dante. - Kami respondeu.
Só pela forma como ela falou o nome dele... algo mudou no ar.
- O irmão mais velho? - perguntei.
- Sim. - Judith respondeu calmamente. - E acredita em mim... seria muito mais difícil.
- Por quê?
Kami riu baixo.
- Porque Dante De Luca não nasceu para pertencer a ninguém.
Não sei por que aquilo arrepiou minha pele.
Talvez pelo jeito que ela falou.
Talvez pelo mistério.
Ou talvez porque, pela primeira vez naquela noite... senti curiosidade.
- Otto é diferente. - Judith explicou. - Gentil, educado, tranquilo. Ele vai cuidar de você.
- E Dante? - perguntei sem pensar.
Kami sorriu de lado.
- Dante é o tipo de homem que destrói vidas sem perceber.
Meu coração falhou estranhamente.
Ridículo.
Eu nem conhecia aquele homem.
- Vocês falam dele como se fosse um vilão.
- Não. - Judith respondeu. - Só como alguém perigoso.
A atendente apareceu novamente com mais vestidos.
Mas minha mente já estava longe.
Em Dante De Luca.
No homem que eu ainda nem conhecia.
- Isso ainda é loucura. - murmurei enquanto olhava meu reflexo no espelho. - Casamentos arranjados... promessas... negócios... vocês vivem em outra realidade.
Kami cruzou as pernas elegantemente.
- Vivemos.
Judith assentiu.
- Aqui funciona assim, Cora. Famílias ricas fazem alianças o tempo todo.
- Isso é horrível.
- Talvez. - Judith respondeu. - Mas fomos criadas assim.
Kami deu de ombros.
- Eu mesma já estou prometida.
Arregalei os olhos.
- O quê?!
Ela começou a rir da minha reação.
- Viu? Ela é engraçada.
- Isso é surreal!
- O cara é bonito pelo menos. - Kami respondeu naturalmente.
Judith riu baixo.
- Meu pai escolheu alguém importante para os negócios da família também.
Eu encarava as duas sem acreditar.
- Vocês aceitam isso normalmente?!
- Você se acostuma. - Judith respondeu.
- Eu nunca vou me acostumar.
Kami se aproximou sorrindo.
- Vai sim.
- Não vou.
- Vai. Principalmente quando conhecer a mansão em Capri.
- Existe uma mansão em Capri?!
Ela gargalhou.
- Meu Deus, eu amo gente pobre feliz com o mínimo.
- KAMI! - Judith repreendeu, chocada.
Eu comecei a rir pela primeira vez naquele dia.
Uma risada verdadeira.
Fraca.
Cansada.
Mas verdadeira.
E talvez aquilo tenha sido o pior.
Porque, em algum lugar dentro de mim...
Eu estava começando a perceber que aquele mundo absurdo agora fazia parte da minha vida.
{...}
Cora
No fim, eu já não parecia mais eu.
As roupas simples que eu usava tinham desaparecido como se nunca tivessem existido. Meu tênis velho, minha calça jeans desbotada e o moletom gasto ficaram para trás junto com a garota que entrou naquela mansão horas atrás.
Agora, eu estava diante de um espelho enorme usando um vestido rodado rosa bebê que parecia saído de um conto de fadas.
Delicado.
Perfeito.
Ridiculamente caro.
A saia volumosa parava acima dos joelhos e marcava minha cintura de uma forma suave, feminina... quase inocente. Meu cabelo estava solto em ondas impecáveis e minha maquiagem escondia completamente as olheiras de noites mal dormidas no hospital.
Eu parecia uma menininha rica.
Uma garota que nunca precisou contar moedas para comprar pão.
Uma garota que nunca viu a mãe chorar escondido no banheiro porque não tinha dinheiro para pagar contas.
Mas aquilo não era verdade.
Eu fui jogada naquela vida por um único motivo:
Salvar minha mãe.
- Uau... - Kami assobiou atrás de mim. - Toda essa beleza estava escondida naqueles trapos velhos?
Revirei os olhos imediatamente.
- Obrigada pela delicadeza.
Ela riu.
Judith apareceu ao lado dela analisando meu reflexo no espelho.
- Pois é, irmã. Atrasamos mais uma vez.
Abri a boca indignada.
- Helloou? Eu ainda estou aqui, sabia? Não precisam me humilhar na minha frente.
Kami caiu na gargalhada.
- Desculpa, Cora. - Judith disse tentando parecer séria, mas claramente segurando o riso. - É a força do hábito.
