WESTMINSTER, 1838
No início do século XIX, na Inglaterra, vingança, sedução, paixão, traição e desejo se transformam no fio condutor deste romance.
O marquês Richard foi educado para viver segundo rígidas convicções sociais, tornando-se um homem que preza a reputação e as boas maneiras da corte acima de qualquer coisa.
Tem uma boa influência no comércio, pois sua família possui navios comerciantes e fragatas que auxiliam na segurança, além de uma pequena frota que é alugada pelo rei, o que o torna um homem cobiçado pela sociedade feminina, além das famílias que desejam possuir algum enlace com um lorde influente e rico.
Um homem viajado que vive pelo mundo, estudando e aproveitando os prazeres da vida, além, é claro, de trazer mercadorias belíssimas e caras para a nobreza, um comerciante nato que jamais se deixa enganar por belas curvas, lábios voluptuosos ou cavalheiros inescrupulosos que usam de seu status como forma de barganha.
Sua família é um tanto quanto controversa demais quando o assunto é matrimônio, não sendo o melhor exemplo aos filhos. Seus pais são cúmplices de vida, apenas um acordo comercial benéfico, além disso traições são corriqueiras por parte do patriarca da família, por isso o marquês não quer isso para si, embora o casamento do seus pais não sejam por amor ele entende a importância do casamento para os olhos da corte.
Sempre acreditou que o amor não existe e tem a pura convicção de não precisar se casar, já que seu irmão mais novo fará isso e garantirá a continuação da linhagem da família, dando netos aos seus pais e uma esposa para ser exibida na corte.
Mas seu pai não pensa assim, ele tem planos diferentes para o seu herdeiro, o filho mais velho.
Ele só não contava que seus dias de solteirice estão contados.
Quando recebe uma carta de seu pai pedindo que retorne, pois precisa dele, o bom filho retorna e é intimado a achar uma boa esposa com berço e nobreza, dando o prazo de dois meses para apresentá-la ou será deserdado.
O tempo começa a correr contra ele, e seu irmão tem a brilhante ideia de promover bailes para todas as famílias da região, assim os pais farão de tudo para empurrar as filhas mais velhas para o marquês, por possuir uma renda de 50 mil libras por ano é o sonho de muitas mães em empurrar suas filhas para um bom casamento e o desejo de muitas damas da sociedade em qualquer idade. Uma moça poderia chamar sua atenção e fazer seu coração se render à sentimentos que tanto reluta.
Relutante, aceita o conselho do irmão, mas não imagina que neste baile poderá rever a única mulher que não deseja ser sua esposa.
Agora, precisa convencer sua relutante escolhida de que ele é merecedor da sua mão, fazendo sua escolha uma questão de honra e não sentimento, isso em uma época em que a mulher não tem opinião, nem vontade própria e a família pode obrigar a união.
O destino ainda pregará uma peça nesse jovem casal e ambos vão lutar contra sentimentos que não almejam.
Será o amor capaz de curar as feridas passadas ou a vingança falará mais alto?
Quem vencerá essa batalha: o amor ou a indiferença?
RICHARD
A beleza da vida é a forma como gastamos cada momento do nosso fatídico dia, minha família, embora não seja o melhor exemplo, ainda é uma das famílias nobres mais respeitadas e conceituadas de toda a França.
Meu bisavô deixou uma grandiosa fortuna, além da forte influência naval que o sobrenome Willians carrega. Mas é o comércio que me traz prestígio, as especiarias estão em alta em toda a França e sempre faço questão de trazer novidades que causam agitação em toda a nobreza.
Gosto do oceano e como ele me faz me sentir livre.
Em minha última estadia, recebi uma carta do meu pai, exigindo minha presença com certa urgência. Temi que a idade já avançada o levasse, e como um bom filho, resolvi acatar sua ordem e retornar.
Meu irmão sempre me acompanha em minhas viagens, mas nunca quis aproveitar os prazeres da vida, segundo ele, está destinado a apenas os desfrutar com sua esposa.
Não entendo o motivo desta decisão, para que esperar o casamento e ter apenas uma única mulher, se pode ter várias em cada canto, sem necessariamente se prender a alguém. Não que minha posição social não permita me casar, pelo contrário, por ser o primogênito devo tomar uma esposa e ter vários filhos para perpetuar meu sobrenome.
A viagem de volta foi calma e rápida à sua maneira.
Sei que meu irmão conheceu uma dama em um dos grandiosos bailes do condado da grande Londres.
Admito que não frequento estes bailes tediosos, prefiro bailes maiores e repletos de majestosidade, além do mais, nesses bailes as moças caça-dotes escolhem maridos ricos.
Quando nosso navio atraca no porto, solicito que os empregados descarreguem as mercadorias e deixem sir Thomas conferir e contar tudo que trouxemos. Depois será aberto para venda dos produtos restantes através de lances.
Os itens mais valiosos serão levados uma parte para minha residência e outra para as lojas que já solicitaram uma lista detalhada do que desejam, tudo está perfeitamente destinado.
Os responsáveis pela entrega das especiarias e recolhimento das libras após a entrega, irão para minha residência entregar o que lhes foi pago pelas mercadorias e receberão o que lhes é devido para serem também entregues aos demais empregados do navio.
Gosto de conferir cada peso em ouro para que nada seja perdido nem afanado.
Resolvo alugar uma carruagem e ir direto para nossa residência, ela fica um pouco longe da cidade e agradeço imensamente por isso.
A propriedade possui campos vastos, um lago enorme e a calmaria necessária para revigorar após um longo dia de trabalho, pois a vista acalma e agrada aos olhos.
Quero ver como está minha mãe e saber o motivo de tamanha pressa do meu retorno pela parte de meu pai.
Quando chego, sou recebido por minha mãe que nos abraça feliz, ela é um doce de pessoa e gosta imensamente de meu pai, mesmo que ele não a mereça.
- Meus meninos! - diz feliz nos abraçando em seguida. - Senti tanta a falta de vocês! - Nos guia para dentro e pede que nos sirvam suco.
O sol está quase em seu ponto mais alto e em breve será servido o almoço.
- Pare de bajulá-los, minha esposa, já são homens! - meu pai diz sem qualquer emoção.
- Vejo que está muito bem de saúde - respondo secamente e ele ignora.
- Vamos, meus filhos, quero conversar seriamente com ambos em meu escritório.
Minha mãe intervém, o repreendendo:
- Meu marido, eles acabaram de chegar, acredito que isso possa ser discutido depois do almoço. - Cruza os braços demonstrando seu desgosto.
- Acredito que a mãe de vocês às vezes esquece que eu mando nesta casa.
Ela revira os olhos e responde sem cerimônia:
- O senhor meu marido esquece quem esquenta suas noites.
Noto o rosto do meu pai ficar vermelho, sei que ele está irritado devido à forma como minha mãe falou com ele.
- Minha esposa, não é horário nem lugar mais apropriado para debater isso - diz visivelmente alterado, tanto que minha mãe abaixa o olhar.
- Sim, senhor meu marido, perdoe minha intromissão.
Minha mãe sempre foi um doce de pessoa, mas foi ensinada a ser submissa ao marido, o que faz com que meu pai se aproveite disso e ela se curve aos seus caprichos calada.
- Mais tarde conversaremos, minha esposa. - Ele sai sem ao menos nos cumprimentar direito, não sei até hoje como minha mãe o atura, aceitando tudo que ele faz conosco sem interferir.
- Desculpem seu pai, ele não sabe expressar bem seus sentimentos...
- Nunca soube, jamais nos amou, apenas nos viu como herdeiros que fariam tudo que ele deseja. Mamãe, me perdoe - peço gentilmente. - Não quero falar sobre ele...
Somos interrompidos por minha doce e inocente irmã, lady Stefany, que desce as escadas saltitando e se joga em meus braços em sinal de alegria.
- Meu irmão, senti tanto a sua falta.
Embora meu pai nunca soube demonstrar carinho por mim ou por Nathan, quando minha irmã nasceu, ele a tornou sua preferida, fazendo todas suas vontades e a mimando em todos os sentidos, mas nunca senti ciúme disso, minha irmã não é como aquelas moças fúteis da corte, ela é doce, gentil e ingênua, mostrando toda a sua gentileza sempre.