Bufei cruzando os braços.
- Vocês são insuportáveis.
- E você dramática. - Kami rebateu. - Vai se acostumar.
Ela se aproximou ajustando uma mecha do meu cabelo.
- Você vai se dar bem aqui.
A forma como ela disse aquilo me fez rir sem humor.
Se dar bem.
Como alguém se dava bem sendo vendida em troca de uma cirurgia?
- Vamos logo. - Kami continuou. - Em dez minutos começa o jantar de noivado.
Meu coração tropeçou.
Noivado.
Meu.
Noivado.
Com um homem que eu nunca vi.
- Só os íntimos. - Judith acrescentou calmamente.
- Íntimos? - murmurei nervosa.
- Sim.
Mal sabia eu o significado da palavra íntimos para aquela gente.
---
Duas funcionárias entraram no quarto trazendo mais caixas.
Mais roupas.
Mais sapatos.
Mais joias.
Eu estava começando a achar que aquelas pessoas tinham algum problema psicológico com excesso de luxo.
- Não acredito... - murmurei vendo outro vestido.
- Esse é o oficial do jantar. - Judith explicou.
Quando abriram a caixa, quase fiquei cega.
O vestido branco era absurdamente lindo.
Rodado.
Elegante.
Cheio de detalhes delicados brilhando discretamente sob a luz do quarto.
Parecia caro o suficiente para pagar metade das dívidas do hospital.
Talvez mais.
- Isso deve custar o valor de um carro.
Kami deu de ombros.
- Provavelmente custa mais.
Meu Deus.
As duas praticamente me arrastaram para outra sessão de cabelo, maquiagem e ajustes enquanto eu reclamava baixinho.
Depois vieram os sapatos.
Saltos brancos lindíssimos de alguma marca francesa impossível de pronunciar.
- Eu vou quebrar o pescoço nisso aqui.
- Não vai não. - Kami respondeu. - Mulheres ricas aprendem a sofrer em silêncio.
- Isso definitivamente não é normal.
Judith sorriu.
- Você vai sobreviver.
Talvez.
Ou talvez eu tivesse um colapso antes do jantar começar.
Quando finalmente terminaram, eu me encarei no espelho outra vez.
E não consegui me reconhecer.
A garota refletida ali parecia pertencer àquele mundo.
Bonita.
Elegante.
Quase refinada.
Mas eu sabia a verdade.
Tudo aquilo era apenas embalagem.
Por dentro eu ainda era a garota apavorada do hospital.
A filha desesperada tentando salvar a mãe.
- Está pronta? - Judith perguntou suavemente.
Não.
Nem um pouco.
Mas assenti mesmo assim.
---
Descemos as escadas da mansão e meu coração começou a acelerar conforme vozes e música preenchiam o ambiente.
Eu imaginava algo pequeno.
Uma mesa elegante.
Talvez meia dúzia de pessoas importantes.
Algo íntimo.
Mas no segundo em que atravessei as portas do salão principal...
Eu parei.
Completamente.
Meu cérebro simplesmente travou.
- Meu Deus... - murmurei.
O salão estava lotado.
LOTADO.
Lustres gigantes iluminavam centenas de pessoas elegantemente vestidas. Homens de ternos caros conversavam segurando taças de champanhe enquanto mulheres cobertas de joias circulavam pelo ambiente como personagens de filmes antigos.
Música clássica ecoava ao fundo.
Garçons passavam com bandejas douradas.
Flores brancas decoravam tudo.
Aquilo parecia um evento da realeza.
- Isso não é um jantar íntimo! - sussurrei desesperada olhando ao redor. - Tem umas cem pessoas aqui!
Kami começou a rir imediatamente.
- Cento e vinte e três, na verdade.
Arregalei os olhos.
- CENTO E VINTE E TRÊS?!
Judith segurou minha mão discretamente.
- Relaxa.
- Relaxa?! Tem mais gente aqui do que no meu bairro inteiro!
As duas gargalharam.
- Cora... - Kami tentou falar sem rir. - Isso é um jantar íntimo para a alta sociedade.
- Vocês vivem em outra dimensão.
- Tecnicamente... sim.
Meu estômago revirava enquanto vários olhares se voltavam para mim.
As pessoas cochichavam.
Observavam.
Analisavam.
Como se tentassem descobrir quem eu era.
E talvez fosse exatamente isso.
Quem era a garota simples que apareceu do nada e ficou noiva de um De Luca?