Ela, algumas vezes, salvou a mim de levar uma surra sem nenhum motivo, apenas se colocando em minha frente, chorando e implorando para que meu pai não a magoasse. Mesmo a contragosto, meu pai fazia tudo por ela.
- Minha pequenina!
Desce de meu colo e se joga nos braços do meu irmão.
- Não sou tão pequenina assim! - diz alegremente.
Meu criado entra com dois pacotes de presente e posso ver os olhos de minha irmã brilharem.
- São para mim? - pergunta suavemente.
- Sim, é a última moda na França e confesso que é deslumbrante.
Ela corre até o criado, que coloca os pacotes no sofá e vai buscar os da minha mãe.
É fácil agradá-la, tudo para ela é lindo, até mesmo uma flor.
- É lindo, meu irmão! - diz retirando o vestido azul e o rodopiando preso ao corpo.
Abre em seguida o outro presente e é um lindo enfeite de cabelo em formato de borboleta.
- Para combinar com o vestido.
O suco é servido e começamos a contar o que fizemos nos últimos três meses, é claro, que alguns detalhes de como passava minhas noites é esquecido, há coisas que não devem dizer a uma dama.
Pouco tempo depois, o almoço é servido e nos sentamos à mesa, esperando nosso pai se juntar a nós.
Minha mãe detesta atrasos quando o assunto são as refeições, para ela é algo sagrado.
Quando ele entra na sala de jantar, noto que está sério, não nos dirige à palavra e comemos em silêncio, em uma completa e rara paz.
Minha mãe, sabendo do nosso retorno, mandou fazer vários pratos saborosos.
Nossas cozinheiras são perfeitas e têm as famosas mãos de fadas.
Pouco depois, a sobremesa é servida, e claro, mamãe pediu para fazerem aquele doce de chocolate que adoro.
Meu pai desaprova que uma mulher mime seus filhos homens, para ele é sinônimo de fraqueza, mas para mim é sinal de ser uma boa mãe.
- Já que estamos todos aqui, tenho uma decisão a compartilhar - diz meu pai seriamente e começa a olhar em demasia para mim, o que não é bom sinal. - Como sabem, nosso filho mais novo está enamorado de uma boa moça. O cortejo está acontecendo há algum tempo, mas não posso permitir sob qualquer hipótese que ele se case antes do meu primogênito.
Reviro os olhos, não acredito que ele fez isso, é jogo baixo.
- Meu pai, deixe meu irmão fora disso, a boa moça que ele logo pedirá a mão não merece sua arrogância.
Ele se levanta com raiva e repito o gesto. Meu pai esqueceu que não dependo mais dele e que ele só tem o luxo que está vivendo por minha causa e dedicação aos negócios da família.
-Não, pois isso servirá de incentivo para que se case, então farei um ultimato, tem o prazo de dois meses para me apresentar sua noiva ou será deserdado! - exclama sem ao menos ter consideração comigo.
Como ele pôde pensar em algo assim?
- Vai me deserdar?
Ele concorda.
- Sim, prefiro colocar as frotas nas mãos do seu irmão a ficar nas mãos do meu filho mais velho, que não está disposto a perpetuar sua linhagem como primogênito.
Reviro os olhos e volto a sentar na mesa, me servindo de suco, sei que poderia sobreviver muito bem sozinho com toda a fortuna que tenho guardada, mas ser um deserdado me faria cair em desgraça.
- Está me obrigando a casar? Isso mesmo que estou ouvindo? Está invertendo a posição que deveria caber à minha irmã? - pergunto sarcástico. - Ela sim você tem poder e direitos para obrigar tal situação, mas a mim? Não cabe a você decidir.
- Não caberia se já estivesse casado, tive notícias alarmantes sobre como meu filho passa suas noites e isso me fez repensar em como lhe criei.
Respiro fundo e encaro meu irmão que nega com a cabeça, sei que ele nunca me trairia.
- Quem contou ao senhor? - pergunto, curioso.
- Não direi - responde secamente.
- Está certo, irei demitir todos que trabalham para mim, neste caso.
Meu pai me encara irritado.
- Por que faria tal tolice?
- Não quer me dizer quem é o rato traidor, pois bem, todos pagarão pela traição de um, assim pensarão duas vezes antes de trair a confiança de quem os emprega. - Me levanto, pedindo licença para minha mãe apenas e antes que saia, ele me dá o nome.
- Nunca imaginei que fosse tão cruel - conclui.
- Creio que aprendi muito bem com o senhor. Sei que preciso de uma noiva ou você jogará todo meu trabalho de uma vida no lixo, apenas por um capricho seu. Saiba que no momento que ela disser sim, exigirei meu direito como primogênito e pedirei que saia desta casa.
Ele se levanta furioso.
- Não teria coragem...
Cruzo os braços e digo:
- O senhor mesmo é quem está pedindo por isso. Como disse, é o dever do primogênito arrumar uma boa moça, mas é meu direito também decidir quem permanece nesta casa ou não... - Me retiro da sala com sua voz exasperada me chamando.
Não paro, apenas caminho até a porta e saio.
Irei até os estábulos, selarei meu cavalo e esfriarei meus pensamentos, quando me dou por mim, percebo que meu irmão me segue.
Tenho um garanhão branco chamado Ruffus, não sei bem por que deixei minha doce irmã chamá-lo assim. Ele era indomável quando chegou aqui, mas o domei e, pela minha experiência, as noivas devem ser domadas se quisermos que se portem como noivas decentes.
- Irmão, não acha que está exagerando com nosso pai?
Nego balançando a cabeça.
O cavalariço prepara os cavalos e quando prontos, montamos e saímos para esfriar a cabeça.
- Acha que ele falou sério sobre você se casar, ou estarei impedido de pedir a mão de minha amada?
Respiro fundo e concordo.
- Acho, nosso pai não pensa na felicidade ou no que é bom para nós, apenas quer impor sua vontade sempre... - Suspiro, acariciando a crina do cavalo. - Como arrumarei uma noiva em dois meses? Como saber qual é a mulher certa para passar uma vida inteira juntos, sem ao menos conhecê-la o suficiente? - pergunto mais a mim mesmo do que para ele.
Sei que esposa é para a vida toda, mesmo que em nossa família o casamento arranjado sem conhecer os noivos seja algo normal. Com tantos lugares que conheci e tudo que vivenciei, sei que um casamento por conveniência raramente é feliz.
- Terá uma vida toda para fazer, irmão. Sei que achará uma boa moça, digna do título e das riquezas que nossa família possui. Mas confesso que foi duro demais com papai, ele, no fundo, está pensando no que falarão se me casar antes de você.
Isso é possível, mas nunca liguei para fofocas bobas, só que meu pai não gosta quando fofocas viram escândalos.
- Talvez, mas agora ele sabe com quem está lidando. Não sou mais o menino assustado que ele batia para ensinar qualquer lição.
Meu irmão apenas assente.
Paro o cavalo em frente ao lago, desço e meu irmão repete o gesto.
- Irmão, tenho uma possível solução. Poderíamos começar um rumor pequeno que está em busca de uma esposa, depois poderíamos dar alguns bailes grandiosos e luxuosos para que possa escolher.
Ele pode estar certo, os pais fariam de tudo para que as filhas com boa instrução, graça e beleza viessem e talvez fosse fácil escolher uma noiva.
- Talvez tenha razão, meu irmão, mas serão muitas moças para conhecer em uma noite apenas. Faremos um baile na quarta e outro no sábado, aí veremos quais são as moças que conhecerei e quais dispensarei educadamente.
Sei que várias moças fariam tudo para fisgar um homem na minha posição, mas conheço bem as mulheres e quero uma que seja perfeita para estar ao meu lado e saiba seu lugar.
- Para sua sorte, meu irmão, é a temporada social e muitas moças estarão no mercado matrimonial procurando um bom partido - diz como se fosse a tarefa mais fácil, acredito que seja ele já encontrou a moça certa para ele e que ainda não conhecia.
- Os primeiros serão no Almack's, mas o último faço questão que seja em nossa casa. Acredito que a escolha será cessada no último dia, para corroer meu pai em um martírio interno.