- Estou assustando? - perguntei baixo.
Judith sorriu.
- Um pouco.
- Ótimo. Vou vomitar.
Kami segurou meu braço antes que eu surtasse completamente.
- Ei. Respira. Eles são só ricos, não alienígenas.
- Tem diferença?
Ela riu.
- Às vezes não.
Antes que eu respondesse, o salão inteiro ficou um pouco mais agitado.
Algumas mulheres começaram a ajeitar postura.
Homens cumprimentaram alguém ao longe.
E então Judith sorriu discretamente.
- Otto chegou.
Meu coração acelerou instantaneamente.
Meu noivo.
Meu futuro marido.
Meu Deus.
Olhei automaticamente para entrada do salão.
E vi ele.
Otto De Luca era... lindo.
Infelizmente lindo.
Alto.
Elegante.
Cabelos claros perfeitamente arrumados.
Olhos azuis absurdamente marcantes.
O terno preto parecia ter sido feito exatamente para ele.
E o pior?
Ele sorria de forma gentil.
Calma.
Quase acolhedora.
Nada nele parecia arrogante ou cruel.
Aquilo me confundiu completamente.
Porque eu queria odiá-lo.
Queria olhar para ele e sentir raiva.
Mas Otto parecia... bom.
Ele caminhou em nossa direção enquanto várias pessoas o cumprimentavam pelo caminho.
Quando nossos olhares finalmente se encontraram, ele diminuiu os passos.
E então sorriu.
Diretamente para mim.
Meu coração esperou pelas famosas borboletas.
Pela eletricidade.
Pelo impacto.
Por qualquer coisa.
Mas...
Nada aconteceu.
Absolutamente nada.
Ele era lindo.
Muito lindo.
Mas meu corpo permaneceu imóvel.
Sem calor.
Sem arrepio.
Sem caos.
Aquilo me deixou estranhamente culpada.
Porque aquele homem seria meu marido.
- Então essa é a Cora? - a voz dele era suave.
Otto parou na minha frente.
Perto demais.
Bonito demais.
Educado demais.
Pegou minha mão delicadamente e beijou meus dedos.
- Prazer finalmente conhecer você.
Eu pisquei algumas vezes tentando voltar para realidade.
- O prazer é meu.
Mentira.
O prazer definitivamente não era meu.
Ele sorriu de novo.
E eu percebi o quanto seria fácil para qualquer garota se apaixonar por Otto De Luca.
- Você está linda.
- Obrigada.
Kami apareceu atrás dele imediatamente.
- Viu? Eu falei que ela era bonita.
Otto riu baixo.
- Você disse bonita. Não disse deslumbrante.
Revirei os olhos internamente.
Rico também flertava rápido assim?
Judith parecia satisfeita observando a interação.
Como se tudo estivesse saindo exatamente como planejado.
- Espero que não esteja assustando a Cora. - Otto comentou.
- Tarde demais. - respondi antes de pensar.
Ele riu.
E aquilo me pegou desprevenida.
Porque não foi uma risada debochada.
Foi sincera.
Quente.
Humana.
- Prometo que os De Luca parecem mais perigosos do que realmente são.
Kami tossiu alto tentando esconder a risada.
Otto estreitou os olhos para ela.
- Não começa.
- Eu não falei nada.
- Seu rosto falou.
Os dois começaram a discutir de forma leve enquanto Judith me observava discretamente.
- Está melhor? - ela perguntou baixinho.
Olhei novamente para Otto.
Bonito.
Gentil.
Educado.
O homem perfeito no papel.
Mas ainda assim...
Meu coração continuava quieto.
E por algum motivo estranho...
Aquilo me assustava mais do que deveria.
{...}
Cora
Eu não fazia ideia de como ainda estava de pé.
Sério.
Aqueles saltos eram instrumentos de tortura disfarçados de sapato de luxo. Meus dedos doíam tanto que eu já não conseguia sentir metade do pé direito, enquanto o esquerdo parecia implorar misericórdia a cada passo que eu dava naquele salão gigante.
E ainda tinha gente sorrindo.
Conversando.
Dançando.
Como se ficar horas em cima de um salto agulha fosse algo natural.
Ricos eram perturbados.
Definitivamente perturbados.
Eu estava parada ao lado de Otto enquanto mais um casal desconhecido nos parabenizava pelo "lindo futuro juntos" quando senti minhas pernas vacilarem discretamente.
Otto percebeu na mesma hora.