Começamos a rir, nunca me imaginei caçando uma noiva, sempre imaginei que quando chegasse a hora, a conheceria casualmente, pediria sua mão e seu pai a cederia, mas no fim nem para um homem nem para uma mulher há escolha.
- Irei falar com minha amada, ela deve saber como chegar até a pessoa que escreve os panfletos e fazer uma pequena fofoca sobre como o poderoso marquês está procurando uma noiva.
Começo a rir da forma como ele diz.
- Vamos sentar aqui e olhar o lago, talvez a serenidade do lugar me acalme. Odeio quando papai tenta mandar na minha vida e o pior é ele conseguir.
Nós nos sentamos sob a sombra da árvore, logo Nathan irá à cidade conversar com sua amada e contar sobre a novidade. As más línguas logo estarão sabendo e a pessoa responsável pelos panfletos criará uma pequena nota avisando a todas as solteiras o que procuro. Porém ainda não sei o que busco em uma noiva, preciso me sentar e pensar nas qualidades que devo exigir para que a moça seja escolhida.
REBECCA
Sou a mais velha de cinco irmãs, meu pai desistiu de ter um menino e "aceitou" a sina da sua família de descendência feminina, porque, segundo ele, minha mãe poderia não suportar mais uma gravidez e ele não saberia criar cinco filhas nos padrões ingleses, não tão bem quanto ela.
Adoro passear ao ar livre com minhas irmãs, já nossa mãe prefere ir à cidade atrás da última moda, porque, segundo ela, é um requisito para os eventos.
Gosto muito de ler livros, eles me completam e tornam meu dia menos entediante, já que mamãe só fala sobre os bailes que temos que frequentar, onde podemos conhecer muitas pessoas e nos divertir.
Com apenas sete anos, comecei junto com minhas irmãs, Mirella e Elaine, a sermos educadas para nos tornar boas moças de família e futuras esposas exemplares.
A cada ano, nossa mãe trazia tutores distintos para ocupar nossa mente e não sermos corrompidas por algumas mulheres que poderiam serem consideradas com "distúrbio de ansiedade".
Tais moças eram esquecidas pela família e amigos ou tratadas com medicamentos e psicanálise.
Ter pensamentos que não cabem às mulheres, é malvisto pela sociedade, mas não por mim.
Com o tempo, nossas irmãs também começaram a ser ensinadas.
Minha mãe acreditava que boas moças precisavam possuir qualidades quando começássemos a frequentar a sociedade, os bailes casamenteiros, por assim dizer. Ela era rígida e nos obrigava a estudar música, canto, desenho, dança e línguas modernas a fim de corresponder às expectativas da sociedade e dos homens com bons rendimentos anuais, para obtermos um casamento vantajoso. Além disso, todos os dias nossa governanta nos testava, a fim de treinar o tom da voz, para ver como estávamos nos expressando.
As moças deveriam ser apresentadas primeiro à rainha Vitória depois os pais precisavam organizar um baile em suas residências para "apresentar" suas filhas à sociedade.
Meu pai é um dos membros da Câmara dos Lordes e isso rendeu a ele um grande prestígio, aumentou sua riqueza consideravelmente, aumentando como consequência nossos dotes.
Nossa família possui uma propriedade rural apenas por status diante da nobreza inglesa.
Minha mãe sempre diz que um homem deve prover tudo para o seu lar, por isso, ela releva os casos que meu pai tem fora do casamento. Eu não aceito isso, mesmo sendo meu pai, deveria ser fiel unicamente à minha mãe, por isso não quero um casamento arranjado.
Estamos na primavera e o começo da temporada social está em alta. Será meu primeiro ano na temporada inglesa, voltei há menos de um mês da França, após um longo período de estudo com meus avós maternos.
Junto com minhas outras duas irmãs, Mirella e Elaine, fomos apresentadas à rainha e esta semana seremos apresentadas à sociedade, mesmo que Mirella não precise mais, pois conheceu um rapaz e estão apaixonados.
Nem todas as moças têm esse luxo de encontrar um pretendente rico e apaixonado que não vejam as mulheres apenas como procriadoras e cuidadoras do lar.
Estou perdida em minha leitura quando minha irmã entra em meu quarto sem bater e tranca a porta.
- Rebecca, não acredita quem veio me ver.
Olho por cima do livro e pergunto:
- Se não me contar, não saberei mesmo.
Ela sorri e se joga na cama se juntando a mim.
- Meu marquês veio me ver! - Suspira, apaixonada.
- Se nossa mãe descobre que se encontrou com sir Nathan, a senhorita estará perdida, assim como ele. Quer que sua reputação seja arruinada?
Ela nega balançando a cabeça.
- Foi muito rápido, irmã. Ele só veio me contar as novidades, não fale como a nossa mãe, por favor - pede quase como uma súplica.
- Nunca contaria a ela, mas ele não estava viajando? - pergunto curiosa e depois concluo: - Aliás, me conte que estou curiosa, pois deve ser algo muito importante para ele se arriscar a essa hora do dia.
- Sim, estava, mas parece que o pai dele os fez retornar mais cedo e intimou o irmão a achar uma noiva, algo que ele fará nos bailes. Minha irmã, dizem que ele é lindo e muito rico - diz animada.
- O que ele tem de rico e beleza, tem também de libertinagem, dizem as más línguas que ele tem inúmeras mulheres em suas viagens.
Todas comentam sobre ele e não só aqui, mas na França também e tenho pena da escolhida.
- Meu marquês diz que é tudo boato maldoso, que o irmão não é o que dizem.
Olho curiosa para ela e nem sei se minha irmã acredita nisso.
- Minha irmã, sabe bem que as fofocas, em sua maioria, são verdadeiras, mas falemos de assuntos verdadeiramente importantes. - Fecho o livro e coloco na cabeceira. - Quando ele virá finalmente pedir vossa mão? - Noto que ela desvia o olhar e não quero que ela se prenda a um amor que não firma compromisso sério.
- Aí está a má notícia, irmã, ele não pode, a menos que seu irmão ache uma noiva ou o pai dele irá deserdar o senhor Richard e com a reputação manchada... Você sabe o que isso significa, não sabe?
Respiro fundo e noto que ela não está preocupada de fato.
- Sinto muito, irmã, se isso acontecer seria um grande erro contrair matrimônio com sir Nathan.
Ela concorda balançando a cabeça.
- Sei, irmã, mas como qualquer pai dará tudo de si para que a filha seja escolhida, eu nem me preocupo.
A família de sir Nathan é muito poderosa e rica, as mulheres fariam de tudo para serem a escolhida.
- Acredito, irmã, mas por que ele veio te contar isso?
Ela morde o lábio e sei que está aprontando algo.
- Porque ele me pediu que contasse para algumas amigas, que contarão a outras e finalmente chegará aos ouvidos de quem escreve os panfletos. Isso fará com que ele seja alvo de todas as famílias que desejam um bom casamento.
Eu me sento na cama ficando ao seu lado, se isso chegar aos ouvidos de minha mãe, ela nos fará futuras pretendentes.
- Sim, ele está certo. Se contarmos para as mais fofoqueiras, com certeza, amanhã mesmo toda Inglaterra saberá que um dos solteiros mais cobiçados busca uma noiva.
Começamos a rir e ela segura minhas mãos.
- Se ele te escolher, nunca mais nos separaríamos. - Me olha ansiosa por minha resposta.
- Minha irmã, ele deve ter todas as mulheres aos seus pés. No primeiro baile já a terá escolhido e não tenho o menor desejo dele me notar.
Ela fica triste com minha resposta.
- Mirella, você sabe o que idealizo de um matrimônio, embora nem o deseje. Sendo bem sincera, que minha mãe não ouça, o senhor Richard não está qualificado para que me interesse por ele.
- Bom, vai que ao se conhecerem, ele a faz mudar de ideia. - Ela parece sonhar.
Mirella sempre foi a mais doce e sonhadora, já eu sou a racional, embora na frente dos outros precise parecer inocente e desconhecedora de assuntos que me tornem mais inteligente que os homens.