- Ei. - sua voz saiu baixa e gentil perto do meu ouvido. - Você quer se retirar?
Quase chorei de gratidão.
- Por favor...
Ele sorriu de lado.
Não um sorriso arrogante.
Um sorriso compreensivo.
Como se entendesse exatamente o tamanho do caos que aquela noite estava sendo para mim.
- Podemos fugir.
Franzi a testa.
- Fugir?
- Uhum. - ele pegou duas taças de champanhe de uma bandeja que passava. - Eu fico com você no seu quarto até tudo isso acabar e depois colocamos a culpa no fato de estarmos nos conhecendo melhor.
Aquilo me fez rir baixinho pela primeira vez desde o início da festa.
- Você parece experiente nisso.
- Em fugir de eventos da minha mãe? Bastante.
Sorri sem perceber.
- Obrigada.
Foi a única coisa que consegui dizer.
Porque eu realmente estava agradecida.
Otto poderia simplesmente me deixar ali sorrindo para estranhos até meus pés caírem do corpo, mas em vez disso estava tentando me salvar daquela tortura social.
Ele me ofereceu o braço elegantemente.
- Vamos antes que Alma perceba.
Segurei seu braço tentando parecer natural enquanto atravessávamos o salão discretamente.
Ou pelo menos tão discretamente quanto possível.
Ainda sentia olhares em mim.
Pessoas cochichando.
Mulheres me analisando da cabeça aos pés.
Mas dessa vez... eu não ligava tanto.
Tudo o que eu queria era tirar aqueles saltos.
Subimos as escadas enormes da mansão enquanto a música ficava cada vez mais distante.
O silêncio do segundo andar parecia outro universo comparado ao caos elegante lá embaixo.
- Você está melhor? - Otto perguntou.
- Vou responder depois que arrancar esses sapatos dos meus pés.
Ele riu baixo.
Meu Deus.
Otto ria com facilidade.
Era estranho.
Eu esperava alguém frio.
Distante.
Arrogante.
Mas ele parecia... normal.
Rico.
Absurdamente bonito.
Mas normal.
Quando chegamos ao quarto que Dona Alma havia separado para mim, quase suspirei de alívio.
Era enorme.
Muito maior que a casa onde morei minha vida inteira.
As luzes suaves deixavam tudo aconchegante demais para um lugar tão luxuoso.
Otto soltou meu braço.
- Vou esperar aqui.
Assenti rapidamente e praticamente corri para o closet.
Assim que a porta fechou atrás de mim, tirei os saltos num movimento desesperado.
- Ai, meu Deus... - gemi aliviada sentando no pequeno sofá do closet.
Meus pés estavam vermelhos.
Machucados.
Quase assassinei Kami mentalmente por dizer que aquilo "nem era tão alto".
Bufei tirando o vestido cuidadosamente logo depois.
Minhas mãos pararam por alguns segundos no tecido branco caro.
Aquilo tudo parecia tão distante da minha realidade.
Como se eu estivesse interpretando alguém.
Uma versão falsa de mim mesma.
Escolhi um pijama longo de cetim claro que tinham deixado no closet e o vesti rapidamente.
Calça comprida.
Blusa de mangas longas.
Confortável.
Humano.
Eu nunca pensei que sentiria tanta felicidade por usar pijama.
Prendi o cabelo num coque bagunçado antes de voltar para o quarto.
Otto estava sentado na ponta da cama mexendo no celular, mas levantou os olhos imediatamente quando me viu.
E então sorriu.
- Muito melhor.
- Você não faz ideia.
Ele olhou para meus pés descalços.
- Sobreviveu?
- Por pouco.
Aquilo arrancou outra risada dele.
Caminhei até a cama e sentei do outro lado mantendo certa distância.
O silêncio entre nós não era desconfortável.
O que me surpreendeu.
Na verdade... parecia leve.
Estranhamente leve.
Otto soltou o celular de lado.
- Então... oficialmente somos noivos.
Meu estômago revirou um pouco.
- É estranho ouvir isso.
- Pra mim também.
Ergui os olhos rapidamente.
- É?
Ele assentiu calmamente.
- Minha mãe decidiu tudo muito rápido.
Aquilo me deixou surpresa.
- Você não sabia?
- Sabia que ela queria me casar. - respondeu soltando o ar lentamente. - Mas não sabia quem seria.
- E isso não te incomoda?
Otto ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.
- Eu cresci nesse mundo, Cora. Depois de um tempo você entende que algumas coisas simplesmente... acontecem.