- Nem falarei nada. - Me levanto da cama sendo seguida por ela. - Vamos falar de assuntos mais importantes, temos que chamar nossa irmã para a última prova do vestido. Nosso baile se aproxima e não é toda moça que recebe um voucher para poder participar dos bailes no Almack's, para nossa sorte, nosso pai conseguiu para nós três.
As mais afortunadas recebem tal convite, é raro sim, dizem que os bailes são deslumbrantes, mas nesses bailes as moças não sonham em conhecer o amor e sim sobre possíveis alianças ou até mesmo libertinagem.
- Mamãe irá nos acompanhar e sabe como ela é quando bebe.
Eu sei bem, ela nos faz passar vergonha porque perde a compostura e fala o que vem à mente, às vezes isso pode manchar a imagem da família, mas com a influência do meu pai, duvido que alguém ousaria escrever algo sobre os Évreux.
- Seu pretendente não liga para a nossa mãe ou já teria desistido de você.
Começamos a rir, abro a porta e acabamos descobrindo que Kelly e Louise estavam ouvindo atrás dela.
- Vocês sabem que é feio ouvir atrás da porta?
Elas começam a rir.
- Não seja chata, Becca! Vocês ficam fofocando e somos curiosas.
Reviro os olhos, Kelly sempre foi a mais ousada das duas.
- Trancamos porque vocês contam segredos para todo mundo.
Elas são as preferidas da mamãe e todos sabemos disso, pois passa a mão na cabeça delas demais.
- Qual a graça de ter segredos se não pode contar para todos? - diz Louise gargalhando.
- Não é graça, é confiança.
Elas olham uma para a outra e saem correndo, certamente vão contar tudo que ouviram e estaremos perdidas.
Corremos atrás das duas, descemos as escadas sem classe alguma e nossa mãe, infelizmente, nos pega fazendo o que ela odeia, parecendo meninos e não damas.
- Por que estão correndo pela casa?
Eu sei que elas iriam contar de um modo que sobraria para mim e Mirella, então resolvo dizer somente a parte que interessa a ela.
- Porque elas ouviram nossa conversa atrás da porta e queriam contar nossos segredos, antes de nós contarmos. - Estou me saindo muito bem, pois mamãe não gosta que ouçam atrás da porta.
- Não acredito, meninas! De novo esse comportamento indigno de uma dama?
Elas fazem cara de anjos arrependidos e não sei como mamãe ainda cai.
- Uma amiga contou para Mirella que o marquês Richard está no condado à procura de uma noiva e estará nos bailes exclusivamente para formar uma boa aliança.
Qualquer coisa que elas contariam não é mais importante que a chance da nossa mãe apresentar as filhas.
- Meninas, por que não falaram logo comigo? Temos que fazer algumas mudanças nos vestidos de vocês e comprar novos adornos, porque um homem na posição de sir Richard pode escolher uma das minhas lindas meninas.
Forço um sorriso.
Mamãe nos deixará maluca com essa ideia de que uma de nós será a escolhida.
- Mamãe, podemos ir também ao baile? - pergunta Kelly.
- Ainda não, minhas princesinhas, vocês sabem que este ano é das suas irmãs mais velhas e em dois anos será a vez de vocês. Precisam aprender mais algumas coisas e viver um tempo com sua avó para se tornarem as melhores pretendentes na temporada da corte.
Mamãe se orgulha disso, ela veio ainda muito nova para a Corte, para ser dama de companhia da rainha e nosso pai viu nela uma boa moça, que se tornaria uma boa esposa e mãe.
- Podemos ao menos comprar algum adorno? - pergunta esperançosa, certamente se fôssemos nós, a resposta seria não.
- Claro, iremos todas à cidade e escolheremos algo magnífico para as minhas meninas.
Minha mãe nos faz correr para nos arrumarmos, não sei ao certo se a pressa é para ver nossas vestes ou procurar algumas amigas para fofocar sobre o que acabou de descobrir.
Puxo Mirella pelo braço e a faço andar depressa ao meu quarto. Ela precisa achar uma maneira de contar para as outras moças antes que mamãe descubra que ninguém mais sabe disso e sabemos bem que fará essa fofoca chegar a todos os ouvidos.
Temos uma amiga querida que é nossa vizinha, ela adora uma boa fofoca e sabe contar para as pessoas certas, além disso, ela irá participar conosco da temporada.
Arrumo o cabelo, coloco o bonnet da mesma cor do vestido verde-musgo e algo discreto adornando o pescoço.
Todas nós possuímos um pingente da cor que mais gostamos e sempre que vamos à cidade devemos ostentá-lo.
Enquanto distraio nossa mãe, Mirella chama nossa amiga para nos acompanhar e aproveita para contar a fofoca, em breve todos saberão as novidades.
- Onde está sua irmã? - pergunta mamãe impaciente.
- Ela foi chamar a Evelyn para nos acompanhar...
Mamãe não aprova nossa amizade, segundo ela, embora a família de Evelyn seja rica, ela já passou da hora de se casar, e se não arrumar um marido nesta temporada, será enviada a um convento ou será arranjado um casamento com um primo, tudo para salvá-la de uma ruína aparente se o pai falecer antes dela se ajeitar.
- Ainda não sei como perdem tempo com ela... - Mamãe se cala assim que a vê entrar.
Para mim, minha amiga é bela e amável e não entendo por que nenhum homem a pediu em casamento ainda. Sem contar a riqueza que o marido herdará por ela ser filha única, devem ser todos tolos.
- Rebecca, minha amiga!
Adianto-me e nos cumprimentamos, somos amigas e confidentes, uma sabe tudo da outra.
- Eve, querida.
Mamãe chama nossa atenção batendo o leque na mesa.
- Meninas, fofoquem depois, agora vamos que a carruagem nos aguarda. - Ela se adianta para que a sigamos.
Embora muitas moças adorem tirar medidas para roupas novas, pois devem estar por dentro das novidades da moda, eu prefiro uma biblioteca para poder escolher minha próxima leitura.
- E você, Rebecca, nem ouse sair das minhas vistas e se enfurnar naquela biblioteca. Quando se casar, irá perceber que não terá mais tempo para esses livros bobos.
Não adianta discutir com mamãe, ela nunca entende esse meu gosto, mas se um homem me proibir de ler, jamais o aceitarei como meu marido.
- Sim, mamãe - concordo, mas todas sabem que darei um jeito de escapar das vistas dela. Sussurro para Mirella, Elaine e Evelyn: - Irão me ajudar a sair sem ser vista?
Elas sorriem e concordam.
- Claro, amiga, aproveite e traga um romance para mim.
Minha amiga sonha com um príncipe encantado que os livros tanto retratam e não adianta falar que eles nunca virão.
- O que eu faria sem vocês?
- Estaria perdida, minha irmã - Mirella diz.
Rimos, subimos na carruagem e entrelaçamos nossos braços.
- Já soube da novidade, senhorita Dankworth?
- Qual, lady Rose? - pergunta curiosa.
- Sobre o mais novo solteiro em busca de uma noiva - mamãe diz empolgada e Evelyn sorri feliz, pois adora quando sabe das fofocas.
- Sei sim, marquês Richard é um dos homens mais ricos de todo o condado, a moça que for escolhida por ele nunca mais precisará se preocupar com nada.
Sir Richard tem um rendimento bem alto.
- Sim, seria o sonho de qualquer mãe. - Dá um gritinho alegre e seguramos o riso. - A parte ruim é que ele vive viajando, quase nunca para em casa.
Algo que nem é de todo o mal, ainda mais se o casamento for de conveniência e indesejado pela dama.
- Isso será compensado pelo conforto que a moça escolhida receberá - mamãe diz.
Eu, particularmente, nunca o vi, nem sei como são suas feições, mas como dizem, quanto mais rico se é e tanto tempo leva para resolver se casar, deve ser feio ou algo do gênero.
O caminho até a cidade não é longo, precisamos fazer com que Evelyn conte às moças o mais rápido possível antes da intervenção de minha mãe e nem temos privacidade para discutir sobre o que faremos, então resolvo fingir interesse em meu vestido, sendo assim, vamos vê-lo, e depois veremos as amigas de minha mãe.