- Isso é triste.
Ele deu um sorriso pequeno.
- Um pouco.
Observei seu rosto por alguns segundos.
Otto realmente era lindo.
Perigosamente lindo.
Mas ainda assim...
Nada.
Nenhum frio na barriga.
Nenhuma faísca.
Nenhuma loucura.
E aquilo me fazia sentir uma pessoa horrível.
Porque ele estava sendo gentil comigo desde o momento em que nos conhecemos.
- Você está pensando demais. - ele comentou de repente.
Pisquei surpresa.
- Como sabe?
- Você faz essa carinha.
- Que carinha?
Ele imitou minha expressão séria e perdida.
Acabei rindo.
- Ridículo.
- Acertei.
Balancei a cabeça negativamente enquanto sorria sem perceber.
Meu Deus.
Eu estava confortável.
Confortável com o homem que deveria ser meu futuro marido.
Talvez aquilo fosse bom.
Talvez facilidade fosse melhor do que paixão.
Paixão destruía pessoas.
Conforto não.
- Posso te perguntar uma coisa? - Otto disse.
- Acho que sim.
- Você odeia muito essa ideia?
Meu coração apertou.
Porque a pergunta dele foi sincera.
Sem ego.
Sem arrogância.
Ele realmente queria saber.
Baixei os olhos para minhas mãos.
- Eu não odeio você.
- Mas...
Suspirei.
- Mas eu odeio o motivo de estar aqui.
O silêncio caiu entre nós.
Otto não pareceu ofendido.
Só... compreensivo.
- Sua mãe vai ficar bem. - ele disse baixo.
Aquilo quase me destruiu.
Porque fazia horas que eu estava fingindo força.
Horas fingindo que não estava morrendo de medo por dentro.
Minha mãe estava numa cirurgia enquanto eu brincava de princesa rica em uma mansão.
Meus olhos arderam imediatamente.
Droga.
Otto percebeu na hora.
- Ei... - sua voz suavizou ainda mais.
Virei o rosto rapidamente tentando me recompor.
- Desculpa.
- Não se desculpa.
Mas era tarde.
A primeira lágrima caiu.
Depois outra.
E outra.
Levei as mãos ao rosto completamente envergonhada.
- Eu não consigo parar de pensar nela... - minha voz falhou. - E se acontecer alguma coisa? E se eu tiver vendido minha vida inteira e no final ela ainda...
- Cora.
Otto se aproximou devagar.
Sem invadir meu espaço.
Sem exageros.
Apenas sentando mais perto.
- Minha mãe move hospitais inteiros se quiser. Sua mãe está recebendo o melhor tratamento possível.
Fechei os olhos tentando respirar.
- Eu estou com medo.
- Eu sei.
A forma como ele disse aquilo...
Calma.
Gentil.
Quase me desmontou completamente.
Otto pegou uma caixa de lenços da mesa ao lado e me entregou.
Acabei rindo no meio do choro.
- Que romântico.
Ele sorriu.
- Sou um cavalheiro moderno.
Limpei o rosto respirando fundo.
- Você é sempre assim?
- Assim como?
- Bonzinho.
Otto gargalhou baixo.
- Kami definitivamente diria que não.
- Então ela mente?
- Frequentemente.
Sorri de novo.
E ali, naquele momento, eu percebi algo importante:
Otto seria meu amigo antes de qualquer outra coisa.
A tensão que eu imaginava não existia.
Não havia aquele desespero de proximidade.
Nem desejo.
Nem nervosismo.
Só... paz.
Era quase como conversar com alguém que eu conhecia há anos.
- Quer saber um segredo? - Otto perguntou de repente.
- Depende do segredo.
Ele se aproximou conspiratório.
- Eu odeio essas festas tanto quanto você.
Arregalei os olhos.
- Mentira.
- Juro.
- Mas você parece tão confortável.
- Treinamento de infância.
Ri baixinho.
- Então você é um farsante profissional.
- Com diploma.
Ficamos conversando por horas depois disso.
Sobre coisas simples.
Minha escola.
Os lugares onde trabalhei.
As viagens dele.
Os jantares absurdos da alta sociedade.
As histórias malucas de Kami.
As tentativas de Judith em controlar o caos daquela família.
E quanto mais conversávamos...
Mais eu tinha certeza:
Otto seria um ótimo amigo.
Talvez até o melhor que eu já tive.
Mas não parecia o homem da minha vida.
E aquilo deveria me preocupar mais do que preocupava.
{...}